JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Irineu Evangelista de Sousa nasceu em Arroio Grande, RS, em 28/12/1813. Comerciante, armador, industrial, banqueiro e político. Foi o primeiro grande industrial brasileiro, agraciado com os títulos nobiliárquicos de Barão, em 1854, e Visconde em 1874. Aos cinco anos teve o pai assassinado e foi criado pelo tio até os nove, quando foi morar com outro tio, José Batista de Carvalho, comandante de um navio da Marinha Mercante que transportava charque e couros para o Rio de Janeiro. Aí começou a trabalhar como caixeiro de um armazém na Praça do Comércio.

Aos 11 anos foi trabalhar noutro armazém que vendia de tudo, de produtos agrícolas a escravos, a fonte de renda principal do estabelecimento. Tornou-se empregado de confiança e foi promovido a guarda-livros em 1828. Na crise do 1º Reinado, o comerciante faliu e indicou-o para trabalhar numa empresa de importação do escocês Richard Carruthers, em 1830. Com sua esperteza e disposição, conquistou a amizade do escocês, aprendeu inglês, contabilidade e aprendeu a ganhar dinheiro. A empresa não admitia o trabalho escravo e comprava trabalho pagando em dinheiro. Ou seja, fazia o oposto da maioria dos empresários. Em 1836, aos 23 anos, tornou-se gerente e, pouco depois, sócio da empresa. Percebendo seu potencial, Carruthers levou-o para a Maçonaria, onde os ideais de “Liberdade, igualdade e fraternidade” estabeleceram as bases de seu caráter. Pouco depois tornou-se um dos homens mais ricos do País.

Em 1839 o escocês retornou ao Reino Unido e ele assumiu os negócios da empresa. Comprou uma chácara no morro de Santa Tereza, onde foi morar e ajudou seus conterrâneos envolvidos na Revolução Farroupilha a escapar da prisão no Rio de Janeiro. Trouxe sua mãe, Mariana de Jesus Batista de Carvalho, a tia e uma sobrinha, Maria Joaquina de Sousa Machado, com quem se casou em 1841. Tiveram 18 filhos, mas apenas 11 nasceram vivos. Destes 11 filhos, apenas 5 sobreviveram após a morte do pai. A morte prematura dos filhos foi atribuída ao grau de parentesco dos pais. Em 1840 viajou pela Inglaterra em plena Revolução Industrial. Conheceu fábricas, a fundição de ferro e ficou convencido que aquele era o caminho a ser trilhado pelo Brasil. Na volta encontrou o café em alta no comércio internacional e decidiu tornar-se industrial. Em 1845 obteve junto ao governo a concessão do fornecimento de tubos de ferro para a canalização do rio Maracanã e no ano seguinte fechou a Casa Carruthers. Convenceu capitalistas ingleses a investirem na indústria metalúrgica, abriu uma fundição em Ponta da Areia (Niterói) e transformou-a num misto de metalúrgica e estaleiro de construção de navios.

Dois anos após, o empreendimento teve o patrimônio multiplicado por quatro, tornando-se o maior do País. Produzia navios, caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, postes para iluminação e canos de ferro para água e gás. Deste complexo saíram 72 navios em onze anos, entre os quais as embarcações utilizadas na Guerra do Paraguai e no tráfego do Rio Amazonas. Em 1849 construiu o maior navio mercante – Serpente -, um navio negreiro rápido, que depois de realizar uma viagem à África, foi vendido à Marinha Mercante e rebatizado “Golfinho”. Em 1857 a empresa sofreu um duro golpe: um incêndio destruiu todas as instalações. Em três anos foi reconstruída, mas em seguida sofreu outro golpe e não resistiu. Em 1869, o Governo isentou de tarifas a entrada de navios construídos fora do País, levando a incipiente indústria nacional à falência. Seus outros empreendimentos continuam lucrativos, principalmente com o fim do tráfico de escravos, em 1850, quando os investimentos se deslocaram para a indústria. Na condição de precursor do liberalismo econômico no Brasil, criou diversas empresas impulsionando a navegação no Rio Amazonas, iluminação a gás e transporte urbano por bondes no Rio de Janeiro e a construção da primeira ferrovia brasileira,

No dia da inauguração, em 1854, recebeu do título de barão de Mauá. Pouco antes, em 1852, fundou o Banco Mauá & Cia. associado a Família Rotschild, com filiais em Londres, Paris e Nova Iorque. Em 1857 fundou o Banco Mauá Y Cia. em Montevidéu com uma filial em Buenos Aires. Em 1860, no auge da carreira, controlava 17 empresas no Brasil, Uruguai, Argentina, Inglaterra, França e EUA. No balanço consolidado em 1867, o valor dos ativos foi estimado em 115 mil contos de réis (155 milhões de libras esterlinas), enquanto o orçamento do império brasileiro contava com 97 mil contos de réis. Era o homem mais rico do Brasil. Foi pioneiro em diversos setores da economia, além dos já citados: exploração do transporte no rio Guaíba e afluentes e a instalação do cabo submarino telegráfico entre a América do Sul e a Europa, em 1874.

Tal envolvimento na área empresarial levou-o, inevitavelmente, à política. Com seu posicionamento de caráter liberal e contra a escravatura, fez-se deputado pelo Rio Grande do Sul em diversas legislaturas: 1856, 1859-60, 1861-64, 1864-66 e 1872-75. Exerceu influência política no Uruguai desde 1850 e foi contrário à Guerra do Paraguai. Não obstante pertencer ao Partido Liberal, apoiou seu amigo Visconde do Rio Branco no período 1871-75. Suas ideias e o agravamento da instabilidade política na região platina, tornou-o alvo das intrigas dos conservadores. Suas empresas passaram a sofrer sabotagens e os negócios foram prejudicados pela legislação favorecendo a importação de máquinas e ferragens. Em 1875, com a falência do Banco Mauá, pediu moratória por 3 anos e foi obrigado a vender grande parte das empresas a grupos estrangeiros. Teve, também, que se desfazer de alguns bens pessoais para liquidar as dívidas.

Doente e desiludido com os acontecimentos, foi obrigado a encerrar a carreira empresarial. Com o pouco que restou, passou a dedicar-se a corretagem de café até a morte, em 21/10/1889, pouco dias antes da queda do Império. Boa parte de sua biografia ficou conhecida através da “Exposição do Visconde de Mauá aos credores de Mauá & Cia. e ao público” Trata-se de um documento de 180 páginas, escrito de modo pungente movido pela necessidade de manter a dignidade de seu nome, conforme se vê na apresentação: “Na idade avançada em que me acho, em presença do acontecimento que motiva esta exposição, realizado pelo modo por que foi resolvido, não posso ter outro objeto em vista senão salvar do naufrágio aquilo que para mim vale mais do que quanto ouro tem sido extraído das minas da Califórnia – um nome puro…” (Souza, Irineu Evangelista de. Exposição aos credores e ao público. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2001).

Dentre suas biografias, cabe destacar: Besouchet, Lídia. Mauá e seu tempo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978; Caldeira, Jorge. Mauá: empresário do Império, São Paulo: Cia. das Letras, 1995; Faria, Alberto de. Ireneo Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1933. O espaço aqui não comporta relacionar todas as homenagens que lhe foram prestadas pós morte com monumentos e seu nome estampado em diversos logradouros, instituições e cidades. Porém, é preciso que se diga: se tivéssemos mais pessoas como ele, realmente interessadas no futuro do País, estaríamos hoje noutro patamar de desenvolvimento, conforme pode se ver no vídeo abaixo, apresentado por Eduardo Bueno, devidamente intitulado: Barão de Mauá: o homem que poderia ter mudado o Brasil.

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