JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Glauber Pedro de Andrade Rocha nasceu em 14/3/1939, em Vitória da Conquista, BA. Jornalista, escritor e essencialmente cineasta. Foi precoce na vida e na morte. Aos 10 anos escreveu uma peça de teatro: O fio de ouro, com ele no papel principal. Fio de ouro não deixa de ser um prenúncio da sua inserção na cinematografia internacional com o “cinema novo”, tendo “Deus e o diabo na terra do sol”, sob sua direção, que se tornou referência obrigatória na história do cinema brasileiro.

Filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e Lúcia Mendes de Andrade Rocha, teve os primeiros estudos em casa, com sua mãe e ingressou numa escola católica. Em 1947 a família mudou-se para Salvador e passou a estudar no Colégio 2 de Julho, instituição presbiteriana, onde participou de um grupo de teatro, escrevendo e atuando. Aos 13 anos participou de um programa de rádio, como crítico de cinema. Até 1956 integrou alguns grupos e teatro e entrou na Cooperativa Cinematográfica Iemanjá. Aos 18 anos passou a escrever regularmente para algumas revistas culturais de caráter politico: “O Momento“, “Sete Dias”, “Mapa” e “Ângulos”. No ano seguinte, já consagrado como jornalista, assume a direção do suplemento literário do “Jornal da Bahia” e passa a escrever também para o “Diário de Notícias de Salvador” e suplemento dominical do “Jornal do Brasil”.

Em 1959, foi cursar Direito na UFBA, mas largou 2 anos depois para se dedicar ao jornalismo e cinema. Por essa época casou-se com sua colega Helena Ignez. Seu primeiro filme foi um curta-metragem O pátio (1959), seguido de Cruz na praça (1960). O primeiro longa-metragem se deu em 1961, com Barravento, premiado na Tchecoslováquia. A partir daí o movimento “cinema novo” irrompe pregando um cinema nacional autêntico, com uma temática social e uma nova linguagem cinematográfica explorando cenas externas, próximas do filme documentário. Glauber liderou o movimento, tendo Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade encabeçando o movimento no Rio de Janeiro e Roberto Santos, em São Paulo. Além destes, outros destacados cineastas integraram o movimento: Cacá Diegues, Zelito Viana, Arnaldo Jabor, Ruy Guerra, Leon Hirzman, Helena Solberg entre outros.

A fim de consolidar o movimento, lançou em 1963 o livro Revisão crítica do cinema brasileiro, apresentando as linhas mestras de uma nova cinematografia nacional. No ano seguinte tais linhas mestras foram para a tela com o filme Deus e o diabo na terra do sol (1964), premiado no Festival de Cinema Livre, Itália; indicado para receber a Palma Ouro, no Festival de Cannes e representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1965. Assim, ficou conhecido no plano internacional. Em seguida produziu e dirigiu outros filmes de grande repercussão aqui e no exterior: Terra em transe (1967), que lhe deu o Prêmio Luis Buñuel, no Festival de Cannes e indicado para receber a Palma de Ouro e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), que lhe garantiu o Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes. Com a radicalização do regime ditatorial no País em princípios da década de 1970, foi considerado um dos expoentes da esquerda brasileira e procurou um autoexílio em Portugal, em 1971.

Por esta época realizou mais alguns filmes, predominando a temática poíitica, com pouca repercussão no público, devido a precária distribuição e também a complexidade dos temas, atraindo um público mais seletivo: O leão de 7 cabeças (1970), Cabeças cortadas (1970) O rei do milagre (1971) e As armas e o povo (1974), um documentário gravado nas ruas de Lisboa durante a “Revolução dos Cravos”, que derrubou o regime ditatorial do governo Salazar. Em 1977 sofreu um abalo com a morte da irmã, a atriz Anecy Rocha, que caiu num fosso de elevador. No ano seguinte declarou: “Eu pretendo, lenta e gradualmente, passar a ser mais romancista e menos cineasta. Não quero mais filmar tanto, porque acho que meus livros acabarão sendo filmados por mim ou por outra pessoa” e lançou o romance Riverão sussuarana”.

Em meados de 1979, a situação política no País estava conturbada diante da polarização ideológica e da luta pela anistia que foi decretada naquele ano. Neste cenário Glauber fez um comentário que abalou a esquerda brasileira. Declarou que Golbery (Chefe da Casa Civil) era o gênio da raça. Logo passou a ser chamado de louco pela esquerda. Mais tarde Darcy Ribeiro explicou que ele estava fazendo uma referência ao regime militar nacionalista no Peru, onde o governo Alvarado promovia reformas estruturais para debelar a pobreza. Não houve entendimento entre Glauber e muitos intelectuais de esquerda e ele passou a ser combatido, isolado ou até mesmo sofrer a acusação de ter sido cooptado pelos militares. Alguns diziam que aquela declaração seria o atestado de que ele realmente estava ficando louco. Pouco depois passou a comandar um programa aos domingos à noite na TV Tupi, intitulado Abertura, um programa de variedades culturais e política sobre a situação brasileira, onde pode exercer a contento sua veia jornalística.

Em outubro de 1979, fez sua última apresentação do programa e concluiu com uma despedida e espécie de manifesto: “Dediquei 20 anos de minha vida ao cinema brasileiro. Sou um dos seus principais artífices. Realizei alguns filmes de repercussão internacional e me encontro marginalizado em meu país. Sou famosíssimo e paupérrimo. Isso é o Brasil. E o cinema é a superestrutura de um regime econômico. A mais importante de todas as artes. Boa noite Brasil! Aqui é o desmascaramento histórico (coloca e tira máscaras no rosto em close). Nós mulatos, sertanejos, brasileiros, perguntamos: o Brasil precisa ou não de reformas estruturais? Porque todo mundo fala, fala, fala um papo furado, um papo jurídico, fala em Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, aquele negócio decadente, bem brasileiro e não fala no básico, que são as reformas estruturais que prejudicariam uma parte dos patrícios. Mas será que essa parte não poderia ceder em função de uma nova utopia? Por que a burguesia tem que ser cruel? Matéria para reflexão. Boa noite, saravá! Não vai aqui nenhum sentido de provocação. Assim é a democracia. Todos nós temos um ego semelhante. Nada de guardar rancores, loucuras escondidas. Voltemos para dentro do Brasil, de nossos rios, de nossas florestas, onde vive povo pobre, liquidado, doente, que precisa realmente de ser resgatado. Vamos deixar de lado a revolução francesa e a soviética para descobrir a feijoada, o carnaval, o frevo. Nossa cultura é a macumba, não é a ópera. Vamos descobrir o Brasil. Ninguém fala do Piauí, de Sergipe, da Paraíba, terra de mulher macho sim sinhô. Queria ver o Doca Street na Paraíba! Tô de saco cheio de teorias, tô querendo soluções! Alô, alô Antônio Carlos Jobim. Pau no Sinatra! Estou entrando de férias para terminar a montagem do meu filme A idade da terra, tem os livros que estou terminando e tenho de ir para a Europa para cuidar da saúde”.

Foi sua última aparição na TV brasileira. Partiu para Portugal, onde passou a viver, filmar e viajar pelo mundo. Em meados agosto de 1981, a saúde apresentou problemas pulmonares, foi internado em Lisboa e pouco depois entrou em estado de coma. Os amigos providenciaram sua transferência para um hospital no Rio de Janeiro e veio a falecer em 22/8/1981. Costumava dizer que era uma reencarnação de Castro Alves e que iria morrer aos 42 anos. Em seu enterro, Darcy Ribeiro fez um comovente discurso ressaltando sua indignação política. Seu último filme foi A idade da terra (1980), que concorreu ao Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Foi seu 5º filme na lista dos “100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos”. Entre os dias 14 e 24 de março de 2019, ao completar 80 anos se estivesse vivo, a Prefeitura de Vitória da Conquista realizou ampla programação com o evento “Glauber Rocha ressuscita o povo brasileiro“, com mostra de filmes, debates, exposição etc.

O cineasta deixou um enorme acervo de filmes, textos inéditos, fotos, desenhos e documentos em geral, organizados por Dona Lúcia e Paloma Rocha, mãe e filha respectivamente, colocados à disposição do público no “Tempo Glauber”, um espaço cultural no Rio de Janeiro, de 1983 a 2017, quando foi transferido para a Cinemateca Brasileira. Pouco depois do falecimento, uma frase-síntese de sua vida passou a circular no meio intelectual: “Foi um cineasta controvertido e incompreendido, patrulhado pela esquerda e pela direita”. Para muitos era considerado gênio do cinema; para outros era um “profeta” dado o acerto de algumas de suas afirmações.

Após sua morte, surgiram alguns livros na tentativa de compreender o homem e/ou sua obra: Glauber Rocha, de Sylvie Pierre (Papirus, 1997); Sertão Mar: Glauber e a estética da fome, de Ismail Xavier (Cosac & Naify, 2007); Glauber Rocha: cinema, estética e revolução, de Humberto Pereira de Souza (Paco Editorial, 2016); A primavera do dragão, de Nelson Motta (Objetiva, 2019), além de uma de uma densa biografia publicada por seu amigo João Carlos Teixeira: Glauber Rocha, esse vulcão, lançada em 1997 pela editora Nova Fronteira. Um livro interessante e revelador de sua personalidade foi publicado em 1997 (Cia. das Letras), organizado por Ivana Bentes. Trata-se de Cartas ao mundo, reunindo 270 cartas escritas por ele, entre 14 e 42 anos, e dirigidas aos parentes e amigos (Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, José Guilherme Merquior, Caetano Veloso… Vistas no conjunto, as cartas apresentam um retrato íntimo de uma das personalidades mais fascinantes do século passado.

7 pensou em “OS BRASILEIROS: Glauber Rocha

  1. Caro Brito,

    Glauber Rocha foi um gênio e como todo gênio tinha seus lances de maluquices criativas. Encantou-se na flor da criatividade, mas deixou um legado.

    Abraçaço, mestre Brito.

  2. Glauber Rocha foi o grande cineasta que os brasileiros sempre
    desejaram exibir e coexistir.
    Um gênio que via no cinema uma arte perfeita para denunciar
    a estupida vivência dos brasileiros, naquela época e que persiste
    até hoje, com algumas mudanças não totalmente complementadas.
    Foi o cineasta brasileiro mais premiado e reconhecido mundialmente
    pelo seu talento fóra de série.
    Sua obra retrata com genialidade, uma visão real do pais, sempre
    contido em termos artísticos e jamais explorou de modo barato
    de recursos pornográficos, como fazem os pseudos gênios da atualidade.
    E soube usar como ninguém, uma trilha sonora risa cheia de brasilidade que
    valorizava as cenas mais importantes,
    Lembro que no filme ” Deus e o diabo na terra do sol ” está presente
    de modo soberbo na trilha sonora a cantata das Bachiannas n. 3 do nosso
    inolvidável Villa Lobos.

    Obrigado Brito, pela homenagem muito merecida.

    • É preciso registrar que D. Matt é um dos especialistas em cinema que frequenta este jornal com abalizadas opiniões e pareceres, além de ser uma das testemunhas oculares da história.

      Logo, sabe do que está falando. E nós vamos ouvindo

      Grato Mestre

Deixe uma resposta