JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Paulo Prado

Paulo da Silva Prado nasceu em 20/5/1869, em São Paulo, SP. Advogado, empresário, historiador, escritor, ativista cultural e mecenas dos integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Grande incentivador da cultura e um dos fundadores da SPAM-Sociedade Pró-Arte Moderna, em 1932. É considerado um dos intérpretes do Brasil, com sua polêmica obra Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira (1928), um dos clássicos da historiografia nacional.

Descendente de uma influente família paulista, era o primogênito do conselheiro Antônio Prado, primeiro prefeito da cidade de São Paulo, e Maria Catarina da Costa Pinto e Silva. Em 1890, aos 21 anos, diplomou-se advogado e viajou para a Europa, onde passou alguns anos com o tio Eduardo Prado, que o levava para conversar com o português Eça de Queiroz e outros intelectuais e escritores deste quilate. Na companhia do tio, de Olavo Bilac e Domício da Gama, participou das homenagens ao 10º aniversário da morte de Gustave Flaubert, em Rouen. Durante a viagem de Paris a Rouen, dividiu o vagão na 1ª classe com Émile Zola, Edmond de Goncourt e Guy de Maupassant. Convivia também com alguns brasileiros que, de vez em quando, por lá flanavam, tais como Joaquim Nabuco e o Barão do Rio Branco. Só voltou em meados de 1910, a chamado do pai para cuidar dos negócios da família, que não eram poucos. Entre 1911 e 1924, foi gerente e presidente da exportadora de café Casa Prado, Chaves & Cia., a maior empresa brasileira no ramo. Seu envolvimento com a arte deu-se em 1919 ao promover a “Exposição de Pintura e Esculturas Francesas” no hall do Teatro Municipal e a montagem da peça O contratador de diamantes, de Afonso Arinos.

Sua importância na Semana de Arte Moderna de 1922 pode ser vista através do diálogo de seus organizadores, publicado na entrevista de um deles, Rubens Borba de Moraes:

– Mas, para fazer essa coisa, precisamos de dinheiro.

E aí alguém disse:

– Justamente com o dinheiro não tem importância. Nós vamos falar com o Paulo Prado.

O Paulo Prado era um grande senhor, um homem milionário, que ia todos os anos à Europa, tinha vivido em Paris, tinha conhecido Eça de Queiroz e estava a par do que você falasse sobre Picasso…de maneira que disse:

– Nós vamos fazer isso. Mas é preciso fazer o seguinte: vamos arranjar o dinheiro com os homens ricos de São Paulo, eu peço para eles, e eles dão esse dinheiro para fazer isso.

E organizamos a Semana de Arte Moderna, e esses milionários paulistas entraram com o dinheiro… e depois ficaram decepcionadas com as manifestações da Semana”. (clique aqui para ler). Após a “Semana”, começou a promover a emigração de alguns artistas modernistas à Paris, como Brecheret, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Villa Lobos, bem como a imigração do poeta Blaise Cendrars ao Brasil e a visita do arquiteto Le Corbusier, em 1929, para conferências em São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires.

Sua relevância no movimento modernista é confirmada através dos depoimentos de seus protagonistas Mário de Andrade: “Sem ser artista ou poeta, sem ser o propositor central dos padrões renovadores de expressão – embora fosse conhecedor e opinasse a respeito – Paulo Prado foi justamente quem deu expressão social ao Modernismo, o que significa dizer que deu o sentido de movimento às experiências até então isoladas dos modernistas” e Oswald de Andrade: “sem a inteligência e a compreensão de Paulo Prado, nada teria sido possível. Ele foi o agente de ligação entre o grupo que se formava e o medalhão Graça Aranha”. Seu nome não é apenas o primeiro a aparecer na lista dos financiadores da Semana. Encarregou-se também do programa, da divulgação e demais detalhes de evento. Mário de Andrade reitera que seu prestígio “abre a lista das contribuições e arrasta atrás de si os seus pares aristocratas e mais alguns que sua figura dominava”.

Suas atividades, além do poderio econômico, extrapolou para a política cultural, que vinha despontando desde muito antes ao negociar com o poeta Paul Claudel, Encarregado dos Negócios da França no Brasil, o estabelecimento do Convênio Franco-Brasileiro em 1917. Por tal feito recebeu a mais alta condecoração francesa: a medalha da Legião de Honra, instituida por Napoleão Bonaparte para recompensar os méritos militares ou civis à nação francesa. Mesmo após a “Semana de 1922” são lançadas diversas revistas de divulgação da produção modernista e seu mome aparece s associado à fundação e ao controle de boa parte dessas publicações. Assumiu o controle da Revista do Brasil, de grande repercussão e longevidade no início do século XX, a Revista do Brasil, editada de 1918 a 1925 por Monteiro Lobato. Devido ao sucesso da publicação, Lobato funda a editora “Monteiro Lobato & Cia”, que conta com sua colaboração financeira na montagem do parque gráfico, e revolucionou o mercado editorial brasileiro. Nesse período, entre 1923 e 1925, enquanto Lobato concentra seus esforços na editora, a Revista do Brasil passa a ser dirigida por Paulo Prado.

Como se viu, o empresário viveu entre duas épocas e dois mundos bem distintos: fins do século XIX e início do século XX, numa Europa que se modernizava e um Brasil que ainda não engatinhava no modernismo. Por esta razão é visto como uma figura de “transição”, representando o ponto de encontro de duas épocas, e duas mentalidades distintas. É também um período de transição da Monarquia à República, da escravidão negra à mão de-obra livre, do apogeu da exportação do café aos primórdios da industrialização. Em contatos com o historiador Capistrano de Abreu (1853-1927), passou a se interessar pela história e publicou dois livros: a história de São Paulo – Paulística (1925) – e a formação do Brasil – Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira (1928), que causou grande polêmica entre os intelectuais. A pedido de Capistrano, empreendeu parte do projeto inacabado de Eduardo Prado, financiando diversas obras raras sobre a história do Brasil. A coleção Eduardo Prado: para conhecer melhor o Brasil teve seus primeiros volumes iniciados em 1922.

O Retrato do Brasil busca explicar as origens do atraso econômico e cultural do País e dos vícios crônicos dos regimes políticos, através do processo de formação racial e cultural da nacionalidade. Segundo alguns estudiosos, apresenta “uma noção racista de superioridade do povo branco paulista e uma concepção do negro como uma raça inferior e corruptora no seio das famílias”. Ou seja, uma noção contraposta a suas ideias de ruptura com o passado, expostas na Semana de Arte Moderna. Tal contradição, levou seu amigo Gilberto Freyre a descrevê-lo como “um dos casos mais curiosos de Dr. Jekyll e Mr. Hyde que já houve no Brasil”, exagerando na comparação.

No entanto, trata-se de um livro que vem sendo reeditado até hoje e considerado básico para o entendimento de algumas peculiaridades na formação do povo brasileiro. Em 2012 o pesquisador Carlos Augusto Calil organizou uma nova edição pela Companhia das Letras, revista e ampliada incluindo a seção “Outros retratos do Brasil” com textos dispersos do autor. Tal lançamento e a repercussão causada certificam que “o apelo veemente à modernização do Brasil e a denúncia dos males da política ainda hão de reverberar como questões candentes (e irresolutas) ao leitor de hoje”. Segundo o historiador Francisco Iglésias, o ensaio de Paulo Prado “é um livro muito errado, mas fundamental e brilhante que se lê com muito prazer”. Para o historiador Boris Fausto, trata-se de “uma tentativa de fazer uma psicologia coletiva, ao passo que as análises de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque têm uma amplitude muito maior e dão mais atenção à vida material. Nesse sentido, Retrato do Brasil seria, isso sim, um precursor da tendência que seria depois chamada de história das mentalidades”.

Não contamos ainda com uma biografia p.p. dita do empresário paulista, mas um apanhado de seu envolvimento com a cultura brasileira pode ser visto no bem intitulado artigo – A face oculta e visionária da Semana de Arte Moderna de 1922 – à disposição na Internet (clique aqui para ler) o que se aproxima mais de uma biografia pode ser visto no livro de Carlos Eduardo Ornelas Berriel – Tietê, Tejo, Sena; a obra de Paulo Prado – lançado pela editora Papiros, em 2000.

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AS BRASILEIRAS: Leolinda Daltro

Leolinda Figueiredo Daltro nasceu em Salvador, BA, em 14/7/1859. Professora, escritora, política, indigenista, pioneira na luta pela emancipação das mulheres com direito ao voto e pioneira no reconhecimento do indígena como elemento constituinte da nação e sua integração na sociedade. Atuou na fundação do PRF-Partido Republicano Feminista e batalhou por um sistema de alfabetização laica dirigido aos índios. Era uma “antropóloga amadora”.

Casou-se ainda jovem, teve 2 filhos, mas logo separou-se do marido e pasou a estudar a fim se tornar professora. Aos 24 anos, casou-se de novo, teve mais 3 filhos e mudou-se para o Rio de Janeiro. Pouco depois separou-se de novo ou ficou viúva, não se sabe ao certo. Porém, sabe-se que criou os filhos sozinha na condição de professora. No Rio, tornou-se próxima de Quintino Bocaiúva e amiga pessoal de Orsina da Fonseca, esposa do presidente Hermes da Fonseca.

Como professora, passou a se interessar pelos índios e defendia sua incorporação à sociedade através da alfabetização laica. Em 1896 iniciou um ambicioso projeto de percorrer o País levando suas ideias. Deixou os filhos com parentes e partiu em direção à São Paulo, onde encontrou, inclusive apoio financeiro, da elite paulista: a família Prado. Prosseguiu viagem até o Triângulo Mineiro e seguiu para os sertões de Goiás, chegando até o Maranhão e Pará. Em 1902, procurou o Instituto Histórico Brasileiro, de Goiás, para propor a criação de uma associação civil de amparo aos indígenas, mas foi impedida de participar da reunião sob a alegação de que era mulher.

De volta ao Rio de Janeiro, fundou o Grêmio Patriótico Leolinda Daltro, para defender a catequisação dos índios sem a interferência da Igreja. Com esta “bandeira”, passou a participar cde movimentos cívicos, ganhou notoriedade na imprensa e o tema dividia a opinião pública. Nessa época foi muito criticada e rdicularizada com suas ideias referentes à educação indígena. De qualquer modo, o Governo criou o Serviço de Proteção ao Índio-SPI, em 1910, mas ela não foi convidada para a cerimônia de fundação. Mesmo assim, ela comemorou esta pequena vitória no cuidado com os índios.

A partir daí passou a lutar pela conquista do direito ao voto da mulher e requereu seu alistamento eleitoral. Coma a recusa do pedido, fundou em 1910 o Partido Republicano Feminino para integrar as mulheres no movimento sufragista. Para isso contou com a participação da poeta Gilka Machado e colaboração de sua amiga, a primeira dama Orsina da Fonseca. Lembremos que o movimento sufragista das mulheres só tomou corpo 12 anos depois com Bertha Lutz e a criação da FBPF-Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, e que o direito ao voto das mulheres (alfabetizadas e assalariadas) deu-se apenas em 1932, com o governo Vargas, e que o direito ao voto de todas as pessoas alfabetizadas e maiores de 18 anos, deu-se apenas em 1946.

Com sua experiência de professora, assumiu a direção da “Escola de Ciências, Artes e Profissões Orsina da Fonseca” e passou a atuar junto com as amigas Gilka e Orsina em defesa da igualdade entre os sexos, contando com apoio de alguns intelectuais, entre estes o famoso jornalista Carlos de Laet. Em 1919, lançou-se candidata à Intendência Municipal (atual prefeito) numa campanha simbólica argumentando: “Como mulher que sou, com um sentido superior de altruísmo, tenho me preocupado com a necessidade de minorar o sofrimento humano e de se atingir uma melhor distribuição da Justiça.” No ano seguinte registrou suas andanças pelos sertões e experiências com os índios e publicou o livro Da catequese dos índios do Brasil (notícias e documentos para a história) 1896-1911 pela tipografia da Escola Orsina da Fonseca. Em 1911, João do Rio publicou uma crônica citando sua coragem: “O Brazil é dos índios. E tanto o Brazil é dos índios, que, ao pensar em symbolizar o Brazil, logo os desenhistas pintam um jovem índio de casaca, claque alto e tanga emplumada… Como nunca tive a coragem civilisadora da professora Daltro, só consigo aproximar-me dos authenticos proprietários deste paiz quando por cá aparece alguma caravana de sujeitos de nariz esborrachado, a pedir ao Papae Grande instrumentos agrários. Essas caravanas são conduzidas por jesuítas dedicados”.

Mais tarde ela declarou que estava feliz e que podia morrer vitoriosa na luta pela emancipação política da mulher pelo fato de alcançarem o direito ao voto em 1932. Com mais de 70 anos, ainda participou da luta feminista na década de 1930, integrando a “Aliança Nacional de Mulheres” e veio a falecer num acidente de automóvel em 4/5/1935. A revista “Mulher”, da FBPF noticiou que “teve ela que lutar contra a pior das armas de que se serviam os adversários da mulher: o ridículo. Talvez isto a houvesse magoado profundamente tanto que se afastou das lides feministas. Mas a sua obra patriótica não parou aí: dedicou-se à obra da alfabetização no meio desses milhões de analfabetos, nela consumindo a sua velhice”.

Em junho de 1935, a revista “Ilustração Brasileira” também publicou seu necrológio. A lembrança de seu legado e a merecida honra que lhe foi atribuída muito mais tarde, em 2003, quando a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou a Resolução nº 233, instituindo o “Diploma Mulher Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro”, outorgado todo ano a 10 mulheres por seu destaque na vida pública e na defesa dos direitos femininos. Procurei alguma biografia sua na Internet e não encontrei. Achei apenas alguns estudos acadêmicos, dissertações e teses sobre sua vida e legado e outros verbetes que me ajudaram a compor esta síntese biográfica. Infelizmente ainda não despertou o interesse das feministas ou historiadores numa biografia mais completa.

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OS BRASILEIROS: Oswald de Andrade

José Oswald de Sousa de Andrade nasceu em São Paulo, SP, em 11/1/1890. Poeta, escritor, advogado, jornalista e dramaturgo. Destacado integrante do modernismo literário brasileiro, é considerado -junto com Mário de Andrade- um dos “dínamos” da Semana de Arte Moderna de 1922. Era conhecido pelo estilo e temperamento irreverente, combativo e inovador. Suas ideias vieram a influenciar o Movimento Tropicalista em meados da década de 1970.

Filho de Inês Henriqueta Inglês de Souza de Andrade (irmã do escritor Inglês de Souza) e José Oswald Nogueira de Andrade, tradicional família paulista. Teve os primeiros estudos no Ginásio Caetano de Campos e iniciou no jornalismo em 1909, como colunista da seção “Teatros e Salões”, do Diário Popular. No mesmo ano ingressou na Faculdade de Direito, interropendo o curso diversas vezes. Em seguida, foi conhecer o Rio de Janeiro, onde ficou hospedado na casa do famoso tio escritor. Em 1911, com ajuda financeira da mãe, fundou o irreverente semanário O Pirralho, contando com a colaboração de Amadeu Amaral, Cornélio Pires e Alexandre Marcondes entre outros. Mais tarde, Di Cavalcanti veio a ilustrar as capas e conteúdo da revista.

Passou uma temporada de 7 meses na Europa em contato com artistas e escritores envoltos no “Movimento Modernista”, em 1912. A morte de sua mãe, apressou a volta, trazendo a tiracolo a estudante francesa Kamiá (Henriette Denise Boufflers), com a qual tem seu primeiro filho (Nonê), e reassume seu posto na redação d’O Pirralho. No ano seguinte, passa a frequentar reuniões de artistas e intelectuais na Vila Kirial e conhece o artista plástico Lasar Segall. Seu primeiro trabalho publicado se dá em 1913 com a peça A recusa, um drama em três atos. Em 1914 ingressa na Faculdade de Filosofia de São Bento e no ano seguinte torna-se membro da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras, fundada em São Paulo por Olavo Bilac. Em 1917 namorou a jornalista Maria de Lourdes Olzani, e através dela conheceu Mário de Andrade. Conheceu também a pintora Anita Malfatti e, junto com Mário, defende a pintora das críticas acirradas feitas por Monteiro Lobato. Por esta época começa a se esboçar o grupo que viria a realizar a Semana de Arte Moderna. Em 1920 edita a revista Papel e Tinta e passa a colaborar no jornal Correio Paulistano.

Publicou o romance Os condenados em 1922 e inicia namoro com a pintora Tarsila do Amaral, seu relacionamento mais prolongado, que durou até 1929. Em novas viagens pela Europa, amplia o percurso pelo Oriente Médio e África. Em Paris participa de encontros com a intelectualidade francesa; dá palestra na Sorbonne e mantém amizade com o poeta Blaise Cendrars. De volta ao Brasil, publicou no Correio da Manhã o “Manifesto da Poesia Pau Brasil”, em 18/03/1924, no mesmo ano em que foi divulgado o “Manifesto Surrealista” de André Breton. Como se vê, o Brasil seguia os passos do movimento artístico das vanguardas mundiais. Neste ano integrou a “Caravana Modernista”, com Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Olívia Penteado, Blaise Cendrars, Goffredo Telles e René Thiollier, ao carnaval do Rio emendando até Belo Horizonte. Aí foram recebidos por Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado e Pedro Nava e excursionam pelas cidades históricas. Em 1925 publicou Memórias sentimentais de João Miramar, viaja de novo pela Europa com Tarsila, monta apartamento em Paris, passa a frequentar a casa de campo de Blaise Cendrars e publica na França o livro de poemas Pau Brasil.

Em 1928 divulgou o “Manifesto Antropófago” na Revista de Antropofagia, criada junto com os amigos Raul Bopp e Antônio de Alcântara Machado. A ideia do Movimento Antropofágico era assimilar, deglutir outras culturas, mas não copiar. Na crise econômica mundial de 1929, deu-se uma crise também no seu casamento e no relacionamento com o amigo Mário de Andrade. Seu novo amor agora é uma jovem de 20 anos: Pagu, com quem se casou em 1930. O “casamento” se deu no Cemitério da Consolação, causando certo alvoroço na imprensa. No mês seguinte, a união foi oficializada na igreja e no cartório, com Pagu já grávida do filho, que foi batizado com o nome Rudá Poronominare Galvão de Andrade. O primeiro nome significa o deus do amor e o segundo o nome indígena para um ser malicioso. Com Pagu, uma moça politizada e ligada ao teatro, ele aproxima-se da política, torna-se militante do Partido Comunista e fundam o jornal O Homem do Povo, que durou até 1945.

Em 1933 publicou o romance Serafim Ponte Grande e patrocinou a publicação do livro Parque industrial, romance de Pagu. No ano seguinte, deixa Pagu e une-se à pianista Pilar Ferrer. Publica A Escada Vermelha, terceiro romance d’A trilogia do exílio, e O homem e o cavalo. Quando Lévi-Strauss esteve em São Paulo, em 1935, foi seu cicerone e acompanhou-o numa excursão até Foz do Iguaçu. Passa a escrever sátira política para a revista A Platéia; integra o movimento artístico cultural “Quarteirão” e a tocar sua vida boêmia. Em dezembro de 1936, aos 46 anos é hora de casar-se mais uma vez, agora com a escritora Julieta Bárbara Guerrini, tendo como padrinhos o jornalista Casper Líbero e o pintor Portinari. Seu estilo de vida boêmia era conhecido de todos, tanto como casamenteiro em grande estilo.

Passa a residir no Rio de Janeiro e em São Paulo simultaneamente. Sua atuação política se dá com artigos publicados na revista Problemas. Na área da dramaturgia, sua peça mais conhecida é O rei da vela, publicada em 1937 e representada apenas em 1967 pelo Grupo Oficina, com direção de José Celso Martinez Corrêa. Em 1943 começou a publicar a coluna “Feira das Sextas” no Diário de São Paulo e casa-se com Maria Antonieta d’Alkmin. No ano seguinte reúne no volume Ponta de Lança artigos esparsos publicados na imprensa. Pouco depois ciceroneou Pablo Neruda em visita ao Brasil e iniciou a organização da Ala Progressista Brasileira, reunindo alguns políticos num programa de conciliação nacional. Em seguida lançou um “Manifesto ao Povo de São Paulo” e rompeu com o Partido Comunista em 1945. No final da década publicou na revista Anhembi o ensaio O modernismo e manteve contato com um outro modernista. Recepcionou o escritor Albert Camus e realizaram uma excursão à Iguape, em 1949, para assistir às tradicionais festas do Divino. Como bom anfitrião, foi encarregado de receber o escritor francês de passagem por São Paulo para fazer conferências.

Em fins da década de 1940 e início de 1950, dedicou-se mais ao jornalismo e manteve a coluna “3 linhas e 4 verdades” na Folha de São Paulo e a série “A Marcha das Utopias” n’O Estado de São Paulo. Em 1954, a saúde sofre uns abalos e passa a escrever o primeiro volume de sua autobiografia: Memórias: Um homem sem profissão, publicado pela José Olympio Editora. Por esta época o escritor Marcos Rey foi encontrá-lo para tratar da edição de um livro de depoimentos e entrevista, que não chegou a ser concluído. Via-se que não ia bem de saúde e veio a falecer pouco depois, em 22/10/1954. Veja sua última entrevista clicando aqui. Sua trajetória ficou registrada no trabalho de Maria Augusta Fonseca – Oswald de Andrade – Biografia -, publicado em 1985. Um trabalho que segundo ela: “o resgate da vida do artista não leva apenas às suas agruras pessoais, mas recobre uma parte substantiva da tumultuada história do país, que vai de fins do século XIX à primeira metade do século XX”.

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AS BRASILEIRAS: Anita Malfatti

Anita Catarina Malfatti nasceu em São Paulo, SP, em 2/12/1889. Pintora, desenhista, ilustradora, gravadora, professora e pioneira da Arte Moderna Brasileira. Um surpreendente caso superação, tendo em vista o fato de nascer com uma deficiência física menor, atrofia no braço e mão direita, a mão que pinta! E, mesmo assim, ter se tornado uma grande pintora. Como pintora foi adiante e introduziu o “Modernismo” no Brasil, que agora comemora seu centenário.

Filha da pintora norte-americana Eleonora Elizabeth Krug e do engenheiro italiano Samuel Malfatti, viajou para a Itália aos 3 anos para uma cirurgia corretiva, mas o resultado não foi animador. De volta ao Brasil, foi auxiliada por Miss Browne, uma governanta inglesa, a usar a mão esquerda no aprendizado da escrita e da pintura. Os primeiros estudos se deram na Escola Americana e no Colégio Mackenzie, onde foi diplomada professora, aos 17 anos, em 1906. Ainda na infância, seu pai que chegou a ser deputado estadual em 1892-1894, faleceu e a família perdeu o esteio financeiro. Não sofreu graves perrengues, mas passou a levar uma vida modesta.

Para se manter, a mãe foi dar aulas particulares de idiomas, desenho e pintura, tendo a filha como assistente. Aí a menina aprendeu e desenvolveu o talento no desenho e na pintura. No entanto, sua vida não ia bem, pois aos 13 anos tentou suicídio, deitando-se nos trilhos do trem, próximo da Estação Barra Funda, onde morava. Aos 21 anos, em 1910, seu tio e padrinho Jorge Krug bancou sua viagem à Alemanha, onde estudou pintura e entrou em contatos com movimentos de vanguarda: expressionismo, cubismo e com o grupo “Die Brucke”. Teve aulas com destacados professores: Fritz Burger e Lovis Corinth e Ernst Bischoff-Klum. Depois ingressou na Academia de Belas Artes de Berlim, mas deixou-a no ano seguinte convencida que a arte acadêmica não era sua praia. Pouco antes de estourar a I Guerra Mundial, retornou à São Paulo após breve estadia em Paris.

Aos 24 anos realizou sua primeira exposição individual e tinha como objetivo obter uma bolsa de estudos e voltar a viajar, mas não conseguiu. Seu tio/padrinho bancou de novo sua viagem para Nova Iorque, em 1914, onde estudou na Art Student’s League e Independent School of Arts, para estudar gravura e pintura, e teve aulas com George Brant Bridgman e o pintor e filósofo Homer Boss, que a aconselhou a se aprofundar mais na arte expressionista. Ficou por lá 2 anos e, na volta com a mala cheia de telas, causou certa decepção no âmbito familiar. Não compreenderam aquele tipo de pintura; gostariam de ver uma pintura mais formal. Outra exposição foi montada em 1917. Vendeu 8 quadros, mas uma crítica ferrenha, publicada por Monteiro Lobato n’O Estado de São Paulo, em 20/12/1917, causou a devolução dos quadros e ela passou a ser atacada pela imprensa.

Os futuros modernistas – Oswald e Mario de Andrade, Di Cavalcanti, Guilherme de Almeida e Menotti Del Picchia – entraram em campo para defendê-la. Não deixa de ser interessante o fato que a tornou conhecida do público paulistano: as críticas acirradas de Monteiro Lobato. Ao verem sua verve – vale dizer: um “medalhão” literário- contra aquele tipo de pintura, todos se motivaram em ver as obras e correram para a exposição. Em seguida, talvez movida pela crítica, tentou uma aproximação com a linguagem tradicional e foi tomar aulas com Pedro Alexandrino Borges, um pintor acadêmico, e frequentar o ateliê do pintor alemão George Fischer Elpons, onde travou contato mais próximo com colegas do curso: Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. Tal amizade resultou na criação do “Grupo dos Cinco” (Mário, Oswald, Menotti, Anita e Tarsila) que irá organizar a Semana de Arte Moderna, em 1922.

Expôs 20 telas durante a Semana e no ano seguinte ganhou uma bolsa do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo. Viajou de novo para Paris, onde morou por 5 anos. Na volta, em 1928, e já consagrada como pintora, montou sua quarta exposição individual. A partir de 1930, participou de diversos eventos: fundou a SPAM-Sociedade Pró-Arte Moderna; participou do Salão Revolucionário (1931); montou um curso de História da Arte; aproximou-se da Família Artística Paulista (FAP) e instalou seu ateliê no bairro de Higienópolis, onde permaneceu até 1952. No ano anterior participou da I Bienal de São Paulo e seguintes e ganhou uma sala especial na 6ª Bienal, em 1961. No 40º ano da Semana de Arte Moderna, em 1962, foi homenageada e participou de diversos eventos.

Não obstante ser uma pessoa famosa, era uma pessoa tímida e vivia mais ou menos reclusa em sua chácara em Diadema desde a década de 1940, após a morte de sua mãe e de seu grande amigo Mario de Andrade. Aí veio a falecer em 6/11/1964. Entre seus trabalhos mais conhecidos, encontram-se: O Farol (1915), Torso/Ritmo (1915/16), O Homem Amarelo (1915), Tropical (1917), A Japonesa (1924), A Estudante (1916), Samba (1945), Paisagem de Ouro Preto (1948), A Boba (1915) etc. A bibliografia sobre a pintora é extensa, tal como as biografias dentre as quais vale citar: Minha Tia Anita Malfatti (2009), de Doris Maria Malfatti; Anita Malfatti no tempo e no espaço: biografia e estudo da obra (2019), de Maria Rossetti Batista e Anita Malfatti (2011), seu caderno de desenhos, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

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OS BRASILEIROS: Di Cavalcanti

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo nasceu em 6/9/1897, no Rio de Janeiro. Pintor, ilustrador, desenhista, cenógrafo, jornalista, muralista, caricaturista e um dos expoentes da pintura brasileira. Participou da Semana de Arte Moderna, em 1922, e imprimiu um caráter nacional em suas obras ao abordar temas típicos da cultura brasileira, como carnaval, mulatas e figuras populares em cores exuberantes e formas sinuosas.

Filho de Frederico Augusto Cavalcanti de Albuquerque, membro de uma tradicional família pernambucana, e Rosalia de Sena. Pelo lado materno, era sobrinho da esposa de José do Patrocínio, abolicionista do século XIX. Iniciou a carreira como caricaturista, na revista Fon-Fon, em 1914, e mudou-se para São Paulo em 1917, onde ingressou na Faculdade de Direito. Na ocasião, trabalhou como ilustrador de conteúdo e capas para a revista O Pirralho, fez a ilustração do livro Carnaval (1919), de Manuel Bandeira e se entrosou com os artistas e escritores paulistas. A exposição da pintora Anita Malfatti, em 1917, e os contatos com Rubens Borba de Moraes e Sergio Milliet, apresentando-lhe as pinturas de Pablo Picasso, deram-lhe ânimo para retomar o estudo de pintura com o professor alemão Georg Elpons, no Rio de Janeiro. Pouco depois a capital paulista entra num período de efervescência cultural capitaneado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Sergio Milliet etc. dos quais se tornou amigo.

Para ajudá-lo financeiramente, os amigos planejaram uma exposição de suas caricaturas, mas ele sugeriu que no lugar de uma “exposiçãozinha” poderiam fazer um evento maior incluindo outras artes, como música e literatura. Assim, deu-se início a organização da Semana de Arte Moderna, para a qual criou o catálogo e cartaz e expôs algumas de suas obras. No ano seguinte, quando Milliet voltou para a Europa, ele foi junto e arrumou emprego na revista Monde, em Paris. Aí permaneceu até 1925 e frequentou a Académie Ranson. Na condição de jornalista, “sem contar a ninguém que era pintor, entrei em contato com Picasso, Braque, Matisse, Fernand Léger, Jean Cocteau e toda a vanguarda francesa, sempre levado pela mão de Sergio Milliet”. Destes artistas recebeu influências que foram trabalhadas ao seu modo, numa linguagem pessoal.

Tais influências marcam um redirecionamento em sua obra. Passa a adotar uma temática nacionalista ligada a questão social. A tela Samba (1925), considerada sua obra-prima reflete esta tendência. Representa a figura da mulher negra seminua e o samba, ícones da cultura popular brasileira. A influência de Picasso fica evidente no porte volumoso e tratamento dado às mãos e aos pés das figuras. Segundo o crítico Jones Bergamin, este quadro tem um reconhecimento similar ao de Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral e constitui-se numa “das bandeiras da arte brasileira”. Quando retornou ao Brasil, filiou-se ao Partido Comunista em 1928. Retoma com mais afinco sua obra e aprimora seu estilo, influenciado agora pelo expressionismo alemão, com formas simplificadas e curvilíneas em cores quentes, em especial vários tons de vermelho.

Em 1932 fundou em São Paulo, junto com os pintores Flavio de Carvalho e Antonio Gomide, o CAM-Clube dos Artistas Modernos. No mesmo ano foi preso durante a Revolução Constitucionalista e no ano seguinte publicou o álbum A Realidade Brasileira, uma série de 12 desenhos satirizando os militares. Em seguida casou-se com a pintora Noêmia Mourão. Na década de 1940 atinge a maturidade artística e o reconhecimento público no cenário nacional. Adepto da arte figurativa, deu uma conferência no MAM-Museu de Arte Moderna , em 1948, publicada na revista Fundamentos, sob o título Realismo e abstracionismo, defendendo uma arte brasileira e contra o abstracionismo. Por esta época incursiona na arte muralista, sob a influência do mexicano Diego Rivera e produz alguns murais em edifícios de São Paulo. Em 1960 realizou o painel “Candango” na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Ao mesmo tempo em que mantinha a carreira artística, participava dos movimentos político-sociais. Foi preso, de novo, em 1936 e libertado por amigos, mudou-se para Paris, onde permaneceu até 1940. Lá recebeu medalha de ouro com a decoração do Pavilhão da Companhia Franco-Brasileira, na Exposição de Arte Técnica. Pouco antes da II Guerra Mundial, retornou ao Brasil, fixando-se em São Paulo. Em seguida passou a expor em Lisboa, México, Buenos Aires e Montevideo e obteve reconhecimento internacional. Participou da I Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em 1951 e recebeu a láurea de melhor pintor na II Bienal, prêmio dividido com Alfredo Volpi. Por essa época fez uma generosa doação de mais de 500 desenhos ao MASP-Museu de Arte de São Paulo.

Em 1954, o MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro fez uma retrospectiva de suas obras e 2 anos depois participou da Bienal de Veneza. No mesmo ano recebeu o I Prêmio da Mostra Internacional de Arte Sacra de Trieste. Em 1960 criou imagens para a tapeçaria do Palácio da Alvorada e pintou as estações da via sacra, na Catedral de Brasília. No México, ganhou uma sala especial na Bienal Interamericana e foi contemplado com a Medalha de Ouro. Teve sala especial, também, na VII Bienal de São Paulo em 1962. Foi indicado pelo presidente João Goulart para ser adido cultural na França, embarcou para Paris, mas não pode assumir o cargo devido ao Golpe Militar de 1964. Passou a viver em Paris com Ivete Bahia Rocha e lançou uma espécie de autobiografia: Reminiscências líricas de um perfeito carioca.

A década de 1970 foi marcada com diversas exposições retrospectivas, premiações e comendas: Prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Arte; título de doutor honoris causa, da UFBA e teve sua obra Cinco moças de Guaratinguetá, reproduzida em selo postal. Em 1975 recebeu a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique de Portugal. Faleceu em 26/10/1976 e seu funeral foi filmado por Glauber Rocha, constituindo-se no documentário Di-Glauber (1977) em homenagem ao pintor. Principais obras: Pierrete e Pierrot (1924) Samba (1925), Mangue (1929), 5 moças de Guaratinguetá (1930), Músicos (1963) etc.

Em seu centenário, em 1997 foram realizadas exposições comemorativas e retrospectivas: As mulheres de Di, pelo Centro Cultural do Banco do Brasil; Di, meu Brasil brasileiro, pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e Di Cavalcanti, 100 anos, pelo Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado. Três livros, entre tantos outros, dão conta de sua vida, legado e sua contribuição à pintura brasileira: Contando a arte de Di Cavalcanti, de Angela Braga-Torres (Global Editora, 2021); Di Cavalcanti: conquistador de lirismos, de Denise Mattar e Elisabeth Di Cavalcanti (Ed. Capivara, 2016) e A querela do Brasil: a questão da identidade da arte brasileira: a obra de Tarsila, Di Cavalcanti e Portinari: 1922-1945, de Carlos Zilio (Ed. Relume Dumará, 1997).

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Tia Ciata

Hilária Batista de Almeida nasceu em Santo Amaro da Purificação, BA, em 23/4/1854. Cozinheira, mãe de santo, animadora cultural e conhecida como “Matriarca do Samba”. Foi uma das primeiras quituteiras baianas do Rio de Janeiro e reunia em sua casa os primeiros sambistas. Aí foi composto o primeiro samba -“Pelo telefone”- gravado em disco por Donga e Mauro de Almeida, em 1916.

Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1876, período que ficou conhecido como “diáspora baiana”, devido às perseguições policiais contra as tradições africanas. Para se manter instalou banca de quituteira na rua 7 de Setembro, na área central do Rio, chamada também de “Pequena África”. Sempre paramentada com vestes típicas, boa comida e animada, levou o “samba de roda” de Salvador para o Rio e conquistou a simpatia dos cariocas. Casou-se com Norberto da Rocha Guimarães, com quem teve uma filha. Mas o casamento durou pouco e voltou a casar-se com João Baptista da Silva, um negro culto, que chegou a cursar 2 anos na Escola de Medicina da Bahia, com o qual teve 14 filhos.

Morando nas proximidades da Praça Onze, sua casa –um casarão com 6 quartos, 2 salas, um longo corredor e quintal com árvores- passou a reunir em todos os finais de semana variado grupo de apreciadores dos pagodes e quitutes. Nestas ocasiões Tia Ciata reinava como entusiasta dos refrões e danças do samba. Foi ela quem ensinou ao neto Bucy Moreira os segredos do passo “miudinho”, uma forma de sambar de pés juntos que exige destreza e elegância. Passou também a confeccionar e alugar roupas típicas da Bahia para teatros e desfiles de carnaval, incluindo não só as mulheres, mas também homens e gente graúda, que gostavam de se travestir nas festas do Carnaval de rua.

Nesta época armava uma barraca na Praça Onze, onde eram lançadas as marchinhas, que ficariam famosas no Carnaval da cidade. Sua casa era frequentada por alguns nomes destacados na época ou que vieram a se destacar mais tarde no cenário carioca, tais como o jornalista Vagalume, o ator Alfredo de Albuquerque e importantes nomes da música popular como Hilário Jovino Ferreira, Donga, Pixinguinha, João da Bahiana, Heitor dos Prazeres, Sinhô, Caninha, Didi da Gracinda, Marinho que Toca (pai do compositor Getúlio Marinho), Mauro de Almeida, João da Mata, João Câncio, Getúlio da Praia, Mirandella, Mestre Germano, China (irmão de Pixinguinha) e Catulo da Paixão Cearense.

Tornou-se também um reduto das filhas-de-santo, suas amigas e futuras mães-de-santo: Tia Dadá, Tia Amelia (mãe do Donga), Tia Prisciliana (mãe de João da Bahiana), tia Veridiana (mãe de Chico da Bahiana), Tia Josefa Rica e Tia Tomásia. Não por outra razão, tais rodas de samba eram encerradas com uma cerimônia de candomblé, comandada por Tia Ciata. Sua fama de mãe-de-santo foi confirmada nos festejos aos Orixás e as conhecidas festas de São Cosme e Damião e de sua Oxum, Nossa Senhora da Conceição. Como curandeira, a fama foi alavancada com o tratamento que realizou numa ferida na perna do presidente Venceslau Brás, que não se curava mesmo contando com os cuidados médicos da época. Chamada ao Palácio do Catete, curou a ferida e teve como recompensa um bom emprego para o marido no Gabinete da Chefia da Polícia.

Junto com esta, vieram outras recompensas. As festas na sua casa, que chegaram a sofrer repreensão policial, na gestão de Venceslau Brás (1914-1918), passaram a ser autorizadas e contando com 2 soldados para fazer a segurança. Seu marido morreu em 1910, quando ela já era uma personalidade conhecida na cidade e viveu junto com os familiares até 1924, quando veio a falecer aos 70 anos. Um destes, o neto Bucy Moreira, viveu com ela até os 15 anos e tornou-se um bom compositor, instrumentista e diretor de harmonia de escolas de samba. Diz a lenda que também era o melhor dançarino de samba de sua geração.

Hoje sua memória é mantida pela ORTC – Organização dos Remanescentes da Tia Ciata, um espaço cultural com exposição permanente, criado por Gracy Mary Moreira, sua bisneta e filha de Bucy Moreira, aberto à visitação pública no Rio de Janeiro. Veja clicando aqui. Um resgate dessa história e deste local, conhecido como “Pequena África”, pode ser visto no livro Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, de Roberto Moura, publicado em 1995 pela Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Rubens Borba de Moraes

Rubens Borba Alves de Moraes nasceu em Araraquara, SP, em 23/1/1899. Bibliógrafo, bibliotecário e um dos maiores bibliófilos do mundo. Foi também administrador, pesquisador, historiador, memorialista, ensaísta, professor e um dos destacados organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922. Construiu, literalmente, a Biblioteca “Mario de Andrade”, de São Paulo, supervisionando a edificação e conduzindo a organização do acervo. Foi um dos pioneiros da biblioteconomia no País.

De origem tradicional paulista, sua família é descendente do bandeirante Borba Gato. Porém, segundo seu amigo e também bibliófilo José Mindlin, não tinha a empáfia de muitos quatrocentões paulistas. Eu posso confirmar esta característica a partir do contato que tive com ele numa entrevista em 1984. Aos nove anos foi morar e estudar na Europa. Graduou-se em Letras na Universidade de Genebra, onde lançou seu primeiro livro, Le Chevalier au Barizel, uma peça de teatro encenada em fevereiro de 1919. Neste ano retornou ao Brasil já inoculado pelo “vírus” da bibliofilia. Por essa época escrevia melhor em francês e teve vários de seus textos traduzidos para o português pelos amigos, particularmente seu amigo de infância, Mário de Andrade. Em São Paulo e Rio de Janeiro conviveu com um seleto grupo de intelectuais, além de Mário: Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Luís Aranha e Menotti del Picchia ente outros, que organizaram a Semana de Arte Moderna, de 1922.

O gosto em colecionar livros surgiu aos oito anos, quando pedia aos pais que comprassem os livros dos autores que gostava. Com cerca de 18 anos, passou a comprar e colecionar obras de autores franceses contemporâneos e tiragens especiais. Por volta de 1921, um amigo iniciou uma coleção “Brasiliana”, mostrou-lhe e ele passou a se interessar pelo assunto. Vendeu seus livros franceses e iniciou a mais importante coleção “Brasiliana”. Sua biblioteca se dividia em livros antigos estrangeiros sobre o Brasil; livros de autoria de brasileiros no período colonial. primeiras impressões feitas no Brasil; e obras sobre história e literatura de autores brasileiros do século XIX

Trabalhou na criação de importantes revistas literárias desse período, como a Revista Klaxon e a Revista de Antropofagia e mais tarde colaborou noutras como Anhembi e Terra Roxa. Em 1924 publicou seu primeiro livro de ensaios, “Domingo dos séculos”, uma reflexão sobre as artes no século XX que iniciava. Neste ano passou a trabalhar como contador na Recebedoria de Rendas da Cidade de São Paulo, mas sem vocação alguma para isso. Seu amigo Sergio Milliet brincava dizendo que ele só sabia fazer contas com os dedos da mão. Pouco depois fundou um jornal opositor ao Partido Republicano Paulista, “Diário Nacional” e lutou na Revolução Constitucionalista de 1932. Na gestão do prefeito Fabio Prado (1934-38), junto com escritor Paulo Prado, Mário de Andrade e outros amigos, organizou o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo (1935), que ficou sob a direção de Mário. Ao contínuo, este o convocou para a construção e organização da Biblioteca Pública, que veio ocorrer em 1942.

Em 1936 fundou o curso de biblioteconomia, que três anos depois, foi incorporado a Escola de Sociologia e Política, que também ajudou a fundar. Dirigiu por oito anos a biblioteca, que mais tarde veio a se chamar “Mario de Andrade” e o segundo maior acervo do País. Em sua administração realizou diversas inovações, incrementou a seção de obras raras e criou os ônibus-biblioteca instalados nas praças dos bairros. Na sua concepção, biblioteca não é apenas um lugar para guardar livros; deve fazê-los circular entre os leitores. Sofreu oposição politica ferrenha do prefeito Prestes Maia, que só pensava em construir grandes avenidas e acabou sendo demitido.

Sua ligação com a biblioteconomia não se restringiu a criar o curso. Em 1938, junto com Sergio Milliet e outros, fundou a Associação Paulista de Bibliotecários, a fim de reunir os profissionais que se iniciavam na profissão. No ano seguinte ganhou uma bolsa da Fundação Rockfeller para uma viagem aos EUA, onde passou três meses visitando algumas bibliotecas e a sede da ALA-American Library Association. Em 1944 trabalhou poucos meses na biblioteca do Ministério do Trabalho e, em seguida, foi nomeado diretor da divisão de preparo da Biblioteca Nacional, em agosto de 1944. No ano seguinte, assumiu a direção geral e implantou novas diretrizes na administração, organização e metodologia da instituição. Aí passou a sofrer outra ferrenha oposição, não política, mas burocrática do corpo de funcionários. Ficou no cargo até 1947, quando foi convidado para assumir o cargo de vice-diretor da Biblioteca da ONU, em Nova Iorque. Entre 1948 e 1949 foi nomeado diretor do Centro de Informações da ONU, levando-o a residir em Paris até 1954. Em seguida foi chamado de volta à Nova Iorque, agora como diretor da Biblioteca da ONU, cargo em ficou até se aposentar em 1959.

Entre suas obras bibliográficas mais relevantes encontra-se o Manual bibliográfico de estudos brasileiros (Rio de Janeiro: Editora Gráfica Souza, 1949; Brasília: Senado Federal, 1998. São dois volumes em coautoria com William Berrien. Em seguida publicou em inglês sua Bibliographia brasiliana, publicada em dois volumes pela editora Colibris, de Amsterdam, em 1958 e pela UCLA Latin American Center Publications (Los Angeles), em 1983. A edição em português só foi possível em 2010, pela Editora da USP com o patrocínio da FAPESP. Trata-se de uma fonte de referência indispensável aos bibliófilos, bibliotecários e estudiosos de livros raros sobre o Brasil de 1504 a 1900. Não menos relevante é também sua Bibliografia da Imprensa Régia no Rio de Janeiro, publicada postumamente pela Editora da USP e Kosmos, em 1993, com assessoria de Ana Maria Camargo e “Livros e bibliotecas no Brasil colonial”, reeditado pela Briquet de Lemos/Livros, em 2006.

Na década de 1960 publicou um livro indispensável à quem se interessa ela bibliofilia, que veio a se tornar raro: O bibliófilo aprendiz. O livro foi reeditado algumas vezes, sendo as duas últimas realizadas pelo seu discípulo e editor Briquet de Lemos em 1998 e 2005. Em seguida foi convidado para lecionar na Universidade de Brasília, onde foi professor no período 1963-1970. De volta à São Paulo, decidiu morar numa chácara em Bragança Paulista. Para conseguir o dinheiro empregado na construção da chácara, planejou a venda de 1/3 da biblioteca à uma universidade norte-americana. No entanto, ao saber da transação, Mindlin interrompe a negociação. adquire o acervo e incorpora a sua biblioteca. Mais tarde os dois passaram a conversar sobre o futuro de suas bibliotecas e decidiram que no momento em que eles não estivessem mais por aqui, o conjunto de seus acervos seriam reunidos para formar uma grande “Brasiliana”, colocada à disposição do público no âmbito da USP.

O acordo foi lavrado por Rubens em testamento, e quando veio a falecer em 2/9/1986, seu acervo foi legado à futura “Biblioteca Brasiliana”, organizado do modo com ele deixou. Em 2005 foi iniciado o projeto de organização da Biblioteca e, logo após o falecimento de Mindlin em 2010, foi inaugurada a BBM-Biblioteca Brasiliana Mindlin, constituindo-se num dos maiores acervos de obras brasilianas e raras do mundo. O bibliófilo vem sendo reconhecido com homenagens como a “Medalha de Honra ao Mérito Bibliotecário”, outorgada pelo Conselho Regional de Biblioteconomia (Brasília) aos profissionais destacados no ano. A Prefeitura de São Paulo reconheceu o trabalho de seu fundador dando seu nome à Biblioteca Pública do bairro Ermelino Matarazzo. O reconhecimento público vem ocorrendo com alguns lançamentos biográficos póstumos: “O Mestre dos Livros – Rubens Borba de Moraes”, de Sulena Pinto Bandeira, lançado em 2007 e “Testemunha ocular (recordações)”, do próprio Rubens, organizado e comentado pelo editor, lançado em 2011, ambos pela Briquet de Lemos/Livros.

Aliás, devemos creditar a Briquet de Lemos, seu colega como professor na UnB, o esforço em manter viva sua memória e legado. O lançamento mais recente reúne os comentários registados nos livros de sua própria biblioteca: “Rubens Borba de Moraes: anotações de um bibliófilo”, da curadora da BBM Cristina Antunes, lançado em 2017.

Aos interessados em conhecer um pouco mais a personalidade de Rubens, apresentamos sua última entrevista, realizada por Marco Aurélio Andrade Filgueiras, em 1982. A bem dizer não se trata de uma entrevista padrão; é mais uma longa conversa descontraída entre dois amigos, rememorando a Semana de Arte Moderna e seus participantes.

Para ler a entrevista, clique aqui: Grandes entrevistas – Rubens Borba de Moraes.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Aracy de Carvalho

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa nasceu em Rio Negro, PR, em 5/12/1908. Funcionária do consulado brasileiro em Hamburgo, Alemanha, prestou ajuda a muitos judeus -perseguidos pelos nazistas- entrarem ilegalmente no Brasil. É conhecida como o “Anjo de Hamburgo’ e recebeu o título de “Justa entre as Nações” pelo governo de Israel, tendo seu nome inscrito no Jardim dos Justos entre as Nações do Yad Vashem (Museu do Holocausto) e também no Museu do Holocausto de Washington.

Filha da alemã Sidonie Moebius de Carvalho e do português Amadeu Anselmo de Carvalho, passou a infância em Guarujá, SP, onde o pai era dono do Grande Hotel. Em 1930 casou-se com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess com quem teve um filho. Separou-se 5 anos depois e, para fugir do preconceito contra as mulheres divorciadas, foi morar na Alemanha com sua tia Lucy Luttmer. Dominando 4 idiomas (português, alemão, inglês e francês), conseguiu -através do chanceler Macedo Soares- emprego no Consulado brasileiro em Hamburgo, onde passou a chefiar a Seção de Passaportes.

Pouco antes de eclodir a II Guerra Mundial, entrou em vigor no Brasil uma restrição secreta impedindo a entrada de judeus no País, fugitivos da Alemanha nazista. Aracy ignorou a restrição e continuou preparando vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Para obter a assinatura do cônsul geral aprovando os vistos, ela deixava de colocar no passaporte a letra “J”, identificando os judeus. Além dessa ajuda, ela forjava atestados de residência falsos, para poder atender judeus de outras cidades e chegou a transportar na mala do carro um judeu até a fronteira da Dinamarca; visitava judeus para levar mantimentos; dava orientações sobre como repatriar bens para fora do país e guardava valores de judeus até o embarque para evitar que fossem roubados por nazistas.

Em 1938 conheceu o cônsul adjunto João Guimarães Rosa, casou-se e permaneceram na Alemanha até 1942, quando o Brasil teve as relações diplomáticas rompidas com este país e passou a apoiar os países aliados. Devido ao conflito, o casal ficou 4 meses detido pelo governo alemão até serem trocados por diplomatas alemães. Devido ao fato de não haver divórcio no Brasil, o casamento foi oficializado apenas em 1947, na embaixada do México, no Rio de Janeiro. Sua história só ficou conhecida em princípios da década de 1980, quando uma judia alemã que fugiu para o Brasil decidiu divulgar os feitos da brasileira na Alemanha, durante a II Guerra Mundial. A história foi reconhecida pelo governo de Israel em 1982, quando recebeu as devidas homenagens.

Tal história foi contada em detalhes a partir da pesquisa realizada pela historiadora brasileira Mônica Schpun, da École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris. A pesquisa resultou na publicação do livro Justa – Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus trocando a Alemanha nazista pelo Brasil, publicado em 2011 pela Editora Record. Um dado relevante nesta biografia é a revelação da importância que Aracy teve na formação do escritor, não só auxiliando-o na revisão do livro Sagarana, mas também fornecendo-lhe conhecimentos sobre a cultura alemã. Em cartas dirigidas à ela, Rosa costumava chamar “o nosso Sagarana”, referindo-se ao livro. Seus biógrafos dizem que “De um só golpe, Rosa absorveu o lado “bom” dos alemães, sua cultura, e o lado “perverso” dessa mesma civilização, encontrando para esse dilema soluções que serão a chave de sua nova literatura. Nada disso, porém, seria possível sem a presença de Aracy ao seu lado naquele momento fundamental”.

Sua disposição de ajudar pessoas perseguidas por motivos políticos prossegue até quando passou a viver no Brasil. Consta em sua biografia o apoio e alojamento a compositores e intelectuais perseguidos durante o regime militar implantado no Brasil em 1964, entre eles Geraldo Vandré, de cuja tia Aracy era amiga. Em 1967, com o falecimento de Guimarães Rosa, passou a viver anonimamente até 1982, quando recebeu as devidas homenagens do governo de Israel e passou a ser conhecida do público. Mais tarde foi diagnosticada com o Mal de Alzheimer e faleceu em 28/2/2011, aos 102 anos. Foi sepultada no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, ao lado de seu marido, no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.

A história de Aracy foi retratada, também, no documentário “Esse viver ninguém me tira”, de Caco Ciocler, produzido em 2014, à disposição no Youtube. O governo brasileiro entrou no rol das homenagens, em 2019, quando os Correios colocaram em circulação 54 mil selos especiais com sua imagem estampada. Atualmente a TV Globo vem exibindo a série Passaporte para a liberdade, livremente baseada no livro de Mônica Schpun, produzida em parceria com a Sony Pictures Television. O seriado, em 8 capítulos, foi filmado em língua inglesa e deverá rodar o mundo após sua apresentação no Brasil.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Padre Roma

José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, mais conhecido como Padre Roma, nasceu no Recife, PE, em 1768. Advogado, religioso e um dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817. Demonstrou vocação religiosa aos 16 anos e entrou para o Convento do Carmo, em Goiana. Em seguida foi para Portugal e fez o curso de Teologia na Universidade de Coimbra. Depois partiu para Roma, onde concluiu os estudos religiosos e ordenou-se padre. Mais tarde a vocação religiosa foi colocada em dúvida; pediu dispensa da Ordem Carmelita, em 1807. No Recife; casou-se; abriu uma banca de advocacia e passou a conspirar contra o domínio português e lutar pela independência do Brasil.

Era um homem culto com conhecimentos de grego e latim e por ter vivido em Roma recebeu este apelido. Possuía o dom da oratória e era dotado de sólidos conhecimentos jurídicos. Assim, ficou famoso no Recife, particularmente por defender causas populares e adesão às ideias liberais em voga na época. Com a vinda de Dom João VI, em 1808, foram criados muitos impostos para manter a família imperial e o Brasil passou por profundas mudanças com uma opressiva administração da colônia. Ao mesmo tempo, ideais nativistas e anticolonialistas eram defendidos pela maçonaria e propagados em centros como o Areópago de Itambé e o Seminário de Olinda. Dessa forma, os interesses de alguns militares, dos padres e maçons uniram-se num mesmo ideal de emancipação política do Brasil.

Estes grupos passaram a conspirar abertamente contra o poder imperial e as ordens vindas do Rio de Janeiro. Os padres tinham um papel relevante na conspiração, incitando os fiéis à causa libertária do jugo português. Os preparativos para a revolta popular foram se acumulando até 6/3/1817, quando o governador da província – Caetano Pinto de Miranda Montenegro – mandou prender os revoltosos implicados na conspiração. O primeiro a receber ordem de prisão foi o capitão José de Barros Lima, apelidado de “Leão Coroado”, que atravessou com uma espada o oficial português encarregado de prendê-lo. A revolta alastrou-se rapidamente e tomou as ruas do Recife. Em seguida os revoltosos elegeram o Governo Provisório, composto por 5 membros representantes do exército, clero, comércio, agricultura e magistratura.

A revolta logo teve a adesão do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Padre Roma, devido a sua eloquência e poder de convencimento, foi designado para ir clandestinamente até a Bahia para obter adesão ao movimento. Levou mais de 50 correspondências endereçadas a membros da maçonaria baiana e outros simpatizantes. Depois de velejar numa jangada pela costa de Alagoas até a praia de Itapuã, em Salvador, avistou as tropas portuguesas que o aguardava. Jogou todos os papeis no mar, para não incriminar os aliados baianos, e foi preso. Junto com ele, vinha seu filho mais novo, Luís Ignácio. O mais velho, com o mesmo nome do pai e futuro General Abreu e Lima, já estava preso em Salvador.

Foi preso em 26/6/1817 e nos três dias em que foi torturado não entregou os companheiros que contataria em Salvador. A tortura incluía a visita ao cárcere do filho mais jovem nu e estendido sobre a lama, mais parecendo um espectro do que ser vivente. O filho mais velho – Abreu e Lima – que já estava preso há mais tempo, manifestou o desejo de ver o pai antes do fuzilamento. Seus algozes portugueses atenderam o pedido. Foi obrigado a assistir o fuzilamento do pai, por ordem do Conde dos Arcos, em 29/6/1817. Ele já foi incluído neste Memorial e pode ser visto clicando aqui.

Segundo o historiador Pereira da Costa, autor do Dicionário Biográfico de Pernambucanos Célebres, a morte do Padre Roma foi assim descrita pelo filho Abreu e Lima, presente na execução: “O seu porte em presença do conselho, no oratório e durante o trajeto para o lugar do suplício, foi sempre o de um filósofo cristão, corajoso, senhor de si, mas tranquilo e designado. Suas faces não se desbotaram senão quando o sangue que as tingia correu de suas feridas, regando o solo onde, cinco anos depois, se firmou para sempre a independência de sua pátria”. Conta ainda a história que em seus últimos instantes, ele dispensou a venda nos olhos, encarou o pelotão de fuzilamento, pôs a mão sobre o coração e gritou: “Camaradas eu vos perdôo a minha morte. Lembrai-vos que aqui é a fonte da vida!”.

Procurei na Internet alguma biografia do Padre Roma e não encontrei. Achei apenas alguns curtos verbetes, mas ele é um nome conhecido em muitas cidades do País com seu nome dado a diversos logradouros. Aqui mesmo, em São Paulo, no bairro da Lapa temos uma importante rua chamada Padre Roma. Porém, acho que muitas pessoas não sabem a quem se refere aquele nome. Já perguntei a alguns moradores e tive mais de uma resposta dizendo a mesma coisa: “Não sei, mas deve ser ao Papa, né? O padre de Roma.”

Clique aqui e assisto ao vídeo Lula, padre Roma e a luta pela liberdade e a soberania

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Adma e Violeta Jafet

Adma Jafet nasceu em 1886, no Líbano; Violeta Jafet, sua filha, nasceu em 1908, em São Paulo, SP. São duas representantes de uma família de empreendedores libaneses que veio para o Brasil em fins do século XIX. Tornou-se um dos maiores grupos empresariais familiares do País, atuando nos ramos têxtil, mineração, finanças e navegação. Hoje não se pode falar em filantropia em São Paulo, sem citar a Família Jafet.

Tudo começou em 1921, quando Adma, junto com colegas da comunidade árabe, fundou a Sociedade Beneficente de Senhoras do Hospital Sírio-Libanês. Violeta, com 13 anos, estava presente na reunião, ao lado de outras 27 mulheres. O sonho delas era criar um hospital à altura de São Paulo, como forma de retribuir o acolhimento propiciado pela colônia na cidade. Com ajuda financeira de um grupo de doadores, teve início as obras do hospital numa colina do bairro Bela Vista, em 1931. “Foi em boa hora que tomamos a nosso cargo erguer este edifício sob o céu límpido do Brasil. Deus nos ajude a realizar as nossas aspirações, a servir à nação, a fazer uma obra útil à humanidade”, discursou dona Adma no lançamento da pedra fundamental do hospital.

Em 1937, chegaram os primeiros equipamentos e no ano seguinte foi realizada a primeira reunião dentro do edifício. Em 1941, já se marcava a data da inauguração, quando o governo paulista requisitou o prédio para instalar uma escola de cadetes. Estávamos em plena II Guerra Mundial e, por meio de um decreto, o local foi transformado num centro militar por mais de 20 anos. Dona Adma faleceu em 1956 e não pode ver a instituição pronta. A tarefa ficou com a filha, que batalhou pela reconquista do prédio. Junto com o genro Lourenço Chohfi, percorreu quarteis e gabinetes de políticos com poucos resultados. Até que em meados da década de 1960 se utilizou da influência de Ricardo Jafet, seu parente, na época presidente do Banco do Brasil, e conseguiram com o governador Jânio Quadros resgatar o prédio em 1959.

Em 1960 assumiu a presidência da Sociedade, chamou as amigas de sua mãe, congregou novos aliados e convocou empresários e médicos para ajudá-la na empreitada. O Dr. Daher Elias Cutait ficou encarregado da direção clínica e em 15/8/1965 foi inaugurado oficialmente o Hospital Sírio-Libanês coexistindo com a Sociedade Beneficente. Segundo dona Violeta, “a ideia era formar um hospital que tivesse pobres e ricos, gratuitos e pagantes, para que os pagantes pudessem também pagar as despesas dos menos favorecidos”. Como resultado temos um hospital que foi o primeiro do País a implantar uma UTI-Unidade de Terapia Intensiva, em 1971, e o primeiro do hemisfério sul a realizar uma cirurgia remota por microcâmera, com o paciente em São Paulo e o cirurgião em Baltimore (EUA).

Dona Violeta costumava dizer que o hospital não é nem sírio nem libanês: é “universal” e procurou ampliar sua atuação dedicando-se à educação e investigação científica. Desde 2005 mantém o Instituto de Ensino e Pesquisas e recebeu aprovação do Ministério da Educação para ministrar cursos de pós-graduação lato sensu e stricto sensu. Hoje o hospital conta com 3 unidades em São Paulo e 5 em Brasília, incluindo os centros de oncologia e diagnósticos. É uma referência mundial na área médica e serviços hospitalares. O compromisso assumido há 100 anos por suas fundadoras está fundado em 4 pilares: integração com a comunidade, ambulatórios de filantropia, Instituto Sírio-Libanês de Responsabilidade Social e projetos de apoio ao SUS-Sistema Único de Saúde.

O hospital é mantido com a receita oriunda dos convênios médicos (70%) e dos pacientes particulares (30%). As doações espontâneas são esporádicas e do que se arrecada, a maior parte é reinvestida no hospital, tendo uma parcela destinada a projetos filantrópicos nas redondezas. Em 2006, aos 98 anos, Dona Violeta se afastou da presidência executiva da Sociedade. A gestão foi profissionalizada, mas ela continuou a par de tudo e marcando presença nas reuniões até 26/12/2016, quando veio a falecer aos 108 anos. Pouco depois a administração do hospital instituiu o “Prêmio Violeta Jafet” de excelência no cuidado com os pacientes e dirigido aos funcionários do hospital. Uma comenda que bem poderia se entender à todos os cuidadores da saúde.

Em 2017, na celebração dos 130 anos da imigração no Brasil, a família Jafet promoveu uma festa no Clube Atlético Monte Líbano, com a presença de mais de 500 de seus descendentes. O objetivo não era apenas festejar a data, mas também demonstrar o legado deixado para as gerações seguintes. A comissão organizadora do evento -integrada por primos descendentes dos seis irmãos que chegaram ao Brasil a partir de 1887: Benjamin, Basílio, Nami, João, Miguel e Hala- ofereceu um coquetel de boas-vindas e exibiu a árvore genealógica atualizada: 1.265 descendentes, sendo que 873 estão vivos, permitindo que os presentes marcassem todos os familiares do mesmo ramo genealógico. O evento culminou com uma série de atividades voltadas às crianças, um “pocket show” apresentado por cinco descendentes cantores e uma homenagem aos nove descendentes vivos, com idades acima de 90 anos.

Na comemoração do centenário do Hospital, em 2021, todas as diretorias da Sociedade Beneficente se manifestaram no sentido de manter e alargar as conquistas da entidade como forma de retribuição ao acolhimento da cidade de São Paulo e o Brasil propiciado aos imigrantes.