JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Cecília Meireles

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7/11/1901, no Rio de Janeiro. Jornalista, professora, pintora e essencialmente poeta. Foi a primeira mulher a se destacar na literatura brasileira. Orfã de pai e mãe, foi criada pela avó materna e após o curso primário na Escola Estácio de Sá, recebeu de Olavo Bilac uma medalha de ouro por ter feito o curso com “distinção e louvor”. Era uma criança bonita de olhos azuis-esverdeados. Passou a infância muito sozinha, pois a avó cuidava para que não fosse brincar na rua. A solidão e o silêncio, segundo ela mesma, foram positivos para sua carreira de poeta.

Em 1917 formou-se professora na Escola Normal do Distrito Federal, e passou a exercer o magistério nas escolas oficias do Rio Janeiro. Aos 18 anos publicou seu primeiro livro com 17 sonetos: Espectros e foi influenciada pelo Movimento Simbolista. Nesta época participou da “Revista Festa”, de um grupo católico, conservador. Vem daí sua visão espiritualista presente em suas obras. Casou-se em 1922 com o artista plástico português Fernando Correia Dias, um dos introdutores de uma nova estética no modernismo português, com quem teve três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda, que se tornou uma famosa atriz de telenovela. Mais tarde, numa viagem à Portugal, o marido apresentou-a à alguns intelectuais e artistas e ela se interessou em conhecer pessoalmente o poeta Fernando Pessoa. Marcaram local e hora do encontro, mas o poeta não compareceu alegando num bilhete que, consultando seu horóscopo, viu que aquele dia não era bom para um encontro de dois poetas. Pediu desculpas no bilhete e deixou-lhe um exemplar autografado de seu livro Mensagem.

A vida do casal não foi fácil devido aos preconceitos da época, que prejudicaram o artista plástico e a professora, que mantinha uma coluna no Diário de Notícias sobre educação. No inicio de 1922, quando ocorria a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, com a qual não teve contato, escreveu poemas para um novo livro publicado no ano seguinte: Nunca mais… Poema dos poemas, com ilustrações do marido. Preocupada com a qualidade do ensino e a escassez de livros didáticos, escreveu um livro para escolas primárias, e publicou-o em 1924: Criança, Meu Amor. O livrinho foi adotado pela Diretoria Geral da Instrução Pública do Distrito Federal, dirigido por Anísio Teixeira, e aprovado pelo Conselho Superior de Ensino dos estados de Minas Gerais e Pernambuco, onde o livro foi amplamente divulgado.

Em 1925 publicou Baladas para El Rei contendo poemas, que os críticos caracterizaram como representante do “simbolismo-tardio” e outros como O espírito vitorioso (1929), Saudação à menina de Portugal (1930), Batuque, samba e macumba (1933), enquanto lecionava. Seu apego a educação e a literatura infantil motivou-a a fundar, em 1934 a primeira biblioteca infantil do Brasil. Dois anos após, seu marido, sofrendo de forte depressão, cometeu suicídio, fazendo com que ela passasse um período sem escrever e dedicando-se apenas ao magistério. Em 1936 foi nomeada para a recém fundada Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ). Passado o período de luto, publicou, em 1939, o livro Viagem, considerado um marco de maturidade e individualidade em sua obra, com o qual recebeu o Prêmio de Poesia Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras.

Em 1940 realizou uma viagem pela Europa e EUA, onde lecionou literatura e cultura brasileira na Universidade do Texas e Lisboa, e proferiu uma série de conferências sobre estes temas. Essa retomada da vida culminou com o segundo casamento com o engenheiro Heitor Gillo. Em 1942, tornou-se sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, e empreendeu viagens pela Ásia e África sempre proferindo conferências sobre literatura, educação e folclore brasileiro. Em seguida dedicou-se a várias viagens aos Estados Unidos, Europa, Ásia e África; sempre proferindo conferências sobre Literatura, Educação e Folclore.

Em 1953, lançou sua coletânea de poemas mais conhecida, Romanceiro da Inconfidência, uma obra em que, segundo os críticos, Tiradentes surge “como um avatar de Cristo e sofrendo o sacrifício do bode expiatório, ele se torna num redentor do Brasil, que abriria a nova era da liberdade”. A obra “construiu um mosaico em que se cristalizaram vibrações captadas na terceira margem da memória coletiva” creditando à poeta a “consolidação de uma teia de mitos suscetíveis de fortalecer o sentimento da identidade nacional”. Mais tarde, a obra serviu como base para o filme Os inconfidentes (1972), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Sua poesia é caracterizada por imagens sugestivas, sobretudo as de forte apelo sensorial, reflexiva, de fundo filosófico. Isto pode ser visto, digo, ouvido nos poemas “Canteiros” e “Motivo”, musicados pelo cantor Fagner.

Além de poesia, escreveu também em prosa, dedicando-se a assuntos pedagógicos e folclóricos. Produziu também prosa lírica, com temas versando sobre sua infância, suas viagens e crônicas circunstanciais. Algumas de suas obras em prosa: Giroflê, Giroflá (1956), Escolha seu Sonho (1964), seu último livro. Faleceu em 9/11/1964 e deixou muitos livros na gaveta, os quais foram publicados postumamente: O menino atrasado (1966), Flor de Poemas (1972), Flores e Canções (1979), sem contar as obras completas: Poesias Completas (1973), Obra em Prosa (1998 em 6 Volumes), Crônicas de educação (2001 em 5 volumes) e Poesia Completa, edição do centenário (2001 em 2 volumes), organizada por Antônio Carlos Secchin. No ano seguinte ao seu falecimento, recebeu uma homenagem póstuma da Academia Brasileira de Letras: o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, num total de 54 livros.

Em 1989 foi homenageada pelo Banco Central do Brasil, tendo seu retrato estampado na cédula de cem cruzados novos. A fragilidade da moeda brasileira aposentou a cédula, mas seu nome continua denominando escolas, bibliotecas e logradouros públicos no Brasil e no exterior, como nas Ilhas dos Açores, numa escola da freguesia de Fajã de Cima, ou numa biblioteca de Valparaiso, no Chile. Para aquilatar sua poesia, temos a avaliação do crítico Paulo Rónai:

“Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo… A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Marechal Rondon

Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu em 5/5/1865, em Santo Antonio de Leverger, MT. Militar, sertanista, indigenista e um dos “fundadores” do Brasil. Descendente dos índios Terena, Bororo e Guará, ficou órfão de pai e mãe bem cedo e foi criado pelo avô e um tio, em Cuiabá, a partir de 1873. Aos 16 anos foi morar no Rio de Janeiro com a finalidade de ingressar na Escola Militar. Em seguida alistou-se 3º Regimento de Artilharia a Cavalo e depois, já promovido a Alferes, entrou na recém-criada Escola Superior de Guerra, em 1888.

Ainda estudante, participou dos movimentos abolicionista e republicano e ingressou no movimento positivista através de seu professor Benjamin Constant. Bacharel em Ciências Físicas e Naturais, em 1890, foi logo promovido a segundo-tenente e, três dias depois, a primeiro-tenente por sua atuação na Proclamação da República, no instante em que o Marechal Deodoro da Fonseca foi promovido a generalíssimo e Benjamin Constant a general. No mesmo ano foi nomeado chefe do Distrito Telegráfico do Mato Grosso e designado para a Comissão de construção da linha telegráfica ligando Mato Grosso a Goiás. Tem inicio sua carreira de desbravador dos sertões, pacificador de índios e expansionista das fronteiras do Brasil através de linhas telegráficas.

Nos anos seguintes até 1907, contatou os índios bororós, tornou-se membro da Igreja Positivista, no Rio de Janeiro e foi nomeado chefe da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso e Amazonas, incumbido de construir a linha telegráfica ente Cuiabá e Porto Velho. Pouco depois fez as ligações telegráficas de Cuiabá e Corumbá com o Paraguai e Bolívia. Enquanto desbravava os sertões, nasceu sua primeira filha, Maria de Molina, no Rio de Janeiro. Mas ele só a viu 18 meses depois. Em 1910 organizou e passou a dirigir o SPI-Serviço de Proteção aos Índios, No ano seguinte pacificou os índios Botocudos, no Vale do Rio Doce, seguido pela pacificação dos índios Kaingangs, de São Paulo (1912). Neste ano foi promovido a coronel de engenharia.

De maio de 1913 a maio de 1914, realizou mais uma expedição para explorar a região amazônica, em conjunto com uma comitiva integrada pelo ex-presidente dos EUA Theodore Roosevelt. Nessa viagem, denominada “Expedição Científica Rondon-Roosevelt”, foi atingido por uma flecha envenenada dos índios Nhambiquaras. Foi salvo pela bandoleira de couro de sua espingarda e ordenou aos soldados que não reagissem e batessem em retirada. Seu trabalho com a pacificação dos índios e a criação do SPI, evitou um genocídio do índios, o que lhe valeu a indicação para o Prêmio Nobel da Paz por Albert Einstein e referendado pelo Explorer’s Club de Nova Iorque, em 1957. Serviu, também, de inspiração para a viagem que Claude Lévi Strauss realizou na Amazônia, retratada no livro Tristes Trópicos. Por essa época estava sendo construída a ferrovia Madeira-Mamoré, que, junto com o desbravamento e integração telegráfica, ajudaram a ocupar a região do atual estado de Rondônia, cujo nome é uma das justas homenagens que recebeu.

Em 1914, a Comissão Rondon construiu 372 km de linhas e mais cinco estações telegráficas: Pimenta Bueno, Presidente Hermes, Presidente Pena (depois Vila de Rondônia e atual Ji-Paraná), Jaru e Ariquemes, na área do atual estado de Rondônia. Pouco depois pacificou os índios Xokleng, de Santa Catarina e recebeu da Sociedade Geográfica Americana a “Medalha Centenário de David Livingstone” e teve seu nome gravado em ouro no Livro da entidade, como o explorador que penetrou mais profundamente em terras tropicais. Em 1919 foi nomeado Diretor de Engenharia do Exército, cargo ocupado até 1924. Três anos depois, inspecionou toda a fronteira brasileira desde as Guianas até a Argentina. É dele a expressão “Do Oiapoque ao Chuí”. Foi o mais importante registrador de etnias indígenas do Brasil, pois falava várias línguas indígenas, além de outros tradutores que levava em suas expedições.

A “Revolução de 1930”, que levou Getúlio Vargas ao poder, não recebeu seu apoio. Para evitar perseguições ao SPI, demitiu-se de sua direção e concluiu sua terceira e última inspeção das fronteiras internacionais. Nesse meio tempo foi preso em Porto Alegre pelo capitão Góes Monteiro, devido a incompatibilidades com o Governo Vargas, mas logo foi solto. Em 1938 promoveu a paz entre a Colômbia e Peru, que disputavam o território de Leticia, fincada na Amazônia, fronteira do Brasil com aqueles dois países. No ano seguinte, apaziguado com o novo governo, retomou a direção do SPI. Mais tarde manifestou apoio ao Governo Vargas: “por este conduzir a bandeira política e administrativa da Marcha para o Oeste, visando ao alargamento do povoamento do sertão”. A pacificação dos índios Xavantes foi seu último trabalho como pacificador, concluído em 1946. No ano seguinte recebeu o aporte de outro entusiasta na defesa dos índios, que o ajudou na criação de um local exclusivo e de proteção destas etnias.

Em 1947 Darcy Ribeiro ingressou no SPI e passa a ajudá-lo na criação do Parque Nacional do Xingu, em 1952. Em seguida, Darcy fundou o Museu Nacional do Índio, sob sua inspiração direta. Aos 89 anos, através de um Ato do Congresso Nacional, foi promovido a Marechal honorário do Exército. Em 1956 o Território Federal do Guaporé foi alterado para Rondônia em sua homenagem. De volta ao Rio de Janeiro, veio a falecer em 19/1/1958. São inúmeras a homenagens que lhe foram prestadas, além dos nomes de estado, cidades, bairros e logradouros públicos. 5 de maio, dia de seu nascimento, foi declarado Dia Nacional das Comunicações. Em 1967 foi criado o “Projeto Rondon” levando os estudantes universitários brasileiros a conhecer melhor os confins do Brasil, fato que veio confirmar seu caráter de desbravador do Brasil. Em 1/7/2015, seu nome foi inscrito em letras de aço no “Livro de Heróis da Pátria”. Agora há poucos dias, em maio de 2019, o jornalista norte-americano Larry Rohter, chefe do escritório do “The New York Times”, no Rio de Janeiro, de 1999 a 2007, publicou “Rondon, uma biografia”, que poderia ser intitulada como “a biografia”. São 584 páginas, onde a vida de Rondon é esmiuçada, reescrevendo seu papel de explorador brasileiro na etnografia mundial. Tem razão o dito que “santo de casa não faz milagre”. Foi preciso o olhar de um estrangeiro para revelar aos brasileiros a amplitude do legado de Rondon para o país e para os povos indígenas. Para o autor, só o racismo do Hemisfério Norte explica o fato de Rondon não figurar lado a lado com outros exploradores no panteão mundial. “Quase todos os grandes são de origem europeia ou americana, altos, brancos e louros”, conforme declarou à revista Veja em 1/5/2019.

Em seu sepultamento com honras de chefe de Estado, Darcy Ribeiro foi convidado a discursar: “Quero aqui recordar os quatro princípios de Rondon: 1º Morrer, se preciso for, matar, nunca no contato com os indígenas; 2º Respeito às tribos indígenas como povos independentes que, apesar de sua rusticidade e por motivo dela mesma, têm o direito de ser eles próprios, de viver suas vidas, de professar suas crenças e de evoluir, segundo o ritmo de que sejam capazes, sem estarem sujeitos a compulsões de qualquer ordem e em nome de quaisquer princípios; 3º Garantir aos índios a posse das terras que habitam e são necessárias à sua sobrevivência. 4º assegurar aos índios a proteção direta do Estado, não como um ato de caridade ou de favor, mas como um direito que lhes assiste por sua incapacidade de competir com a sociedade dotada de tecnologia infinitamente superior que se instalou sobre seu território. (…) Graças aos esforços de Rondon, sobrevive hoje no Brasil uma centena de milhares de índios que não existiriam sem seu amparo. Aqui estamos para dizer-vos que nada nos fará desanimar do propósito de dedicar o melhor de nossas energias para a realização dos vossos princípios. Nenhum de nós, ninguém, pode substituir-vos. Mas, talvez mil reunidos sob o patrocínio do vosso nome possam tornar menos gritante o grande vazio criado com a vossa morte”.

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AS BRASILEIRAS: Bárbara de Alencar

Bárbara Pereira de Alencar nasceu em Exu, em 11/2/1760. Bem antes de ser avó do romancista José de Alencar, foi uma destacada ativista que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Nestes embates, contou a ajuda de três de seus cinco filhos: José Martiniano de Pereira Alencar, Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves. O primeiro era padre, político e jornalista, e foi o pai do romancista José de Alencar.

Ainda adolescente, mudou-se para a vila do Crato, onde se estabeleceu e tornou-se matriarca de uma família que se notabilizou no Ceará, numa época onde a mulher se restringia a criar filhos e o patriarcado se impunha de modo rigoroso. Casou, aos 22 anos, com o comerciante português José Gonçalves dos Santos. Ela própria fez o pedido de casamento e providenciou uma fuga, diante da reprovação feita pelos pais. Tornou-se revolucionária a partir das ideias emanadas pelo Seminário de Olinda, um foco de idealistas influenciados pela Revolução Francesa, por onde passaram dois de seus filhos.

No Crato, constituiu em sua casa o núcleo do movimento revolucionário, em meados de 1815, que se organizava em Pernambuco. “Dona Bárbara sempre foi considerada a cabeça pensante. Ela tinha a política nas veias e, na articulação, era a referência do grupo”, afirma o escritor Roberto Gaspar, autor do livro Bárbara de Alencar, a Guerreira do Brasil. Quando estourou a Revolução Pernambucana, em 1817, Ela junto com seu filho José Martiniano (futuro pai do romancista), durante a missa dominical, proclamou a república tal como se fizera no Recife. As tropas da coroa portuguesa foram enviadas para conter a revolta, prenderam todos e foram enviados em lombos de jumento para Fortaleza sob o sol escaldante, e levaram um mês num percurso de 500 km.

Uma vez presa, obrigaram-na a fazer uma peregrinação pelos calabouços de Fortaleza, Recife e Salvador. Em 1821 foi libertada, mas não se intimidou nem abandonou o sonho de ver o Brasil livre do jugo português. Em 1824 o movimento revolucionário “Confederação do Equador”, liderado por Frei Caneca, no Recife se espalhou pelo Nordeste e encontrou-a junto aos filhos pronta para a nova revolta. Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves morreram em combate; José Martiniano se tornaria senador em 1832.

O sobrenome Alencar foi perseguido pelo poder constituído durante muitos anos após a Confederação do Equador. Algumas pessoas com este sobrenome, mesmo sem participação na vida política, acabaram virando mártires. Conta-se que pelo menos 13 parentes, por consanguinidade e afinidade, foram assassinadas. Quando seu filho José Martiniano foi eleito Senador do Império, em 1832, Dom Pedro II vetou seu nome. Mesmo já tendo sido Ministro da Justiça, o Imperador temia o sangue revolucionário que corria nas veias da Família Alencar.

Desse modo, ela tornou-se a primeira revolucionária e primeira presa politica da História do Brasil. Não deixa de ser paradoxal o fato de até hoje, quando o feminismo avança no País, pouco se divulga seus feitos como heroína da História brasileira. Falecida em 18/8/1832, apenas no Ceará seu nome é reconhecido e ainda lembrado no imaginário popular. Luiz Gonzaga, também nascido em Exu, nos seus shows na região do Cariri, gostava de saudar “Dona Bárbara de Alencar”. A cela, onde ela ficou encarcerada, na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, no centro da cidade, ainda é muito visitada por estudantes e turistas

O escritor Gylmar Chaves, que pesquisa sua vida há 15 anos e pretende lançar sua biografia romanceada, diz que não encontrou menção alguma do seu famoso neto, José de Alencar, à sua avó. Isto se deve, talvez, ao fato dele ter se tornado um defensor do regime monárquico durante o período de D. Pedro II. Não obstante o “esquecimento” do neto, seu nome vem sendo lembrado e comemorado até hoje. A partir de 11 de fevereiro de 2005, O Centro Cultural que leva seu nome outorga à três mulheres a “Medalha Bárbara de Alencar”, uma respeitável condecoração. O Centro Administrativo do Governo do Ceará é batizado com seu nome. Uma estátua da heroína foi erguida na Praça Medianeira, em Fortaleza.

Em 1980, o poeta Caetano Ximenes de Aragão lançou o livro-poema Romanceiro de Bárbara, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Sua biografia, “Bárbara de Alencar”, escrita por Ariadne Araújo, foi lançada em 2002 pela Edições Demócrito Rocha e encontra-se na 3ª edição. Seu nome passou a denominar alguns logradouros em Fortaleza; seu túmulo ainda está em processo de tombamento; e seu reconhecimento como heroína nacional ocorreu agora há pouco, em 22 de dezembro de 2014, pela Lei 13.056, com o nome inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria, em Brasília. Só está faltando os historiadores se darem conta de sua importância na História do Brasil e passarem a incluir seu nome nos manuais didáticos de história.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Paulo Vanzolini

Paulo Emílio Vanzolini nasceu em São Paulo, em 25/4/1924. Cientista (zoólogo) e compositor (sambista) dos mais renomados nas duas áreas. Uma combinação peculiar, inusitada e, talvez, única no mundo, se considerarmos o talento e suas contribuições em tão distintas atividades. Seu nome consta em 15 denominações científicas de répteis e anfíbios. Compôs clássicos da música popular brasileira, como Ronda, Volta por cima, Juízo final, Praça Clóvis, Na boca da noite entre outras. Nunca gostou de ir à escola e já confessou que em toda sua vida de estudante “para ser mais sincero, nos quatro anos de primário, cinco de ginásio, dois de pré-médico, seis de medicina e três de Harvard, nunca assisti às aulas com gosto”. Já pensou, se gostasse!

Mesmo assim, impulsionado pelos subornos com presentes dados pelo pai, o engenheiro e professor da Escola Politécnica da USP, Carlos Alberto Vanzolini, concluiu o curso primário no Colégio Rio Branco e o ginásio em escola pública. Se entrasse aí com uma boa colocação, ganharia uma bicicleta. Ganhou e, aos 10 anos, no primeiro passeio, foi até o Instituto Butantan. Ficou apaixonado pelos bichos e alí decidiu o que queria ser quando crescesse. Aos 14 anos, conseguiu um estágio no Instituto Biológico e deu início a profissão de zoólogo. Não queria ser médico, mas o amigo de seu pai, André Dreyfus, criador da genética no Brasil, disse-lhe: “Olhe, se você quiser fazer zoologia de vertebrados, vá para a Faculdade de Medicina onde vai estudar anatomia, histologia, embriologia e fisiologia num curso básico de primeiro nível. O resto você rola com a barriga”.

Em 1942 ingressou na Faculdade de Medicina da USP. Na mesma época sua vida tomou um caminho que não indicava, de modo algum, o futuro cientista. Passou a frequentar as rodas boêmias com os amigos universitários e compor os primeiros sambas. Dois anos após, deixou a casa dos pais, mudou-se para um apartamento no Prédio Martinelli e foi trabalhar com o primo, Henrique Lobo, na Rádio América, num programa comandado por Cacilda Becker. Pouco depois foi convocado para o Exército, interrompeu os estudos, retomou o curso de medicina após dois anos, foi lecionar no Colégio Bandeirantes e começou a trabalhar no Museu de Zoologia. Como se vê, o artista surgiu primeiro que o cientista, que tomou um impulso logo em seguida. Em 1947 foi diplomado médico e, no ano seguinte, casou-se com Ilse, secretária da Reitoria da USP. Mais um ano e o casal embarca para os EUA, onde concluiu o doutorado em Zoologia pela Universidade de Harvard.

Uma vez pronto o cientista, é hora de dar vazão ao artista. Começando pela poesia e por insistência do amigo Geraldo Vidigal, publicou o livro Lira de Paulo Vanzolini, em 1951, pelo Clube de Poesia, reduto boêmio e literário de São Paulo. No mesmo ano compôs o samba-canção Ronda, considerado sua obra-prima musical, que veio a ser gravada, por acaso, em 1953, por Inezita Barroso. Ele e a esposa eram amigos da cantora e acompanharam-na até a o estúdio da RCA Vitor, para realizar sua primeira gravação: “Marvada pinga”. Como ela não tinha escolhido outra música para o lado B do disco de 78 rpm, optou por Ronda naquele instante. O estrondoso sucesso do lado A deixou a samba-canção na penumbra e só veio a ficar conhecido, de fato, e fazer sucesso anos depois na voz da cantora Márcia. Em 1953 foi trabalhar na TV Record, produzindo programas musicais, como o de Araci de Almeida. Fez amizade com muitos cantores e compositores, entre eles Adoniran Barbosa, bom de papo e copo. Os dois planejaram uma parceria musical que nunca aconteceu. Quase sempre compunha sozinho, mas chegou a formar parceria com Toquinho em meados dos anos 1960, pouco antes dele se juntar a Vinicius de Moraes. Frequentador assíduo da casa dos Buarque de Holanda, quando esta família residia no bairro de Pinheiros, foi um dos primeiros a conhecer o compositor Chico Buarque ainda jovem, quando compôs Pedro Pedreiro. Ouviu o samba, observou a letra e exclamou, dirigindo-se à Sergio, seu pai: “Esse menino é um gênio!”.

Em 1963 foi nomeado diretor do Museu de Zoologia e lançou outro grande sucesso: Volta por cima, gravado por Noite Ilustrada. A música já era conhecida nas boates paulistanas como “o samba do Vanzolini”. Ficou tão conhecida e caiu no gosto do público de tal modo, que a expressão “dar a volta por cima” passou a ser utilizada por todos como “superar uma situação difícil”. Em fins de 1967, Luís Carlos Paraná, compositor e dono da boate “Jogral”, e Marcus Pereira, publicitário e depois dono de uma gravadora, resolveram produzir seu primeiro LP com suas músicas inéditas, conhecidas apenas pelos amigos: “Paulo Vanzolini: onze sambas e uma capoeira”, interpretadas por diversos cantores, entre os quais Chico Buarque. “Jogral” era um celeiro de sambistas em São Paulo, tendo lançado grandes nomes, como Jorge Ben e Martinho da Vila. Como se não bastasse, foi também cantor. Em 1981, o Estúdio Eldorado lançou o LP “Paulo Vanzolini por ele mesmo”

Até aqui tudo bem, mas cadê o cientista? Bem, não é à toa que seu nome denomina 15 espécies de bichos. Ralou bastante para merecer tais homenagens. Além disso, ajudou na criação da FAPESP-Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, em 1962, na condição de membro do Conselho Superior. Enquanto diretor do Museu de Zoologia, aumentou a coleção de répteis de 1,2 mil para 230 mil exemplares. Em termos científicos p.p. dito, adaptou a “Teoria dos Refúgios” a partir de um trabalho em conjunto com o prof. Aziz Ab’Saber e com o norte-americano Ernest Williams. “Refúgio” foi o nome dado ao fenômeno detectado nas suas expedições pela Amazônia, quando o clima chega ao extremo de liquidar com uma formação vegetal, reduzindo-a a pequenas porções. Assim formam-se espaços vazios no meio da mata fechada. Quando se aposentou em 1993, continuou trabalhando no Museu de Zoologia até pouco antes de falecer. Recusou-se a deixar o trabalho: “É a única coisa de que gosto, a única coisa que sei fazer”. Só parou em 28/4/2013, quando veio a falecer.

As “Escolas de Samba” foram as primeiras a homenageá-lo ainda em vida. A “Mocidade Independente de Padre Miguel” desfilou em 1985 com o tema “Ziriguidum 2001, um carnaval nas estrelas” sobre um imaginário corso de sambistas no espaço sideral, e Vanzolini estava lá. Foi enredo da “Mocidade Alegre”, em 1988, onde foi exaltada sua dupla personalidade de cientista e poeta do samba. Em 2005, foi a vez da “Vai-Vai”, com o enredo “Eu também sou imortal” discorrendo sobre sua atuação no samba e na boêmia de São Paulo. Em 2013, quando soube de seu falecimento, a “Mocidade Alegre”, anunciou seu enredo para o carnaval de 2014, com um tema referente aos 90 anos do boêmio paulista. Foi premiado pela Fundação Guggenheim, em Nova Iorque (2008); condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e promovido a Grande Oficial da Ordem do Ipiranga (2010). Em março de 2013, recebeu o Prêmio APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo conjunto da obra. Sua vida foi retratada no cinema em três documentários, dirigidos por Ricardo Dias. Dois sobre o zoólogo e um sobre o sambista: Um homem de moral, lançado em 2009 no 13º Cine Pernambuco.

No seu legado encontram-se, também, uma valiosa contribuição à ciência no livro An annoted bibliography of the land and fresh-water reptiles of South America (1758-1975), em dois volumes, lançado em 1975-77 pelo Museu de Zoologia. Outro legado substancial foi a doação de sua biblioteca com mais de 25 mil livros ao Museu, em 2008. Uma de suas últimas aparições no palco, se deu no Rio de Janeiro em 2003, quando foi lançada sua antologia de 52 sambas numa caixa com quatro CD’s: “Acerto de contas”. As músicas tiveram como intérpretes quase todos seus amigos mais próximos: Paulinho da Viola, Chico Buarque, Elton Medeiros, Carlinhos Vergueiro etc. Na ocasião, seu amigo Ricardo Cravo Albin, elaborou uma série de quatro programas radiofônicos, transmitidos pela Rádio MEC para todo o Brasil, além de uma longa entrevista. Numa de suas últimas entrevistas, foi-lhe perguntado que conselho daria aos novos cientistas. Sua resposta foi concisa: “O primeiro conselho é que não sigam os conselhos de ninguém e que se apliquem e façam bem feito e com amor o seu serviço”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Eufrásia Teixeira Leite

Eufrásia Teixeira Leite nasceu em Vassouras, RJ, em 1850. Investidora financeira, filantropa e feminista quando nem se cogitava o surgimento dessa palavra. Filha caçula de Joaquim José Teixeira e Ana Esméria Correia e Castro, neta paterna do Barão de Itambé, neta materna do Barão de Campo Belo, sobrinha do Barão de Vassouras e sobrinha-neta do Barão de Aiuroca. Estudou na escola de moças de Madame Grivet, em Vassouras e, além do ensino básico, aprendeu boas maneiras, falar o francês e a tocar piano. Digna representante da aristocracia brasileira do Segundo Império.

Com a morte dos pais, em 1872, ela e sua irmã passaram a administrar a herança, uma fortuna de 767:937$876 réis (767 contos, novecentos e trinta e sete mil, oitocentos e setenta e seis réis). Na época equivalia a 5% das exportações brasileiras e dava para comprar 1.850 quilos de ouro. No ano seguinte, com a morte da avó, a baronesa de Campo Belo, foram acrescidos mais 106:848$886 (106 contos, oitocentos e quarenta e oito mil e oitocentos e oitenta e seis réis) na forma de títulos e escravos, que logo foram vendidos. Era grande amiga da Princesa Isabel e não queria saber de escravos em suas propriedades. A irmã faleceu em 1899 e ela teve que administrar o patrimônio sozinha.

Antes disso, a cultura do café em Vassouras entrou em crise, devido ao esgotamento do solo, mas os bens das irmãs não se restringiam as fazendas de café. As irmãs possuíam apólices de títulos da dívida pública, ações do Banco do Brasil, depósitos bancários, títulos de crédito de pessoas, uma casa no Rio de Janeiro e uma grande propriedade urbana em Vassouras, atualmente conhecida como Chácara da Hera. Jovens e solteiras, venderam as ações, os títulos e a casa do Rio de Janeiro, cobraram créditos, alforriaram os escravos, fecharam a casa da chácara, deixando dois empregados incumbidos de sua conservação, e partiram, em 1873, para residir em Paris.

Na viagem, conheceu no navio o diplomata Joaquim Nabuco e iniciaram um namoro que durou 14 anos. Não progrediu devido, talvez, ao fato dele não aceitar a total independência de uma mulher numa época excessivamente patriarcal. Mas ela deixou marcas indeléveis em seu coração. Uma de suas frases, que deixou à posteridade: “O coração após certo momento da vida é qual palimpsesto; nada se pode escrever nele sem primeiro raspar o texto da época anterior” certamente refere-se àquele namoro. Foi a história de um grande amor, tendo a maior parte passada na Europa e nas cartas trocadas. Conta-se que as cartas que recebeu dele foram enterradas junto com ela em seu túmulo. Já as que ela enviou, estão guardadas no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Dois anos após a última carta, em 1889, ele se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro. Ela jamais se casou.

Em Paris, instalou-se num “hotel particulier”, próximo ao Arco do Triunfo e passou a conviver com elite social parisiense, integrando o círculo das amizades próximas a Princesa Isabel. Herdou o espírito empresarial da família e era dotada de um apurado talento na área financeira. Em pouco tempo multiplicou seu capital no mercado financeiro. Comprou ações das empresas que produziam as novas tecnologias da segunda Revolução Industrial, como indústrias extrativistas e de transformação, companhias ferroviárias, bancos etc. Dizem que foi a primeira mulher a entrar na Bolsa de Valores de Paris. No Brasil comprou ações do Banco do Brasil, Banco do Comércio e Indústria de São Paulo, Banco Mercantil do Rio de Janeiro, Companhia América Fabril, Companhia de Fiação e Tecidos Aliança, Companhia Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, Companhia Antártica Paulista, Viação Fluminense, Companhia Docas de Santos e das primeiras companhias ferroviárias que se instalavam aqui. Entre 1874 e 1928 veio somente duas vezes ao Brasil

Retornou definitivamente, aos 78 anos, e passou a viver reclusa na Chácara da Hera. Sua reclusão ficou acentuada quando comprou a chácara do Dr. Calvet, ao lado da sua, apenas para manter-se longe dos vizinhos. Viveu seus últimos anos no Rio de Janeiro, num apartamento em Copacabana, cercada de empregados fiéis, excêntrica e solitária, onde faleceu em 1930. Sem descendentes nem ascendentes, seu primeiro testamento legava toda a fortuna para o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, que mantinha diversos estabelecimentos escolares no Brasil, e Santa Casa de Misericórdia de Vassouras. Um segundo testamento, feito às vésperas de sua morte, legou praticamente toda sua fortuna para obras de caridade, a serem realizadas por instituições da cidade de Vassouras.

Após uma grande disputa judicial movida pela família alegando uma suposta insanidade física e mental, o processo seguiu até 1937, quando um decreto presidencial – determinando que seriam herdeiros apenas os parentes colaterais até segundo grau – impediu parte dos herdeiros deserdados de terem acesso àquela fortuna. Em agosto do mesmo ano, os herdeiros deserdados tentaram reabrir o processo judicial de impugnação do testamento, o que veio a causar um tumulto na cidade. A população de Vassouras revoltou-se, fechou o comércio, cercou o fórum durante as audiências e ameaçou os advogados. O juiz chamou a polícia, mas o delegado disse que os policiais tinham saído da cidade. Os advogados tiveram que fugir pelos fundos do fórum. Assim, os principais beneficiários da herança foram a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras e o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração entre outras instituições. Valores menores foram legados para a Fundação Osvaldo Cruz, alguns primos e empregados domésticos. Dinheiro em espécie foi destinado aos pobres e mendigos da cidade.

O testamento tem várias exigências que vieram prejudicar sua finalidade, devido a fatos posteriores imprevisíveis. Todos os bens foram legados sob cláusulas de inalienabilidade e da insubrogabilidade que deviam protegê-los. Os valores obtidos com as vendas das ações foram aplicados em apólices do Tesouro Nacional, cujos juros deveriam financiar as instituições criadas. Entretanto, a hiperinflação brasileira destruiu o valor original das apólices do Tesouro. Como resultado, a Santa Casa e o Hospital Eufrásia Teixeira Leite passaram e ainda passam por séria crise financeira. Uma das cláusulas do testamento estabelece “conservar a Chácara da Hera com tudo que nela existisse no mesmo estado de conservação, não podendo ocupar ou permitir que fosse ocupada por outros”.

Devido a esta cláusula, a residência foi preservada, tornando-se hoje o “Museu Casa da Hera”, considerado o melhor exemplo preservado de habitação urbana de famílias ricas do vale do Paraíba do Sul no século XIX. O museu encontra-se aberto ao público e constitui-se num dos principais pontos turísticos da cidade. Em 2010 a história dessa mulher foi contada na forma de um romance escrito por Claudia Lage; Mundos de Eufrásia, publicado pela Record. Ainda não li o romance, mas creio que sua vida se encontra entre aquelas onde a realidade supera a ficção. Mais tarde, Ana Maria Machado publicou seu décimo romance enfocando o relacionamento de Eufrásia com Joaquim Nabuco: Um mapa todo seu (2015). Assim, fica constatado que a vida da “Dama dos diamantes negros” não cabe numa simples biografia.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Joaquim Nabuco

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no Recife, em 19/8/1849. Advogado, político, orador, memorialista e diplomata reconhecido como um dos maiores homens públicos do Brasil. Liderou a campanha Abolicionista, tendo nascido e criado no meio da aristocracia escravista. Viveu até os oito anos, com a madrinha no engenho Massangana. Em seguida mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Pedro II. Em 1865, foi morar em São Paulo, onde fez os três primeiros anos do curso de Direito e concluiu no Recife, em 1870. Foi colega de Castro Alves, que lhe incutiu as bases de seu caráter literário e abolicionista. Aos 20 anos, ainda estudante, assumiu o caso de um escravo acusado de assassinato, defendendo-o perante o tribunal do júri de Recife.

Em 1873, durante uma viagem à Europa, manteve um relacionamento amoroso com a investidora financeira e filantropa Eufrásia Teixeira Leite, detentora de uma das maiores fortunas do mundo na época. Ela herdou, em 1872, uma fortuna equivalente a 5% do valor das exportações brasileiras. O romance durou até 1887 e dois anos depois, aos 38 anos, casou-se com Evelina Torres Soares Ribeiro. Foi adido de primeira classe na Embaixada de Londres e depois em Washington, de 1876 a 1879. Como era filho do Senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo, estava destinado a ter uma atividade política. Porém se opunha aos interesses dos poderosos senhores de engenho, e isto dificultou sua entrada na vida política. Começou escrevendo artigos abolicionistas para diversas revistas.

Em 1878, com a volta ao poder do Partido Liberal, onde seu pai era influente, foi eleito deputado geral e lutou pela eleição direta, pela participação dos não católicos no Parlamento e, principalmente, pela abolição total da escravidão sem indenizações aos donos de escravos. Criou a Sociedade Anti-Escravidão Brasileira, escrevendo um manifesto; fundou o jornal “O Abolicionista”: e viajou pelo exterior para divulgar a causa e obter apoio. Teve o apoio imediato da Inglaterra, uma das nações que mais combatia a escravidão, que se constituía num empecilho à sua expansão industrial e comercial em todo o mundo. Porém, mesmo assim, não conseguiu demover o conservadorismo na política nacional e foi derrotado nas eleições seguintes. Foi morar em Londres, onde viveu entre 1882-1884, e escreveu O abolicionismo, livro em que aproveitou para expor suas ideias sobre a reforma agrária. Seu plano era perfeito: beneficiar os negros libertos com terras para viver e trabalhar. Se fosse implantado, hoje o Brasil estaria noutro patamar de desenvolvimento.

De volta ao Brasil foi novamente deputado, e continuou com sua campanha abolicionista escrevendo diversos livretos antiescravagistas. Noutra viagem à Londres, apresentou uma proposta na Associação de Direito Internacional e, em Roma, fez uma visita ao Papa Leão XIII, que chegou a lhe prometer uma encíclica em favor da abolição. Apesar das ideias progressistas, mantinha o ideal monarquista com receio da perda da unificação territorial, como ocorreu com a América espanhola desmembrada em 18 repúblicas. No entanto, o ideal republicano crescia a cada dia. Para defender a monarquia, apresentou, em 1885, um projeto de monarquia federativa, defendendo a descentralização do poder para dar mais autonomia às províncias. Tal estratégia visava atender os anseios republicanos sem abrir mão da monarquia. Ele não via contradição política neste posicionamento, pois admirava o sistema presidencialista dos EUA e a monarquia parlamentar inglesa. Deixou registrado seu apreço pela monarquia no livro Por que continuo a ser monarquista (1890).

Em 1888, com fim da escravidão, recebeu o título de visconde, mas recusou a comenda do governo imperial. Em seguida, com a proclamação da República, em 1889, passou a dedicar-se mais à vida de escritor memorialista. Nessa fase de espontâneo afastamento, viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo jornalismo. Frequentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia Brasileira de Letras. Ele foi o fundador da Cadeira nº 27 e secretário-geral até 1899 e de 1908 a 1910.

Nesse período publicou duas de suas obras mais importantes: Um estadista do Império (1897-1899), em 3 volumes, uma biografia de seu pai e relato da história do Brasil naquele período e Minha formação (1900), livro de memórias. Na época o Brasil ainda não tinha embaixadas em outros países; o que havia eram legações para discutir questões diplomáticas. Mas, com a República era preciso estreitar os laços com outras nações através de embaixadas. Em 1900, o Presidente Campos Sales conseguiu convencê-lo a aceitar o posto de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em missão especial em Londres, na questão do Brasil com a Inglaterra, a respeito dos limites da Guiana Inglesa. Em 1901, foi acreditado em missão ordinária, como embaixador do Brasil em Londres e, a partir de 1905, foi indicado pelo barão do Rio Branco, para assumir a primeira embaixada brasileira no exterior, em Washington, onde permaneceu até a morte. Ao lado de tantas atividades, vale acrescentar que, junto com Rui Barbosa, assumiu posição de destaque na luta pela liberdade religiosa no Brasil. Na época, a religião católica era oficial, fazendo do Brasil um Estado confessional. Ele defendia a separação entre Estado e Religião, bem como a laicidade do ensino público.

Em 1906, veio ao Rio de Janeiro para presidir a 3ª. Conferência Pan-Americana, em companhia do Secretário de Estado norte-americano Elihu Root. Ambos eram defensores do pan-americanismo, no sentido de uma ampla e efetiva aproximação continental. Foi muito prestigiado não apenas junto ao governo norte-americano, bem como ao povo e a comunidade acadêmica. Proferiu diversas palestras nas universidades sobre a cultura brasileira e foi um grande propagador dos Lusíadas, de Camões. Tais incursões na área literária lhe garantiram o grau de “doutor em letras” pela universidade de Yale. Quando faleceu, em Washington, em 17/1/1910, seu corpo foi reverenciado em solenidade excepcional, conforme fotos abaixo, e trasladado para o Brasil, no cruzador North Caroline. Do Rio de Janeiro foi transportado para o Recife, onde foi sepultado no Cemitério de Santo Amaro. As solenidades de sepultamento em Washington, Rio de Janeiro e Recife duraram em torno de um mês.

Após o falecimento, as homenagens são frequentes até agora. Em 1949 foi criada a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), vinculada ao Ministério da Educação, com o propósito de preservar seu legado histórico-cultural; na década de 1990, o Engenho Massangana, onde ele passou a infância, foi tombado pelo Patrimônio Histórico sob o nome de Parque Nacional da Abolição. Em seguida, a FUNDAJ criou em suas dependências o Centro Científico e Cultural Engenho Massangana (CCEM). Outras homenagens: na data de seu nascimento, 19 de agosto, comemora-se o Dia do historiador; a lei nº ei nº 11.946, de 15/6/2009, instituiu o ano de 2010 como “Ano Nacional Joaquim Nabuco”; em 2/6/2014, seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, pela Lei nº 12.988; em 28/9/1915, seu nome passou a designar uma das praças públicas mais importantes do Recife, onde se encontra sua estátua.

Praça Joaquim Nabuco e sua estátua frente ao Restaurante Leite, o mais antigo do Brasil

Cenas do funeral de Joaquim Nabuco em Washington, em abril de 1910:

Na primeira foto: Chegada do ataúde, numa carreta de artilharia, à Igreja de São Mateus. Na segunda: O Presidente dos EUA, William H. Taft e a Sra Taft chegando à Igreja.

Na primeira foto: Os marinheiros do North Carolina formados em frente ao Palácio Monroe. Na segunda: As representações oficiais ao saírem do Palácio Monroe, onde ficou exposto o corpo de Joaquim Nabuco.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Nise da Silveira

Nise Magalhães da Silveira nasceu em Maceió, AL, em 15/2/1905. Médica psiquiatra e revolucionária dos métodos de tratamento de doenças mentais. Filha do professor de matemática Faustino Magalhães da Silveira e da pianista Maria Lídia da Silveira. Realizou os primeiros estudos no tradicional Colégio Santíssimo Sacramento e ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 21 anos, a única mulher entre os 157 homens de sua turma. Foi uma das primeiras mulheres médicas do Brasil.

Na faculdade, já no 1º ano, conheceu um rapaz, com quem se casou e fizeram um acordo de não ter filhos, para poderem se dedicar exclusivamente a medicina. Ele, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, paralela a carreira de médico, publicava artigos, ressaltando as relações entre pobreza, desigualdade, promoção da saúde e prevenção da doença no Brasil. Após a formatura, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho. Em 1933, no fim da especialização em psiquiatria, estagiou na clínica do Prof. Antonio Austregésilo, pioneiro no estudo da neurologia no Brasil. Em seguida foi aprovada num concurso público e foi trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia do Hospital da Praia Vermelha. Durante essa época, manteve contatos com a elite intelectual carioca e ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro, onde encontrou a amiga Rachel de Queiroz, junto com quem assinou o “Manifesto dos trabalhadores intelectuais ao povo brasileiro”.

A militância no Partidão durou pouco e acabou sendo expulsa, sob a acusação de ser “trotskista”. Durante a “Intentona Comunista” (1935), foi delatada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas e ficou presa por 18 meses no presídio Frei Caneca. Ali dividiu cela com Olga Benário e se encontrava preso o escritor Graciliano Ramos, que deixou relatado o encontro no seu livro Memórias do cárcere: “Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento”.

Ao sair da prisão, ficou na semiclandestinidade e afastada do serviço por razões políticas até 1944. Aproveitou esse período para conhecer o filósofo Spinoza, que lhe rendeu mais tarde a publicação do livro “Cartas a Spinoza” (1995). Retomou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II sempre discordando das técnicas agressivas aplicadas aos pacientes. Tais discordâncias levaram a sua transferência para o trabalho de “terapia ocupacional”, menosprezado pelos médicos. Desse modo, ela fundou uma seção dedicada a esta atividade. No lugar das tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela criou ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.

Esta experiência possibilitou um vôo maior: em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abriam novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico. Entre outros artistas-pacientes, encontramos Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emydio de Barros e Octávio Inácio entre outros. Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme “Imagens do Inconsciente”, mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por ela. O sucesso dessa iniciativa levou-a a criação de outro projeto revolucionário: fundou a “Casa das Palmeiras”, uma clínica voltada à reabilitação de antigos internos de instituições psiquiátricas. Este projeto constituiu-se no alicerce do movimento contra os hospícios, que chegaria ao seu ápice com a Lei Antimanicomial, de 2001.

Foi pioneira também no emprego de animais em auxílio aos pacientes, prática hoje empregada em todos os tipos de doenças. Percebeu essa possibilidade de tratamento ao observar a melhoria de um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital, tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida. Chamava os animais de “co-terapeutas”. Seu interesse pela simbologia expressa nas “mandalas” desenhadas pelos pacientes, levou-a a entrar em contato com o psiquiatra Carl Gustav Jung, em 1954, iniciando uma proveitosa troca de correspondência. Assim, foi introduzida a psicologia junguiana no Brasil. Do mesmo modo, foi introduzida a psiquiatria de Nise da Silveira na Europa, estimulada por Jung. Em 1957 ela apresentou uma mostra das obras de seus pacientes – “A Arte e a Esquizofrenia” – no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Em seguida, passou a estudar no “Instituto Carl Gustav Jung” em dois períodos: 1957-58 e 1961-62, sob a supervisão de Marie-Louise von Franz, assistente de Jung.

De volta ao Brasil, montou em sua casa o “Grupo de Estudos Carl Gustav Jung”. Em 1974 se aposentou e fundou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, para garantir a permanência da instituição, ainda não integrada na estrutura do Ministério da Saúde. Carlos Drummond de Andrade deu uma força nesse sentido e publicou a crônica – A Doutoura Nise – no Jornal do Brasil, em 2/1/1975: “Não é comum ver-se um funcionário que se aposenta suscitar iniciativa desta ordem para preservar-lhe as realizações no serviço público. Deve ser mesmo caso único. Para se justificarem como entidade, os amigos do Museu, que são os amigos de Nise, precisam ficar atentos e ativos, não deixando que tal instituição seja roída pela indiferença burocrática”. Ferreira Gullar foi outro admirador e, na condição de crítico de arte, ficou emocionado quando conheceu o “Museu”. Adorava seu caráter rebelde e publicou seu perfil – Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde -, em 1996. Foi amiga também de Mario Pedrosa, outro crítico de arte e dizia: “Tive excelentes aliados na literatura e na imprensa. No entanto, poucos médicos foram meus aliados”. Ledora voraz de Machado de Assis, gostava de lembrar sua frase no conto O Alienista: “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, para emendar outra de sua lavra: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”

Seu trabalho inspirou a criação de instituições similares em outros estados e no exterior: Museu Bispo do Rosário (RJ), Centro de Estudos Nise da Silveira (Juiz de Fora, MG), Espaço Nise da Silveira, do Núcleo de Atenção Psicossocial (Recife, PE), Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira, do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, RS), Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira (Salvador, BA), Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, da Universidade do Porto (Portugal), Association Nise da Silveira – Images de l’Inconscient (Paris), Museattivo Claudio Costa (Genova, Itália). Societé Internationale de Psychopathologie de l’Expression (Paris). O psicólogo Gonzaga Leal conta que ela gostaria de passar seus últimos dias num mosteiro. “Ela dizia sempre que queria morrer como um gato, que se recolhe e morre sozinho.”. De fato, seu último livro foi “Gatos: a emoção de lidar”, publicado em 1998. Pouco depois veio a falecer em 30/10/1999. Foi homenageada em vida por diversas entidades: “Oficial da Ordem do Rio Branco”, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987); “Prêmio Personalidade do Ano de 1992″, da Associação Brasileira de Críticos de Arte; “Ordem Nacional do Mérito Educativo”, pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993) entre outras. Em 2014, Luiz Carlos Mello, curador do Museu do Museu de Imagens do Inconsciente, publicou uma alentada biografia Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Mazzaropi

Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo, em 9/4/1912. Ator, cineasta e o empresário mais bem sucedido do cinema brasileiro. Durante três décadas foi considerado o maior cômico do cinema nacional no papel de Jeca Tatu. Vale ressaltar a transformação que ele realizou no personagem criado por Monteiro Lobato em sua obra-prima Urupês (1918). Trata-se de um caipira, ignorante e preguiçoso, cuja história foi parar nas páginas do “Almanaque Biotônico Fontoura”, em 1924. É uma peça publicitária que recomenda a ingestão do milagroso remédio para não se tornar um “Jeca Tatu”.

No conto de Lobato, o personagem é um ser desprezível, dependente e sem qualquer qualidade, que o autor chega a compará-lo a um cogumelo que nasce em paus podres. Desse modo, Lobato criou sem querer um preconceito em relação ao caipira, que perdurou por muito tempo. A transposição da história para o Almanaque consolidou o preconceito de forma definitiva, abrangendo todo o País. O livrinho era distribuído em farmácias e atingiu uma tiragem de 120 mil exemplares. Em alguns lugares mais remotos era a única opção de leitura e muita gente aprendeu a ler com esta publicação. Aos poucos o caipira foi assimilado como fraco, burro, preguiçoso e até antissocial. Certamente, não era essa a intenção do autor. Sua finalidade, com essa criação, foi tirar o caboclo da situação de penúria em que se encontrava; uma crítica à política governamental de abandono dirigida ao homem do campo.

Devido a popularidade do personagem em meados do século passado, Mazzaropi decidiu incorporá-lo e conseguiu a proeza de dar um novo significado ao personagem, moldando um novo caipira. Ao mesmo tempo em que satiriza sua situação, apresenta-o como um cara matreiro, sabido, dono de si e que acabava por enrolar e vencer seus detratores. Dos 33 filmes que produziu e atuou, sete têm Jeca Tatu no título. O personagem ficou grudado no ator. As relações entre o Jeca Tatu de Lobato e o de Mazzaropi já renderam algumas dissertações e teses acadêmicas. Não por acaso, tais relações incluem a mesma cidade –Taubaté– onde Lobato viveu e Mazzaropi foi morar aos dois anos e lá construiu seu império cinematográfico, a PAM Filmes. Dizem que apenas com os habitantes de Taubaté, seus filmes já pagavam os custos de produção. O que vinha do resto do País era lucro.

Filho de um imigrante italiano –Bernardo Mazzaropi- e uma portuguesa –Clara Ferreira-, a família mudou-se para Taubaté em 1914. Amácio passava longas temporadas na casa do avô materno, em Tremembé. O velho era um português tocador de viola, dançarino e animador de festas, às quais levava os netos. Aí tomou contato com a vida cultural do caipira, que incorporou mais tarde no cinema. Em 1919 retornam à capital e ele foi estudar no Colégio Amadeu Amaral, no bairro do Belém. Na escola era bom aluno, decorava e declamava poesias, e animava as festas escolares. Em 1922, com a morte do avô, voltam de novo à Taubaté. Seu pai abriu um pequeno bar e ele passou a frequentar assiduamente o circo. Os pais, tentando afastá-lo desse ambiente, mandaram-no para Curitiba para morar com um tio, onde foi trabalhar numa loja de tecidos. Aos 14 anos retornou à São Paulo e, pouco depois, ingressou na caravana do Circo La Paz. Entre uma atração e outra, ele conta causos e anedotas a troco de uma gratificação.

Em 1929, voltam a morar em Taubaté e ele passa a trabalhar como tecelão. Mas não abandona os palcos e atua nas escolas do bairro em fins de semana. Junto com a Revolução constitucionalista, de 1932, dá-se uma agitação cultural na cidade e ele estreia sua primeira peça de teatro: A herança do Padre João. Ele convence os pais a atuarem como atores e a “Troupe Mazzaropi” percorre diversas cidades do interior até 1944. Mas o ganho é pouco para manter a “companhia”. Com a morte da avó materna, recebeu uma herança e montou um barracão na capital, onde passou a exibir peças bem elogiadas pelos jornais paulistanos. No entanto, a saúde do pai complicou a situação financeira da companhia de teatro, encerrada após sua morte em 1944. Pouco depois estreou no Teatro Oberdan como ator e diretor da peça “Filho de sapateiro, sapateiro deve ser”, bem acolhida pelo público.

Em 1946, foi convidado para estrear um programa ao vivo –“Rancho Alegre”- no auditório da Rádio Tupi, dirigido por Cassiano Gabus Mendes. Em 1950 o mesmo programa inaugura a TV Tupi, tendo como coadjuvantes atores como João Restiffe e Geny Prado. Convidado por Abilio Pereira de Almeida e Franco Zampari, estreou seu primeiro filme em 1952: “Sai da frente”, produzido pela Companhia Vera Cruz, onde atuou em outros filmes sempre contando com grande sucesso de bilheteria: “Nadando em dinheiro”, “A carrocinha”, “Chico fumaça” “Chofer de praça” etc. A partir deste último filme, além de ser o protagonista, acumulou as funções de produtor, roteirista e colaborando sempre com os diretores. 1959 foi o ano da virada em sua carreira com dois fatos importantes: 1º) foi convidado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o “Boni” da TV Excelsior e depois da TV Globo, para fazer um programa que ficou no ar até 1962. 2º) começou a produzir o filme que rendeu uma das maiores bilheterias do cinema nacional: “Jeca Tatu”. Consta que o filme foi visto por um público de oito milhões.

Em 1961, com muito dinheiro, alavancou seu espírito empreendedor, comprou uma fazenda em Taubaté e construiu um estúdio cinematográfico, uma oficina de cenografia e um hotel para os atores e técnicos. Produziu seu primeiro filme em cores: “Tristeza do Jeca”, que foi também o primeiro filme exibido na TV, ganhando os prêmios de melhor ator coadjuvante (Genésio Arruda) e melhor canção (Angelino de Oliveira). Em seguida lançou mais alguns recordes de bilheteria como “O corintiano” , “O puritano da rua Augusta”, “Uma pistola para Djeca” entre outros. Todos seus filmes eram lançados em 25 de janeiro, data da fundação da cidade de São Paulo. Foi capaz de enfileirar um blockbuster atrás do outro na sua cinematografia. Seus filmes, tal como nas chanchadas, divulgava a música brasileira, muitas vezes interpretadas por ele mesmo. Não era visto como cantor, mas não cantava mal. Tanto é que quase todas suas interpretações foram reunidas e gravadas em dois LP’s: “Os grandes sucessos de Mazzaropi”, vol. 1 e 2.

Seu último filme – “Maria tomba homem” (1982) – não chegou a ser concluído por ele. Foi vitimado por um câncer na medula óssea em 13/6/1981. Deixou como legado o Museu Mazzaropi (Taubaté, SP), com mais de 20 mil itens contando a história do cinema brasileiro. Toda sua fortuna, que não era pouca, foi distribuída entre seus funcionários e os cinco filhos adotivos. Em 1990 foi inaugurada a Oficina Cultural Amácio Mazzaropi, enorme prédio localizado no Bom Retiro (SP), mantido pela Secretaria da Cultura, com uma grande variedade cursos e atividades. Em 2006 foi homenageado em grande estilo com “Tapete Vermelho”, um filme dirigido por Luiz Alberto Pereira, com Matheus Nachtergaele no papel de “Quinziho”, uma cópia fiel do próprio Mazzaropi, que fez uma promessa de levar o filho até a cidade para ver um filme antigo do comediante. Uma ótima biografia do comediante foi escrita em 2010 por Marcela Matos, lançada pela editora Desiderata: “Sai da frente!: a vida e a obra de Mazzaropi”. Em 2013 foi lançado o documentário “Mazzaropi”, dirigido por Celso Sabadin, um relato de sua vida e carreira, contando com depoimentos de grandes nomes do cinema e da TV.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Clarice Lispector

Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk, Ucrânia, em 10/12/1920. Escritora e jornalista, veio para o Brasil com pouco mais de um ano e se dizia pernambucana. “Na Ucrânia nunca botei os pés, só andei no colo” . Aos sete anos já era uma leitora habitual; aos oito foi ao Teatro pela primeira vez e ficou encantada com a encenação. Escreveu uma peça – Pobre menina rica – que, infelizmente, se perdeu. Aos 10 anos passou a escrever contos e se animou em enviá-los ao suplemento infantil do “Diário de Pernambuco”. Não foram publicados porque não pareciam contos infantis; não continham fadas ou piratas; referiam-se mais a sensações.

No curso primário tomou gosto pela matemática e chegou a dar aulas aos filhos dos vizinhos com dificuldades na matéria. Em 1932 entrou no Ginásio Pernambucano e no ano seguinte “tomei posse da vontade de escrever”. Nesta época, um dos livros que lhe causou impacto foi O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Tentou escrever um conto enorme, que devido ao tamanho, não chegou a ser concluído. Também lia muito, misturando tudo e escolhendo os livros pelos títulos. Lia livros de mocinhas e Dostoiévski ao mesmo tempo. Aos 8 anos sua mãe faleceu e aos 14 seu pai mudou-se com as 3 filhas para o Rio de Janeiro. Foram morar no bairro da Tijuca, onde concluiu o ginásio no Colégio Silvio Leite. Em 1937 entrou numa escola preparatória para a Faculdade de Direito e voltou a dar aulas particulares de matemática para ajudar no orçamento familiar. Em 1939 ingressou no curso de Direito ao mesmo tempo em que trabalhava num escritório de advocacia. Mas o interesse pelo Direito foi minguando enquanto aumentava o gosto pela Literatura.

Nessa época a família passou por novos perrengues com o Estado Novo, de Getúlio Vargas, o avanço da II Guerra Mundial e o antissemitismo imperando no Brasil. Clandestinamente, seu pai arrecadava fundos para os judeus na Palestina. Em maio de 1940 publicou seu primeiro conto – Triunfo – na revista “Pan”. Em agosto seu pai faleceu e ela foi morar com a família da irmã no Catete. Insatisfeita com o trabalho de escritório, passou a circular pelas redações de revistas oferecendo seus contos. Na revista “Vamos Ler!” encontrou o jornalista Raimundo Magalhães Jr., secretário do ministro da propaganda Lourival Fontes. Mostrou-lhe o texto e ele perguntou: “de quem você copiou isto?” Ao saber que ela havia escrito, decidiu publicar. Com este contato, teve acesso ao ministro e conseguiu um emprego de tradutora e repórter na Agência Nacional.

Aí conheceu Lucio Cardoso, por quem ficou enamorada, mas não foi correspondida, pois o rapaz era homossexual. Porém, a amizade progrediu e passou a integrar o círculo de jornalistas e intelectuais. Como repórter viajou pelo País e deixou textos publicados em diversas revistas e jornais. Em 1941 intensificou a publicação de matérias e contos, revelando uma tendência, onde os conflitos familiares e amorosos são realçados. O primeiro livro – Perto do coração selvagem – surgiu em 1942. O título foi sugerido por Lucio Cardoso e o crítico Álvaro Lins classificou-o como “o primeiro romance brasileiro dentro do espírito e da técnica de James Joyce e Virginia Woolf”. O livro causou certo furor no circuito literário; foi eleito o romance do ano pela Fundação Graça Aranha e suscitou comparações com Joyce, Sartre e Proust, causando estranheza na autora, que afirmou não ter lido nenhum destes autores.

Em 1943 obteve a naturalização e casou-se com o futuro diplomata Maury Gurgel Valente. No final do ano os dois formam-se em Direito, mas não foram colar grau. No ano seguinte o casal mudou-se para Belém, devido ao serviço do marido como vice-cônsul. Em julho de 1944, logo após a II Guerra Mundial, o casal foi transferido para Nápoles, onde passou a fazer trabalho comunitário junto às enfermeiras de um hospital norte-americano, auxiliando no tratamento dos feridos em guerra. Em fins de 1945 recebeu carta de Manuel Bandeira criticando sua poesia, fazendo com que ela queimasse todos seus poemas. Mais tarde Bandeira se desculpou e lamentou: “Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mostrou. Você interpretou mal as minhas palavras […] Faça versos, Clarice, e se lembre de mim”. Em 1946, foi publicado “O Lustre” e ela passou três meses no Rio de Janeiro para rever amigos e fazer outros. Conheceu Paulo Mendes Campos, com quem manteve um romance mais tarde, ao separar-se do marido.

De volta à Europa, o casal foi morar na Suíça, para onde o marido foi transferido. Enfrentando novas dificuldades de adaptação, passou a frequentar cinemas quase diariamente e a ler novos autores, como Ibsen, Theodore Dreiser, Jean Cocteau e Simone de Beauvoir. Nesse meio tempo, continua enviando contos para o jornal carioca “A manhã”. Em 1947 os dissabores com a vida diplomática e constantes mudanças levaram-na ao psicoterapeuta Uysses Girsoler. Mas o tratamento não prosseguiu devido a paixão que ele passou a sentir por ela. Em 1948 veio o primeiro filho, Pedro, e em 1953, o segundo Paulo. Ao entrar na adolescência, Pedro foi diagnosticado como esquizofrênico e abalou a estrutura familiar. Cansada da vida de eterna viajante, do ciúme do marido e querendo cuidar melhor do filho, separou-se em 1959 e voltou a morar no Rio de Janeiro com os dois filhos.

Retomou a carreira de escritora profissional com uma coluna “Correio feminino – Feira de Utilidades”, no “Correio da Manhã” sob o pseudônimo de Helen Palmer. No ano seguinte, assumiu a coluna “Só para mulheres”, do Diário da Noite, como ghost-writer da atriz Ilka Soares. Em 1966, foi dormir com um cigarro aceso e provocou um incêndio no quarto. Ficou mal durante três dias, quase teve a mão direita amputada e ficou hospitalizada por dois meses. Em 1975 participou do 1º Congresso de Bruxaria, em Cali, Colômbia, fez palestra sobre o conto “O ovo e a galinha” e foi bem recebida pelo público. Ao voltar ganhou fama como a grande bruxa da literatura brasileira. Otto Lara Resende falou: “não se trata de literatura, mas de bruxaria”. Seja o que for, o fato é que em seguida lançou mais um sucesso de crítica e público: A hora da estrela (1977), romance que veio a ser filmado.

Em fevereiro de 1977 deu uma entrevista na TV Cultura onde se apresentou de modo circunspecto, melancólica e muito séria. A conversa enveredou sobre o tema da morte e o entrevistador, sentindo o clima tenso, perguntou: “mas você não se renova a cada trabalho novo?” . A resposta exprimiu certo desencanto com vida: ““Bom, agora eu morri… Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta… Estou falando do meu túmulo”. A entrevista pode ser vista clicando aqui. Em 9/12/1977 faleceu de verdade. Mas eis que surge o milagre: poucos anos depois, ela renasce como uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira. Surgiram diversas biografias aqui e no exterior, obras póstumas, relançamentos, análises de suas obras, além de inúmeras dissertações e teses acadêmicas sobre sua obra. A Editora Rocco mantém até hoje um blog contendo toda sua obra e uma minuciosa cronologia biográfica: Editora Rocco

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Santos Dumont

Alberto Santos Dumont nasceu em 20/7/1873, em Palmira, MG, que atualmente leva seu nome. Foi aeronauta, alpinista, balonista e “Pai da Aviação”. Ainda hoje permanece a polêmica se foi ele ou os Irmãos Wrigth os inventores do avião. Com apenas um ano de idade, sua brincadeira era furar balõezinhos de borracha para ver o que tinham dentro. Oriundo de uma rica família de cafeicultores, seu pai – Henrique Dumont – era engenheiro formado em Paris e a mãe – Francisca de Paula Santos – teve oito filhos. Alberto era o sexto.

Em 1879 a família mudou-se para Ribeirão Preto (SP) e adquiriu uma fazenda de 1.200 alqueires, criou a empresa “Dumont Coffe Company” e passou a plantar, beneficiar e exportar café. Em pouco tempo tornou-se o maior estabelecimento agrícola do País. Na fazenda tinha ampla liberdade para criar engenhocas de todo tipo na oficina do pai. “Vivi ali uma vida livre, indispensável para formar o temperamento e o gosto pela aventura”. Aos sete anos guiava carroças; aos doze brincava nas locomotivas e ensaiava invenções. Ao tomar contato com as obras de Julio Verne, ficou entusiasmado. “Com o Capitão Nemo explorei as profundidade do oceano; com Fileas Fogg fiz em 80 dias a volta ao mundo…”. Era fascinado pela tecnologia: construía pequenos aeroplanos movidos por uma hélice acionada por molas de borracha torcida; nas festas juninas fazia pequenos balões e soltava sobre as fogueiras para ver sua subida aos céus.

Em 1891 viajou pela Europa com os pais e três anos depois retornou sozinho. Aperfeiçoou o inglês em Londres e na França escalou o Monte Branco, de 5.000 metros. Passou a se interessar pela mecânica, particularmente o motor de combustão interna, que estava surgindo. Viu que na França inventaram os balões a hidrogênio e que era ali onde a navegação aérea haveria de prosperar. Em 1897 mudou-se para Paris e dedica-se inteiramente à aeronáutica. Projetou, construiu e voou nos primeiros balões dirigíveis movidos à gasolina. Com isto ganhou o Prêmio Deutsche em 1901. Seu dirigível nº 6 contornou a Torre Eiffel e ele ficou famoso no mundo. Recebeu cumprimentos de altas personalidades e reportagens em diversas revistas. O presidente Campos Salles deu-lhe um prêmio em dinheiro e uma medalha com uma efígie e uma alusão a Camões: “Por céus nunca dantes navegados”; o príncipe de Mônaco fez um convite e ofereceu um hangar para suas experiências; foi convidado para viajar aos EUA, onde foi recebido pelo presidente Theodore Roosevelt. Em 1904 relatou suas experiências no livro “Dans l’air”, lançado no Brasil com o título “Os meus balões”, em 1938.

Em 23/10/1906 foi, de novo, o primeiro a decolar a bordo de um avião com motor à gasolina. Voou 60 metros a uma altura de dois a três metros com o “14 Bis” no Campo de Bagatelle, em Paris. 20 dias depois voou 220 metros a uma altura de seis metros com o “Oiseau de Proie III”, batendo o próprio recorde. Foram os primeiros voos homologados pelo Aeroclube da França. Foi a primeira demonstração pública de um veículo levantando voo sem uma rampa de lançamento. “O homem conquistou o ar!”, gritavam as pessoas em terra firme. Pela façanha, ele recebeu o prêmio de três mil francos da FAI-Federation Aeronautique Internationale. Nesta ocasião, os irmãos Wright mantinham em segredo sua invenção, apesar dos convites para que fossem demonstrá-la. Um dos motivos da recusa foi que seu avião usava uma catapulta que impulsionava o aparelho para o voo, o que estava fora dos parâmetros dos europeus.

Assim inicia a polêmica sobre quem inventou o avião. O fato é que a exigência da FIA era que o aparelho fosse mais pesado que o ar; que pudesse ser controlado por um piloto e que decolasse e pousasse sem a ajuda de nenhum outro equipamento. Os irmãos Wright alegaram que conseguiram esse feito em 1903. Eles pilotaram o “Flyer” por quase 37 metros e disseram que estavam alcançando distâncias maiores. O problema é que eles não deixavam ninguém ver esses voos, por medo de que copiassem a ideia. Tal demonstração só foi realizada em público em 1908, voando mais de 100 Km. na França. Foi nesse instante que eles mostraram a foto do primeiro voo em 1903. Porém, surge outro problema: os modelos dos irmãos Wright não atendiam a um dos critérios da FIA, que era decolar e pousar por conta própria. Eles utilizaram equipamentos como trilhos e catapultas, enquanto “14 Bis” não fez uso destes equipamentos, utilizando apenas um sistema de duas rodas. Para finalizar a polêmica, a FIA deu o crédito do invento aos irmãos Wright com o voo ocorrido em 1903 no Flyer. Mas a polêmica se mantém até hoje devido ao fato de o “14 Bis” ter uma decolagem autopropulsionada, reconhecida pelo público e jornalistas, e homologada pela FAI.

A tecnologia aeronáutica evoluiu e em 25/7/1909 Louis Blériot atravessou o Canal da Mancha num voo. Santos Dumont parabenizou-o numa carta: “Esta transformação da geografia é uma vitória da navegação aérea sobre a navegação marítima. Um dia, talvez, graças a você, o avião atravessará o Atlântico”. Recebeu como resposta: “Eu não fiz mais do que segui-lo e imitá-lo. Seu nome para os aviadores é uma bandeira. Você é o nosso líder.”. A partir daí passou a sofrer de esclerose múltipla, encerrou a carreira de inventor e afastou-se do convívio social. Outro de seus inventos foi o relógio de pulso, um recurso essencial para controlar o tempo de marcha sem desviar as mãos do comando. Outro dado, ainda menos lembrado, é sua importância na criação do Parque Nacional do Iguaçu e suas cataratas. Entre 24 e 27/4/1916 esteve lá a convite de Frederico Engel, Ao visitar o local ficou encantado com a paisagem e a queda d’água. Não se conformou com o fato daquele local ser uma propriedade privada: “Posso dizer-lhe que esta maravilha não pode continuar a pertencer a um particular”, disse ao anfitrião e na volta, “quando passei por Curityba, fui falar com o presidente do Estado [Afonso Camargo] sómente sobre o lguassú: pedir-lhe que se interesse pelo salto, o torne mais fácil e commoda a excursão… ” relatou mais tarde. Providências foram tomadas e, em 19/1/1939, um decreto do Governo Vargas criou o Parque Nacional do Iguaçu.

Em 1918 escreveu uma autobiografia e lançou o livro “O que eu vi, o que nós veremos”, relatando suas experiências e as perspectivas da tecnologia aeronáutica. Deixou registrado no livro suas cartas dirigidas ao Presidente sobre o atraso da indústria aeronáutica militar no Brasil. Porém, mais arrependeu-se dessa sugestão e apelou, em 1926, à Liga das Nações (futura ONU) para que se impedisse o uso de aviões como armas de guerra. Em 1928, de volta ao Brasil no navio Capitão Arcona, foi recebido festivamente. Um hidroavião que participava da solenidade sofreu um acidente ao sobrevoar o navio. Não restou sobreviventes entre os ilustres tripulantes. Abatido, ele suspendeu as festividades e retornou a Paris. Por essa época já apresentava um quadro de depressão profunda, que não foi atenuada nem com a condecoração que recebeu do Aeroclube de Paris como Grande Oficial da Legião de Honra da França, em 1930. No ano seguinte foi internado em casas de saúde no sul da França. Enquanto isso, a Academia Brasileira de Letras preparava-se para incorporá-lo ao seu quadro, como imortal em junho de 1931, mas não chegou a tomar posse da cadeira nº 38. De volta ao Brasil, passou alguns dias em Araxá, outros no Rio de Janeiro e instalou-se no Grand Hotel La Plage, em Guarujá, em maio de 1932. Dois meses depois estourou a Revolução Constitucionalista. Conta a história que os aviões de combate sobrevoaram o litoral paulista. Tal visão agravou seu estado depressivo, levando-o ao suicídio em 23/7/1932.

O espaço aqui não comporta todas as homenagens que recebeu, mas vale ressaltar que sete dias após o falecimento, a cidade de Palmira, onde nasceu, teve seu nome mudado para Santos Dumont. Em 1936 foi decretado o dia 23 de outubro (seu primeiro voo) como o “Dia do Aviador”. No mesmo ano o aeroporto do Rio de Janeiro foi batizado com seu nome. Em 1956 o correio do Brasil e Uruguai lançaram uma série de selos comemorativos e sua casa em Cabangu (MG) foi transformada em “Museu Casa de Santos Dumont”. Em 1959 foi condecorado como Marechal-do-Ar pelo Ministério da Aeronáutica. Em 1976 a União Astronômica Internacional deu seu nome a uma cratera lunar (27,7°N 4,8°E). A partir de 1984 passou a ser o “Patrono da Aeronáutica Brasileira”. Para finalizar esta concisa biografia e, talvez, a polêmica sobre quem inventou o avião, se foram os irmãos Wright ou Santos Dumont, o presidente dos EUA, Bill Clinton, esteve no Brasil em 13/10/1997, e discursou referindo-se a ele como o “Pai da Aviação”.