JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Carolina de Jesus

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, MG, em 14/3/1914. Escritora, compositora e poeta. Ficou conhecida por seu livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, publicado em 1960, com a ajuda do jornalista Audálio Dantas. Filha ilegítima de um homem casado, vivia numa comunidade rural, onde a esposa de um rico fazendeiro decidiu bancar os estudos de algumas crianças negras. Ela passou a frequentar a escola, mas interrompeu o curso no 2º ano primário, quando aprendeu a ler e escrever.

Em 1937, com o falecimento da mãe, mudou-se para São Paulo e passou a trabalhar em diversos empregos subalternos. Seu estilo de mulher independente cativava algumas pessoas ao mesmo tempo que afastava outras. Trabalhou como faxineira, vendedora, auxiliar de enfermagem e até mesmo como artista de circo. Em meados de 1946 foi trabalhar como doméstica na casa de um médico – Dr. Euryclides Zerbini – que viria a ficar famoso com o primeiro transplante de coração realizado na América Latina. Nesta casa recebeu, além de bons tratos, permissão para ler os livros da biblioteca nas horas vagas. Em 1947 ficou grávida com um marinheiro português e perdeu o emprego. Sem condições de encontrar outro, foi obrigada a se instalar numa favela no bairro do Canindé, que se iniciava próximo ao centro da cidade.

Aí construiu seu próprio barraco, utilizando-se de madeira, lata, papelão que encontrava na rua. Catar papelão foi o serviço que encontrou para se manter. Em 1948 teve seu primeiro filho, João José. Depois vieram José Carlos e Vera Eunice, nascidos em 1949 e 1953, todos de pais diferentes. Por essa época encontrou alguns cadernos e passou a registrar poesias, músicas e um diário sobre o cotidiano da favela. Costumava bradar para os vizinhos que estava escrevendo sobre suas vidas naquele caderno, o que a colocava, de certo modo, numa posição superior e provocava intrigas. Assim, ela era discriminada também na favela. Passando por ali, numa reportagem que fazia para a revista “O Cruzeiro”, Audálio Dantas se interessou em ver os cadernos e percebeu no diário um texto contundente, que poderia ser publicado como livro.

Inicialmente publicou alguns trechos na própria revista e em seguida conseguiu a edição do livro pela Editora Francisco Alves, em 1960. A tiragem inicial de 10 mil exemplares esgotou em uma semana. A obra foi reeditada diversas vezes, vendeu mais de um milhão de exemplares, foi traduzida em 13 línguas e publicada em 40 países. Nos EUA ganhou uma edição de bolso da “New American Lybrary” e outra da “Penguin”, que vendeu mais de 300 mil exemplares. Conta-se que, pelo contrato original, a autora deveria ter recebido 150 mil dólares, mas não há indício algum que ela tenha recebido essa fortuna. Mas o que recebeu deu para comprar uma casa em Santana, bairro encostado ao Canindé.

Após o estrondoso sucesso editorial, publicou mais três livros, que tiveram pouca repercussão na mídia: Casa de Alvenaria (1961), Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1963). Em 1969 adquiriu uma propriedade em Parelheiros, onde passou a morar com os filhos, cultivar uma horta e viver como se estivesse no interior, mais próximo de suas origens. Aí veio a falecer em 13/2/1977. Sua filha tornou-se professora e contou numa entrevista que sua mãe gostaria de ter sido cantora e atriz. Deixou uma caixa contendo 58 cadernos, os quais foram organizados pela pesquisadora Raffaella Fernandez, chegando a compilar umas cinco mil páginas de textos, nos quais encontram-se 7 romances, 60 textos curtos e 100 poemas, além de 4 peças de teatro e 12 letras para marchas de carnaval. Até meados de 2018 foram publicados postumamente as obras: Diário de Bitita (1986), Meu estranho Diário (1996), Antologia Pessoal (1996), Onde estás felicidade (2014) e Meu sonho é escrever (2018).

Dos livros escritos sobre a autora, destacam-se Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (1994), de José Carlos Meihy e Robert Levine; Muito Bem, Carolina!: biografia de Carolina Maria de Jesus (2007), de Eliana Moura de Castro e Marília Novais de Mata Machado; Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável (2009), de Joel Rufino dos Santos; A Vida Escrita de Carolina Maria de Jesus (2014), de Elzira Divina Perpétua; Carolina (2016), álbum de história em quadrinhos com a biografia da autora, com texto de Silene Barbosa e desenhos de João Pinheiro; Carolina: uma biografia (2018) de Tom Farias.

Em 2014, como resultado do Projeto Vida por Escrito – Organização, classificação e preparação do inventário do arquivo de Carolina Maria de Jesus, contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Negra, foi lançado o Portal Biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus e, em 2015, foi lançado o livro Vida por Escrito – Guia do Acervo de Carolina Maria de Jesus, organizado por Sergio Barcellos. O projeto mapeou todo o material da escritora, que passou a ser custodiado por diversas instituições: Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Museu Afro Brasil, Arquivo Público Municipal de Sacramento e Acervo de Escritores Mineiros. No métier acadêmico houve algumas polêmicas questionando sobre o caráter literário de sua obra. O crítico Ivan Cavalcanti Proença, por exemplo, chegou a afirmar que sua escrita não é literatura. Porém, a literatura se apresenta já no título do livro que lhe garantiu a fama e foi extraído do seu texto: “Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”.

Outras partes extraídas do mesmo livro: “Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondiam-me: É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro minha pele negra, e o meu cabelo rustico […] Se é que existe reencarnação, eu quero voltar sempre preta. […] O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? […] A natureza não seleciona ninguém”. Para contrapor essa discussão sobre o caráter literário da obra, Fernanda de Moura Cavalcante realizou o trabalho de conclusão de curso “A Literariedade da obra de Carolina de Jesus: um reconhecimento necessário”, apresentado no curso de História na PUC/SP, em 2017. No mesmo ano, a historiadora Elena Pajaro Peres ministrou cursos no Departamento de História da USP e na Universidade Federal do ABC sobre “Carolina de Jesus e sua literatura em movimento”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Mário Schenberg

Mário Schenberg nasceu no Recife, em 2/7/1914. Físico, crítico de arte, matemático. Professor, político e mecenas. Dizem que nasceu em 1916 visando entrar na escola mais cedo que o permitido. Entrou na Faculdade de Engenharia do Recife em 1931, e no 3º ano foi detectado pelo “radar” do prof. Luís Freire, notável instigador de talentos, que estimulou-o a se transferir para a Escola Politécnica, em São Paulo. Em 1935 formou-se em engenharia elétrica e, no ano seguinte, em matemática na recém fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FFCL. Neste período esteve em contato com os professores Giuseppe Occhialini, Giacomo Albanese, Luigi Fantappié e Gleb Wataghin, que o convida para a função de preparador de física geral e experimental na Escola Politécnica. Em 1937 tornou-se assistente de física teórica da FFCL.

A diversificação de interesses veio da infância, influenciada pelas viagens feitas com seus pais à Europa. Desde cedo mostrou notável capacidade para a matemática, encantando-se com a geometria, que teve forte influência nos trabalhos posteriores. O interesse pela política, e particularmente o marxismo, começou também na adolescência. Como pode uma pessoa ter se destacado em áreas tão distintas como a ciência, as artes e a política? Para saber sobre o “físico que estudava as artes com o olhar de cientista e pesquisava a física com a criatividade da arte”, uma historiadora realizou pesquisa de fôlego sobre sua produção na área científica e nas artes. A conclusão é que a arte surgiu primeiro em seu horizonte. “Quando o jovem Schenberg abriu seus horizontes para a geometria, era pela razão de o auxiliar na utilização de suas percepções visuais”, conforme assinalou Alecsandra M. Vieira em seu livro Schenberg: Crítica e Criação, publicado pela Edusp em 2014, na comemoração do centenário de seu nascimento.

Em 1939 partiu para a Europa, e passou uma temporada trabalhando no Instituto de Física da Universidade de Roma com o físico Enrico Fermi; em Zurique, com Wolfgang Pauli e em Paris com Frédéric Joliot-Curie no Collège de France. Em 1940, já de volta ao Brasil, obteve uma bolsa da Fundação Guggenheim para passar uma curta temporada nos EUA, junto ao astrofísico George Gamow. Aí fez uma de suas principais descobertas: o “Processo Urca”. Trata-se de um estudo para entender o colapso de estrelas supernovas. Outra de suas descobertas recebeu o nome de “Limite Schenberg-Chandrasekhar”, realizada num trabalho junto com o físico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar. Schenberg calculou, em 1942, a massa que pode ter o núcleo de uma estrela em que não mais ocorram reações de fusão nuclear, mas que consiga suportar o peso das camadas mais externas. Para um núcleo de hélio, valores típicos desse limite são de 10% a 15% da massa da estrela. Devido a tais descobertas, Albert Einstein considerava-o um dos dez mais importantes cientistas de sua época. É considerado, ainda hoje, o maior físico teórico do Brasil.

Em 1944 já exercia a crítica de arte de modo regular, o que não impediu que dois anos depois fosse contratado para inaugurar a cadeira de Mecânica Racional e Celeste da FFCL, atual Instituto de Física da USP. Em seguida dirigiu por oito anos o Departamento de Física da Universidade de São Paulo-USP (1953-1961). Seu curriculum na área científica é extenso: Trabalhou com mecânica quântica, termodinâmica e astrofísica. Publicou mais de uma centena de trabalhos em física teórica, física experimental, astrofísica, mecânica estatística, relatividade geral, teoria quântica do campo, fundamentos de física etc. Foi membro do Institute for Advanced Studies de Princeton e do Observatório Astronômico de Yerkes. Em Bruxelas, trabalhou em raios cósmicos e mecânica estatística. Criou o Laboratório de Estado Sólido da USP. Instalou o primeiro computador da universidade, criando o curso de computação e presidiu a Sociedade Brasileira de Física de 1979 a 1981.

Em 1969 foi o único latino-americano convidado para um congresso internacional sobre física de altas energias, em Kioto, Japão. Neste mesmo ano foi aposentado compulsoriamente pelo Governo, através do Ato Institucional nº 5. Na área política seu envolvimento não foi menos intenso, sendo eleito duas vezes deputado estadual de São Paulo (1946 e 1962) pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1947, sob a liderança do economista e empresário Caio Prado Júnior, a bancada aprovou o Artigo 123 da Constituição do Estado de São Paulo, instituindo os fundos de amparo à pesquisa no estado para impulsionar o desenvolvimento científico e tecnológico. Tal projeto levou à concepção da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo-FAPESP. Na Assembleia Legislativa foi um orador influente e mudou a orientação da bancada em diversas ocasiões. Devido ao seu posicionamento, foi cassado e preso mais de uma vez pela ditadura militar.

Após a aposentadoria ficou proibido de frequentar a USP e passou por um período de isolamento e cerceamento de qualquer atividade política ou social. Este período é compartilhado com sua amiga e conterrânea Clarice Lispector numa carta: “Desde 1970, minha situação geral se modificou bastante, em consequência do isolamento em que passei a viver, como resultado de minha aposentadoria e da impossibilidade de exercer a crítica de arte militante. Foi um desafio tremendo, mas creio que pude reagir de um modo criativo… Agora estou escrevendo um pequeno ensaio sobre a crise atual das artes plásticas, que talvez seja um ponto de partida para um ensaio mais longo”. Como crítico de arte mantinha grande interesse por artes plásticas, tendo convivido com artistas brasileiros como Di Cavalcanti, Lasar Segall, José Pancetti, Mário Gruber, Cândido Portinari, Antonio Bandeira, Carlos Scliar etc. e também estrangeiros, como Bruno Giorgi, Marc Chagall e Pablo Picasso.

Escreveu diversos artigos sobre artistas contemporâneos brasileiros como Alfredo Volpi, Lygia Clark e Hélio Oiticica etc. Era considerado um “mecenas das artes” não no sentido de financiar artistas, pois não era rico; e sim de aconselhá-los e acolhê-los em sua casa num período difícil da política brasileira. Foi casado com Julieta Bárbara Guerrini, ex-mulher de Oswald de Andrade, e com a artista plástica Lourdes Cedran. Teve uma única filha, a geneticista Ana Clara Guerrini Schenberg. Em 1979, com os direitos políticos reabilitados, voltou para a USP e lecionou alguns cursos. Recebeu o título de Professor Emérito em 1982 e, em 1984, foi homenageado com um Simpósio Internacional, no Instituto de Física, e a publicação de um número especial da “Revista Brasileira de Física”, na comemoração de seus 70 anos. Pouco depois os sintomas de uma doença degenerativa acentuaram-se e veio a falecer em 10/11/1990.

Publicou centenas de artigos científicos, os quais foram compilados por Amélia Império Hamburger no livro Obras Científicas de Mario Schenberg – pioneiro da Física Teórica e Matemática, vol 1, editado pela Edusp em 2009, obra contemplada com o Prêmio Jabuti em 2010. O vol. 2 foi lançado em 2013. Tal compilação resultou em mais de 1400 páginas de contribuição efetiva à ciência no Brasil. Em 2014, sua ex-aluna Dina Lida Kinoshita fez um apurado balanço de sua atividade política, e lançou a biografia: Mario Schenberg: o cientista e o político. Com isso foi preenchida uma importante lacuna na história dos ilustres políticos brasileiros. Como professor reuniu uma quantidade expressiva de alunos, para os quais deixou um recado: “E como já estou no fim de minha carreira, há um conselho que dou a vocês: não tenham medo. Porque se tiverem medo, nunca poderão criar nada de original. É preciso que não tenham medo de dizer alguma coisa que possa ser considerada como um erro. Porque tudo que é novo aparece aos olhos antigos como coisa errada. É sempre nessa violação do que é considerado certo que nasce o novo e há a criação.”

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AS BRASILEIRAS: Carmen Miranda

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em Marco de Carnaveses, Portugal, em 9/2/1909, Cantora e atriz intérprete de si mesma, devido a fama alcançada com seu estilo pessoal incorporado ao artístico. No Brasil ficou conhecida com a “pequena notável” e nos EUA como a “explosão brasileira” (“The Brazilian Bombshell”), no momento em que o Brasil surgia no Mundo. Chegou ao Rio de Janeiro com 10 meses de idade e foi morar na Travessa do Comércio, onde a mãe montou uma pensão. O pai era barbeiro e seis anos depois mudaram-se para a Lapa, reduto boêmio da metrópole que surgia. Trabalhou numa chapelaria e gostava e cantarolar no serviço. Por isto foi despedida e passou a cantar pra valer com seu “chapéu” escandalosamente brasileiro.

Assim, imprimiu uma identidade ao Brasil, que permanece até agora: alegria esfuziante, cordialidade, musicalidade, exotismo. O “Movimento Tropicalista” confirmou o estilo brasileiro na voz de Caetano Veloso: “Viva a bossa, tá, tá, Carmen Miranda, tá, tá, tá tá!”. Nesse meio tempo tivemos Juscelino, um “presidente bossa nova”. “Bossa” é uma palavra existente apenas no Brasil, saudades daquela época. “Saudade” é outra palavra existente apenas no idioma português.

Os primeiros estudos se deram na escola de freiras Santa Tereza, onde demonstrou seu talento no coral da escola. Aos 14 anos trabalhou numa loja de gravatas, e depois como aprendiz de chapeleira na “Maison La Femme Chic”, de Madame Boss.

Aos 19 anos foi apresentada pelo deputado baiano Aníbal Duarte ao compositor Josué de Barros, que passou a promovê-la em teatros e clubes. Logo veio o primeiro disco, gravado em 1929 pela RCA Victor, com as músicas “Dona Balbina e “Triste Jandaia”. No ano seguinte alcançou o sucesso com a marcha de carnaval “Pra você gostar de mim” (”Taí”), composição de Joubert de Carvalho, que levou-a ao estrelato. O disco vendeu 35 mil cópias, sendo aclamada a maior cantora do País. Foi a primeira artista a assinar um contrato de trabalho com uma emissora de rádio no País, a Rádio Mayrink Veiga. Pouco depois já era reconhecida como uma das principais cantoras no âmbito internacional. Em 1936 transferiu-se para a Rádio Tupi afim de alavancar a carreira, que chegou às telas do cinema.

No mesmo ano estrelou no filme “Alô, alô carnaval”, onde ela e a irmã Aurora interpretam as “Cantoras do rádio”, sucesso imediato em todo o País. Ainda em 1936 passaram a integrar o elenco do Cassino da Urca, os palcos do Rio de Janeiro e de Buenos Aires. Em 1939 Dorival Caymmi compôs “O que é que a baiana tem?” No mesmo instante virou produto de exportação brasileira Uma música feita sob medida para ela cantar, dançar e mostrar o traje da baiana, que virou artigo de exportação para os EUA. No mesmo ano, Lee Shubert, produtor da Broadway, ofereceu-lhe um contrato de oito semanas para se apresentar no programa “The Streets of Paris”, em Boston. O contrato não foi assinado de imediato porque ela fazia questão de levar seu grupo, o Bando da Lua, junto; enquanto o produtor estava interessado apenas nela. O impasse foi resolvido com a intervenção de Alzira Vargas, filha do presidente, que garantiu o embarque de todos em 4/5/1939, às vésperas da II Guerra Mundial

Vê-se aí o interesse do Governo Vargas em divulgar a imagem e identidade cultural do País no exterior e para isso garantiu o suporte que fosse necessário. Assim tem início uma próspera carreira internacional. No ano seguinte, fez sua estreia no cinema estadunidense, com o filme “Serenata tropical”, contracenando com Dom Ameche e Betty Grable. Os norte-americanos ficaram encantados e em poucos meses ela foi eleita a 3ª personalidade mais popular dos EUA. Em 5/3/1940 foi convidada junto com seu grupo numa apresentação para o presidente Franklin Roosevelt, num banquete na Casa Branca. Chegou a ser a artista mais bem paga de Hollywood. Foi destaque principal na boate “Copacabana Night Club”, aberto em 1940, onde os norte-americanos ficavam extasiados com seu charme e exuberância.

A partir daí até 1953 atuou em 14 filmes em Hollywood e esteve nos mais importantes programas de rádio, TV e teatros dos EUA. Tornou-se a primeira sul-americana a ter uma estrela na Calçada da Fama e a primeira latino-americana a imprimir suas mãos e pés no pátio do Grauman’s Chinese Theatre, em 1941. Após viver tantos anos nos EUA, não só falava bem inglês como não tinha sotaque estrangeiro. Mas os produtores de shows insistiam para que ela se apresentasse com o dito sotaque. Desse modo é que a pessoa acabou sendo suplantada pelo mito que representava. Em tais condições restou pouco espaço à mudança que ela própria naturalmente poderia ter conseguido, noutras condições, como intérprete e enquanto indivíduo. Em 1947 casou-se com o norte-americano David Sebastian, produtor de cinema, que também foi seu desastrado empresário.

Os biógrafos apontam o casamento como o início do comprometimento de sua saúde, quando passou a beber junto com o marido alcoólatra, além de usar barbitúricos para dar conta de uma extenuante agenda de shows e compromissos. Em 1954 retornou ao Brasil e fez um tratamento de desintoxicação no Rio de Janeiro. Após breve melhora retornou aos EUA, mas seguiu dependente dos remédios. Para complicar a saúde, passou a sentir depressão. Em 4 de agosto de 1955, ao participar de uma gravação para o programa do comediante “Jimmy Durante Show”, sentiu um ligeiro mal-estar enquanto dançava. Ao voltar para casa ainda jantou, cantou e encantou alguns amigos. Foi dormir cedo nesta noite e não acordou. Na madrugada de 5/8/1955 faleceu devido a um alegado ataque cardíaco fulminante. Foi encontrada pela manhã sem vida com apenas 46 anos.

Na Califórnia foi realizado um velório reservado antes do corpo ser transladado para o Rio de Janeiro. Mais de 500 mil pessoas acompanharam seu funeral até o Cemitério São João Batista. No ano seguinte foi criado oficialmente o Museu Carmen Miranda, no Parque do Flamengo, contendo mais de três mil itens. Em 1995 recebeu o título póstumo de Grande-Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, outorgado pelo presidente de Portugal. No mesmo ano sua memória foi resgatada através do premiado documentário “Banana is my business”, dirigido por Helena Solberg. Recebeu inúmeras homenagens, aqui e nos EUA, e diversas biografias, dentre as quais destaca-se a realizada por Ruy Castro, publicada em 2005: Carmen: uma biografia – A vida de Carmen Miranda, a brasileira mais famosa do século XX. Em 2007, a BBC produziu o documentário Carmen Miranda: Beneath the Tutti Frutti Heat, uma excepcional videobiografia. No centenário de seu nascimento, em 2009, a Academia Brasileira de Letras prestou-lhe homenagem declarando-a “Patrimônio da Cultura Brasileira”.

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OS BRASILEIROS: Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro, em 5/3/1887. Músico e maestro, considerado o expoente da música clássica brasileira e um dos maiores compositores do mundo, na opinião de Alejo Carpentier, escritor e músico cubano. A data de seu nascimento é celebrada como “Dia Nacional da Música Clássica”. Filho Noêmia Monteiro Villa-Lobos e Raul Villa-Lobos, músico amador e funcionário da Biblioteca Nacional, recebeu do pai instrução musical e uma viola adaptada para iniciação aos estudos de violoncelo.

Aos 12 anos, com o falecimento do pai, a família passou por alguns perrengues e ele foi obrigado a ganhar a vida tocando em teatros, bares e bailes ao mesmo tempo em que manifestava interesse pela musicalidade dos “chorões”, que imperava no Rio de Janeiro. Frequentou a conhecida loja “O Cavaquinho de Ouro”, que reunia o grupo de chorões. Nesse contexto, desenvolveu-se também no violão, na época, um instrumento musical de malandro. Desde cedo, curioso e inquieto, passou a viajar pelo interior do País com o intuito de conhecer o universo musical brasileiro. Em 1913 casou-se com a pianista Lucila Guimarães e conquistou o reconhecimento artístico em âmbito nacional. Em 1922 teve atuação destacada na Semana de Arte Moderna, em São Paulo, apresentando-se nos três dias com três diferentes apresentações. O Teatro Municipal de São Paulo foi o primeiro palco erudito a receber suas obras.

Em 1923 fez sua primeira viagem para a Europa, subsidiado pelo governo, onde passou um ano aprimorando sua performance. Em 1924 retornou ao velho continente, sob patrocínio do milionário carioca Carlos Guinle, dono do Hotel Copacabana Palace, e passou mais um tempo em contato com os grandes compositores mundiais. De volta ao Brasil, em 1930, realizou uma turnê por 66 cidades e uma “Cruzada do Canto Orfeônico” no Rio de Janeiro. No ano seguinte quis voltar a Europa, mas a “Revolução de 30”, impediu a retirada de dinheiro do País, impedindo-o de viajar. Forçado a permanecer no Brasil, passou a organizar concertos em algumas cidades e compor músicas educativas e patrióticas, com apoio governamental.

A aproximação com o novo governo garantiu-lhe o cargo de diretor da SEMA-Superintendência de Educação Musical e Artística, criado pelo decreto-lei nº 3.763, de 1932, através do Departamento de Educação, comandado por Anísio Teixeira. Permaneceu no cargo até 1945, período no qual foi instituído o ensino obrigatório de música e canto orfeônico nas escolas. Nesta condição produzia arranjos musicais diversos e compôs diversas peças consideradas propagandísticas, de cunho nacionalista, Vale ressaltar que a série “Bachianas Brasileiras”, iniciada naqueles anos, é considerada uma notável exceção. Em 1936, desfez o casamento e passou a namorar sua aluna Arminda Neves d’Almeida. Após o decreto de 10/11/1937, que estabeleceu a ditadura de Vargas ou “Estado Novo”, continuou produzindo obras patrióticas de apelo popular. O “Dia da Independência”, em 7 de setembro de 1939 contou com um coral de 30 mil crianças cantando o hino nacional e outras peças musicais. Dois anos depois, publicou A Música Nacionalista no Governo Getúlio Vargas, onde defende a nação como uma entidade sagrada, e seus símbolos (a bandeira e o próprio hino nacional) como invioláveis.

Era uma personalidade destacada no meio cultural e chegou a ficar famoso no meio popular através de uma aparição no filme da Disney Alô amigos (1940), ao lado do próprio Walt Disney. Nessa época dirigiu um comitê que tinha como tarefa estabelecer uma versão definitiva para o hino nacional brasileiro. Sua atuação resulta na criação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, inaugurado em 1942. Na celebração do 7 de setembro de 1943, compôs o ballet “Dança da terra” e um hino invocando a defesa da pátria, logo após o Brasil ter declarado guerra contra a Alemanha nazista. Sua apego na busca de uma música genuinamente brasileira se expressa de modo claro: “Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil. O Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra.”

Dentre as cerca de mil composições do maestro, destacam-se: Cantilena, (Bachiana nº 5), O trenzinho caipira, Uirapuru, A Floresta do Amazonas, Descobrimento do Brasil, Choros nº 1 e nº 5, entre tantas outras. Seu legado musical não se restringe a música brasileira. Seus “12 Estudos”, reconhecidos como a maior obra para violão composta no século XX, revolucionou o repertório internacional do instrumento, até então restrito aos tradicionais espanhóis e a herança barroca do antigo alaúde. Dedicados a Segóvia, que passou a tocá-los (entre outras obras do maestro) no mundo inteiro, Os “12 estudos”, compostos entre 1924 e 1929, transformaram-se numa espécie de ‘Bíblia’ dos violonistas modernos, destacando-se por sua dificuldade, beleza, desafio, e brasilidade.

Em 1944 aceitou o convite do maestro Werner Jansen e iniciou uma turnê pelos Estados Unidos. No ano seguinte retornou ao Brasil e fundou a Academia Brasileira de Música, da qual foi eleito presidente. Em seguida empreendeu uma série de viagens pela américas, Europa e Israel, dirigiu concertos e gravou boa parte de sua obra. Em 1948 fez uma operação extirpando o câncer e casou-se com sua ex-aluna Arminda, que ficou encarregada de divulgar sua monumental obra, após sua morte em 17/11/1959. No dia seguinte o jornal “New York Times” dedicou-lhe um editorial na forma de necrológio e ano seguinte, o governo brasileiro criou o Museu Villa-Lobos no Rio de Janeiro. O maestro recebeu muitas homenagens em vida e mais ainda após sua morte, dando nomes a inúmeros logradouros e instituições. Foi retratado em diversas biografias e obras da musicologia: “Villa-Lobos, uma interpretação” (1961) do crítico Andrade Muricy; “Villa-Lobos, o homem e a obra”, uma alentada biografia traduzida em diversas línguas, do musicólogo Vasco Mariz; “Heitor Villa-Lobos: the life and works, 1887–1959”, do musicólogo finlandês Eero Tarasti.

Foi retratado também em filmes: “Bachianas Brasileiras: meu nome É Villa-Lobos” (1979), “O Mandarim”(1995) e “Villa-Lobos: uma vida de paixão” (2000). Em 1986 teve sua efígie impressa nas cédulas de quinhentos cruzados. No cinquentenário de seu falecimento (2009) foi organizado o “Seminário Internacional – Villa Lobos”, no MASP, com duração de 5 dias, onde foram apresentadas palestras, mesas redonda, avaliações, concertos etc. sobre o maestro. Foi um homem que tinha plena consciência de sua importância no cenário cultural do País, reveladas em frases como: “Eu não uso o folclore, eu sou o folclore” ou “Eu não estou aqui pra aprender, mas sim para mostrar o que eu até então construí”. Pouco antes falecer lamentou-se com um amigo: “É triste a gente morrer, ter alguns dias de vida e séculos de música na cabeça! Você sabe que eu tenho séculos de musica na minha cabeça?”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Nair de Teffé

Nair de Teffé Hermes da Fonseca nasceu em Petrópolis, RJ, em 10/6/1886. Pintora, cantora, atriz, pianista, primeira-dama e mais conhecida como a primeira cartunista mulher do mundo. Foi também a personalidade mais destacada da belle époque brasileira. Filha do Barão de Teffé (Antônio Luís von Hoonholtz) e de Maria Luísa Dodsworth. Uma legítima representante da aristocracia imperial brasileira. Com um ano de idade, mudou-se para a França, onde concluiu os primeiros estudos nas melhores escolas de Paris e Nice, incluindo um curso de pintura com Madame Lavrut. Era considerada uma menina prodígio, mimada pelo pai e pelos irmãos. Na França descobriu seu talento para o desenho e aos nove anos produziu a primeira caricatura, que lhe valeu 8 horas de castigo num quarto escuro. Desenhou o “retrato” da freira professora, de nariz comprido, Ao ser descoberta pela madre superiora, recebeu o castigo e um estímulo para seguir a profissão de caricaturista. Se recebeu tamanho castigo foi porque o desenho saiu muito bom.

Retornou ao Brasil em 1906 e inicia a carreira de caricaturista desenhando personalidades da alta sociedade carioca, as quais são expostas em conhecidas lojas do Rio de Janeiro: Casa David e Chapelaria Watson. Em julho de 1909 publicou seu primeiro trabalho (“A artista Rejane”) na revista “Fon-Fon”. No ano seguinte publicou na mesma revista “A Galeria de Elegâncias”, as famosas da época. Ainda em 1910 publicou a série “Galeria das Damas Aristocratas”, em cores, na revista “Careta”. Em seguida vieram as personalidades masculinas – “Galeria dos Smarts” – publicada na Gazeta de Notícias. Além destas, teve suas caricaturas publicadas nas revistas “O Binóculo”, “O Ken”, “O Malho” e no jornal “Gazeta de Petrópolis”. Tinha um traço ágil e sabia transmitir bem o caráter das pessoas.

Na França seus trabalhos apareceram nas revistas “Fantasie”, “Femina”, “Excelsior” e “Le Rire” . Em junho de 1912 realizou uma exposição individual no salão do “Jornal do Comércio”, onde reuniu duzentas caricaturas. A exposição foi inaugurada pelo Presidente da República, seu namorado e futuro marido, marechal Hermes da Fonseca. Ao casar-se, em dezembro de 1913, não pode mais conciliar as funções de caricaturista e primeira-dama. Foi militante feminista quando ainda nem se pensava nisso, com um comportamento avançado para a época. Lançou no Brasil a moda de calças compridas para mulheres, permitindo-lhe montar cavalo como os homens. Promovia saraus no Palácio do Catete (residência presidencial), que ficaram famosos por introduzir o violão nos salões da alta sociedade. Em sua paixão por música popular, reunia amigos para recitais de modinhas. Noutras ocasiões, frequentava o “Bar do Jeremias”, reduto de boêmios e intelectuais.

Era realmente uma primeira-dama diferenciada em todos os aspectos. É inexplicável o fato do cinema brasileiro não se interessar em fazer uma vídeo-biografia dessa mulher. Aliás, seu casamento em Petrópolis foi filmado e exibido em São Paulo, Curitiba e Rio Grande, mas encontra-se desaparecido. Num dos saraus, fez o lançamento do “maxixe” Corta Jaca, composto por sua amiga Chiquinha Gonzaga, no Palácio do Governo. O evento foi considerado um acinte, uma quebra de protocolo e causou um escândalo na sociedade carioca, ao ponto do senador Rui Barbosa proferir um discurso de protesto no Senado Federal, em 7/11/1914, pela promoção de músicas cujas origens estavam nas danças lascivas e vulgares da época. No mesmo ano, último de governo do marido, fez uma travessura por ocasião de uma reunião ministerial: desenhou na roda de seu vestido de gala as caricaturas de todos os Ministros da República.

Dois anos após o fim do mandato presidencial, mudou-se de novo para a França. Lá realizou algumas exposições, publicou charges no livro de crônicas de Otto Prazeres (Petrópolis, a encantadora), publicou na “Revista da Semana” 30 “cabeças” de ilustres brasileiros e fez algumas caricaturas para a revista “Fon-Fon”. Voltou para o Brasil por volta de 1921 e participou da Semana de Arte Moderna, em 1922. Após a morte do marido, em 1923, foi retomando a vida sem abrir mão de suas opiniões avançadas. No ano seguinte deu uma entrevista e aproveitou para protestar; e o fez lançando as bases do movimento feminista, que surgiria anos depois: “Por que permitir que os homens continuem a atrapalhar a vida econômica do sexo frágil… disputando-lhe os empregos e os cargos ao alcance de suas forças e capacidades?”

Decidiu voltar a morar em Petrópolis e foi eleita, em 1928, presidente da Academia de Ciências e Letras, que extinguiu em 1929 e fundou em seu lugar a Academia Petropolitana de Letras, a qual presidiu até 1932. Já era integrante da Academia Fluminense de Letras. Com o falecimento do pai, retornou ao Rio de Janeiro, em 1932, e com a herança recebida adquiriu um terreno, onde construiu o Cinema Rian (anagrama de Nair), na Avenida Atlântica. Pretendia incentivar a arte cinematográfica, mas teve dificuldades para administrar o empreendimento. Os problemas financeiros, inclusive com o “jogo-do-bicho”, que apreciava, levaram-na vender o cinema em 1946. Conta-se que o vício no jogo levou-a a perder, também, a ilha Francisca, em Angra dos Reis, uma herança deixada pelo marido.

Sua situação econômica foi se agravando, e com o pouco que restou, comprou uma casa em Niterói e passou a levar uma vida reclusa com os três filhos adotados. Em 1959 foi “redescoberta”, aos 73 anos, por Herman Lima, (autor da História da caricatura no Brasil), que incentivou-a a refazer alguns desenhos para incluir em seu livro. Em seguida voltou a fazer caricaturas de várias personalidades da vida política e por um breve período retomou a vida profissional, porém com alguns percalços. A pensão deixada pelo marido não dava para custear as despesas e em 1970 quase foi despejada de sua moradia. Neste ano, por decisão do presidente Médici, conseguiu um reajuste na pensão, fato que levou-a fazer elogios ao general-ditador. Fato, também, que gerou críticas dos intelectuais de esquerda, que não compreenderam sua situação econômica.

Em 1979 esteve em São Paulo, onde foi homenageada no II Salão de Humor e Quadrinhos, promovido pela Universidade Mackenzie. No início da década de 1980 a saúde deu sinais de alerta e no ano seguinte teve uma infecção pulmonar agravada por insuficiência cardíaca. Em 10/6/1981, no dia em que completou 95 anos, faleceu e foi sepultada junto ao marido. Em 1982 os cartunistas Jal e Gualberto, entre outros, criaram o “Centro Artístico Rian” com o objetivo de dar apoio legal, jurídico e operacional na luta pela valorização do artista gráfico. Sua atribulada vida foi contada na biografia realizada por Antonio Edmilson Martins Rodrigues: Nair de Teffé: vidas cruzadas, publicada pela editora da Fundação Getúlio Vargas, em 2002.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Zeferino Vaz

Zeferino Vaz nasceu em São Paulo, em 27/5/1908. Médico, professor e fundador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e reitor da Universidade de Brasília (UnB). Os primeiros estudos se deram no Liceu Coração de Jesus. Poderia ter sido um grande ator, pois atuou no teatro do colégio, ao lado de Rodolfo Mayer, em várias peças e também no cinema. Perdemos um ator e ganhamos um reitor. Uma troca da qual não podemos reclamar.

Em 1926 ingressou na Faculdade de Medicina de São Paulo e, logo, tornou-se monitor da cadeira de parasitologia. Em seguida foi estagiário no Instituto Biológico de São Paulo, onde foi nomeado assistente, em 1930, e fundou, junto com Clemente Pereira, a seção de parasitologia animal. Formou-se médico em 1931 e foi assistente do professor André Dreyfuss na cadeira de histologia e embriologia da recém fundada Escola Paulista de Medicina, atual UNIFESP-Universidade Federal de São Paulo. Em 1932 participou ativamente da Revolução Constitucionalista, deflagrada em São Paulo. Aprofundou os estudos em sua especialidade e pouco depois foi lecionar Zoologia e Parasitologia na Escola de Medicina Veterinária da USP, onde foi diretor entre 1936-1947 e 1951-1964.

Em 1947 coordenou a Comissão criada para implantar uma faculdade de medicina no interior de São Paulo. Quatro anos após organizar o currículo e planejar a instalação numa antiga fazenda de café, foi criada a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. No discurso de posse como diretor, em 1951, deixou claro suas intenções: “Minha gente, vim criar uma Faculdade de Medicina. Mas não vim criar uma Faculdade de Medicina qualquer. Vou fazer daqui o melhor Centro de Educação Médica e de pesquisas científicas, no campo da medicina, do Hemisfério Sul”. Hoje a FMRP é o maior centro de formação de médicos em nível de pós-graduação do País. Em 1963, foi secretário estadual de Saúde Pública. De 1964 a 1965 foi o primeiro presidente do Conselho de Educação do Estado de São Paulo.

Logo após o Golpe Militar de 1964, foi nomeado reitor da Universidade de Brasília-UnB em substituição a Anísio Teixeira, cassado pelos militares. Fez o que pode para manter a estrutura inovadora da UnB, realizando inclusive gestões bem-sucedidas para libertar os professores que haviam sido presos durante a invasão do campus universitário por tropas da Polícia Militar e do Exército, em 9/4/1964. Apesar das limitações de verbas e das demissões de 13 professores e instrutores, o trabalho de implantação da UnB prosseguiu, segundo ele mesmo, com o intuito de “salvar a universidade da destruição”. Nessa lida, chegou a impedir o afastamento de indivíduos de alta qualificação, como Oscar Niemeyer e Almir Azevedo, acusados de subversão. Em certa ocasião foi chamado de “o reitor de direita que protegia as esquerdas”. Em 1965 pediu demissão do cargo devido ao impasse gerado pela contratação do professor Ernâni Maria Fiori, pensador católico gaúcho demitido da Universidade de Porto Alegre e aposentado com base no Ato Institucional nº 1 (9/4/1964). Foi substituído na reitoria da UnB por Laerte Ramos de Carvalho, mas continuou integrando o Conselho Diretor da Fundação Universidade de Brasília.

Em seguida, retornou a São Paulo com a missão de fundar a primeira universidade no interior do estado, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nomeado reitor em 1966, lutou para reunir alguns dos melhores cientistas brasileiros para formar uma instituição de pesquisa sólida e respeitada, tornando a Unicamp uma das mais produtivas e respeitadas instituições de pesquisa da América. Sua filosofia de trabalho era simples até no modo de se expressar: “para funcionar uma universidade precisava primeiro de homens, segundo de homens, terceiro de homens, depois bibliotecas, depois equipamento e, finalmente, edifícios”. Assim, preocupou-se primeiramente com a contratação de pessoas capazes intelectualmente e com experiência pedagógica. Convidou cientistas e brasileiros que atuavam nos EUA e na Europa, e trouxe também professores estrangeiros.

Em 1979 a Unicamp já contava com um quadro de expressivos cientistas e pesquisadores de nível internacional: César Lattes, Gleb Wataghin, Vital Brasil, Rogério Cerqueira Leite, Giuseppe Cilento, André Tosello entre outros. No movimento de reivindicação das liberdades democráticas, mostrou-se favorável ao ressurgimento do movimento estudantil, lutou pela autonomia universitária e buscou a integração entre a universidade e a comunidade local. Manifestou-se favorável à reintegração dos professores e cientistas aposentados pelo Ato Institucional nº 5, sugerindo a imediata revisão de seus casos. Porém, com o acirramento dos movimentos políticos, foi contra a reivindicação do movimento estudantil de retorno à legalidade da UNE-União Nacional dos Estudantes, afirmando que a entidade teria sua atuação desviada para questões alheias aos interesses universitários.

Ocupou diversos cargos públicos e civis, tais como membro do Conselho Federal de Educação, Conselho Curador da Fundação SEADE, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia de Letras de Ribeirão Preto, Associação Paulista de Medicina, Associação Médica Brasileira, Sociedade de Biologia de São Paulo e da American Society of Parasitologists. Foi também assessor para assuntos de educação e saúde do Grupo de Assessoria e Participação (GAP) do governo de São Paulo. Na vida acadêmica participou de vários congressos científicos, destacando-se como convidado da IV Conferência Internacional de Educação em Washington.

Além do seu legado como empreendedor de sólidas instituições, deixou publicado 65 trabalhos de investigação científica no campo da parasitologia (helmintologia) em revistas americanas, inglesas, francesas e brasileiras. Em 1978 deu-se por encerrada a implantação da Unicamp e a administração pro tempore de seu fundador e reitor, que se aposentou compulsoriamente aos 70 anos e passou a presidir a Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp). Em 1980 a saúde deu sinais de alerta e foi vitimado por um aneurisma de aorta, vindo a falecer em 9/2/1981. Entre as tantas homenagens que amealhou, seu nome foi dado ao Campus da Unicamp e ao trecho da Rodovia SP-332. A Unicamp concede, anualmente, o “Prêmio de Reconhecimento Zeferino Vaz” a docentes ativos que atuam em regime de dedicação exclusiva e que tenham se destacado nas suas funções de docência e pesquisa.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Quitéria

Maria Quitéria de Jesus Medeiros nasceu em 27/7/1792, em São José das Itapororocas, atual Feira de Santana, BA. Militar e heroína na luta pelo reconhecimento da independência do Brasil. Filha do fazendeiro português Gonçalo Alves de Almeida e Joana Maria de Jesus, perdeu a mãe aos 10 anos e assumiu o comando da casa. O pai casou novamente e ela não se deu bem com a madrasta, que não admitia seu comportamento independente. Não frequentou escolas, mas dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo.

Estava noiva, prestes a casar, entre 1821 e 1822, quando teve início na Bahia o movimento contra o domínio português. Em janeiro de 1822, a Coroa enviou as tropas portuguesas, sob o comando de Inácio Madeira de Melo. No confronto, os portugueses cometeram barbaridades, como a invasão do Convento da Lapa, onde ocorreu o martírio da freira Joana Angélica. O fato veio acirrar o ânimo da população, levando o Conselho Interino do Governo da Bahia a convocar voluntários. Maria Quitéria quis se alistar, pediu permissão ao pai, mas teve o pedido negado. Com a apoio da irmã e do cunhado, cortou o cabelo, vestiu roupas masculinas e se alistou com o nome Medeiros no “Batalhão dos Voluntários do Príncipe Dom Pedro”. 15 dias depois o pai foi buscá-la, mas o major José Antônio da Silva Castro (avô do poeta Castro Alves) defendeu-a e não permitiu seu desligamento da tropa, devido a sua disciplina militar e facilidade no manejar de armas. Seguiu com o Batalhão, agora com um saiote à escocesa acrescido ao seu uniforme, para vários combates.

Participou das batalhas na da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e de Itapuã. Dom Pedro enviou à Salvador o general Pierre Labatut, para organizar o combate, no qual ela teve atuação destacada. Em 2/7/1823, quando terminou a “Guerra da Independência”, com a entrada do Exército Brasileiro em Salvador, a cabocla Maria Quitéria, já promovida a cadete, foi saudada e homenageada pela população. Lembremos que esta guerra durou de 1821 a 1823 e que o dia 2 de julho de 1823 ainda hoje é a data magna da Bahia, feriado em comemoração a consolidação da independência do Brasil.

Em 20 de agosto do mesmo ano, foi condecorada, no Rio de Janeiro, com a “Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul”, numa audiência especial quando recebeu a medalha das mãos do próprio Imperador Dom Pedro I, com o discurso: “Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os serviços militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. Além da comenda, foi promovida a Alferes (2ª tenente), posto em que ficou reformada. Voltou à Salvador com uma carta do imperador dirigida à seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela fuga de casa para lutar pelo Brasil.

A escritora e pintora inglesa Maria Graham, que viveu três anos no Brasil, estava presente nesta cerimônia e ficou tão impressionada com sua figura que desenhou seu retrato, o único que temos de Maria Quitéria. Além disso, escreveu no seu livro Journal of a Voyage (Londres, 1824), que “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”. Foi a partir daí que a nossa heroína passou a ser conhecida e valorizada entre nós. Por incrível que pareça, ainda hoje os brasileiros mantém o costume de só reconhecerem suas personalidades quando são divulgadas no exterior.

Pouco depois casou com um antigo namorado, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha. Em 1835 ficou viúva e mudou-se para Feira de Santana para tentar receber parte da herança do pai, falecido no ano anterior. Desistiu do inventário, devido a morosidade da justiça e foi morar com a filha em Salvador. Faleceu em 21/8/1853, aos 61 anos, quase cega e total anonimato. Encontra-se sepultada na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, no bairro de Nazaré em Salvador. Foi a primeira mulher brasileira a assentar praça numa unidade militar do Exército. 120 anos depois, em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial, as mulheres passaram a ter existência oficial naquela instituição.

Em 1953, Os Correios estamparam um selo comemorativo do centenário de seu falecimento. Em 1996 foi-lhe atribuído o título de patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sua imagem está exposta em todos os quartéis do Brasil. As câmaras municipais de Salvador e Feira de Santana instituíram a Comenda Maria Quitéria. Em sua cidade foi-lhe erguido um monumento no cruzamento da Av. Maria Quitéria com a Av. Getúlio Vargas, além de nomear o Paço Municipal. Seu retrato mais conhecido é uma pintura de corpo inteiro, pintado por Domenico Failutti, que atualmente integra o acervo do Museu Paulista, em São Paulo. A pintura foi baseada no retrato publicado no livro de Maria Graham.

Sua vida foi descrita em diversos livros de história do Brasil e em algumas biografias: Maria Quitéria: A Joana d`Darc brasileira (2014), de Mônica Buonfiglio; Maria Quitéria (2008), de Miriam Mambrini e A incrível Maria Quitéria (1977), de João Francisco de Lima. Sua vida e feitos vêm sendo comparados ao da mártir francesa Joana d’Arc, que também teve uma destacada vida militar.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Delmiro Gouveia

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu, Ceará, em 5/6/1863. Pioneiro da industrialização no País com o aproveitamento do potencial hidrelétrico. Seu pai faleceu na Guerra do Paraguai e, ainda criança, mudou-se com a família para Goiana (PE) e em seguida para Recife, onde a mãe veio a se casar com o advogado Meira Matos, que virou seu padrasto e patrão. Com a morte da mãe, começou a trabalhar, aos 15 anos, como cobrador da Brazilian Street Railways Company, chamada “maxambomba”, o primeiro trem urbano do país. Foi sendo promovido até chegar a chefe da Estação de Caxangá.

Dotado de espírito empreendedor, foi se aventurar pelo interior do Estado como caixeiro-viajante, em 1881. Dois anos depois, casou-se com a filha do tabelião de Pesqueira e voltou para o Recife. Viu no comércio de peles de cabras e ovelhas um bom negócio e, a partir de 1883, passou a viajar pelas cidades do interior, obtendo grande sucesso neste negócio. Três anos após, estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, comissionado, junto ao imigrante sueco Herman Theodor Lundgren, que viria a ser o fundador das Casas Pernambucanas. Em 1889 foi trabalhar no curtume do americano John Sanford, com matriz na Filadélfia. Em 1892 assumiu a gerência da filial brasileira, aprendeu a falar inglês, passou um tempo na matriz e na volta adquiriu as instalações do escritório da empresa que faliu. Em 1896 criou sua própria empresa, a Delmiro Gouveia & Cia. e foi contratando os melhores funcionários das empresas concorrentes.

Em 1898, decidiu alavancar o empreendimento e instalou um “mercado modelo” no terreno comprado do Derby Club, no Recife. Uma enorme área com 264 boxes com balcão de mármore e mandou erguer um palacete para sua residência. Em 1899 inaugurou o “Derby”, um grande centro comercial e de lazer com mercado, hotel de luxo, cassino, parque de diversões e loteamento residencial. Uma inovação no comércio, vista hoje como o primeiro “shopping center” do país. Na época, o poder político em Pernambuco estava com Rosa e Silva, vice-presidente da República. Inovador, agressivo no mercado e desligado dos políticos dominantes, Delmiro era visto como uma ameaça aos grandes usineiros. Jovem, rico, e uma tumultuada vida amorosa, era alvo constante de fofocas, escândalos e denúncias na imprensa, mantendo-o em constante evidência.

Tudo isso era agravado pela oposição que fazia ao poderoso grupo político liderado por Rosa e Silva. Assim, suas mercadorias eram constantemente apreendidas e de vez em quando recebia ameaças de morte. Em janeiro de 1900, o mercado foi incendiado supostamente a mando de Rosa e Silva, com quem ele foi tomar satisfações. Por ter agredido o vice-presidente, foi preso. Mas foi solto no dia seguinte através de um “habeas corpus”. Sua esposa abandonou-o, retornando à casa dos pais, e ele volta ao comércio de couro, abrindo nova empresa, a Iona & Krause. Em setembro de 1902, apaixonou-se por uma jovem menor de idade, propõe uma fuga e se escondem na Usina Beltrão. A jovem, de 16 anos, era filha do governador de Pernambuco, nascida fora do casamento. No mês seguinte a jovem é resgatada e ele fugiu num vapor em direção a Penedo (AL).

Em 1903 instalou-se em Pedra, um lugarejo perdido no sertão, mas de localização estratégica para os negócios que pretendia instalar. A cidade, localizada na Microrregião alagoana do Sertão do São Francisco, é uma divisa com três estados: Pernambuco, Sergipe e Bahia. Ali comprou uma fazenda às margens da Ferrovia Paulo Afonso e começou a construir uma grande empresa com currais, açude e prédios para o curtume. Pouco depois mandou buscar a jovem que havia sido raptada – Carmélia Eulina do Amaral Gusmão – com quem teve três filhos. Sua empresa prosperou e em pouco tempo transforma-se num grande entreposto comercial de peles de bode e carneiro. Em seguida passou a explorar o potencial energético da Cachoeira de Paulo Afonso. Em dois anos construiu uma Usina Hidrelétrica com potência de 1.500 HP, inaugurada em 1913. No ano seguinte fundou a “Companhia Agro Fabril Mercantil” a primeira fábrica na América do Sul a fabricar linhas de costura e fios para malharia. A I Guerra Mundial (1914) impediu a chegada dos produtos ingleses e garantiu a conquista desse mercado. Em pouco tempo a fábrica estava exportando para o Peru e Chile. Construiu uma vila operária, abriu estradas e os funcionários recebiam vários benefícios. A “Fábrica de Linhas Estrela” e a cidade que ele construiu eram modelos para a época. Em 1943 a cidade passou a se chamar Delmiro Gouveia.

O poderio econômico da empresa – em 1916 tinha 2000 funcionários e produzia mais de 500 mil carretéis de linha por dia – chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica. Por motivos políticos e questões de terras, entrou em conflito também com vários coronéis da região. Em 10/10/1917 ele estava em frente ao seu chalé, quando foi assassinado com três tiros disparados por pistoleiros. O assassinato é atribuído pela maioria de seus biógrafos aos coronéis José Rodrigues de Lima (de Piranhas) e José Gomes de Lima (de Jatobá), os quais entraram em conflito com ele por motivos políticos e econômicos. Nunca se descobriu quem foram os reais mandantes do assassinato, mas houve quem incluísse no rol dos suspeitos os diretores da Machine Cotton. Os herdeiros não resistiram e foram pressionados a vender a fábrica à empresa inglesa, detentora na América Latina da marca “Linhas Corrente”. Ato contínuo, os ingleses destruíram os prédios da fábrica e lançaram as máquinas e equipamentos no Rio São Francisco, livrando-se da incômoda concorrência.

Devido ao seu ímpeto empreendedor, inovações e conquistas na área econômica e industrial, tornou-se um mito na história do Brasil. No centenário de seu nascimento, em 1963, foram realizados eventos em algumas capitais e homenagens no Congresso Nacional. Em 1977, estreou a peça O Coronel dos Coronéis, escrita por Maurício Segall, No ano seguinte, o cineasta Geraldo Sarno realizou o documentário Delmiro Gouveia: O Homem e a Terra, que, sete anos depois, foi transformado no filme Coronel Delmiro Gouveia. Sua trajetória já foi contada em diversos livros biográficos e de ficção. Foi o primeiro industrial brasileiro com forte caráter nacionalista, que enfrentou o “imperialismo econômico”, conforme seu depoimento publicado no livro de Olympio Menezes: Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife, IJNPS/MEC, 1963. p. 134. “Nossa Fábrica ocupa 2.000 operários brasileiros e nossa linha é fabricada com matéria prima exclusivamente nacional. Esperamos que o público não deixará de comprar a nossa linha, de superior qualidade, para dar preferência a mercadoria estrangeira ou com rótulo aparente de nacional. Se não fosse a linha “Estrela” o preço de um carretel estaria por 500 réis ou mais; o público deve o benefício do barateamento deste artigo de primeira necessidade, à nossa indústria”.

Em 1993, a Federação das Indústrias de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, a FUNDAJ e o BANDEPE instituíram o “Prêmio Delmiro Gouveia de Vanguarda Industrial”, destinado a distinguir anualmente “as indústrias que se destacarem pela adoção de inovações nas áreas de qualidade, relações trabalhistas, gestão empresarial e interação com a comunidade”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

MEMORIAL DAS BRASILEIRAS: Zuzu Angel

Zuleika Angel Jones nasceu em Curvelo, MG, em 5/6/1921. Estilista e pioneira na história da moda brasileira. Ainda criança foi morar em Belo Horizonte, e começou a costurar e criar modelos de roupas para as primas e amigas. Na juventude foi morar em Salvador, BA, onde as cores e a cultura contribuíram para a definição do estilo de suas criações, onde prevalecem as cores e motivos tropicais.

Em 1947 fixou residência no Rio de Janeiro e, 10 anos depois, abriu sua pequena loja em Ipanema. Com um estilo próprio e linguagem pessoal, em suas peças reinava uma misturas de tecidos, cores e estampas de animais ou temas regionalistas e folclóricos. Era uma inovadora, mas não tinha a pretensão de se tornar sofisticada costurando só para a elite carioca; seu ideal era vestir a mulher comum. Costumava dizer: “Eu sou a moda brasileira”. Por aqui ninguém duvidou disso e no exterior seu estilo agradou, por exemplo, Kim Novak, Joan Crawford e Lisa Minelli, que tornaram-se suas clientes. Seu estilo pessoal agradou também o estadunidense Norman Angel Jones, com que se casou em 1943, e teve três filhos: Stuart (1945), Ana Cristina (1948) e Hildegard (1949)

O casal separou-se em 1960 e sua carreira como estilista decolou na década seguinte atingindo o mercado internacional. Além de costurar, desenhava e pintava suas roupas. O anjo, de seu sobrenome, passou a ser uma das marcas registradas de suas criações. Foi ela quem trouxe para o Brasil e popularizou no universo da moda nacional o termo “fashion designer”. Em seu primeiro desfile em Nova Iorque, em 1970, lançou a coleção internacional “Dateline Collection” na sofisticada loja “Bergdorf Goodman”, ao som de músicas folclóricas brasileiras. Seus modelos fizeram sucesso também em Londres e participou de desfiles com os costureiros Valentine e Yves Saint Laurent. Pouco depois suas roupas passaram a ser vendidas em lojas de renome internacional, como Saks, Lord & Taylor, Henry Bendell e Neiman Marcus.

Nos “anos de chumbo” da ditadura brasileira, seu filho, jovem estudante de economia, passou a integrar o MR-8, um grupo guerrilheiro que combatia a ditadura militar. Em 14/4/1971 foi preso, torturado e assassinado na madrugada do mesmo dia no Centro de Informações da Aeronáutica. O governo continuou espalhando cartazes como “Procurado” enquanto a imprensa e as autoridades davam-no como “desaparecido”. Daí em diante, Zuzu passou a procurá-lo e a cobrar o Governo pela recuperação do corpo de seu filho. A cobrança chegou a envolver os EUA, país de seu ex-marido e pai de Stuart. Utilizando-se dos recursos de estilista, criou uma coleção estampada com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos. O anjo, ferido e amordaçado em suas estampas, tornou-se também o símbolo do filho.

Em setembro do mesmo ano, realizou um desfile-protesto no consulado do Brasil em Nova York. Os jornais internacionais deram a notícia em manchetes: o canadense The Montreal Star estampou: “Designer de moda pede pelo filho desaparecido”; o Chicago Tribune detalhou: “A mensagem política de Zuzu está nas suas roupas”. Realmente, ela utilizou as “armas” que dispunha na luta para encontrar o corpo do filho. Em maio de 1973 procurou o general Ernesto Geisel pedindo ajuda na localização do corpo do filho. Apelou a diversos políticos e celebridades para que ajudassem a encontrar o corpo. Durante a visita do secretário de estado dos EUA, Henry Kissinger, ao Brasil em 1976, chegou a furar o bloqueio da segurança para entregar-lhe um dossiê com os fatos sobre a morte do filho, também portador da nacionalidade americana.

Um ano antes já havia feito a mesma coisa, entregando um dossiê à esposa do general Mark Clark, comandante das tropas aliadas no front italiano durante a II Guerra Mundial, que estava em visita ao Brasil. O caso também chegou ao Senado dos EUA através de um discurso do senador Edward Kennedy, a quem Zuzu fez chegar a denúncia da morte do filho. Seu desespero e destemor beirava a temeridade. Certa vez tomou da mão de uma aeromoça o microfone de bordo para anunciar aos passageiros “que desceriam no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, Brasil, país onde se torturavam e matavam jovens estudantes”. A luta para recuperar o corpo do filho chegou a um ponto onde sua segurança pessoal passou a ser ameaçada. Quando diziam que ela era uma pessoa corajosa, ela retrucava: “Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade.”

Em princípios de abril de 1976, ela deixou na casa de Chico Buarque de Holanda, um bilhete que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”. Em 14/4/1976, no mesmo dia em que a morte do filho completou 5 anos, ela dirigia um Karman Guia, que derrapou na saída do Túnel Dois Irmãos, saiu da pista, chocou-se contra a mureta de proteção, caiu na estrada abaixo e morreu instantaneamente. O “acidente” só foi elucidado em 1998, quando a Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos julgou o caso e reconheceu o regime militar como responsável pela morte da estilista. Segundo depoimentos, ela foi jogada para fora da pista por um carro pilotado por agentes da repressão. Em 2013, a WikiLeaks vazou um documento secreto do governo norte-americano datado de 10/5/1976, comentando a morte de Zuzu e mostrando preocupação com o fato e sua repercussão no Brasil e no exterior. O documento ressaltava que a hipótese de ter havido “jogo sujo” por parte das forças de segurança não é estranha nem pode ser descartada.

Zuzu foi homenageada em livros, música, filme e com seu nome no Túnel, onde morreu. Chico Buarque compôs a música Angélica, em 1977, falando de seu martírio; em 1988 José Louzeiro publicou sua biografia romanceada Em carne viva; em 1993, sua filha, a jornalista Hildegard Angel, criou o Instituto Zuzu Angel de Moda, no Rio de Janeiro; em 2006, o cineasta Sérgio Rezende dirigiu Zuzu Angel, filme retratando sua vida e a busca do corpo de seu filho. Ao completar 50 anos da morte de Stuart Angel, em 1/4/2014, o espaço Itaú Cultural, de São Paulo, apresentou a mostra “Ocupação Zuzu”, onde foi apresentado um filme feito pela rede norte-americana NBC. Trata-se do filme, encontrado anos depois, sobre aquele desfile realizado em 1971, no Consulado do Brasil, em Nova Iorque, que deu inicio a peregrinação de Zuzu Angel. Para fechar as homenagens com chave de ouro, temos seu nome inscrito em letras de aço no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, em 12/4/2017.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: André Rebouças

André Pinto Rebouças nasceu em 13/1/1838, em Cachoeira, Bahia. Engenheiro, abolicionista e inventor. Seu pai, Antônio Pereira Rebouças era advogado, deputado e conselheiro de Dom Pedro II. Ao lado de Machado de Assis, Cruz e Souza, José do Patrocínio, foi um dos representantes da pequena classe média negra em ascensão no 2º Reinado. Em 1842, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu os primeiros estudos e ingressou no curso de engenharia da Escola Militar, junto com o irmão Antônio, em 1854. Após formados são promovidos a primeiro-tenente, em 1858.

Em 1861, recebem uma bolsa de estudos e viajam à Europa para aprofundar os estudos de engenharia em ferrovias, portos e transporte marítimo, na França e na Inglaterra. De volta ao Brasil, em novembro de 1862, foram trabalhar no aperfeiçoamento dos portos e fortificações brasileiras. Em 1864 André alistou-se no Exército e foi para a Guerra do Paraguai na condição de engenheiro militar. Na ocasião desenvolveu um torpedo, que foi utilizado com sucesso durante as batalhas. Devido a problemas de saúde, teve que retornar ao Rio de Janeiro antes do fim da guerra. Foi nomeado Diretor das Docas da Alfândega em 1866 e permaneceu até 1871 trabalhando em diversos projetos para novos portos: João Pessoa, São Luís, Maranhão, Recife e Salvador. Junto com o irmão Antônio, apresentou à Corte o projeto de construção da estrada de ferro ligando Curitiba ao litoral, na cidade de Antonina. Na execução do projeto, o trajeto foi alterado para o porto de Paranaguá. Até hoje essa obra impressiona pela ousadia de sua concepção.

Demitido do cargo por motivos políticos, embarcou de novo, em 1872, para a Europa e Estados Unidos, onde sofreu preconceito de cor: foi impedido de se hospedar em alguns hotéis, entrar em restaurantes, assistir operas em teatros etc. Reagiu ao seu modo, discreto, e anotando em seu diário, que manteve durante toda a vida. Na viagem pela Europa, se empenhou na obtenção de recursos para auxiliar Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani. De volta ao Rio de Janeiro, passou a evitar o convívio social na Corte e intensificou a publicação de artigos na imprensa. Contratado pela Escola Politécnica, dividiu suas atividades entre lecionar e batalhar pela abolição da escravatura junto com Joaquim Nabuco e outros intelectuais. Participou da criação da Sociedade Brasileira contra a Escravidão, Sociedade Abolicionista e a Sociedade Central de Imigração.

Seu envolvimento com a abolição não é apenas intelectual. Em 1883 foi eleito tesoureiro da Confederação Abolicionista, destacando-se como financiador e orientador da campanha no Rio de Janeiro. Com visão progressista, contrapunha-se a todos os tipos de escravidão e lutava contra a “reescravização do imigrante pelos donos da terra”. Dentre os abolicionistas, foi o que mais anteviu as profundas implicações da eliminação da mão-de-obra escrava. Em suas palavras: “escravidão não está no nome e sim no fato de usufruir do trabalho de miseráveis sem pagar salário ou pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome… Aviltar e minimizar o salário é reescravizar”.

Defendeu a emancipação e regeneração do escravo através da aquisição da terra. A transformação da agricultura brasileira deveria se dar com uma reforma agrária contemplando os negros libertos. Seu pensamento dirigia-se ao dia seguinte, quando os escravos fossem libertos e se mantivessem tão pobres e sem direitos como sertanejos. Tais ideias foram expostas em seu livro Agricultura nacional, estudos econômicos: propaganda abolicionista e democrática. Caso suas propostas prosperassem, a distribuição da riqueza e o problema racial no Brasil estariam noutro patamar. Seriam dois grandes problemas abatidos simultaneamente. Tinha prestigio junto a Dom Pedro II e a Princesa Isabel, dos quais desfrutava uma amizade pessoal. No último ano do império, recebeu do imperador diversos encargos e participou ativamente dos acontecimentos políticos do País.

No grande baile imperial, na Ilha Fiscal, em 9/11/1889, às vésperas da Proclamação da República, foi recusado por uma dama convidada para dançar. Observando o constrangimento não só dos dois, mas de toda a Corte Imperial, D. Pedro II pediu à Princesa Isabel para intervir. A mulher que assinou a Lei Áurea não podia deixar aquilo barato. Saiu altiva pelo meio do salão sob o olhar estarrecido da plateia e pegou o “Negão” pra dançar. Por que nenhum cineasta brasileiro se interessa em filmar estas cenas? O registro curioso de dois grandes nomes da História em situações excepcionais. No momento discute-se ardorosamente se Machado de Assis era mais negro do que se apresenta nas fotos. Uma briga danada pela posse do ilustre escritor, quando se sabe conforme dito no inicio, que Machado era parte da classe média negra em ascensão. Não entendo esse “cabo de guerra” com Machado, quando temos André Rebouças no panteão, totalmente esquecido. Mas isto é tema de outro ensaio. Retomemos com os fatos finais da vida do nosso Memorável.

Com a instauração da República, manteve-se fiel à monarquia e seguiu junto com a família real no “Paquete Alagoas” no exílio com destino à Europa. Viveu dois anos em Lisboa, onde atuou como correspondente do jornal “The Times”, de Londres e colaborador da “Gazeta de Portugal”. Em seguida transferiu-se para a França e passou a viver em Cannes até a morte de Dom Pedro II, em 1891. No ano seguinte, aceitou convite para trabalhar em Luanda e passou a colaborar com alguns países africanos. Em meados de 1893 foi viver em Funchal, na Ilha da Madeira, até 9/5/1898, quando foi encontrado morto no mar em frente a sua casa. As homenagens e o reconhecimento público dirigidos à ele e seu irmão Antônio tem se proliferado em diversos estados brasileiros, tais como a grande avenida em São Paulo, o túnel no Rio de Janeiro e a cidade de Rebouças, no Paraná. A mais recente ocorreu em 2015, com seu nome dado ao Navio André Rebouças.

Deixou alguns livros publicados não apenas sobre o abolicionismo: A sêcca do norte, publicado pela Editora do Povo, em 1877, hoje considerado raríssimo, e outros republicados tais como Propaganda abolicionista e democrática; Diário da Guerra do Paraguai; Reforma e utopia no contexto do segundo império, que podem ser encontrados em sebos e antiquários. Sua vida e obra têm sido expostas na bibliografia referente ao 2º Império, além de algumas biografias: O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho (Ed. Revan, 1998); André Rebouças: um engenheiro do Império, de Alexandro Dantas Trindade.(Ed. Hucitec, 2011) e Da abolição da escravatura à abolição da miséria: a vida e as ideias de André Rebouças, de Andréa Santos Pessanha (Ed. Quartet, 2005).