JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: José do Patrocínio

José Carlos do Patrocínio nasceu em 9/10/1853, em Campos dos Goytacazes, RJ. Escritor, jornalista, poeta, farmacêutico, orador e político. Figura destacada no Movimento Abolicionista e criador da “Guarda Negra da Redentora”, formada por negros e ex-escravos para proteger a Monarquia frente a aristocracia e os militares. É também considerado pioneiro do movimento negro no Brasil e foi um dos fundadores da ABL-Academia Brasileira de Letras.

Filho do vigário da cidade com uma jovem escrava, não foi reconhecido pelo pai, mas foi alojado em sua fazenda na condição de liberto, porém convivendo com os escravos e sofrendo alguns castigos. Ao completar 14 anos e concluído o curso primário, pediu para morar no Rio de Janeiro. Em 1868 empregou-se na Santa Casa de Misericórdia como servente de pedreiro e depois na casa de saúde do Dr. Batista Ramos. Tomou gosto pelo trabalho e realizou o curso de farmácia na Faculdade de Medicina, concluído em 1874. Sem condições de alugar moradia, aceitou convite do amigo João Rodrigues Pacheco para morar em sua casa, residência do capitão Emiliano Rosa Sena, rico proprietário de terras e imóveis.

Para que aceitasse o convite sem constrangimento, o capitão propôs-lhe que, como pagamento, desse aulas aos seus filhos. Naquela residência davam-se as reuniões do “Clube Republicano”, com a participação de Quintino Bocaiuva, Lopes Trovão, Pardal Mallet entre outros. Logo, o rapaz se apaixonou pela filha do capitão e foi correspondido. O capitão não gostou daquele namoro, mas não pode fazer nada diante da paixão da filha. Após o casamento em 1879, chegou a receber alguma ajuda do sogro. Além da farmácia, gostava também de escrever e, antes do casamento, uniu-se ao jornalista Demerval da Fonseca, com quem criou o quinzenário satírico “Os Ferrões”, que chegou a 10 números de junho a outubro de 1875.

Em 1877 foi admitido na Gazeta de Notícias, comandando a coluna “Semana Parlamentar”, com o pseudônimo Prudhome. Dois anos após passou a atuar na campanha pela abolição dos escravos. Em seguida ingressou na “Associação Central Emancipadora”, atuando ao lado de Joaquim Nabuco, Teodoro Sampaio, Ferreira de Meneses, Paula Nei, Ubaldino do Amaral, João Clapp etc. Em 1880 fundou, junto com Joaquim Nabuco, a “Sociedade Brasileira Contra a Escravidão”. No ano seguinte, adquiriu o Gazeta da Tarde, com a ajuda do sogro, e passou a articular a “Confederação Abolicionista”, reunindo todos os clubes abolicionistas, em 1883, e redigiu um manifesto assinado por André Rebouças, Aristide Lobo e João Clapp. Entre os amigos recebeu o epiteto “O Tigre da Abolição”.

Por essa época, visitou a província do Ceará, onde foi bem recebido pelos abolicionistas. O Ceará foi pioneiro ao decretar a abolição da escravidão em 1884. Além de comandar a Gazeta e animar a confederação, passou a ajudar na fuga de escravos, angariar fundos para bancar alforrias e promover comícios em praça pública. Em 1885 trouxe para o Rio sua mãe de Campos dos Goytacazes, já doente e idosa, que veio a falecer no mesmo ano. O sepultamento deu-se junto a um ato político em favor da abolição, do qual participaram o ministro Rodolfo Dantas, o jurista Rui Barbosa e os futuros presidentes Campos Sales e Prudente de Morais. Em seguida ingressou na política como vereador e entrou na luta abolicionista como parlamentar.

Em 1887 deixou a Gazeta da Tarde para dirigir outro jornal “A Cidade do Rio”, onde conviveu com grandes nomes do jornalismo na época. No ano seguinte, na celebração da assinatura da Lei Áurea, aproximou-se da Princesa Isabel, ajoelhou-se e beijou-lhe as mãos. O gesto foi seguido por outros abolicionistas. Conquistada a Abolição, as atenções se voltaram para a campanha republicana e ele foi visto como um “isabelista”, apontado como um dos mentores da “Guarda Negra”, grupo de ex-escravos que combatia os republicanos. Em 1892, apoiou a “Revolta da Armada” contra o regime republicano, foi preso e deportado para o estado do Amazonas.

Ao voltar no ano seguinte, o Rio ainda estava em estado de sítio e seu jornal suspenso. Em situação econômica precária, foi morar no subúrbio. Deixou a política em segundo plano e dedicou-se invento da aviação. Tentou construir um dirigível de 45 metros, o “Santa Cruz”, mas não concluiu. Quando Santos Dumont foi homenageado no Teatro Lírico, proferiu discurso saudando o inventor e foi acometido de uma hemoptise. Pouco depois foi vitimado por uma tuberculose, em 29/1/1905, aos 51 anos.

Como romancista, publicou 3 livros: Pedro espanhol (1884); Mota Coqueiro ou A pena de morte (1887) e Os retirantes (1889). Como personagem na televisão, foi retratado na novela Sangue do meu sangue (1969); na minissérie Chiquinha Gonzaga (1999) e no cinema com o filme O xangô de Baker Street (2001). Sua trajetória ficou registrada em algumas biografias: O tigre da abolição (1953), de Osvaldo Orico; Patrocínio, o abolicionista (1967), de João Guimarães; MAGALHÃES JR., Raimundo. A vida turbulenta de José do Patrocínio (1969), de Raimundo Magalhães J. e José do Patrocínio: a imorredoura cor do bronze (2009), de Uelington Farias Alves.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Castro Alves

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em 14/3/1847, na Freguesia de Curralinho, atual Castro Alves, BA. Poeta, dramaturgo e expoente da 3ª fase do Romantismo, conhecido como “Poeta dos Escravos”, entre outros epítetos: “Poeta Republicano” (Machado de Assis); “Poeta nacional, social, humano e humanitário” (Joaquim Nabuco); “Maior poeta brasileiro, lírico e épico” (Afrânio Peixoto) e “Apóstolo andante do condoreirismo” (José M. da Cruz).

Iniciou os primeiros estudos na cidade de Cachoeira e logo a família mudou-se para Salvador, onde estudou no Colégio Sebrão até 1857. Ano seguinte ingressou no Ginásio Baiano, do célebre educador Dr. Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas. Nesta escola, onde também estudava Rui Barbosa, foi seduzido pelos frequentes saraus e declamações de poesia e discursos. Alí foi revelado o poeta, com os primeiros poemas aos 13 / 14 anos. Na época, a mãe -Clélia Brasília- faleceu; o pai casou-se de novo e ele, junto com o irmão mais velho, mudaram-se para o Recife, em 1862, a fim de ingressarem na Faculdade de Direito.

Reprovado no “vestibular” da época, mergulhou na vida cultural da cidade e passou a frequentar a “Escola do Recife”, um núcleo de intelectuais dentro da Faculdade de Direito. Aos 16 anos, publicou o poema A Canção do Africano no jornal “Primavera”, em maio de 1863, quando ainda não se ouvia falar de “Abolição da escravatura”. Poesia era um dos talentos do rapaz; o outro era desenho, vindo a tornar-se bom desenhista e até pintor. Nesse período conheceu a atriz portuguesa Eugênia Câmara, com quem se enamorou, e pouco depois consegue matricular-se na Faculdade. No ano seguinte sentiu um abalo com o suicídio do irmão, ampliado com a notícia do diagnóstico de tuberculose, e retorna à Salvador.

Em março de 1865, volta ao Recife em companhia do poeta Fagundes Varela. No ano seguinte, reencontra Rui Barbosa e fundam uma sociedade abolicionista. Em seguida passou a viver com Eugênia Câmara e tem início grande produção poética junto com declamações públicas. Seu contemporâneo Vicente de Azevedo disse que “ele sabia preparar a cena, como emérito que era. Para essas ocasiões, punha pó de arroz no rosto, a fim de acentuar mais a palidez; um pouco de carmim nos lábios e muito óleo nos cabelos que ele arremessa da formosa cabeça”. Além da abolição da escravatura, passou também a lutar pela causa republicana, quando finaliza o drama Gonzaga, ou a Revolução de Minas, representada no Teatro São João, em Salvador.

Nessa estadia no Recife ocorreu uma acirrada disputa com Tobias Barreto, 10 anos mais velho e protagonista da “Escola do Recife”. Conta-se que o filósofo tinha temperamento nervoso, às vezes insociável, uma antítese do poeta baiano, de índole meiga e atraente. A disputa se deu quando Tobias se enamorou da atriz Adelaide Amaral, da mesma companhia de Eugênia, e passa a defendê-la em detrimento da outra. A partir daí surgem dois núcleos na cidade em que cada grupo defendia suas musas. Após uma noite em que Tobias e seus aliados vaiam Eugênia, Castro Alves improvisa de forma avassaladora na réplica e, dias depois, em novo confronto, nova vitória sobre o rival com versos que ficaram memoráveis, levando a disputa às páginas da imprensa e a uma derrota fragorosa de Tobias Barreto.

Em 1868, partiu junto com Eugênia para o Rio de Janeiro, onde manteve contato com o romancista José de Alencar, que publicou o artigo Um Poeta no Correio Mercantil. Além do artigo, Alencar apresentou-o a Machado de Assis junto com um bilhete pedindo: “Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento”. Foi curta a permanência no Rio de Janeiro; em seguida, mudou-se para São Paulo e ingressa no 3º ano da Faculdade de Direito, onde retoma a vida acadêmica e cultural iniciada no Recife. Logo dá-se a primeira apresentação pública de Tragédia no Mar, que pouco depois teve o título mudado para Navio Negreiro. Ingressou na Loja América, da Maçonaria, onde reencontra o amigo Rui Barbosa, que baixou um decreto obrigando os afiliados a adotarem a imediata libertação de seus escravos. Pouco depois já estava participando da comissão de literatura do “Ateneu”, o jornal dos estudantes e da “Bucha”, sociedade secreta criada a fim de ajudar os estudantes em situação precária, mas que transcendeu o ambiente acadêmico e teve projeção política.

Não chegou a concluir o curso; dedicou-se mais aos poemas, alcançando êxito no meio cultural da cidade. Diz-se que o sucesso lhe subiu a cabeça, fazendo-o descuidar-se da amada Eugênia, resultando em traições, brigas e separações até o dia em que ela efetivou o desenlace. Segundo Afrânio Peixoto, ele passou por uns perrengues: “não lia, não escrevia; passeava, fumava, saía à caça, sem disparar sequer um tiro”. Numa dessas caçadas, ao transpor a vala num pulo, a espingarda disparou acertando-lhe o pé esquerdo. O tratamento prestado não surtiu efeito e os antigos padecimentos com o pulmão reapareceram mais agravados. Em 19/3/1869 embarcou para o Rio de Janeiro, onde havia mais recursos médicos. A solução consistiu numa amputação sem anestesia, pois a situação pulmonar não permitia o uso de clorofórmio, o anestésico da época.

Pouco depois, retorna à Salvador; visita Curralinho; reencontra Leonídia Fraga, sua prometida desde menino; compõe versos melancólicos; vagueia de um lado pra outro e prepara os manuscritos para a edição do livro Os Escravos. Em outubro de 1870, já combalido pela tuberculose, pediu ao amigo José Joaquim de Palma que lhe emprestasse a voz para declamar alguns poemas, o que é feito no Teatro São João e foi ovacionado. No mês seguinte, dá-se o lançamento de Espumas Flutuantes, seu único livro publicado em vida. Na ocasião, Adelaide apresenta-o à cantora lírica Agnese Trinci Murri, por quem fica encantado, escreve-lhe cartas de amor e tenta roubar-lhe um beijo, mas foi rejeitado. São os últimos lampejos do poeta romântico.

Em 21/3/1871 participou de um sarau e faz declaração pública de seu amor por Agnesi, que é correspondido apenas na forma de um amor platônico. Em fins de junho, já “acamado” e pressentindo o ato final, pediu que sua cama fosse colocada na sala. Segundo Adelaide, “queria morrer olhando para o infinito azul, esse infinito que irá em breve recolher suas últimas aspirações”. Seguem-se os dias de agonia até 6/7/1871 pela manhã, quando Adelaide lhe passa o lenço pela fronte úmida. Lúcido e com um fiapo de voz, fixa o olhar na irmã e murmura: “Guarda este lenço… com ele enxugaste o suor de minha agonia…”. Aos poucos o olhar foi-se esmaecendo até às 15:30, quando deu-se a partida.

No dia seguinte foi sepultado no Cemitério do Campo Santo e teve sua memória mantida e divulgada pela irmã Adelaide, falecida em 1940. Segundo Afrânio Peixoto, a ela o poeta deve muito de sua fama. Em 6/7/1881, no 10º ano de sua morte, o “Largo do Teatro”, em Salvador, foi renomeado para “Praça Castro Alves”, ao lado do Elevador Lacerda e principal ponto turístico da cidade. Lá foi erguido um monumento, em 1923, com sua estátua esculpida em bronze pelo italiano Pasquale De Chirico, de 2,9 metros, num pedestal com 11 metros de altura. No centenário da morte, em 6/7/1971, na gestão do prefeito Antônio Carlos Magalhães, foi realizado o translado de seus restos mortais para o monumento. Em 1977, Caetano Veloso parafraseou o poeta – A praça é do povo, como o céu é do condor – e cantou no Frevo novo: “A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”.

Em 1997, a Biblioteca Nacional e o Departamento Nacional do Livro realizaram ampla comemoração dos 150 anos de nascimento do poeta, com a exposição “Castro Alves: o olhar do outro” e diversas homenagens. É o poeta mais conhecido dos brasileiros, através do cinema, teatro, TV e inúmeras biografias. Desde a 1ª, em 1896 com Múcio Teixeira: Vida e obras de Castro Alves, até 1942 com Afrânio Peixoto e seu Castro Alves: o poeta e o poema, da coleção Brasiliana e Jorge Amado com seu ABC de Castro Alves entre outros. Em 1960, outro conterrâneo entusiasmado – Norlandio Meirelles de Almeida – realizou um trabalho de fôlego e publicou Cronologia de Castro Alves, relatando ano-a-ano a vida do poeta, incluindo fotos e trechos dos poemas pertinentes a cada fase de sua curta vida. Não por acaso, o dia de seu nascimento é celebrado como o “Dia da Poesia”

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AS BRASILEIRAS: Eneida de Moraes

Eneida de Villas Boas Costa de Moraes nasceu em Belém, PA, em 23/10/1904. Escritora, poeta, jornalista, tradutora, pesquisadora, política e carnavalesca. Autora do primeiro livro sobre o carnaval: História do carnaval carioca (1958), que definiu os conceitos de cordão, corso, ranchos, entrudo etc., além de participar diretamente nas lutas contra a ditadura de Vargas no período do “Estado Novo”. Brincou com os brasileiros e lutou pelo Brasil numa combinação bem-sucedida.

Filha de um comandante de navios, tinha grande afeição pelos rios e pela Amazônia. O gosto pela literatura surgiu cedo. Aos 7 anos se inscreveu num concurso de conto infantil na revista “Tico-Tico”, sem que a família soubesse. Mandou um conto sobre o caboclo amazônida e ganhou o 1º lugar, além de 20 mil réis. Aos 10 anos foi estudar em Petrópolis (RJ) no famoso Colégio Sion, onde teve sólida formação escolar. Nas décadas de 1920 e 1930, colaborou em jornais como o “Estado do Pará” e revistas: “Para Todos”, “Guajarina”, “A Semana’ e “Belém Nova’. Em 1930 recebeu o “Prêmio Muiraquitan”, de um grupo de intelectuais amazonenses, por sua participação no movimento literário de seu Estado. No mesmo ano mudou-se para o Rio de Janeiro e filiou-se ao PCB-Partido Comunista Brasileiro. Na época liderou greves e manifestações políticas.

Envolveu-se diretamente nas revoluções de 1932 e 1935, resultando em 11 prisões durante o Estado Novo, além de sofrer torturas e viver na clandestinidade ou exílio. Na prisão, conhece Graciliano Ramos, que a imortalizou em seu livro Memórias do Cárcere. Na Casa de Detenção do Rio de Janeiro, verificou que uma “vigorosa conversa política ali se desenvolvia […] dominada por um vozeirão de instrutor. Quem seria aquela mulher de fala dura e enérgica? […] Despedi-me de Nise e desci, uma pergunta a verrumar-me, insistente, os miolos: quem seria a criatura feminina de pulmões tão rijos e garganta macha? […] Foi Valdemar Bessa quem me satisfez a curiosidade: a mulher de voz forte era Eneida. E apertava-se uma dúzia delas na sala 4. Olga Prestes, Elisa Berger, Carmen Ghioldi, Maria Werneck, Rosa Meireles […]”

Atuou como jornalista profissional em periódicos partidários e da grande imprensa, nas funções de repórter e de cronista, entremeando tais atividades com a publicação de 11 livros e várias traduções. Mas não abriu mão do carnaval, que tanto gostava, e fez uma grande pesquisa, tornando-se a primeira estudiosa na área. Animou o carnaval com a criação do “Baile do Pierrot” no Rio de Janeiro e em Belém. Publicou alguns livros de poesia e de longas crônicas: Promessa em azul e branco (1957), Paris e outros sonhos (1951), Caminhos da terra (1959), Cão da madrugada (1954), Aruanda (1957), Copacabana: história dos subúrbios (1959), Boa noite, professor (1965) e a antologia de poemas Terra verde (1929). São livros esgotados, existentes apenas nos sebos, mas alguns deles foram reeditados pela Secretaria de Cultura do Pará.

Foi homenageada por mais de uma Escola de Samba. Em 1973, a Salgueiro desfilou com o tema “Eneida, amor e fantasia”; a Império do Samba (de Belém) no mesmo ano, saiu com “Eneida sempre amor” e em 2010 a Paraíso do Tuiuti saiu com “Eneida, o Pierrot está de volta”. Foi a primeira madrinha da “Banda de Ipanema”, criada em 1965. Para o poeta João de Jesus Loureiro, foi “uma mulher de sentimento livre, de uma grande inteligência, com uma utopia política de um Brasil justo com forte expressão literária, sendo que tanto no romance, quanto nas crônicas sempre estava presente a memória do Pará, mas sobretudo a expressão de uma mulher escritora que ultrapassou as limitações do seu tempo, sendo pioneira na afirmação da mulher como intelectual independente e com a sua maneira de viver livre e precursora da mentalidade feminina atual”.

O professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade da Amazônia (Unama), José Guilherme Castro, afirma que a escritora sempre rompeu todas as barreiras desde criança. “Eneida é uma mulher de vanguarda que abriu a porta para outras mulheres não só na literatura como na história social”. Ele teve como tema de seu curso de mestrado, as crônicas de Eneida. As obras dela continuam importantes e atuais para entender o mundo. “Quem lê a obra da Eneida está praticamente vendo a atualidade”, destaca. “Ela abre caminho para outras mulheres escreverem na literatura brasileira.

Hoje a Faculdade de Ciências Sociais da UFPA-Universidade Federal do Pará mantém o “Grupo de Estudos Eneida de Moraes” com um considerável acervo de publicações. Em 2004 a professora Eunice Ferreira dos Santos concluiu uma pesquisa, que resultou na tese “Eneida de Moraes: militância e política”, defendida na Faculdade de Letras da UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais, enfatizando o lado político, além de trazer uma biografia completa da escritora e jornalista paraense. No largo elenco de atividades culturais e políticas, consta também sua participação na criação da Associação Brasileira de Escritores, em meados da década de 1940 e, pouco antes de falecer -ainda jovem aos 67 anos, em 27/4/1971- na fundação do Museu Paraense da Imagem e do Som.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Glauber Rocha

Glauber Pedro de Andrade Rocha nasceu em 14/3/1939, em Vitória da Conquista, BA. Jornalista, escritor e essencialmente cineasta. Foi precoce na vida e na morte. Aos 10 anos escreveu uma peça de teatro: O fio de ouro, com ele no papel principal. Fio de ouro não deixa de ser um prenúncio da sua inserção na cinematografia internacional com o “cinema novo”, tendo “Deus e o diabo na terra do sol”, sob sua direção, que se tornou referência obrigatória na história do cinema brasileiro.

Filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e Lúcia Mendes de Andrade Rocha, teve os primeiros estudos em casa, com sua mãe e ingressou numa escola católica. Em 1947 a família mudou-se para Salvador e passou a estudar no Colégio 2 de Julho, instituição presbiteriana, onde participou de um grupo de teatro, escrevendo e atuando. Aos 13 anos participou de um programa de rádio, como crítico de cinema. Até 1956 integrou alguns grupos e teatro e entrou na Cooperativa Cinematográfica Iemanjá. Aos 18 anos passou a escrever regularmente para algumas revistas culturais de caráter politico: “O Momento“, “Sete Dias”, “Mapa” e “Ângulos”. No ano seguinte, já consagrado como jornalista, assume a direção do suplemento literário do “Jornal da Bahia” e passa a escrever também para o “Diário de Notícias de Salvador” e suplemento dominical do “Jornal do Brasil”.

Em 1959, foi cursar Direito na UFBA, mas largou 2 anos depois para se dedicar ao jornalismo e cinema. Por essa época casou-se com sua colega Helena Ignez. Seu primeiro filme foi um curta-metragem O pátio (1959), seguido de Cruz na praça (1960). O primeiro longa-metragem se deu em 1961, com Barravento, premiado na Tchecoslováquia. A partir daí o movimento “cinema novo” irrompe pregando um cinema nacional autêntico, com uma temática social e uma nova linguagem cinematográfica explorando cenas externas, próximas do filme documentário. Glauber liderou o movimento, tendo Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade encabeçando o movimento no Rio de Janeiro e Roberto Santos, em São Paulo. Além destes, outros destacados cineastas integraram o movimento: Cacá Diegues, Zelito Viana, Arnaldo Jabor, Ruy Guerra, Leon Hirzman, Helena Solberg entre outros.

A fim de consolidar o movimento, lançou em 1963 o livro Revisão crítica do cinema brasileiro, apresentando as linhas mestras de uma nova cinematografia nacional. No ano seguinte tais linhas mestras foram para a tela com o filme Deus e o diabo na terra do sol (1964), premiado no Festival de Cinema Livre, Itália; indicado para receber a Palma Ouro, no Festival de Cannes e representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1965. Assim, ficou conhecido no plano internacional. Em seguida produziu e dirigiu outros filmes de grande repercussão aqui e no exterior: Terra em transe (1967), que lhe deu o Prêmio Luis Buñuel, no Festival de Cannes e indicado para receber a Palma de Ouro e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), que lhe garantiu o Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes. Com a radicalização do regime ditatorial no País em princípios da década de 1970, foi considerado um dos expoentes da esquerda brasileira e procurou um autoexílio em Portugal, em 1971.

Por esta época realizou mais alguns filmes, predominando a temática poíitica, com pouca repercussão no público, devido a precária distribuição e também a complexidade dos temas, atraindo um público mais seletivo: O leão de 7 cabeças (1970), Cabeças cortadas (1970) O rei do milagre (1971) e As armas e o povo (1974), um documentário gravado nas ruas de Lisboa durante a “Revolução dos Cravos”, que derrubou o regime ditatorial do governo Salazar. Em 1977 sofreu um abalo com a morte da irmã, a atriz Anecy Rocha, que caiu num fosso de elevador. No ano seguinte declarou: “Eu pretendo, lenta e gradualmente, passar a ser mais romancista e menos cineasta. Não quero mais filmar tanto, porque acho que meus livros acabarão sendo filmados por mim ou por outra pessoa” e lançou o romance Riverão sussuarana”.

Em meados de 1979, a situação política no País estava conturbada diante da polarização ideológica e da luta pela anistia que foi decretada naquele ano. Neste cenário Glauber fez um comentário que abalou a esquerda brasileira. Declarou que Golbery (Chefe da Casa Civil) era o gênio da raça. Logo passou a ser chamado de louco pela esquerda. Mais tarde Darcy Ribeiro explicou que ele estava fazendo uma referência ao regime militar nacionalista no Peru, onde o governo Alvarado promovia reformas estruturais para debelar a pobreza. Não houve entendimento entre Glauber e muitos intelectuais de esquerda e ele passou a ser combatido, isolado ou até mesmo sofrer a acusação de ter sido cooptado pelos militares. Alguns diziam que aquela declaração seria o atestado de que ele realmente estava ficando louco. Pouco depois passou a comandar um programa aos domingos à noite na TV Tupi, intitulado Abertura, um programa de variedades culturais e política sobre a situação brasileira, onde pode exercer a contento sua veia jornalística.

Em outubro de 1979, fez sua última apresentação do programa e concluiu com uma despedida e espécie de manifesto: “Dediquei 20 anos de minha vida ao cinema brasileiro. Sou um dos seus principais artífices. Realizei alguns filmes de repercussão internacional e me encontro marginalizado em meu país. Sou famosíssimo e paupérrimo. Isso é o Brasil. E o cinema é a superestrutura de um regime econômico. A mais importante de todas as artes. Boa noite Brasil! Aqui é o desmascaramento histórico (coloca e tira máscaras no rosto em close). Nós mulatos, sertanejos, brasileiros, perguntamos: o Brasil precisa ou não de reformas estruturais? Porque todo mundo fala, fala, fala um papo furado, um papo jurídico, fala em Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, aquele negócio decadente, bem brasileiro e não fala no básico, que são as reformas estruturais que prejudicariam uma parte dos patrícios. Mas será que essa parte não poderia ceder em função de uma nova utopia? Por que a burguesia tem que ser cruel? Matéria para reflexão. Boa noite, saravá! Não vai aqui nenhum sentido de provocação. Assim é a democracia. Todos nós temos um ego semelhante. Nada de guardar rancores, loucuras escondidas. Voltemos para dentro do Brasil, de nossos rios, de nossas florestas, onde vive povo pobre, liquidado, doente, que precisa realmente de ser resgatado. Vamos deixar de lado a revolução francesa e a soviética para descobrir a feijoada, o carnaval, o frevo. Nossa cultura é a macumba, não é a ópera. Vamos descobrir o Brasil. Ninguém fala do Piauí, de Sergipe, da Paraíba, terra de mulher macho sim sinhô. Queria ver o Doca Street na Paraíba! Tô de saco cheio de teorias, tô querendo soluções! Alô, alô Antônio Carlos Jobim. Pau no Sinatra! Estou entrando de férias para terminar a montagem do meu filme A idade da terra, tem os livros que estou terminando e tenho de ir para a Europa para cuidar da saúde”.

Foi sua última aparição na TV brasileira. Partiu para Portugal, onde passou a viver, filmar e viajar pelo mundo. Em meados agosto de 1981, a saúde apresentou problemas pulmonares, foi internado em Lisboa e pouco depois entrou em estado de coma. Os amigos providenciaram sua transferência para um hospital no Rio de Janeiro e veio a falecer em 22/8/1981. Costumava dizer que era uma reencarnação de Castro Alves e que iria morrer aos 42 anos. Em seu enterro, Darcy Ribeiro fez um comovente discurso ressaltando sua indignação política. Seu último filme foi A idade da terra (1980), que concorreu ao Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Foi seu 5º filme na lista dos “100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos”. Entre os dias 14 e 24 de março de 2019, ao completar 80 anos se estivesse vivo, a Prefeitura de Vitória da Conquista realizou ampla programação com o evento “Glauber Rocha ressuscita o povo brasileiro“, com mostra de filmes, debates, exposição etc.

O cineasta deixou um enorme acervo de filmes, textos inéditos, fotos, desenhos e documentos em geral, organizados por Dona Lúcia e Paloma Rocha, mãe e filha respectivamente, colocados à disposição do público no “Tempo Glauber”, um espaço cultural no Rio de Janeiro, de 1983 a 2017, quando foi transferido para a Cinemateca Brasileira. Pouco depois do falecimento, uma frase-síntese de sua vida passou a circular no meio intelectual: “Foi um cineasta controvertido e incompreendido, patrulhado pela esquerda e pela direita”. Para muitos era considerado gênio do cinema; para outros era um “profeta” dado o acerto de algumas de suas afirmações.

Após sua morte, surgiram alguns livros na tentativa de compreender o homem e/ou sua obra: Glauber Rocha, de Sylvie Pierre (Papirus, 1997); Sertão Mar: Glauber e a estética da fome, de Ismail Xavier (Cosac & Naify, 2007); Glauber Rocha: cinema, estética e revolução, de Humberto Pereira de Souza (Paco Editorial, 2016); A primavera do dragão, de Nelson Motta (Objetiva, 2019), além de uma de uma densa biografia publicada por seu amigo João Carlos Teixeira: Glauber Rocha, esse vulcão, lançada em 1997 pela editora Nova Fronteira. Um livro interessante e revelador de sua personalidade foi publicado em 1997 (Cia. das Letras), organizado por Ivana Bentes. Trata-se de Cartas ao mundo, reunindo 270 cartas escritas por ele, entre 14 e 42 anos, e dirigidas aos parentes e amigos (Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, José Guilherme Merquior, Caetano Veloso… Vistas no conjunto, as cartas apresentam um retrato íntimo de uma das personalidades mais fascinantes do século passado.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Olívia Penteado

Olívia Guedes Penteado nasceu em Campinas, SP, em 12/3/1872. Escritora e mecenas dos artistas da Semana de Arte Moderna de 1922. Integrante da aristocracia paulista, foi apelidada de “Nossa Senhora do Brasil”, pelos modernistas. Batalhou pelo voto feminino, promoveu a eleição da 1ª mulher deputada federal (Carlota Pereira de Queiroz) e participou ativamente da Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo.

Filha de José Guedes de Souza e Carolina Álvares Guedes, casou-se com seu primo Ignácio Penteado, irmão do conde Álvares Penteado, em 1888, e foi viver em Paris, onde fez de sua casa um importante ponto de encontro cultural e conheceu aluguns dos protagonistas do movimento modernista brasileiro, que por lá “flanavam”. Antes de conhecer os modernistas costumava receber os poetas parnasianos, tais como Olavo Bilac e Alberto de Oliveira. Em 1923, ao ficar viúva, voltou a viver em São Paulo e reuniu a nata da intelectualidade paulista em sua casa. Em seguida, criou o “Salão de Arte Moderna”, instituindo o “Modernismo” na cultura brasileira. Na condição de colaboradora da revista “Contemporânea”, veículo lisboeta de divulgação dos modernistas portugueses, tornou-se correspondente da revista no Brasil.

Em São Paulo sua mansão -ocupando a esquina das ruas Duque de Caxias e Conselheiro Nébias (onde hoje fica o Hotel Comodoro)- foi projetada por Ramos de Azevedo e foi reformada incluindo um pavilhão para abrigar as obras de arte. A pintura do teto foi refeita por Lasar Segal, tendo em vista uma melhor adequação com as “artes modernas”. Contava com uma bela coleção de obras de arte, incluindo o fantástico Le Polichinelle lisant “Le Populaire”, de Picasso; a escultura “Négresse Blonde”, de Brancusi e obras de Delanay, Foujita, Cézanne, Degas, Marie Laurencin, Brecheret, Portinari, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral entre outras

As reuniões semanais reunia uma plêiade de artistas e escritores daqui e de fora. Em 18/2/1924 o “Correio Paulistano” noticiou: “A sociedade paulista, que tem em D. Olívia Guedes Penteado uma das figuras de mais fino relevo e mais aristocrática tradição, festejou anteontem o notável escritor francês Blaise Cendrars, que teve na fidalga residência da Rua Conselheiro Nébias um acolhimento de excepcional elegância e de inexcedível fidalguia e intelectualidade”. Tais encontros e reuniões incluía também o chá das terças-feiras e os grandes jantares nos salões de décor clássico frequentados pela elite paulistana, incluindo, é claro, os protagonistas da Semana de Arte Moderna.

Blaise Cendrars ficou amigo dos modernistas e veio outras vezes à São Paulo. Numa dessas viagens juntou-se a um grupo de paulistas para visitar as cidades históricas de Minas Gerais. Participaram da excursão: ela, Mário e Oswald de Andrade e seu filho Noné, René Thiollier e Tarsila do Amaral. O poeta francês ficou encantado com as obras de Aleijadinho e Dona Olívia ficou indignada com o estado de abandono das igrejas. De volta à São Paulo, ela decidiu criar a “Sociedade dos Amigos dos Monumentos Históricos do Brasil”, cujos estatutos foram redigidos pelo poeta em um “chá das cinco” e logo foram inscritos não apenas os que viajaram à Minas, bem como Carlos de Campos, recém-empossado presidente do Estado e outras personalidades presentes na solenidade do chá.

Esse turismo cultural, promovido por ela, denominado por Mario de Andrade “viagens de descobrimento do Brasil”, alcançou o carnaval do Rio de Janeiro e chegou até à Amazônia, em 1927, numa viagem de navio subindo o rio Solimões até Iquitos, no Peru. Estas excursões ficaram registradas nas poesias de Oswald de Andrade (Pau Brasil), Mário de Andrade (Noturno de Belo Horizonte) e em pinturas de Tarsila do Amaral. Mas nem só de arte vivia a aristocracia paulista. Na Revolta Paulista de 1924, ou segunda revolta tenentista, São Paulo foi tomada por canhões e o poeta Cendrars, que participara da I Guerra Mundial, onde perdeu um braço, deu-lhe orientações como proteger a casa e sua coleção.

Em 1932 passou a integrar o Instituto Geográfico e Histórico de São Paulo e no mesmo ano participou da Revolução Constitucionalista de 1932, ajudando os feridos e as famílias dos combatentes na condição de Diretora do Departamento de Assistência Civil. Prestou substancial ajuda ao movimento doando valiosas joias à “Campanha de Ouro para o Brasil”, necessária à manutenção das frentes de combate. Por essa época estimulou e patrocinou a candidatura de Carlota Pereira de Queiroz, a primeira mulher a se eleger deputada no Brasil. Foi uma mulher à frente de seu tempo e transitou bem entre dois séculos e duas estéticas. Faleceu em 9/6/1934 de apendicite. Foi sepultada no Cemitério da Consolação e seu túmulo conta com uma escultura – O Sepultamento – feita por Victor Brecheret. O filho de seu genro, Goffredo da Silva Telles Jr., lembra que ao levar o caixão embandeirado ao carro dos bombeiros “sentimos um movimento do povo, uma aproximação compacta de gente, em torno de nós (…) E então vimos o total inesperado. O povo silenciosamente se assenhorou do esquife embandeirado. Homens desconhecidos, segurando as alças do féretro, puseram se a caminho. E o levaram, na força de seus braços, pelas ruas de São Paulo”.

Foi descrita com uma mulher sensível, bela, boa e de uma elegância soberana. Seu retrato (106 x 135 cm.) foi pintado, em 1911, por Henri Gervex e encontra-se exposto na Pinacoteca do Estado. Em 2002 o Museu de Arte Brasileira, da FAAP-Fundação Armando Alvares Penteado, realizou a exposição “No tempo dos modernistas: Dona Olívia Penteado, Senhora das Artes” e lançou o livro homônimo, organizado por Denise Mattar e Aracy A. Amaral.

Um belo relato de sua trajetória e época, que pode ser visto clicando aqui.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Plácido de Castro

José Plácido de Castro nasceu em 12/12/1873, em São Gabriel, RS. Militar do Exército Brasileiro, no posto de Major, combateu na Revolução Federalista (1893-1895) ao lado dos “Maragatos” contra os “Chimangos” do Partido Republicano comandando por Júlio de Castilhos. Recusou a anistia oferecida aos envolvidos na revolta, abandonou a carreira militar e foi para o Acre, onde liderou a guerra contra a Bolívia para anexar aquela região ao território brasileiro.

Filho, neto e bisneto de militares, trabalhou em diversas atividades desde os 9 anos e ficou órfão de pai aos 11. Continuou trabalhando até os 16 anos, quando entrou no 1º Regimento de Artilharia de Campanha como 2º cadete. Pouco depois matriculou-se na Escola Tática do Rio Pardo, obtendo máximo aproveitamento e voltou ao Regimento, onde serviu como 2º sargento. Ao se dar a “Revolução Federalista, em 1893, era aluno da Escola Militar de Porto Alegre. A renúncia de Deodoro da Fonseca e a posse do vice Floriano Peixoto, desagradou parte do Exército, que queria novas eleições diretas. Os dois grupos: Federalistas (Maragatos) e Republicanos (Chimangos) entraram em conflito e Plácido aderiu aos Federalistas, que foram derrotados no conflito que durou por 2 anos.

A causa da Revolução Federalista consistiu no fato de os Maragatos quererem um governo mais descentralizado, uma federação de estados e os Chimangos pleiteavam um governo mais centralizado, uma república. Ao fim da revolta, com a vitória dos Chimangos, todos os envolvidos no conflito foram anistiados, mas ele recusou a anistia, abandonou a carreira militar e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde tornou-se agrimensor. Inquieto e aventureiro, mudou-se para o Acre, em 1899, uma região em conflito na demarcação de fronteiras com a Bolívia. Aos 26 anos viu ali uma oportunidade para tentar a sorte, tendo em vista as ofertas oferecidas ao trabalho de agrimensor na demarcação de terras.

Em princípios do século XX, já instalado na região, tomou parte nos conflitos entre o Brasil e a Bolívia pelo domínio da região. Sua participação na “Revolução Acreana” se deu em 1902, quando a Bolívia arrendou o território a um sindicato estrangeiro (Bolivian Syndicate), constituído por capitais ingleses e norte-americanos. Tratava-se de uma guerra pela conquista do mercado da borracha em alta no mercado internacional. Com recursos financeiros e militares fornecidos pelo Sindicato, os bolivianos travaram algumas batalhas com os brasileiros, em grande parte seringueiros habitantes da região. Numa das batalhas, com apenas 60 seringueiros sob seu comando, enfrentou um contingente de 400 bolivianos. Na batalha final seu “exército”, contando com 30 mil homens, venceu as tropas bolivianas contando com 100 mil soldados

Assim, foi proclamado o “Estado Independente do Acre’, tendo Plácido de Castro como protagonista do evento. Poucos meses depois batalha final, ele esteve em Riberalta, cidade boliviana, para tratar da legalização das terras em sua posse e ficou surpreendido pela acolhida dos habitantes numa recepção promovida por Don Nicolas Suarez, o maior proprietário de terras daquela região, para lhe agradecer em nome de seu país, a fidalguia com que Plácido tratara seus compatriotas bolivianos prisioneiros de guerra.

Em 1903, com o “Tratado de Petrópolis”, o Acre foi anexado ao Brasil e o “Estado Independente” foi dissolvido, mas ele continuou por lá exercendo poder e influência até que em 1906 foi nomeado governador do “Território do Acre”. Pouco depois viajou para o Rio de Janeiro, em visita à família, e lhe foi oferecido o posto de coronel da Guarda Nacional, que foi prontamente recusado. Quando voltou à região, foi nomeado prefeito da Região do Alto Acre. Sua atuação e conquistas nos confins do Brasil causaram ciúmes em alguns líderes políticos, particularmente no subdelegado das tropas acreanas -coronel Alexandrino José da Silva-, que insatisfeito com sua posição no poder do Acre, bem menor que o de Plácido, dizem que armou uma emboscada composta por mais de 10 jagunços e mataram-no em 11/8/1908.

Antes de falecer, pediu ao irmão Genesco de Castro: “Logo que puderes, retira daqui os meus ossos. Direi como aquele general africano: ‘Esta terra que tão mal pagou a liberdade que lhe dei, é indigna de possuí-los.’”. O crime nunca foi devidamente investigado e ficou para sempre impune. Seus ossos foram sepultados no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre. A família fez questão de deixar gravado no pedestal do túmulo os nomes e sobrenomes dos seus 14 carrascos. Passado um longo tempo, passou a receber diversas homenagens no Acre, no Rio Grande do Sul e reconhecido em âmbito nacional.

Em 1973, no centenário de nascimento, foi inaugurado um busto em sua homenagem na Praça Nações Unidas, em Porto Alegre. Seu nome é reverenciado na região norte como o “Libertador do Acre” e em 1976 seu nome foi dado ao novo município criado a 100 km. da capital Rio Branco. É também o patrono do 4º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro, o “Batalhão Plácido de Castro”. Em 2004 foi entronizado no “Panteão da Pátria e da Liberdade”, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Sua vida e legado foram documentados no livro Plácido de Castro: um caudilho contra o imperialismo, uma narrativa histórico-biográfica, escrita por Cláudio Araújo Lima, na década de 1950. Um livro bem recebido pelo público, que se encontra na 6ª edição, publicado pela Editora Valer.

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OS BRASILEIROS: Augusto dos Anjos

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d’Arco, Sapé, PB, em 20/4/1884. Advogado, professor e um dos melhores e mais enigmáticos poetas da literatura brasileira. É visto como o poeta da morte e da melancolia, devido ao teor de seus poemas. Criado numa família de senhores de engenho, teve os primeiros estudos em casa e no Liceu Paraibano, onde veio a ser professor em 1908. Foi poeta precoce fazendo versos aos 7 anos, motivado pela grande biblioteca mantida pelo seu pai.

Em 1903, ingressou na Faculdade de Direito do Recife e diplomou-se em 1907, mas nunca exerceu a advocacia. Na época a Faculdade sediava a famosa “Escola do Recife”, um centro irradiador de cultura no Nordeste, onde pontificavam Tobias Barreto, Silvio Romero, Clóvis Bevilácqua, Pontes de Miranda, Castro Alves, Capistrano de Abreu, Graça Aranha e tantos outros nomes ilustres do pensamento filosófico e literário. A Escola cultuava mestres como Herbert Spencer e Ernst Haeckel, dois filósofos-cientistas, os quais tiveram expressiva influência em sua poesia de caráter “científico”. De volta à João Pessoa, casou-se em 1910 com Ester Fialho e entrou para o magistério. Apesar de ser católico, mantinha vivo interesse pelo Espiritismo, que surgia no Brasil, chegando a comandar reuniões mediúnicas, receber espíritos e a exercer a psicografia.

Escreveu vários poemas em revistas e jornais, sendo o primeiro – Saudade – aos 16 anos. Mas publicou apenas um livro com o sugestivo título “Eu”, editado com seus próprios recursos no Rio de Janeiro, em 1912. Seu amigo Órris Soares organizou uma nova edição – Eu e Outras Poesias – publicada em 1920, com a qual ficou conhecido em todo o País e admirado pelos seus pares, críticos e o público em geral. Seus poemas, não obstante a complexidade dos temas e dos termos usados, eram declamados pelas pessoas simples mesmo sem entender a linguagem cientificista. O fato de atrair um grande público leigo, deve-se talvez ao fato de utilizar muitas vezes uma linguagem agressivamente crua. Outro fator de sucesso deve-se a um certo fascínio pelos ritmados jogos de palavras, ideias e rimas geniais. A obra, a princípio, foi considerada pela crítica e pelo público, habituados á elegância parnasiana, como um livro de mau gosto e malcriado, além de inclassificável nas correntes literárias. Não era parnasiano nem pré-modernista, como alguns críticos têm considerado.

Seus poemas ficaram marcados como os mais estranhos de toda a nossa literatura devido não só a linguagem, como a dificuldade de enquadramento estilístico e a temática que preconizava o fim das ilusões românticas, a fatalidade da morte e o processo de demolição dos valores e sonhos humanos. Expressava tais sentimentos em belos versos como:

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que abriga é a mesma que apedreja”.

Ou

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Segundo os críticos “foi transformado em catecismo pelos pessimistas e em bíblia dos azarados e malditos. O livro Eu é de uma instigante popularidade, resistente a todos os modismos, impermeável às retaliações da crítica e aos vermes do tempo. Foi o poeta mais original de nossa literatura”. E para arrematar: “Apoiando-se em hipérboles e paradoxos, e na exploração de efeitos sonoros, Augusto dos Anjos funde a inflexão simbolista e a retórica científica, criando uma dicção singular, que projeta a hipersensibilidade e a visão trágica e mórbida da existência”. Foi um dos poetas mais estudados e reeditados do País. Sua popularidade tem uma explicação na visão de Otto Maria Carpeaux: “A abundância de estranhas expressões científicas e de palavras esquisitas em seus versos atraiu os leitores semicultos que não compreenderam nada de sua poesia e ficavam, no entanto, fascinados pelas metáforas de decomposição em seus versos assim como estavam em decomposição suas vidas”

Pouco depois do casamento, sua família vendeu o Engenho Pau d’Arco e o casal mudou-se para o Rio de Janeiro. Aí passou a lecionar em diversas escolas, incluindo o Colégio Pedro II, onde foi contratado como professor de Geografia em 1911. Por essa época publicou diversos poemas em jornais e revistas até o lançamento de seu livro. Em 1913 mudou-se para Leopoldina (MG), e assumiu a direção do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. No mesmo ano nasceu seu filho Guilherme Augusto. Continuou a publicação de seus poemas na “Gazeta de Leopoldina”, de seu concunhado Rômulo Pacheco. Em outubro de 1914 contraiu uma pneumonia e faleceu jovem, aos 30 anos, em 12/11/1914.

Não obstante a ausência de qualquer reconhecimento público em vida, seu único livro é um dos mais reeditados do País. Em 2001, a Editora Bertrand Brasil publicou a 43ª edição de Eu e outros poesias, com 217 poemas, a mais completa até então. Sua indiscutível força literária coloca-o no mesmo naipe de poetas do quilate de Edgard Allan Poe e Charles Baudelaire. Eles introduziram, cada qual em seu país, uma temática centrada na dor universal: solidão, amargura, crise existencial e perplexidade diante das injustiças da vida. Quando Drummond leu seus poemas, ficou perplexo: “Li-o na adolescência e foi como se levasse um soco na cara… Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor.”

É também um dos poetas sobre quem mais se escreveu neste País. Em 1978 Ferreira Gullar reacendeu no público o interesse pelo poeta ao publicar Toda a poesia de Augusto dos Anjos (Paz e Terra, 1978), incluindo um estudo crítico. Em 1996 a Editora Nova Aguilar teve a sensibilidade de incluí-lo entre as “edições da plêiade” sua Obra completa. Os poemas e o poeta já foram estudados sob o aspecto literário, psicológico e filosófico, além das biografias: O artesanato em Augusto dos Anjos e outros ensaios, de Manuel Cavalcanti de Proença (1973); A costela de prata de Augusto dos Anjos, de Anatol Rosenfeld (1973); Poesia e vida de Augusto dos Anjos. De Raimundo de Magalhães Jr. (1978); A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos, de Lucia Helena (1984); entre outros.

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AS BRASILEIRAS: Gilka Machado

Gilka da Costa de Melo Machado nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12/3/1893. Poeta e uma das primeiras mulheres a fazer poesia erótica no Brasil. Sua obra causou certo escândalo no meio social e críticas num restrito circuito literário da época. Porém foi elogiada por autores, como Lima Barreto, Olavo Bilac, Drummond e Jorge Amado. Foi também precursora na luta pela participação da mulher na Política, com a criação do PRF-Partido Republicano Feminino, em 1910.

Filha e neta de poetas e artistas: a mãe -Thereza Cristina Moniz da Costa- era atriz; o pai – Hortêncio da Gama Souza Melo – era poeta; o avô -Francisco Moniz Barreto- era poeta repentista, conhecido como “Bocage brasileiro”, é patrono na Academia de Letras da Bahia. Aos 14 anos venceu concurso de poesia no jornal “A imprensa”, ocupando os 3 primeiros lugares com seu nome e pseudônimos. O crítico Afrânio Peixoto, ao ver os poemas, disse que aqueles versos só poderiam ter sido escritos por uma “matrona imoral”, sem conhecer a autora.

Casou-se em 1910 com o poeta e jornalista Rodolfo Machado e teve 2 filhos: Hélios e Heros, que veio a se tonar a conhecida bailarina e atriz Eros Volúsia. No mesmo ano fundou o PRF, assumindo o cargo de secretária e tesoureira. Seu primeiro livro de poemas – Cristais partidos – saiu em 1915 e foi festejado por alguns críticos. Conta-se que ela teria recusado o prefácio de Olavo Bilac, pois queria “aparecer sem defesa nenhuma, sem escudo… com um prefácio seu, todo mundo já está me achando ótima”, teria explicado ao poeta. Nos anos seguintes, vieram outros: A revelação dos perfumes (1916), Estado de alma (1917), Poesias, 1915/1917 (1918) e Mulher nua (1922). Ao ficar viúva, aos 30 anos, passou por uns perrengues financeiros, abriu uma pensão frequentada por intelectuais e artistas e continuou escrevendo. Em 1933 venceu, com grande margem de votos, o concurso promovido pela revista “Malho”, e recebeu o título de “Maior Poeta do século XX”. Para dar uma ideia do tamanho da vitória, ela teve 100 pontos e Pagu (Patrícia Galvão) teve 7; Cecilia Meireles teve 6; Henriqueta Lisboa teve 3.

Numa época em que as mulheres eram confinadas numa vida doméstica e recatada, o que a análise deduz é que ela rompeu as barreiras do decoro público e chocou a sociedade com suas poesias exaltando paixões e desejos proibidos à mulher. Segundo Drummond, sua obra não era apenas poesia erótica. Ela mesclava “elementos simbolistas e em sua formação, tinha também algo de misticismo, às vezes contendo preocupações de ordem social, chegando a uma espécie de anarquismo romântico”. E disse mais em sua coluna no Jornal do Brasil, em 18/12/1980: “Gilka foi a primeira mulher nua da poesia brasileira”.

Já o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, achava que “ela foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos (1915) e Estados de Alma” (1917). Mas havia muita gente que não apreciava sua poesia. Rui Barbosa se perguntava: “como seria possível conciliar o espírito das senhoras de boa sociedade com o espírito de uma poetisa que tem o mau gosto de escrever essas coisas plebeias”. Para achincalhar sua pessoa, um jornal do Rio publicou caricatura onde ela pousa com uma saia esvoaçante com a legenda: “Eu sinto que nasci para o pecado”, retirado do soneto “Reflexões” de sua autoria. O achincalhe, como notícia de jornal, rendeu-lhe enorme visibilidade social e cultural.

Em 1952, aos 59 anos, retirou-se da vida pública: “Eu tomei enjoo – da poesia não, mas do ambiente”, revelou numa entrevista a Nádia Batella Gotlib, em 1979. A entrevistadora relata a dificuldade dos críticos em elogiar suas poesias. Para fazê-lo, alguns tiveram que dividi-la em duas. Humberto de Campos, por exemplo, “ressalta suas qualidades de poeta, mas faz questão de afirmar que, por outro lado, ela era ‘a mais virtuosa das mulheres e a mais abnegada das mães’”. Em 1977 Rachel de Queiroz e Jorge Amado estimularam sua candidatura. Não pleiteou a vaga, mas a ABL reconheceu seus méritos literários com a concessão do “Prêmio Machado de Assis”, em 1979, pelo conjunto da obra. No ano seguinte veio a falecer em 11/12/1980.

Pouco antes havia declarado: “Sonhei ser útil à humanidade. Não consegui, mas fiz versos. Estou convicta de que a poesia é tão indispensável à existência como a água, o ar, a luz, a crença, o pão e o amor”. Um de seus poemas mais conhecidos, extraído do livro Cristais partidos (1915) -Ser mulher- retrata a difícil condição da mulher, conforme se vê no trecho:

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insipida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Em 2017 foi relançada, pela editora Demônio Negro, sua Obra completa, organizada por Jamyle Rkain, num trabalho de resgate alertando que “precisamos olhar para as mulheres que sofreram a mesma invisibilidade que Gilka sofreu. Precisamos olhar para o passado – não só na literatura, mas na História em geral – sem os preconceitos que eram mais arraigados para tirarmos essas mulheres dos porões e mostrarmos suas contribuições para o mundo. Existem muitas.” Aqui mesmo, no JBF, o colega Pedro Malta tem publicado alguns de seus poemas.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Florestan Fernandes

Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, SP, em 22/7/1920. Sociólogo, professor, escritor, político e “Patrono da Sociologia Brasileira”. Estabeleceu novas metodologias de investigação sociológica com rigor analítico e novos padrões de atuação do intelectual no quadro político do País. É considerado o “protótipo do intelectual público”, dado seu rigor acadêmico com o compromisso pela liberdade e igualdade no trato da coisa pública.

Filho de Maria Fernandes, portuguesa e empregada doméstica na casa de Hermínia Bresser de Lima, tradicional família paulistana, de quem tornou-se “afilhado”. Aí viveu até os 3 anos e voltou a morar na casa da “madrinha” aos 6 anos. “Aquilo que poucos da plebe conseguiam ter, a ideia do que era a outra vida, a vida dos ricos, dos poderosos – eu era capaz de perceber através de experiências concretas”. Na época estudou numa escola particular do Brás e tinha plena consciência de sua condição social. Nesta casa viveu até o dia em que a “madrinha” pediu à sua mãe que lhe desse o filho. A resposta foi “só cachorro é que se dá” e foi morar em cortiços. Estudou até o 3º ano do curso primário, mas deixou o curso aos 9 anos para trabalhar e ajudar a mãe. Começou como auxiliar numa barbearia, engraxate, auxiliar de marcenaria, açougue, alfaiataria…

Aos 17 anos trabalhou como garçom no Bar Bidu, na Rua Líbero Badaró, ao lado do Ginásio Riachuelo. “Os professores iam ao bar tomar seu lanche, depois das aulas. Eu sempre ficava atento aos fregueses com os quais podia aprender alguma coisa”. Nesse convívio foi estimulado pelos clientes a retomar os estudos num “curso de madureza” (supletivo) do ginásio ao lado, obtendo certo aproveitamento. Após o serviço militar, conseguiu emprego no Laboratório Novoterápica e passou a ganhar salário suficiente para custear os estudos e ajudar a mãe. Neste emprego teve os primeiros contatos com a política através dos colegas, filhos de italianos, que traziam notícias sobre o movimento socialista europeu. Como leitor de jornais, passou a frequentar as redações d’ O Estado de São Paulo e Folha da Manhã, onde conheceu Hermínio Saccheta, líder do movimento trotskista, e tornou-se militante do Partido Socialista Revolucionário. “Passei, então, de pato a ganso. As minhas leituras desordenadas adquiriram outra direção e, pela primeira vez, passei a ler os clássicos com afinco e me concentrar sobre a literatura, especialmente a brasileira”. Ao concluir o Curso de Madureza, prestou o exame vestibular e entrou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP, em 1941. “Sentia-me à vontade com os colegas e era um estudante promissor para alguns professores”.

Formado em Ciências Sociais, em 1943, iniciou a carreira docente no ano seguinte como assistente do prof. Fernando de Azevedo. Tal conquista deveu-se a indicação de outro assistente, seu colega Antônio Cândido. A partir daí inicia a carreira acadêmica, fazendo o curso de mestrado na Escola Livre de Sociologia e Política, com a dissertação “A organização social dos Tupinambás”. Em seguida retornou à USP para o curso de doutorado. Aprofundou os estudos sobre o povo Tupinambá e, em 1951, defendeu a tese “A função social da guerra na sociedade Tupinambá”, Dissertação e tese resultaram em dois livros lançados em 1949 e 1951, sendo o último consagrado como clássico da etnologia brasileira. Com o estudo crítico de diversas fontes e, sobretudo, de relatos de viagens, conseguiu imprimir nas ciências sociais um caráter científico com métodos e critérios rigorosos de avaliação. Tal caráter ficou mais claro no livro Fundamentos empíricos da explicação sociológica, publicado em 1959. É o início da chamada “Escola Paulista de Sociologia”, integrada por Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Gabriel Cohn e Maria Sylvia de Carvalho Franco, entre outros. Junto com Roger Bastide, passou a estudar as relações entre negros e brancos em São Paulo, a convite da UNESCO.

A partir de um grupo de estudos e participação da comunidade negra da cidade, começam a desmontar a ideia da tal “democracia racial’, defendida pela sociologia de Gilberto Freyre. Junto com os alunos foram feitas pesquisas na periferia, baseadas numa metodologia aplicada. No período 1954-1964, assumiu a cátedra de livre docente em sociologia, substituindo o prof. Roger Bastide, com a tese “A integração do negro na sociedade de classes”, resultado da pesquisa solicitada pela UNESCO. A conclusão do estudo é que as mudanças ocorridas com o fim da escravidão “não foram suficientemente profundas para desorganizar o sistema de relações sociais, que se elabora como conexão da escravidão e da dominação senhorial”. Neste ponto dá-se o início de sua carreira como “intelectual público”, consolidada no final da década de 1950, ao sair do confinamento acadêmico para defender a escola pública. Passa, então, a integrar a luta pela aprovação da “Lei de Diretrizes e Bases da Educação”, ao lado de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

Com o Golpe Militar de 1964 foi submetido a um IPM-Inquérito Policial Militar, junto com outros professores da USP. Seu envolvimento na resistência política vai se ampliando até 1968, quando dá entrevista ao “Correio da Manhã”, e afirma que é preciso “lutar contra o comportamento fascista do setor militar que empolgou o Governo”. Com o AI-5 e o recrudescimento da ditadura, entrou na lista dos cassados e foi aposentado compulsoriamente. A saída foi aceitar o convite para lecionar numa universidade do Canadá. Outra saída foi aprofundar o estudo sobre a situação política do Brasil, que resultou na publicação de A revolução burguesa no Brasil (1973) e Circuito fechado (1976). De volta do Canadá, em 1972, enfrentou uma série de perrengues: foi contaminado com o vírus da hepatite B numa cirurgia (1975); uma separação temporária da esposa e um ataque cardíaco (1981). Retomou as aulas como professor de pós-graduação na PUC-Pontifícia Universidade Católica e ampliou seu envolvimento político, que resultou na filiação ao recém-criado PT-Partido dos Trabalhadores. A filiação não foi imediata e não integrou o grupo de fundadores. Passou a escrever artigos no jornal Folha de São Paulo, em 1983 e seus textos produziram uma aproximação com o PT, vindo a assinar a ficha de filiação em 1986 e disputar vaga de deputado constituinte.

Uma vez eleito, teve atuação destacada no congresso constituinte e participação pública através de sua coluna semanal no jornal Folha de São Paulo, a partir de 1989. No ano seguinte, foi reeleito deputado federal e retomou sua luta pela educação pública e gratuita. Em 1994 a saúde deu sinais de alerta, mas continuou bastante ativo com artigos na imprensa. Nas eleições presidenciais de 1994 (FHC x Lula), não apoiou seu aluno predileto e grande amigo Fernando Henrique Cardoso, mas absteve-se de criticá-lo. No entanto fez duras críticas ao PSDB em suas alianças com o PFL e lamentava a cisão entre o PT e PSDB. Em agosto de 1995, ao passar por um transplante de fígado malsucedido, veio a falecer. No ano seguinte foi agraciado postumamente com uma almejada comenda: “Prêmio Anísio Teixeira”, que homenageia os brasileiros que mais se dedicaram à educação pública.

Deixou um legado com mais de 50 livros publicados e um aporte considerável ao estudo da sociologia. Existem algumas biografias registrando sua trajetória de vida e legado: Florestan (1998), de José de Souza Martins. Florestan Fernandes (2001), de Antônio Candido; Florestan Fernandes: vida e obra (2004), de Laurez Cerqueira; Florestan Fernandes: sociologia crítica e militante (2005), de Octavio Ianni. Temos inclusive uma que aborda exclusivamente sua formação diante da vida precária que teve na infância e adolescência. Sylvia G. Garcia realizou belo trabalho, combinando biografia e análise histórica; sobre as circunstâncias em que viveu o sociólogo; os problemas enfrentados; os resultados de tal vivência e deu um título síntese de seu estudo: Destino ímpar: sobre a formação de Florestan Fernandes (2002).

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AS BRASILEIRAS: Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz nasceu em 17/11/1910, em Fortaleza, CE. Escritora, tradutora, jornalista, cronista, dramaturga e uma das mais destacadas romancistas da literatura brasileira. Foi a primeira mulher a ingressar na ABL-Academia Brasileira de Letras e primeira a receber o Prêmio Camões, a maior premiação literária da Língua Portuguesa, concedido numa parceria entre Portugal e Brasil.

Sua mãe -Clotilde Franklin de Queiroz- era professora (descendente de José de Alencar) e o pai -Daniel de Queiroz- era advogado. Aos 5 anos, a grande seca do Nordeste de 1915 expulsou a família para o Rio de Janeiro e pouco depois para Belém do Pará. Mas acabaram voltando para Fortaleza, onde ela concluiu o curso normal no Colégio Imaculada Conceição, em 1925. Após escrever uma carta para o jornal “O Ceará” ridicularizando o concurso “Rainha dos Estudantes”, recebeu convite de seu diretor para colaborar no jornal, e passou a escrever crônicas e poemas (com o pseudônimo Rita de Queluz) e publicou seu primeiro romance na forma de folhetim: História de um nome.

Passou a colaborar em outros jornais na década de 1920, quando Mario de Andrade alardeava sua campanha de “abrasileiramento do Brasil”. Influenciada pelo clamor do líder modernista, entrou no irreverente grupo do suplemento literário “Maracajá”, do jornal “O Povo”. Aos 19 anos publicou o romance O Quinze (1930), contando a tragédia da grande seca vivida na infância. O livro deu-lhe projeção nacional e tornou-se sua obra mais conhecida. No ano seguinte, o livro recebeu o prestigiado Prêmio Graça Aranha e tornou-se um clássico da literatura brasileira. Pouco antes passou a se interessar pela política social e ingressou no Bloco Operário Camponês, tornando-se um núcleo do PCB-Partido Comunista Brasileiro.

Em 1932 casou-se com o poeta José Auto da Cruz Oliveira e publicou o segundo romance: João Miguel. Uma dupla tragédia ocorreu em 1933 com a perda da única filha, vitimada por uma meningite com apenas 1 ano e 5 meses, seguida pela morte de seu irmão predileto 3 meses depois. Foi um golpe sobre o qual ela se referiu poucas vezes na vida: “Eu a amei apaixonadamente e nunca me recuperei do golpe que foi perdê-la, assim tão novinha”. Por essa época tem início suas divergências e rompimento com a direção do Partido e uma aproximação com Lívio Xavier e seu grupo em São Paulo, para onde mudou-se em 1933. Junto com Mário Pedrosa, Aristides Lobo e Plínio Mello passou a integrar um grupo de “trotskistas”, dissidentes do “Partidão”. Perseguida pela polícia de Getúlio Vargas, mudou-se para Maceió, em 1935, e viu seu livro na fogueira junto com os de Jorge Amado, Graciliano e José Lins do Rego queimados sob acusação de serem subversivos. Pouco depois foi presa em Fortaleza, cuja experiência resultou no romance Caminho das Pedras (1937).

Já consagrada como escritora, mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1939, e no mesmo ano recebeu o Prêmio Felipe d’Oliveira, com o livro As três marias, um romance intimista, quase autobiográfico. Na ocasião se separou do marido e no ano seguinte casou-se com o médico Oyama de Macedo. Iniciou na crônica jornalística no “Diário de Notícias,” passa pela “Última Hora” e “Jornal do Commércio” e chega a revista “O Cruzeiro”, onde publicou o folhetim O Galo de Ouro (1950). Escreveu mais de 2 mil crônicas semanais na revista O Cruzeiro durante 30 anos, até seu fim em 1975, quando passou a publicá-las no jornal O Estado de São Paulo. Incursionou no gênero dramático e publicou a peça Lampião (1953), garantindo-lhe o Prêmio Saci. Em 1957 recebeu outro prêmio com a peça Maria do Egito, consolidando a carreira de dramaturga.

Além do prestígio literário, tinha livre trânsito na política. Em 1961 foi convidada pelo presidente Jânio Quadros para ocupar o Ministério da Educação, mas declinou: “Sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista”. No entanto não recusou o convite para integrar o Conselho Federal de Cultura, onde permaneceu de 1967 até 1989. Como ela mesmo disse, era mais jornalista do que escritora, com suas crônicas publicadas quase diariamente nos jornais e revistas e, depois, reunidas em livros: Cem crônicas escolhidas (1958), O brasileiro perplexo (1964), O caçador de tatu (1967) entre outras coletâneas. Retornou ao romance em 1975 com Dora Doralina e dois anos depois torna-se a 1ª mulher a ingressar na ABL. Anos depois voltou a ficar mais conhecida do grande público com a publicação do Memorial de Maria Moura (1993) romance que foi adaptado para a TV. No mesmo ano recebeu o Prêmio Camões, o mais cobiçado da língua portuguesa.

Aos 86 anos, uniu-se a irmã Maria Luiza de Queiroz Salek e, juntas, passaram a escrever textos memorialísticos e autobiográficos: Nosso Ceará (1996), Tantos anos (1998) e Não me deixes: suas histórias e sua cozinha (2000), seu último livro. “Não me deixes” é o nome da fazenda de sua família no Ceará, que ela transformou numa RPPN-Reserva Particular do Patrimônio Natural. Em 2000 foi eleita como uma dos “20 Brasileiros empreendedores do Século XX”, numa pesquisa realizada pela PPE-Personalidades Patrióticas Empreendedoras. As premiações, comendas e homenagens foram constantes em sua vida. Além dos prêmios citados, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL (1958), Prêmio Teatro, do INL – Instituto Nacional do Livro (1959), Prêmio Nacional de Literatura de Brasília (1980), Prêmio Moinho Santista (1996) entre outros, e títulos de ”Doutora Honoris Causa” de diversas universidades.

Em termos biográficos, temos um ensaio publicado poucos meses antes de sua morte: No alpendre com Rachel, de José Luís Lira, seguido de um perfil biográfico – Rachel de Queiroz -, publicado por Socorro Acioli no mês seguinte ao seu falecimento pelas Edições Demócrito Rocha, sem contar com autobiografia Tantos anos (1998). Rachel de Queiroz faleceu em 4/11/2003 e foi sepultada envolta numa rede, seu lugar preferido para descanso.