JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Heitor Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro, em 5/3/1887. Músico e maestro, considerado o expoente da música clássica brasileira e um dos maiores compositores do mundo, na opinião de Alejo Carpentier, escritor e músico cubano. A data de seu nascimento é celebrada como “Dia Nacional da Música Clássica”. Filho Noêmia Monteiro Villa-Lobos e Raul Villa-Lobos, músico amador e funcionário da Biblioteca Nacional, recebeu do pai instrução musical e uma viola adaptada para iniciação aos estudos de violoncelo.

Aos 12 anos, com o falecimento do pai, a família passou por alguns perrengues e ele foi obrigado a ganhar a vida tocando em teatros, bares e bailes ao mesmo tempo em que manifestava interesse pela musicalidade dos “chorões”, que imperava no Rio de Janeiro. Frequentou a conhecida loja “O Cavaquinho de Ouro”, que reunia o grupo de chorões. Nesse contexto, desenvolveu-se também no violão, na época, um instrumento musical de malandro. Desde cedo, curioso e inquieto, passou a viajar pelo interior do País com o intuito de conhecer o universo musical brasileiro. Em 1913 casou-se com a pianista Lucila Guimarães e conquistou o reconhecimento artístico em âmbito nacional. Em 1922 teve atuação destacada na Semana de Arte Moderna, em São Paulo, apresentando-se nos três dias com três diferentes apresentações. O Teatro Municipal de São Paulo foi o primeiro palco erudito a receber suas obras.

Em 1923 fez sua primeira viagem para a Europa, subsidiado pelo governo, onde passou um ano aprimorando sua performance. Em 1924 retornou ao velho continente, sob patrocínio do milionário carioca Carlos Guinle, dono do Hotel Copacabana Palace, e passou mais um tempo em contato com os grandes compositores mundiais. De volta ao Brasil, em 1930, realizou uma turnê por 66 cidades e uma “Cruzada do Canto Orfeônico” no Rio de Janeiro. No ano seguinte quis voltar a Europa, mas a “Revolução de 30”, impediu a retirada de dinheiro do País, impedindo-o de viajar. Forçado a permanecer no Brasil, passou a organizar concertos em algumas cidades e compor músicas educativas e patrióticas, com apoio governamental.

A aproximação com o novo governo garantiu-lhe o cargo de diretor da SEMA-Superintendência de Educação Musical e Artística, criado pelo decreto-lei nº 3.763, de 1932, através do Departamento de Educação, comandado por Anísio Teixeira. Permaneceu no cargo até 1945, período no qual foi instituído o ensino obrigatório de música e canto orfeônico nas escolas. Nesta condição produzia arranjos musicais diversos e compôs diversas peças consideradas propagandísticas, de cunho nacionalista, Vale ressaltar que a série “Bachianas Brasileiras”, iniciada naqueles anos, é considerada uma notável exceção. Em 1936, desfez o casamento e passou a namorar sua aluna Arminda Neves d’Almeida. Após o decreto de 10/11/1937, que estabeleceu a ditadura de Vargas ou “Estado Novo”, continuou produzindo obras patrióticas de apelo popular. O “Dia da Independência”, em 7 de setembro de 1939 contou com um coral de 30 mil crianças cantando o hino nacional e outras peças musicais. Dois anos depois, publicou A Música Nacionalista no Governo Getúlio Vargas, onde defende a nação como uma entidade sagrada, e seus símbolos (a bandeira e o próprio hino nacional) como invioláveis.

Era uma personalidade destacada no meio cultural e chegou a ficar famoso no meio popular através de uma aparição no filme da Disney Alô amigos (1940), ao lado do próprio Walt Disney. Nessa época dirigiu um comitê que tinha como tarefa estabelecer uma versão definitiva para o hino nacional brasileiro. Sua atuação resulta na criação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, inaugurado em 1942. Na celebração do 7 de setembro de 1943, compôs o ballet “Dança da terra” e um hino invocando a defesa da pátria, logo após o Brasil ter declarado guerra contra a Alemanha nazista. Sua apego na busca de uma música genuinamente brasileira se expressa de modo claro: “Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil. O Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra.”

Dentre as cerca de mil composições do maestro, destacam-se: Cantilena, (Bachiana nº 5), O trenzinho caipira, Uirapuru, A Floresta do Amazonas, Descobrimento do Brasil, Choros nº 1 e 5, entre tantas outras. Seu legado musical não se restringe a música brasileira. Seus “12 Estudos”, reconhecidos como a maior obra para violão composta no século XX, revolucionou o repertório internacional do instrumento, até então restrito aos tradicionais espanhóis e a herança barroca do antigo alaúde. Dedicados a Segóvia, que passou a tocá-los (entre outras obras do maestro) no mundo inteiro, Os “12 estudos”, compostos entre 1924 e 1929, transformaram-se numa espécie de ‘Bíblia’ dos violonistas modernos, destacando-se por sua dificuldade, beleza, desafio, e brasilidade.

Em 1944 aceitou o convite do maestro Werner Jansen e iniciou uma turnê pelos Estados Unidos. No ano seguinte retornou ao Brasil e fundou a Academia Brasileira de Música, da qual foi eleito presidente. Em seguida empreendeu uma série de viagens pela américas, Europa e Israel, dirigiu concertos e gravou boa parte de sua obra. Em 1948 fez uma operação extirpando o câncer e casou-se com sua ex-aluna Arminda, que ficou encarregada de divulgar sua monumental obra, após sua morte em 17/11/1959. No dia seguinte o jornal “New York Times” dedicou-lhe um editorial na forma de necrológio e ano seguinte, o governo brasileiro criou o Museu Villa-Lobos no Rio de Janeiro. O maestro recebeu muitas homenagens em vida e mais ainda após sua morte, dando nomes a inúmeros logradouros e instituições. Foi retratado em diversas biografias e obras da musicologia: “Villa-Lobos, uma interpretação” (1961) do crítico Andrade Muricy; “Villa-Lobos, o homem e a obra”, uma alentada biografia traduzida em diversas línguas, do musicólogo Vasco Mariz; “Heitor Villa-Lobos: the life and works, 1887–1959”, do musicólogo finlandês Eero Tarasti.

Foi retratado também em filmes: “Bachianas Brasileiras: meu nome É Villa-Lobos” (1979), “O Mandarim”(1995) e “Villa-Lobos: uma vida de paixão” (2000). Em 1986 teve sua efígie impressa nas cédulas de quinhentos cruzados. No cinquentenário de seu falecimento (2009) foi organizado o “Seminário Internacional – Villa Lobos”, no MASP, com duração de 5 dias, onde foram apresentadas palestras, mesas redonda, avaliações, concertos etc. sobre o maestro. Foi um homem que tinha plena consciência de sua importância no cenário cultural do País, reveladas em frases como: “Eu não uso o folclore, eu sou o folclore” ou “Eu não estou aqui pra aprender, mas sim para mostrar o que eu até então construí”. Pouco antes falecer lamentou-se com um amigo: “É triste a gente morrer, ter alguns dias de vida e séculos de música na cabeça! Você sabe que eu tenho séculos de musica na minha cabeça?”.

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