Edwiges de Sá Pereira nasceu em 25/10/1884, em Barreiros, PE. Professora, Jornalista e poeta, foi pioneira no movimento de emancipação da mulher e primeira mulher a ingressar numa academia de letras brasileira, a pernambucana. Em alguns de seus inúmeros textos de jornais e revistas adotou o nome “Eva Militante”.
Filha de Maria Amélia Rocha de Sá e José Bonifácio de Sã Pereira, dedicou-se desde cedo a ler e recitar poesias. Dizia que “haveria de ser poeta”. Na adolescência e junto com o irmão, publicou o jornal Echo Juvenil e pouco depois teve os primeiros versos no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, apresentados por Arthur Azevedo. Em seguida teve o soneto A uma estrela publicado na Revista do Brasil, junto com comentários de Cunha Mendes, dizendo que a menina se tornaria “a primeira poetisa do Brasil.
O primeiro livro veio – Campesinas – em 1901, reunindo 51 versos foi publicado e prefaciado pelo jurista e poeta português Antônio de Souza Pinto. Em 1902, a família mudou-se para Recife e ingressou na Escola Normal, afim de tornar-se professora. Enquanto estudava participou da vida literária na cidade publicando poemas nos jornais e revistas e foi convidada para participar do jornal O Lyrio, formado somente por mulheres, entre as quais Amélia Beviláqua e Úrsula Garcia.
Além da literatura, o jornal trazia textos criticando a rígida sociedade patriarcal, defendia a educação escolar e profissional da mulher, bem como a equidade salarial entre homens e mulheres. Em 1920, passu a ocupar a cadeira nº 7 da Academia Pernambucana de Letras. Mantinha encontros regulares com suas amigas, com discursões sobre a emancipação feminina e estudos literários. Além de professora da Escola Normal, onde estudou, lecionou no Colégio Eucarístico e no Colégio Nossa Senhora do Carmo.
Seu empenho no ensino público levou-a ao cargo de superintendente de ensino dos grupos escolares do Recife. Em 1931, participou do II Congresso Internacional Feminista, com a apresentação do texto Pela mulher, para a mulher, publicado no ano seguinte. Neste Congresso foi decidido a necessidade de uma homenagem robusta às mães”. A solicitação ao Presidente Vargas foi enviada, resultando na oficialização do “Dia das Mães” através do Decreto 21.366, de 5/5/1932
Em seguida fundou a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, um ramo da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e realizou um levantamento estatístico das “mulheres que exercem atividades no funcionalismo de Pernambuco, no comércio e demais interesses da mulher, de modo a subsidiar a a criação de uma “Escola de Oportunidades”. Em 1933, junto com sua colega Martha de Hollanda, candidataram-se à deputadas como únicas mulheres a pleitear o cargo. Não foram eleitas, mas abriram caminho para conquistas posteriores.
Em 1947 publicou a conferência A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra, na qual expôs os impactos da catástrofe da II Guerra Mundial e apontou retrocessos históricos, afirmando que a “questão feminista bem longe está do seu rumo necessário”. Numa entrevista ao Diário da Noite, declarou que “o feminismo é uma evolução natural dos tempos. Como todas as forças vivas da natureza, a mulher não poderia estacionar nas fronteiras do passado, montando guarda aos velhos preconceitos que lhe tolhiam a faculdade de pensar e agir“. Durante a década de 1950 publicou diversos artigos na imprensa e faleceu em 14/8/1958.
Cícero Romão Batista nasceu em 24/3/1844, em Crato, CE. Sacerdote católico e político. Venerado no Nordeste como santo, encontra-se em processo de santificação no Vaticano tramitando há décadas. Porém, já é santo canonizado pela Igreja Católica Apostólica Brasileira desde 1973. Fundou a cidade de Juazeiro do Norte e exerceu grande influência na vida social, política e religiosa do Ceará. Devido a sua fama e supostos milagres, a cidade tornou-se a terceira maior do Estado e referência no Nordeste. Alguns dizem que seu “milagre” foi exatamente este: transformar um pequeno povoado numa cidade com mais de 300 mil habitantes no sertão do Cariri.
Filho de Joaquina Ferreira Gastão e Joaquim Romão Batista, foi influenciado pela leitura da vida de São Francisco de Sales. Aos 16 anos ingressou num colégio de Cajazeiras, PB, mas logo teve que voltar ao Crato, devido a morte do pai. A família passou por uns perrengues financeiros e ele ingressou no Seminário da Prainha, em Fortaleza, com a ajuda de seu padrinho, o coronel Antonio Luís Alves Pequeno. Era considerado um aluno mediano e foi ordenado padre aos 26 anos, em 1870, quando retornou ao Crato. No ano seguinte visitou o povoado de Juazeiro para celebrar a missa do galo. Gostou do lugar e pouco depois fixou residência no local. Exerceu a atividade pastoral com dedicação, pregando, aconselhando e visitando as pessoas da comunidade. Assim conquistou a simpatia de todos num momento em que ocorria a grande seca do Nordeste no período 1877-1879.
Assim, passou a exercer forte liderança na comunidade ao mesmo tempo em que agia com austeridade cuidando da população e coibindo os excessos nos costumes. O trabalho comunitário foi se ampliando e ele decidiu copiar a experiência do Padre Ibiapina, famoso missionário nordestino falecido em 1883, recrutando mulheres solteiras e “homens de boa vontade” para lhe ajudar no trabalho pastoral até que surgiu o primeiro milagre em 1/3/1889. Na missa dominical a hóstia oferecida à Maria de Araújo se transformou em sangue na boca da religiosa. Conta-se que o fenômeno se repetiu várias vezes e espalhou-se a notícia do milagre ocorrido em Juazeiro. A seu pedido, a diocese formou uma comissão de padres e médicos para investigar o suposto milagre. Em 13/10/1891, a Comissão concluiu não havia explicação natural para o ocorrido, confirmando o milagre.
Insatisfeito com o parecer, o bispo Dom Joaquim Alexandrino de Alencar nomeou outra comissão concluindo que houve um embuste. O bispo suspendeu suas ordens sacerdotais, causando o protesto dos fiéis na cidade e resultou num processo que durou até 2015. O papa Bento XVI, quando era cardeal, encomendou um estudo do caso para debater no Vaticano, em 2001, verificando a possibilidade de reabilitação do Pe. Cícero. Em 2006 o bispo Dom Fernando Panico enviou ao Vaticano a documentação técnica visando a reabilitação e, assim, o Padre conseguiu o perdão da Igreja Católica, em 31/12/2015. Seu envolvimento com a política se deu em 1911, quando o povoado passou a ser cidade. Foi o primeiro prefeito de Juazeiro e teve projeção política a partir de 1914, com a Revolta ou Sedição de Juazeiro. Trata-se de um confronto entre as oligarquias cearenses e o Governo Federal, devido à interferência do poder central contra a política do coronelismo. O movimento liderado por Floro Bartolomeu, Antonio Nogueira Acióli, conhecidos líderes políticos, e Padre Cicero marchou até Fortaleza e depôs o governador Franco Rabelo. O Padre sofreu retaliações por parte da igreja, mas permaneceu como “eminência parda” e ampliou sua relevância na cidade.
Em 1926 a Coluna Prestes, um grupo de rebelados do Exército comandado por Luís Carlos Prestes, estendeu suas ações até o Ceará. O então presidente Arthur Bernardes afim de derrotar os revoltosos, convocou seu amigo, o deputado Floro Bartolomeu, para organizar a resistência e derrotar a Coluna. Floro era amigo do Pe. Cícero e contou com sua ajuda para organizar os “Batalhões Patrióticos”. Eram mais de mil homens uniformizados e armados com fuzis do Exército. Saíram no encalço da Coluna, mas se deram mal. O pessoal da Coluna era mais experiente e conseguiu driblar os membros dos Batalhões. Desesperado, Floro consegue mais dinheiro do Governo e amplia sua luta com uma ideia extravagante.
Sabendo que Lampião era devoto do Pe. Cícero, idealizou uma “Guerra Santa” e convenceu o Padre a escrever uma carta à Lampião convocando-o para ajudar os “Batalhões Patrióticos” no combate a Coluna Prestes. Lampião e seu bando vai ao encontro com o Pe. e mais tarde o historiador Lira Neto escreveu que “Deus e o diabo iriam se encontrar na terra do sol”. Lampião chegou a Juazeiro em 4/3/1926; o Padre mandou chamar o funcionário graduado do Ministério da Agricultura, Pedro de Albuquerque Uchoa e fez a apresentação: “Aqui está o capitão Virgulino Ferreira. Ele não é mais bandido. Veio com 52 homens para combater os revoltosos e vai ser promovido a capitão. Olhe, o senhor vai fazer a patente de capitão do Sr. Virgulino Ferreira e a de tenente do seu irmão”. Uchoa ficou pasmo, perplexo e tentou argumentar que não podia, mas o irmão de Lampião foi decisivo: “Não! Se meu padim está mandando o senhor pode”.
Quem primeiro trouxe a história da patente de capitão e a figura de Uchoa ao conhecimento geral foi Leonardo Mota (1891-1947), em seu livro No tempo de Lampião”, lançado em 1930. Parte dos termos do documento referente a patente de Lampião foram: “Pelo Governo Federal é concedido a Virgulino Ferreira a patente de capitão do Exército, por serviços prestados a República”. Lampião não botou fé naquele documento, mas como recebeu 100 contos de réis, armas e muita munição, partiu para o confronto com a Coluna Prestes, que não se deu. Em dado momento, decidiu testar sua autoridade, e mandou um recado aos seus desafetos em Pernambuco (Vila de Nazaré), querendo saber como seria recebido na condição de oficial do Exército Patriótico. A resposta foi concisa: “a bala”.
Lampião tentou falar de novo com o Padre, mas não foi recebido e continuou sua vida de cangaceiro, agora mais rico, mais armado e ostentando o título de “Capitão”. Quem não se deu bem foi o Pe. Cicero. Em 10/8/1926 o jornal do Recife A Noite estampava: “E ainda agora, para coroar toda esta obra de misérias que o Padre Cícero vem desenvolvendo ao longo de anos, Lampião passeia a sua impunidade nas ruas de Juazeiro, garantido e hospedado pelo padre satânico”. Sua força política acabou depois da Revolução de 1930, mas o prestígio como santo milagreiro aumentaria cada vez mais após seu falecimento em 20/7/1934. Em março de 2001, foi escolhido “O Cearense do Século”, em votação promovida pela TV Verdes Mares, em parceria com a Rede Globo; em julho de 2012, foi eleito um dos “100 maiores brasileiros de todos os tempos” em concurso realizado pelo SBT, em conjunto com a BBC; foi declarado “servo de Deus” em junho de 2022 pela Santa Sé, quando foi autorizada a abertura do processo de beatificação; em outubro de 2023, seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”. Uma robusta biografia – Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão – foi escrita por Lira Neto e publicada, em 2009, pela Companhia das Letras.
Amélia Carolina de Freitas Beviláqua nasceu em 7/8/1860, na fazenda Formosa em Jerumenha, PI. Advogada, jornalista, crítica literária, contista, ensaísta e pioneira na luta pelos direitos da mulher. Foi a primeira mulher a se candidatar a uma cadeira na ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1930, e ocupou a cadeira nº 23 da Academia Piauiense de Letras.
Filha de Teresa Carolina da Silva Freitas e do Desembargador José Manuel de Freitas, concluiu os primeiros estudos em Recife, onde conheceu e casou-se, em 1883, com o jurista Clóvis Beviláqua, um dos fundadores da ABL Sua vida literária iniciou ainda cedo, quando era estudante em São Luís, MA, colaborando com o jornal da escola, publicando contos e poesias. Em 1889, publicou artigos nos jornais de Recife e na Revista do Brasil, de São Paulo. Foi, também, redatora oficial do periódico O Lyrio, de Recife, em 1902, uma publicação integrada só por mulheres..
Em 1930, com o falecimento do acadêmico Alfredo Pujol, o marido sugeriu-lhe que se candidatasse à vaga então aberta na ABL-Academia Brasileira de Letras. Essa destemida candidatura feminina, causou agitação entre os “imortais”. O regulamento da Casa previa que todos os brasileiros poderiam participar daquela confraria. No entanto, a expressão não incluía as mulheres, e baseado em tal argumento o pedido foi negado. O marido sustentou que o termo “brasileiros” incluía as mulheres e seu argumento estava fundado em dicionários e na literatura, esclarecendo que “hominis appellatione tam foeminam quam masculum contineri non dubitatur”.
Em seguida, Clóvis manifestou seu protesto junto a ABL: “Fecharam, rudemente, as portas da Academia, para Amélia, a quem se não pode recusar o título de fina artista da palavra escrita, à vista de numerosos trabalhos publicados, nos quais o sentimento e a ideia se exprimem por forma correta e límpida. Ainda quando lhe recusem uma cadeira no recinto acadêmico, por não quebrarem a norma rotineira, devia merecer a atenção, e o tratamento delicado, a quem tem direito, como escritora e como mulher da sociedade”. Conta a história que a partir deste dia ele deixou de frequentar a ABL.
Na década de 1920, ela já era um nome reconhecido por críticos como Sílvio Romero e Araripe Júnior, tendo várias obras publicadas por Bernard de Fréres, importante editora da época. Sua projeção literária inspirou outras mulheres, especialmente as que viviam no Piauí, a publicar seus escritos. Nesse contexto, dá-se a superação de uma lacuna no período da escrita feminina piauiense, que se seguiu após o fim do primeiro jornal de redação exclusivamente feminina do Piauí, Borboleta (1904-1906); e o surgimento da revista Alvorada (1909-1912).
Assim, a escrita feminina ressurgia com as mulheres e seus nomes e pseudônimos, importante recurso literário que foi utilizado por várias escritoras, como Charlotte Brontë ou Nísia Floresta. Entre suas obras encontram-se a poesia e contos, bem como polêmica e ensaios: Alcyone (1902), Instrução e Educação da Infância (1906), Literatura e Direito (1907), Vesta (1908), Angústia (1913), Açucena (1921), Impressões (1929), Flor do Orfanato (1931), Divagações (1931), Recordação do dia 7 de Agosto (1933), Alma Universal (1935) entre outros.
Faleceu em 17/11/1946 e teve sua memória registrada no artigo “Amélia Beviláqua que era mulher de verdade: a memória construída da esposa de Clóvis Beviláqua”, publicado por Wilton Carlos Lima da Silva na revista INTER thesis, vol, 11, nº 2, jul-dez. 2014, da UFSC. No artigo vemos que ela apresentava “atitudes ‘modernistas’ de vanguarda, consideradas até um tanto ou quanto amalucadas. Lembrada como dona de casa excêntrica, onde os animais domésticos disputavam espaços nos sofás e os pombos e galos voavam por sobre as cabeças dos visitantes; ou como desalinhada e de mau aspecto sob o ponto de vista físico; lembrada ainda como de comportamento avançado sob o ponto de vista moral; muitos esquecem o valor literário que Amélia possuiu”.
Os Irmãos Villas-Bôas: Orlando (1914-2002), Cláudio (1916-1998), Leonardo (1918-1961) e Àlvaro (1926-1995) nasceram no interior de São Paulo. Foram importantes sertanistas brasileiros, que se alistaram na Expedição Roncador-Xingu, em 1941. Com a “Marcha para o Oeste”, o Governo Vargas precisava desbravar o Brasil Central, até então uma região povoada por índios. Os 3 irmãos acabaram se tornando protagonistas na defesa da causa indígena, com a fundação do Parque Indígena do Xingu, em 1961, a mais importante reserva indígena das Américas.
A Expedição contava com nomes que vieram a se tornar ilustres na História do País, como Marechal Rondon, Noel Nutels e Darcy Ribeiro. Foi integrada por cerca de 40 sertanejos e ao saberem da convocação, os Irmãos Villas-Bôas, exceto Cláudio, decidiram participar. Foram barrados por terem um alto nível de conhecimento para um sertanejo. Assim, eles voltaram em seguida com barbas por fazer, mal vestidos e fingindo-se de analfabetos. Logo foram aceitos, pois o comando da Expedição preferia os analfabetos, que considerava mais úteis no trabalho de desbravamento.
Iniciaram no trabalho duro, mas com o tempo alcançaram postos de comando na expedição. Passaram cerca de trinta e cinco anos no Brasil Central e contribuíram de maneira expressiva para o conhecimento da região e para a preservação do local. Catalogaram várias tribos, criaram algumas cidades como postos-base (pontos de entroncamento) e concluíram sua obra maior com a criação o Parque Indígena do Xingu. Com o afastamento do comandante, em 1945, a Expedição passou a ser chefiada pelos irmãos Villas Boas. A partir daí deu-se a mudança no caráter da Marcha para o Oeste, que tinha tudo para ser uma expedição violenta, mas se tornou uma expedição de contato baseado no ideal do Marechal Cândido Rondon no contato com os índios: “Morrer se preciso, matar nunca”.
No roteiro da Expedição em toda a sua extensão entre os Rios Araguaia, Mortes e Kuluene (região da Serra do Roncador), Kuluene-Xingu (abrangendo extenso vale), Xingu-Mauritsauá (cobrindo ampla região do Rio Teles Pires ou São Manuel, alcançando, ainda, a encosta e o alto da Serra do Cachimbo, foram criados mais de 40 municípios e vilas, 4 bases de proteção de voo do Ministério da Aeronáutica, com destaque para a Base da Serra do Cachimbo. Os irmãos Villas-Bôas permaneceram no Sertão por 42 anos e foram os protagonistas de uma politica indigenista conduzindo pacificamente o contato com todas as tribos e levando até a criação da reserva Parque Indígena do Xingu.
O objetivo não era pacificar os índios com vistas a transformá-los em trabalhadores rurais e sim manter sua integridade cultural. A base da política defendida pelos irmãos Villas-Bôas consistia na ideia: “O índio só sobrevive na sua própria cultura”. Segundo Darcy Ribeiro, eles conduziram os “índios xinguanos do isolamento original em que os encontraram até o choque com as fronteiras da civilização. Aprenderam a respeitá-los e perceberam a necessidade imperiosa de lhes assegurar algum isolamento para que sobrevivessem. Tinham uma consciência aguda de que, se os fazendeiros penetrassem naquele imenso território, isolando os grupos indígenas uns dos outros, acabariam com eles em pouco tempo. Não só matando, mas liquidando as suas condições ecológicas de sobrevivência.”
A sustentação da política indigenista dos irmãos Villas-Bôas era fundada em dois princípios básicos: a) os índios só sobrevivem em sua própria cultura; b) os processos integrativos ocorridos historicamente no Brasil teriam, via de regra, conduzido à desagregação das comunidades indígenas e não à sua efetiva participação em nossa sociedade. A declaração de Cláudio Villas-Bôas é esclarecedora sobre os propósitos da Expedição: “Se achamos que nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela Terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.”
Orlando faleceu em 2002; Leonardo em 1961; Cláudio em 1998 e Álvaro em 1995. Álvaro é o menos conhecido, pois fixou-se em São Paulo, onde passou a se dedicar a dar apoio logístico às missões e chegou a assumir a presidência da FUNAI por um curto período, em 1985. Receberam diversas homenagens com destaque para “Medalha do Fundador” pela Royal Geographical Society of London, com aprovação da Rainha da Inglaterra; “Grau Oficial da Ordem do Rio Branco” e “Grão Mestre da Ordem Nacional do Mérito”, as mais altas condecorações brasileiras; membros do “The Explorers Club of New York” ; foram indicados para o “Prêmio Nehru da Paz”, bem como para o “Prêmio Nobel da Paz” por Claude Lévi-Strauss e Julian Huxle. Receberam 5 títulos de “doutor Honoris causa” de universidades brasileiras e algumas dezenas de títulos de cidadãos honorários no Brasil.
O trabalho exploratório no interior do Brasil, realizado pelo Irmãos Villas Bôas, permitiu o mapeamento de um território até então desconhecido. Num relato sucinto deste trabalho, consta o seguinte: Expedição Roncador-Xingu: cerca de 1.500 quilômetros; Rios navegados (explorados): cerca de 1.000 quilômetros; Campos abertos (inclusive aldeias): 19; Campos (hoje bases militares para a segurança de voo): 4; Marcos de coordenadas: 6; Tribos assistidas (aldeias): 18.
Orlando Villas Bôas Filho publicou em 2014 um misto de biografia junto com a epopeia de seu pai: Orlando Villas Bôas e a construção do indigenismo no Brasil, publicado pela Editora Mackenzie. Porém, eles deixaram alguns livros registrando suas trajetórias junto aos índios. A marcha para o oeste (Ed. Globo, 2012), Almanaque do sertão (Ed. Globo, 1997), Os náufragos do rio das mortes e outras histórias (Ed. Quarup, 1990), Histórias do Xingu (2013) Xingu: os contos do Tamoin (2014); Xingu: os índios, seus mitos (Ed. Kuarup, 1970), A arte dos pajés: impressões sobre o universo espiritual do índio xinguano (Ed. Globo, 2000), História e causos (Ed. FTD, 2005) entre outros. Contam também com uma biografia: História dos irmãos Villas Bôas, publicado pela RG Editores, em 1997 e uma cine-biografia – Xingu -, dirigida por Cao Haamburger, lançada em 2012.
Paula Beiguelman nasceu em 5/6/1926, em Santos, SP. Destacada cientista social, pesquisadora, professora e primeira mulher a ingressar por concurso na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP-Universidade de São Paulo. É considerada pelo CNPq uma das pioneiras da ciência no Brasil.
Filha de Cecília e Rafael Beiguelman, imigrantes judeus que vieram da Polônia e se estabeleceram num bairro operário de Santos, onde concluiu os primeiros estudos. Com algum esforço, a família conseguiu sua mudança, em 1941, para São Paulo afim de ingressar na FFLCH da USP. Para se manter no curso, conseguiu ajuda de alguns professores com uma bolsa de estudos.
Obteve a licenciatura em 1945 e prestou concurso para trabalhar no funcionalismo público do Estado, passando em 1º lugar. Atuou no Departamento Estadual de Estatística até 1949, quando surge a oportunidade de retornar à faculdade como assistente do prof. Lourival Gomes Machado. Aí tem início a carreira acadêmica, assumindo a titularidade e vindo a substituir o professor em diversas ocasiões.
Em 1954 iniciou o curso de pós-graduação e no ano seguinte já era responsável pelo curso de “Introdução à Ciência Política”. Sua tese de doutorado, defendida em 1961, versou sobre a Teoria e ação no pensamento abolicionista. Em 1967 defendeu a tese de livre-docência: Contribuição à teoria da organização política brasileira e no ano seguinte pleiteou a cátedra com o trabalho: A formação do povo no complexo cafeeiro, concorrendo com Fernando Henrique Cardoso pela titularidade. Não conseguindo a cátedra de Ciência Política, mudou de cátedra passando estudar a História da Civilização Brasileira, dirigida por Sergio Buarque de Holanda.
Após alguns anos como professora e pesquisadora na área, foi aposentada compulsoriamente pelo regime militar junto com Emília Viotti, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso entre tantos outros. Foi viver na Europa e retornou ao Brasil, com a anistia em 1979. Mais tarde, em 2003, voltou à USP com o título de professora emérita orientando diversos mestrandos e doutorandos. O tema central de sua carreira e obra foi levantar a discussão sobre a transição do trabalho escravo para o trabalho livre no Brasil.
Desmontou o mito do abolicionismo como uma dádiva da corte e redirecionou os estudos sobre este curso da História. Na época o pensamento vigente na USP era que a substituição do trabalho escravo era um espelho do processo de construção do capitalismo e da sociedade de mercado, um processo macrossocial. Ela, no entanto, postulava “que não havia contradição entre capitalismo e escravidão e a expansão do capitalismo não precisava se fazer, necessariamente, com a substituição da mão-de-obra escrava”.
Faleceu em 5/6/2009 e sua obra contempla diversos aspectos e visões da História, expressa no título de alguns livros publicados: Formação política do Brasil, vol. 1, Teoria e ação no pensamento abolicionista. São Paulo: Pioneira. (1967); A formação do povo no complexo cafeeiro: aspectos políticos, São Paulo: Pioneira. (1977); Os companheiros de São Paulo, São Paulo: Símbolo. (1977); Pingo de azeite: a instauração da ditadura, São Paulo: Perspectiva. (1994) e a biografia Joaquim Nabuco, São Paulo: Perspectiva. (1995).
Na falta de uma biografia sua, temos a tese defendida por Dimitri Pinheiro da Silva “Da política à ciência política, da ciência política à política: a trajetória acadêmica de Paula Beiguelman (1949-1969), focada em sua carreira acadêmica. Para acessar clique aqui.
Eliseo D’Angelo Visconti nasceu em Salermo, Itália, em 30/7/1866. Pintor, desenhista e designer. Despontou como pintor entre os séculos XIX e XX, é considerado um dos mais importantes pintores brasileiros e o mais expressivo representante da pintura impressionista do Brasil. Foi considerado, em 1953, o “inaugurador da pintura nacional” pelo crítico de artes Mario Pedrosa.
Filho de Christina Visconti e Gabriel d’Angelo, imigrou para o Brasil ainda criança com sua irmã, em 1873, e passou a viver na fazenda de Luiz de Souza Breves, o Barão de Guararema, em Minas Gerais. A esposa do Barão adotou o garoto como um filho e cuidou de sua educação. Estudou no Rio de Janeiro e após um frustrado início na música, ingressou no Liceu de Artes e Ofícios, em 1882. Pouco depois ingressou na Academia Imperial de Belas Artes, tendo como professores grandes pintores, como Victor Meirelles, Henrique Bernardelli e Rodolfo Amoedo.
Em 1890 integra o grupo dos “modernistas”, que abandonam a Academia para fundar o “Ateliê Livre”. No governo republicano, a Academia transforma-se na Escola Nacional de Belas Artes e ele volta a frequentá-la. Mais tarde, foi premiado num concurso do Governo com uma viagem à Paris. Ingressou na École Nationale et Spéciale des Beaux-Arts e cursou arte decorativa na École Guérin, com Eugène Grasset, um dos expoentes do movimento Art Nouveau. Expôs em algumas galerias da cidade e recebeu Medalha de Prata na Exposição Universal de Paris, em 1900. Aproveitou a viagem para conhecer Madrid e fez algumas cópias de Diego Velázquez. Na volta ao Brasil não pode trazer sua amada Louise Palombe, mas depois tornou-se o amor de toda sua vida, tornando-se a inspiradora de sua obra.
Em Paris e Madrid inova em sua pintura na temática e na execução da obra. Adquire as técnicas do impressionismo, assimila suas leituras e encara a “art nouveau” sem romper com o aprendizado adquirido no Brasil. Em 1901 organizou sua primeira exposição individual na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, incluindo os trabalhos de design e em 1903 levou a exposição a São Paulo. Sua primeira incursão pelo design incluía cartazes, cerâmicas, tecidos, papéis, vitrais etc. A exposição foi um sucesso e foi elogiada pela revista francesa “L´Illustration”. Em seguida venceu um concurso organizado pela Casa da Moeda, com 16 selos postais
O sucesso da exposição motivou o prefeito Pereira Passos a convidá-lo para executar todas as pinturas da sala de espetáculos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. No período 1908-1913, lecionou pintura na Escola Nacional de Belas Artes. Deixou o cargo de professor para retornar à Europa e realizar a decoração do foyer do Theatro Municipal, sua obra prima. Em 1920 retornou ao Brasil como grande pintor com um expressionismo próprio, marco divisório na pintura brasileira. O crítico Mario Pedrosa fez questão de ressaltar e reclamar: “Nasce uma nova paisagem na pintura do Brasil {…}. “Foi pena que o movimento moderno brasileiro, no seu início, não tivesse tido contato com Visconti. Os seus precursores teriam muito que aprender com o velho artista, mais experimentado, senhor da técnica da luz, aprendido diretamente na escola do neoimpressionismo”.
Foi esquecido pelos realizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, mas foi agraciado no mesmo ano com a Medalha de Honra na Exposição Comemorativa do Centenário da Independência. Porém, acompanhou com interesse os acontecimentos em São Paulo, para os quais não foi convidado. Mais tarde Pietro Maria Bardi não deixou por menos em seu comentário: “Esqueceram o único realmente moderno de sua época, que era Visconti”. Em 1926, apresentou nova exposição de design incluindo o ex-libris e o emblema da Biblioteca Nacional. No ano seguinte, deu início a fase de paisagens de Teresópolis.
Em meados da década de 1930, voltou ao Theatro Municipal para trabalhar em sua expansão e durante 2 anos manteve um curso de extensão universitária de artes decorativas na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Assim, tem início o ensino de design no Brasil. Sua atualidade permanece retratada em obras com tal grau de versatilidade, colocando-o como o mais expressivo representante do impressionismo e como pioneiro do nosso design, antecipando a modernização da arte brasileira. Era perceptível uma evolução em sua técnica sempre em busca do novo. Mais uma vez o crítico Mario Pedrosa se referiu ao pintor como o inaugurador da pintura nacional: “com as paisagens de Saint Hubert e de Teresópolis, Visconti é o inaugurador da pintura brasileira, o seu marco divisório. Nasce uma nova paisagem na pintura do Brasil. Ninguém na pintura brasileira tratou com idêntica maestria esse tema perigoso da luz tropical”.
Em 15/10/1944 seu ateliê foi assaltado e ele foi golpeado na cabeça, vindo a falecer aos 78 anos. Em 1953, a II Bienal de São Paulo apresentou uma sala especial em homenagem ao pintor ítalo-brasileiro. Sua vida e obra ficaram registradas em três livros: Eliseu Visconti – A modernidade antecipada, de Miriam Seraphim, publicado pela Holos Consultores Associados, em 2012; Eliseu Visconti – A arte em movimento, de Tobias Visconti, publicado pela mesma editora em 2012 e Eliseu Visconti e seu tempo, de Frederico Barata, publicado por Zélio Valverde, em 1944.
Bertha Koiffman Becker nasceu em 7/11/1930, no Rio de Janeiro. Professora de Geografia e História pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (atual UFRJ), doutora e livre-docente pelo Instituto de Geociências da UFRJ, com pós-doutorado pela Department of Urban Studies and Planning, do MIT-Massachusetts Institute of Technology e membro da Academia Brasileira de Ciências. Tornou-se uma destacada profissional na área da Geografia Política.
Filha da ucraniana Adélia e do romeno Isaac Koiffmann, imigrantes chegados ao Brasil na década de 1920. Ingressou na Universidade do Brasil (atual UFRJ) e obteve licenciatura e bacharelado em Geografia e História em 1952. Tornou-se professora em 1958 e doutorou-se em 1970 no Instituto de Geociências, com a tese “O norte do Espírito Santo, região periférica em integração”, apresentada também como tese de Livre Docência. Na década seguinte foi o pós-doutorado nos EUA (1986) e na volta ao Brasil tornou-se professora titular do Instituto de Geociências, da UFRJ, onde passou ase dedicar a geografia política e criou o Laboratório de Gestão do Território-LAGET.
Dedicou-se, também, ao estudo da agropecuária e seu crescimento em torno do Rio de Janeiro e São Paulo, seu avanço para Goiás e daí para a Amazônia. Em seguida toma a região amazônica como seu tema principal e ficou conhecida como “cientista da amazônia”. Sua área específica de estudo era a geografia política da região, fazendo uma síntese das mudanças decorrentes das transformações ocorridas nas dinâmicas espaciais da região. Durante anos combateu o desmatamento desenfreado da região em favor da pecuária e promoveu o desenvolvimento de suas riquezas naturais, tais como a extração de óleos e outras obras primas para a fabricação de cosméticos e fármacos.
Atuou como consultora e assessora de alguns Ministérios: Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente, Relações Exteriores e Integração Regional. Dirigiu e integrou grupos de pesquisas internacionais na União Geográfica Internacional (UGI), foi Presidente da Comissão Nacional e da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE) e participou da concepção do Plano Amazônia Sustentável. Foi professora visitante no MIT (USA), assim como na Universidad Autonoma de Mexico, na Université Paris X Nanterre e na Loughborough University, na Inglaterra.
Como membro do Instituto Rio Branco, atuando na formação de diplomatas, no período 1966-1976, ela consagrou uma nova frente de pesquisa: a Geografia Política. Ao perceber a importância desse campo da ciência geográfica para a formação dos futuros embaixadores brasileiros, passou a dirigir sua reflexão para a importância do território nas relações internacionais, bem como a identificar os atributos que o qualificam na projeção de poder de um país, no qual analisam a projeção do Brasil como potência regional muito antes que ela se configurasse uma realidade para tantos outros pesquisadores. Teve participação destacada no projeto “Large Scale Biosphere Atmosphere Experiment In The Amazon (LBA)”, uma relevante pesquisa de longo alcance financiada por orgãos internacionais e brasileiros, em 2001.
Recebeu diversos títulos e homenagens: Comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico (2007), Conferencista Emérita-Escola Superior de Guerra (2007), Doutora honoris causa-Universidade de Lyon (2005), Medalha Carlos Chagas Filho de Mérito Científico (2000), Medalha David Livingston Centenary-American Geographical Society (2001), Medalha do Mérito Geográfico – Sociedade Brasileira de Geografia (2007), Homenagem do Departamento de Geografia-UNESP (2003). Sua produção acadêmica com mais de 140 textos entre livros, capítulos de livros e artigos publicados em revistas científicas: As Amazônias (3 volumes) Ed. Garamond (2015), A Urbe Amazônida. Ed. Garamond (2013), Amazônia-Geopolítica na Virada do III Milênio. Ed. Garamond (2004). Uma Nova Potência Regional na Economia-Mundo Ed. Bertrand Brasil (1993). Geopolitica da Amazônia: A Nova Fronteira de Recursos. Ed. Zahar (1982), entre outros.
Ao se aposentar como professora na UFRJ, continuou atuando como Professora Emérita, coordenando o Laboratório de Gestão do Território até o final de sua vida, em 13/7/2013. Pouco antes de falecer, lançou seu último livro: A Urbe Amazônica, pela Ed. Garamond, no qual se dedicou a estudar as cidades da/na floresta, bem como a rede urbana formada na Amazônia. Nessa obra, a geógrafa critica uma vez mais o modelo aplicado no desenvolvimento das cidades amazônicas, que se pautou pela reprodução do uso da terra baseado na renda da terra urbana, sem considerar os atributos naturais que qualificam de modo singular essa parcela do território brasileiro. Na falta de uma biografia, citamos o artigo O planejamento territorial, o estado e a Amazônia na obra de Bertha Becker: algumas reflexões, publicado na “Revista Bibliográfica de Geografia y Ciencias Sociales”. Universidad de Barcelona, diciembre de 2014, vol, XIX, nº 1103(2), por Neli Mello-Théry e Hervé Théry.
Francisco Solano Trindade nasceu em 24/7/1908, no Recife, PE. Poeta, pintor, folclorista, ator, cineasta, teatrólogo e um dos nomes destacados na luta pela emancipação e valorização da cultura negra no último país das Américas, o novo mundo, a abolir a escravidão em 1888.
Filho de Emerenciana Maria de Jesus e Manuel Abílio Trindade, uma família humilde do bairro São José, onde realizou os primeiros estudos no Colégio Agnes Americano. O pai foi sapateiro e comerciário e participava das danças de Pastoril e Bumba-meu-boi em companhia do filho, que passou a apreciar a arte popular. Em 1934 idealizou o I Congresso Afro-Brasileiro, no Recife, e o II em Salvador, em 1936. A década de 1930 foi marcada por uma releitura da questão racial brasileira, ocorrida com o lançamento do livro Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, em 1933. O objetivo destes congressos foi incrementar e valorizar a contribuição cultural dos descendentes africanos.
Ainda em 1936, fundou o Centro Cultural Afro-Brasileiro e a Frente Negra Pernambucana, como extensão da Frente Negra Brasileira. Nesta época publicou seus primeiros Poemas Negros e viajou pelo País, visitando Minas Gerais e Rio Grande do Sul, onde criou o Grupo de Arte Popular, em Pelotas e pouco depois partiu para o Rio de Janeiro. Em 1944 publicou o livro Poemas de uma vida simples. No ano seguinte, junto com Abdias Nascimento, criou o Comitê Democrático Afro-Brasileiro. Em seguida, junto Haroldo Costa, fundou o Teatro Folclórico. Desde então, passou a atuar na política, filiado ao Partido Comunista e mantinha reuniões em sua casa.
Em 1935 casou-se com Margarida Trindade, com quem teve 4 filhos. Durante o Governo Dutra (1946-1953) foi preso político e pouco depois criou o Teatro Popular Brasileiro junto com a esposa e o sociólogo Edson Carneiro, em 1950. Em seguida, foi convidado a se apresentar na Europa, mostrando seu trabalho em diversos países. De volta ao Brasil, esteve em São Paulo e foi convidado pelo escultor Assis do Embu para uma apresentação naquela cidade, onde passou uma temporada. Na época Embu já se mostrava como uma cidade receptora de artistas. Seu grupo atraía grande número de espectadores com peças, tais como Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1967. Por essa época conheceu e fez uma apresentação para Leopold Senghor, escritor e ex-presidente senegalês e um dos ideólogos do conceito de negritude.
Apaixonou-se pela cidade e mudou-se para Embu, tornando sua casa um núcleo artístico. Suas atividades, junto com Assis, resultaram no surgimento da feira de artesanato provocando uma transformação radical na cidade, com o aumento do fluxo turístico. Ele chegou a ser conhecido como o “patriarca do Embu”. Mais tarde a cidade passou a se chamar, por decreto, Embu das Artes (2011) e ele foi homenageado com o nome de uma escola, uma rua no centro da cidade e o Teatro Popular Solano Trindade. Sua poesia, carregada de sentimento, expressa uma identidade racial e social identificada com os negros e com as classes populares. O poeta Carlos Drummond de Andrade declarou “Há nesses versos uma força natural e uma voz individual rica e ardente que se confunde com a voz coletiva”.
Um de seus poemas mais conhecidos, Tem gente com fome, foi musicado e gravado por Ney Matogrosso. Trem sujo da Leopoldina correndo parece dizer “tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome”. O ritmo é acelerado, mas no final quando vai parando, uma voz sentencia: “se tem gente com fome, dá de comer”. Deixou uma expressiva obra ressaltando a cultura de seu povo: Poemas de Uma Vida Simples (1944), Cantares ao Meu Povo (1963). Em 2008, ano de comemoração do seu centenário foi lançada, pela Ediouro, uma coletânea de poemas, incluindo alguns inéditos, com um título apropriado: O Poeta do Povo. Em seguida foi lançada mais uma coletânea: Poemas Antológicos (2009), pela Editora Nova Alexandria.
A partir de 1970 a saúde foi se complicando e veio a falecer em 19/2/1974. No carnaval de 1976 foi homenageado pela Escola de Samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha Raquel. Os versos do samba de Geraldo Filme ecoaram pela avenida: “Canta meu povo, vamos cantar”, fazendo justiça a uma de suas máximas: “Devolver ao povo em forma de arte”. Pouco antes de falecer deixou um conselho ao seu povo: “tem de haver maior solidariedade entre os negros de todo o mundo, os quais deveriam se reunir aos brancos que são contra o racismo”.
Bella Karacuchansky Jozef nasceu em 29/1/1926, no Rio de Janeiro. Professora, crítica literária e pioneira na área da pesquisa literária. Trata-se de uma das maiores especialistas em literatura hispano-americana do Brasil e dedicou toda sua vida a difundir esta literatura em diversas esferas, promovendo a inserção do Brasil na América Latina e vice-versa.
Filha de Rosa Schechter e José Karacuchansky, imigrantes judeus russos. Em 1945 formou-se em Letras Neolatinas pela Universidade do Brasil, atual UFRJ, e logo tornou-se assistente do poeta Manuel Bandeira, na cátedra de literatura hispano-americana da Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1956, Bandeira aposentou-se e ela assumiu suas aulas. No ano seguinte obteve o título de livre-docente e passou a se dedicar à pesquisa da produção literária latino-americana.
Criou o Seminário Permanente de Estudos Hispano-americanos (SEPEHA), na UFRJ, que resultou na edição da Revista América-Hispânica, em 1987. Com tais atividades, além dos livros publicados, foi agraciada com a “Ordem do Mérito do Sol”, no Peru, e a “Ordem das Palmas Acadêmicas”, na França. Na UFRJ coordenou os cursos de pós-graduação; integrou o conselho Editorial; realizou diversos eventos promovendo o intercâmbio de professores e intelectuais da região e fundou a cátedra Alfonso Reys, de intercâmbio Brasil-México. Em 1996, aos 70 anos, recebeu o título de Professora Emérita da UFRJ.
Em 1988 fundou a revista América Hispânica, importante veículo dos mais destacados intelectuais da América Latina, e foi sua editora por 17 anos. Dedicou alguns de seus números a Jorge Luís Borges, Carlos Fuentes, Juan Carlos Onnetti, Ernesto Sábato, Cabrera Infante etc. Fora da universidade, dirigiu um programa cultural na Rádio Roquette Pinto, onde recebeu expoentes da vida literária e foi entrevistadora do projeto FINEP: “Os escritores: criador e criaturas”. Durante décadas publicou artigos e resenhas críticas em suplementos literários dos grandes jornais. A partir da década de 1950, contribuiu para a transição da narrativa tradicional para a nova narrativa hispano-americana, que resultou no fenômeno editorial conhecido como “boom latino-americano”, com Jorge Luís Borges, García Márquez, Juan Rulfo, Vargas Llosa, Ricardo Piglia, Manuel Scorza entre outros.
Na década seguinte enfrentou os desafios políticos com os longos debates sobre o papel do intelectual e formas possíveis de resistência ao autoritarismo. Teve papel relevante no intercâmbio cultural entre os países da América Latina e construiu pontes entre os consulados da Argentina, México, Chile etc. integrando o Brasil no contexto latino-americano. Seu lado feminista se manifestava nos estudos sobre erotismo e literatura e no acompanhamento da obra de Dinah Silveira de Queiroz, Clarice Lispector, Nélida Piñon, Rosario Castelhanos entre outras.
Por outro lado, atuou difundindo a literatura brasileira junto aos hispano-americanos, através de cursos, conferências e livros; ajudando a revelar novos talentos literário através dos concursos de cujo jurado participava, como o da Casa de Las Américas. Foi vice-presidente do Instituto Internacional de Literatura Ibero-americana. Representou o Brasil, a convite do Ministério da Cultura, nas Feiras Internacionais do Livro de Guadalajara e de Bogotá. Como reconhecimento internacional por seu trabalho na difusão da cultura e na integração latino-americana, foi condecorada com a Ordem de Maio do governo argentino; com a Ordem do Sol, do governo peruano, e com as Palmas Acadêmicas do governo francês.
Faleceu em 10/11/2010 e deixou inéditos alguns livros, prólogos, poemas e uma grande biblioteca especializada em literatura, que foi doada à UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre suas obras publicadas, destacam-se: História da Literatura Hispano-americana. Ed. Francisco Alves, 2005; A máscara e o enigma. Ed. Francisco Alves, 1986; Diálogos oblíquos. Ed. Francisco Alves, 1999; O espaço reconquistado. Ed. Paz e Terra, 1993; Antologia General de la Literatura Brasileña. Ed. Fondo de Cultura Económica, 1995. Recebeu diversos prêmios e condecorações, com destaque para os prêmios “Silvio Romero” e “Assis Chateaubriand” da Academia Brasileira de Letras (1978); “Personalidade Cultural do ano” da UBE (1982); “Palmas Acadêmicas”, do Governo Francês (1995); Professora Emérita da UFRJ (1996).
Luís Antônio Macedo de Sousa Queirós nasceu em 1746, em Amarante, Portugal. Foi um militar luso-brasileiro, bem-sucedido empresário e negociante de terras em São Paulo, em fins do século XVIII e início do XIX. Acumulou uma fortuna, propiciando o surgimento de uma “dinastia” de cafeicultores no Oeste Paulista. Foi também um filantropo na criação e auxilio a entidades assistenciais.
Filho de Ana Maria Macedo e José Luiz de Souza, veio para o Brasil aos 20 anos e fez carreira militar na Companhia de Cavalaria de Itu, do Regimento de Milícias. Em pouco tempo recebeu diversas promoções até o posto de coronel e foi reformado como Brigadeiro, em 1818. Além de grande proprietário de terras, com 16 fazendas na região de Campinas, era um exímio negociante de terras. Foi também um grande empreendedor, dono do primeiro navio que saiu de Santos, carregado de mercadorias, com destino a Lisboa.
Seus diversos negócios e as alianças comerciais e políticas foram relevantes no processo de acumulação de riqueza dessa época. Esta fase marcou o início do desenvolvimento da região paulista, que até então servia apenas de passagem para tropeiros rumo a Minas Gerais e Goiás em busca de ouro e pedras preciosas. Como empresário, foi um dos primeiros a entrar com ações na criação da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, em 1810, nos arredores de Sorocaba. O ferro ali produzido foi vital para a produção de material bélico para a guerra do Paraguai e também para permitir o progresso da ferrovia em São Paulo.
A Fundição Ipanema operou até 1926 e, atualmente, é um dos recantos turísticos mais importantes do País e também um dos mais esquecidos e pouco divulgado pelo Governo, situado próximo a capital do Estado. Chegou a criar, de modo informal, o primeiro banco da cidade, aceitando dinheiro das pessoas e utilizando em seus negócios, pagando juros. Era algo tão extraordinário para a época, que, em agradecimento, recebia vários presentes ofertados por quem deixava dinheiro sob sua guarda. Mantinha chácaras perto do centro da cidade, como a “Chácara da Consolação”, herdada por seu filho, o barão de Souza Queirós e outra chácara englobando a atual rua Riachuelo, onde começa a atual avenida Brigadeiro Luiz Antônio, herdada pelo filho Vicente de Souza Queirós, o Barão de Limeira.
Fixou residência em São Paulo, na esquina da rua São Bento com a rua do Ouvidor, numa casa descrita pelo historiador Affonso de E. Taunay: “o enorme casarão do Brigadeiro Luiz Antônio de Souza, possuidor da maior fortuna da Capitania”. Em 1817, era considerado o primeiro proprietário e agricultor da Província, com 15 fábricas de açúcar, uma das quais administrava pessoalmente. Ao morrer, em 1817, deixou uma fortuna de 750 mil “contos”. Em um de seus engenhos de açúcar de Campinas chegou a render em 1817 a quantia de 9:000$000). A renda anual do brigadeiro subia a 32:000$000 – isso num tempo em que o mil-réis valia mais de duas libras esterlinas.
Seu filho Francisco Antonio de Souza Queirós (1806-1891) seguiu as pegadas do pai nos títulos, cargos políticos e riqueza acumulada e teve seu nome dado a outra importante rua de São Paulo: Av. Senador Queiróz. Tal como o pai, foi um filantropo, com a fundação da Associação Barão de Souza Queiróz de Proteção à Infância e à Juventude – Instituto Ana Rosa, em 1874. Outro filho -Vicente de Souza Queiróz- , o Barão de Limeira (1813-1872), também foi pródigo e nomeia a Alameda Barão de Limeira. Foi o pai de Luiz Vicente de Souza Queiróz (1849-1898), agrônomo e fundador da famosa Escola Superior de Agricultura Luís de Queiróz, em Piracicaba. Como se vê, a família Souza Queiróz teve papel destacado no desenvolvimento do estado de São Paulo
O brigadeiro Luís Antônio faleceu em 30/5/1819. No ano anterior registrou no Cartório da Nobreza o brasão das armas dos Souza Queirós. Seu testamento, ditado a 24/5/1819, mostra que era muito religioso, pois deixou dotações para serem enviadas a Portugal, onde seus irmãos deveriam entregá-las à Santa Casa de Misericórdia, além de dinheiro para ser repartido entre os pobres, para manutenção de leprosários, para o Recolhimento de Nossa Senhora da Luz, de Santa Teresa, para a Ordem Terceira de São Francisco, ao convento de São Francisco, para a Capela do Rosário dos Homens Pretos, para a Capela da Senhora da Boa Morte, para grande número de missas e pede a doação de um hábito de São Francisco, para com ele ser enterrado no jazigo da Venerável Ordem Terceira de São Francisco.