JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A juventude dos vinte e poucos anos

Dia 30 de abril de 1943. Minha Avó, parteira leiga e improvisada de última hora, anos depois, me contou, que, “ainda era madrugadinha, e, assim que o galo cantou acordando todos, e dando boas-vindas ao mundo”, acabou o sofrimento físico de Jordina. O menino chegou!

A água “amornada na chaleira” e despejada na bacia recebeu umas gotas de Anasseptol para lavar o cabra, retirando o sangue da placenta – para enrolar na fralda de pano de saco de açúcar escaldado fazias dias, e levar à primeira mamada do esfomeado.

Hoje, 30 de abril de 2024, faz exatamente 66 anos que Raimunda Buretama (Avó) me contou essa performance, entre risos e lágrimas. Mas, a graça divina da lucidez aos 81 anos, ainda me leva às lágrimas ao relembrar a contação, num momento – entre tantos – de cafunés.

O dia clareou. Sem charutos ou qualquer bebida, o café com batata doce cozida, coalhada, beiju, cuscuz de milho, café torrado, moído e pilado em casa, faziam o banquete de boas-vindas para o bruguelo.

No quintal, o galo alvissareiro abaixava as galinhas, como a dizer quais as candidatas ao almoço daquele dia.

Sim, entendi eu, anos depois, aquela era a abaixada de despedida. No chiqueiro, como se fora uma orquestra de percussão, os chocalhos dependurados nas cabras e bodes entoavam a linha melódica do, “até que enfim”!

O tempo passava e o menino, já solto pelo chão de barro batido, gatinhava, ao tempo que cascaviava paredes tentando comer barro. As primeiras palmadas nas mãos. Ali, nascia a luz do caminho apontado para a seta que ensinava a retidão.

Os primeiros passos. A primeira calça-curta de suspensórios. A primeira baladeira e, na sequência da vida, as primeiras obrigações de um “morador da casa – quem come do meu pirão, se não fizer as obrigações, apanha do meu cinturão”. Selar os jumentos e caminhar três léguas na ida e três na volta, além das ferroadas das mutucas nas veredas estreitas.

A obrigação diária: carregar água do açude para os fazeres e quereres domésticos.

O banho no açude ou na bica feita na madeira sabiá, quando chovia. A premiação com nacos de rapadura, quando cumpria todas as obrigações com esmero e acerto. O banho na “boquinha da noite” e a preparação para ouvir as históricas estórias noturnas de Tio Biliu.

Enfim, a necessidade dos estudos. A despedida chorosa dos avós e a longa caminhada até a parada do ônibus na BR que, ainda hoje, leva à capital.

A volta nas férias e o reencontro com os patos, galinhas, capotes, perus e, claro com o galo alvissareiro, na verdade, o tetraneto dele; e com o cagador no buraco detrás da moita.

Na capital, a puberdade. Os estudos necessários. O curso primário e o exame de admissão, graças à Deus, pelo método Anísio Teixeira. O curso ginasial no Liceu do Ceará.

O sexo, pela primeira vez, no “motel calango”. A primeira namorada de “visitar diariamente a casa”. O curso científico, as primeiras “talagadas” da cachaça Sapupara e a meia garrafa do Ron Montilla. Aquela que carregávamos no bolso traseiro das calças. A adolescência. O serviço militar obrigatório – eu que assim entendi.

1961 e a primeira bifurcação da vida, sem que a decisão tenha sido minha. Aos 18 anos, a aprovação para a ESA (Escola de Sargentos das Armas), em Três Corações. Aprovação geral (pedagógico, saúde, físico e psicológico) e o aguardo do chamado. Entre os 40 aprovados do Ceará, 30 foram chamados. Fiquei entre os 10 que aguardam até hoje.

Pela primeira vez, com a experiência e lucidez atual, se em 1961 a bifurcação tivesse me levado para Três Corações, a certeza de que hoje, não estaria aqui nem teria aprendido tudo que de diferente aprendi até hoje. Deus é bom e justo.

Tivesse ido à ESA, na volta como Sargento no final do ano, o caminho mais lógico seria o casamento com a primeira namorada. Uma nova e diferente família. A certeza de que hoje não estaria aqui, escrevendo essas memórias.

Repito: Deus é justo e tem o comando.

O serviço militar no CPOR. O trabalho na Western e os primeiros envolvimentos com a política, via sindicato. O fim do namoro com a primeira namorada. Os holofotes de 1964.

A mudança para o Rio de Janeiro. O trabalho, inicialmente como metalúrgico e a decepção do início. A mudança de rumo pelo experimento da decepção. A faculdade e o curso de Comunicação Social, Jornalismo. Paralelamente, Árbitro de Futebol Profissional nas federações cearense e carioca.

A vida no Rio e a necessidade do trabalho. O primeiro casamento e a primeira filha. A segunda filha. A separação do primeiro casamento 91973 – 1983). A vida de solteiro pós-separação.

Uma, duas, três, quatro namoradas. Um novo casamento, a mudança para São Luís e uma nova família (1987). O Jornalista atuante. Mais três filhos (duas moças e um rapaz: uma Jornalista, uma Enfermeira e um Nutricionista), com uma Assistente Social, Mestra e Doutora em Políticas Públicas. Agora aposentada.

A vida. A conscientização da proximidade da volta ao barro, para a consagração da vida eterna. A conscientização de que Deus é único e poderoso – a ponto de, hoje, 30 de abril de 2024, me manter lúcido para traçar essas linhas, e, ajoelhado me penitenciar em agradecimento.

A lucidez dos oitenta e um anos

Aos amigos do Jornal da Besta Fubana, ao Editor Bancário de Palmares e Ganhador Único da Roleta do Cu-Trancado – meus pedidos de desculpas pelo enchimento de saco que, certamente, nada lhes acrescentará. Vivo de enxugar gelo.

Em tempo, meus agradecimentos antes da passagem para Pasárgada. Lá, pelo menos eu terei um Rei como amigo.

26 pensou em “A CAMINHADA DA VIDA ANTES DE PASÁRGADA

  1. Parabéns pelo seu aniversário, querido escritor José Ramos! Muitos anos de vida, saúde física e mental, realizações e inspiração para continuar nos brindando com seus belíssimos textos, por muitos e muitos anos!
    Sua emocionante história de vida é um belo romance, gostoso de ler, e que nos coloca a par da sua garra, inteligência e de suas conquistas ao longo do tempo, consequência das lições recebidas de seus familiares, que fizeram de você este grande homem!

    Que Deus o ilumine cada vez mais, e lhe dê clarividência para continuar sua trajetória de grande escritor, que nos transmite tantas experiências de vida e semeia tanto amor!

    Grande abraço e um FELIZ ANIVERSÁRIO!

  2. Parabéns JOSÉ RAMOS, que Deus continue te iluminando e o mantenha o máximo possível entre nós, afinal, Pasárgada pode esperar e o Rei não tem pressa, ELE tem seu tempo. Hoje também seria o aniversário de meu irmão mais velho, mas como sempre afobado, já está em Pasárgada junto ao Rei. Felicidades ao grande escritor e conterrâneo.

    • Marcos, meu conterrâneo querido, que Deus continue nos guiando e mantendo nossa lucidez. Fico agradecido pela lembrança!

  3. ZéRamos, para matar a saudade de seus tempos em Fortaleza/CE, sugiro uma espiada no Facebook na página Fortaleza Antiga, vi uma foto que talvez você gostará de ver; “o último dia de funcionamento da Western Telegraf em Fortaleza após 100 anos em 1973, alem de fotos do Liceu, Barra do Ceará (antiga e atual), Beira Mar, Praia do Futuro, Iracema, Maguary, Praça do Ferreira é divertido e nostálgico.

  4. QUE MARAVILHA DE HISTORIA!
    Parabens, jovem escritor!
    O Sr. é ainda uma menino que guarda belissimas, outras nem tanto, recordações de um tempo dificil mas prazeiroso!
    É muito bom se espelhar em pessoas como o Senhor
    Sucesso sempre… e vida longa!!!

  5. Mestre José Ramos, que Deus lhe conceda muitos anos de vida gozando de boa saúde !
    Felicidades, hoje e sempre!!

  6. Caro mestre José Ramos.

    Meus parabéns pelos seus 81 anos, desejo que Deus em sua bondade lhe dê muitos outros 30 de abril.

    Nosso senhor dá tudo a todos em Seu devido tempo, mas só alguns possuem a sabedoria para reconhecer o seu quinhão e ser grato a Ele.

    Obrigado por me fazer recordar minha origem; que também gatinhei em chão de barro e fui orientado por quem era pequena de estudo mas gigante em moral e retidão.

    Peço a Deus que me permita chegar aos 81 com tua lucidez .

    Feliz aniversário.

    • Pablo, muito obrigado. Que Deus nos abençoe. Agora vc me fez lembrar de uma resposta dada por um idoso, ao ser perguntado por uma jovem Repórter: “Como se faz, para chegar aos 100 anos de vida”? E ele respondeu: “Ué… é só não morrer”!

  7. Parabéns Zé !
    Eu agora que fui entender a vantagem de assumir certas missões que parecem impossíveis de concluir. Se acabar o trabalho, já era.
    Vou em busca do meu iceberg, agora.
    Obrigado pela dica.

    • Laudeir, em verdade, você sempre soube disso….. os moinhos e os ventos estão todos por aí. Basta selar o cavalo, ganhar a parceria do Sancho e procurar. Até encontrá-lo!

  8. Uma saudação especial ao José Ramos pelos seus 81 anos!!!
    Muita saúde, paz, realizações, muitos anos de vida!!!
    Receba meus sinceros cumprimentos!!!

    • Assuero, querido Professor, que Deus nos proteja de todos e quaisquer males. Cada um tem sua missão na Terra. Cada um a cumpre como pode e entende. Obrigado.

  9. Parabéns nobre fubânico por mais uma primavera, Deus com sua infinita bondade estenda seus dias vidas com muita paz e saúde.

  10. José Ramos, 81 de liberdade de expressão, paz, saúde e alegria. Livre, leve e solto feito o galo no terreiro, cheio de galinha para comandar.

    O Destino nos dá o norte da vida. Nos guia para caminhos que jamais imaginávamos segui-los. O Destino é uma incógnita.

    Graças a ele – Destino – mestre Zé Ramos nos brinda com uma crônica memorável, cheia de lembranças idas e vividas.

    Parabéns pelos oitentinhas,

    Vida longa ao Rei!

  11. Caro Zé Ramos,
    Nós é que somos uns privilegiados em tê-lo aqui nesta gazeta escrota, contando suas histórias tão vívidas, vividas ontem, hoje e sempre.
    Parabéns, feliz aniversário com muita paz e saúde.
    E que você continue nos brindando com suas histórias por muitos e muitos anos.

  12. Pingback: O EDITOR BANCÁRIO NA ROLETA DE CU-TRANCADO | JORNAL DA BESTA FUBANA

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