JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Princesa Isabel

Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro, em 29/7/1846. Filha de Dom Pedro II e Teresa Cristina, governou o Brasil em três ocasiões, enquanto o pai viajava pelo mundo. Estava sendo preparada para reger o País, com a morte dos dois irmãos em 1847 e 1850. Na terceira vez (1888) em que ocupou a trono, proclamou a Lei Áurea, livrando o Brasil da condição de ser o único pais do mundo ocidental a manter o sistema escravocrata.

Aos 4 nos foi proclamada sucessora do pai, e aos 14 prestou juramento como herdeira do trono. Aprendeu a ler e escrever aos 8 anos e passou a necessitar de um “aio” (tutor). Luisa Margarida de Barros, a Condessa de Barral, foi a escolhida por Dom Pedro, em 1856. Sua “aia” tinha 40 anos, era charmosa, vivaz e logo conquistou-a, tornado-se um modelo para a jovem princesa. Junto com sua irmã Lepoldina, teve uma educação ampla, democrática e rigorosa. Estudavam de 8 a 9 horas por dia línguas, história, química, geografia, dança e piano. Na fase adulta, era fluente em francês, inglês e alemão. Um dos legados que ela herdou foi a “falta de racismo”. Tanto o pai como a mãe eram desprovidos do preconceito de cor e a “raça” nunca teve papel preponderante em sua vida social ou relações políticas. Conta-se que no baile imperial, na Ilha Fiscal, em 9/11/1889, seu amigo André Rebouças foi recusado por uma dama convidada para dançar. Observando o constrangimento de toda a Corte Imperial, D. Pedro II pediu à Princesa Isabel para intervir. Ela caminhou altiva pelo meio do salão sob o olhar estarrecido da plateia e pegou o “Negão” pra dançar.

Em 1864 a família real passou a procurar um marido para a filha na casa real francesa e encontraram Gastão de Orléans, o Conde d’Eu, filho do Duque de Nemours. O casamento se deu em 15/10/1864, numa grande festa no Largo de Paço, aberta ao público. O casal ficou instalado no atual palácio Guanabara e passou a promover concorridos saraus culturais visando melhorar a vida social do Rio de Janeiro. Em 1871, quando assume e regência do Império, promulgou a Lei do Ventre Livre. A partir dai, o recém-nascido negro não será mais escravo. Assim, tem inicio a oposição ferrenha que ela passou a sofrer dos senhores de engenho e da elite escravocrata.

Tal oposição foi intensificada a partir de 1876 com a segunda regência. Os grupos republicanos, positivistas e anticlericais promoveram uma campanha de detração da Princesa e de seu marido. Fêz-se de tudo para impedir que o casal mais tarde subisse ao trono. Em certos circulos dizia-se que “precisamos fazer a república enquanto o velho está vivo, senão a filha dará cabo de nós”. De qualquer modo, o movimento abolicionista tomou corpo, sendo que em algumas províncias, como São Paulo, quase já não haviam escravos. Pará, Amazonas e Ceará haviam libertado os escravos desde 1884. A oposição, segundo alguns historiadores, foi reforçada devido ao fato dela ter planos de implantar uma espécie de reforma agrária distribuindo terras aos negros para que dela tirassem seu sustento. Em 1888, na 3ª Regência, ela provocou a queda do gabinete Cotegipe e promoveu João Alfredo Corrêa de Oliveira à presidência do Conselho Imperial para conseguir seu intento.

A Lei Áurea foi votada e teve sua asssinatura, em 13/5/1888. O Conde d”Eu hesitou: ”Não assine. Isto será o fim da monarquia”. Mas, ela foi firme: “Se não o fizer agora, talvez nunca mais tenhamos uma oportunidade tão propícia. O negro precisa de liberdade, assim como eu preciso satisfazer ao nosso Papa e nivelar o Brasil, moral e socialmente aos demais países civilizados”. No dia da aclamação, ela assistia a grande festa do povo em frente ao palácio. Na sacada, junto ao barão de Cotegipe, perguntou-lhe: “Então, Senhor Barão, o que V.Excia. acha da lei que acabo de assinar?” A resposta foi sincera: “Redimistes, sim, Alteza, uma raça, mas perdestes vosso trono”.

Dom Pedro em Milão, doente, recebeu a notícia em 22 de maio e mandou passar-lhe um telegrama: ”Princesa Imperial. Grande satisfação para meu coração e graças a Deus pela abolição da escravidão. Feliciitação para todos vós e todos os brasileiros”. O Papa Leão XIII enviou-lhe a “Rosa de Ouro”, a maior distinção que os Pontífices davam aos chefes de Estado. A comenda foi festejada com toda magnificência na capela imperial, em 28/9/1888, comandada pelo Núncio Apostólico. Enquanto isso, a campanha contra a monarquia se agigantava, agora atacando o ‘velho gagá”, e espalhando o boato que a “Princesa e o Conde d’Eu vão se tornar tiranos aqui” e outras calúnias. O estopim que provocou o golpe, ocasionando a proclamação da República, foi o fato de D Pedro ter dito, dois meses antes, a alguns amigos que abdicaria no dia de seu aniversário, em 2 de dezembro, e passaria o trono para a Princesa Isabel.

Em 15/11/1888, os militares no Rio de Janeiro, representando 1/3 do Exército, tendo o Marechal Deodoro da Fonseca à frente, proclamaram a República num golpe de estado, A familia imperial foi embarcada na calada da noite, rumo ao exílio, evitando, assim, alguma reação popular. Dom Pedro II faleceu em 4/12/1891, em Paris e foi sepultado com honras de Chefe de Estado. A Princesa Isabel e o marido foram morar num bairro elegante da cidade e passou a levar uma “vida de rainha”, tal seu prestigio junto aos franceses. Ficou amiga de Santos Dumont, que por lá fazia seus experimentos aeronáuticos. Recebeu e ajudou diversos políticos brasileiros dando conselhos na solução dos problemas nacionais.

Durante o periodo em que viveu em Paris até seu falecimento, em 14/11/1921, representou o Brasil na França no melhor estilo. Aqui, o presidente Epitáio Pessoa decretou 3 dias de luto nacional. Em 1953 seu corpo foi transladado para o Brasil e em 13/5/1971, ela e o marido foram transferidos para o Mausoléu da Catedtral de Petrópolis, onde se encontram sepultados. Entre suas biografias, vale citar: Isabel, a redentora dos escravos, de Robert Daibert Jr.; A história de Isabel (2015), de Regina Echeverria; Princesa Isabel do Brasil (2005), de Roderick j. Barman; Castelo de papel: uma história de Isabel de Bragança, princesa imperial do Brasil e Gastão de Orléans, conde d’Eu (2013), de Mary del Priore.

Saiba mais sobre a Princesa Isabel através do Instituo Cultural D. Isabel no site www.idisabel.org.br

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Barão do Rio Branco

José Maria da Silva Paranhos Jr., mais conhecido como Barão do Rio Branco, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 20/4/1845. Advogado, geógrafo, jornalista, historiador, político, professor e “Patrono da Diplomacia Brasileira”. Filho do senador e diplomata Visconde do Rio Branco, estudou no Colégio Pedro II e formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo, tendo concluído o curso na Faculdade de Direito do Recife, em 1866.

Aos 18 anos teve seu primeiro texto publicado na revista “Popular”, uma biografia de Luís Barroso Pereira. Aos 21 publicou seu primeiro artigo no jornal francês “L’Illustration”, sobre a guerra do Paraguai. Foi a primeira manifestação do diplomata, que se anunciava. Em 1868 foi nomeado promotor público em Nova Friburgo e, no ano seguinte, deputado geral pelo Partido Conservador. No mesmo ano, acompanhou o pai, na condição de secretário da Missão Especial, ao Rio da Prata e ao Paraguai. Nos dois anos seguintes exerceu a mesma função nas negociações de paz entre os Aliados e o Paraguai. Assim, o exercício da diplomacia se fez na prática, tendo o pai como exemplo.

Como jornalista, dirigiu o jornal “A Nação”, junto com Gusmão Lobo, e colaborou no Jornal do Brasil. Em 1876, entrou na diplomacia e foi nomeado cônsul-geral em Liverpool, Inglaterra, onde permaneceu até 1893. Em 1888 recebeu o título de “Barão”, concedido pela Princesa Isabel. mas continuou a usá-lo junto ao nome “Rio Branco” mesmo após a proclamação da República, reafirmando sua convicção de monarquista e homenageando seu pai, Visconde do Rio Branco. Neste período, após a proclamação da República, exerceu a função de superintendente, em Paris, dos serviços de imigração para o Brasil (1889) e ministro plenipotenciário em Berlin (1900). Em 1898 entrou para a Academia de Letras, que ajudou a fundar.

Logo no início da República, contribuiu substancialmente para o alargamento das fronteiras, com a incorporação de 900 mil km² ao território nacional. Em 1895 conseguiu assegurar boa parte do território dos estados de Santa Catarina e Paraná, em litígio com a Argentina. Em 1900 ganhou a disputa com a França, no estabelecimento da fronteira do Amapá com a Guiana Francesa, que foi definida no rio Oiapoque. Com tais conquistas, foi conduzido, pelo presidente Rodrigues Alves, ao Ministério das Relações Exteriores, em 3/12/1902, e ocupou o cargo ao longo de 4 mandatos presidenciais A nomeação ocorreu no momento em que o Brasil se envolvia noutra disputa territorial com a Bolívia.

Parte daquela região era ocupada por colonos brasileiros que resistiam às tentativas bolivianas de expulsá-los, episódio conhecido como “Revolução Acriana”. Em 17/11/1903, assinou o Tratado de Petrópolis, pondo fim ao conflito mediante a compensação econômica de 2 bilhões de libras esterlinas e algumas concessões territoriais. Esta é sua obra diplomática mais conhecida, que deu seu nome à capital do Estado. O caso criou tensões, também, com o governo do Peru, resolvidas em 1909 com o Tratado Velaverde-Rio Branco, consolidando a posse brasileira do Acre. Outro de seus méritos, foi a negociação sobre o uso do Rio Jaguarão e a Lagoa Mirim, que serviam de canais ao Uruguai. Tal concessão lhe conferiu o nome de “Rio Branco”, dado à antiga cidade de Puerto Artigas, pelo povo uruguaio. Foi homenageado, também, em Mato Grosso do Sul, com seu nome dado ao município de Paranhos. Certamente é o brasileiro com o nome dado ao maior número de cidades, instituições e logradouros.

Poucos sabem, mas o Bondinho do Pão de Açúcar é mais uma obra de sua lavra. Em 1908, chamou o Engº Augusto Ferreira Ramos para projetar um sistema teleférico que desse acesso ao cume do Morro da Urca, inaugurado em 1912. Sua presença não apenas na área diplomática fez com que seu nome fosse sugerido, em 1909, para a sucessão presidencial que se daria no ano seguinte. Mas, ele declinou de qualquer candidatura que não fosse de unanimidade nacional. Sofrendo de problemas renais, veio a falecer em 10/2/1912, durante o carnaval, alterando o calendário da festa, devido as inúmeras homenagens que lhe foram prestadas. O necrológio da “Gazeta de Notícias” disse que “ele foi o dilatador do Brasil, alargando-o e aumentando-o em terras graças ao seu engenho, sem um leve ataque à justiça e ao seu direito”.

O “Jornal do Commercio”, emendou: “Só os conquistadores dos tempos dos descobrimentos e os grandes capitães da idade heroica deram às suas pátrias respectivas territórios tão vastos quanto o Sr. Rio Branco deu ao seu país bem amado. Com o seu talento, a sua habilidade, a sua força de persuasão e a sua erudição formidável conseguiu ir anexando ao Brasil trechos litigiosos e territórios contestados.”. O Barão, não obstante ser jornalista, não era muito de escrever livros, mas deixou 3 obras publicadas em muitos volumes: Efemérides brasileiras, 1893-1918; A questão de limites entre o Brasil e a República Argentina, em 6 vols. e A questão de limites entre o Brasil e a Guiana Francesa, em 7 vols. A Fundação Alexandre de Gusmão do MRE dispõe de toda a obra em seu site com download gratuito. Basta clicar aqui para acessar.

Em 1945, nas comemorações do centenário de seu nascimento, foi criado o Instituto Rio Branco, a escola de diplomacia do Ministério das Relações Exteriores. O “Patrono da Diplomacia Brasileira” foi biografado por diversos autores, com destaque para: Rio Branco, de Álvaro Lins (1945); Perfil de um estadista (ensaio biográfico sobre o Barão do Rio Branco) de Antônio Carlos Villaça (1946); A vida do Barão do Rio Branco, de Luís Viana Filho (2008) e Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco de Luís Claudio Villafãne G. Santos (2018). Este diplomata e historiador escreveu mais dois relatos sobre Rio Branco: O dia em que adiaram o carnaval: política externa e a construção do Brasil (2010) e O evangelho do Barão: Rio Branco e a identidade brasileira (2012).

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AS BRASILEIRAS: Ana Nery

Anna Justina Ferreira Nery nasceu em Cachoeira, BA, em 13/12/1814. Pioneira da enfermagem no Brasil. Oriunda de uma família de militares, casou-se aos 23 anos com o Capitão-de-Fragata Isidoro Antônio Nery, com quem teve três filhos: Justiniano, Antônio Pedro e Isidoro Antônio Filho. Criou os filhos quase sozinha, visto que o marido passou boa parte do tempo viajando a serviço da Marinha. Em 1844, o marido faleceu aos 43 anos e ela, viúva aos 29 anos, teve que cuidar dos filhos ainda crianças, o mais velho com cinco anos.

Nestas condições passou a ter uma vida autônoma e independente. Com o intuito de prover melhor educação para os filhos, mudou-se para Salvador. Justiniano e Isidoro dedicaram-se à medicina e Antonio Pedro, o mais novo, seguiu carreira militar. Em 1865, quando o Brasil entrou na Guerra do Paraguai, os três foram convocados juntos com o tio e embarcaram para o Sul. Com isso, ela tomou uma decisão que viria a torná-la numa das principais heroínas do País. Em 8/8/1865 escreveu uma carta ao Presidente da Província da Bahia, Manuel Pinto de Souza Dantas:

IIImo. Exmo. Sr.

Tendo já marchado para o exército dois de meus filhos, além de um irmão e outros parêntes, e havendo se offerecido o que me restava nesta cidade, alluno do 6º anno de Medicina, para também seguir a sórte de seus irmãos e parêntes, na defesa do país, offerecendo seus serviços médicos, – como brasileira, não podendo ser indifferênte aos sofrimêntos dos meus compatriótas, e, como mãe, não podendo resistir à separação dos objectos que me são caros, e por uma tão longa distância, desejava acompanhal-os por toda a parte, mesmo no theatro da guerra, si isso me fosse permittido; mas opondo-se a este meu desejo a minha posição e o meu séxo, não impédem, todavia, estes dois motivos, que eu offereça os meus serviços em qualquer dos hospitais do Rio Grande do Sul, onde se façam precisos, com o que satisfarei ao mêsmo tempo os impulsos de mãe, e os deveres da humanidade para com aquelles que óra sacrificam suas vidas pela honra e brio naciónais e intégridade do Império. Digne-se V. Ex. de acolher benigno este meu espontâneo offerecimênto, ditádo tão sómente pela vóz do coração.

A resposta veio rápida junto com ordens expressas ao Conselheiro Comandante das Armas para que ela fosse contratada como enfermeira do Exército. Em 13/8/1865, embarcou para o Rio Grande do Sul e fez um curso rápido de enfermagem com as Irmãs da Caridade de São Vicente de Paulo e um estágio em Salto, na Argentina, onde se localizavam os hospitais dedicados aos sodados feridos. Atuou, também, nos hospitais militares de Corrientes, Humaitá e Assunção. Alguns autores afirmam que aí ela montou uma enfermaria em sua residência. Durante os combates, viu morrer na batalha o filho mais velho, o que não a impediu de continuar atuando com bravura entre as mulheres que ali prestavam serviços. Recebeu dos soldados o título de “Mãe dos Brasileiros”, estampado no poema de Rozendo Muniz Barreto.

Além do poema, recebeu homenagens ainda no campo de batalha: Diploma de Sócia Honorária da Sociedade de Socorro, em Corrientes e Sócia Instaladora da Sociedade de Beneficência Portuguesa, em Assunção. Quando acabou a Guerra em 1870, retornou ao Brasil, trazendo consigo seis órfãs. Em 6/5/1870 chegou ao Rio de Janeiro, e foi recebida por um grupo de conterrâneas, que lhe entregaram um “Diploma” guarnecido de madrepérola e prata com as inicias AJFN e uma dedicatória: “Tributo de admiração à caridosa baiana por alguns compatriotas”. Do governo imperial recebeu a Medalha Geral de Campanha e a Medalha Humanitária de primeira classe e uma pensão anual de um conto e duzentos réis. Os conterrâneos providenciaram um quando pintado por Victor Meireles, no qual ela aparece no campo de batalha com uma coroa de louros na cabeça.

Ao chegar em Salvador, em 5/6/1870, foi recebida pela banda de música do Corpo da Polícia e uma coroa de louros cravejada de brilhantes. Três anos após o quadro de Victor Meireles foi exposto no Salão do Paço Municipal de Salvador, onde se encontra até hoje. Pouco depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde seu filho Antonio Pedro, então Capitão do Exército, foi prestar serviço. Em 1880 foi acometida de uma doença grave e veio a falecer em 20 de maio. Foi sepultada no Cemitério São Francisco Xavier, em jazigo perpétuo, com a inscrição na lápide: “Aqui descansam os restos mortais de Da. Ana Néri, denominada Mãe dos Brasileiros, pelo Exército, na campanha do Paraguai”

Em 31/3/1926, por decreto presidencial, foi dado seu nome à Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, integrada a Universidade do Brasil, como ensino superior em 1945. Outro decreto de Getúlio Vargas, em 1938, instituiu o “Dia do Enfermeiro”, quando devem ser prestadas homenagens em sua memória em todos os hospitais e escolas de enfermagem do País. Em 1979, uma comissão governamental realizou a exumação do seu corpo; os despojos foram colocados numa urna de jacarandá e prata e sepultado no centro da nave principal da Igreja Matriz de Cachoeira. A homenagem mais recente ocorreu em 2/12/2009, com a inclusão de seu nome no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”.

Um importante ensaio biográfico foi publicado na Revista Brasileira de Enfermagem (v. 52, nº 3, set. 1999) republicado no site da revista Scielo: Anna Justina Ferreira Nery: um marco na história da enfermagem brasileira, por Maria Manuela Vila Nova Cardoso e Cristina Maria Loyola Miranda. Clique aqui para ler.

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OS BRASILEIROS: Zumbi dos Palmares

Zumbi dos Palmares nasceu, supostamente, em 1655 na Serra da Barriga, Capitania de Pernambuco, pertencente hoje ao município de União dos Palmares, Alagoas. A história deste personagem é controversa, mas existe um consenso em se admitir que era neto da princesa Aqualtune, filha de um rei africano do Congo. Aos sete anos foi aprisionado pela expedição de Brás da Rocha Cardoso, numa invasão a Serra da Barriga, e entregue ao padre Antonio Melo, do distrito de Porto Calvo. Recebeu o nome de Francisco e uma educação formal. Aos 10 anos já sabia latim e português; demonstrava ser um garoto inteligente e ajudava na celebração das missas. Porém, diz-se também que isso não passa de lenda, uma vez que temos poucos registros na história da época.

Aos 15 anos, Francisco fugiu de Porto Calvo e volta para a Serra da Barriga, adotando o nome de Zumbi e passando a fazer parte da Família Real, pois foi adotado pelo então rei Ganga Zumba. A nação palmarina começou a se formar por volta de 1597, com Aqualtune. Rapidamente a comunidade cresceu, pois era constantemente alimentada pela chegada de negros fugidos, índios e brancos pobres. O Quilombo de Palmares chegou a ter 30 mil habitantes e, com sua organização e consequente fortalecimento, passou a ser visto como uma ameaça perigosa ao poder colonial. Além de praticarem uma agricultura considerada avançada para os padrões da época, desenvolveram uma atividade metalúrgica organizada para sua defesa e subsistência e chegaram a estabelecer comércio com localidades próximas.

Entre 1602 e 1694, os palmarinos resistiram a 66 expedições coloniais, tanto de portugueses como de holandeses. Foi a maior e mais longa expressão contestatória da escravidão em todo o mundo. De todos os líderes da resistência negra, dois se tornaram conhecidos: Ganga Zumba e Zumbi. Este, porém, foi o líder mais famoso da confederação de quilombos de Palmares, que se estendia pelos territórios atuais de Alagoas e Pernambuco. A Serra da Barriga era a sede da República de Palmares, mas sua extensão ia além da cidade hoje conhecida como União dos Palmares. Zumbi teve pelo menos cinco filhos, mas não há registro histórico suficiente para comprovar a tese tradicional que ele teria se casado com uma mulher branca de nome Maria. O nome de Zumbi apareceu pela primeira vez em documentos portugueses, em 1673, quando uma expedição chefiada por Jácome Bezerra foi desbaratada. Tornou-se um grande guerreiro e estrategista militar na luta para defender Palmares contra os portugueses.

Em 1675, a tropa portuguesa comandada pelo Sargento-mor Manuel Lopes Galvão, conseguiu ocupar o local, um mocambo com mais de mil choupanas. Mas depois de uma retirada que durou cinco meses, os negros contra-atacam, entre eles Zumbi com apenas vinte anos de idade, e após um combate feroz, Manuel Lopes é obrigado a se retirar para Recife. Palmares se estendia então da margem esquerda do São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho e tinha mais de duzentos quilômetros de extensão, era uma república com uma rede de onze mocambos, que se assemelhavam as cidades muradas medievais da Europa, mas no lugar das pedras havia paliçadas de madeira. O principal mocambo, o que foi fundado pelo primeiro grupo de escravos foragidos, ficava na Serra da Barriga e levava o nome de Cerca do Macaco. O local contava com duas ruas espaçosas com umas 1500 choupanas e uns oito mil habitantes.

Ganga Zumba, cansado de muitas guerras, assinou um acordo de paz com os portugueses, em 1678. Isso desagradou uma parte significativa dos quilombolas, que viam a transferência para Cucaú como uma forma de controlar a comunidade, além de não resolver o problema da escravidão. Devido a esse acordo, Zumbi rompeu com Ganga Zumba, que foi envenenado em 1680, sendo aclamado Grande Chefe. Subordinou toda a vida do quilombo em função das exigências da guerra: deslocou povoações para locais mais remotos; incorporou e treinou para a luta todos os homens sadios; aumentou os postos de vigilância e observação; reuniu armas e munições e reforçou as fortificações da aldeia do Macaco ou Cerco Real, o quartel-general do quilombo, tornando-a quase inexpugnável e decretou a lei marcial: quem tentasse deserdar seria morto.

Durante os anos 1680-1691, Zumbi conseguiu derrotar todas as expedições enviadas contra o quilombo dos Palmares. Em 1692, a aldeia do Macaco foi atacada por Domingos Jorge Velho, experiente bandeirante paulista na “caça” de índios, trazido para enfrentar os quilombolas. Mas teve suas tropas arrasadas. Pediu reforço e recebeu ajuda de uma tropa comandada por Bernardo Viera de Melo. O quilombo ficou sitiado, mas só capitulou no dia 6 de fevereiro de 1694, quando as tropas conseguiram invadir o local derrotando os quilombolas após 94 anos de resistência. Durante o ataque, Zumbi caiu ferido em um desfiladeiro, o que gerou o mito de que o herói se suicidara para evitar a escravização. No entanto, em 1695, Zumbi voltou a comandar ataques. Em seguida foi traído por um de seus comandantes, Antônio Soares, e assassinado em 20 de novembro de 1695.

A cabeça de Zumbi foi decepada e levada para Olinda, onde foi pendurada no Pátio do Carmo, até sua total decomposição, afim de desfazer a crença na lenda de sua imortalidade. Em 2007 foi criado o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, no mesmo local da sede do Quilombo (Serra da Barriga), na cidade de União dos Palmares, Alagoas. Além deste memorial, existem mais dois dedicados a Zumbi dos Palmares: Volta Redonda (RJ) e Teresina (PI). Atualmente, no dia da sua morte, 20 de novembro, é comemorado no Brasil o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. A data foi criada com a lei nº 12.519, de 10/11/2011 e é feriado oficial em diversas cidades.

Há uma grande bibliografia sobre Zumbi e o Quilombo de Palmares, nem sempre convergentes no enfoque. Laurentino Gomes, que lançou o 1º volume da trilogia Escravidão (2019) afirmou que alguns historiadores duvidam da existência de uma única pessoa chamada Zumbi. Acham que haviam mais de um zumbi ao longo da história do Quilombo e que aquele morto em 1695, foi o último deles. Outros livros relevantes: O Quilombo de Palmares (1966), de Edison Carneiro; Zumbi dos Palmares: a história do Brasil que não foi contada (1988), de Eduardo Fonseca Jr.; Cidadania no Brasil: o longo caminho, 3ª ed. (2002), de José Murilo de Carvalho; De olho em Zumbi dos Palmares: história, símbolos e memória social (2011), de Flavio dos Santos Gomes. Por último, vale citar o livro Palmares, ontem e hoje (2005), de Pedro Paulo Funari (diretor do Projeto Arqueológico Palmares) e Aline Vieira de Carvalho. Numa ótima entrevista, publicada na “Revista História”, de novembro de 2009, os autores desmistificam algumas “verdades” sobre o Quilombo de Palmares e seu líder. Leia clicando aqui

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AS BRASILEIRAS: Julia Lopes de Almeida

Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida nasceu em 24/9/1862, no Rio de Janeiro. Escritora, dramaturga, jornalista, cronista, abolicionista e feminista, participou das primeiras reuniões para a fundação da ABL-Academia Brasileira de Letras, mas não pode integrá-la pelo fato de ser mulher, não obstante sua grande e importante produção literária, além de pioneira da literatura infantil. Filha do médico Valentim José da Silveira Lopes e de Adelina Pereira Lopes, teve papel destacado no jornalismo centrado nos temas: República, abolição dos escravos, emancipação da mulher e direitos civis.

Na infância mudou-se com a família para uma fazenda em Campinas (SP), onde viveu dos 7 aos 23 anos; foi incentivada pelo pai a escrever e teve suas primeiras crônicas publicadas na “Gazeta de Campinas”. Em 1884, passou a escrever regularmente, durante 30 anos, no jornal carioca “O Paíz” e em 1886 publicou, junto com a irmã, seu primeiro livro: Contos infantis, adotado nas escolas de todo o País por mais de 20 anos. No mesmo ano partiu para Lisboa e casou com o poeta e jornalista Francisco Filinto de Almeida. Incentivada pelo marido, publicou o livro de contos: Traços e iluminuras. Numa época em que era raro a mulher escritora, ela teve a sorte de receber incentivos do pai e do marido para exercer este ofício.

Retornou ao Brasil, em 1888, e lançou seu primeiro romance: Memórias de Marta, no ano seguinte. Vivendo em São Paulo, passa a colaborar regularmente com outros jornais e revistas: “Jornal do Commércio”, “A Semana”, “Ilustração Brasileira” e “Tribuna Liberal”. Na literatura, seu estilo é marcado por influências do realismo e naturalismo francês, notadamente pelos contos de Guy de Maupassant e romances de Émile Zola. Seu marido era diretor do jornal “A Província de São Paulo” e em seguida foi eleito deputado federal. Em 1891, publicou em folhetim na “Gazeta de Notícias”, o romance A família Medeiros, publicado em livro no ano seguinte. O romance teve a edição esgotada em 3 meses, e foi elogiado pela crítica Lúcia Miguel Pereira.

Em 1893 o casal passou a residir no Rio de Janeiro; constroem uma mansão em Santa Tereza, onde mantém o “Salão Verde”, frequentado por artistas e intelectuais; criam os (5) filhos e ela intensifica a atividade de cronista e escritora com diversos livros publicados, dentre os quais o romance A falência (1901), considerado sua obra mais relevante. Em 1896 participou de diversas reuniões com os intelectuais cariocas, com o objetivo de criar uma academia de letras. No ano seguinte foi criada a ABL-Academia Brasileira de Letras, cuja cadeira nº 3 deveria ser ocupada por ela. Porém, seguindo a tradição de não permitir mulher, foi ocupada pelo marido, que os cariocas passaram a chamar de “acadêmico consorte”.

Em 2017, num ciclo de palestras realizado pela ABL, foi reconhecida a injustiça cometida e ela foi incluída entre os autores que poderiam ter entrado na instituição. Em 1908 e 1912 recebeu os prêmios “Exposição Nacional” e da Companhia Dramática Nacional, com as peças A herança e Quem não perdoa, respectivamente. Em seguida realizou uma grande viagem, com toda a família, pela Europa e foi homenageada, em 1914, com um jantar no Mac-Mahon Hotel, ao qual compareceu a intelectualidade parisiense e muitos brasileiros. A viagem deveria continuar, mas a eclosão da II Guerra Mundial fez com que voltassem ao Brasil. A rotina de cronista prossegue junto com a publicação de livros, que chegou a mais de 40 títulos. Em 1922 foi convidada pelo Consejo Nacional de Mujeres de Argentina, em Buenos Aires para dar palestras e na volta, participou do I Congresso Feminino do Brasil, no Rio de Janeiro.

Em 1924, sua filha, Margarida, foi contemplada pela Escola de Belas Artes (RJ) com uma bolsa de estudos, obrigando-a a ficar 4 anos estudando em Paris. No ano seguinte, ela vende a mansão de Santa Teresa, aplica o dinheiro em ações e todos passam a viver em Paris junto com a filha. Na Europa, passou a conhecer melhor alguns países ao mesmo tempo em que escreve e publica alguns de seus livros em francês. Os filhos, já adultos, seguem suas vidas e o casal retorna ao Brasil em 1931. Sua filha Lucia, que vivia com o marido na África, adoeceu e levou-a a viajar até lá, em 1934, para trazê-la junto com os netos e genro, visando um tratamento melhor no Brasil. Por uma ironia do destino, ela preocupada com a saúde da filha, 8 dias após chegar da África, pegou uma febre amarela com complicações renais e linfáticas, e veio a falecer em 30/5/1934. Junto com a missa de 30 dias, foi publicado seu último romance “Pássaro tonto”

A partir da década de 1980, vem sendo demonstrado certo interesse pela sua produção literária, com análises e reedições de suas obras. Em 1987, a IMESP-Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, republicou seu livro A mensageira (1897), onde consta: “. Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.”.

Em 2016, a Biblioteca Nacional reuniu suas crônicas publicadas em “O Paiz” e publicou Dois dedos de prosa: o cotidiano de Júlia Lopes de Almeida. Em 2019 foi lançada a coletânea de contos de terror Medo imortal, incluído alguns contos de sua autoria. Tendo em vista sua condição de uma das pioneiras na defesa da emancipação das mulheres, bem que merecia alguma homenagem do Movimento Feminista.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Abreu e Lima

José Inácio de Abreu e Lima nasceu em Recife, PE, em 6/4/1794. Militar, político, jornalista, historiador e escritor. Filho do Padre Roma, ambos heróis da Revolução Pernambucana de 1817. Cursou a Academia Militar do Rio de Janeiro (1812-1816), saindo como capitão de artilharia. Sua patente de general deve-se ao fato de ter sido chefe do Estado-Maior de Bolívar por mais de 10 anos. Teve papel destacado nas campanhas de independência da Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, entre 1818 e 1832. Na Venezuela é considerado um dos “Libertadores da América”; tem seu busto exposto no extremo oeste da Avenida Bolívar, em Caracas e denomina o “Centro Abreu e Lima de Estudios Brasileños del Instituto de Altos Estudios de América Latina, que integra a Universidade Simón Bolívar.

Seu reconhecimento como herói brasileiro ocorreu apenas na década de 1940, quando o governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, deu o nome de Abreu e Lima ao distrito de Maricota, tornado Município em 1982. Em 1816 foi preso sob a acusação de participar da rebelião pernambucana que se iniciava. Para mantê-lo isolado do movimento, transferem-no para a Bahia, onde irá cumprir sua pena e é obrigado a presenciar o fuzilamento de seu pai no ano seguinte. Fugiu da prisão em Salvador com a ajuda da Maçonaria, em outubro de 1817, e foi para Philadelphia, EUA, onde se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas. Durante um ano conviveu com os libertários norte-americanos, exilados franceses e conheceu um irmão de Simón Bolívar. Entrou em contato com o general e decidiu se aliar na construção da “Pátria Grande”.

Em princípios de 1819, já estava na cidade de Angostura, no meio da Selva Amazônica, o quartel-general de Bolívar, de quem se tornou fiel escudeiro até sua morte, em 1831. Com a morte de Bolívar, e o não reconhecimento de sua patente pelo governo do General Santander, que o sucedeu, retornou aos EUA e, após breve período, partiu para a França. Em seguida retornou ao Brasil, em 1832, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Aí não se alinhou aos republicanos, pois considerava-os elitistas e achava que o fim da monarquia poderia provocar o fim da nossa unidade territorial, como ocorreu com a América espanhola. Dedicou-se ao estudo (e escrita) da História do Brasil e a travar polêmicas pela imprensa, com diversos políticos. Um deles era o republicano Evaristo da Veiga, que o chamava pejorativamente de “General das massas”. A este epíteto, ele respondeu: “Com efeito a minha causa está afeita ao povo; é às massas para quem apelo, porque eu sou parte delas; sou membro desse todo a quem desprezais a cada instante e a quem tendes chamado vil canalha”.

Em 1844, voltou ao Recife e passa, de novo, a conspirar contra o governo imperial. Seu envolvimento na Revolução Praieira, em 1848, lhe custou dois anos de prisão em Fernando de Noronha. Anistiado, retirou-se da política, sem abrir mão de suas convicções libertárias. Em 1855 publicou o primeiro livro nas Américas sobre o socialismo, intitulado justamente “O Socialismo”, sem citar Marx. O livro foi reeditado em 1979 pela Editora Paz e Terra, com prefácio de Barbosa Lima Sobrinho, onde afirmou: “No dia em que o Brasil se interessar realmente pelo seu relacionamento com as repúblicas da América Espanhola, Abreu e Lima conquistará a importância que merece, na história de seu país”.

Após a publicação do livro, passou a escrever regularmente no “Diário de Pernambuco”, publicar livros e ensaios históricos e a polemizar com o clero conservador. Em 1867 publicou mais dois livros – As Bíblias falsificadas ou duas respostas a Joaquim Pinto Campos e O Deus dos judeus e o Deus dos cristãos – em que expunha as suas ideias liberais sobre religião, defendendo a liberdade religiosa. Tais livros acirraram a briga com o clero recifense, e lhe causaram transtornos mais tarde, quando morreu. Outros livros: Compêndio de História do Brasil (1843), Sinopse cronológica da história do Brasil (1844), História universal (1847), Reforma Eleitoral-Eleição Direta (1862). Segundo Vamireh Chacon, autor da biografia Abreu e Lima: General de Bolívar (Paz e Terra, 1983), como político, ele “começou como liberal, transformando-se lentamente, pelas decepções, num liberal moderado clássico e ao fim da vida em simpatizante do socialismo utópico, itinerário mais que pessoal, precursor de muitos outros”.

A historiadora Claudia Poncioni tem uma explicação para a sua ausência na História do Brasil: “Entre os personagens históricos brasileiros do século XIX, nenhum teve um percurso comparável ao de Abreu e Lima. No entanto, a constituição do papel dos ‘grandes homens’ brasileiros se faz, no Império, principalmente sob a égide do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), instituição criada em 1838 para sustentar o projeto de construção da identidade nacional imperial, que emerge naquele período. No panteão brasileiro, ilustrado pela revista do Instituto, o lugar de Abreu e Lima, como já foi dito, é proporcionalmente inverso ao alcance histórico do personagem”.

Os ideais revolucionários e republicanos de Abreu e Lima incomodaram bastante o poder constituído na época, ao ponto de ser castigado mesmo depois de morto. Devido às polêmicas que travou com o clero recifense e ao fato de ser Maçom, o bispo de Olinda Dom Francisco Cardoso Aires impediu que ele fosse sepultado no cemitério de Santo Amaro. Assim, teve que ser sepultado no Cemitério dos Ingleses, quando faleceu em 8/3/1869.

A lembrança dos brasileiros sobre a importância de Abreu e Lima para a história do Brasil foi reativada em agosto de 1981, com a visita do Presidente da Venezuela Luis Herrera Campins ao seu túmulo. Seu nome foi relembrado em 2003, por ocasião da visita do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, acompanhado pelo presidente Lula, à cidade de Abreu e Lima. Na ocasião eles inauguraram os bustos de Abreu e Lima e Simon Bolívar e reafirmaram o desejo de construir naquela cidade uma refinaria de petróleo, fruto de uma parceria entre a Petrobrás e a PDVSA-Petróleo da Venezuela. O projeto de construção da refinaria foi lançado em 2005. A construção foi iniciada no ano seguinte, mas até o momento não foi concluída no todo, devido as crises políticas que se abateram sobre o Brasil, decorrentes da corrupção instalada no País, particularmente na Petrobrás, denominada “Petrolão”. Assim, vemos que o resgate de sua figura histórica ainda não se deu conforme sua participação na História da América Latina e do Brasil pede. Seu nome continua sendo visto apenas denominando uma pequena cidade na área metropolitana do Recife; um ilustre desconhecido mesmo em seu estado.

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AS BRASILEIRAS: Nísia Floresta

Dionísia Gonçalves Pinto adotou um pseudônimo bem nacionalista: Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nasceu em 12/10/1810, numa cidade (Papari, RN), que hoje leva seu nome, na área metropolitana de Natal. Educadora, jornalista, escritora, tradutora e poeta, foi pioneira nas áreas da educação, jornalísmo e política. Junto a estas atividades, foi também uma destacada precursora do feminismo no Brasil.

Filha do advogado português Dionísio Gonçalves Pinto, e da brasileira Antônia Clara Freire, tradicional família de fazendeiros, teve a infância e adolescência marcada por um período conturbado na História do Brasil, que teve forte influência na sua formação. Devido as insurreições que assolavam o Nordeste na época, seu pai sofria perseguições antilusitanas ao mesmo tempo em que não era bem visto pela elite local, devido as causas assumidas, que iam contra os interesses dos latifundiários. Assim, teve que se mudar para Pernambuco, vivendo em Goiana, Recife e Olinda, centros irradiadores dos movimentos liberais que surgian na Europa.

A Revolução Pernambucana de 1817 levou a familia a se mudar para Goiana, onde iniciou os primeiros estudos no Convento das Carmelitas. Na biblioteca do convento, teve contato com a cultura europeia, incentivada pelo pai. Não obstante esta condição, a família seguiu a tradição da época, obrigando-a a se casar com o fazerndeiro Manuel Alexandre Seabra. Mas ela rompeu o casamento poucos meses depois e retornou à casa dos pais. Foi sua primeira atitude considerada transgressora para a época. Pouco depois a família mudou-se para Olinda, onde seu pai atuou numa causa contra os poderosos Cavalcanti. Devido a esta peleja jurídica, ele foi assassinado em 1828, numa emboscada no Recife. No mesmo ano passou a namorar com Manuel Augusto de Faria Rocha, futuro marido, acadêmico da Faculdade de Direito do Recife, com quem teve sua primeira filha, em 1830.

Em 1831 publicou alguns artigos no jornal “Espelho das Brasileiras”, do Recife- sobre a condição feminina. Foi a primeira mulher a escrever em jornal, justamente sobre o estado de inferioridade em que as mulheres se encontravam e que ela sofreu na própria pele. No ano seguinte publicou seu primeiro livro: Direito das mulheres e injustiça dos homens, assinado já com o pomposo pseudônimo. Floresta era o nome da fazenda onde nasceu; Brasileira pelo orgulho de seu país e Augusta em homenagem ao segundo marido. O livro surgiu a partir da tradução livre da obra Vindication of the right of women, de Mary Wollstonecraft, publicado em 1791. Não se trata de uma simples tradução linguística, ela adaptou o texto para as condições culturais da época. Em seguida incrementou sua colaboração em jornais do Recife, através de contos, poesias e ensaios, que posteriormente foram publicados em revistas do Rio de Janeiro.

Em 1833, mudou-se para Porto Algre, onde nasceu o filho Augusto e ela passa a lecionar para moças. Pouco depois, o marido morreu e deixou-a viúva aos 23 anos com dois filhos pequenos. Permaneceu na cidade dirigindo um colégio até 1937, quando foi morar no Rio de Janeiro. Em 1838 abriu uma escola para moças, no qual aplicou uma pedagogia revolucionária. Não havia espaço para as meninas nas escolas, e o Colégio Augusto logo viu aparecer críticas dos concorrentes na imprensa: “Trabalhos de língua não faltaram; os de agulha ficaram no escuro. Os maridos precisam de mulher que trabalhe mais e fale menos”, noticiava o jornal “O Mercantil”. O Colégio permanceu por 17 anos. Na época, o Rio vivia uma febre de novas escolas, quase todas dirigidas por estrangeiros, que, segundo ela, eram despreparados para exercer a função de professores na colônia.

Tinha convicção que a ausência de uma educação formal feminina era a maior causa da discriminação da mulher. Outra de suas convicções era dirigida ao governo: “Quanto mais ignorante o povo tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder” O segundo livro foi publicado em 1842 – Conselhos à minha filha -, como presente de aniversário à filha, ao completar 12 anos. Seis anos depois, passou a escrever mais sobre edudação, sem abandonar causa da igualdade entre os gêneros. Surgem novas publicações: Daciz ou A jovem completa (1847); A lágrima de um caeté (1849); Itineraire d´um voyage em Allemagne (1857), Scientille d`uma anima brasiliana (1859), Trois années em Italie (1861) e Abismos sobre flores (1864). Em 1851, o jornal carioca “O Liberal” publicou uma série de artigos sobre a importância da educação voltada às mulheres. Antes disso, sofreu um grave acidente à cavalo e teve que deixar a direção do Colégio, em 1849. Por recomendação médica, mudou-se para Paris, junto com a filha para tratamento.

Nesse periodo fez o curso de História Geral da Humanidade, no Palais Cardinal, tendo Auguste Comte como professor. Conviveu com grandes personalidades, como Almeida Garret, Alexandre Herculano, Alexandre Dumas (pai), Victor Hugo etc. Em 1852 retornou ao Brasil e se dedicou a produção de artigos para jornais, que deu origem ao livreto – Opúsculo humanitário -, uma seleção de artigos sobre a emancipação feminina, que mereceu elogios de seu professor, o pai do positivismo. Em 1856 partiu de novo para a Europa, onde permaneceu até 1872. Viajou por diversos paises e publicou alguns relatos de viagem na França em 1857, 1864 e 1872, traduzidos para o português e publicados no Brasil somente em 1982 e 1998. Esteve no Braisil entre 1872-75, mas logo retornu à Eruropa, indo morar em Londres, Lisboa e Paris. Aí publicou seu último trabalho, em 1878: Fragments d’un ouvrage inédit: notes biographiques. Já idosa, doente e com penumonia, faleceu em 24/4/1886 e foi sepultada na cidade de Bonsecours, onde vivia.

As homenagens vieram (antes tarde do que nunca) em 1948, quando o municipio de Papari passou a se chamar Nísia Floresta. Seis anos depois seus despojos foram transladados para o Brasil e sepultados num túmulo na Fazenda Floresta, onde nasceu. Os Correios prestaram-lhe uma homenagem com o lançamento de um selo postal, em 1954. Em 2012, foi inaugurado o Museu Nísia Floresta, no centro da cidade, afim de reunir e expor objetos e documentos vinculados à sua história. Uma alentada biografia foi publicada em 1995 pela Editora Universitária da UFRN, escrita por Constância Lima Duarte: Nísia Floresta: vida e obra entre tantos outros textos biográficos. No entanto, ela permanece desconhecida nos livros de história, conforme se vê no título de um artigo publicdo na revista Forum, de maio de 2015: Nísia Floresta, a feminista brasileira que você não encontrará nos livros de história.

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OS BRASILEIROS: Otto Maria Carpeaux

Otto Karpfen nasceu em Viena, Áustria, em 9/3/1900. Ensaísta, crítico literário e de artes, jornalista, doutor em filosofia, estudou matemática (em Liepzig), sociologia (em Paris), literatura (em Nápoles) e política (em Berlim), além de dedicar-se à música. Foi um dos poucos intelectuais onde o termo “polímata” (a pessoa, que conhece muitas ciências) é bem aplicado. Filho do judeu Max Karpfen e da católica Gisela Schmelz Karpfen, cursou o ginásio em Viena. Por sugestão dos pais, ingressou num curso de direito, mas fez apenas o 1º ano. Em seguida concluiu diversos cursos superiores nas ciências exatas, porém “nunca me aproveitei praticamente desses estudos. Mas aí aprendi algo de método e precisão de pensar, o que é vantajoso no mundo sempre um pouco vago das letras”.

Dedicou-se intensamente à literatura e ao jornalismo político, carreiras que exerceu em Viena como redator da revista “Berichte zur Kultur und Zeitgeschichte” e articulista do jornal “Neue Freie Presse”. Em 1930 casou-se com Hélene Silberherz e converteu-se ao catolicismo em 1933. Era bem relacionado em Viena e tornou-se homem de confiança de dois primeiros-ministros: Engelbert Dollfuss e Hurt Schuschnigg. Com a tomada da Áustria por Hitler, foi obrigado a seguir para o exílio, em 1938. Primeiro para Antuérpia, onde trabalhou na “Gazet van Antwerpen”. Com a expansão do nazismo, sente-se inseguro na Europa e embarca para o Brasil em 1939. Mudou seu sobrenome germânico Karpfen para o francês “Carpeaux”. Chegou aqui de “mala e cuia”, com a mulher, sem conhecer nada do idioma e sem conhecidos, mas com uma enorme bagagem cultural e falando diversos idiomas.

Após um ano de trabalho como imigrante em fazendas do Paraná, e com o domínio do português, partiu para São Paulo. Com dificuldades, foi sobrevivendo com a venda de alguns pertences, incluindo seus livros de arte. Em 1941 escreveu uma carta ao crítico literário Álvaro Lins oferecendo um artigo sobre Eça de Queiroz. Recebeu como resposta um convite para trabalhar no “Correio da Manhã” (RJ). Assim, inicia a carreira de crítico e ensaísta dos mais conceituados na literatura brasileira. No ano seguinte naturalizou-se brasileiro e publicou seu primeiro livro de ensaios: Cinzas do purgatório, revelando uma inteligência e uma erudição incomum na intelectualidade local. Pouco depois foi trabalhar num lugar privilegiado para um autodidata interessado em conhecer melhor a cultura que abraçou: a Biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia (1942-1944).

Em seguida foi dirigir a Biblioteca da Fundação Getúlio Vargas (1944-1949), onde encontrou tempo para publicar sua monumental História da Literatura Ocidental (1947), uma das mais importantes obras publicadas no Brasil no séc. XX. A obra já foi lançada em diversos volumes pela Editora Cruzeiro (1959), Alhambra (1978) e Editora do Senado Federal (2008). Em seguida a Editora Leya, lançou a obra em 4 volumes e mais tarde (2019), toda a obra numa caixa em 10 volumes, Tornou-se um dos pesos pesados da “intelligensia” brasileira, assumindo o cargo de redator-editor do Correio da Manhã, em 1950. No ano seguinte publicou a Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, reunindo em ordem cronológica mais de 170 autores nacionais. A partir daí sua produção literária é intensa e variada, publicando ensaios, artigos políticos, crítica literária etc.

Seu trabalho na imprensa e a obra que deixou publicada constituem-se numa expressiva contribuição às nossas letras, dando um novo rumo à história da literatura brasileira. O fato de ser gago, o afastou da cátedra e das universidades para confiná-lo aos gabinetes e redações. Em 1968, anunciou o fim da carreira literária, prometendo dedicar o resto de seus dias à luta política, fazendo oposição ao regime militar instaurado em 1964. Por essa época trabalhou ao lado de Antônio Houaiss, como coeditor da Grande Enciclopédia Delta-Larousse. Além de ensaios sobre literatura, publicou livros sobre música, história da arte e política. Faleceu em 3/2/1978 vitimado por um infarto.

Seu livro Uma nova história da música, lançado em 1958, passou por diversas reedições até 2001, quando teve o título mudado para O livro de ouro da música: da Idade Médica ao século XX, lançado pela Ediouro. A Editora Topbooks lançou seus Ensaios Reunidos em 1999 (vol. 1) e 2005 (vol. 2), contendo quase duas mil páginas. Ao todo, teve oito publicações póstumas, sendo a última, O canto do violino e outros ensaios, publicada pela Ed. Danúbio em 2016. A Editora do Senado Federal conta com uma versão digital para download gratuito de alguns volumes da História da Literatura Ocidental.

Como se vê, Carpeaux continua vivo entre nós compartilhando seu arsenal de conhecimentos na literatura, na música, na política, na vida. Para Antônio Cândido, ele era uma espécie de “herói civilizador”, que se instala no país e contribui de forma decisiva para a atualização do meio literário e a formação de novas gerações da crítica literária. Alfredo Bosi, um de seus discípulos, chegou a reconhecer em breve ensaio sua dívida com o mestre. Sergio Augusto acha que ele foi o maior intelectual brasileiro de todos os tempos. Consta que sua mais completa biografia foi publicada por Mauro Souza Ventura: De Karpfen a Carpeaux: formação política e interpretação literária na obra do crítico austríaco-brasileiro, lançada pela Topbooks em 2002.

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AS BRASILEIRAS: Bertha Lutz

Bertha Maria Julia Lutz nasceu em São Paulo, em 2/8/1894. Bióloga, advogada, política, feminista e pioneira na luta pelo direito de voto da mulher. Filha de Adolfo Lutz, cientista e pioneiro da Medicina Tropical e da enfermeira inglesa Amy Fowler. Ainda adolescente, foi completar os estudos na Europa, onde entrou em contato com a campanha sufragista inglesa pelo direito das mulheres ao voto. Formada em ciências naturais, pela Faculdade de Ciências de Paris (Sorbonne), em 1918, com especialização em anfíbio anuro.

De volta ao Brasil, prestou concurso para bióloga do Museu Nacional, em 1919, onde passou em primeiro lugar. Foi a segunda mulher brasileira a ingressar, por concurso, no serviço público. No mesmo ano, criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher e deu inicio ao movimento pelo direito ao voto das mulheres no País. Em 1922 viajou para os EUA para participar da Assembleia Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, e foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. Em seguida, batalhou pela criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada no mesmo ano. Ainda em 1922, como delegada do Museu Nacional ao Congresso de Educação, garantiu o ingresso de meninas no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.

Em 1929, lutou pela criação da União Universitária Feminina. Logo, foi uma das primeiras “feministas” do País. Três anos após, criou a Liga Eleitoral Independente e a União das Funcionárias Púbicas. Por esta época passou a estudar Direito e formou-se advogada em 1933, pela atual UFRJ, e tentou ser professora com a tese “A nacionalidade da mulher casada” perante o Direito Internacional Privado”, em que abordava a perda da nacionalidade feminina quando a mulher se casava com um estrangeiro. Não conseguindo o intento, publicou o livro A nacionalidade da mulher casada. No mesmo ano, representou o Brasil na Conferência Interamericana de Montevidéu, marco do início de seu trabalho diplomático pelo país, continuado posteriormente em representações na Conferência Internacional do Trabalho, realizada nos EUA em 1944, e, posteriormente, como militante nas conferências mundiais realizadas pela ONU.

Após duas tentativas como candidata, foi eleita suplente para deputada federal em 1934, Dois anos depois, assumiu o mandato na vaga deixada por Cândido Pessoa. Suas bandeiras de luta parlamentar eram mudanças na legislação do direito feminino ao trabalho; contra o trabalho infantil; direito a licença maternidade e a equiparação de salários e direitos entre homens e mulheres. Além disso, atuou na defesa da pesquisa científica, da proteção à natureza e conservação da fauna e da flora brasileira. Como se vê, foi também uma pioneira do movimento ecológico. Em 1937, com o golpe do Estado Novo, retomou sua carreira como chefe do Setor de Botânica do Museu Nacional, que ocupou até aposentar-se, em 1965.

Em 1945, integrou a delegação do Brasil na Conferência de San Francisco (EUA), convocada para a criação da ONU. Durante a reunião, se empenhou para assegurar que a Carta da ONU fosse revista periodicamente, mas seu grande feito foi o trabalho de apoio político ao delegado da África do Sul, General Smuts, a fim de que o preâmbulo da Carta fosse redigido mediante o compromisso com a igualdade, entre homens e mulheres e entre as nações. Dois anos após, trouxe para Brasil o Movimento Internacional Soroptimista, integrado por mulheres pioneiras e empreendedoras. O nome “soroptimista” significa “o melhor para as mulheres”. Por tal iniciativa foi eleita “Mulher das Américas” pela União das Mulheres Americanas, em 1951.

Devido a sua participação na criação da ONU, foi convidada pelo Itamaraty a integrar a delegação brasileira na 1ª Conferência Internacional da Mulher, realizada no México, em junho de 1975. Nesta Conferência foram criados o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) e o Instituto Internacional de Treinamento e Pesquisa para a Promoção da Mulher (INSTRAW), “constituindo o quadro institucional para a investigação, formação e as atividades operacionais na área de mulheres e desenvolvimento.”

Esta foi sua última participação pública. Não se casou, talvez devido a dificuldade de conciliar tantas atividades com os compromissos de um casamento. Faleceu em 16/9/1976 e seu nome passou a denominar um anfíbio que ela descreveu em 1958: “Paratelmatobius lutzii”. Descobriu uma dezena de espécies anfíbias, dentre elas o “sapo-boi”, que recebeu o nome “Eleutherodactylus hoehnei Lutz”. Em 2017 recebeu uma homenagem póstuma com a nomeação de uma espécie rara de perereca: “Aplastoduscus lutzorum”.

Além das homenagens científicas, em 2001 o Senado Federal criou o “Diploma Mulher Cidadã Bertha Lutz”, outorgado anualmente, no Dia Internacional da Mulher, a cinco destacadas mulheres. O Diploma foi criado a partir de uma Resolução apresentada pela Senadora Emília Fernandes. Atualmente não vejo o movimento feminista brasileiro falar de seus feitos e contribuições à causa, mas a comunidade científica tratou de erigir um museu virtual, dedicado à sua atuação política e científica. Trata-se do “Museu Bertha Lutz”, desenvolvido na Universidade de Brasília, com apoio do CNPq.

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OS BRASILEIROS: Josué de Castro

Josué Apolônio de Castro nasceu no Recife em 05/09/1908. Médico, nutrólogo, geógrafo, sociólogo, professor, político, escritor e autoridade mundial no combate à fome. Seus primeiros estudos se deram em casa com sua mãe professora e continuados no Instituto Carneiro Leão e Ginásio Pernambucano. Durante a infância, morava próximo dos mangues, uma região de mocambos habitada por retirantes e infestada de caranguejos. Foi seu primeiro contato com o problema da fome vista de perto.

Ainda jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi estudar na Faculdade Nacional de Medicina. Não obstante o interesse pela psiquiatria, foi levado a se especializar em Nutrição. Aos 21 anos retornou ao Recife e montou sua clínica. Pouco depois foi contratado numa fábrica para examinar trabalhadores com problemas de saúde indefinidos e acusados de indolência. Numa conversa com os patrões expôs o diagnóstico: “Sei o que meus clientes têm. Mas não posso curá-los porque sou médico e não diretor daqui. A doença dessa gente é fome”. Foi demitido do emprego e passou a encarar a dimensão social da doença, que era ocultada por preconceitos sociais e climáticos.

Sua preocupação social foi aguçada com a Revolução de 30, colocando a política brasileira em estado de ebulição. Por esta época, passou a realizar pesquisas sociais sobre os problemas da alimentação em bairros operários do Recife. Tais estudos levaram-no a ver a fome como uma catástrofe social e não uma consequência das condições físicas, climáticas e étnicas, como alguns estudos afirmavam. Sua conclusão foi que o desnível social resultava de uma estrutura econômica e social imposta no período colonial e mantida nos períodos imperial e republicano. Em 1932 tornou-se professor livre-docente da Faculdade de Medicina de Recife, com a tese “O problema fisiológico na alimentação”. No mesmo ano orientou a realização de uma pesquisa pioneira no Brasil, relacionando a produtividade com a alimentação do trabalhador.

A pesquisa resultou na publicação de seu primeiro livro, em 1935: “Condições de vida das classes operárias do Recife” e serviu como base posterior para a formulação do salário-mínimo. No mesmo ano casou-se com sua ex-aluna Glace Rego Pinto e foi morar no Rio de Janeiro. Após breve período de dificuldades financeiras, passou a lecionar Antropologia na Universidade do Distrito Federal, organizada por Anísio Teixeira. Paralelo a atividade docente, passou a escrever com regularidade e publicou o livro “Alimentação e raça”, em 1936. Embora não fosse filiado à ALN-Aliança Libertadora Nacional, publicou vários artigos em jornais ligados ao partido. Em 1937, publicou o livro “A alimentação brasileira à luz da geografia humana”, causando grande expectativa no meio acadêmico e político-social. Ao todo chegou a publicar 30 livros, incluindo literatura –Festa das letras -, publicado junto com Cecília Meireles, em 1939.

Nesta época foi criada a Universidade do Brasil, onde passou a ocupar a Cátedra de Geografia Humana, defendendo a tese sobre “Fatores de localização da cidade do Recife”. Em 1938 foi convidado pelo governo italiano para realizar conferências nas universidades de Roma e Nápoles sobre a temática “Os problemas de aclimatação humana nos trópicos”. A partir daí, passou a ficar famoso como nutrólogo, sociólogo, geógrafo etc. De 1940 em diante participou de todos os projetos governamentais ligados à alimentação; coordenou a implantação dos primeiros restaurantes populares; dirigiu as pesquisas do Instituto de Tecnologia Alimentar e criou a revista Arquivos Brasileiros de Nutrologia. No mesmo ano, passou a trabalhar no Serviço de Alimentação e de Previdência Social (SAPS), e fundou a Sociedade Brasileira de Alimentação. Em 1944 foi criado o Instituto Técnico de Alimentação, cuja direção ficou a seu cargo. Foi convidado oficial de vários países para estudar os problemas de alimentação e nutrição: Argentina (1942), Estados Unidos (1943), República Dominicana e México (1945) e França (1947).

Em 1946 publicou “Geografia da fome”, causando impacto no meio politico. Enfatizou as origens socioeconômicas da tragédia e denunciou as explicações deterministas desse quadro. No mesmo ano, fundou e dirigiu o Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil. Cinco anos após lançou “Geopolítica da fome”, causando impacto ainda maior, passando a analisar o problema em escala mundial. Os dois livros foram publicados em vários países e contribuiu para que, em 1951, assumisse a presidência do Conselho Executivo da FAO-Food and Agricultural Organization (1952-56) e membro da Comissão Nacional de Política Agrária, criada por Vargas em 1951. Dois anos depois, foi nomeado vice-presidente da Comissão Nacional de Bem-estar Social. Naquele ano, ele fora ainda candidato de Vargas, que voltara ao poder pelo voto, a Ministro da Agricultura. Porém, foi impedido pelo PSD-Partido Social Democrático. Uma de suas facetas pouco conhecida é o gosto pelo cinema. Na época em que dirigia a FAO, em Roma, seus escritos interessaram os cineastas Roberto Rosselini e Cesare Zavattini a fazer filmes baseados na geografia e geopolítica da fome. Tal interesse resultou no filme “O Drama das secas”, dirigido por Rodolfo Nanni, em 1958.

Convidado a entrar na Política, ingressou no PTB-Partido Trabalhista Brasileiro e foi o Deputado Federal (1954-58 e 1958-62) mais votado em todo o Nordeste. Em seguida, foi embaixador do Brasil na Conferência Internacional de Desenvolvimento, da ONU, em Genebra e na reunião da FAO, em Roma. Como Deputado, apresentou os projetos de regulamentação da profissão de nutricionista e de reforma agrária. Com o Golpe de 1964, foi destituído do cargo de embaixador do Brasil junto a ONU. Sem condições de voltar à pátria, estabeleceu-se em Paris e foi acolhido pelo governo francês, designado professor do Centro Universitário de Vincennes, lecionando também na Universidade de Paris. Ministrou aulas de pós-graduação no Instituto de Altos Estudos para a América Latina; chefiou o Centro Internacional de Desenvolvimento, atuando sobretudo na África; presidiu o Comitê para a Constituição dos Povos e foi vice-presidente da Associação Parlamentar Mundial. Nesta fase, além da influência sobre os estudantes de todo o mundo que convergiam para estudar em Paris, canalizou esforços para a solução dos problemas da Paz. Aí viveu os 10 últimos anos, onde faleceu em 24/09/1974 e foi sepultado no Rio de Janeiro.

Entre os prêmios e condecorações que recebeu, constam: Prêmio Pandiá Calógeras (1937), Professor Honoris Causa da Universidade de San Domingos e de San Marcos (1950), Prêmio Franklin D. Roosevelt, da Academia de Ciências Políticas dos EUA (1952), Prêmio Internacional da Paz (1954), Oficial de Honra, do governo francês (1955), Grã-Cruz in memoriam, da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura (2006). Foi ainda indicado ao Prêmio Nobel da Paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965. Sua memória e legado são mantidos no “Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro”, fundado em 1979, no Recife. Em 1987 sua família incorporou todo seu acervo documental e biblioteca ao Centro, colocados à disposição do público e pesquisadores. Trata-se de um expressivo acervo de informações referentes aos problemas da fome e do subdesenvolvimento. Para acessar, bata clicar aqui.

Josué de Castro: cidadão do mundo