Par de tamancos usado pelas mulheres
Maria Raimunda Pereira da Silva, filha de Naname, descendente da tribo guarani dos índios Paiacus*.
O pai, nunca soubemos o nome, tampouco conhecemos. Mas, muito conhecida no povoado Queimadas como “Raimunda Buretama”.
Formada na Universidade Internacional da Vida e dos Bons Costumes, Raimunda Buretama era “mulher de cabelos nas ventas” – como ela mesma se definia. Não se acostumou guardando almoço para o jantar, e sempre se entendeu independente para dizer (e assumir as consequências) o que queria.
Naqueles tempos de 1930 (ela nasceu bem antes – pois afirmava ter enfrentado as agruras da seca de 1888, a “seca dos três oitos” como bem definia) para o início da década de 60, o tamanco, de fabrico artesanal, era, para muitos, o principal e único calçado. Usado por homens e mulheres, o tamanco livrava da terra quente por onde se andasse e da lama – que pouco existia.
Muitas vezes, o tamanco serviu também como “calçado de ir à missa” (era o melhor e o único que muitos tinham). Naquelas paragens, também conhecido como “chamató” – por conta do barulho que fazia quando batia no calcanhar.
“É mió previni qui remediar” – costumava falar Raimunda Buretama, quando pretendia aconselhar (discretamente) alguém que lhe procurasse para meizinhas indígenas ou conselhos pessoais.
Em muitas ocasiões, provavelmente por ser mulher destemida, Raimunda Buretama serviu de “parteira”. Parteira leiga, diga-se. Quase todos os netos, filhos de Maria e Jordina, foi ela quem “aparou”.
Um belo dia, quando Maria deu à luz ao décimo-quinto filho e o marido Antônio Luciano ainda estava na “flor da juventude” com seus 45 anos, ela, Raimunda, “literalmente determinou”: está na hora de amarrar os tamancos!
Hoje a modernidade diz que: chega de filhos!
Vamos fazer a laqueadura. Sim, porque Raimunda Buretama tinha o hábito indígena de dormir em rede e, como o piso da casa era de barro batido, e, para não pisar em insetos ao levantar na escuridão da noite, tinha o costume de dormir calçada de tamancos. Costume estranho, mas que fazia sentido pela lógica daqueles tempos.
E sexo, amor, transa, cópula ou algo do gênero, naqueles tempos se fazia deitado e no local de dormir – hoje é que se faz em pé, dentro do carro, no pé do muro, escorado no poste, no mato.
Como dormir de tamancos amarrados, ninguém consegue “abrir as pernas”. Você pode ter preferência por sexo de todas as formas – é a seu gosto! – mas, du-vi-d-o-dó que consiga fazê-lo com as pernas fechadas!
“Amarrar os tamancos”, para Raimunda Buretama, que nunca fez um “ó” com uma quenga de coco, significava “parar de fazer menino”!
Quantos somos atualmente?
Já passamos da hora de “amarrar os tamancos”!
( * ) – O topônimo Pacajus tem origem na tribo Tapuia dos Jaracu, ou Paiacu, que habitava a região. Sua denominação original era Guarani, depois Missão dos Paiacu, Monte-Mor, Monte-Mor-o-velho, Guarani e, desde 1943, Pacajus. A região entre às margens do rio Choró e rio Acarape era habitada por índios como os Jenipapo, Kanyndé, Choró e Quesito. As origens de Pacajus, remontam ao início do século XVIII (provavelmente 1707), quando nestas terras foi instalada a Missão dos Paiacu. A instalação desta missão pelos jesuítas foi possível com a doação de uma légua de terras situadas nas margens do rio Choró, tendo como intermediário o desembargador Cristóvão Soares Reimão. Através da missão, depois sesmarias e ao redor da Igreja Velha (construída pelos índios no século XIX e que ainda existe) surgiu o núcleo urbano que hoje se chama Pacajus.) (Fonte: Wikipédia)
