Maria Raimunda Pereira da Silva, filha de Naname, descendente da tribo guarani dos índios Paiacus*.
O pai, nunca soubemos o nome, tampouco conhecemos. Mas, muito conhecida no povoado Queimadas como “Raimunda Buretama”.
Formada na Universidade Internacional da Vida e dos Bons Costumes, Raimunda Buretama era “mulher de cabelos nas ventas” – como ela mesma se definia. Não se acostumou guardando almoço para o jantar, e sempre se entendeu independente para dizer (e assumir as consequências) o que queria.
Naqueles tempos de 1930 (ela nasceu bem antes – pois afirmava ter enfrentado as agruras da seca de 1888, a “seca dos três oitos” como bem definia) para o início da década de 60, o tamanco, de fabrico artesanal, era, para muitos, o principal e único calçado. Usado por homens e mulheres, o tamanco livrava da terra quente por onde se andasse e da lama – que pouco existia.
Muitas vezes, o tamanco serviu também como “calçado de ir à missa” (era o melhor e o único que muitos tinham). Naquelas paragens, também conhecido como “chamató” – por conta do barulho que fazia quando batia no calcanhar.
“É mió previni qui remediar” – costumava falar Raimunda Buretama, quando pretendia aconselhar (discretamente) alguém que lhe procurasse para meizinhas indígenas ou conselhos pessoais.
Em muitas ocasiões, provavelmente por ser mulher destemida, Raimunda Buretama serviu de “parteira”. Parteira leiga, diga-se. Quase todos os netos, filhos de Maria e Jordina, foi ela quem “aparou”.
Um belo dia, quando Maria deu à luz ao décimo-quinto filho e o marido Antônio Luciano ainda estava na “flor da juventude” com seus 45 anos, ela, Raimunda, “literalmente determinou”: está na hora de amarrar os tamancos! Hoje a modernidade diz que: chega de filhos!
Vamos fazer a laqueadura. Sim, porque Raimunda Buretama tinha o hábito indígena de dormir em rede e, como o piso da casa era de barro batido, e, para não pisar em insetos ao levantar na escuridão da noite, tinha o costume de dormir calçada de tamancos. Costume estranho, mas que fazia sentido pela lógica daqueles tempos.
E sexo, amor, transa, cópula ou algo do gênero, naqueles tempos se fazia deitado e no local de dormir – hoje é que se faz em pé, dentro do carro, no pé do muro, escorado no poste, no mato.
Como dormir de tamancos amarrados, ninguém consegue “abrir as pernas”. Você pode ter preferência por sexo de todas as formas – é a seu gosto! – mas, du-vi-d-o-dó que consiga fazê-lo com as pernas fechadas!
“Amarrar os tamancos”, para Raimunda Buretama, que nunca fez um “ó” com uma quenga de coco, significava “parar de fazer menino”!
Quantos somos atualmente?
Já passamos da hora de “amarrar os tamancos”!
( * ) – O topônimo Pacajus tem origem na tribo Tapuia dos Jaracu, ou Paiacu, que habitava a região. Sua denominação original era Guarani, depois Missão dos Paiacu, Monte-Mor, Monte-Mor-o-velho, Guarani e, desde 1943, Pacajus. A região entre às margens do rio Choró e rio Acarape era habitada por índios como os Jenipapo, Kanyndé, Choró e Quesito. As origens de Pacajus, remontam ao início do século XVIII (provavelmente 1707), quando nestas terras foi instalada a Missão dos Paiacu. A instalação desta missão pelos jesuítas foi possível com a doação de uma légua de terras situadas nas margens do rio Choró, tendo como intermediário o desembargador Cristóvão Soares Reimão. Através da missão, depois sesmarias e ao redor da Igreja Velha (construída pelos índios no século XIX e que ainda existe) surgiu o núcleo urbano que hoje se chama Pacajus.) (Fonte: Wikipédia)
Hoje vamos passear pelo futebol. O futebol, que não está bem das pernas – por conta das administrações copiadas da política partidária nacional – mas continua sendo a principal diversão de um povo que sequer aprendeu a escolher seus dirigentes nas mais diferentes esferas.
Inicio pretendendo dizer que, é esse mesmo povo que, sacrificando a família, sustenta o futebol de inúmeras formas. Seja por conta do comércio induzido pela publicidade, seja por conta do pagamento (sacrificante) do valor dos ingressos dos jogos.
Intolerante que, num país que tem o salário mínimo que tem o Brasil, o ingresso para os jogos tenha o valor que tem, em detrimento ao que ganham os jogadores – que, diferentemente dos jogadores antigos, não jogam o futebol que seja condizente com seus salários. Mas, isso é assunto para outra postagem.
Ceará (alvinegro de Porangabuçu) reconquista vaga na elite
Sou torcedor alvinegro, e isso significa “ser anti-flamenguista”. Joguei amadoristicamente na juventude. A frustração psicológica me tirou de um provável profissionalismo, como jogador. Mas me manteve dentro do campo, como Árbitro – agora profissional, com início na FCD (Federação Cearense de Desportos), e, no Rio de Janeiro, na Federação Carioca de Futebol.
Saí do campo, mas me mantive nele, como Cronista Esportivo até me transformar definitivamente num ex-jogador amador, num ex-Árbitro profissional, e, finalmente, num ex-Cronista.
Torcedor (sem fanatismo) do Ceará, do Botafogo e do Santos, tenho motivos especiais para entender que, 2024 está sendo o ano da “Redenção alvinegra” – esperando que o Glorioso Botafogo de Futebol e Regatas atinja mais um título na tarde de hoje, quando enfrenta o São Paulo Futebol Clube no último jogo do Campeonato Brasileiro da Série A. O Botafogo será campeão com um simples empate diante do tricolor paulista.
Mas, falemos do Ceará Sporting Club.
A tremulante bandeira do Vovô alencarino
O ano de 2023 não foi bom. O clube enfrentou problemas por pressão da enorme torcida (a maior – numericamente falando – do Estado), o que culminou numa atitude digna de Robinson Castro, então presidente executivo, que resolveu deixar o comando e entrega-lo ao então vice. Eleito, o vice assumiu. Fruto da boa gestão e aceitação por parte da torcida, conduziu o time à reconquista do acesso para a elite brasileira, e isso lhe garantiu a reeleição como presidente.
O elenco montado não foi dos melhores, mas o comando técnico a cargo de Léo Condé acabou conseguiu chegar ao último jogo fora de casa, diante do Guarani/SP, dependendo de uma vitória. Não venceu, mas foi bafejado pela sorte, graças a uma vitória do Goiás contra o Novorizontino, esse concorrente direto do Ceará para o acesso. A vitória goiana contra o representante paulista garantiu a volta do Ceará à Série A no Campeonato Brasileiro de 2025.
Botafogo conquista o inédito título da Copa Libertadores
Há coisas que, realmente, “só acontecem com o Botafogo”. Eis que, por conta de várias administrações inexpressivas que conduziram o time que mais jogadores cedeu para a seleção brasileira, o Botafogo rondava e marcava presença no portão de entrada da falência. Mas, confirmando o dito popular (de coisas que só acontecem com o Botafogo), o clube de General Severiano foi transformado em SAF no ano de 2023.
Foi prejudicado por arbitragens facciosas, e, mesmo conseguindo a liderança com uma diferença de 14 pontos para o segundo colocado, acabou sendo derrotado por esquema impetrado a partir do VAR em conluio com arbitragens fraudulentas, confirmando que não é só na política que o Brasil vive mergulhado em corrupção. O assunto acabou gerando a criação de uma CPI – que, sabemos, vai terminar em pizza.
Disposto a virar a página negra, o americano John Textor (dono da SAF botafoguense) recompôs a direção executiva e essa conseguiu mudar muita coisa. Começou por reforçar o elenco, negociando jogadores e contratando outros. Contratou o treinador português Artur Jorge e o resultado foi o que culminou com a conquista inédita da Copa Libertadores de 2024 e poderá ser reforçada na tarde de hoje, com a provável conquista do Campeonato Brasileiro da Série A de 2024. Mas, o torcedor botafoguense sabe que, existem coisas que só acontecem com o Botafogo. Não vai comemorar antes do apito final do árbitro.
Bandeira do Botafogo brilhando no universo do futebol
No clube de General Severiano, destaques individuais para o proprietário da SAF, John Textor; o técnico português Artur Jorge e Comissão Técnica; os jogadores Marlon Freitas (capitão), Bastos, Alexander Barboza, Gregore, Savarino, Tiago Almada, Luiz Henrique e Igor Jesus. Destaque coletivo para a fanática torcida, que, sagrando-se campeã ou não, hoje fará uma festa no Estádio Nilton Santos, confirmando o ano de 2024 como sendo da “Redenção alvinegra”.
Santos volta para a elite com a conquista de campeão da Série B
Eu conheço Santos, o Santos e o Estádio Urbano Caldeira. Estive lá por várias vezes. O clube respirava futebol, Pelé, e ostenta o galardão de um dos melhores times de futebol de todos os tempos no planeta Terra. Faz pouco tempo perdeu Pelé, entrou em crises administrativas – mas continuou descobrindo craques para o futebol mundial – e, em 2023 acabou rebaixado para disputar o Campeonato Brasileiro da Série B em 2024.
Empacado entre o sim e o não, fez contratações pontuais para disputar a Série B. Entre essas contratações o técnico Carille, que deu um padrão de jogo próprio ao time e conquistou o acesso para a elite, com quatro rodadas antecipadas do final do campeonato.
O alvinegro praiano é mais um time da minha preferência que conquista e confirma o ano da “Redenção alvinegra”.
Bandeira santista desfraldada pontuando na elite do futebol brasileiro
Hoje vamos fazer uma viagem de volta ao tempo. A mim, essa prosa satisfaz. Acaricia, tal qual a audição de um “desafio” entre repentistas violeiros do Nordeste. É, finalmente, uma massagem no ego.
Você, mineiro ou não, gosta de comer “tutu” com todos aqueles ingredientes que acompanham?
E, aquela paçoca feita com carne seca ou charque, você já comeu e gostou?
Aquela farofa com torresmos pequenos para acompanhar qualquer bem-servida feijoada, você dispensa?
Mas, com certeza, quando era criança você nunca dispensou o “pirão de parida” que sua mãe comia no “resguardo” de mais um brugüelo!
Pois, saiba que, nada disso existiria sem a “farinha”.
Viajemos!
A maniva é o começo de tudo
O agricultor que provém a farofa, começa tudo pelo preparo da maniva. A maniva, para quem não sabe, é parte de uma haste (galho) do pé de mandioca. Cortada em vários pedaços, a haste vira maniva. Semeada em “covas” especiais – com o cuidado de ficar com o “olho” (broto) voltado para a luz solar – a maniva vai renascer num prazo máximo de 90/120 dias, mas o tubérculo estará pronto, completamente, num período de oito ou nove meses.
Nos dias atuais, a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) faz pesquisas intensas na procura de resultados que viabilizem um prazo menor, sem perder a qualidade do tubérculo – há pesquisas, também feitas pela instituição, quanto ao benefício e melhoramento a partir de irrigação do terreno.
Pois, colhido o tubérculo da mandioca, esse é transportado para a “Casa de Farinha”, onde existe toda uma estrutura para a “farinhada”. Começa pela limpeza (tirada da casca) da mandioca, que ainda é feita na maioria das “Casas de Farinha” por um processo manual antigo.
Mandioca sendo ralada no caititu
Retirada a casca, a mandioca é lavada e preparada para ser ralada no caititu – um equipamento muito antigo.
Quando a energia elétrica ainda não chegara nesses interiores dos municípios brasileiros, principalmente nas Casas de Farinha, o caititu era impulsionado pela “bolandeira”. A bolandeira (e ainda é em alguns lugares) é um equipamento “tocado” por um boi – andando em círculo, e, às vezes, “tangido” por um chicote ou apenas pelo barulho feito pelo “estalar” desse chicote.
Feita a ralação (também conhecida por “cevagem” em alguns lugares) a mandioca, agora transformada em massa, é colocada em sacos e levada para a prensagem – onde a massa da farinha é separada da goma (amido), ainda em estado líquido.
Concluída a prensagem e separada a massa da farinha da goma (amido), a massa é levada para ser peneirada, operação que retira pedaços inconvenientes que podem desqualificar a farinha.
A última etapa dessa “fabricação” de vários tipos e qualidades de farinha, é a torrefação. Feita na maioria das vezes e lugares pelo processo artesanal antigo, a farinha recebe “a cereja do bolo” sendo manuseada no forno por alguém com comprovada capacidade e experiência.
Massa de mandioca em estágio de prensagem
Esse “profissional” atua como um verdadeiro “Chef”, e cuida da quantidade adequada da lenha (madeira) queimando para aquecer o forno, também de formato artesanal e antigo – mas, no Maranhão, a farinha denominada de “farinha de puba”, conhecida como “farinha d´água” em outros lugares, já é “torrada” em tachos especialmente fabricados (sob encomendas) para esse fim.
A “farinha de puba” ou “farinha d´água” não passa pelo caititu nem pela prensagem. Ainda com a mandioca com casca é colocada em igarapés ou açudes de pequeno porte, onde permanece por alguns dias até “ficar no ponto” de ser retirada para o preparo dos processos seguintes.
Ao fundo o forno e o equipamento usado para mexer a farinha
Após alguns dias, com toda a mandioca daquela safra transformada em farinha, uma verdadeira festa é organizada, recebendo o nome de “farinhada”.
O pagamento dos trabalhadores é realizado e carícias são feitas com alguns litros de farinha sendo distribuídos, além de almoço composto por bodes, carneiros e até bois abatidos – além, claro, dos tradicionais beijus feitos com a massa da farinha.
Quando chegamos naquele bairro, vindos de uma temporada como “invasores” da orla marítima de Fortaleza – mais propriamente, Pirambu – dependíamos, todos, do minguado salário paterno. A cada dia a luz divina clareava nosso horizonte e, melhorávamos de vida e patamar.
Bairro Bela Vista, rua Viriato Ribeiro. Já não lembro mais o número da casa. Na verdade, parece que morávamos numa casa s/n (sem número).
Mas, convenhamos, sair de invasor da orla marítima, para pagador de aluguel com perspectivas de alimentação diária (mesmo que fosse uma só), era um avanço inimaginável. Em verdade, uma bênção de Deus.
Pois, naquela mesma rua fizemos amigos que perduram até hoje, século XXI, ano 2024. Mesmo com alguns interessados implantando e apostando firme na frutificação da semente da discórdia – como está acontecendo nos dias correntes neste país continental.
Um desses amigos era o “Chico da bodega”. Talvez a necessidade de sermos ajudados de alguma forma naqueles momentos, tenha servido para não observássemos que, na verdade, estávamos sendo roubados. Tal qual agora, quando aceitamos tudo e continuamos calados e coniventes.
Exemplo: quem de nós reclama troco na compra de um artigo publicado em placa no valor de R$ 5,97? Somos coniventes, ou não?
Assim era Chico. Quem realmente precisava levar para casa o “dicumê” da prole, nunca reclamava que aquele peso de 1Kg, se aferido fosse, só pesaria 0,800 gramas. Ao final do mês, quando a conta era paga, pagávamos 30Kg, mas havíamos consumido menos que 25 Kg.
Eis que, longe da Bela Vista, nas Queimadas, Pacatuba, Guaiúba, Chorozinho, 1litro (pouco usávamos o quilo), se fosse aferido, seria até mais que a medida.
Medida de 1 litro usada na roça
Pois, saibam os incrédulos e desavisados que, de 31 de março de 1964, a medida usada na roça era o litro e o peso de 1 Kg, se aferido fosse, talvez pesasse até mais.
Eis que mudamos de patamar (tal qual mudávamos de invasores da orla marítima do Pirambu, para uma casa de aluguel na Bela Vista), quando, em 1985, saímos da sexta prateleira da estante mundial (Itaipu binacional, Ponte Rio-Niterói, etc., etc., etc.), para ocuparmos quatro ou cinco prateleiras mais abaixo – sem que possamos protestar, sequer, que a mulher do Síndico manda mais que ele próprio, ou qualquer componente da Assembleia de Proprietários.
Há uma vaga esperança: que os moradores da outra rua, compadecidos – um até ofendido gratuitamente com um sonoro “foda-se” – com o nosso sofrimento ou com a visão de celeiro alimentador do mundo que somos, comprem a nossa briga e recuperem a nossa dignidade.
Se dependermos exclusivamente de nós, o recado dado pela primeira-dama para o morador da outra rua, vai cair muito bem para nós e nossas gerações (se vierem a existir, diante de tantos baitolas infestando este país continental. Não se tem conhecimento, ainda, de alguma gravidez anal).
O Chico roubou tanto dos fregueses, mas nada lhe serviu de travesseiro ao ser colocado no caixão e levado para a última e definitiva morada.
Quem sabe e tem certeza se, na hora para carregar o caixão dos opressores para a cremação – nesta Terra – vai aparecer alguém para segurar uma das alças?
Como se fora uma fotografia, ainda que envelhecida. De forma repetida, acontecia toda vez que o dia clareava. Fosse qual dia da semana fosse – sem excluir domingos e feriados.
Na roça, para quem “planta vida”, feriado ou descanso é coisa de tolo.
Sentado na ponta da calçada, como se aquele lugar lhe fosse cativo, a imagem do corpo pequeno e magro do Vovô João. Ali começava mais um dia para ele. Calçando as velhas botas, que ele (e apenas ele) chamava de “minhas botinas”.
Acostumou-se àquela atitude. Ainda que não fosse trabalhar na roça – mas tinha o hábito de fazer aquilo, ainda que fosse apenas ao quintal, jogar milho para as galinhas, ou jogar água no canteiro de coentro e cebolinhas. Não fazia muita coisa sem as velhas botas.
Passou a fazer aquilo desde quando, certo dia, viu-se picado por uma traiçoeira cascavel, cujo veneno quase o leva prematuramente ao buraco coberto com sete palmos de terra. Usava as botas, também, para se prevenir de possíveis cortes da lâmina da enxada.
Doía, e ao mesmo tempo servia de alento, ver Vovô calçar as velhas botas sem a proteção das meias – tinha apenas um par, tão velho e usado que já não tinha mais a parte do calcanhar nem a do dedão dos pés. Talvez por isso, preferia dizer de si para si mesmo, que “era mais mió, calçar minhas bichinhas sem essas meias véias furadas, que não seuvem de nada”!
Lembro como se fosse hoje. Vovô ganhou aquele par de botas de um antigo Sargento da Polícia Especial do Exército. Ganhou também uma boina e um cinto. Nunca usou a boina, pois essa lhe ficava folgada na cabeça, e o cinto preferiu usar como cilha no burro. Mas, as botas ganharam preferência e importância na vida de João.
Era calçando aquelas botas velhas, para ele macias como seda, que Vovô trabalhava a terra, semeando milho, feijão e arroz que compunham a mesa da família; era calçando aquelas velhas botas, que ordenhava as vacas e as cabras e aparava o leite para os queijos, as manteigas e os mingaus e papas das crianças.
Ah, como eram especiais para Vovô, aquelas velhas (mas macias) botas!
Eis que, assim sem mais nem menos (nós é que pensamos assim – mas sempre haverá um motivo para o fato), chegou a hora e o dia de Vovô voltar para o lugar de onde viera em missão. Vovô morreu, e com ele aquela imagem matinal de todos os dias, sentado na ponta da calçada, um corpo esguio calçando as velhas botas.
Não havia caixão para enterrar o corpo cansado de Vovô – homem simples e bom, que viveu todas as dificuldades pela e para a família, sua única riqueza além das velhas botas – ele foi conduzido para a última morada, numa rede e o corpo colocado no novo endereço com todo cuidado e respeito.
Em casa, Vovó abria mais uma das poucas vezes, o velho baú, onde guardara por anos e anos, o velho vestido do casamento, e, nele, com toda a terra e sem nenhuma limpeza, acondicionou como se fosse um valioso presente e troféu, o velho par de botas do Vovô.
Aurora boreal a esperança da manutenção da Fé em cada um de nós
“O significado da Aurora no contexto bíblico, mostra o nascer do sol e a luz vencendo a escuridão da noite. Isso significa um novo começo, *trazendo esperança* a cada dia”.
Nada acontece sem motivo. Aqui ou em outros lugares, ainda que não percebamos, os fatos se entrelaçam com as coisas que Deus nos proporciona. Pois, no último dia 6 de novembro, o mundo pôde observar num amanhecer dos EUA (Estados Unidos da América), uma “aurora boreal” encantadora, renovando a Fé das pessoas de bem. Foi confirmada a vitória e a volta ao poder do americano Donald Trump, no próximo dia 20 de janeiro de 2025.
O desenho positivo disso nos mostra a beleza da aurora deslumbrante, irrigando Fé e esperanças aos países que se posicionam contra o domínio escravagista do comunismo travestido de socialismo e igualdade.
E onde entra o Brasil nessa plataforma de visão beneficiada pela aurora boreal?
Ora, o simples fato da certeza que serão formadas barreiras práticas contra a ideologia comunista, já renova a nossa Fé. A continuidade de que mudanças práticas serão fortalecidas em prol do desenvolvimento humano, principalmente no Brasil – sem que isso signifique uma totalidade continental – define a escolha positiva na bifurcação do caminho a ser seguido.
Alguém lembra a esperança e a certeza transmitidas nos anos sessenta na letra de uma música cantada por Moacir Franco, que nos encaminhava para a Fé?
“Contigo aprendi Que a vida se renova a cada instante Contigo aprendi A conhecer o mundo, a ver adiante
Aprendi Numa semana contar mais de sete dias E ver maiores as pequenas alegrias E a crer nos outros, eu contigo aprendi Contigo aprendi
Que existe luz na noite mais escura Contigo aprendi Que em tudo existe um pouco de ternura”
Aurora boreal renovando a Fé a vida a cada instante
“É um termo oriundo do Latim. Aurora é uma claridade visível no céu antes do nascer do sol e que indica o começo do dia. No sentido figurado Aurora significa a infância, juventude, princípio da vida. Já na mitologia romana, Aurora é o nome da deusa do amanhecer, nome correspondente à deusa grega Eos”.
No Brasil, ainda efervescente com o resultado das eleições americanas, a esperança invadiu nossos lares com a notícia maravilhosa das mudanças positivas no Ensino Médio que tendem a serem aprovadas e rapidamente postas em prática. É, também, uma aurora boreal que pode ser observada pelas famílias que querem os filhos no caminho da certeza e da qualidade que um dia tivemos. E que, felizmente, a geração que hoje está entre 40 e 50 anos de idade foi premiada.
Com base, provavelmente, na teoria cognitiva do suíço Jean Piaget, nascido, vivido e desenvolvido numa cultura humana diametralmente oposta à miscigenada cultura brasileira, eis que a educação brasileira “jogou na lata do lixo” a teoria de Anísio Teixeira e pôs na nossa última “Arca de Noé” da educação tudo que defendia Paulo Freire.
Pois, a mudança se for aprovada e se estiver completa, com certeza terá o desenho e o tamanho de uma nova aurora boreal para a educação.
A aurora boreal que a escolha equivocada quer impor
“Claridade que precede, no horizonte, o nascer do sol; alvorada. Primeiro tempo de alguma coisa; primavera. Conjunto de países ou regiões do Oriente. Cor róseo-clara como a que antecede o alvorecer”.
Aqui jamais haverá espaço para a injustiça. Democraticamente abrindo uma larga vereda para o contraditório, podemos afirmar que, em meio e em posse dos espúrios, a aurora não é tão boreal, tampouco tão bela quanto a aurora boreal dos justos e corretos. Não há porvir. O futuro é dúbio e sombrio – e existe um alto percentual dizendo que jamais se concretizará.
Há horas que a saudade me faz sangrar. É um sangue incolor, salgado, esfumaçado, doído, como se extraído a fórceps. Dói demais!
É uma saudade danada!
Saudade de ti, de mim, de nós!
Saudade do que fui, sem querer ser. Saudade do que poderia ter sido, e não fui!
Saudade até de quando eu for!
Dói!
Saudade do vento, do amanhecer e do sol quente que me fazia suar e do suor que me fazia chorar, sentindo saudade de ti.
Dói muito!
Saudade daquela noite em que nos entregamos e das lágrimas que chorei por te perder no dia seguinte e por mais alguns dias!
Saudade do teu sorriso na manhã seguinte.
Saudade do ontem. Do hoje e do amanhã, que um dia será hoje e depois será ontem.
Saudade da menina que fui e da idosa que um dia serei.
Saudade de mim, de ti, de nós!
Dói e corta fundo!
Saudade das nuvens que eram minhas. E daquelas que eu não tinha!
Saudade dos caminhos, das trilhas, das veredas e das estradas por onde andamos de mãos entrelaçadas.
Saudade da minha infância. Da amarelinha, do bambolê, da minha saia rodada que facilitava nossas carícias, e das estórias construídas e contadas em castelos de ventos e de areia.
Saudade de tudo.
Do pôr do sol que víamos juntos, das rosas que me destes, dos beijos trocados e até de sentir ciúmes de ti. Parabéns saudade, pois estou com saudade de ti.
Saudade – (Pablo Neruda)
Saudade é amar Um passado Que ainda Não passou. É recusar Um presente Que nos machuca, É não ver O futuro Que nos convida.
Saudade do futuro. Saudade de tudo e até do que eu nunca vi.
Saudade da paz que eu quero ter e daquela que eu nunca tive.
“Maior que a alegria de sentir saudades do rincão, é a felicidade de saber que, um dia, descalço, se teve contato com o chão”. (JOR)
Vivem falando que, passear na roça, de férias ou não, é muito bom. Com certeza não é melhor que, nascer, crescer, viver e ser feliz na roça. Descalço, pisar no chão, tendo contato com a terra.
Raimunda Buretama, minha falecida Avó materna, que nunca passou sequer na porta de uma escola, mas teve a inteligência que Deus lhe deu, tinha a “audácia” de dizer que, “a gente precisa pisar no chão, para pegar as bactérias que nos defenderão de males maiores”.
Hoje, muitos anos depois do vaticínio de Vovó, eu tenho certeza disso. Pisando no chão, recebemos e transmitimos a áurea da liberdade, da existência e do contato físico, e, em troca recebemos a vida.
A cidade grande, asfaltada, com regras esdrúxulas que limitam a convivência e a liberdade pelas quais você tanto lutou, jamais te proporcionará o prazer de partir uma lata grande de querosene, fazendo dela um tacho para assar castanhas de caju. Jamais terás o prazer de sentar com uma pedrinha, quebrar e comer essas castanhas – terás que ir a um supermercado ou loja apropriada.
Assando castanhas de caju
Criança, de férias escolares ou não, passeando na roça terão apenas alguns dias de diversão e prazer que é o “pegar uma baladeira (ou estilingue) e um bornal com pedrinhas, e sair para caçar passarinhos – eu fiz isso, por pura necessidade de completar a comida diária”. Tinha até a alternativa de escolher as aves a serem abatidas. “Essa não. Aquela outra, também não”. Rolinhas e avoantes, sim. Eram as preferidas por serem bastantes “carnudas”.
Até aprendi, o cântico da rolinha “caldo-de-feijão” (fooogo-pagoou, fooogo-pagoou!), ou da conhecida rolinha “cascavel” por conta de ter as penas mariscadas feito a cobra.
Menino “caçando” de baladeira
Mas, a vida da criança e do adolescente nascido, criado e vivido na roça não se resume a esses “prazeres”. Além da convivência familiar e com a natureza, existem as amizades que, via de regra, continuarão até a eternidade. As “arengas” (ou rixas e ainda desentendimentos) fazem parte da convivência e, na maioria das vezes, das próprias brincadeiras.
Mas, nisso, existe um alto grau de felicidade construída no respeito mútuo e na humildade e hombridade da aproximação para as desculpas de ambos os lados. E isso, queiramos nós ou não, é parte da construção individual das pessoas.
Rolimã improvisado em pedaços de tábuas faz a alegria de cinco crianças
As peraltices são partes do contexto da vida infantil. Criança que não é peralta vai ter a doença moderna da depressão. É equívoco imaginar que, na roça, as crianças não fazem nada além de brincar. Elas têm suas obrigações individuais, sim. E aquele que não as cumpre, sabe que vai ser castigado, sim senhor. Não vai ser beneficiada com um novo celular nem com uma viagem para a Disneylândia. Vai, sim, passar uma semana de castigo, saindo só para buscar água no açude.
E desde sempre, é assim que avós bons ou maus constroem suas famílias: no bom caminho do respeito e da retidão nas atitudes. Sem concessão e sem mimimis.
Vovó dizia que, “o perdão a uma malinagem fora de hora, acostuma mal, gera desobediência e desrespeito aos mais velhos”.
A foto anexada a seguir, mostra um verdadeiro “pé de meninos”. São doze. Contei meticulosamente. Observei todos descalços, sem tatuagens e sem celulares – mas com sorrisos mais largos que a boca. É uma felicidade contagiante, tanto quanto o voar das aves em liberdade.
Árvore “pé-de-menino”
O botar o pé no chão é a “senha” da felicidade e a chave para usufruir da liberdade. O machucado possível, é na carne, e não na alma, ou no status quo. É, para os que ali moram, “formatar a concavidade dos pés” tão necessária para evitar problemas ortopédicos. Vai além do contrair bactérias, e ainda movimenta de forma lúdica e necessária as panturrilhas, o nosso segundo coração. E o que dizer do banho nu no açude?
Alguns dirão: mas em muitos (nem todos) banhos os corpos estão nus. Banhar nu no açude é uma terapia diferenciada. Aparentemente privilégio da infância, mas, se entrarmos no arquivo fotográfico das nossas memórias, encontraremos as figuras das nossas mães, nossas avós, e, até mesmo das nossas futuras e pretensas namoradas banhando de vestidos. Aqueles vestidos, molhados, acabam aderindo aos corpos e se tornam transparentes desnudando as mais belas virtudes corporais femininas.
Hoje quero enxugar meu gelo falando de Fé e de tradição. A Fé tem movido moinhos ao longo dos tempos – como o sermão de Moisés, ao descer com as tábuas dos Mandamentos e encontrar alguns seguidores que haviam acabado de atravessar o mar Vermelho em busca das terras prometidas (ato de Fé), adorando o bezerro de ouro (perda da Fé).
Pois, é essa Fé em algo ou em alguém, que garante a caminhada em sacrifício para Compostela ou, entre nós, para Aparecida, em São Paulo, ou ainda para Canindé, no Ceará. Essa, temos certeza, são “festas cristãs de muita Fé” na tentativa de cumprir alguma promessa feita.
Mas, aqui, neste momento, me proponho a dissertar sobre o profano – que mistura Fé e tradição com diversão.
Festa do Divino Espírito Santo
Altar-mor montado na Casa do Divino em Alcântara
Tudo começou muito antes de 1836, quando Alcântara foi, finalmente, elevada à categoria de cidade. Antes disso, passando pelos domínios dos franceses, holandeses e portugueses, a hoje cidade componente da Região Metropolitana de São Luís, tem população superior a 20 mil habitantes e se transformou um polo turístico.
Com área de 1.457,96 km2, considerada como cidade brasileira com o maior número de quilombos, Alcântara ocupou a região do golfão maranhense formada pelos rios Mearim, Turiaçu e Pindaré. Ainda tem relevância a formação da vegetação parte da floresta amazônica e uma imensidão de manguezais que insere a cidade numa área considerada de proteção ambiental das reentrâncias maranhenses.
Área considerada de muita importância para o turismo estadual é alcançada por um sistema de ferry-boats que realiza a travessia São Luís-Alcântara, cruzando a Baía de São Marcos, ligando a cidade de São Luís até o porto de Cujupe, em Alcântara, e encurtando a distância entre a capital e a Baixada Maranhense, transportando mais de 1,8 milhão de passageiros por ano.
Também é possível fazer a travessia em barcos menores e catamarãs, partindo do Cais da Praia Grande, na Rampa Campos Melo, no Centro de São Luís (próximo ao Palácio dos Leões), até o Porto de Jacaré–Terminal Hidroviário de Alcântara, em viagens em torno de 1 hora e 20 minutos, com partida conforme a variação da maré. Outra forma de acesso ao município, se dá pela MA-106.
Em Alcântara, há um Centro Espacial do qual são lançados os veículos lançadores de satélites no âmbito da Missão espacial completa brasileira. É o CLA – Centro de Lançamento de Alcântara. Na América Latina, o CLA é o único concorrente do Centro Espacial de Kourou situado na Guiana Francesa, mas, ao contrário deste, o centro espacial brasileiro não opera lançamentos constantes em razão de atrasos logísticos e tecnológicos.
Escolhida como Patrimônio Histórico Cultural Nacional, a cidade representa uma das principais riquezas culturais do estado. Apesar da decadência econômica do município a partir do final do século XIX, foi conservada parte de sua arquitetura colonial representada pelos inúmeros sobradões, casas mais baixas, igrejas, ruas estreitas e tortuosas e, principalmente, pelas inúmeras ruínas que demonstram o que foi essa cidade, que possibilita aos visitantes transportarem-se para uma época distante.
A Festa do Divino Espírito Santo no Maranhão é um dos muitos festejos que fazem parte da cultura popular do Maranhão, destacando-se como um dos mais importantes, por sua ampla difusão e pelo impacto que tem sobre a população. Hoje, existem dezenas de festas do Divino espalhadas por todo o Estado, levando adiante uma tradição viva e dinâmica, em que se destaca a beleza do repertório musical.
É realizada no mês de maio ou junho, terminando no Domingo de Pentecostes, sendo que desde o Sábado de Aleluia, os festeiros começam a se preparar para o grande dia em que o Imperador recepciona seus convidados com um almoço e farta mesa de doce.
Teve sua origem em Portugal, com a construção da Igreja do Espírito Santo em Alenquer, no século XIII, por ordem da rainha Dona Isabel, a festa chegou ao Brasil no século XVI com os colonizadores.
“Caixeiras do Divino” representam a tradição
Toda a festa do Divino gira em torno de um grupo de crianças, chamado império ou reinado. Essas crianças são vestidas com trajes de nobres e tratadas como tais durante os dias da festa, com todas as regalias. O império se estrutura de acordo com uma hierarquia no topo da qual estão o Imperador e a Imperatriz (ou Rei e Rainha), abaixo do qual ficam o Mordomo-Régio e a Mordoma-Régia, que por sua vez estão acima do Mordomo-Mor e da Mordoma-Mor. (OBS.: Algumas informações históricas extraídas do Wikipédia)
Festejo de São Raimundo Nonato dos Mulundus
Imagem representativa de São Raimundo Nonato
Vargem Grande é município do estado do Maranhão, com população que, segundo o IBGE seria superior a 60 mil habitantes. Pertencente num passado recente ao município de Itapecuru-Mirim, passou a Vila em 15 de maio de 1935 pelo decreto nº 832 e à categoria de cidade pelo Decreto-Lei Nº 45, de 29 de março de 1938, mas a formação política e jurídica do município de que é sede teve origem com a criação, em 1835.
Ainda uma pequena povoação, serviu de acampamento à Terceira Coluna, sob as ordens do major Feliciano Antônio Falcão, das tropas comandadas pelo coronel Luís Alves de Lima e Silva na repressão da Balaiada.
Antigo ponto de encontro das estradas de boiadas que vinham de Caxias e Itapecuru-Mirim, até hoje Vargem Grande, apesar de ser um grande centro de produção agrícola, demonstra sua forte vocação para pecuária. O município tem história, cultura e natureza.
Vaqueiro é personagem forte no festejo
Todo ano, a partir do dia 22 de agosto a Paróquia de São Sebastião, Santuário de São Raimundo Nonato dos Mulundus, em Vargem Grande – MA, realiza até o dia 31, o tradicional Festejo de São Raimundo Nonato dos Mulundus. São dez dias de festa com tema diferente a cada ano.
O festejo começa às 5 horas da manhã com o toque da alvorada, conduzida por Dona Nini, guardiã das liturgias da procissão de São Raimundo Nonato dos Mulundus.
Segundo a história, Raimundo Nonato era um homem fiel e temente a Deus, que ajudava todas as pessoas necessitadas de um pequeno povoado de Vargem Grande. No dia 31 de agosto de 1732, seu corpo foi encontrado com o pescoço quebrado ao pé de uma carnaubeira, com um doce aroma floral. Seu cadáver foi levado para ser velado, porém, dias depois, sumiu. Foi então que as pessoas começaram a crer que o corpo de Raimundo Nonato foi levado por Deus e que ele poderia interceder por suas preces.
Em 1832, aconteceu o primeiro festejo permitido pela Igreja Católica. De 1832 até 1954 os romeiros caminhavam até o povoado Mulundus, local da morte do Santo Vaqueiro, e de 1958 até os dias atuais é feita a procissão até o povoado Paulica, já conhecido por todos.
Segundo dados oficiais a cada ano cerca de 400 mil devotos de São Raimundo Nonato dos Mulundus chegam até a cidade durante o período do Festejo.
Festa da Juçara
“Maranhão, meu tesouro, meu torrão Fiz esta toada pra ti, Maranhão Terra do babaçu que a natureza cultiva Esta palmeira nativa é que me dá inspiração Na praia dos lençóis tem um touro encantado E o reinado do rei Sebastião Sereia canta na proa Na mata o guriatã Terra da pirunga doce E tem a gostosa pitombotã E todo ano, a grande festa da Juçara No mês de Outubro no Maracanã”
Alcione Nazaré
Açaí no Pará e juçara no Maranhão
Chegou o mês de outubro e, com ele, a Festa da Juçara, que nos dias atuais conta com o patrocínio do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secma), via Lei Estadual de Incentivo à Cultura. O evento, que está na sua 55ª edição, segue por duas semanas do mês de novembro.
Segundo a organização da festa, a expectativa é receber cerca de 10 mil pessoas por domingo, no horário entre 12h e 23h. Além do domingo, o Parque da Juçara no Maracanã funciona de segunda-feira a sábado, das 9h às 20h.
Fruto da juçara, juçara líquida, camarão salgado, farinha de puba e mandioquinha
A Festa da Juçara é um evento tradicional do estado, que já acontece há mais de meio século, e é um evento em que o público, além de degustar a juçara, prato típico, pode estar em contato direto com a natureza e presenciar grandes atrações culturais do nosso estado.
O chamariz da festa com certeza é a juçara, mas o Parque oferece atrativos para o público. As apresentações culturais serão realizadas na arena principal e na praça de alimentação, onde também são servidos os mais variados pratos de juçara.
O litro da juçara será comercializado a 20 reais para viagem; com açúcar e farinha, a 35 reais; e com camarão, 50 reais.
Nas várias e várias noites em conversas nas redes armadas na latada fronteiriça da casa, com o silêncio noturno sendo quebrado pelo ranger do armador da rede em balanço impulsionado pelo “tacar” do pé na parede, João Buretama, meu avô materno costumava nos levar a viagens reais que, de tão espetaculares, nos levavam a imaginar serem anedotas (na linguagem atual, “narrativas”).
Nascido em Uruburetama, pequeno município da costa norte marítima do Ceará, Vovô dizia ter sido chamado pelo encantamento de algo inusitado que acontecera em Timbaúba, povoado vizinho de Queimadas, onde quase todos nascemos. Ali, Vovô conheceu Vovó, e com ela gerou duas filhas (Maria, a tão famosa “Tia Maria” dissertada várias vezes nos meus textos; e Jordina, minha eterna e encantada rainha).
Pois, no balançar das redes, Vovô contava que chegara no lugar por volta de 1908, fisgado pelo inusitado: a queda, considerada milagrosa, de um “corisco”.
“Corisco: pedra de raio, pedra de trovão ou pedra de thor é o nome que em Portugal se dá aos instrumentos de pedra pré-históricos, principalmente bifaces, aos cristais de rocha muitas vezes encontrados nas raízes das árvores, às cunhas de ferro e aos meteoritos”.
Aquele acontecimento incomum mexeu com o Estado e o país. Muitos imaginaram o início do fim do mundo e o povo de lugares distantes não tomou conhecimento por que ainda não existiam a televisão para mostrar as imagens, nem o Repórter Esso tinha representante na mídia cearense.
O “corisco” era uma pedra gigantesca que, se adonando do lugar, virou serra e ficou conhecida como “Serra da Pedra Encantada”. Uma pedra só, e, por isso, sem árvores. Em dias de sol quente produzia um calor insuportável.
Vovô continuava “se balançando na rede armada na latada”, falando como se papagaio fosse. Contava que, durante anos, muitos tentaram subir aquela serra. Mas não encontravam apoio que garantisse o que hoje a modernidade chama de “escalada” e denomina os afoitos de “raper”.
Aos poucos o vento trouxe a poeira e o sereno noturno produziu limo. A ação da Natureza começou a mudar o “corisco” que ficou conhecido em definitivo como “Pedra Encantada”.
Descobriu-se, anos depois, que algumas aves procuravam as rachaduras que o tempo impôs a pedra para se acasalarem e reproduzirem sem o incômodo humano. Durante mais tantos anos, foi descoberto que, a preferência das aves pelo lugar onde se reproduziam, era por conta do reinado de uma águia, cuja espécie estava em extinção e resolvera escolher a Pedra Encantada como última morada. Ali, a águia era a rainha e as outras espécies se transformaram em súditos que voavam e voavam em busca de alimento para os filhotes e para a águia-rainha.
A águia que virou rainha da Serra da Pedra Encantada
Sem visitantes, a Serra da Pedra Encantada reinava absoluta na Timbaúba. Era, naquele tempo, a única atração “turística” do lugar, e alguns coronéis da época até contratavam fotógrafos lambe-lambe para fotografias que, nada mais eram que as atuais “selfies”!
Com o passar dos tempos, a sabedoria popular e os mestres do povoado concluíram que aquela era a maior atração do lugar. Resolveram construir cercas no pé da serra e espalharam a mentira de que todas as árvores que rodeavam a serra, também eram sagradas – ainda que nem a Diocese cearense ou o Vaticano tivessem produzido a famosa fumaça branca.
Mas, a atração maior estava por vir. E acabou chegando em meados dos anos da década de 30.
As aves que se reproduziam nas frestas da pedra e voavam de lugares distantes para trazer alimento para a águia-rainha, acabaram trazendo, também, algumas sementes como alimento para os filhotes. As sementes nem todas eram engolidas pelos filhotes. As que escapavam caíam entre as pedras e, ainda que chovesse muito pouco ou quase nada, acabavam se reproduzindo em flores.
Flores nascidas entre pedras
Eis que, o simples fato de que aquela pedra gigantesca era a principal “atração turística” da Timbaúba, embora não gerasse qualquer tipo de arrecadação que pudesse melhorar a infraestrutura do lugar, quem poderia afirmar com segurança que, no futuro, aquele simples povoado pudesse vir a ser mais um “Horizonte” para a economia e o turismo cearense?
Pois assim aconteceu: com a ajuda das aves que se reproduziam em períodos férteis naquela pedra, as sementes que escapavam de serem engolidas pelos filhotes se reproduziam. E, foi a partir desse momento que, da pedra encantada começaram a nascer flores. A pedra de onde nasciam flores. A notícia correu o Estado e o mundo, com Timbaúba ganhando, finalmente e de forma merecida, a ostentação de lugar que tinha o privilégio de ter a Serra da Pedra Encantada.
A floração vicejante da Pedra Encantada
Repentinamente o cântico de uma cigarra se fez ouvir por conta do silêncio reinante chamou a atenção – até por que não se ouvia mais o rangido do armador enferrujado produzido pelo balançar da rede.
Levantei e olhei Vovô dormindo feito um bebê. Concluí que aquela estória toda ele contara em sonho.