JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Solano Trindade

Francisco Solano Trindade nasceu em 24/7/1908, no Recife, PE. Poeta, pintor, folclorista, ator, cineasta, teatrólogo e um dos nomes destacados na luta pela emancipação e valorização da cultura negra no último país das Américas, o novo mundo, a abolir a escravidão em 1888.

Filho de Emerenciana Maria de Jesus e Manuel Abílio Trindade, uma família humilde do bairro São José, onde realizou os primeiros estudos no Colégio Agnes Americano. O pai foi sapateiro e comerciário e participava das danças de Pastoril e Bumba-meu-boi em companhia do filho, que passou a apreciar a arte popular. Em 1934 idealizou o I Congresso Afro-Brasileiro, no Recife, e o II em Salvador, em 1936. A década de 1930 foi marcada por uma releitura da questão racial brasileira, ocorrida com o lançamento do livro Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, em 1933. O objetivo destes congressos foi incrementar e valorizar a contribuição cultural dos descendentes africanos.

Ainda em 1936, fundou o Centro Cultural Afro-Brasileiro e a Frente Negra Pernambucana, como extensão da Frente Negra Brasileira. Nesta época publicou seus primeiros Poemas Negros e viajou pelo País, visitando Minas Gerais e Rio Grande do Sul, onde criou o Grupo de Arte Popular, em Pelotas e pouco depois partiu para o Rio de Janeiro. Em 1944 publicou o livro Poemas de uma vida simples. No ano seguinte, junto com Abdias Nascimento, criou o Comitê Democrático Afro-Brasileiro. Em seguida, junto Haroldo Costa, fundou o Teatro Folclórico. Desde então, passou a atuar na política, filiado ao Partido Comunista e mantinha reuniões em sua casa.

Em 1935 casou-se com Margarida Trindade, com quem teve 4 filhos. Durante o Governo Dutra (1946-1953) foi preso político e pouco depois criou o Teatro Popular Brasileiro junto com a esposa e o sociólogo Edson Carneiro, em 1950. Em seguida, foi convidado a se apresentar na Europa, mostrando seu trabalho em diversos países. De volta ao Brasil, esteve em São Paulo e foi convidado pelo escultor Assis do Embu para uma apresentação naquela cidade, onde passou uma temporada. Na época Embu já se mostrava como uma cidade receptora de artistas. Seu grupo atraía grande número de espectadores com peças, tais como Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1967. Por essa época conheceu e fez uma apresentação para Leopold Senghor, escritor e ex-presidente senegalês e um dos ideólogos do conceito de negritude.

Apaixonou-se pela cidade e mudou-se para Embu, tornando sua casa um núcleo artístico. Suas atividades, junto com Assis, resultaram no surgimento da feira de artesanato provocando uma transformação radical na cidade, com o aumento do fluxo turístico. Ele chegou a ser conhecido como o “patriarca do Embu”. Mais tarde a cidade passou a se chamar, por decreto, Embu das Artes (2011) e ele foi homenageado com o nome de uma escola, uma rua no centro da cidade e o Teatro Popular Solano Trindade. Sua poesia, carregada de sentimento, expressa uma identidade racial e social identificada com os negros e com as classes populares. O poeta Carlos Drummond de Andrade declarou “Há nesses versos uma força natural e uma voz individual rica e ardente que se confunde com a voz coletiva”.

Um de seus poemas mais conhecidos, Tem gente com fome, foi musicado e gravado por Ney Matogrosso. Trem sujo da Leopoldina correndo parece dizer “tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome”. O ritmo é acelerado, mas no final quando vai parando, uma voz sentencia: “se tem gente com fome, dá de comer”. Deixou uma expressiva obra ressaltando a cultura de seu povo: Poemas de Uma Vida Simples (1944), Cantares ao Meu Povo (1963). Em 2008, ano de comemoração do seu centenário foi lançada, pela Ediouro, uma coletânea de poemas, incluindo alguns inéditos, com um título apropriado: O Poeta do Povo. Em seguida foi lançada mais uma coletânea: Poemas Antológicos (2009), pela Editora Nova Alexandria.

A partir de 1970 a saúde foi se complicando e veio a falecer em 19/2/1974. No carnaval de 1976 foi homenageado pela Escola de Samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha Raquel. Os versos do samba de Geraldo Filme ecoaram pela avenida: “Canta meu povo, vamos cantar”, fazendo justiça a uma de suas máximas: “Devolver ao povo em forma de arte”. Pouco antes de falecer deixou um conselho ao seu povo: “tem de haver maior solidariedade entre os negros de todo o mundo, os quais deveriam se reunir aos brancos que são contra o racismo”.

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AS BRASILEIRAS: Bella Jozef

Bella Karacuchansky Jozef nasceu em 29/1/1926, no Rio de Janeiro. Professora, crítica literária e pioneira na área da pesquisa literária. Trata-se de uma das maiores especialistas em literatura hispano-americana do Brasil e dedicou toda sua vida a difundir esta literatura em diversas esferas, promovendo a inserção do Brasil na América Latina e vice-versa.

Filha de Rosa Schechter e José Karacuchansky, imigrantes judeus russos. Em 1945 formou-se em Letras Neolatinas pela Universidade do Brasil, atual UFRJ, e logo tornou-se assistente do poeta Manuel Bandeira, na cátedra de literatura hispano-americana da Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1956, Bandeira aposentou-se e ela assumiu suas aulas. No ano seguinte obteve o título de livre-docente e passou a se dedicar à pesquisa da produção literária latino-americana.

Criou o Seminário Permanente de Estudos Hispano-americanos (SEPEHA), na UFRJ, que resultou na edição da Revista América-Hispânica, em 1987. Com tais atividades, além dos livros publicados, foi agraciada com a “Ordem do Mérito do Sol”, no Peru, e a “Ordem das Palmas Acadêmicas”, na França. Na UFRJ coordenou os cursos de pós-graduação; integrou o conselho Editorial; realizou diversos eventos promovendo o intercâmbio de professores e intelectuais da região e fundou a cátedra Alfonso Reys, de intercâmbio Brasil-México. Em 1996, aos 70 anos, recebeu o título de Professora Emérita da UFRJ.

Em 1988 fundou a revista América Hispânica, importante veículo dos mais destacados intelectuais da América Latina, e foi sua editora por 17 anos. Dedicou alguns de seus números a Jorge Luís Borges, Carlos Fuentes, Juan Carlos Onnetti, Ernesto Sábato, Cabrera Infante etc. Fora da universidade, dirigiu um programa cultural na Rádio Roquette Pinto, onde recebeu expoentes da vida literária e foi entrevistadora do projeto FINEP: “Os escritores: criador e criaturas”. Durante décadas publicou artigos e resenhas críticas em suplementos literários dos grandes jornais. A partir da década de 1950, contribuiu para a transição da narrativa tradicional para a nova narrativa hispano-americana, que resultou no fenômeno editorial conhecido como “boom latino-americano”, com Jorge Luís Borges, García Márquez, Juan Rulfo, Vargas Llosa, Ricardo Piglia, Manuel Scorza entre outros.

Na década seguinte enfrentou os desafios políticos com os longos debates sobre o papel do intelectual e formas possíveis de resistência ao autoritarismo. Teve papel relevante no intercâmbio cultural entre os países da América Latina e construiu pontes entre os consulados da Argentina, México, Chile etc. integrando o Brasil no contexto latino-americano. Seu lado feminista se manifestava nos estudos sobre erotismo e literatura e no acompanhamento da obra de Dinah Silveira de Queiroz, Clarice Lispector, Nélida Piñon, Rosario Castelhanos entre outras.

Por outro lado, atuou difundindo a literatura brasileira junto aos hispano-americanos, através de cursos, conferências e livros; ajudando a revelar novos talentos literário através dos concursos de cujo jurado participava, como o da Casa de Las Américas. Foi vice-presidente do Instituto Internacional de Literatura Ibero-americana. Representou o Brasil, a convite do Ministério da Cultura, nas Feiras Internacionais do Livro de Guadalajara e de Bogotá. Como reconhecimento internacional por seu trabalho na difusão da cultura e na integração latino-americana, foi condecorada com a Ordem de Maio do governo argentino; com a Ordem do Sol, do governo peruano, e com as Palmas Acadêmicas do governo francês.

Faleceu em 10/11/2010 e deixou inéditos alguns livros, prólogos, poemas e uma grande biblioteca especializada em literatura, que foi doada à UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre suas obras publicadas, destacam-se: História da Literatura Hispano-americana. Ed. Francisco Alves, 2005; A máscara e o enigma. Ed. Francisco Alves, 1986; Diálogos oblíquos. Ed. Francisco Alves, 1999; O espaço reconquistado. Ed. Paz e Terra, 1993; Antologia General de la Literatura Brasileña. Ed. Fondo de Cultura Económica, 1995. Recebeu diversos prêmios e condecorações, com destaque para os prêmios “Silvio Romero” e “Assis Chateaubriand” da Academia Brasileira de Letras (1978); “Personalidade Cultural do ano” da UBE (1982); “Palmas Acadêmicas”, do Governo Francês (1995); Professora Emérita da UFRJ (1996).

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OS BRASILEIROS: Brigadeiro Luís Antônio

Luís Antônio Macedo de Sousa Queirós nasceu em 1746, em Amarante, Portugal. Foi um militar luso-brasileiro, bem-sucedido empresário e negociante de terras em São Paulo, em fins do século XVIII e início do XIX. Acumulou uma fortuna, propiciando o surgimento de uma “dinastia” de cafeicultores no Oeste Paulista. Foi também um filantropo na criação e auxilio a entidades assistenciais.

Filho de Ana Maria Macedo e José Luiz de Souza, veio para o Brasil aos 20 anos e fez carreira militar na Companhia de Cavalaria de Itu, do Regimento de Milícias. Em pouco tempo recebeu diversas promoções até o posto de coronel e foi reformado como Brigadeiro, em 1818. Além de grande proprietário de terras, com 16 fazendas na região de Campinas, era um exímio negociante de terras. Foi também um grande empreendedor, dono do primeiro navio que saiu de Santos, carregado de mercadorias, com destino a Lisboa.

Seus diversos negócios e as alianças comerciais e políticas foram relevantes no processo de acumulação de riqueza dessa época. Esta fase marcou o início do desenvolvimento da região paulista, que até então servia apenas de passagem para tropeiros rumo a Minas Gerais e Goiás em busca de ouro e pedras preciosas. Como empresário, foi um dos primeiros a entrar com ações na criação da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, em 1810, nos arredores de Sorocaba. O ferro ali produzido foi vital para a produção de material bélico para a guerra do Paraguai e também para permitir o progresso da ferrovia em São Paulo.

A Fundição Ipanema operou até 1926 e, atualmente, é um dos recantos turísticos mais importantes do País e também um dos mais esquecidos e pouco divulgado pelo Governo, situado próximo a capital do Estado. Chegou a criar, de modo informal, o primeiro banco da cidade, aceitando dinheiro das pessoas e utilizando em seus negócios, pagando juros. Era algo tão extraordinário para a época, que, em agradecimento, recebia vários presentes ofertados por quem deixava dinheiro sob sua guarda. Mantinha chácaras perto do centro da cidade, como a “Chácara da Consolação”, herdada por seu filho, o barão de Souza Queirós e outra chácara englobando a atual rua Riachuelo, onde começa a atual avenida Brigadeiro Luiz Antônio, herdada pelo filho Vicente de Souza Queirós, o Barão de Limeira.

Fixou residência em São Paulo, na esquina da rua São Bento com a rua do Ouvidor, numa casa descrita pelo historiador Affonso de E. Taunay: “o enorme casarão do Brigadeiro Luiz Antônio de Souza, possuidor da maior fortuna da Capitania”. Em 1817, era considerado o primeiro proprietário e agricultor da Província, com 15 fábricas de açúcar, uma das quais administrava pessoalmente. Ao morrer, em 1817, deixou uma fortuna de 750 mil “contos”. Em um de seus engenhos de açúcar de Campinas chegou a render em 1817 a quantia de 9:000$000). A renda anual do brigadeiro subia a 32:000$000 – isso num tempo em que o mil-réis valia mais de duas libras esterlinas.

Seu filho Francisco Antonio de Souza Queirós (1806-1891) seguiu as pegadas do pai nos títulos, cargos políticos e riqueza acumulada e teve seu nome dado a outra importante rua de São Paulo: Av. Senador Queiróz. Tal como o pai, foi um filantropo, com a fundação da Associação Barão de Souza Queiróz de Proteção à Infância e à Juventude – Instituto Ana Rosa, em 1874. Outro filho -Vicente de Souza Queiróz- , o Barão de Limeira (1813-1872), também foi pródigo e nomeia a Alameda Barão de Limeira. Foi o pai de Luiz Vicente de Souza Queiróz (1849-1898), agrônomo e fundador da famosa Escola Superior de Agricultura Luís de Queiróz, em Piracicaba. Como se vê, a família Souza Queiróz teve papel destacado no desenvolvimento do estado de São Paulo

O brigadeiro Luís Antônio faleceu em 30/5/1819. No ano anterior registrou no Cartório da Nobreza o brasão das armas dos Souza Queirós. Seu testamento, ditado a 24/5/1819, mostra que era muito religioso, pois deixou dotações para serem enviadas a Portugal, onde seus irmãos deveriam entregá-las à Santa Casa de Misericórdia, além de dinheiro para ser repartido entre os pobres, para manutenção de leprosários, para o Recolhimento de Nossa Senhora da Luz, de Santa Teresa, para a Ordem Terceira de São Francisco, ao convento de São Francisco, para a Capela do Rosário dos Homens Pretos, para a Capela da Senhora da Boa Morte, para grande número de missas e pede a doação de um hábito de São Francisco, para com ele ser enterrado no jazigo da Venerável Ordem Terceira de São Francisco.

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AS BRASILEIRAS: Mãe Aninha

Eugênia Anna dos Santos, mais conhecida como Mãe Aninha, nasceu em 13/7/1869, em Salvador, BA. Mãe de Santo (Ialorixá), fundadora do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador e no Rio de Janeiro. O terreiro foi fundado em 1895 e tombado pelo IPHAN em 2000. Trata-se de um dos terreiros mais tradicionais de Salvador.

Filha de Leonídia Maria da Conceição Santos e Sérgio José dos Santos, afro-brasileiros da nação Grunci (ou Gurunsi). Foi iniciada na nação Queto, em 1884, pela Ialorixá Marcelina da Silva. Fundou seu terreiro no Rio de Janeiro, em 1895, e anos depois retornou à Salvador para fundar o terreiro Ilê Opô Afonjá, em 1910. Como atividade civil, trabalhou no comércio de quitutes, artesanato e produtos para rituais africanos, estabelecida na Ladeira da Praça, no Pelourinho e foi uma empreendedora bem sucedida.

Consta que ajudava os mais necessitados, amparando-os e encaminhando-os para trabalhar na sua residência. Essa posição social iria refletir na aquisição em 1909, das terras no alto de São Gonçalo para a criação de seu terreiro. Em 1936, instituiu o Corpo de Obás de Xangô e no ano seguinte participou do II Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador, a convite do escritor e etnólogo Edison Carneiro. Influenciou Getúlio Vargas, na promulgação do Decreto-Lei 1.202, no qual ficava proibido o embargo sobre o exercício da religião do candomblé no Brasil. Para isso, contou com a ajuda de Oswaldo Aranha, seu filho-de-santo e chefe da Casa Civil e do ogã Jorge Manuel da Rocha.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos (Mestre Didi), no livro História de um terreiro nagô (Editora Max Lomonad, 1988) tornou-se fonte indispensável para traçar o perfil de Mãe Aninha, pelo fato de ter compartilhado da vida dela, como agente direto e espectador. No livro, Mestre Didi escreve o nome de Mãe Aninha como “Eugênia Anna dos Santos” e a filiação com o nome do pai “Sérgio dos Santos (Anió)” e da mãe como “Lucinda Maria da Conceição’ (Azambrió)”. Estas informações são diferentes das registradas na certidão de nascimento. Mestre Didi, emenda: “O restabelecimento da antiga tradição dos Obás de Xangô veio dar ainda maior prestígio ao Opô Afonjá e demonstrar as qualidades e conhecimentos da Ialorixá Aninha Iá Obá”.

Segundo Marcos Santana em seu livro Mãe Aninha de Afonjá: um mito afro-baiano (Editora EGBA, 2006) “(…) é de aceitação universal que a jovem Eugênia Ana dos Santos teria sido iniciada na nação Queto em 1884, aproximadamente, pela insigne Ialorixá Marcelina da Silva, Obá Tossi, na rua dos Capitães, residência de Maria Júlia de Figueiredo, Omoniquê.” O sociólogo Donald Pierson, no livro Brancos e pretos na Bahia: estudo de contato social (Editora Nacional, 1945), registra que ela “Possui na cidade uma pequena loja onde vende vários artigos, inclusive usados nos rituais de culto; e sabendo os membros do mundo afro-brasileiro que esses artigos devem ser legítimos, uma vez que são vendidos por ela, a loja faz bom negócio.”.

Em 1936, aos 67 anos, ficou doente e faleceu em 13/1/1938. O cortejo fúnebre seguiu de carro de seu terreiro até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, onde ficou exposto até as 15hs. do dia seguinte. Foi sepultada no Cemitério da Quinta dos Lázaros, Irmandade de São Benedito, com todas as formalidades de praxe do candomblé e da religião católica. Em 3/1/1945, foi realizada a obrigação de Acú (ou obrigação dos sete anos), o último dos compromissos da Sociedade para que a sua Mãe de Santo obtivesse luzes e descanso eterno.

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OS BRASILEIROS: Divaldo Franco

Divaldo Pereira Franco nasceu em 5/5/1927, em Feira de Santana, BA. Médium, professor, escritor, orador e filantropo destacado na História do Brasil. Ao lado de Chico Xavier, é considerado um dos maiores divulgadores da doutrina espírita. Criou a “Mansão do Caminho”, que atende milhares de necessitados e abriga centenas de desvalidos numa “cidade” de 83 mil metros², com 44 edificações, numa área verde de Salvador.

Filho de Ana Alves Franco e Francisco Pereira Franco, teve os primeiros estudos em sua cidade natal e foi diplomado professor do curso primário na Escola Normal Rural, em 1943. Seus contatos com o mundo espiritual iniciaram na infância, aos 4 anos. Ainda jovem, sofreu um abalo com a morte de seu irmão mais velho, deixando-o traumatizado e doente. Foi conduzido a diversos médicos, sem lograr qualquer resultado satisfatório. Em seguida, uma amiga de sua mãe levou-o a um Centro Espírita, onde foi diagnosticado tornando-o livre do trauma. A partir daí passou a se dedicar ao estudo do Espiritismo e foi aprimorando suas faculdades mediúnicas.

Necessitando trabalhar, mudou-se para Salvador em 1945, aos 18 anos, e ingressou no IPASE (atual INSS) como escriturário, pois era um bom datilógrafo. Desde jovem apresentou diversas faculdades mediúnicas, de efeitos físicos e intelectuais, com destaque para a psicografia, com centenas de livros publicados; e oratória, com milhares de palestras proferidas em todo o mundo. Aos 20 anos (em 1947), fundou o Centro Espírita “Caminho da Redenção”. 5 anos depois, junto com o amigo Nilson de Souza Pereira, ampliou o escopo do Centro, transformando-o numa instituição denominada “Mansão do Caminho”, que veio a ser tornar uma “cidade” dentro de Salvador. Além das obras assistenciais, mantêm um complexo educacional para 3 mil crianças e jovens, muitos dos quais registrados como seus filhos.

A partir daí começou a proferir palestras difundindo a Doutrina Espírita, apresentando uma histórica e recordista trajetória de orador no Brasil e no exterior, atraindo multidões, com sua palavra inspirada, esclarecedora e didática, sobre diferentes temas acerca dos problemas humanos e espirituais. Durante longo tempo, viajou em média 230 dias por ano, realizando palestras e seminários no Brasil e no mundo. Recebeu, também, dos benfeitores espirituais, diversas mensagens escritas e pouco depois recebeu a mensagem para que fosse queimado tudo que escrevera até ali, pois não passavam de simples exercício.

Em seguida, vieram novas mensagens assinadas por diversos espíritos, dente eles Joana de Ângelis, aguardando um momento oportuno para se fazer conhecida como sua orientadora espiritual. Em 1964, selecionou várias das mensagens de sua autoria e enfeixou-as num livro: Messe de Amor. Foi o primeiro livro que o médium publicou. Logo em seguida, o poeta indiano Rabindranath Tagore ditou Filigranas de Luz. Vários outros vieram, num total de 240 títulos em 4,5 milhões de exemplares traduzidos em 15 idiomas. Devido a sua condição de grande pregador, foi alcunhado “Paulo de Tarso do Espiritismo”.

Como orador, é conhecido pela capacidade de envolver a platéia e pelo número de palestras em todo o mundo. Num levantamento pelos seus biógrafos, consta o seguinte: no Brasil esteve em mais mil cidades, com cerca de 8 mil palestras e 970 entrevistas; nas Américas, em 18 países e 119 cidades, com mil palestras e 180 entrevistas; na Europa, em mais de 20 países, com 500 palestras e 50 entrevistas; na África, em 5 países e 25 cidades, com 150 palestras e mais de 12 entrevistas; na Ásia, em 5 países, com 12 palestras.

Faleceu em 13/5/2025 e recebeu inúmeras homenagens no Brasil e no exterior: mais de 80 títulos de cidadania honorária conferidos por Estados e Municipios do Brasil; 590 homenagens de entidades da sociedade civil (148 do exterior e 442 do Brasil); Doutor Honoris Causa em diversas universidades; Ordem do Mérito Militar; Embaixador da Paz no Mundo, concedido pela Embassade Universalle Pour la Paix entre outros. Faleceu em 13/5/2015, aos 98 anos e deixou alguns livros biográficos ou de análise de sua obra: Divaldo, médium ou gênio? (1976), por Fernando Pinto; Moldando o Terceiro Milênio: Vida e obra de Divaldo Pereira Franco (1977), por Fernando Worm; Viagens e entrevistas: Divaldo Franco (1978), por Yvon de Araujo Luz.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Niède Guidon

Niède Guidon nasceu em Jaú, SP, em 12/3/1933. Arqueóloga criadora do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, em 1979 e transformado em Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Neste Parque criou também o “Museu do Homem Americano” e o “Museu da Natureza”, em 2018, abertos à visitação pública. Mas seus feitos maiores não foram apenas estes. Sua maior façanha foi ter alargado em 40 mil anos a história da humanidade na América.

Seus primeiros estudos se deram na cidade natal e em Pirajuí e em Campinas, onde concluiu o curso colegial. Em 1954 ingressou na USP-Universidade de São Paulo e concluiu o curso de História Natural. Foi trabalhar no Museu Paulista, dirigido por Herbert Baldus, que a colocou no Departamento de Arqueologia. Querendo se aprofundar na área e não havendo curso de arqueologia por aqui, foi estudar em Paris. Concluiu o doutorado em pré-história pela Sorbonne e especialização na Université de Paris; retornou ao Brasil em 1963 e continuou a trabalhar no Museu Paulista. No mesmo ano organizou uma exposição de pinturas rupestres e recebeu a visita de um senhor que lhe disse: “Na minha terra tem muitas ‘pinturas de índio’ parecidas com estas”. Ela ficou curiosa e anotou o nome do lugar, São Raimundo Nonato, um lugarejo perdido no sertão do Piauí. Junto com umas amigas foi até lá numa longa viagem de fusca, mas não conseguiram chegar devido a queda de uma ponte.

Em 1964, com o Golpe Militar, perdeu o emprego sem nunca ter se metido em política. Alguém de olho no seu cargo dedurou-a como sendo do Partido Comunista. Voltou à Paris, passou a trabalhar como pesquisadora; fez curso de pós-graduação na Sorbonne; foi professora na École des Hautes Études en Sciences Sociales e desenvolveu uma importante carreira acadêmica em arqueologia. Obteve os maiores títulos da universidade francesa, mas não esqueceu a história dos “desenhos de índios” do Piauí. Em 1973 pode visitar o local junto com seus alunos franceses e ficou deslumbrada com a descoberta da maior concentração de sítios arqueológicos com pinturas rupestres do mundo. Constatou que as pinturas eram mais narrativas, com uma grande quantidade de figuras humanas representadas de modo e gestos diferentes e animais também diferenciados. Segundo ela, “parecia uma história em quadrinhos”.

De volta à Paris entrou em contato com o CNRS-Centre National de la Recherche Scientifique, mostrou fotos do local e ressaltou que era uma região sem nenhuma pesquisa. Assim, conseguiu verba dos franceses para mais uma viagem. Arregimentou colegas da USP para ajudar na empreitada e criou a missão franco-brasileira, dando início a exploração cientifica do local. A partir de recursos obtidos junto ao BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento, o trabalho resultou na criação do Parque Nacional Serra da Capivara (decreto nº 83.548, de 5/6/1979), com a finalidade de proteger o mais importante patrimônio pré-histórico do País. Mais tarde o Parque foi ampliado (decreto nº 99.143, de 12/3/1990) com a criação de áreas de preservação permanentes de 35 mil hectares. Desde a época em que trabalhou na USP já era amiga do casal Ruth e Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde foram grandes apoiadores de benfeitorias no Parque.

Toda essa estrutura tem um sentido maior e deve-se aos estudos arqueológicos iniciados por Niède, que pretendia reescrever a história da povoação das Américas. A teoria mais aceita diz que o homem chegou ao continente pelo estreito de Bering, vindo da Ásia, há 15 mil anos. No entanto, ela achou vestígios no local que datam de mais de 50 mil anos. Os papas da Arqueologia não estão ainda inteiramente convencidos, mas o acúmulo de evidências arqueológicas fortalece cada vez mais suas hipóteses. Pesquisas desenvolvidas no Chile, México e EUA corroboram sua tese. Os artefatos encontrados no Parque foram realmente feitos por seres humanos, e possuem idade entre 33 mil e 58 mil anos, contrariando os adversários de sua teoria. Ela acredita que o Homo Sapiens chegou na América, vindo da África atravessando o Atlântico. Conforme explicou: “o mar estava então 140 metros abaixo do nível de hoje, a distância entre a África e a América era muito menor e havia muito mais ilhas”.

O Parque conta com 130 mil hectares e 1.354 sítios arqueológicos cadastrados, dos quais 204 estão abertos à visitação pública. Tais evidências justificaram a criação da FUMDHAM-Fundação Museu do Homem Americano, em 1986, cujo objetivo é buscar a “compreensão do bioma da região, a reconstituição do passado humano e sua adaptação ao meio, nas diferentes realidades ambientais pelas quais passou a região, desde a primeira ocupação.” Desde 1991, o parque integra a lista de patrimônios culturais mundiais da Unesco e em 2003 foi considerado pela ONU como Unidade de Conservação com melhor infraestrutura da América Latina. O Museu do Homem Americano vem acumulando uma quantidade razoável de peças desde meados de 1970, e durante esse tempo tem recolhido também muitos objetos, fósseis e peças referentes a natureza. São animais pré-históricos, como a preguiça e o tatu gigantes, que necessitavam de um ambiente exclusivo. Assim, em 2002 foi projetado o Museu da Natureza, localizado a 30 km. da sede da FUMDHAM.

Trata-se de um moderno museu instalado no sertão. Na inauguração, em 18/12/2018, a revista “Veja” dedicou-lhe extensa reportagem com o título: “O óvni no meio da caatinga”, dado sua aparência arquitetônica, uma estrutura de aço e vidro de quatro mil metros quadrados em forma de mandala high-tech. O que se pretende é que o museu seja autossustentável, e para isso é preciso que os governos estimulem o turismo na região. Na opinião de sua criadora, a preservação de todo o Parque só será possível com a exploração turística do local. No momento faltam condições de acesso e infraestrutura adequadas.

Niède viveu em São Raimundo Nonato, desde 1992, cuidando do Parque até 4/6/2025, quando veio a falecer aos 92 anos. Com mais de 60 anos de dedicação exclusiva ao Parque Nacional, museus arqueológicos e expressiva contribuição científica, foi homenageada em diversas ocasiões, não obstante continuar sendo uma ilustre desconhecida pela maior parte do povo de seu País: “Mulher do Ano 1997”, pela revista Claudia, da Editora Abril; “Prêmio Faz Diferença” (2005) pelo jornal O Globo; “Prêmio Tejucopapo”, pela revista Nordeste 21; “Medalha Comemorativa dos 60 anos da Unesco”, (2010); “Medalha de Ouro” na premiação para a cultura ‘Herity Italia” (2010); “Prêmio da Fundação Conrado Wessel” (2013); “Prêmio Itaú Cultural 30 Anos” (2017).

Em 2020 foi convidada a ingressar na APL – Academia Piauiense de Letras. De todos estes prêmios e homenagens, o que ela gostaria mais seria ver o Parque sendo visitado pelos turistas de todo o mundo. Ela tinha convicção e conhecimento de causa e efeito para achar que a “melhor forma de preservar é trazer turistas e desenvolver a região”. Além de inúmeros artigos publicados em revistas especializadas, deixou alguns livros documentando seus achados: Peintures préhistoriques du Brésil, publicado em 1991, pela I’imprimerie Hérissey-Évreux; A água e o berço do homem americano. publicado pela Fundação Museu do Homem Americano em 2011; Os biomas e as sociedades humanas na pré-história da região do Parque Nacional Serra da Capivara, Brasil (em parceira com Anne-Marie Pessis e Gabriela Martin), publicado pela A&C Comunicação em 2014.

Em 2023 a pesquisadora Adriana Abujamra lançou a biografia Niède Guidon: a arqueóloga do sertão, publicada pela Editora Rosa dos Tempos (Grupo Record). Para concluir, vale ressaltar que a demissão de funcionários durante a pandemia e a constante escassez de recursos está colocando em risco a conservação dos sítios pré-históricos do Parque Nacional Serra da Capivara. Um Patrimônio Cultural da Humanidade registrando que a humanidade no Brasil é 50 mil anos mais antiga do que se propaga. Trata-se de um dos conjuntos de sítios arqueológicos mais relevantes das Américas, que têm fornecido dados e vestígios importantes para uma revisão geral das teorias estabelecidas sobre a entrada do homem no continente americano.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Mario Pedrosa

Mário Xavier de Andrade Pedrosa nasceu em 25/4/1900, em Timbaúba, PE. Advogado, jornalista, escritor, ativista político e, principalmente, crítico de arte. Iniciador das artividades da oposição de esquerda internacional no Brasil, liderada por Leon Trótski, na década de 1930 e da crítica de arte moderna brasileiira na década de 1940. Foi um dos líderes e teórico do movimento concretista no Brasil.

Filho de Antonia Xavier de Andrade Pedrosa e Pedro da Cunha Pedrosa, usineiro e senador da República, aos 13 anos foi estudar na Suiça, no Institut Quinche, onde ficou até 1916. Ao retornar ao seu País, mudou-se para o Rio de Janeoiro e ingressou na Faculdade Nacional de Direito, onde teve os primeiros contatos com o marxismo, num grupo de estudos organizado pelo Prof. Edgardo de Castro Rebello. Logo após formar-se advogado, em 1923, mudou-se para São Paulo, onde passou a trabalhar não como advogado. Foi redator de política internacional no jornal Diário da Noite. Além disso, publicava também artigos de crítica literária. Seu envolvimento na política resultou na filiação ao PCB-Partido Comunista Brasileiro, em 1926.

Em 1927, mudou-se para São Paulo para assumir a direção da Organização Internacional para Apoio a Revolucionários (Socorro Vermelho), fundada em 1922 pela Internacional Comunista, para prover auxilio moral e material aos comunistas presos ou perseguidos em todo o mundo. Por essa época, teve contatos com os opositores ao stalinismo e foi enviado à Russia, em 1927, onde faria um curso na Escola Leninista Internacional, em Moscou. Na viagem adoeceu, na Alemanha, e por lá ficou, passando a combater o movimento nazista, que se inciava. Na época estudou filosofia, estética e sociologia na Universidade Humboldt de Berlim, com renomados pensadores.

Retornou ao Brasil em 1929 e manteve contatos com Rodolfo Coutinho e Lívio Xavier, que também se opunham às políticas adotadas pela direção do PCB. Pouco depois foi expulso do “partidão”, devido a sua ligação com o movomento trotsksita. Em 1931, junto com alguns amigos, fundou a Liga Comunista, ligada à Oposição de Esquerda Internacional. Em 1938, representou vários partidos operários da América Latina no Congresso de Fundação da Quarta Internacional, em Périgny, França, e foi eleito para o Comitê Executivo da IV Internacional. Após o fim do Estado Novo, retornou ao Brasil e tornou-se crítico de arte do Correio da Manhã (1945-1951), d’O Estado de São Paulo (1951-1956), da Tribuna da Imprensa (1951-1956), Jornal do Brasil (1957-1961) e voltou ao Correio da Manhã em 1966-1968. Nestes jornais conciliava sua condição de crítico de arte com crítica política na seção opinativa.

A II Bienal de Arte de São Paulo, em 1953, consagrou o pintor ítalo-brasileiro Eliseu Visconti, numa exposição especial, considerado por ele como o “inaugurador” da pintura nacional. Nesta Bienal, trouxe obras, como Guernica, de Picasso, bem como obras dos principais mestres da vanguarda artística da época: Paul Klee, Mondrian, Alexander Calder, Edvard Munch, Marcel Duchamp e Juan Gris. Pouco depois, foi secretário-geral da 4ª Bienal (1957); organizou o Congresso Internacional de Críticos de Arte (1959); vice-presidente da AICA-Associação Internacional de Críticos de Arte; presidente da ABCA-Associação Brasileira de Críticos de Arte, além de membro do juri de diversas bienais de arte em todo mundo.

Em 1970 foi processado por denunciar no exterior a prática de tortura a presos politicos e teve decretada a prisão preventiva. Buscou asilo no Chile, que logo se tornou público. A revista The New York Review of Books publicou carta aberta assinada por uma centena de personalidades internacionais (Calder, Picasso, Henry Moore, Max Bill etc.), responsabilizando o governo brasileiro por sua integridade física. Já em Santiago, em 1971, foi convidado pelo diretor do Instituto de Arte Latino-americana, Miguel Rojas Mix, para integrar aquela entidade e ministrar aulas de história da arte latino-americana na Faculdade de Belas Artes de Santiago. Pouco depois, foi incumbido pelo presidente Allende de organizar um museu de arte moderna no país.

Em pouco tempo e graças às suas amizades, conseguiu a doação de mais de mil obras de grandes artistas (Calder, Miró, Picasso etc.) e em 1972, na primeira exposição, foi inaugurado oficialmente o Museo de la Solidaridaried. Regressou ao Chile no ano seguinte dois dias antes do golpe militar e da morte de Salvador Allende. Asilou-se na embaixada do México, para onde se mudou, e depois para Paris, acolhido por novo asilo político. De lá, batalhou e consegiu recuperar as obras doadas ao Museu apreendidas pela junta militar chilena.

Em 1977, já doente, retronou ao Brasil e passou a acompanhar o surgimento das lutas sindicais no ABCD paulista. Em agosto de 1978, publicou o artigo: “Carta a um Operário”, dirigida ao líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, sugerindo a formação de um partido dos trabalhadores clique aqui para ler). Em seguida participou da fundação do PT, em 1980, Foi o primeiro dos intelectuais a se filiar, tendo a ficha de inscrição nº 1. No campo das artes, foi protagonista no surgimento do movimento concretista no Brasil; diretor do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e autor de vários livros: Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília, Calder e a música dos ritmos visuais (1949), Artes, necessidade vital (1949), Dimensões da arte (1951), Forma e personalidade (1951), Panorama da pintura moderna (1951), Da Missão Francesa, seus objetivos políticos (1957), Arte em crise (1975), Panorama da pintura contemporânea, A problemática da arte contemporânea, Arte agora, Arte/forma e personalidade (1979), Da natureza afetiva da forma na obra de arte (1979), além de vários artigos publicados em revistas especializadas. Deixou inacabado o livro A pisada é esta, (sua autobiografia).

Em 1980, ao completar 80 anos, foi homenageado com uma exposição na Galeria Jean, contendo as obras de muitos dos seus amigos artistas, cobrindo o período de 1919 a 1980. Dessa exposição resultou o catálogo “Homenagem a Mário Pedrosa”. No mesmo ano, coordenou a edição do livro Museu da Imagem do Inconsciente, de Nise da Silveira e faleceu em 5/11/1981, aos 81 anos. Em termos biográficos e análise literária, temos: Mario Pedrosa: Retratos do exílio, de Carlos Eduardo de Senna Figueiredo, publicado pela Ed. Antares, em 1981; Mario Pedrosa: Itinerário crítico, de Aracy Amaral e Otília Beatriz F. Arantes, publicado pela Cosac Naify, em 2004; Mario Pedrosa e o Brasil, de Aracy Amaral, publicado pela Fundação Perseu Abramo, em 2001; Mario Pedrosa: arte, revolução, reflexão, de Franklin Pedroso e Pedro Vasquez, publicado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, em 1992 entre outras biografias e análises.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Ana Rosa

Ana Rosa de Araújo Galvão nasceu em 4/9/1787, em São Paulo, SP. Proprietária de terras e filantropa. Viúva e sem herdeiros diretos, fez a doação de 3/4 de seu patrimônio para obras de caridade, particularmente o Instituto Ana Rosa, criado em 1874. Foi a primeira instituição, de iniciativa privada, destinada a proteger crianças e jovens desamparados.

Filha do capitão Manuel Antônio de Araújo e Joaquina de Andrade de Araújo, residia na Rua da Imperatriz (atual Rua XV de Novembro), próximo a Praça da Sé. Casou-se aos 28 anos com o capitão Inácio Correia Galvão e não teve filhos. Já bem idosa, viúva e sem herdeiros, ditou seu testamento ao cônego Joaquim do Monte Carmelo, em 10/6/1860, ano em que veio a falecer. Deixou testamentado que ¾ partes de seus haveres, fossem distribuídos aos pobres, podendo o testamento, a seu arbítrio, doá-las a obras pias (escolas, hospitais, conventos etc.).

Alguns dos testemunhos nomeados já haviam morrido quando se deu a abertura do testamento e outros se encontravam ausentes do país. Dentre os que se encontravam presentes, a escolha recaiu no nome do senador Francisco Antônio de Sousa Queirós. Para atender ao seu desejo, ele optou pela cláusula de aplicação das três quartas partes do legado em obras pias. Completou os fundos necessários à formação da Sociedade Protetora da Infância Desvalida, Hoje Associação Barão de Souza Queiroz de Proteção à Infância e a Juventude, fundada em 1874, que mantém o Instituto Ana Rosa.

O Instituto foi inaugurado em 1899, num grande edifício, localizado na Rua Vergueiro em frente ao largo, que mais tarde recebeu o nome de Ana Rosa, na Vila Mariana. Tempos depois, o Instituto mudou-se para o bairro da Aclimação em pequenos edifícios de 3-4 andares próximo a Rua Topázio, em 1940. No final desta década o Instituto passou por dificuldades financeiras e, tendo em vista a valorização do terreno, deu-se a negociação da área, e aquisição de fundos que possibilitou sua transferência para novas instalações na Vila Sônia, onde se encontrar até hoje.

O Instituto Ana Rosa é uma ONG que abriga mais de mil crianças e jovens em 3 programas. São 300 crianças de 0 a 4 anos no CEI-Centro de Educação Infantil); 360 de 6 a 14 anos no CCA-Centro da Criança e do Adolescente e 340 de 15 a 18 anos no CJ-Centro para Juventude. Sua missão é proporcionar melhores condições de vida, educação, proteção e segurança a crianças e jovens provenientes de famílias de baixa renda e em situação de vulnerabilidade social. Os interessados em conhece-lo, e melhor ainda, ajudá-lo em sua manutenção podem acessá-lo clicando aqui.

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AS BRASILEIRAS: Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz nasceu em 17/11/1910, em Fortaleza, CE. Escritora, tradutora, jornalista, cronista, dramaturga e uma das mais destacadas romancistas da literatura brasileira. Foi a primeira mulher a ingressar na ABL-Academia Brasileira de Letras e primeira a receber o Prêmio Camões, a maior premiação literária da Língua Portuguesa, concedido numa parceria entre Portugal e Brasil.

Sua mãe -Clotilde Franklin de Queiroz- era professora (descendente de José de Alencar) e o pai -Daniel de Queiroz- era advogado. Aos 5 anos, a grande seca do Nordeste de 1915 expulsou a família para o Rio de Janeiro e pouco depois para Belém do Pará. Mas acabaram voltando para Fortaleza, onde ela concluiu o curso normal no Colégio Imaculada Conceição, em 1925. Após escrever uma carta para o jornal “O Ceará” ridicularizando o concurso “Rainha dos Estudantes”, recebeu convite de seu diretor para colaborar no jornal, e passou a escrever crônicas e poemas (com o pseudônimo Rita de Queluz) e publicou seu primeiro romance na forma de folhetim: História de um nome.

Passou a colaborar em outros jornais na década de 1920, quando Mario de Andrade alardeava sua campanha de “abrasileiramento do Brasil”. Influenciada pelo clamor do líder modernista, entrou no irreverente grupo do suplemento literário “Maracajá”, do jornal “O Povo”. Aos 19 anos publicou o romance O Quinze (1930), contando a tragédia da grande seca vivida na infância. O livro deu-lhe projeção nacional e tornou-se sua obra mais conhecida. No ano seguinte, o livro recebeu o prestigiado Prêmio Graça Aranha e tornou-se um clássico da literatura brasileira. Pouco antes passou a se interessar pela política social e ingressou no Bloco Operário Camponês, tornando-se um núcleo do PCB-Partido Comunista Brasileiro.

Em 1932 casou-se com o poeta José Auto da Cruz Oliveira e publicou o segundo romance: João Miguel. Uma dupla tragédia ocorreu em 1933 com a perda da única filha, vitimada por uma meningite com apenas 1 ano e 5 meses, seguida pela morte de seu irmão predileto 3 meses depois. Foi um golpe sobre o qual ela se referiu poucas vezes na vida: “Eu a amei apaixonadamente e nunca me recuperei do golpe que foi perdê-la, assim tão novinha”. Por essa época tem início suas divergências e rompimento com a direção do Partido e uma aproximação com Lívio Xavier e seu grupo em São Paulo, para onde mudou-se em 1933. Junto com Mário Pedrosa, Aristides Lobo e Plínio Mello passou a integrar um grupo de “trotskistas”, dissidentes do “Partidão”. Perseguida pela polícia de Getúlio Vargas, mudou-se para Maceió, em 1935, e viu seu livro na fogueira junto com os de Jorge Amado, Graciliano e José Lins do Rego queimados sob acusação de serem subversivos. Pouco depois foi presa em Fortaleza, cuja experiência resultou no romance Caminho das Pedras (1937).

Já consagrada como escritora, mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1939, e no mesmo ano recebeu o Prêmio Felipe d’Oliveira, com o livro As três marias, um romance intimista, quase autobiográfico. Na ocasião se separou do marido e no ano seguinte casou-se com o médico Oyama de Macedo. Iniciou na crônica jornalística no “Diário de Notícias,” passa pela “Última Hora” e “Jornal do Commércio” e chega a revista “O Cruzeiro”, onde publicou o folhetim O Galo de Ouro (1950). Escreveu mais de 2 mil crônicas semanais na revista O Cruzeiro durante 30 anos, até seu fim em 1975, quando passou a publicá-las no jornal O Estado de São Paulo. Incursionou no gênero dramático e publicou a peça Lampião (1953), garantindo-lhe o Prêmio Saci. Em 1957 recebeu outro prêmio com a peça Maria do Egito, consolidando a carreira de dramaturga.

Além do prestígio literário, tinha livre trânsito na política. Em 1961 foi convidada pelo presidente Jânio Quadros para ocupar o Ministério da Educação, mas declinou: “Sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista”. No entanto não recusou o convite para integrar o Conselho Federal de Cultura, onde permaneceu de 1967 até 1989. Como ela mesmo disse, era mais jornalista do que escritora, com suas crônicas publicadas quase diariamente nos jornais e revistas e, depois, reunidas em livros: Cem crônicas escolhidas (1958), O brasileiro perplexo (1964), O caçador de tatu (1967) entre outras coletâneas. Retornou ao romance em 1975 com Dora Doralina e dois anos depois torna-se a 1ª mulher a ingressar na ABL. Anos depois voltou a ficar mais conhecida do grande público com a publicação do Memorial de Maria Moura (1993) romance que foi adaptado para a TV. No mesmo ano recebeu o Prêmio Camões, o mais cobiçado da língua portuguesa.

Aos 86 anos, uniu-se a irmã Maria Luiza de Queiroz Salek e, juntas, passaram a escrever textos memorialísticos e autobiográficos: Nosso Ceará (1996), Tantos anos (1998) e Não me deixes: suas histórias e sua cozinha (2000), seu último livro. “Não me deixes” é o nome da fazenda de sua família no Ceará, que ela transformou numa RPPN-Reserva Particular do Patrimônio Natural. Em 2000 foi eleita como uma dos “20 Brasileiros empreendedores do Século XX”, numa pesquisa realizada pela PPE-Personalidades Patrióticas Empreendedoras. As premiações, comendas e homenagens foram constantes em sua vida. Além dos prêmios citados, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL (1958), Prêmio Teatro, do INL – Instituto Nacional do Livro (1959), Prêmio Nacional de Literatura de Brasília (1980), Prêmio Moinho Santista (1996) entre outros, e títulos de ”Doutora Honoris Causa” de diversas universidades.

Em termos biográficos, temos um ensaio publicado poucos meses antes de sua morte: No alpendre com Rachel, de José Luís Lira, seguido de um perfil biográfico – Rachel de Queiroz -, publicado por Socorro Acioli no mês seguinte ao seu falecimento pelas Edições Demócrito Rocha, sem contar com autobiografia Tantos anos (1998). Rachel de Queiroz faleceu em 4/11/2003 e foi sepultada envolta numa rede, seu lugar preferido para descanso.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Francisco Matarazzo

Francesco Antonio Maria Matarazzo nasceu em 10/12/1854, em Castellabarte, Itália. Comerciante, industrial, banqueiro e filantropo. Foi um dos homens mais ricos do mundo. Criador do maior complexo industrial da América Latina no início do séc. XX. Obteve o título de Conde e teve mais de 300 fábricas em todo o País com o pomposo nome – IRFM – da família reunindo todas elas. 

Filho de Mariangela Jovane e Costabile Maatarazzo, foi agricultor na Itália e herdeiro da propriedade da família na região de Compânia. Veio para o Brasil em 1881, aos 27 anos, em busca de melhores condições de vida. Trouxe consigo uma carga de 2 toneladas de banha de porco para negociar por aqui. Mas, ao desembarcar no Rio de Janeiro, a carga caiu no mar e ele ficou a ver navios, literalmente. Com o pouco de dinheiro que restou, foi para Sorocaba, virou mascate e depois abriu uma bodega de secos e molhados. Mais tarde se estabeleceu numa pequena indústria de produção de banha de porco.

Em 1890 mudou-se para São Paulo e criou a empresa Matarazzo & Irmãos. O irmão Giuseppe comandava uma fábrica de banha em Porto Alegre e Luigi lidava com um depósito-armazém em São Paulo. Além da banha, passou a importar farinha de trigo dos EUA. A empresa foi dissolvida no ano seguinte, quando foi criada a Companhia Matarazzo S.A., contando com 41 acionistas e controlando as fábricas de Sorocaba e Porto Alegre. Em 1898, a importação de farinha de trigo foi interrompida com a Guerra Hispano-Americana e ele conseguiu crédito do London and Brazilian Bank para construir um moinho de farinha de trigo, em São Paulo.

A partir daí a empresa se expandiu rapidamente com fábricas em todo o País. Chegou a ser a 4ª maior empresa do Brasil. 6% da população paulistana trabalhavam em suas fábricas. Em 1911, promoveu uma mudança no grupo de empresas, passando a tornar-se Indústrias Reunidas Fabricas Matarazzo-IRFM, uma sociedade anônima. Sua estratégia de crescimento, deu-se de um modo natural: “uma coisa puxa a outra”. Assim, para embalar o trigo, montou uma tecelagem; de sacos; para aproveitar a semente do algodão usado na produção do tecido, instalou uma refinaria de óleo; para obter as latas para embalar a banha, criou uma metalúrgica e assim por diante. O título de Conde foi dado pelo Rei da Itália, Vitor Emanuel III, por ter lhe ajudado com mantimentos durante a I Guerra Mundial (1914-1918).

Admirador de Benito Mussolini, contribuiu financeiramente com o fascismo e muitos de seus operários eram imigrantes italianos. De certo modo era visto com desconfiança pela elite tradicional e pela nascente classe média urbana. No entanto participou ativamente do convívio social, se instalou num belo palacete na Avenida Paulista e em 1928 foi um dos fundadores do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo-CIESP e pouco depois da FIESP-Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, em 1931. Faleceu em 10/12/1937, como o homem mais rico do País, italiano mais rico do mundo, detentor da 5ª maior fortuna do planeta, com um patrimônio avaliado na época em 20 bilhões de dólares.

Foi agraciado com títulos nobiliárquicos e comendas: Conde, concedido pelo rei Vitor Emanuel III, da Itália, em 1917; Cavaleiro Magistral da Ordem Soberana e Militar de Malta; Cavaleiro de Grã-Cruz do Grande Cordão da Ordem da Coroa da Itália; Cavaleiro da Ordem de Mérito do Trabalho, Cruz do Cavaleiro da Ordem do Mérito da República da Hungria; Cavaleiro Oficial da Ordem do Cruzeiro do Sul e Presidente Honorário do Palestra Itália (atual Palmeiras). Após sua morte o império de empresas foi se desfazendo na mão dos tantos herdeiros (13 filhos). Mas ainda existem empresas descendentes do império Matarazzo.

A decadência do império é atribuída a má administração dos negócios e aos conflitos familiares. Alguns analistas ressaltam o modelo empresarial engessado, a falta de foco e a perda de certas oportunidades, como o convite feito pelo então presidente Juscelino Kubitschek à família para participar da primeira montadora de automóveis no Brasil, a Volkswagen. Não obstante o tamanho da riqueza, era um homem discreto nos gastos pessoais. Conta a história que numa viagem à Itália, encomendou um terno ao seu alfaiate, que lhe perguntou qual a razão de pedir apenas uma peça, quando seu filho havia encomendado sete há pouco tempo. A resposta foi curta e esclarecedora: “Ele tem pai rico, eu não”.

Seu caráter filantrópico foi reconhecido em grandes obras, como a fundação, em 1904, do Hospital Humberto Primo, conhecido como Hospital Matarazzo, com o slogan “A saúde dos ricos para os pobres”. Teve sua história marcada por um período de prestígio, com a maternidade sendo considerada a melhor da América do Sul na década de 1970. Atualmente, sua descendente Carola Matarazzo dirige o Movimento Bem Maior, cuja missão é alavancar a “filantropia estratégica e colaborativa, para o enfrentamento de desigualdades e promoção da justiça social”.

Duas biografias dão conta de seu legado: Matarazzo: a travessia, de Ronaldo Costa Couto, publicada pela Editora Planeta, em 2004. Conta sua travessia da Itália para o Brasil e a travessia de um mascate ao homem mais rico do País. Outra mais antiga, é um estudo sociológico relatando sua vida e seu império empresarial: Conde Matarazzo, o empresário e a empresa: estudo de sociologia do desenvolvimento, de José de Souza Martins, publicado pela Editora Hucitec, em 1973.