JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Miguel Arraes

Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15/12/1916, em Araripe, CE. Advogado, economista e político, foi deputado estadual e federal, secretário de estado, prefeito de Recife, teve três mandatos como governador de Pernambuco e presidiu o Partido Socialista Brasileiro no período 1999-2005.

Filho de Maria Benigna Arraes de Alencar e José Almino Alencar, concluiu o curso secundário no Colégio Diocesano, em 1932. No ano seguinte ingressou no curso de Direito da Faculdade Nacional no Rio de Janeiro e concluiu na Faculdade de Direito do Recife, em 1937. Passou a trabalhar no IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool, onde fez carreira até 1943 no cargo de delegado regional. Aí manteve contato com o presidente do IAA Barbosa Lima Sobrinho, que em 1947, quando tornou-se governador de Pernambuco, levou-o à vida pública no cargo de Secretário da Fazenda. Em 1950 foi candidato a deputado estadual, ficando na suplência e pouco depois assumiu o cargo. Em 1954, disputou de novo o cargo e foi eleito ocupando a liderança na oposição ao governo Cordeiro de Farias.

Em 1959, no governo Cid Sampaio, retornou à Secretaria da Fazenda e no ano seguinte foi eleito prefeito do Recife, apoiado pela Frente Popular. Em sua gestão foi criado o MCP-Movimento de Cultura Popular, com investimento em massa na cultura e na educação. Mobilizou artistas e entidades, realizando uma cruzada pela melhoria dos serviços públicos básicos. Em um ano abriu vagas nas escolas para 10 mil crianças, onde o déficit chegava a 100 mil. Em 1961 ficou viúvo de Célia de Souza Leão, com quem teve 8 filhos. Em seguida casou-se com Maria Madalena Fiúza, tendo mais 2 filhos. Em 1962 foi eleito governador de Pernambuco. Em sua gestão foi assinado o “Acordo do Campo”, visando a implantação de relações mais justas entre os canavieiros e usineiros. No ano seguinte foi lançado pré-candidato à presidente da República por várias lideranças do País, propondo um programa nacionalista e correção das desigualdades sociais.

Em abril de 1964, foi deposto do Governo pela ditadura militar instaurada pelo Golpe de Estado. Ficou preso por um ano na Ilha de Fernando de Noronha; seguiu para o Rio de Janeiro; pediu asilo na Embaixada da Argélia, onde ficou 14 anos ao lado da família, em Argel. Ficou conhecido em todo o mundo como político progressista que ajudou os movimentos de independência das colônias portuguesas na África e apoio na estruturação destas jovens nações.

No Tribunal Internacional Bertrand Russell, em 1974, denunciou a ditadura militar no Brasil, responsabilizando-a pela prisão, tortura e morte de muitos dos opositores e ampliação das condições de desigualdade social da população. Com a anistia, em 1979, retornou ao Brasil e foi recebido no Recife por cerca de 50 mil pessoas carregando-o no ombro e retomou sua vida política no PMDB-Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Diversas faixas traziam a inscrição “Arraes taí”.

Foi eleito deputado federal, em 1982, com a maior votação do estado e em 1986 foi eleito governador de Pernambuco pela 2ª vez. No ano seguinte foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do infante Dom Henrique de Portugal. Como governador, teve como foco corrigir as desigualdades sociais e iniciou o mais ambicioso programa de eletrificação rural no Estado. Implantou o sistema de microcrédito dirigido aos camponeses e periféricos, e dizia: “Nas regiões miseráveis do interior e da periferia do Recife, modernidade é um bico de luz aceso e uma torneira pingando água”. Ao mesmo tempo, criou a 2ª secretaria de Ciência e Tecnologia do País e a 2ª Fundação de Amparo à Pesquisa. Mobilizou esforços em favor da implantação de uma refinaria de petróleo no Estado e, em 1996, promoveu negociações com o governo da Venezuela, visando uma parceria binacional para viabilizar a planta de refino petrolífero no Estado.

Em 1990 foi eleito, novamente, deputado federal pelo PSB-Partido Socialista Brasileiro com a maior votação proporcional do País. Em 1994, foi eleito governador pela 3ª vez e ampliou o programa de eletrificação rural com a meta de implantar a rede de eletricidade em 150 mil domicílios rurais. Em 1998 perdeu a reeleição para o 4º mandato de governador e em seguida elegeu-se mais uma vez para a Câmara dos Deputados. Trata-se de um político popular, no trato com as pessoas. De certo modo era até sisudo e de poucas palavras. Seu estilo chegou a propiciar-lhe a alcunha de “Oráculo do Nordeste”, devido a concisão de seus pronunciamentos.

Para comprovar sua aversão ao populismo, traduziu para o português o livro A mistificação das massas pela propaganda política, de Serge Tchakhotine, publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1967. O livro foi censurado na França em 1939, queimado pelos nazistas em 1940 e reeditado em 1950. Hoje é um livro raro, que bem poderia ter sua edição em português reeditada. Além desta tradução, deixou mais de 10 livros publicados, com desataque para: A nova face da ditadura brasileira. Lisboa: Seara Nova, 1974; Le Brésil: Le peuple et le pouvoir. Paris: François Maspéro, 1970; O jogo do poder no Brasil. 2. ed. rev. São Paulo: Alfa-Ômega, 1982.

Faleceu em 13/8/2005 e deixou um considerável legado que pode ser avaliado no acervo do Instituto Miguel Arraes, criado em 2008 em Recife, que não se destina a ser uma espécie de museu do seu patrono. Foi concebido como “uma instituição sem fins lucrativos, atuante nas linhas e princípios defendidos por ele”. Em 2006 foi lançado o livro Arraes, de Teresa Rozowykwiat, a primeira biografia autorizada publicada pela CEPE-Companhia Editora de Pernambuco. Em fevereiro de 2016, Arraes foi homenageado no carnaval do Rio de Janeiro, pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel.

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AS BRASILEIRAS: Clarice Herzog

Clarice Ribeiro Chaves Herzog nasceu em 1941, em São Paulo, SP. Socióloga, pesquisadora, publicitária e professora. Ficou conhecida como esposa do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura militar em 1975. Manteve uma luta ferrenha para elucidar as circunstâncias do crime e conseguiu responsabilizar o Estado Brasileiro pela morte do marido.

Graduou-se em Ciências Sociais pela USP-Universidade de São Paulo, na década de 1960. Conheceu Vladimir Herzog, então estudante de Filosofia, em 1962 e casaram-se em fevereiro de 1964. Mudaram-se para Londres, onde nasceram seus filhos: Ivo e André. Em 1968, em plena ditadura militar, retornaram ao Brasil e Vlado seguiu trabalhando como jornalista e cineasta. Ela seguiu numa carreira bem-sucedida com pesquisas na área da publicidade.

Em 24/10/1975 seu marido foi prestar depoimento no II Exército e nunca mais foi visto vivo. Ela foi a primeira a romper o silêncio declarando “Mataram o Vlado”. Ficou viúva aos 34 anos e a partir daí travou uma luta ferrenha contra a mentira forjada pelo Exército que Vlado havia cometido suicídio. O Fato comoveu a sociedade e tornou-se na maior mobilização popular contra a ditadura. A missa de 7º dia na Catedral da Sé, uma missa ecumênica, conduzida pelo arcebispo Dom Evaristo Arns, reuniu mais de 10 mil pessoas lotando a igreja e a Praça da Sé, protestando e velando a morte de Vlado.

Em 1978, Clarice junto com os filhos publicaram o livro Caso Herzog: a sentença, pela editora Salamandra, com prefácio de Raimundo Faoro, expondo a íntegra do processo movido contra o Estado. A partir daí, tornou-se uma pessoa pública e indignada, passando a buscar a verdade, não obstante sofrer ameaças da repreensão. Dizia que “Não quero virar esta página. Quero imprimi-la na História”. No mesmo ano conseguiu uma sentença histórica que condenou o Estado, obrigando-o a indenizar a família pela morte do marido. Tal indenização só veio ocorrer em fevereiro de 2025, quando Clarice conta com 83 anos, sofre do mal de Alzeihmer e talvez não possa comemorar, a contento, sua vitória numa luta de vida inteira.

Em 2009, o caso foi levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA-Organização dos Estados Americanos com apoio do CEJIL-Centro pela Justiça e Direito Internacional. Com isso, abriu um precedente importante para todas as famílias de mortos e desaparecidos políticos. Ainda em 2009, foi criado o Instituto Vladimir Herzog com o objetivo de preservar a memória do jornalista e promover ações que atraiam a atenção da sociedade aos problemas sociais e econômicos do Brasil com ênfase nas consequências do golpe. Em 2013, 38 anos depois do crime, ela conseguiu a retificação do atestado de óbito, não mais como suicida, mas como vítima da violência do Estado brasileiro.

Os anos de luta de Clarice contra a mentira do regime militar foram destacados por Eneá Stutz, presidente da Comissão de Anistia como “uma luz que ilumina os erros que o país tem cometido diante da sua própria história. Ao ser tão determinada, ela ajudou o Brasil, um país que se acostumou ao esquecimento e à impunidade”. Há 45 anos vem sendo outorgado anualmente o “Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos”, que presta homenagem a jornalistas, repórteres fotográficos e artistas do traço que, por meio de seus trabalhos, defendem a democracia, a paz, a justiça e os direitos humanos.

Em abril de 2025 foi anunciado o filme sobre a trajetória de Clarice na mesma linha do filme Ainda estou aqui, evidenciando o papel das mulheres como protagonistas na luta para reestabelecer a verdade, a justiça e manter viva a memória. “Assim como o filme sobre Eunice Paiva não é exatamente sobre Rubens Paiva, o filme sobre Vladimir Herzog será, na verdade, sobre Clarice. Essas mulheres foram as grandes agentes da luta por justiça nos dois casos”, diz o release. O filme, recontando a última semana de Herzog e sua repercussão, com direção de Susanna Lira e roteiro de Ana Durães e Débora Mamber, começa a ser filmado em 2025 e deverá estar pronto até 2027. No momento encontra-se em fase de captação de recursos e produção.

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OS BRASILEIROS: Vladimir Herzog

Vladimir Herzog nasceu em 27/6/1937, em Osijek, Iugoslávia. Filósofo, jornalista, professor e dramaturgo. Assassinado pela ditadura militar, em 1975, tornou-se figura central no movimento de restauração da democracia no País. Apresentou-se voluntariamente no II Exército, em São Paulo, para prestar esclarecimentos sobre suas ligações com o PCB-Partido Comunista Brasileiro e foi encontrado pouco depois em sua cela num simulado suicídio por enforcamento.

Filho de Zora Wolner e Zigmund Herzog, uma família de origem judaica fugida da Alemanha nazista para a Itália e depois para o Brasil, após o termino da II Guerra Mundial. Formado em Filosofia pela USP-Universidade de São Paulo, em 1959, naturalizou-se brasileiro em 1961 e trabalhou em importantes jornais do Brasil e na BBC de Londres. Na década de 1970 foi professor de jornalismo na ECA-Escola de Comunicações e Artes da USP e dirigiu o departamento de telejornalismo da TV Cultura, de São Paulo. Foi também aficionado pela fotografia, cinema e teatro. Nesta época foi vinculado ao PCB e passou a atuar no movimento de resistência contra a ditadura militar.

Em 1974, o general Ernesto Geisel assumiu o governo com o propósito de manter a “distenção”, com um discurso de abertura política. Tal política não encontrava respaldo no II Exército, em São Paulo, comandado pelo General Ednardo D’Ávila Mello. Segundo ele, os comunistas estavam infiltrados no governo do Estado, chefiado por Paulo Egydio Martins, criando certa tensão entre ambos. O general linha dura intensificou a repreensão política e o CIE-Centro de Informações do Exército centrou uma ofensiva contra PCB, do qual Herzog era afiliado, mas não desenvolvia atividades clandestinas.

Seu amigo, o jornalista Paulo Markun, chegou a informá-lo que seria preso, mas ele não se sentiu intimidado. Em 24/10/1975, foi convocado pelo Exército para depor sobre suas ligações com o PCB. Negou qualquer ligação com o Partido, mas ficou preso com mais dois jornalistas: Duque Estrada e Rodolfo Konder. Estes jornalistas foram encaminhados para um corredor, de onde ouviram a ordem para trazer a máquina de choques elétricos. Em seguida Konder foi obrigado a assinar um documento, onde afirmava ter aliciado Vladimir para se afiliar ao PCB. Pouco depois, Konder também foi levado à tortura e a partir daí Vladimir não foi mais visto com vida. No dia seguinte, o SNI-Serviço Nacional de Informações, em Brasília, recebeu uma mensagem constando que naquele dia “cerca de 15h, o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se no DOI/CODI do II Exército”. Segundo o jornalista Elio Gaspari, “no porão da ditadura os ‘suicídios’ tornaram-se comuns”.

Era um jornalista conhecido do público e sua morte causou certa comoção social. Em 31/10/1975 foi realizado um ato ecumênico na Catedral da Sé, conduzido por Dom Evaristo Arns, reunindo milhares de pessoas, em sua homenagem e protesto pelo assassinato. A catedral não comportou tanta gente lotando a Praça da Sé. Entre as pessoas, figuravam políticos, artistas e intelectuais, como o filósofo francês Michel Foucault, cujas aulas na FFCCH da USP tiveram que ser interrompidas. Depois do AI-5, em 1968, foi a primeira grande manifestação de protesto da sociedade civil contra a ditadura militar. A Praça da Sé foi tomada por policiais, seus cavalos e cachorros até as escadarias da Catedral.

Apesar desse aparato repreensivo a missa ocorreu tranquila até o final com cerca de 8 mil pessoas em seu interior e milhares nas escadarias e na Praça. Ao final, carros sem placa atiraram bombas de gás lacrimogênio contra os participantes. A indignação geral contra a ditadura ficou marcada também no seu túmulo e grafado na lápide: “Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados”. A indignação mobilizou muitos artistas a manterem o protesto e registrá-lo, tal como Gianfrancesco Guarnieri, em 1976, quando escreveu e encenou o espetáculo teatral Ponto de Partida, com o objetivo de mostrar a indignação da sociedade brasileira diante do ocorrido. Para sua esposa Clarice, não foi um consolo saber que sua morte desencadeou a primeira reação popular contra a brutalidade da repressão política do regime: “Vlado contribuiria muito mais para a sociedade se estivesse vivo”, declarou.

Recebeu diversos tributos póstumos, garantindo a permanência de sua memória. Em 2009, foi inaugurado o Instituto Vladimir Herzog com 3 objetivos: (1) organizar todo o material jornalístico sobre sua história, como meio de auxílio a estudantes e pesquisadores; (2) promover debates sobre o papel do jornalista e também discutir sobre as novas mídias e (3) tornar-se a curadoria do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, outorgado anualmente. Em 20/5/2016, após mais de 40 anos do ocorrido e três tentativas anteriores, o Caso Herzog chegou à CIDH-Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA- Organização dos Estados Americanos, onde foi julgado em 2018 e o Brasil foi condenado por crime de lesa-humanidade por não investigar, julgar ou punir os responsáveis pela morte do jornalista Vladimir Herzog.

Ainda em 2016, a Câmara Municipal de São Paulo prestou-lhe homenagem com uma estátua estilizada em bronze, com os braços abertos, com mais de 2 metros de altura, localizada na Praça Vladimir Herzog (inaugurada em 2013) no centro de São Paulo. Dois centros acadêmicos batizaram seu nome: O CAVH-Centro Acadêmico Vladimir Herzog da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e o Centro Acadêmico de Jornalismo da UFPB-Universidade Federal da Paraíba. Em 2023 foi oficializado o dia 25 de outubro como “Dia Nacional da Democracia”, marcando a data do assassinato do jornalista. Em 25/10/2025 foi celebrada uma missa na Catedral da Sé lembrando os 50 anos de sua morte.

Alguns livros contam sua história, legado e sua importância para o reestabelecimento da democracia no País: Vlado, retrato da morte de um homem e de uma época, de Clarice Herzog e Paulo Markun, publicado em 1985 pela Editora Brasiliense; A sangue quente: a morte do jornalista Vladimir Herzog, de Hamilton Almeida Fº, publicado em 1986 pela Editora Alfa-Ômega; Meu querido Vlado: a história de Vladimir Herzog e do sonho de uma geração, de Paulo Markun, publicado em 1997 pela Editora Objetiva; Dossiê Herzog: prisão, tortura e morte no Brasil, de Fernando Pacheco Jordão, publicado em 7ª edição em 2021 pela Editora Autêntica e As duas guerras de Vlado Herzog: da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil, de Audálio Dantas, publicado em 2012 pela Editora Civilização Brasileira e ganhador do Prêmio Jabuti naquele ano.

Encontra-se em fase de produção um filme sobre seus últimos dias e a trajetória percorrida por sua esposa, Clarice Herzog, para desmascarar o argumento defendido pela ditadura que foi um suicídio. Em 26/6/2025 foi assinado um acordo pela AGU-Advocacia Geral da União prevendo a indenização de 3 milhões à família de Vlado e o pagamento mensal de R$ 34,5 mil à viúva Clarice Herzog, 50 anos após o assassinato. Na ocasião, o Ministro da AGU pediu desculpas à família pelo fato ocorrido durante da ditadura.

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OS BRASILEIROS: Conselheiro Antônio Prado

Antônio da Silva Prado nasceu em 25/2/1840, em São Paulo, S.P. Advogado, político, jornalista, agricultor, empresário e banqueiro, foi o primeiro prefeito da cidade de São Paulo e um dos expoentes da abolição da escravatura, participando na elaboração da Lei dos Sexagenários (1885) e da Lei Áurea (1889).

Filho de Veridiana Valéria da Silva Prado e Martinho da Silva Prado, tradicional família da aristocracia cafeeira paulista. Diplomado em 1861 pela Faculdade de Direito em São Paulo, foi chefe de polícia no II Reinado, deputado provincial (1862-1864), deputado geral (1869-1872), senador (1886), conselheiro do Império (1888) e prefeito de São Paulo (1899-1911). Figura destacada na política, publicava suas opiniões no órgão do Partido Conservador – Correio Paulistano -, de sua propriedade a partir de 1882.

Na condição de grande proprietário de terras, incentivou a imigração italiana para suprir a carência de mão-de-obra na agricultura e foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Imigração. Ao assumir o cargo de Ministro da Agricultura, incentivou a criação de ferrovias e autorizou a construção de diversas linha férreas no País. Ainda como ministro, assinou em 1885 junto com a Princesa Isabel, a Lei Saraiva-Cotegipe, também chamada Lei dos Sexagenários, que previa a abolição gradual da escravatura, com indenização aos proprietários de escravos. Em seguida passou a batalhar pela promulgação da Lei Áurea.

Permaneceu 12 anos no cargo de Prefeito de São Paulo e foi o primeiro a receber este título na República. Deixou um considerável legado de obras, modernizando a cidade para o que veio a se tornar em seguida. Providenciou a construção de pontes e o aterramento de várzeas que impediam a ligação entre as várias regiões da cidade; implantou o sistema de energia elétrica, em 1900, através da empresa canadense The São Paulo Light & Power; inaugurou o bonde elétrico em substituição ao bonde-a-burros; construiu o Teatro Municipal, inaugurado em 1911; inaugurou a Pinacoteca do Estado e a Estação da Luz. Em seguida, construiu a Avenida Tiradentes, que liga a Zona Norte ao Vale do Anhangabaú.

Na sua gestão, foi criado balneário do Guarujá, ao lado da cidade de Santos, um empreendimento pioneiro no início do século XX, e foi um dos fundadores do Automóvel Clube de São Paulo. Durante os 12 anos como prefeito, São Paulo teve um aumento vertiginoso da população com a chegada dos italianos, seguidos pelos japoneses e outras nacionalidades. Assim, deu-se a rápida industrialização da cidade, destacando-se os setores têxtil e de alimentos.

Na República optou por não se filiar a nenhum partido e ajudou a criar o Partido Democrático em 1926, atuando como figura “apartidária”. Ele e seu irmão Martinho Prado Jr. colonizaram a região de Ribeirão Preto, onde foi proprietário de 2 fazendas, que chegaram a possuir 20 milhões de pés de café. Foi banqueiro proprietário do Banco do Comércio e Indústria do Estado de São Paulo, da Vidraria Santa Marina, dono de um frigorífico em Barretos e fundador, dono e presidente da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Foi também um dos pioneiros em reflorestamento do País, plantando bosques para abastecer de lenha a ferrovia

Faleceu em 23/4/1929 e no mesmo ano foi lançado um livro de mais de 800 páginas contendo seus discursos e ensaios, organizado por sua filha Nazaré Prado. Em 1940 foram realizados, em São Paulo e no Rio de Janeiro, vários eventos comemorativos do centenário de seu nascimento, incluindo a publicação da biografia Centenário do conselheiro Antônio Prado, editada pela Gráfica Revista dos Tribunais. Em São Paulo a praça central, onde inicia a Av. São João, recebeu seu nome. Em Barretos nomeia a praça da estação ferroviária e a avenida que liga o Shopping de Barretos com a Fundação Educacional de Barretos. No Rio Grande do Sul, a cidade mais italiana do Brasil, tem o nome de Município Antônio Prado.

A família dos Prado é uma das mais importantes na história de São Paulo e o nome Antonio da Silva Prado foi adotado por alguns deles, causando certa confusão em distingui-los. Consta na Wikipedia que o pai do Barão de Iguape (1778-1875) tem esse nome, que foi passado para o filho Barão. Este, por sua vez teve a filha Veridiana da Silva (1825-1910), que denominou seu filho, o conselheiro Antonio da Silva Prado (1840-1929).

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AS BRASILEIRAS: Gilda Abreu

Gilda de Abreu nasceu em Paris, França, em 23/9/1904. Cineasta, radialista, escritora, atriz e cantora. Ganhou medalha de ouro com o canto lírico, mas o que queria fazer mesmo era teatro, algo proibitivo para uma família burguesa da época. Porém, dedicou-se ao cinema, realizou 6 filmes incluindo O Ébrio em 1946, campeão de bilheteria, e atuou como atriz em algumas peças e operetas, como roteirista e na literatura como escritora.

Filha da cantora lírica Nícia Silva de Abreu e do médico e diplomata João de Abreu, esteve no Brasil aos 4 anos e aos 10 passou a viver no Rio de Janeiro. Teve os primeiros estudos em Paris e foi educada em colégios da elite carioca. Em 1922, aos 18 anos, ingressou no Instituto Nacional de Música e formou-se em 1927 em canto lírico. Em 1933 estreou a primeira opereta, A Canção Brasileira, e escreveu um ato “A princesa maltrapilha”, acrescido a opereta.

Neste ano casou-se com o cantor Vicente Celestino, com quem contracenou A Canção Brasileira, e não tiveram filhos. Pouco depois estreou no cinema com o filme Bonequinha de seda, em 1936, dirigido por Oduvaldo Vianna. Um filme visto como ponto de retomada dos filmes de qualidades feitos no Brasil. Foi visto por mais de 200 mil pessoas e exibido nos países do cone sul e em Portugal. Na década de 1940, com o sucesso das radionovelas, passou a escrevê-las para a Rádio Nacional (“Mestiça”, “Aleluia”, “A Cigana”, “Pinguinho de gente”), e Radio Tamoio (“Alma de palhaço”). Em 1945 começou a trabalhar no filme, do qual foi diretora, “O Ébrio” com Vicente Celestino, um dos filmes mais visto da história do cinema brasileiro. Foi a terceira mulher a dirigir um filme no Brasil.

Hernani Heffner, da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, testemunhou a emoção do público na faixa dos 60 e 70 anos. “Quando você vê o filme numa sala grande e todo mundo começa a soluçar, é um acontecimento… De fato, O Ébrio calou fundo no coração das pessoas.” No entanto, a autora do filme ficou pouco conhecida, ofuscada pela fama de Vicente Celestino, que além de protagonista do filme era compositor e intérprete da canção que inspirou o roteiro. Pouco depois, junto com o marido, abriu a “Companhia Vicente Celestino e Gilda Abreu” e passou a dedicar-se mais a carreira de autora teatral.

Em 1944 escreveu a peça “Olhos de Veludo”, em parceria com Luiz Iglesias e retornou ao cinema, em 1951, dirigindo o filme “Coração Materno”, outro filme extraído de uma música de Vicente Celestino. O filme não foi tão bem sucedido como “O Ébrio” e ela passou a se envolver com a escrita de poemas, radionovelas e roteiros. Durante longo tempo foi empresária do marido e não há dúvida que o sucesso popular alcançado pelo tenor foi decorrente de sua potente voz. No entanto, atribui-se a ela um papel fundamental na carreira artística do marido, agenciando contratos e apresentações.

Em 1968 Vicente Celestino faleceu de um infarto fulminante e em 1977 ela filmou “Coração de Amor”, um curta metragem em homenagem ao falecido marido. Em seguida casou-se com o prof. José Spinto e fundou o Centro Cultural Artístico Nícia Silva, em homenagem a sua mãe. Em maio de 1979, aos 75 anos, foi internada numa clínica e veio a falecer, vitimada por uma trombose cerebral, em 4/7/1979. Além da produção literária, Gilda atuou como atriz em dois filmes e como diretora em seis filmes numa época bem mais patriarcal do que hoje, onde poucos acreditavam que uma mulher pudesse dirigir uma equipe cinematográfica.

Numa entrevista à imprensa, contou ter usado calças compridas, algo pouco comum para mulheres da época, na tentativa de ser respeitada pelos técnicos. Pouco antes de falecer, publicou o livro Minha vida com Vicente Celestino, uma biografia focada mais na vida do marido. Num momento de saúde frágil, sentiu que “ainda era necessário viver” para cumprir a promessa que fizera no altar: “Elevar Vicente ao lugar que merecia ocupar”. No lugar de uma biografia sua, temos uma dissertação de mestrado de Lucilene Pizoquero: “Cinema e gênero: a trajetória de Gilda de Abreu (1904-1979)”, defendida na UNICAMP-Universidade Estadual de Campinas.

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OS BRASILEIROS: Vicente Celestino

Antônio Vicente Filipe Celestino nasceu em 12/9/1894, no Rio de Janeiro. Compositor, ator e um dos cantores mais famosos do século XX. Inaugurou o sistema elétrico de gravação na década de 1920. Porém, sua voz era potente demais para os equipamentos da época. Teve que gravar a 20 metros dos microfones e de costas para eles, causando um “eco” dificultando a compreensão da letra. O problema foi resolvido quando passou a cantar com a boca no microfone.

Filho de Giuseppe Celestino e Serafina Gammano, imigrantes italianos, da Calábria. De origem humilde, trabalhou em diversas atividades e ainda criança decidiu que queria ser cantor ao participar de um recital do cantor Baiano, pioneiro ao gravar “Pelo telefone”, o primeiro samba. Passou a cantar em clubes recreativos, recebendo 10 mil-réis por dia, cedido aos pais para aliviar os perrengues da família. Numa das apresentações, o diretor da Companhia de Teatro São José convidou-o para integrar o coral.

Em 1903, participou do coral infantil da ópera Carmen, de Bizet, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro. Na plateia encontrava-se o grande tenor italiano Enrico Caruso, em visita ao Brasil. Ele percebeu a voz já poderosa daquele menino de 9 anos destacando-se no coral. Ao fim da apresentação, dirigiu-se ao garoto na língua em que Vicente estava acostumado a ouvir em casa, convidando-o a ir estudar na Itália. Esteve na casa de seus pais e propôs levá-lo à Itália. Seus pais não toparam a ideia e Vicente jamais esqueceu essa história em sua vida.

Em 1915, foi contratado pela Companhia de Leopoldo Fróes, trocou a gravadora Edson pela Odeon e gravou mais 3 modinhas. Em 1919, começou a participar de operetas como “Amor de Bandido” e “Juriti” ao lado de atrizes-cantoras, vido a cantar em óperas como Tosca, Aida e Carmen. Não se sentindo bem na Odeon, mudou-se para a Columbia onde ficou poucos anos, pois não ficou satisfeito com a gravação da música “Cabocla Serrana”. Em 1933, ao atuar na ópera “A Canção Brasileira”, conhece a cantora e atriz Gilda Abreu e se casam no mesmo ano. Gilda conduziu artística e comercialmente a carreira do casal, levando-o ao cinema e também à composição.

Gravou cerca de 137 discos em 78 RPM, com 265 canções, mais dez compactos e 31 LPs. Tocava violão e piano e foi o compositor de muitas das suas criações. Duas delas foram temas para 2 filmes de grande sucesso: O Ébrio (1946), peça teatral transformada em filme por sua esposa, e Coração Materno (1951), ambos dirigidos pela esposa. cantora, escritora, atriz e cineasta. Em 1999 foi criado, em Conservatória, no distrito de Valença, RJ. O Museu Vicente Celestino e Gilda Abreu, com acervo doado pela família, onde os visitantes podem apreciar vídeos e gravações dos artistas.

O sucesso alcançado pelo filme O Ébrio, levou-o à televisão numa novela exibida pela TV Paulista (atual Rede Globo), em 1965. Vicente premiado e homenageado com seu nome dado a diversos logradouros. Recebeu o título de Cidadão Paulistano, em 1965 e no mesmo ano recebeu a Medalha de Honra ao Mérito, da Presidência da República. Em 1967, recebeu o diploma “A Expressão Máxima da Canção”, outorgado pelo júri do Festival Internacional da Canção. Na condição de tenor, era reconhecido como “a voz orgulho do Brasil”.

Em agosto de 1968, quando se preparava para gravar um programa na TV Record, onde seria homenageado pelo Movimento Tropicalista, sofreu ataque cardíaco no quarto do hotel e faleceu em 23/8/1968. Não contamos ainda com uma biografia para se chamar de sua, mas temos a biografia Minha vida com Vicente Celestino, de Gilda Abreu, mais focada na vida do marido, publicada em 2003 pela editora Butterfly.
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AS BRASILEIRAS: Angela Villela

Angela Villela Olinto nasceu em 19/6/1961, em Boston, USA. Professora e cientista astrofísica, radicada nos EUA e uma das autoridades mundiais em física de astro-partículas. Recebeu o mesmo reconhecimento que Einstein e Darwin na área das ciências. É reitora da Divisão de Ciências Físicas e Matemáticas da Universidade de Chicago, onde também leciona.

Filha de brasileiros, nascida em Boston durante uma temporada de estudos de seu pai no MIT-Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Formou-se em 1981, em Física pela PUC-Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e obteve o título de doutora em Física, em 1987, pelo MIT. Contribui expressivamente nos campos da estrutura das estrelas de nêutrons, teoria inflacionária, campos magnéticos cósmicos, matéria escura, raios cósmicos, raios gama e neutrinos.

É a pesquisadora principal dos projetos da NASA EUSO-SPB e responsável pela futura missão espacial POEMMA (Probe Of Extreme Multi-Messenger Astrophysics), projetada pela NASA, em conjunto com uma equipe de 73 profissionais para estudo de um detetor de partículas cósmicas ultra-energéticas. Suas pesquisas envolvem astrofísica teórica, astrofísica de partículas e nuclear e cosmologia. Seu trabalho se concentra nos raios cósmicos de mais alta energia, assinaturas indiretas de partículas de matéria escura, efeitos cosmológicos de campos magnéticos, inflação natural e estrutura interna de estrelas de nêutrons.

Mas, o que a física de astro-partículas estuda, basicamente? Segundo a cientista “minha área é interdisciplinar, em que se mistura aquilo que é mais microscópio, as partículas dento do átomo, as interações da natureza dos menores sistemas… quanto mais energia se coloca no sistema, menor o seu microscópio e mais profundo adentra-se a parte fundamental da natureza. Quando fui estudar no MIT, passei a me interessar pela astrofísica, pela ideia de colocar o que se observa com os telescópios, que são as ‘coisas maiores’ do Universo e o Universo como um todo, os sistemas maiores, e a teoria das ‘coisas menores’ do Universo, que são as partículas. É essa combinação das duas, que chamamos de física de astro-partículas”.

Em 2016 recebeu o título “Professor Albert A. Michelson” por Serviços Distinguidos no Departamento de Astronomia e Astrofísica e no College, pela Universidade de Chicago (UC) e em 2021 foi integrada como membro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. É também membro da Academia de Arte e Ciências dos Estados Unidos, Sociedade Americana de Astronomia, Associação Americana para o Avanço da Ciência, além de membro de várias sociedades científicas internacionais. Criou os cursos de graduação e pós-graduação em Astronomia e Astrofísica na UC.

Também é membro do Conselho Superior da UC, do Programa de Revisão Acadêmica do Departamento de Astronomia da Universidade de Boston e do Conselho Consultivo do Laboratório de Ciência Nuclear do MIT. Já foi chefe do Comitê de Premiação dos prêmios Tinsley (Sociedade Americana de Astronomia) e Bethe (Sociedade Americana de Física), chefe do Conselho Consultivo de Astronomia e Astrofísica do consórcio NASA/NSF/DOE, membro da Astronomy and Astrophysics Decadal Survey e do conselho editorial da revista Annual Reviews of Nuclear and Particle Science.

Publicou mais de 250 artigos em revistas especializadas e recebeu diversos títulos e condecorações, dentre os quais: Cátedra de Excelência da Agência Nacional de Pesquisa, França (2006); Prêmio Llewellyn John and Harriet Manchester Quantrell por Excelência no Ensino de Sub-graduação, pela Universidade de Chicago (2011); Título de Palestrante Hess da 33ª Conferência Internacional sobre Raios Cósmicos (2013); Título de Professor Albert A. Michelson por Serviços Distinguidos no Departamento de Astronomia e Astrofísica e no College, pela Universidade de Chicago (2016) e Ordem de Rio Branco, grau Comendador (2022) ente outros.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Graça Aranha

José Pereira da Graça Aranha nasceu em 21/6/1868, em São Luís, MA. Escritor e diplomata, foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, em 1922. Seu romance Canaã é considerado um dos grandes marcos do nacionalismo e do pré-modernismo no período 1902-1922. Foi também um dos fundadores da ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1897.

Filho de Maria da Glória de Alencastro Graça e Temístocles da Silva Maciel Aranha, tradicional família do Maranhão. Graduado em Direito pela Faculdade do Recife, atuou na magistratura e fez carreira diplomática servindo em Londres, na condição de secretário de Joaquim Nabuco. Foi ministro na França, Holanda e Noruega. Assim, esteve a par dos movimentos de vanguarda que surgiam na Europa. Ao retornar ao Brasil, se aproximou dos jovens modernistas que buscavam uma renovação na arte brasileira e participou ativamente do movimento. Proferiu a conferência na abertura da Semana de 1922 – “A Emoção Estética na Arte Moderna” – e sua presença foi vista como um importante apoio intelectual ao movimento modernista.

Em sua conferência retomou aspectos centrais de seu livro A estética da vida (1921) e lança as bases do evento modernista: “o que hoje fixamos não é a renascença de uma arte que não existe. É o próprio comovente nascimento da arte no Brasil, e como não temos felizmente a pérfida sombra do passado para matar a germinação, tudo promete uma admirável florada artística”. Sua importância para o movimento modernista de 1922 tem sido minimizada, apesar da repercussão de suas obras e de ter feito o discurso de abertura da Semana de 1922. Foi definido por Oswald de Andrade como o “protomártir da nova era” e descrito por Mário de Andrade como “a antemão da Semana”. Para Di Cavalcanti, ele teria dado um ar de “seriedade” ao evento, pois “sua habilidade de diplomata, seu savoir faire de mundano, sua autoridade de mais velho, agiam como música sedutora”.

Segundo alguns autores, ele passou a ter sua presença sistematicamente desprezada nas avaliações do movimento. Ao que parece, isso se deve à incorporação de um discurso formulado pelos próprios participantes do movimento, que, no decorrer do tempo, elegem e cristalizam as imagens de Mário e Oswald de Andrade como seus líderes legítimos, vindo a ofuscar a pluralidade do grupo modernista. Em 1924 proferiu uma palestra chamada “O Espírito Moderno” na própria ABL e fez severas críticas à Academia, acusando-a de ser conservadora, de constranger a livre inspiração e de tolher o jovem talento. “Se a Academia se desvia desse movimento regenerador, se a Academia não se renova, morra a Academia!”. Pouco depois, em outubro de 1924, se desligou da ABL por meio de uma carta, formalizando seu rompimento com a instituição que ajudara a fundar. Sentiu que sua permanência na Academia era incoerente com suas ideias vanguardistas.

Casou-se com Maria Genoveva de Araújo, em 1891, e mais tarde manteve relacionamento amoroso com Nazareth Prado, irmã de Paulo Prado, ambos já casados. Em 1928, ele passou a viver abertamente com Nazaré, embora não pudessem se casar devido às restrições legais da época. Em 1935 tiveram suas “Cartas de amor” publicadas. O relacionamento durou mais de 2 décadas, até sua morte em 26/1/1931. Tal vínculo com a famíla Prado, facilitou sua aproximação com os modernistas da Semana de 1922, tendo em vista que Paulo Prado foi um de seus organizadores. O relacionamento amoroso prolongado influenciou sua atuação pública em defesa do divórcio. Tal visão crítica da sociedade conservadora aparece também em suas obras literárias. Qustões como liberdade individual, moralidade e crise de valores são temas recorrentes.

Sua ligação com Paulo Prado foi reforçada pelos negócios, que não eram poucos. Em meados de 1915, Paulo presidia Algumas empresas, como o Banco do Comércio e Indústria, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, o Curtume Água Branca, o Frigorífico Barretos, a Vidraria Santa Marina, além de negócios imobiliários no Guarujá e o Automóvel Clube. Por essa época Paulo lhe enviou uma carta a respeito de uma remessa de café para a Rússia e ele passa a trabalhar para a família Prado, a partir de 1915, intermediando os interesses da empresa na Inglaterra.

Foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e da Ordem Militar de Cristo, ordens honorficas portuguesas. Deixou diversos livros publicados relevantes para Movimento Modernista, tais como A estética da vida (1921), Espírito moderno (1925), Futurismo (manifesto de Marinetti e seus compannheiros) (1928), e um texto autobiográfico explicitando seu estilo e forma literária: O meu próprio romance (1931).

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Virginia Leone

Virgínia Leone Bicudo nasceu em 21/11/1910, em São Paulo, SP. Professora, socióloga e psicanalista. Foi pioneira na institucionalização da psicanálise no Brasil, na condição de primeira não médica a ser reconhecida como psicanalista e pioneira como socióloga ao tratar das relações raciais como tema de sua dissertação de mestrado em 1945.

Filha de Giovanna Leone, imigrante italiana e Teófilo Júlio Bicudo, descendente de negros escravizados. Em fins do século XIX, ela trabalhou na casa do senador Bento Augusto de Almeida Bicudo, onde conheceu Teófilo, futuro marido e afilhado do senador Bicudo. Os primeiros estudos se deram na Escola Normal Caetano de Campos, seguido de um curso de educação sanitária, em 1932, vindo a ministrar aulas de higiene nas escolas públicas de São Paulo.

Em seguida passou a se interessar pela Sociologia e ingressou no curso de Ciências Sociais da Escola Livre de Sociologia e Política, concluído em 1939. Na mesma Escola, realizou o Mestrado em Sociologia em 1945, com a dissertação: Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. O mérito deste estudo encontra-se na recusa de formulações raciais de cunho biológico para se pensar a raça como categoria social, além de ser o primeiro trabalho acadêmico na área das Ciências Sociais a tratar das relações raciais.

Através de seu estudo foi constatado que o preconceito racial no Brasil não só estava presente nas relações sociais como adquiria um caráter específico: configurava um preconceito que minimizava o confronto direto e impedia o desenvolvimento da consciência sobre a discriminação. Seu estudo defende a tese de que o critério da aparência calcado no branqueamento constituiria o principal determinante das oportunidades de ascensão social do negro. Tal estudo levou-a a participar do Projeto Unesco das relações raciais no Brasil, coordenado por Roger Bastide e Florestan Fernandes, onde ela apresentou o relatório “Atitudes dos alunos dos grupos escolares em relação a cor de seus colegas”, publicado em 1953.

Como psicanalista credenciada pela IPA-International Psychoanalytical Association, ingressou na Sociedade Brasileira de Psicanálise em 1945. Foi eleita presidente da segunda diretoria do Instituto de Psicanálise, em 1962, e permaneceu até 1975. Pouco antes, iniciou a análise e o ensino de um grupo de 6 psiquiatras, em Brasília, tornando-se a primeira turma da atual Sociedade de Psicanálise da cidade. Atuou em diversas frentes na difusão da Psicanálise, como colunista da imprensa, defendendo suas ideias sobre a função social do psicanalista e colaborou na criação da Revista Brasileira de Psicanálise, cujo editorial de 2004 qualificou-a como “uma das primeiras psicanalistas brasileiras com trânsito e publicações internacionais.

Faleceu en 26/9/2003, aos 93 anos, e foi uma das primeiras professoras universitárias negras no Brasil, lecionando na Universidade de São Paulo, na Santa Casa e na Escola Livre de Sociologia e Política. Seus livros Nosso mundo mental, publicado pela Instituição Brasileira de Difusão Cultural em 1956; Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo, publicado pela Ed. Sociologia e Política em 2010 e o denso artigo Comunicação não-verbal como expressão de onipotência e onisciência, publicado na Revista Brasileira de Psicanálise, vol. 37, nº 4 p. 983-992, em 2003, tornaram-se referência nesta área.

Outros artigos publicados na mesma revista dão uma ideia de seu pioneirismo e contribuições na área da psicanálise intercalada com a área sociológica: Virgínia Bicudo: Mulher, negra e pioneira na psicanálise. Mas invisível no Brasil. HuffPost Brasil. 16 de abril de 2017; Amendoeira, Paola Olhares negros nos importam: o paradigma Virgínia Leone Bicudo. Revista Brasileira de Psicanálise. 54 (2): 241-249; Um olhar sobre Virgínia Leone Bicudo. Revista Brasileira de Psicanálise. 54 (3): 227-236; Tauszik, Jean Marc A atualidade de Virgínia Leone Bicudo. Revista Brasileira de Psicanálise. 54 (3): 237-244.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Ferreira Gullar

José Ribamar Ferreira nasceu em 10/9/1930, em São Luis, MA. Poeta, escritor, crítico de arte, dramaturgo, tradutor, memorialista e ensaísta. É reconhecido como um dos mais importantes poetas brasileiros da segunda metade do século XX. Durante 60 anos de produção artística, particpou de todos os acontecimentos mais importantes da poesia brasileira.

Filho de Alzira Ribeiro Goulart e Newton Ferreira, inventou seu nome utilizando o Ferreira do pai e Gullar da mãe, modificando a grafia. “Como todo mundo no Maranhão é Ribamar, eu decidi mudar meu nome e como a vida é inventada, eu inventei meu nome”. Integrou um um movimento literário difundido através da revista que lançou o modernismo no Maranhão, A Ilha, da qual foi um dos criadores. Seu envolvimento com a poesia deu-se através de Carlos Drummond de Andrade.

No Rio de Janeiro, participou do movimento da poesia concreta como um inovador, gravando seus poemas em placas de madeira. Em 1954 ganhou notoriedade nacional com a publicação de A Luta Corporal, um livro de poemas experimentais, explorando o caráter gráfico. Em 1956 participou da exposição concretista e se afastou em 1959, criando junto com Lígia Clark e Hélio Oiticica, o “Neoconcretismo”, que valoriza a expressão e a subjetividade. Mesmo mantendo o concretismo como base, os neoconcretistas acreditavam que a objetividade e os princípios matemáticos por si só não poderiam cumprir o objetivo concretista de criar uma linguagem visual transcendental.

No ano seguinte se afastou desse grupo, por achar que estava abandonando vínculo entre a palavra e a poesia e passou a encarar a poesia engajada, envolvendo-se com os Centros Populares de Cultura (CPC). Na década de 1960, filiou-se ao Partido Comunista, protestou contra a ditadura militar e passou a dedicar-se à poesia lírica e social, com poemas marcantes como Traduzir-se, Dois e dois: quatro, Homem Comum e Não há vagas. Na década seguinte, foi perseguido politicamente e exilou-se. Viveu no Chile, Argentina e União Soviética, onde segundo ele mesmo “bachalerou-se em subversão”.

Porém foi aí mesmo que desencantou-se com socialismo.

Em 1975 escreveu o Poema Sujo, enquanto vivia em Buenos Aires. Trata-se de sua “magnum opus”, com mais de 100 páginas, versando sobre o exílio e misturando todas a fases de sua obra. Retornou ao Brasil em 1977 e expandiu suas atividades com ensaios, biografia, crítica política e tornou-se crítico do socialismo. Em 2014 declarou que “o socialismo não fazia mais sentido, pois fracassou, embora [achasse] a desigualdade social inaceitável e [torcesse] para que essa desigualdade social [fosse] corrigida o tanto quanto possível”.

Foi casado durantes anos com a atriz Theresa Aragão, com quem viveu até seu falecimento, em 1992. Em seguida, casou-se com a poeta gaúcha Claudia Ahinsa. Gullar teve 3 filhos: Luciana, Marcos e Paulo. Estes dois últimos foram diagnósticados com esquizofrenia, o que levou-o a falar das doenças mentais e do despreparo dos profissinais brasileiros para com a doença em sua coluna na Folha de São Paulo.

Em outubro de 2010 recebeu um tefonema de Estocolmo pedindo-lhe que ficasse próximo ao telefone, sem deixar que ninguém o usasse, a partir das 17 hs. Pouco depois, ligou um jornasta pedindo sua opinião sobre o escritor Vargas Llosa, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2010. Só aí percebeu que estava concorrendo e por pouco não foi o laureado daquele ano. Esta história me foi contada por José Paulo Cavalcanti Filho, jurista pernambucano, colunista deste JBF e biógrafo de Fernando Pessoa, que ouviu do próprio Ferreira Gullar.

Foi premiado diversas vezes a partir de 1950, quando venceu o concurso de poesia promovido pelo Jornal de Letras, com o poema O Galo. Em seguida ganhou os prêmios Molière e Saci e outros prêmios do teatro com a peça Se correr o biho pega, se ficar o bicho come, em 1966. Foi indicado por autores dos EUA, Portugal e Brasil, ao Prêmio Nobel de Literatura, em 2002. Seu livro Resmungos, ganhou o Prêmio Jabuti em 2007. Foi conisderado pela revista Época, um dos 100 brasileiros mais influentes, em 2009. No ano seguinte foi agraciado com o Prêmio Camões, a maior premiação literária da língua portuguesa. Em 2011 ganhou mais um Prêmio Jabuti com o livro Em alguma parte alguma, considerado “O Livro do Ano” de ficção.

O Estado onde nasceu também soube reconhecer o poeta. Em Imperatriz, foi homenageado com o Teatro Ferreira Gullar e em 1999 foi inaugurada em São Luís a Avenida Ferreira Gullar. Ingressou na Academia Brasileira de Letras, em 2014, e faleceu pouco depois em 4/12/2016, vitimado por uma pneumonia. Sua última crônica publicada na Folha de São Paulo tratou sobre a solidariedade. Em determinado ponto ele pergunta: “Para que alguém necessita de ter à sua disposição milhões e milhões de dólares? Para jantar à tripa forra”.