JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu em 5/5/1865, em Santo Antonio de Leverger, MT. Militar, sertanista, indigenista e um dos “fundadores” do Brasil. Descendente dos índios Terena, Bororo e Guará, ficou órfão de pai e mãe bem cedo e foi criado pelo avô e um tio, em Cuiabá, a partir de 1873. Aos 16 anos foi morar no Rio de Janeiro com a finalidade de ingressar na Escola Militar. Em seguida alistou-se 3º Regimento de Artilharia a Cavalo e depois, já promovido a Alferes, entrou na recém-criada Escola Superior de Guerra, em 1888.

Ainda estudante, participou dos movimentos abolicionista e republicano e ingressou no movimento positivista através de seu professor Benjamin Constant. Bacharel em Ciências Físicas e Naturais, em 1890, foi logo promovido a segundo-tenente e, três dias depois, a primeiro-tenente por sua atuação na Proclamação da República, no instante em que o Marechal Deodoro da Fonseca foi promovido a generalíssimo e Benjamin Constant a general. No mesmo ano foi nomeado chefe do Distrito Telegráfico do Mato Grosso e designado para a Comissão de construção da linha telegráfica ligando Mato Grosso a Goiás. Tem inicio sua carreira de desbravador dos sertões, pacificador de índios e expansionista das fronteiras do Brasil através de linhas telegráficas.

Nos anos seguintes até 1907, contatou os índios bororós, tornou-se membro da Igreja Positivista, no Rio de Janeiro e foi nomeado chefe da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso e Amazonas, incumbido de construir a linha telegráfica ente Cuiabá e Porto Velho. Pouco depois fez as ligações telegráficas de Cuiabá e Corumbá com o Paraguai e Bolívia. Enquanto desbravava os sertões, nasceu sua primeira filha, Maria de Molina, no Rio de Janeiro. Mas ele só a viu 18 meses depois. Em 1910 organizou e passou a dirigir o SPI-Serviço de Proteção aos Índios, No ano seguinte pacificou os índios Botocudos, no Vale do Rio Doce, seguido pela pacificação dos índios Kaingangs, de São Paulo (1912). Neste ano foi promovido a coronel de engenharia.

De maio de 1913 a maio de 1914, realizou mais uma expedição para explorar a região amazônica, em conjunto com uma comitiva integrada pelo ex-presidente dos EUA Theodore Roosevelt. Nessa viagem, denominada “Expedição Científica Rondon-Roosevelt”, foi atingido por uma flecha envenenada dos índios Nhambiquaras. Foi salvo pela bandoleira de couro de sua espingarda e ordenou aos soldados que não reagissem e batessem em retirada. Seu trabalho com a pacificação dos índios e a criação do SPI, evitou um genocídio do índios, o que lhe valeu a indicação para o Prêmio Nobel da Paz por Albert Einstein e referendado pelo Explorer’s Club de Nova Iorque, em 1957. Serviu, também, de inspiração para a viagem que Claude Lévi Strauss realizou na Amazônia, retratada no livro Tristes Trópicos. Por essa época estava sendo construída a ferrovia Madeira-Mamoré, que, junto com o desbravamento e integração telegráfica, ajudaram a ocupar a região do atual estado de Rondônia, cujo nome é uma das justas homenagens que recebeu.

Em 1914, a Comissão Rondon construiu 372 km de linhas e mais cinco estações telegráficas: Pimenta Bueno, Presidente Hermes, Presidente Pena (depois Vila de Rondônia e atual Ji-Paraná), Jaru e Ariquemes, na área do atual estado de Rondônia. Pouco depois pacificou os índios Xokleng, de Santa Catarina e recebeu da Sociedade Geográfica Americana a “Medalha Centenário de David Livingstone” e teve seu nome gravado em ouro no Livro da entidade, como o explorador que penetrou mais profundamente em terras tropicais. Em 1919 foi nomeado Diretor de Engenharia do Exército, cargo ocupado até 1924. Três anos depois, inspecionou toda a fronteira brasileira desde as Guianas até a Argentina. É dele a expressão “Do Oiapoque ao Chuí”. Foi o mais importante registrador de etnias indígenas do Brasil, pois falava várias línguas indígenas, além de outros tradutores que levava em suas expedições.

A “Revolução de 1930”, que levou Getúlio Vargas ao poder, não recebeu seu apoio. Para evitar perseguições ao SPI, demitiu-se de sua direção e concluiu sua terceira e última inspeção das fronteiras internacionais. Nesse meio tempo foi preso em Porto Alegre pelo capitão Góes Monteiro, devido a incompatibilidades com o Governo Vargas, mas logo foi solto. Em 1938 promoveu a paz entre a Colômbia e Peru, que disputavam o território de Leticia, fincada na Amazônia, fronteira do Brasil com aqueles dois países. No ano seguinte, apaziguado com o novo governo, retomou a direção do SPI. Mais tarde manifestou apoio ao Governo Vargas: “por este conduzir a bandeira política e administrativa da Marcha para o Oeste, visando ao alargamento do povoamento do sertão”. A pacificação dos índios Xavantes foi seu último trabalho como pacificador, concluído em 1946. No ano seguinte recebeu o aporte de outro entusiasta na defesa dos índios, que o ajudou na criação de um local exclusivo e de proteção destas etnias.

Em 1947 Darcy Ribeiro ingressou no SPI e passa a ajudá-lo na criação do Parque Nacional do Xingu, em 1952. Em seguida, Darcy fundou o Museu Nacional do Índio, sob sua inspiração direta. Aos 89 anos, através de um Ato do Congresso Nacional, foi promovido a Marechal honorário do Exército. Em 1956 o Território Federal do Guaporé foi alterado para Rondônia em sua homenagem. De volta ao Rio de Janeiro, veio a falecer em 19/1/1958. São inúmeras a homenagens que lhe foram prestadas, além dos nomes de estado, cidades, bairros e logradouros públicos. 5 de maio, dia de seu nascimento, foi declarado Dia Nacional das Comunicações. Em 1967 foi criado o “Projeto Rondon” levando os estudantes universitários brasileiros a conhecer melhor os confins do Brasil, fato que veio confirmar seu caráter de desbravador do Brasil. Em 1/7/2015, seu nome foi inscrito em letras de aço no “Livro de Heróis da Pátria”. Agora há poucos dias, em maio de 2019, o jornalista norte-americano Larry Rohter, chefe do escritório do “The New York Times”, no Rio de Janeiro, de 1999 a 2007, publicou “Rondon, uma biografia”, que poderia ser intitulada como “a biografia”. São 584 páginas, onde a vida de Rondon é esmiuçada, reescrevendo seu papel de explorador brasileiro na etnografia mundial. Tem razão o dito que “santo de casa não faz milagre”. Foi preciso o olhar de um estrangeiro para revelar aos brasileiros a amplitude do legado de Rondon para o país e para os povos indígenas. Para o autor, só o racismo do Hemisfério Norte explica o fato de Rondon não figurar lado a lado com outros exploradores no panteão mundial. “Quase todos os grandes são de origem europeia ou americana, altos, brancos e louros”, conforme declarou à revista Veja em 1/5/2019.

Em seu sepultamento com honras de chefe de Estado, Darcy Ribeiro foi convidado a discursar: “Quero aqui recordar os quatro princípios de Rondon: 1º Morrer, se preciso for, matar, nunca no contato com os indígenas; 2º Respeito às tribos indígenas como povos independentes que, apesar de sua rusticidade e por motivo dela mesma, têm o direito de ser eles próprios, de viver suas vidas, de professar suas crenças e de evoluir, segundo o ritmo de que sejam capazes, sem estarem sujeitos a compulsões de qualquer ordem e em nome de quaisquer princípios; 3º Garantir aos índios a posse das terras que habitam e são necessárias à sua sobrevivência. 4º assegurar aos índios a proteção direta do Estado, não como um ato de caridade ou de favor, mas como um direito que lhes assiste por sua incapacidade de competir com a sociedade dotada de tecnologia infinitamente superior que se instalou sobre seu território. (…) Graças aos esforços de Rondon, sobrevive hoje no Brasil uma centena de milhares de índios que não existiriam sem seu amparo. Aqui estamos para dizer-vos que nada nos fará desanimar do propósito de dedicar o melhor de nossas energias para a realização dos vossos princípios. Nenhum de nós, ninguém, pode substituir-vos. Mas, talvez mil reunidos sob o patrocínio do vosso nome possam tornar menos gritante o grande vazio criado com a vossa morte”.

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