JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d’Arco, Sapé, PB, em 20/4/1884. Advogado, professor e um dos melhores e mais enigmáticos poetas da literatura brasileira. É visto como o poeta da morte e da melancolia, devido ao teor de seus poemas. Criado numa família de senhores de engenho, teve os primeiros estudos em casa e no Liceu Paraibano, onde veio a ser professor em 1908. Foi poeta precoce fazendo versos aos 7 anos, motivado pela grande biblioteca mantida pelo seu pai.

Em 1903, ingressou na Faculdade de Direito do Recife e diplomou-se em 1907, mas nunca exerceu a advocacia. Na época a Faculdade sediava a famosa “Escola do Recife”, um centro irradiador de cultura no Nordeste, onde pontificavam Tobias Barreto, Silvio Romero, Clóvis Bevilácqua, Pontes de Miranda, Castro Alves, Capistrano de Abreu, Graça Aranha e tantos outros nomes ilustres do pensamento filosófico e literário. A Escola cultuava mestres como Herbert Spencer e Ernst Haeckel, dois filósofos-cientistas, os quais tiveram expressiva influência em sua poesia de caráter “científico”. De volta à João Pessoa, casou-se em 1910 com Ester Fialho e entrou para o magistério. Apesar de ser católico, mantinha vivo interesse pelo Espiritismo, que surgia no Brasil, chegando a comandar reuniões mediúnicas, receber espíritos e a exercer a psicografia.

Escreveu vários poemas em revistas e jornais, sendo o primeiro – Saudade – aos 16 anos. Mas publicou apenas um livro com o sugestivo título “Eu”, editado com seus próprios recursos no Rio de Janeiro, em 1912. Seu amigo Órris Soares organizou uma nova edição – Eu e Outras Poesias – publicada em 1920, com a qual ficou conhecido em todo o País e admirado pelos seus pares, críticos e o público em geral. Seus poemas, não obstante a complexidade dos temas e dos termos usados, eram declamados pelas pessoas simples mesmo sem entender a linguagem cientificista. O fato de atrair um grande público leigo, deve-se talvez ao fato de utilizar muitas vezes uma linguagem agressivamente crua. Outro fator de sucesso deve-se a um certo fascínio pelos ritmados jogos de palavras, ideias e rimas geniais. A obra, a princípio, foi considerada pela crítica e pelo público, habituados á elegância parnasiana, como um livro de mau gosto e malcriado, além de inclassificável nas correntes literárias. Não era parnasiano nem pré-modernista, como alguns críticos têm considerado.

Seus poemas ficaram marcados como os mais estranhos de toda a nossa literatura devido não só a linguagem, como a dificuldade de enquadramento estilístico e a temática que preconizava o fim das ilusões românticas, a fatalidade da morte e o processo de demolição dos valores e sonhos humanos. Expressava tais sentimentos em belos versos como:

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que abriga é a mesma que apedreja”.

Ou

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Segundo os críticos “foi transformado em catecismo pelos pessimistas e em bíblia dos azarados e malditos. O livro Eu é de uma instigante popularidade, resistente a todos os modismos, impermeável às retaliações da crítica e aos vermes do tempo. Foi o poeta mais original de nossa literatura”. E para arrematar: “Apoiando-se em hipérboles e paradoxos, e na exploração de efeitos sonoros, Augusto dos Anjos funde a inflexão simbolista e a retórica científica, criando uma dicção singular, que projeta a hipersensibilidade e a visão trágica e mórbida da existência”. Foi um dos poetas mais estudados e reeditados do País. Sua popularidade tem uma explicação na visão de Otto Maria Carpeaux: “A abundância de estranhas expressões científicas e de palavras esquisitas em seus versos atraiu os leitores semicultos que não compreenderam nada de sua poesia e ficavam, no entanto, fascinados pelas metáforas de decomposição em seus versos assim como estavam em decomposição suas vidas”

Pouco depois do casamento, sua família vendeu o Engenho Pau d’Arco e o casal mudou-se para o Rio de Janeiro. Aí passou a lecionar em diversas escolas, incluindo o Colégio Pedro II, onde foi contratado como professor de Geografia em 1911. Por essa época publicou diversos poemas em jornais e revistas até o lançamento de seu livro. Em 1913 mudou-se para Leopoldina (MG), e assumiu a direção do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. No mesmo ano nasceu seu filho Guilherme Augusto. Continuou a publicação de seus poemas na “Gazeta de Leopoldina”, de seu concunhado Rômulo Pacheco. Em outubro de 1914 contraiu uma pneumonia e faleceu jovem, aos 30 anos, em 12/11/1914.

Não obstante a ausência de qualquer reconhecimento público em vida, seu único livro é um dos mais reeditados do País. Em 2001, a Editora Bertrand Brasil publicou a 43ª edição de Eu e outros poesias, com 217 poemas, a mais completa até então. Sua indiscutível força literária coloca-o no mesmo naipe de poetas do quilate de Edgard Allan Poe e Charles Baudelaire. Eles introduziram, cada qual em seu país, uma temática centrada na dor universal: solidão, amargura, crise existencial e perplexidade diante das injustiças da vida. Quando Drummond leu seus poemas, ficou perplexo: “Li-o na adolescência e foi como se levasse um soco na cara… Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor.”

É também um dos poetas sobre quem mais se escreveu neste País. Em 1978 Ferreira Gullar reacendeu no público o interesse pelo poeta ao publicar Toda a poesia de Augusto dos Anjos (Paz e Terra, 1978), incluindo um estudo crítico. Em 1996 a Editora Nova Aguilar teve a sensibilidade de incluí-lo entre as “edições da plêiade” sua Obra completa. Os poemas e o poeta já foram estudados sob o aspecto literário, psicológico e filosófico, além das biografias: O artesanato em Augusto dos Anjos e outros ensaios, de Manuel Cavalcanti de Proença (1973); A costela de prata de Augusto dos Anjos, de Anatol Rosenfeld (1973); Poesia e vida de Augusto dos Anjos. De Raimundo de Magalhães Jr. (1978); A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos, de Lucia Helena (1984); entre outros.

6 pensou em “OS BRASILEIROS: Augusto dos Anjos

  1. ÉH, DOM JOSÉ DOMINGOS BRITO:

    ESTOU ESCREVENDO (COM LETRAS MAIÚSCULAS, PARA O SENHOR PODER LER), PARA QUE O SENHOR TOME CONHECIMENTO – OU TALVEZ ATÉ IGNORE!!! – DE QUE O BRASIL TAMBÉM TEM SEU LADO SUL.

    ONDE HOUVE (E HÁ!!!) – TAMBÉM E (QUEM SABE???) PARA A SUA SURPRESA!!! – MUITAS PERSONAGENS E PERSONALIDADES, DEVERAS HISTÓRICAS, TÃO (OU MAIS!!!) DIGNAS E MERCEDORAS DE UMA BIOGRAFIA (NEM QUE SEJA SOMENTE UMA BIOGRAFIAZINHA!!!), NA SUA COLUNA.

    RECONHEÇO – É UM DIREITO SÓ SEU, POR SER O SEU MEMORIAL – QUE O SENHOR PONHA NELE SUAS ABALIZADAS BIOGRAFIAS DE QUEM OU DE QUAIS QUISER.

    MAS, PORÉM, TODAVIA, CONTUDO, ENTRETANTO, NO ENTANTO, NÃO OBSTANTE…

    FICANDO À SUA DISPOSIÇÃO,

    E PEDINDO, ANTECIPADA E SINCERAMENTE, DESCULPAS PELO MEU INVOLUNTÁRIO – MAS, MESMO ASSIM – INTROMETIDO ATREVIMENTO,

    UM BAITA ABRAÇO,

    DESDE O ALEGRETE – RS,

    DO SEU LEITOR ASSAZ ASSÍDUO,

    ADAIL.

    • Caro Adail

      Certa vez o leitor D. Matt comentou, sem reclamar, que eu privilegiava os pernambucanos no Memorial. E ele tem razão, pois dos 145 nomes até agora divulgados uns 20 são pernambucanos. O fato é que eu sendo de lá, não poderia ser diferente, conheço mais os lá do que de outros estados.
      Mas tenho divulgado muitos sulistas também. No próximo domingo vou publicar Plácido de Castro, um gaúcho que se fez famoso no Norte (Acre).
      Você reclama que eu não tenho divulgado os gaúchos ou sulistas. Dê uma olhada melhor em todo o Memorial pra você ver.
      Aproveito sua boa vontade para pedir-lhe o envio de alguns nomes conterrâneos seus para divulgarmos no Memorial

  2. Augusto dos Anjos, encantado aos trinta anos, nos deixou um legado primoroso com suas poesias parnasianas inteligentes.

    Era conhecido como o poeta da morte. Também, não era para menos. Viveu numa época que era comum entre os homens das letras o pessimismo em seus escritos.

    Mestre Brito nos traz um retrato coerente do que foi esse grande poeta.

    Parabéns mestre, por mais essa gentileza.

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