JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Rachel de Queiroz nasceu em 17/11/1910, em Fortaleza, CE. Escritora, tradutora, jornalista, cronista, dramaturga e uma das mais destacadas romancistas da literatura brasileira. Foi a primeira mulher a ingressar na ABL-Academia Brasileira de Letras e primeira a receber o Prêmio Camões, a maior premiação literária da Língua Portuguesa, concedido numa parceria entre Portugal e Brasil.

Sua mãe -Clotilde Franklin de Queiroz- era professora (descendente de José de Alencar) e o pai -Daniel de Queiroz- era advogado. Aos 5 anos, a grande seca do Nordeste de 1915 expulsou a família para o Rio de Janeiro e pouco depois para Belém do Pará. Mas acabaram voltando para Fortaleza, onde ela concluiu o curso normal no Colégio Imaculada Conceição, em 1925. Após escrever uma carta para o jornal “O Ceará” ridicularizando o concurso “Rainha dos Estudantes”, recebeu convite de seu diretor para colaborar no jornal, e passou a escrever crônicas e poemas (com o pseudônimo Rita de Queluz) e publicou seu primeiro romance na forma de folhetim: História de um nome.

Passou a colaborar em outros jornais na década de 1920, quando Mario de Andrade alardeava sua campanha de “abrasileiramento do Brasil”. Influenciada pelo clamor do líder modernista, entrou no irreverente grupo do suplemento literário “Maracajá”, do jornal “O Povo”. Aos 19 anos publicou o romance O Quinze (1930), contando a tragédia da grande seca vivida na infância. O livro deu-lhe projeção nacional e tornou-se sua obra mais conhecida. No ano seguinte, o livro recebeu o prestigiado Prêmio Graça Aranha e tornou-se um clássico da literatura brasileira. Pouco antes passou a se interessar pela política social e ingressou no Bloco Operário Camponês, tornando-se um núcleo do PCB-Partido Comunista Brasileiro.

Em 1932 casou-se com o poeta José Auto da Cruz Oliveira e publicou o segundo romance: João Miguel. Uma dupla tragédia ocorreu em 1933 com a perda da única filha, vitimada por uma meningite com apenas 1 ano e 5 meses, seguida pela morte de seu irmão predileto 3 meses depois. Foi um golpe sobre o qual ela se referiu poucas vezes na vida: “Eu a amei apaixonadamente e nunca me recuperei do golpe que foi perdê-la, assim tão novinha”. Por essa época tem início suas divergências e rompimento com a direção do Partido e uma aproximação com Lívio Xavier e seu grupo em São Paulo, para onde mudou-se em 1933. Junto com Mário Pedrosa, Aristides Lobo e Plínio Mello passou a integrar um grupo de “trotskistas”, dissidentes do “Partidão”. Perseguida pela polícia de Getúlio Vargas, mudou-se para Maceió, em 1935, e viu seu livro na fogueira junto com os de Jorge Amado, Graciliano e José Lins do Rego queimados sob acusação de serem subversivos. Pouco depois foi presa em Fortaleza, cuja experiência resultou no romance Caminho das Pedras (1937).

Já consagrada como escritora, mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1939, e no mesmo ano recebeu o Prêmio Felipe d’Oliveira, com o livro As três marias, um romance intimista, quase autobiográfico. Na ocasião se separou do marido e no ano seguinte casou-se com o médico Oyama de Macedo. Iniciou na crônica jornalística no “Diário de Notícias,” passa pela “Última Hora” e “Jornal do Commércio” e chega a revista “O Cruzeiro”, onde publicou o folhetim O Galo de Ouro (1950). Escreveu mais de 2 mil crônicas semanais na revista O Cruzeiro durante 30 anos, até seu fim em 1975, quando passou a publicá-las no jornal O Estado de São Paulo. Incursionou no gênero dramático e publicou a peça Lampião (1953), garantindo-lhe o Prêmio Saci. Em 1957 recebeu outro prêmio com a peça Maria do Egito, consolidando a carreira de dramaturga.

Além do prestígio literário, tinha livre trânsito na política. Em 1961 foi convidada pelo presidente Jânio Quadros para ocupar o Ministério da Educação, mas declinou: “Sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista”. No entanto não recusou o convite para integrar o Conselho Federal de Cultura, onde permaneceu de 1967 até 1989. Como ela mesmo disse, era mais jornalista do que escritora, com suas crônicas publicadas quase diariamente nos jornais e revistas e, depois, reunidas em livros: Cem crônicas escolhidas (1958), O brasileiro perplexo (1964), O caçador de tatu (1967) entre outras coletâneas. Retornou ao romance em 1975 com Dora Doralina e dois anos depois torna-se a 1ª mulher a ingressar na ABL. Anos depois voltou a ficar mais conhecida do grande público com a publicação do Memorial de Maria Moura (1993) romance que foi adaptado para a TV. No mesmo ano recebeu o Prêmio Camões, o mais cobiçado da língua portuguesa.

Aos 86 anos, uniu-se a irmã Maria Luiza de Queiroz Salek e, juntas, passaram a escrever textos memorialísticos e autobiográficos: Nosso Ceará (1996), Tantos anos (1998) e Não me deixes: suas histórias e sua cozinha (2000), seu último livro. “Não me deixes” é o nome da fazenda de sua família no Ceará, que ela transformou numa RPPN-Reserva Particular do Patrimônio Natural. Em 2000 foi eleita como uma dos “20 Brasileiros empreendedores do Século XX”, numa pesquisa realizada pela PPE-Personalidades Patrióticas Empreendedoras. As premiações, comendas e homenagens foram constantes em sua vida. Além dos prêmios citados, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL (1958), Prêmio Teatro, do INL – Instituto Nacional do Livro (1959), Prêmio Nacional de Literatura de Brasília (1980), Prêmio Moinho Santista (1996) entre outros, e títulos de ”Doutora Honoris Causa” de diversas universidades.

Em termos biográficos, temos um ensaio publicado poucos meses antes de sua morte: No alpendre com Rachel, de José Luís Lira, seguido de um perfil biográfico – Rachel de Queiroz -, publicado por Socorro Acioli no mês seguinte ao seu falecimento pelas Edições Demócrito Rocha, sem contar com autobiografia Tantos anos (1998). Rachel de Queiroz faleceu em 4/11/2003 e foi sepultada envolta numa rede, seu lugar preferido para descanso.

9 pensou em “AS BRASILEIRAS: Rachel de Queiroz

  1. Conheci muito a grande escritora e jornalista Rachel de Queiroz, pois a nossa familia residiu por algum tempo numa chácara pertencente ao seu irmão , pessoa muitíssimo ilustre Dr, Rodrigo de Queiroz Lima.
    A familia Queiroz sempre foi muito generosa e de grande carater, ,pois quando a minha familia teve dificuldades, passando por apertos financeiros, Rachel e seu irmão nos ajudou nuitíssimo.
    Quando o meu padrasto faleceu, eu estava servindo na aeronautica e não tinha
    condições de custear o seu funeral. Foi quando a Rachel e seu irmão,
    com muita generosidade pagaram todas as despesas do funeral e ainda nos
    ajudaram financeiramente por algum tempo.

    No Brasil do passado existiram pessoas de grande caráter e moral, que eram capazes de gestos nobres como esse, mas agora tudo mudou e estamos
    sempre na dependência de atitudes rasteiras e ódios por ambição de poder.

    Peço sempre a Deus que proteja a nossa querida Rachel e seu irmão,
    meu querido amigo Dr. Rodrigo.

  2. Mestre D. Matt,
    testemunha ocular da história, ressurge revelando aspectos particulares e desconhecidos do público sobre nossa grande escritora.
    Muito boa lembrança e grato pela postagem

  3. Acréscimo útil aos escritores e necessário aos aprendizes:

    Na 3ª parte deste vídeo, Rachel relata porque e como escreve; revela hábitos e dificuldades do escritor; coloca as questões de modo claro e simples; contribui bastante para refletir sobre os “Mistérios da Criação literária”,
    É o tema que vimos perseguindo desde 2007 no site http://www.tirodeletra.com.br. Temos lá uns bons dados e textos sobre ela. Sirva-se.

  4. Cara Miriam Javier

    Ainda estás em Santiago de Campostela? Dê um pulo Lisboa e diga pra aos lusitanos que q primeira mulher a ganhar o Premio Camões foi uma brasileira, a Rachel, visse?! rsrsrsr

  5. Mestre Brito,

    Raquel de Queiroz já mostrou a que vinha com muito talento e generosidade, reconhecida nacionalmente desde o seu primeiro romance, O Quinze.

    Ela obteve grandes feitos em vida, tais quais ser a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras e, além disso, vencer o Prêmio Camões, maior honraria que um escritor pode receber em língua portuguesa.

    Homenagem justa, justíssima essa sua a esse grande talento do romance moderno brasileiro.

    Rachel Queiroz pertence ao movimento modernista de 1930. Esse grupo é conhecido como regionalista, haja vista que, em suas obras, enfocam-se questões como a seca do nordeste, a miséria, a opressão e a vilania dos poderosos diante do sofrimento dos mais pobres.

    Mulher de talento, revolucionou o romance regionalista.

    Parabéns, Brito por mais esse magnífico trabalho de resgate.

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