JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Santa Dulce dos Pobres

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, conhecida como “Irmã Dulce”, está sendo canonizada hoje (13/10/2019) pelo Papa Francisco, em Roma. Mas para o povo de Salvador, ela passou a ser considerada Santa pouco depois de seu falecimento, em 13/3/1992. O processo de beatificação iniciou em 2000 e passou a tramitar na Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano. A validação jurídica do virtual milagre presente no processo foi emitida pela Santa Sé em junho de 2003, quando ela recebeu o título de Serva de Deus, outorgado pelo Papa João Paulo II.

Em janeiro de 2009, a Congregação anunciou voto favorável reconhecendo-a como ”Venerável”. Tal votação obteve a unanimidade do colégio de cardeais, bispos e teólogos após a análise da “Positio”, um relato biográfico e resumos dos testemunhos dos milagres relatados no processo. Dois meses depois, o Papa Bento XVI aprovou decreto de reconhecimento de suas virtudes. Em 9/5/2010, foi realizada a exumação e transferência das “relíquias” para sua capela definitiva, na Igreja da Imaculada Conceição, ao lado da OSID-Associação Obras Sociais Irmã Dulce.

Em maio de 2011, foi beatificada pelo mesmo Papa, por intermédio de Dom Geraldo Magella, em Salvador, último passo para a canonização. A partir daí passará a se chamar “Santa Dulce dos Pobres”. Um nome bem apropriado, tendo em vista a vida que levou dedicada aos pobres. No dia seguinte (14) haverá missa da Santíssima Trindade na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses (Roma), em agradecimento ao seu dom. Em Salvador a celebração ocorrerá no próximo domingo (20/10/2019), na Arena Fonte Nova. A partir do ano 2020 seu nome será festejado todo dia 13 de agosto.

São dois os milagres que serviram de base para a canonização de Irmã Dulce: o primeiro ocorreu em 2001. Uma paciente, após o parto, apresentava um quadro de hemorragia não controlável e passou por 3 cirurgias num período de 18 horas sem que o sangramento estancasse. Só estancou ao término de uma corrente de orações, proposta por um sacerdote, pedindo a intercessão de Irmã Dulce.

O segundo milagre reconhecido pelo Vaticano refere-se a um homem que passou 14 anos cego e passou a sentir fortes dores, devido a uma conjuntivite. Pouco ante de dormir, pediu a Irmã Dulce para que a dor fosse aliviada. Acordou no dia seguinte não apenas aliviado da dor, mas enxergando normalmente. O milagre intrigou os médicos, devido ao fato de mesmo após voltar a enxergar, os exames apontaram lesões que deveriam impedir o sentido da visão.

São quatro as exigências do Vaticano para reconhecimento do milagre e consequente canonização: (1) o fato tem que ser “preternatural”, ou seja, a ciência não consegue explicar; (2) instantâneo, ocorrer logo após a oração/pedido; (3) duradouro e (4) perfeito. A OSID, através de sua Assessoria de Memória e Cultura, contabilizou o recebimento de cerca de 10 mil relatos de graças alcançadas por intermédio da Irmâ Dulce. Sua canonização é a terceira mais rápida da História (27 anos), atrás apenas de Madre Teresa de Calcutá (19 anos) e do Papa João Paulo II (9 anos).

Veja reportagem da Globo News clicando aqui

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Irmã Dulce

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes nasceu em Salvador, BA, em 26/5/1914. Religiosa, adotou o nome de Irmã Dulce. ao se tornar freira, em 1933, em homenagem a sua mãe Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes, falecida quando ela tinha 7 anos. O pai, Dr. Augusto Lopes Pontes, era dentista e professor da UFBA-Universidade Federal da Bahia. Ainda criança manifestou vocação religiosa e pedia orientação a Santo Antônio para saber se deveria casar ou ser freira.

Aos 13 anos, após visitar áreas carentes e ajudar mendigos, enfermos e desvalidos, decidiu pela vida religiosa e procurou o Convento de Santa Clara do Desterro, famoso por ter abrigado as três “Santas do Desterro” em séculos passados. Mas, não foi aceita devido a idade; voltou a estudar e foi transformando a casa dos pais, com o apoio da irmã, num centro de atendimento aos necessitados. A casa passou a ficar conhecida como “Portaria de São Francisco”. Em 1932 formou-se professora do curso primário e no ano seguinte entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em São Cristovão, Sergipe.

Em agosto de 1933, fez profissão de fé e recebeu o hábito de freira. Voltou à Salvador, passou a lecionar num colégio da Congregação, na Cidade Baixa, e dar assistência aos pobres. Suas atividades não se restringiam apenas a ajudar as pessoas carentes. O objetivo era criar instituições permanentes de auxílio e cooperação e, junto com o frei Hildebrando Kruthaup, fundou a União Operária São Francisco, em 1936, o primeiro movimento cristão operário da Bahia, que deu origem ao Círculo Operário da Bahia.

A finalidade da União era difundir cooperativas, promover a cultura dos operários e defender seus direitos. Era mantido com o dinheiro arrecadado por três cinemas, que foram construídos a partir de doações. Tal inciativa deu suporte à inauguração do Colégio Santo Antônio, em 1939, para atender os operários e seus filhos. Hoje o Centro Educacional Santo Antônio (CESA) abriga mais de 300 crianças de 3 a 17 anos, com acesso a cursos profissionalizantes. No mesmo ano invadiu umas casas na Ilha dos Ratos para abrigar os doentes recolhidos nas ruas. Mas logo foram despejados e ela passou a perambular por lugares mais distantes na busca de lugar para abrigá-los.

Na dificuldade de encontrar outro espaço, encontrou um local desocupado no Convento, em 1949. Era um galinheiro desativado, que ela transformou em albergue, no qual alojou 70 pessoas. Em apenas 10 anos, esse galinheiro deu origem a Associação Obras Sociais Irmã Dulce-OSID, inaugurada oficialmente em 1959 e no ano seguinte foi inaugurado o Albergue Santo Antônio. A OSID atualmente é um dos maiores complexos hospitalar com atendimento gratuito do Brasil, com 3,5 milhões de atendimentos ambulatoriais por ano a usuários do SUS-Sistema Único de Saúde. Em 1983 foi ampliado, contando com 400 leitos. Hoje o Hospital Santo Antônio atende mais de cinco mil pessoas por dia. Para conseguir mão-de-obra especializada no atendimento, ela fundou a Associação Filhas de Maria Serva dos Pobres.

Em 1980, na visita do Papa João Paulo II ao Brasil, foi convidada a subir ao altar para receber uma bênção especial. O Papa, que agora há pouco foi canonizado, retirou do bolso um rosário, ofereceu-lhe e impulsionou seu trabalho: “Continue, Irmã Dulce, continue”. Em fins de 1990, passou a sofrer com problemas pulmonares e enfrentou 16 meses de agonia. Foi internada no Hospital Português; em seguida foi transferida para uma UTI do Hospital Aliança, quando ordenou: “Quero morrer ao lado dos pobres”.

Assim, foi para o Hospital Santo Antônio, onde passou toda a vida. Em 20/10/1991, recebeu a segunda visita do Papa João Paulo II, que lhe deu a extrema unção. Em 13/3/1992 veio a falecer aos 77 anos e foi sepultada no alto do Santo Cristo, na Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Posteriormente, foi transferida para a Capela do Hospital Santo Antônio, em cumprimento ao seu desejo. Considerada uma das mais importantes e influentes ativistas humanitárias do século XX, foi indicada pelo presidente José Sarney e pela rainha Silvia da Suécia, para receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1988.

Em 2001, foi eleita a “Religiosa do Século XX” numa eleição promovida pela revista “Istoé”. Em 2012, ficou entre as 12 maiores personalidades brasileiras de todos os tempos, numa pesquisa feita pelo SBT-Sistema Brasileiro de Televisão para eleger as pessoas que mais contribuíram para o País. Em 2014, o Governo da Bahia instituiu a data de 13 de agosto como o Dia Estadual em Memória à Bem Aventurada Dulce dos Pobres. Em 2018 as “Obras Sociais Irmã Dulce” foi considerada a melhor organização não governamental da Região Nordeste e uma das 100 melhores do Brasil.

No próximo domingo, Irmã Dulce será canonizada numa missa celebrada em Roma e receberá o nome de “Santa Dulce dos Pobres”. Esta biografia concisa continua na próxima semana, revelando os fatos que levaram-na à canonização.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Padre Antonio Vieira

Antônio Vieira nasceu em Lisboa, em 6/2/1608. Missionário jesuta, filósofo, escritor, diplomata e um dos mais importantes oradores de todos os tempos. Chegou ao Brasil, aos seis anos, junto com a mãe Maria de Azevedo, para se juntar ao pai Cristovão Vieira Rovasco, ex-escrivão do Tribunal do Santo Ofício, em Lisboa, nomeado escrivão em Salvador e filho de uma mulata de origem africana. Talvez uma das razões para tornar o neto um dos primeiros combatentes da escravidão.

Ingressou no Colégio dos Jesuítas da Bahia, aos 15 anos; formou-se noviço em 1625 e ordenou-se sacedote em 1634. No Colegio, a princípo teve alguma dificuldade no aprendizado, mas logo teve um “insight” e passou a compreender e memorizar tudo com maior clareza. Tal fenômeno ficou conhecido como “o estalo de Vieira”. Tornou-se um aluno brilhante e, na condição de talentoso escritor, foi designado para traduzir para o latim a “Carta Ânula”, relatório da Companhia de Jesus, enviado ao Superior-Geral, em Roma. Prosseguiu os estudos em Teologia, Lógica. Metafísica e Matemática, obtendo o mestrado em Artes. Em 1627 lecionou Retórica no Convento de Olinda e retornou à Salvador, onde foi ordenado sacerdote.

Por esta época começou a ficar famoso como orador com os primeiros sermões e em 1638 foi nomeado professor de teologia, em Salvador. Demonstrou grande domínio da língua, numa prosa fluente e clara, bem diferente daquela empregada por seus contemporâneos. Assim, pouco depois era reconhecido como um dos grandes escritores da lingua portuguesa. Dotado de agudo senso político, defendeu a tese que Portugal deixasse o Nordeste com holandeses, na época da invasão, devido aos altos custos de manutenção da guerra e à superioridade militar dos Paises Baixos. Passou a pregar contra o domínio da Espanha sobre Portugal e com a Restauração, em 1640, mudu-se para Lisboa e tornou-se confessor de Dom João IV. Em seguida foi enviado como diplomata à Roma e Amsterdam e começou a participar ativamente da conturbada política lusitana no século XVII.

Em Lisboa defendeu os cristãos-novos (judeus), atraindo o ódio da Inquisição que o prendeu por pouco tempo. Através de seus contatos com a Corte, foi libertado e regressou ao Brasil em 1653 e foi viver no Maranhão na condição de dirigente da missão jesuítica. No mesmo ano proferiu o “Sermão da Primeira Quaresma”, em São Luis, em cuja pregação tentou convencer os senhores de engenho a libertarem seus escravos indígenas. Era querido pelos índios, que o chamava de “Paiaçu”: grande padre ou pai em tupi. Entre 1658 e 1660, escreveu o “Regulamento das Aldeias”, no qual estabeleceu as diretrizes das missões religiosas na Amazônia. Tais regras envolvendo os métodos de doutrinação e até a disposição da moradia dos missionários e índios, não eram aplicadas apenas aos jesuitas, foram seguidas por outras congregações por mais de um século. Padre Serafim Leite, no livro Novas Cartas Jesuíticas (Cia. Editora Nacional, 1940) diz que o Padre Vieira tem “para o norte do Brasil papel idêntico ao dos primeiros jesuitas no centro e no sul”.

Tais posicionamentos custou-lhe a expulsão da provincia e dos demais jesuitas, em 1661. Foi convocado pela Inquisição, em Lisboa, em virtude de suas pregações, além dos textos considerados heréticos pela Igreja. Foi condenado e ficou preso em Coimbra por dois anos (1665-1667). Sua oratória foi capaz de convencer o Papa a anular suas penas e condenações. Além da liberdade, conseguiu um feito histórico: a suspensão da Inquisição em Portugal de 1675 a 1681, com os relatórios sobre os múltiplos abusos do poder da igreja, entregue ao Papa. Retornou definitivamente à Bahia em 1681, alegando questões de saúde. Mesmo assim, exerceu a função de visitador-geral das missões do Brasil e passou a se dedicar mais à pubicação de seus sermões e cartas.

Através da retórica jesuítica, mostrou-se um barroco conceitista, no desenvolvimento de ideias lógicas, destinadas a persuadir o público. A coleção completa de seus Sermões, iniciada em 1679, resultou em 16 volumes e as cartas em 3 volumes. Idoso e doente, teve que espalhar circulares sobre a saúde para poder manter em dia sua vasta correspondência. Em 1694, já não podia escrever de próprio punho. Pouco depois perdeu a voz e teve início a agonia. Em 18/7/1697 faleceu em Salvador, aos 89 anos. Devido a sua atuação politica e religiosa no Brasil e Portugal, tornou-se um dos homens mais importantes do século XVII.

Proferiu e escreveu mais de 200 sermões, 700 cartas além de tratados proféticos, relações etc. Suas obras foram elogiadas em toda a Europa e até por alguns membros da Inquisição. Deixou um uma grande obra, Não sendo propriamente um escritor, mas um orador, deixou um considerável legado bibliogáfico. Entre os sermões, destacam-se: Sermão da Quinta da Quaresma, Sermão do Bonsucesso das Armas de Portugal contra os de Holanda, Sermão da Sexagésima, Sermão de Santo Antônio aos Peixes, Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, Sermão do Mandato, Sermão do Rosário, Sermão do Bom Ladrão entre outros. Os sermões, em linguagem simples, revelam um extraordinário domínio da língua, imaginação, sensibilidade e firmeza de convicção. Além dos sermões deixou inconcluso o “Clavis Prophetarum”, livro de profecias. Foi também um prolífico escritor de cartas abordando a situação colonial do Brasil, Inquisição, política externa etc.

Sua obra completa começou a ser publicada em 2013 e conta com 30 volumes, incluindo os sermões, cartas, profecias, escritos políticos sobre os judeus e índios, e também sua poesia e teatro. Trata-se da primeira edição completa e um dos maiores projetos editoriais do gênero. Foi viabilizado a partir de uma cooperação internacional entre várias instituições de pesquisa e academias científicas, culturais e literárias Luso-Brasileiras, sob a égide da Reitoria da Universidade de Lisboa. Mesmo não sendo considerado santo pela Igreja Católica, seu nome consta no calendário de santos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, como sacerdote e testemunha profética, tendo sua festa litúrgica celebrada em 18 de julho, dia de seu falecimento. O Sermão do Bom Ladrão, escrito em 1655, que apresentamos abaixo, foi proferido na Igreja da Misericórdia de Lisboa, perante D. João IV e sua corte, rodeado pelos maiores dignitários do reino, juízes, ministros e conselheiros. O sermão é uma crítica contundente àqueles que se valem da máquina pública para enriquecer ilicitamente; uma denuncia aos escândalos no governo, gestões fraudulentas e desproporcionalidade das punições entre aqueles que roubam pouco e os que roubam muito. Portanto, é um sermão antigo. Porém, bastante atual.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Anita Garibaldi

Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em 30/8/1821, em Laguna, SC. Heroína por sua participação na Revolução Farroupilha (1835-45) e na Itália, na guerra pela unificação italiana. Ficou conhecida como a “Heroína de dois mundos” por sua participação em guerras nos dois continentes junto com o marido Giuseppe Garibaldi. De origem modesta, casou-se aos 14 anos por insistência da mãe. Pouco depois, o marido alistou-se no Exército Imperial e desfez o casamento.. Aos 18 anos conheceu Garibaldi, um guerrilheiro italiano de 32 anos, fugido de uma sentença de morte, devido ao seu envolvimento com o movimento de unificação italiana.

O Sul do Brasil estava em guerra contra o governo imperial. Em julho de 1839 sob o comando de David Canabarro, Garibaldi preparava-se para tomar a cidade de Laguna a bordo de uma embarcação tomada das forças inimigas, com o objetivo de formar a República Juliana. Munido com uma luneta, passou a observar a cidade e deparou com um grupo de moças passeando pela praia. Prestou atenção numa delas e ficou encantado. Pegou um barco, foi até o local, mas não a encontrou. Dias depois, foi convidado por um habitante para um café em sua casa. Lá encontrou casualmente moça que o impressionou. O encontro causou-lhe uma emoção, relatada em suas memórias:

“Entramos, e a primeira pessoa que se aproximou era aquela cujo aspecto me tinha feito desembarcar. Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna. A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-se reciprocamente, como duas psfez essoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência. A saudei finalmente e lhe disse: ‘Tu deves ser minha!’. Eu falava pouco o português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor”.

Em outubro de 1839, Anita decidiu segui-lo em seus combates em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Montevideo e Itália. Seu batismo de fogo se deu logo em seguida, em Imbituba, quando seu navio foi atacado pela marinha imperial do Brasil. No mês seguinte deu-se a famosa batalha naval de Laguna contra Frederico Mariath, onde Anita demonstrou sua coragem municiando os combatentes no meio de intenso tiroteio. Em janeiro de 1840, participou da Batalha de Curitibanos; sua tropa foi derrotada e ela aprisionada. O comandante do exército imperial, achando que Garibaldi havia sido abatido, deixou-a livre para procurar o cadáver do marido. Num instante de distração dos guardas, ela tomou um cavalo e fugiu. Atravessou a nado com o cavalo o rio Canoas, chegou ao Rio Grande do Sul e reencontrou-se com Garibaldi em Vacaria oito dias depois.

Em setembro do mesmo ano nasceu o primeiro filho do casal, na vila e atual cidade de Mostardas, que recebeu o nome de Menotti Garibaldi. 12 dias depois, o exército imperial, comandado por Francisco Pedro de Abreu, foi prender o casal. Garibaldi não se encontrava e Anita fugiu a cavalo com o recém-nascido. Ficou escondida por quatro dias nos arredores da cidade até o reencontro com o marido. No ano seguinte a situação militar da pretensa República Rio-Grandense tornou-se insustentável e Garibaldi obteve do General Bento Gonçalves da Silva permissão para deixar o exército republicano. Como recompensa recebeu um rebanho de 900 cabeças de gado. Iniciaram uma marcha de 600 km. até Montevidéu, onde chegaram com apenas 300 cabeças de gado. Este era o patrimônio da família que foi se estabelecer no Uruguai.

Em 1842 o casal legalizou a união, pois a certidão de casamento era uma exigência legal para quem aspirava cargos públicos. Garibaldi foi designado comandante de uma frota uruguaia para enfrentar a esquadra naval argentina no combate ao ditador Juan Manuel Rosas. Chegou ao posto de Coronel da Marinha e ficou famoso no Uruguai, particularmente após o “Decreto de Graça e Honra”, concedido pelo Governo de Montevidéu aos legionários italianos. Em seguida o casal teve mais três filhos: Rosa (1843), Teresa (1845) e Ricciotti (1847). Devido ao seu envolvimento na guerra contra Argentina, tentou enviar Anita e as crianças para ficarem com seus familiares em Nice (França), em 1846, mas não obteve permissão do Rei da Sardenha, Carlos Alberto. No ano seguinte Anita e os três filhos foram para a Itália e encontrou-se com a mãe de Garibaldi. Em seguida viajaram para Nice, onde ficou morando por pouco tempo. Meses depois, Garibaldi reuniu-se a eles e voltaram para a Itália. Os filhos ficaram aos cuidados da avó.

Na Itália, lutaram pela unificação italiana, tentando expulsar os austríacos da região da Lombardia. Em fevereiro de 1849, o casal presenciou a proclamação da Republica de Roma, com ele na condição de Deputado. Mas a invasão franco-austríaca obrigou-os a abandonar a cidade. Com 3900 soldados, Garibaldi e Anita deixaram Roma. Em sua perseguição saíram três exércitos (franceses, espanhóis e napolitanos) com 40 mil soldados. Ao norte, o exército austríaco estava a sua espera com 15 mil soldados. Tentaram a todo custo salvar o território italiano. Mesmo grávida do quinto filho, ela participou de algumas batalhas. Com a saúde comprometida, alcançaram a Republica de San Marino, onde o embaixador norte-americano ofereceu-lhe um salvo-conduto, que foi recusado. Doente e perseguida, foi levada para a fazenda Guiccioli, próximo a Ravena, onde veio a falecer junto com a criança, em 4/8/1849.

Garibaldi ordenou que seu corpo fosse sepultado na terra de sua família, em Nice. Em 1932, foi transferido para um monumento construído em sua homenagem, no Janículo em Roma. As homenagens alcançaram o Brasil e veio a denominar duas cidades em Santa Catarina: Anita Garibaldi e Anitópolis e diversos logradouros e escolas em todo o país. Em abril de 2012, a Lei 12.615 determinou que seu nome fosse inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília. Diversas biografias foram publicadas no Brasil e na Itália, entre as quais cabe destacar a realizada por Paulo Markun, Anita Garibaldi: uma heroína brasileira, publicada em 1999 pela Editora SENAC. A casa onde viveu em Laguna é hoje um museu, aberto ao público em 1978, contando a história da ilustre moradora.

Heroina de dois mundos

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OS BRASILEIROS: Luiz Gama

Luíz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, BA, em 21/6/1830. Escravo, soldado, copista, tipógrafo, jornalista, orador, escritor, poeta, rábula e advogado reconhecido pela OAB em 2015, 133 anos após o falecimento. É o “Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil” e, segundo o historiador Boris Fausto, dono de uma “biografia de novela”. Um daqueles casos onde a vida real supera a ficção.

Filho de Luisa Mahin, uma negra livre ligada ao movimento de libertação dos escravos, cuja figura foi mitificada pelo Movimento Negro. No entanto não existe documentação alguma confirmando esta informação, levando alguns historiadores a considerá-la uma espécie de alter ego de Luis Gama. Após a Revolta dos Malês, em 1835 (levante de escravos muçulmanos, em Salvador), ela teve que fugir para o Rio de Janeiro e nunca foi encontrada pelo filho. O pai, branco e rico, teve sua fortuna dissipada em jogos e vendeu-o como escravo em 1840 para aplacar a dívida. Foi adquido em leilão por Antonio Pereira Cardoso e passou a viver como escravo doméstico numa fazenda em Lorena (SP)

Após ser alfabetizado, em 1847, fugiu para São Paulo, onde conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a trabalhar em diversas atividades. Casou-se em 1850 e passou a frequentar o curso de Direito, como ouvinte, ao lado diversos intelectuais empenahdos na libertação dos escravos. Em 1864, fundou o jornal “Diabo Coxo”, tendo como ilustrador Angelo Agostini, grande caricaturista da imprensa humorística. Dois anos após, com a adesão de Américo de Campos, o trio fundou o semanário “Cabrião”. Em 1869, junto com Ruy Barbosa, fundou o jornal “Radical Paulistano”. Defendia uma pauta antiescravista e republicana e foi um dos fundadores do “Partido Republicano Paulista”, em 1873, em Itu. Nesse meio tempo colaborou com os jornais “Ipiranga”, “Coroaci” e “O Polichinelo”.

A partir daí intensificou sua luta em entidades emancipadoras e sociedades secretas para fugas e ajuda financeira aos escravos e foi líder do movimento “Mocidade Abolicionista e Republicana”. Em seu trabalho como Rábula, atuou na libertação de mais de 500 escravos foragidos. Certa vez, durante um julgamento, proferiu uma frase que se tornou célebre: “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa”. Com isto provocou tamanha reação, obrigando o juiz a suspender a sessão. Sua oratória e defesa intransigente dos escravos conferiu-lhe expressiva popularidade entre os pobres e admiração entre os colegas. Sua descrição por Raul Pompeía é eloquente: “… e Luís Gama fazia tudo: libertava, consolava, dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava, exauria-se no próprio ardor, como uma candeia iluminando à custa da própria vida as trevas do desespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma sobra de lucro…E, por essa filosofia, empenhava-se de corpo e alma, fazia-se matar pelo bom… Pobre, muito pobre, deixava para os outros tudo o que lhe vinha das mãos de algum cliente mais abastado.

Foi também, junto com Ruy Barbosa e Joaquim Nabuco, fundador da “Loja Maçônica América”, bastante ativa na luta abolicionista. Quando faleceu, em 24/8/1882, vitimado por diabetes, era o Venerável Mestre da loja. Consta que foi o maior funeral de São Paulo até hoje não superado pela quantidade de pessoas. A cidade contava com 30 mil pessoas e mais de 3 mil acompanharam o enterro até o Cemitério da Consolação. Para conduzir o caixão foi providenciado um coche funerário, mas a multidão não deixou. Diziam que o “amigo de todos”, como era conhecido, deveria ser levado por todos. Antônio Loureiro de Sousa, em 1949, registrou: “O enterro foi um espetáculo inédito: foi o maior de que há notícia naqueles tempos. A multidão que acompanhou o féretro, com todo silêncio e admiração, era obrigada a parar pelos numerosos discursos que interrompiam o cortejo fúnebre”.

Seus poemas estão vinculados à segunda geração do Romantismo. Mas, segundo o crítico José Paulo Paes, “distanciando-se dos literatos da época pelo seu realismo plebeu… Para ele, ser poeta não era debruçar-se sobre si mesmo, num irremediável narcissimo, mas voltar-se para o mundo, medi-lo com olhos críticos, zurzir-lhe os erros, as injustiças, as falsidades”. Sua única obra – Primeiras trovas burlescas -, publicada em duas edições (1859 e 1861) é considerada um dos expoentes do Romantismo. Alguns críticos reclamaram de Manuel Bandeira por não incluí-lo em seu livro “Apresentação da Poesia Brasileira”.

Foi homenageado com seu nome em logradouros de diversas cidades do País e um busto em frente a Academia Paulista de Letras, onde é o patrono da cadeira nº 15. Em 2006, Ana Maria Gonçalves publicou “Um defeito de cor”, saga brasileira, que foi comparada ao clássico norte-americano sobre a escravidão “Raízes”. Além dessa biografia romanceada, sua vida foi retratada em alguns livros: “O precursor do abolicionismo no Brasil: Luís Gama”, por Sud Mennucci, em 1938; “A trajetória de Luís Gama na imperial cidade de São Paulo”, por Elciene Azevedo, em 1999; “O advogado dos escravos – Luís Gama, por Nelson Câmara, em 2010. Em 2008, foi criado em São Paulo o Instituto Luiz Gama, por um grupo de juristas, acadêmicos e militatantes dos movimentos sociais, cuja missão é lutar contra o preconceito e defesa dos direitos dos negros e das minorias no País.

Atualmente o Instituto Pro Bono mantém o “Prêmio Luiz Gama”, entregue anualmente às pessoas que se destacaram na área da advocacia voluntária e produção de conhecimentos jurídicos. Neste exato momento (setembro de 2019) sua videobiografia, realizada pelo cineasta Jeferson De, está sendo preparada para lançamento ainda este ano. O filme “Prisioneiro da Liberdade”, conta com Fabricio Boliveira no papel principal, contracenando com Zezé Mota e Caio Blatt.

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AS BRASILEIRAS: Chiquinha Gonzaga

Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu em 17/10/1847, no Rio de Janeiro. Compositora, pianista e maestrina, foi pioneira na música como primeira chorona (pianista de choro); autora da primeira marcha carnavalesca (“Ô abre alas”, 1899); primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil; pode se dizer que foi também uma das primeiras feministas brasileiras, devido a sua luta pela independência da mulher. Filha de José Basileu Alves Gonzaga, de família ilustre do Império, e Rosa Maria Neves Lima, mestiça e filha de escrava. Foi educada nos moldes aristocráticos das crianças da elite; teve como padrinho o Duque de Caxias; estudou português, cálculo, francês e religião com o Cônego Trindade; foi aluna do Maestro Lobo e aos 11 anos compôs uma cantiga de Natal: “Canção dos Pastores”.

Apesar da rígida educação aristocrática, teve relativa liberdade para frequentar outros ambientes, como as rodas de lundu, umbigada e outros ritmos africanos, atraída por uma identificação musical com os negros escravos. Aos 16 anos foi obrigada a se casar com Jacinto Ribeiro do Amaral, oficial da Marinha. Como presente de casamento, ganhou um piano. A partir daí passou a compor valsas e polcas, para desagrado do marido. Em seguida nasceram o filho João Gualberto (1864) e a filha Maria do Patrocínio (1865). O marido tornou-se sócio do Barão de Mauá na exploração de um navio para transportar escravos, armas e soldados para a Guerra do Paraguai. Ela participou de algumas dessas viagens, nas quais ficava reclusa no camarote com ordens expressas do marido para não se envolver com música. Contrariada, voltou para a casa dos pais, e não foi apoiada pela família. Ao constatar sua terceira gravidez, voltou a viver com o marido. Em 1867 nasceu o filho Hilário e o casamento desabou de vez.

A separação causou tumulto na sociedade, trazendo-lhe, além do sofrimento, a separação dos filhos mais jovens imposta pelo marido. Ficou apenas com o filho mais velho e passou a refazer a vida na música. Pouco depois, reencontrou um antigo namorado, o engenheiro João Batista de Carvalho e foram morar numa fazenda em Minas Gerais. Em 1876 nasceu a filha Alice, mas logo descobriu que o novo marido andava traindo-a e desfez o casamento. Voltou para o Rio de Janeiro e passou por uns perrengues, vivendo de aulas particulares de piano ou tocando em lojas de instrumentos musicais e compondo polcas, valsas, tangos e cançonetas. Nessa época juntou-se a um grupo de músicos de choro e teve que adaptar o piano ao gosto popular. Com isto tornou-se a primeira compositora popular do País.

Seu primeiro sucesso musical se deu em 1877, com o animado choro “Atraente”. A repercussão no métier carioca, levou-a ao teatro de variedades. Passou a se envolver com a política em prol da abolição da escravidão, pelo fim da monarquia. A carreira como maestrina se deu em 1885 com a opereta “A Corte na Roça”. O enredo tratava de costumes do interior do país e teve o texto censurado pela polícia, que alterou alguns versos. Nos ensaios, um delegado ameaçou cortar a dança final, ponto forte da peça. No mesmo ano, dirigiu os músicos do teatro e a banda da Polícia Militar, tornando-se a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Por essa época participou da Confederação Libertadora, angariando fundos para a organização antiescravista. Em 1888 comprou a alforria do escravo e músico José Flauta, antecipando-se poucos meses à Lei Áurea. Como compositora, o ponto alto se deu em 1899 com a marcha-rancho “Ô Abre Alas”, composição feita a pedido do cordão “Roda de Ouro”. Foi o maior sucesso do carnaval naquele ano. Sua letra expressa uma ânsia de libertação, um hino à independência de novas formas de expressão: Ô abre alas que eu quero passar / Eu sou da lira não posso negar”

Neste ano, conheceu o jovem português João Batista Fernandes Lage, talentoso aprendiz de música, por quem se apaixonou e foi correspondida. Ela com 52 anos e ele com apenas 16 não podiam manter o romance aberto. Além dos filhos, que não aceitariam o enlace, havia o preconceito enraizado na sociedade. Tal relação afetaria, inclusive, sua brilhante carreira artística. O problema foi solucionado de um modo simples: adotou o rapaz como filho e registrou em cartório. Por volta de 1900 conheceu a irreverente artista Nair de Tefé, a primeira caricaturista mulher do mundo, também boêmia, da qual se tornou grande amiga. Tal convivência certamente ajudou-a a tomar a decisão viver sua vida amorosa mais livre. Assim, em 1902, o casal foi morar em Lisboa e passaram alguns anos felizes morando longe do falatório da gente do Rio de Janeiro. Aproveitou para conhecer toda a Europa e em 1906 já era conhecida do público português ao musicar várias peças lisboetas. Voltou ao Brasil somente em 1912 sem levantar suspeita alguma de viverem como casal. Ela nunca assumiu, de público, o romance, que só foi descoberto após sua morte através de cartas e fotos. No entanto, seus filhos tinham conhecimento do fato e acabaram aceitando o relacionamento.

Logo no retorno ao Rio, emplacou mais um grande sucesso com a opereta “Forrobodó”, que estreou em 1912, batendo o recorde de permanência em cartaz atingindo 1500 apresentações. A peça – uma proposital caricatura dos bailes da elite brasileira – foi um grande sucesso popular e um dos maiores do Teatro de Revista do Brasil. Pouco depois sua amiga Nair de Tefé torna-se primeira-dama do Brasil, ao casar-se com o presidente da República Hermes da Fonseca. Desse modo, tornou-se frequentadora habitual do Palácio do Catete, onde, a convite da amiga participou de alguns saraus. Na noite de 26/10/1914, último ano do mandato presidencial, foi convidada para uma audição musical no Palácio, cuja programação incluía autores como Gottschalk e Frans List. Na ocasião tocou o maxixe “Corta-Jaca”, uma música considerada indecente pela igreja e proibida nos salões da elite carioca. A própria Nair de Teffé chegou a acompanhá-la no violão, causando um escândalo entre os presentes. O senador Rui Barbosa não perdoou a ousadia: “Aqueles que deviam dar ao País o exemplo das maneiras mais distintas e de costumes mais reservados elevaram o Corta-Jaca à altura de uma instituição social”, esbravejou no Senado. “Mas o Corta-Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, senhor presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba”.

O “escândalo” causado na época alavancou mais ainda sua carreira e participação no meio artístico. Em 1917, liderou um grupo de escritores e compositores empenhados na fundação da SBAT-Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, tendo o famoso cronista João do Rio como primeiro presidente. Como se vê Chiquinha Gonzaga atraia uma constelação de astros irreverentes, que revolucionaram os costumes da época. Em 1934, aos 87 anos, escreveu sua última composição, a partitura da peça “Maria”. Faleceu em 28/2/1935, ao lado do seu amado, a quem devemos agradecer a preservação de todo seu acervo musical, Seu legado musical consta de músicas para 77 peças teatrais, além de autora de cerca de duas mil composições em diversos gêneros.

Recebeu muitas homenagens ainda em vida. Após sua morte foi reconhecida como a fundadora da música popular brasileira. Seus conterrâneos cariocas prestaram-lhe uma bela homenagem com o enredo “Abram alas que eu quero passar”, pela escola de samba Mangueira, em 1985. Mais tarde, foi a vez da escola de samba Imperatriz Leopoldinense com o enredo “Eu sou da lira, não posso negar” , no carnaval de 1997. Mas o reconhecimento maior veio em 2012, quando o governo instituiu o “Dia Nacional da Música Popular Brasileira”, comemorado em 17 de outubro, dia de seu aniversário. De janeiro a março de 1999, a Rede Globo apresentou a minissérie “Chiquinha Gonzaga”, baseada no livro de Dalva Lazzaroni de Moraes, Chiquinha Gonzaga – sofri, chorei, tive muito amor. Sua principal biografia – Chiquinha Gonzaga; uma história de vida, realizada por Edinha Diniz e publicada em 1962, já teve mais de 10 edições.

Uma visão geral com fotos, entrevistas e partituras podem ser consultadas em seu site oficial Chiquinha Gonzaga 

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Barão de Mauá

Irineu Evangelista de Sousa nasceu em Arroio Grande, RS, em 28/12/1813. Comerciante, armador, industrial, banqueiro e político. Foi o primeiro grande industrial brasileiro, agraciado com os títulos nobiliárquicos de Barão, em 1854, e Visconde em 1874. Aos cinco anos teve o pai assassinado e foi criado pelo tio até os nove, quando foi morar com outro tio, José Batista de Carvalho, comandante de um navio da Marinha Mercante que transportava charque e couros para o Rio de Janeiro. Aí começou a trabalhar como caixeiro de um armazém na Praça do Comércio.

Aos 11 anos foi trabalhar noutro armazém que vendia de tudo, de produtos agrícolas a escravos, a fonte de renda principal do estabelecimento. Tornou-se empregado de confiança e foi promovido a guarda-livros em 1828. Na crise do 1º Reinado, o comerciante faliu e indicou-o para trabalhar numa empresa de importação do escocês Richard Carruthers, em 1830. Com sua esperteza e disposição, conquistou a amizade do escocês, aprendeu inglês, contabilidade e aprendeu a ganhar dinheiro. A empresa não admitia o trabalho escravo e comprava trabalho pagando em dinheiro. Ou seja, fazia o oposto da maioria dos empresários. Em 1836, aos 23 anos, tornou-se gerente e, pouco depois, sócio da empresa. Percebendo seu potencial, Carruthers levou-o para a Maçonaria, onde os ideais de “Liberdade, igualdade e fraternidade” estabeleceram as bases de seu caráter. Pouco depois tornou-se um dos homens mais ricos do País.

Em 1839 o escocês retornou ao Reino Unido e ele assumiu os negócios da empresa. Comprou uma chácara no morro de Santa Tereza, onde foi morar e ajudou seus conterrâneos envolvidos na Revolução Farroupilha a escapar da prisão no Rio de Janeiro. Trouxe sua mãe, Mariana de Jesus Batista de Carvalho, a tia e uma sobrinha, Maria Joaquina de Sousa Machado, com quem se casou em 1841. Tiveram 18 filhos, mas apenas 11 nasceram vivos. Destes 11 filhos, apenas 5 sobreviveram após a morte do pai. A morte prematura dos filhos foi atribuída ao grau de parentesco dos pais. Em 1840 viajou pela Inglaterra em plena Revolução Industrial. Conheceu fábricas, a fundição de ferro e ficou convencido que aquele era o caminho a ser trilhado pelo Brasil. Na volta encontrou o café em alta no comércio internacional e decidiu tornar-se industrial. Em 1845 obteve junto ao governo a concessão do fornecimento de tubos de ferro para a canalização do rio Maracanã e no ano seguinte fechou a Casa Carruthers. Convenceu capitalistas ingleses a investirem na indústria metalúrgica, abriu uma fundição em Ponta da Areia (Niterói) e transformou-a num misto de metalúrgica e estaleiro de construção de navios.

Dois anos após, o empreendimento teve o patrimônio multiplicado por quatro, tornando-se o maior do País. Produzia navios, caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, postes para iluminação e canos de ferro para água e gás. Deste complexo saíram 72 navios em onze anos, entre os quais as embarcações utilizadas na Guerra do Paraguai e no tráfego do Rio Amazonas. Em 1849 construiu o maior navio mercante – Serpente -, um navio negreiro rápido, que depois de realizar uma viagem à África, foi vendido à Marinha Mercante e rebatizado “Golfinho”. Em 1857 a empresa sofreu um duro golpe: um incêndio destruiu todas as instalações. Em três anos foi reconstruída, mas em seguida sofreu outro golpe e não resistiu. Em 1869, o Governo isentou de tarifas a entrada de navios construídos fora do País, levando a incipiente indústria nacional à falência. Seus outros empreendimentos continuam lucrativos, principalmente com o fim do tráfico de escravos, em 1850, quando os investimentos se deslocaram para a indústria. Na condição de precursor do liberalismo econômico no Brasil, criou diversas empresas impulsionando a navegação no Rio Amazonas, iluminação a gás e transporte urbano por bondes no Rio de Janeiro e a construção da primeira ferrovia brasileira,

No dia da inauguração, em 1854, recebeu do título de barão de Mauá. Pouco antes, em 1852, fundou o Banco Mauá & Cia. associado a Família Rotschild, com filiais em Londres, Paris e Nova Iorque. Em 1857 fundou o Banco Mauá Y Cia. em Montevidéu com uma filial em Buenos Aires. Em 1860, no auge da carreira, controlava 17 empresas no Brasil, Uruguai, Argentina, Inglaterra, França e EUA. No balanço consolidado em 1867, o valor dos ativos foi estimado em 115 mil contos de réis (155 milhões de libras esterlinas), enquanto o orçamento do império brasileiro contava com 97 mil contos de réis. Era o homem mais rico do Brasil. Foi pioneiro em diversos setores da economia, além dos já citados: exploração do transporte no rio Guaíba e afluentes e a instalação do cabo submarino telegráfico entre a América do Sul e a Europa, em 1874.

Tal envolvimento na área empresarial levou-o, inevitavelmente, à política. Com seu posicionamento de caráter liberal e contra a escravatura, fez-se deputado pelo Rio Grande do Sul em diversas legislaturas: 1856, 1859-60, 1861-64, 1864-66 e 1872-75. Exerceu influência política no Uruguai desde 1850 e foi contrário à Guerra do Paraguai. Não obstante pertencer ao Partido Liberal, apoiou seu amigo Visconde do Rio Branco no período 1871-75. Suas ideias e o agravamento da instabilidade política na região platina, tornou-o alvo das intrigas dos conservadores. Suas empresas passaram a sofrer sabotagens e os negócios foram prejudicados pela legislação favorecendo a importação de máquinas e ferragens. Em 1875, com a falência do Banco Mauá, pediu moratória por 3 anos e foi obrigado a vender grande parte das empresas a grupos estrangeiros. Teve, também, que se desfazer de alguns bens pessoais para liquidar as dívidas.

Doente e desiludido com os acontecimentos, foi obrigado a encerrar a carreira empresarial. Com o pouco que restou, passou a dedicar-se a corretagem de café até a morte, em 21/10/1889, pouco dias antes da queda do Império. Boa parte de sua biografia ficou conhecida através da “Exposição do Visconde de Mauá aos credores de Mauá & Cia. e ao público” Trata-se de um documento de 180 páginas, escrito de modo pungente movido pela necessidade de manter a dignidade de seu nome, conforme se vê na apresentação: “Na idade avançada em que me acho, em presença do acontecimento que motiva esta exposição, realizado pelo modo por que foi resolvido, não posso ter outro objeto em vista senão salvar do naufrágio aquilo que para mim vale mais do que quanto ouro tem sido extraído das minas da Califórnia – um nome puro…” (Souza, Irineu Evangelista de. Exposição aos credores e ao público. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2001).

Dentre suas biografias, cabe destacar: Besouchet, Lídia. Mauá e seu tempo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978; Caldeira, Jorge. Mauá: empresário do Império, São Paulo: Cia. das Letras, 1995; Faria, Alberto de. Ireneo Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1933. O espaço aqui não comporta relacionar todas as homenagens que lhe foram prestadas pós morte com monumentos e seu nome estampado em diversos logradouros, instituições e cidades. Porém, é preciso que se diga: se tivéssemos mais pessoas como ele, realmente interessadas no futuro do País, estaríamos hoje noutro patamar de desenvolvimento, conforme pode se ver no vídeo abaixo, apresentado por Eduardo Bueno, devidamente intitulado: Barão de Mauá: o homem que poderia ter mudado o Brasil.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Firmina

Maria Firmina dos Reis nasceu em 11/3/1825, em São Luís, MA. Professora, poeta e escritora, é considerada a primeira romancista brasileira; a primeira mulher a passar num concurso público como professora; a escrever o primeiro diário de mulher, que se tem notícia e, também, a primeira a fundar uma escola mista. Negra e bastarda, filha de mãe branca e pai negro, foi prima do escritor Francisco Sotero dos Reis, por parte da mãe, que incentivou-a a estudar e escrever. Aos cinco anos foi viver na casa de uma tia, mais bem situada economicamente, na Vila de São José dos Guimarães, onde realizou os primeiros estudos e tomou gosto pela literatura.

Em 1847 foi aprovada num concurso à cadeira de Instrução Primária na atual cidade de Guimarães, onde foi professora de primeiras letras até 1881. Ao vencer o concurso, se recusou a desfilar pela cidade de São Luís, montada nas costas de um escravo. Afirmou que “escravos não eram bichos para levar pessoas montadas neles”. Ao se aposentar, em 1880, fundou uma escola gratuita e mista, para meninos e meninas, causando escândalo no povoado. Ao final, a escola teve que ser fechada em menos de três anos.

Tinha uma postura antiescravista bem definida e articulada: era conhecida e respeitada como professora e cronista; publicava artigos no jornal local e publicou seu primeiro livro em 1859, o romance Úrsula. Vale lembrar que nessa época a literatura brasileira dava os primeiros passos na prosa de ficção. Seu livro foi o primeiro a se posicionar contra a escravidão, antecipando a literatura abolicionista de Castro Alves, com Navio Negreiro (1869) e Bernardo Guimarães, com A escrava Isaura (1875). Além de primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, é também o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria de uma afrodescendente, que tematiza o negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida com a causa libertária.

No prólogo da obra, demonstra uma aguda consciência de sua condição naquela sociedade patriarcal e escravocrata e sua determinação em publicá-la, afirmando: “Pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados… ainda assim o dou a lume”. Seu estilo e verve literária:

“Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo – e deixará de oprimir com repreensível injustiça ao seu semelhante!”

lembra muito bem a poesia de Castro Alves 10 anos depois, com O Navio Negreiro:

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus!?

Poderia se dizer que sua prosa exerceu alguma influência sobre o maior poema condoreiro? Pelo visto, parece que sim. Mas ninguém do métier literário até agora afirmou isto. Um dado que contribui para essa afirmação é que ela foi também poeta, com a publicação da coletânea Cantos à beira-mar, em 1871.

Foi também compositora do Hino à libertação dos escravos e autora da letra e música de outros cantos: Auto de bumba-meu-boi, Hino à mocidade, Valsa (com letra de Gonçalves Dias), Rosinha, Pastor estrela do oriente, Canto de recordação etc. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, publicou o conto A Escrava, reafirmando seu caráter de abolicionista. Em outro romance, Gupeva (1870) chegou a abordar a temática indianista: um chefe indígena se apaixona por uma moça vinda da Europa, sem saber que se trata de sua meia-irmã. São histórias bem novelescas, com um pano de fundo que retrata a sociedade de maneira ferrenha imbuída de sentimentos antiescravistas e republicanos.

Foi mãe adotiva de 10 crianças na condição de solteira toda a vida. Morreu pobre e cega em 11/11/1917. Esquecida por décadas, sua obra só foi recuperada em 1962 pelo historiador paraibano Horácio de Almeida em um sebo do Rio de Janeiro. Até hoje seu rosto é desconhecido e o que consta nos registros da Câmara de Vereadores de Guimarães é uma gravura com a face de uma mulher branca, inspirada na imagem de uma escritora gaúcha, com quem ela foi confundida. Seu busto exposto no Museu Histórico do Maranhão também retrata uma mulher “embranquecida” de nariz fino e cabelos lisos. Assim, Pode se dizer que ficamos sem o seu retrato.

Em 1975 foi lançada sua primeira biografia – Maria Firmina: fragmentos de um vida, de José Nascimento Morais Filho, publicada pela Imprensa do Governo do Maranhão. Em 2017, no centenário de seu falecimento, a editora da Pontifícia Universidade Católica-PUC de Minas Gerais lançou a 7ª edição do romance Úrsula. Uma edição revista e ampliada com anexos de documentos históricos e reedição do conto “A escrava”, que tem ajudado a difundir sua obra. No entanto, pouco se sabe sobre outros possíveis textos, sobre os detalhes de sua vida ou sobre como uma mulher negra de origem pobre alcançou tanto sucesso em pleno regime escravocrata. É de se estranhar que até mesmo o “Movimento Negro”, tão atuante hoje em dia, dê pouca importância à esta ilustre personalidade da história brasileira.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Patrícia Galvão (Pagu)

Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Boa Vista, SP, em 9/6/1910. Escritora, poeta, dramaturga, jornalista, tradutora, cartunista e musa dos “modernistas”, quando ingressou no “Movimento Antropofágico”, em 1928. Filha de Thiers Galvão de França, jornalista e advogado, e Adélia Rehder Galvão, mudou-se para São Paulo, aos 3 anos. Aos 15 passou a colaborar no “Brás Jornal”, assinando “Patsy” em seus artigos. Foi diplomada professora pela Escola Normal Caetano de Campos, em 1928, enquanto estudava literatura e arte dramática no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, dirigido por Mario de Andrade.

Aos 19 anos teve um de seus desenhos publicado na “Revista de Antropofagia” e conheceu seus editores, o casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. O comportamento extrovertido encantou os intelectuais modernistas e ganhou o apelido “Pagu”, a partir do poema –Coco de Pagu- de Raul Bopp. Apesar da pouca idade, era uma mulher avançada para os padrões da época, dada a algumas “extravagâncias”, como fumar na rua, usar blusas transparentes, cabelos curtos e falar palavrões. O poema alavancou sua carreira artística, pois foi publicado em vários jornais, foi interpretado por ela mesma no Teatro Municipal, em 1929, e virou letra de uma toada gravada por Laura Suarez em 1930. Oswald de Andrade ficou entusiasmado com a moça e em pouco tempo estavam namorando, mesmo casado com Tarsila. Em seguida, ele rico, boêmio e famoso, causou um escândalo na sociedade conservadora de então. Em 1930 separou-se de Tarsila e casou com a bela jovem. Para melhorar (ou piorar) o escândalo, o casamento se deu no Cemitério da Consolação, diante do jazigo da família Andrade.

No mesmo ano nasceu o filho Rudá e pouco depois viajou para Buenos Aires, onde participou de um festival de poesia. Antes disso, o casal já era filado ao PCB-Partido Comunista Brasileiro e ela aproveitou a viagem para um contato com Luiz Carlos Prestes, que se encontrava exilado, mas só conseguiu o intento pouco depois em Montevidéu. Aproveitou, também, para contatar o pessoal da revista “Sur”: Jorge Luís Borges e Victoria Ocampo. Voltou ao Brasil entusiasmada com o ideal comunista e o casal funda o tablóide “O Homem do Povo”, em 1931, que dura apenas 8 números. Sua coluna -“A Mulher do Povo”- fazia duras críticas à burguesia paulistana. Nesta época tornou-se também cartunista e passou a ilustrar a “Revista de Antropofagia”. Em agosto de 1931, ao participar de uma greve de estivadores em Santos, foi presa inaugurando uma série de 23 prisões ao longo da vida. Solta 15 dias após, passou a dedicar-se a escrita de um romance – Parque industrial -, publicado em 1933, sob o pseudônimo de Mara Lobo. Trata-se de um dos 10 pseudônimos que usava em seus textos É considerado o primeiro romance proletário do Brasil, traduzido mais tarde e publicado nos EUA e na França.

Como jornalista escrevia sobre tudo, publicando em diversos jornais; opinava sobre política, classe operária, a sociedade, homossexualidade feminina e até histórias policiais para a revista “Detetive”, dirigida por Nelson Rodrigues. Foi correspondente de vários jornais de São Paulo e Rio de Janeiro, quando viajou pela Europa, EUA. Japão, União Soviética e países da Ásia, enviando reportagens. Na França, contatou André Breton e outros surrealistas; entrevistou Sigmund Freud e assistiu à coroação de Pu-Yi, o último imperador chinês, através do qual conseguiu sementes de soja, que foram enviadas ao Brasil. Quem poderia imaginar que tal façanha viria a ser incluída em seu curriculum: introdutora da soja no Brasil, tornando-o o segundo maior produtor do mundo. Em 1935 foi presa em Paris como comunista estrangeira portando uma identidade falsa e foi repatriada. De volta a São Paulo e após um período de brigas e ciúmes, separou-se de Oswald e retomou sua atividade jornalística e militante política. Com a “Intentona Comunista”, em fins de 1935, foi presa e passou 5 anos na cadeia, enquanto o filho Rudá era criado pelo pai. Sofreu torturas na prisão e ficou bastante debilitada, com 44 quilos e sequelas físicas e emocionais.

Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o PCB e passou a defender um socialismo de linha trotskista. A partir daí não quis mais ser chamada de Pagu, padecia de forte depressão e teve sua primeira tentativa de suicídio. Foi recompondo a vida com a ajuda do amigo Geraldo Ferraz, critico de arte com quem se casou em seguida. Desse casamento, nasceu o segundo filho –Geraldo Galvão Ferraz– em 1941 e passou a morar com os dois filhos e o novo marido. Foi uma feminista antes do tempo e se declarava uma “mulher de ferro, com zonas erógenas e aparelho digestivo”. Em 1945 começou a trabalhar na agência de notícias France-Presse, onde ficou por 10 anos, e passa a integrar a redação da revista “A Vanguarda Socialista”, junto com Mário Pedrosa e a nata da intelectualidade de esquerda anti-stalinista. No mesmo ano lançou novo romance: A famosa revista, escrito em parceria com o marido, denunciando as mazelas do PCB. Incentivada pelos amigos, tentou ingressar para valer na política. Nas eleições de 1950, tentou sem sucesso uma vaga como deputada estadual pelo Partido Socialista. Por esta época decidiu se dedicar mais ao teatro e passou a frequentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo. Em 1954, o casal foi convidado para trabalhar no jornal “A Tribuna”, em Santos, onde passam a residir. Aí iniciou um movimento em prol do teatro amador, do qual participava o jovem Plínio Marcos. Montou peças e iniciou uma campanha para a construção do Teatro Municipal.

Sua preferência dirigia-se aos autores de vanguarda: Ionesco, Arrabal, Alfred Jarry, Nabokov, Becket, Ibsn, Octavio Paz etc e traduziu as peças A Cantora Careca e Fando e Liz, dos dois primeiros autores. Escrevia, também, sobre música de vanguarda nacional e estrangeira e chegou a registrar notas sobre televisão em seus primórdios. Além da profícua atividade cultural, não abandonou a participação política. Assumiu a coordenação do Teatro Universitário de Santos (1956), a presidência da União dos Teatros Amadores (1961) e fundou a Associação de Jornalistas Profissionais de Santos, incorporada ao Sindicato dos Jornalistas mais tarde. Em seguida foi acometida de um câncer. Foi se tratar em Paris, mas sem resultados positivos. Desiludida e desesperada, tentou de novo o suicídio. Sobre o episódio, escreveu: “Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas”. Pouco depois, ainda jovem, foi vitimada pela doença aos 52 anos, em 12/12/1962.

Passou uns 20 anos esquecida e a partir da década de 1980 foi adquirindo uma “tardia e crescente” popularidade com a ajuda dos filhos no resgate de seu legado. Surgiram diversas biografias, iniciando com Pagu: vida e obra, de Augusto de Campos (1982); Patrícia Galvão: livre na imaginação no espaço e no tempo, de Lucia Maria Furlani (1988); Pagu: literatura e revolução, de Thelma Guedes (2003); Pagu, de Lia Zatz (2005); Dos escombros de Pagu; um recorte biográfico de Patrícia Galvão, de Tereza Freire (2008). O resgate não ficou apenas nas biografias. Em 1988, sua vida foi contada no filme “Eternamente Pagu”, dirigido por Norma Benguell. Em 2001 Rudá de Andrade realizou o documentário “Pagu: livre na imaginação, no espaço e no tempo”. Na TV, foi personagem na minissérie “Um Só Coração” (2004), interpretada por Miriam Freeland. Em 2005, houve em São Paulo uma grande comemoração pelos 95 anos de seu nascimento, que incluiu lançamento de livros, exposição de fotos, desenhos e textos da homenageada, apresentação de um espetáculo teatral sobre sua vida e lançamento do site Pagu.

No dia exato de seu nascimento, os convidados compareceram com trajes de época a uma “Festa Pagu”, realizada no Museu da Imagem e do Som. No mesmo ano foi lançada sua autobiografia (texto inédito escrito em 1940): Paixão Pagu: A autobiografia precoce de Patricia Galvão. Em 2006, foi tema do samba enredo da Escola de Samba X-9, de Santos. Em 2010, ano do centenário de seu nascimento, foi encenado o espetáculo “Dos escombros de Pagu”, baseado no livro homônimo de Tereza Freire. A comemoração do centenário foi encerrada com a publicação do livro “Fotobiografia Viva Pagu”, de autoria de Lúcia Maria T. Furlani e seu filho Geraldo Galvão Ferraz. A Unicamp criou um centro de pesquisa sobre gênero que leva seu nome e edita os “Cadernos Pagu”. Em Santos, a Casa de Cultura também leva seu nome. Em São Paulo é mantido o Instituto Patrícia Galvão, que mantém serviços dirigidos à defesa dos direitos da mulher e uma agência de notícias. Lucia Maria T. Furlani, autora de livros e tese sobre Pagu costuma dizer que “Ela sempre foi vista como muito louca, e é essa Pagu que precisa ser desmistificada”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Antônio Conselheiro

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, CE, em 13/3/1830. Líder messiânico, conhecido como “Antônio Conselheiro”. Autodenominado “o peregrino”, atraiu para o arraial de Canudos milhares de sertanejos, escravos recém libertos e índios sem aldeia. Atraiu, também, a ira dos latifundiários carentes de mão-de-obra barata; da Igreja Católica carentes de fiéis e do Exército Brasileiro, que o acusava de monarquista, que após quatro expedições militares, exterminou toda a população do arraial num combate desigual com mais de 20 mil mortos, a chamada “Guerra de Canudos”, em 1896. Segundo alguns historiadores, ali foi cometido um genocídio.

Estava destinado a seguir a carreira sacerdotal. Porém, com morte da mãe, em 1834, o sonho de se tornar padre foi preterido. Aos 25 anos, com o falecimento do pai, assumiu o pequeno comércio de secos & molhados mantido pela família. Em 1857 casou-se com uma prima e muda-se para Sobral, onde passou dar aulas no curso primário. Exerceu, também, a função de “Rábula” (advogado prático). Vagueou por alguns povoados buscando melhores condições de vida e passou a residir na Vila de Ipu. Em 1861 flagrou a esposa numa traição conjugal. Abatido e envergonhado, saiu pelo mundo e encontrou abrigo nos sertões do Cariri, uma região seca, mas fértil de penitentes e flagelados em busca de alguma esperança. Aí inicia a vida de “peregrino”, conselheiro dos pobres, construtor de casebres, capelas e cemitérios. Além do carisma, conhecia as leis e a religião, e acolhia bem os necessitados. A primeira notícia de sua aparição pública se deu em 1874, no jornal “O Rabudo”, de Sergipe. A notícia ridicularizava sua figura: “Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito a forma de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos” e desfazia seu caráter religioso: “Chegado (diz ele) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito…”. A notícia ampliou sua fama e chegou até a Bahia.

O ano de 1877 foi marcado como uma das maiores secas na história do Nordeste. Era grande o número de flagelados perambulando pelas estradas É nesta situação de desespero que sua figura de “santo” e “milagreiro” se agiganta, pois acolhia a todos, sabia conversar, dar-lhes conselhos e a promessa de um mundo melhor, mais justo e, sobretudo, cristão. Em pouco tempo, passou a ser chamado de “Bom Jesus” e “Antônio Conselheiro”, um profeta enviado por Deus. Em 1888, com o fim da escravidão, ex-escravos sem meios de subsistência e os índios com suas aldeias desfeitas, passam a vagar pelos sertões, onde vão encontrar aconchego com o “enviado” de Deus. Assim, a figura do “Conselheiro” e seu movimento vão tomando vulto. Em 1893, em Massaté, BA, seus seguidores entraram em conflito com a polícia local, pois se recusavam a pagar impostos à recém-criada República. Neste ano, decidiu se fixar nas margens do Rio Vaza-Barris, no vilarejo de Canudos. Ali os desabrigados constituíram uma comunidade, onde tinham a propriedade comum da terra, tida como um “lugar sagrado”. Em pouco tempo o local foi tomado por mais de 20 mil habitantes. Não foram apenas pequenos jornais, como “O Rabudo”, que denegriam sua imagem. A imprensa em geral dos primeiros anos da República, segundo Walnice Nogueira Galvão, em sua tese de livre-docência e publicada no livro No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais, todos os jornais adotaram a versão do militares e as reportagens desconheciam a humanidade do “inimigo”. Desse modo e querendo ou não, justificavam o genocídio ocorrido em seguida.

O Arraial de Canudos passou a preocupar o poder da recente Republica e o clero que perdia fiéis. Em 24/11/1896, o Exercito enviou uma expedição militar para acabar com o “movimento”. A tropa foi surpreendida num combate corpo a corpo, onde foram mortos mais de 150 conselheiristas. O Exército achou que tinha vencido a guerra, mas venceram apenas uma batalha. Em 29/12/1896 uma segunda expedição militar foi debelada pelos fiéis. A terceira expedição, comandada pelo capitão Antônio Moreira Cesar, foi reforçada, mas o capitão foi abatido logo no início da batalha e sua tropa fugiu em disparada, deixando armamentos e munição à disposição dos beatos. O fato reforçou a convicção da santidade e do poder do seu líder. Em 5/4/1897 inicia a quarta e última expedição. Desta vez, munidos de canhões, cercaram o povoado e foram implacáveis. Até mesmo muitos dos que se renderam foram mortos. Eliminar Canudos e abater o “Conselheiro”, tornou-se uma questão de honra para o Exército. Em outubro de 1897 foram mortos os últimos defensores do povoado. No dia seguinte encontraram seu cadáver enterrado no Santuário de Canudos.

Convenhamos que o Conselheiro era um “louco” bem diferenciado, conforme pode se ver nos seus manuscritos encontrados em Canudos “Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Salvação dos Homens”, uma coletânea de reflexões e relatos diversos sobre como proceder na vida. Só mais tarde este documento foi transcrito e divulgado, possibilitando novas interpretações sobre o fato. Em 1986 a Fundação Casa de Rui Barbosa publicou “Canudos: subsídios para sua reavaliação histórica”, de José Augusto Vaz Sampaio Neto, citando os “Apontamentos” e reivindicando a necessidade de uma revisão na história da Guerra de Canudos. Tal revisão foi ampliada pelo prof. Pedro Lima Vasconcellos no livro “Antonio Conselheiro por ele mesmo”, publicado pela É Realizações em 2017. São dois volumes, onde o primeiro traz os “Apontamentos” na íntegra e o segundo – Arqueologia de um monumento: os apontamentos de Antonio Conselheiro – apresenta um estudo sobre o conteúdo das reflexões mostradas no primeiro volume.

Euclides da Cunha não teve acesso a este documento e escreveu uma série de reportagens n’O Estado de São Paulo assumindo o ponto-de-vista republicano, de combate ao Conselheiro. Só mais tarde, quando foi enviado à Canudos, no final do combate, é que se inteirou da situação e, conforme o historiador Jorge Caldeira, ‘convenceu-se de que tinha defendido uma posição errada”. A partir daí, ele “obriga-se a escrever um livro no qual a versão dos derrotados pudesse ser mostrada”. Cinco anos depois foi publicado “Os Sertões”, um clássico da Literatura Brasileira e pioneiro do que chamamos hoje “Jornalismo Literário”. O livro tornou-se um best-seller imediatamente e até hoje sua história tem atraído o interesse publico, dos literatos e cineastas. Atraiu, por exemplo, Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, a visitar o local, consultar arquivos históricos e escrever “A guerra do fim do mundo”, em 1981, dando uma nova dimensão à figura de Antônio Conselheiro.

Vale lembrar que uma das primeiras revisões históricas do conflito não se deu com os estudiosos da história. Em 1976 a Escola de Samba “Em cima da hora” desfilou com o enredo “Os Sertões”, contando a história do massacre e lembrando a frase de Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Hoje existem dois centros culturais referentes ao ocorrido em Canudos. Um em Quixeramobim, na casa em que o beato nasceu e outro em Canudos, o Memorial Antônio Conselheiro, criado em 2002, mantido em parceria com a UNEB-Universidade do Estado da Bahia, com a finalidade de preservar e difundir a memória da Guerra de Canudos. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, até hoje o Exército Brasileiro não gosta de lembrar aquele fatídico episódio

Canudos foi destruída pela segunda vez na década de 1960, com a construção a represa de Cocorobó. Na época historiadores e intelectuais reagiram revoltados, alegando que um episódio triste e polêmico da nossa história estava sendo encoberto, apagado para sempre. Mais tarde, em 2013, uma grande seca esvaziou a represa e revelou o que sobrou daquela cidade. Muito se pesquisou, escreveu e foi publicado sobre Canudos. Desde o “Libello republicano acompanhado de comentários sobre a Campanha de Canudos”, publicado em 1899 por Cezar Zama sob o pseudônimo Wosley e republicado em 1989 pelo Centro de Estudos Baianos, da UFBA, que se constitui numa denúncia explícita a carnificina ocorrida em Canudos; passando por “Canudos: cartas para o Barão”, da historiadora Consuelo Novas Sampaio, publicado em 1999; o livro “O clarim e a oração: 100 anos de Os Sertões”, de Rinaldo de Fernandes, lançado em 2002; até o excelente estudo realizado em “A guerra total de Canudos”, de Frederico Pernambucano de Mello, em 2007.

O cinema também tem se empenhado em mostrar o conflito em documentários e filmes, como “Guerra de Canudos”, realizado por Sergio Resende em 1997. Neste exato momento, o cineasta português Miguel Gomes prepara uma adaptação de “Os Sertões”, que se chamará “Selvajaria”, para lançamento em 2020. Como se vê o episódio continua aguçando o interesse na busca de uma compreensão e um entendimento do que Canudos representa para a História do Brasil. Ariano Suassuna tinha razão quando disse que “quem não conhece Canudos não conhece o Brasil”.