JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Antônio Vieira nasceu em Lisboa, em 6/2/1608. Missionário jesuta, filósofo, escritor, diplomata e um dos mais importantes oradores de todos os tempos. Chegou ao Brasil, aos seis anos, junto com a mãe Maria de Azevedo, para se juntar ao pai Cristovão Vieira Rovasco, ex-escrivão do Tribunal do Santo Ofício, em Lisboa, nomeado escrivão em Salvador e filho de uma mulata de origem africana. Talvez uma das razões para tornar o neto um dos primeiros combatentes da escravidão.

Ingressou no Colégio dos Jesuítas da Bahia, aos 15 anos; formou-se noviço em 1625 e ordenou-se sacedote em 1634. No Colegio, a princípo teve alguma dificuldade no aprendizado, mas logo teve um “insight” e passou a compreender e memorizar tudo com maior clareza. Tal fenômeno ficou conhecido como “o estalo de Vieira”. Tornou-se um aluno brilhante e, na condição de talentoso escritor, foi designado para traduzir para o latim a “Carta Ânula”, relatório da Companhia de Jesus, enviado ao Superior-Geral, em Roma. Prosseguiu os estudos em Teologia, Lógica. Metafísica e Matemática, obtendo o mestrado em Artes. Em 1627 lecionou Retórica no Convento de Olinda e retornou à Salvador, onde foi ordenado sacerdote.

Por esta época começou a ficar famoso como orador com os primeiros sermões e em 1638 foi nomeado professor de teologia, em Salvador. Demonstrou grande domínio da língua, numa prosa fluente e clara, bem diferente daquela empregada por seus contemporâneos. Assim, pouco depois era reconhecido como um dos grandes escritores da lingua portuguesa. Dotado de agudo senso político, defendeu a tese que Portugal deixasse o Nordeste com holandeses, na época da invasão, devido aos altos custos de manutenção da guerra e à superioridade militar dos Paises Baixos. Passou a pregar contra o domínio da Espanha sobre Portugal e com a Restauração, em 1640, mudu-se para Lisboa e tornou-se confessor de Dom João IV. Em seguida foi enviado como diplomata à Roma e Amsterdam e começou a participar ativamente da conturbada política lusitana no século XVII.

Em Lisboa defendeu os cristãos-novos (judeus), atraindo o ódio da Inquisição que o prendeu por pouco tempo. Através de seus contatos com a Corte, foi libertado e regressou ao Brasil em 1653 e foi viver no Maranhão na condição de dirigente da missão jesuítica. No mesmo ano proferiu o “Sermão da Primeira Quaresma”, em São Luis, em cuja pregação tentou convencer os senhores de engenho a libertarem seus escravos indígenas. Era querido pelos índios, que o chamava de “Paiaçu”: grande padre ou pai em tupi. Entre 1658 e 1660, escreveu o “Regulamento das Aldeias”, no qual estabeleceu as diretrizes das missões religiosas na Amazônia. Tais regras envolvendo os métodos de doutrinação e até a disposição da moradia dos missionários e índios, não eram aplicadas apenas aos jesuitas, foram seguidas por outras congregações por mais de um século. Padre Serafim Leite, no livro Novas Cartas Jesuíticas (Cia. Editora Nacional, 1940) diz que o Padre Vieira tem “para o norte do Brasil papel idêntico ao dos primeiros jesuitas no centro e no sul”.

Tais posicionamentos custou-lhe a expulsão da provincia e dos demais jesuitas, em 1661. Foi convocado pela Inquisição, em Lisboa, em virtude de suas pregações, além dos textos considerados heréticos pela Igreja. Foi condenado e ficou preso em Coimbra por dois anos (1665-1667). Sua oratória foi capaz de convencer o Papa a anular suas penas e condenações. Além da liberdade, conseguiu um feito histórico: a suspensão da Inquisição em Portugal de 1675 a 1681, com os relatórios sobre os múltiplos abusos do poder da igreja, entregue ao Papa. Retornou definitivamente à Bahia em 1681, alegando questões de saúde. Mesmo assim, exerceu a função de visitador-geral das missões do Brasil e passou a se dedicar mais à pubicação de seus sermões e cartas.

Através da retórica jesuítica, mostrou-se um barroco conceitista, no desenvolvimento de ideias lógicas, destinadas a persuadir o público. A coleção completa de seus Sermões, iniciada em 1679, resultou em 16 volumes e as cartas em 3 volumes. Idoso e doente, teve que espalhar circulares sobre a saúde para poder manter em dia sua vasta correspondência. Em 1694, já não podia escrever de próprio punho. Pouco depois perdeu a voz e teve início a agonia. Em 18/7/1697 faleceu em Salvador, aos 89 anos. Devido a sua atuação politica e religiosa no Brasil e Portugal, tornou-se um dos homens mais importantes do século XVII.

Proferiu e escreveu mais de 200 sermões, 700 cartas além de tratados proféticos, relações etc. Suas obras foram elogiadas em toda a Europa e até por alguns membros da Inquisição. Deixou um uma grande obra, Não sendo propriamente um escritor, mas um orador, deixou um considerável legado bibliogáfico. Entre os sermões, destacam-se: Sermão da Quinta da Quaresma, Sermão do Bonsucesso das Armas de Portugal contra os de Holanda, Sermão da Sexagésima, Sermão de Santo Antônio aos Peixes, Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, Sermão do Mandato, Sermão do Rosário, Sermão do Bom Ladrão entre outros. Os sermões, em linguagem simples, revelam um extraordinário domínio da língua, imaginação, sensibilidade e firmeza de convicção. Além dos sermões deixou inconcluso o “Clavis Prophetarum”, livro de profecias. Foi também um prolífico escritor de cartas abordando a situação colonial do Brasil, Inquisição, política externa etc.

Sua obra completa começou a ser publicada em 2013 e conta com 30 volumes, incluindo os sermões, cartas, profecias, escritos políticos sobre os judeus e índios, e também sua poesia e teatro. Trata-se da primeira edição completa e um dos maiores projetos editoriais do gênero. Foi viabilizado a partir de uma cooperação internacional entre várias instituições de pesquisa e academias científicas, culturais e literárias Luso-Brasileiras, sob a égide da Reitoria da Universidade de Lisboa. Mesmo não sendo considerado santo pela Igreja Católica, seu nome consta no calendário de santos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, como sacerdote e testemunha profética, tendo sua festa litúrgica celebrada em 18 de julho, dia de seu falecimento. O Sermão do Bom Ladrão, escrito em 1655, que apresentamos abaixo, foi proferido na Igreja da Misericórdia de Lisboa, perante D. João IV e sua corte, rodeado pelos maiores dignitários do reino, juízes, ministros e conselheiros. O sermão é uma crítica contundente àqueles que se valem da máquina pública para enriquecer ilicitamente; uma denuncia aos escândalos no governo, gestões fraudulentas e desproporcionalidade das punições entre aqueles que roubam pouco e os que roubam muito. Portanto, é um sermão antigo. Porém, bastante atual.

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