JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Ary Barroso

Ary Evangelista Barroso nasceu em 7/11/1903, em Ubá, MG. Compositor, pianista, cronista, jornalista, radialista e autor de Aquarela do Brasil, uma das músicas mais gravadas no País, que deu origem ao chamado “samba-exaltação”. Foi um grande revelador e incentivador de talentos musicais.

Filho de Angelina de Resende e do promotor público João Evangelista Barroso, perdeu os pais logo cedo e foi criado pela avó materna e pela tia Ritinha, com quem aprendeu a tocar piano, solfejo e teoria musical. Teve os primeiros estudos em sua cidade natal, Viçosa e Cataguases. Aos 12 anos iniciou como pianista auxiliar no Cinema Ideal, em Ubá, e aos 15 compôs o cateretê De longe e a marcha Ubaenses gloriosos.

Em 1920 faleceu o tio Sabino Barroso, ex-ministro da Fazenda, e recebeu uma gorda herança de 40 contos de réis. No mesmo ano mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi viver sob a tutela do Dr. Carlos Peixoto. Ingressou na Faculdade de Direito aos 18 anos; conheceu e fez amizade com diversos futuros radialistas, juristas, políticos, artistas e caiu na boemia. Assim, foi reprovado no 2º ano e abandonou o curso. Logo, torrou o dinheiro da herança e teve que se empregar como pianista de cinema, teatro e diversas orquestras da cidade.

Sem largar o piano, retomou o curso de Direito, concluído em 1929. Nesse meio tempo, tocou em diversas orquestras e passou a compor: Amor de mulato, Cachorro quente e Oh! Nina em parceria com Lamartine Babo. Junto com Mario Reis compôs Vou à Penha e Vamos de deixar de intimidades, seu primeiro sucesso. No ano seguinte venceu o Grande Concurso de Música Popular, promovido pela Casa Edison e o jornal Correio da Manhã, com a marchinha Dá nela e ganhou 5 contos de réis. Aproveitou o prêmio para casar-se com Ivone Belfort de Arantes, em 1930. Pouco depois foi trabalhar na Rádio Phillips como pianista, mas logo se torna, também, locutor esportivo, humorista e animador.

Em São Paulo, comandou o programa “Hora H”, na Rádio Cosmos, logo transferido para a Rádio Cruzeiro do Sul, no Rio de Janeiro. Na mesma Rádio foi substituir um colega como locutor esportivo e empolgou a torcida. Flamenguista fanático, irradiava o jogo ao mesmo tempo em que torcia ostensivamente, comemorando os gols de seu time ou lamentando os gols do adversário. Em 1937 lançou o programa “Calouros em desfile”, onde obrigava os candidatos a só cantarem músicas brasileiras. O sucesso do programa levou-o à grande Rádio Tupi.

Outras gravações vão surgindo até o grande sucesso Aquarela do Brasil, gravada por Francisco Alves em 1939 com arranjos e acompanhamento de Radamés Gnattali, regravada centenas vezes aqui e no exterior. Até hoje é uma das músicas que mais produz direitos autorais ne exterior. Nos EUA foi interpretada por Frank Sinatra e Bing Crosby, cujo sucesso rendeu-lhe um contrato para trabalhar em Hollywood. Compôs a trilha sonora do filme Você já foi à Bahia?, dirigido por Walt Disney e foi premiado pela Academia de Ciências e Artes Cinematográficas, em 1944. No ano seguinte compôs a trilha sonora para a comédia musical Brazil, dirigida por Joseph Santley, indicada ao “Oscar” de 1945. Como compositor, deixou diversas músicas clássicas do cancioneiro popular: No rancho fundo (1931), Na batucada da vida (1934), No tabuleiro da baiana (1936), Na baixa do sapateiro (1938), Camisa amarela (1930), Os quindins de Yayá (1941), Risque (1952), É luxo só (1957) etc. Nas décadas de 1940 1950 tornou-se o compositor mais gravado por Carmen Miranda.

Motivado pelos amigos, ingressou na política, em 1946, e foi o vereador mais votado do Rio de Janeiro, pela UDN-União Democrática Nacional. As duas causas em que mais atuou foi a construção do Estádio Maracanã e a defesa do direito autoral. Era dotado de excepcional senso de humor. Quando foi internado no hospital, diagnosticado com cirrose hepática que o vitimaria, ligou para seu amigo David Nasser, despedindo-se porque ia morrer. Nasser perguntou: “Como você sabe?”. “É que estão tocando muito minhas músicas no rádio”, respondeu tranquilo. Realmente, faleceu em 9/2/1964, num domingo de carnaval.

Segundo os críticos, Ary Barroso celebra a invenção da brasilidade mestiça da Era Vargas, quando o samba, a mulata, a ginga e a natureza tropical passam a traduzir as cores da nação. Foi homenageado pela Escola de Samba União da Ilha do Governador, em 1988, com o enredo “Aquarilha do Brasil”, contando sua história. No ano de seu centenário (2003), a Rede STV SESC SENAC produziu o documentário O Brasil Brasileiro de Ary Barroso, dirigido por Dimas Oliveira Jr., com depoimentos de diversos amigos. Sergio Cabral pesquisou sua vida e escreveu uma bela biografia – No tempo de Ary Barroso – publicada pela Lumiar Editora. Os interessados numa visão panorâmica de seu legado, podem consultar seu site oficial na Internet Ary Barroso : Vida

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Carlota Queiroz

Carlota Pereira de Queiroz nasceu em São Paulo, SP, em 13/2/1892. Médica, pedagoga, escritora, historiadora e política, foi a primeira deputada federal do Brasil. Teve uma atuação diferenciada no incipiente movimento feminista e participou dos trabalhos na Assembleia Nacional Constituinte, entre 1934 e 1935.

Filha de Maria Vicentina de Azevedo Pereira de Queiroz e José Pereira de Queiroz, foi diplomada professora pela Escola Normal Caetano de Campos, em 1909, onde lecionou e foi inspetora de 1910 a 1913. Logo se interessou por métodos modernos de ensino, como os sistemas Frobel e Montessori e pouco depois se entediou com a carreira. Escreveu no seu diário: “Desiludi-me com a carreira de professora. O meio era acanhado, não havia grande futuro, os melhores lugares eram dos homens. Eu aspiro a mais. Deixei o magistério público, continuando a dar aulas particulares para ter certa independência econômica”.

Em 1920 ingressou na Faculdade de Medicina da USP e no 4º ano transferiu o curso para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, vindo a diplomar-se em 1926. Sua tese -Estudos sobre o câncer- recebeu o prêmio Miguel Couto. Na volta à São Paulo, assumiu a chefia do laboratório de clínica pediátrica da Santa Casa de Misericórdia e do serviço de hematologia da Clínica de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP. Em 1929 viajou para a Suíça, na condição de comissionada pelo governo paulista, para estudar dietética infantil.

Na Revolução Constitucionalista de 1932, organizou e liderou um grupo de 700 mulheres para dar assistência aos feridos. Tal participação e seu envolvimento na luta pelos ideais democráticos defendidos por São Paulo, levaram-na a ingressar na política em 1933, elegendo-se como deputada federal pelo Partido Constitucionalista. Integrou a Comissão de Saúde e Educação, trabalhando pela alfabetização e assistência social. Foi de sua autoria o primeiro projeto sobre a criação de serviços sociais, bem como a emenda que viabilizou a criação da Casa do Jornaleiro e a criação do Laboratório de Biologia Infantil.

Como deputada batalhou pela defesa da mulher e das crianças e, como pedagoga, reivindicou melhorias no sistema educacional. Além disso, publicou uma série de trabalhos em defesa dos direitos da mulher. Ocupou o cargo até o Golpe de 1937, quando Getúlio Vargas fechou o Congresso. Em seu discurso de posse, discorreu sobre o novo papel que a mulher deveria ocupar no quadro político do País: “Além de representante feminina, única nesta Assembleia, sou, como todos os que aqui se encontram, uma brasileira, integrada nos destinos do seu país e identificada para sempre com os seus problemas. (…) Quem observar a evolução da mulher na vida, não deixará por certo de compreender esta conquista, resultante da grande evolução industrial que se operou no mundo e que já repercutiu no nosso país. (…) E assim foi que ingressaram nas carreiras liberais. Essa nova situação despertou-lhes o interesse pelas questões políticas sociais. O lugar que ocupo neste momento nada mais significa, portanto, do que o fruto dessa evolução”.

Como integrante do IHGSP-Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, desde 1934, tinha certa predileção pela história e publicou dois livros sobre a formação de seu Estado, envolvendo sua família: Um Fazendeiro Paulista no século XIX (1965) e Vida e Morte de um Capitão-Mor (1969), ambos publicados pelo Conselho Estadual de Cultura. Na área médica integrou a Associação Paulista de Medicina, Association Française pour l’Étude du Cancer”, Academia Nacional de Medicina e Academia Nacional de Medicina de Buenos Aires. Em 1950 fundou a Academia Brasileira de Mulheres Médicas, da qual foi presidente nos anos seguintes.

A primeira deputada federal do País ainda não tem uma biografia p.p. dita, mas tem um biógrafa: Mônica Raisa Schpun publicou extenso artigo – Entre feminino e masculino: a identidade política de Carlota Pereira de Queiroz- nos Cadernos Pagu, nº 12 em 1999, relatando sua vida e legado. Segundo ela, Dona Carlota não era uma feminista-padrão. Ao contrário de Bertha Lutz (a segunda deputada do País), era contrária à criação do Departamento Nacional da Mulher. Ela se opôs que “seus cargos fossem preenchidos por mulheres. Cotas eram consideradas sexistas por Carlota”. Em alguns pontos “não concordava com as feministas… e se permitiu fazer política defendendo aquilo que lhe parecia mais importante”. Os interessados no artigo podem acessá-lo clicando aqui.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Patativa do Assaré

Antônio Gonçalves da Silva nasceu em 5/3/1909, em Assaré, CE. Poeta, compositor, cantor, violeiro e improvisador (repentista). Considerado um dos principais representantes da música popular nordestina do século XX, recebeu o epiteto “Patativa do Assaré” devido ao fato de sua poesia cantada se comparar à beleza do canto dessa ave.

Nascido numa família pobre e vivendo da agricultura de subsistência, ficou cego olho direito, aos 4 anos, deviddo ao sarampo. Aos 8 anos, com morte do pai, passou a trabalhar no sustento da família. Aos 12 frequentou a escola local, onde foi alfabetizado em 6 meses. Aos 16 anos comprou sua primeira viola e passou e cantar repentes com apresentações em festas e feiras. Aos 20 mudou-se para Belém e foi “descoberto” pelo folclorista e jornalista José Carvalho de Brito, correspondente do jornal Correio do Ceará. Apresentando-o com “Patativa”, publicou alguns poemas no jornal e no seu livro O caboclo do Pará e o matuto cearense, um capítulo sobre o jovem violeiro. Pouco depois retornou ao Ceará e incoporou o topônimo Assaré ao nome. “Patativa” é um passáro cantador conhecido na região.

Em meados de 1956, frequentava a feira de Crato e participava de um programa da Rádio Araripe, declamando seus poemas. Aí teve contato com José Arraes de Alencar, que gostou dos poemas e incentivou a edição de seu primeiro livro Inspiração nordestina, em 1956. Mais tarde saiu uma 2ª edição ampliada com o título Cantos do Patativa. Mais um lançamento se deu em 1988, com a coletânea de poemas Ispinho de fulô. Ao todo lançou 12 livros, alguns deles em pareceria ou organizado por Geraldo Gonçalves de Alencar. A fama vai se alargando no encontro com outro ícone nordestino: Luiz Gonzaga gravou sua toada A triste partida e deu o titulo ao seu novo LP em 1965.

Mais tarde, em 1973, Fagner gravou o poema O vaquêro com o nome Sina, sem lhe dar o crédito. Porém retratou-se e tornaram-se amigos, vindo a autorizar Fagner gravar Vaca estrela e boi fubá, em 1980, cantada em dupla com Luiz Gonzaga. Em 1970 lançou uma nova coletânea Patativa do Assaré: novos poemas. O livro que o tornou mais conhecido viria em 1978 com Cante lá que eu canto cá, apresentado na programação cultural do encontro da SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em 1979. No mesmo ano se apresentou no Teatro José de Alencar, num espetáculo produzido por seu conterrâneo Fagner, que editou o show e lançou o LP Poemas e canções pela gravadora CBS.

A partir daí ficou conhecido no meio intelectual e estudantil, com presença constante em eventos artisticos. No mesmo ano lançou seu primeiro disco “Poemas e canções”, produzido por Fagner. A amizade entre o poeta e o cantor foi consolidada em apresentações, como no Festival de Verão de Guarujá e no Memorial da América Latina, em 1981. Neste ano esteve no programa “Som Brasil”, da TV Globo, apresentado por Rolando Boldrin. Em 1985 Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento e Fagner musicam seu poema Seca d’água, em solidariedade aos flagelados das enchentes no Nordeste. No mesmo ano, o Banco do Estado do Ceará lançou um disco com seus poemas. Em 1989 foi lançado o LP Canto Nordestino, produzido por Rosemberg Cariry. Seus últimos lançamentos foram o livro Aqui tem coisa e o LP 85 anos de poesia, em 1994. Faleceu em 8/7/2002.

Não obstante a popularidade alcançada, costumava dizer que nunca buscou a fama, nem teve intenção de se tornar um profissional da poesia. Manteve a família de 9 filhos como agricultor e passou toda a vida em Assaré. Era dotado de um grande poder de memória e não escrevia seus poemas. Tal capacidade se manteve até mais dos 90 anos recitando os poemas, que se distinguiam pela oralidade no sotaque carregado. Sua obra, quando transcrita para meios gráficos, perde boa parte do significado expresso verbalmente (voz, entonação, pausas, expressões faciais…). Já na oralidade ficam realçados a ironia, veemência, hesitação…

No entanto, ele sabia criar versos nos moldes camonianos, incluindo sonetos na forma clássica. Ele mesmo diferenciava seus versos em linguagem culta daqueles em linguagem popular, que chamava de “poesia matuta”. Mais tarde deixou de fazer cantorias com seus versos para concentrar-se apenas na poesia: “Eu deixei de ser violeiro, porque nunca tive prazer em cantar ao som da viola. (…) minha ideia de versejar estava muito acima dessa nossa poesia de viola, que podemos dizer é uma poesia mais ou menos corriqueira. (…) sempre gostei de escrever meus versos, a atualidade, a marcha da vida”.

Foi homenageado diversas vezes com premiações, títulos e comendas: diploma de “Amigo da Cultura”, outorgado pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (1982); recebeu títulos de doutor honoris causa de 6 universidades; cidadão honorário de Fortaleza (1982) e Rio Grande do Norte (2000); prêmio Ministério da Cultura na categora Cultura Popular (1995); nomeação de duas bibliotecas públicas no Piauí e a rodovia ligando Assaré a Antonina do Norte entre outras homenagens. Em 1999 foi inaugurado o “Memorial Patativa do Assaré” em sua cidade.

No ano de seu centenário (2009), o projeto Patativa do Assaré Encanta em Todo Canto percorreu num caminhão 95 cidades do Ceará com o objetivo de difundir a poesia popular. Alguns livros e biografias dão conta de seu legado: O metapoema em Patativa do Assaré: Uma introdução ao pensamento literário do poeta, de Francisco de Assis Brito, da Faculdade de Filosofia de Crato (1984); Filosofando com Patativa, de Jesus Rocha, pela Stylus Comunicações (1991); Patativa do Assaré: as razões da emoção, de Cláudio Henrique Sales Andrade, pela Editora UFC (2004).

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AS BRASILEIRAS: Marie Rennotte

Marie Rennotte nasceu em 11/2/1852, na Bélgica. Pedagoga e médica, veio para o Brasil aos 26 anos e foi naturalizada brasileira em 1889. Radicada em São Paulo, em fins do século XIX, foi uma das primeiras médicas obstetra e ginecologista e pioneira da medicina social no Brasil, além de pioneira, também, no incipiente movimento feminista na virada do século XIX para o XX.

Diplomada professora em Paris (1874), lecionou na Alemanha por 3 anos e veio com a família para o Brasil em 1878. No Rio de Janeiro foi professora até 1882 e mudou-se para o interior de São Paulo. Foi lecionar no Colégio Piracicabano, um inovador internato feminino, onde adotou métodos inovadores positivistas e evolucionistas baseados numa pedagogia ligada a Rousseau, Pestalozzi, Froebel, Comte e Spencer. Para isso teve o apoio de grupos progressistas: liberais, republicanos, maçônicos e abolicionistas, em especial dos irmãos ituanos Morais Barros (Manuel e Prudente, futuro presidente da República). O sucesso da escola despertou o ciúme das Irmãs de São de José, mantenedoras do Colégio de Nossa Senhora do Patrocínio, de Itu, que passam difamar as professoras da nova escola. Em sua defesa, a profª Rennotte publica artigos na Gazeta de Piracicaba e jornais da capital manifestando sua oposição às práticas obscurantistas e retrógadas vigentes no ensino tradicional, pregando uma educação feminina, necessária à emancipação da mulher.

Tais artigos levaram-na a colaborar com Josefina Álvares de Azevedo, na publicação de matérias doutrinárias no jornal feminista A Família, a partir de 1888. Assim, passou a fazer parte de uma plêiade de jovens intelectuais reunidas em torno do jornal: Anália Franco, Zalina Rolim, Narcisa Amália, Júlia Cortines, Revocata Heloísa de Melo, Maria Clara da Cunha Santos, Prisciliana Duarte de Almeida, Inês Sabino e Júlia Lopes de Almeida. Em 1889 viajou para os EUA para estudar medicina e permaneceu por 3 anos, enquanto seu amigo Prudente de Morais acelera a carreira política, torna-se integrante de junta republicana provisória e torna-se o primeiro presidente do Estado de São Paulo.

Em sua curta gestão (1890-91) e inspirado nas experiências pedagógicas do Colégio Piracicabano, ele deflagra radical reestruturação do ensino paulista. Tendo como executores iniciais os médicos Caetano de Campos e Cesário Mota, a reforma será implementada pelos governos estaduais subsequentes. Em 1892 graduou-se médica pela Woman’s Medical College of Pennsylvania. De volta ao Brasil, foi 1ª médica na capital paulista. Em 1893 foi à Paris visando se especializar em ginecologia, obstetrícia e neonatologia, com estágios nos hospitais parisienses Hôtel-Dieu e Saint Louis. Na época seu amigo Prudente de Morais foi eleito presidente da República, na gestão de 1894-98. Volta para o Brasil em 1895 e fixa-se no Rio de Janeiro, obtendo a validação do seu diploma francês. Para isso, foi submetida a uma banca examinadora com a tese Influência da educação da mulher sobre a medicina social. De volta à capital paulista em meados do ano, foi admitida na recém-instituída Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, dirigida pelo cirurgião Luís Pereira Barreto.

Na capital paulista, em franca expansão, passou trabalhar no atendimento às mulheres mais abonadas, a domicílio e no consultório, e às desfavorecidas em ambulatórios e enfermarias hospitalares. Sua participação com artigos na imprensa foi ampliada, como o apoio que deu à profª Leolinda Daltro, em 1896, em sua proposta de assistir os povos indígenas ameaçados de extinção. Foi marcante sua atuação no periódico A Mensageira, revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Prisciliana Duarte de Almeida. Com seu envolvimento na vida cultural e política da cidade, foi a primeira mulher admitida no IHGSP-Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1901. Pouco depois tornou-se sócia efetiva da Associação Médica Beneficente de São Paulo, presidida por Arnaldo Vieira de Carvalho, em 1905.

No mesmo ano recebeu o diploma de sócia benemérita do Asilo e Creche da Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, fundada e dirigida por sua amiga, a pedagoga espírita Anália Franco. Quando foi oficializada a Cruz Vermelha Brasileira, em 1908, comandada por Pérola Byington, a entidade teve Oswaldo Cruz como presidente de honra e a Dra. Rennotte como organizadora da regional paulista. Em 1918, durante a gripe espanhola, trabalhou intensamente no socorro aos paulistas. No levante militar tenentista de 1924, a cidade foi sitiada e teve cerca de 500 mortos e 5000 feridos. A Santa Casa ficou lotada com mais de 3 mil pessoas, e ela teve que comandar uma enfermaria improvisada nas dependências do antigo Teatro Colombo, no Brás.

Em 1929 proferiu concorrida palestra no IHGSP, sobre “A mulher brasileira na história”, lembrando a figura de Joana d’Arc, contrapondo-a com heroica atuação de Anita Garibaldi e Ana Néri. Pouco depois, na Revolução Constitucionalista de 1932, aos 80 anos já não podia atuar e foi substituída por sua jovem colega Dra. Carlota Pereira de Queiroz, que se coloca a frente da Cruz Vermelha no atendimento ao grande número de feridos. Em meados da década de 1930, ela encontra-se muda, quase cega e desprovida de recursos para se manter. Em decorrência de uma campanha para ajudá-la, coordenada pelo jornalista Mario Guastini, o interventor paulista José Joaquim de Melo Neto concede-lhe uma pensão mensal equivalente a mil cruzeiros para uma manutenção condigna.

Faleceu em 21/11/1942, em plena II Guerra Mundial, foi sepultada no Cemitério da Consolação e recebeu a gratidão e homenagens da Cruz Vermelha Brasileira e do IHGSP, que realizou sessão solene em 2001 comemorando o centenário de admissão da ilustre médica no Instituto, onde é mantido seu arquivo. Biografia ainda não temos, mas contamos um alentado artigo publicado na revista História, Ciências e Saúde, da Fiocruz, (vol. 10, nº 2) de agosto de 2003, publicado por Leonora De Luca e João Bosco Assis De Luca em 2003, disponível na Internet: Marie Rennotte, pedagoga e médica: subsídios para um estudo histórico-biográfico e médico-social

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pixinguinha

Alfredo da Rocha Vianna Filho nasceu em 23/4/1897, no Rio de Janeiro. Músico, maestro, flautista, saxofonista, arranjador, compositor e um dos prestigiados nomes da música brasileira. Contribuiu para que o “choro”, um novo gênero musical, viesse a encontrar uma forma definitiva, tal como o samba e o frevo. Seu legado consolidou o País musical.

14º filho de Maria Raimunda da Conceição e Alfredo da Rocha Vianna, músico amador e flautista nas rodas de choro. Em 1911, aos 13/14 anos, estreia em disco como flautista do conjunto “Choro Carioca”, onde participam dois de seus irmãos: Léo e China. A 1ª música gravada foi a polca Nhonhô em sarrilho, de Guilherme Cantalice. Em seguida arranjou emprego para tocar nos cabarés da Lapa; orquestra do Cine Rio Branco, além de tocar em ranchos carnavalescos, boates, teatro de revista e grupos de choro. Em 1914 registrou sua primeira composição: o tango Dominante, assinado por Alfredo da Rocha Viana (Pizidin). Pela primeira vez que aparece o apelido, que passou por diversas grafias até chegar em “Pixinguinha”.

Sobre a origem do apelido, declarou em 1968: “Pixinguinha é porque eu tive bexiga, então eles me tratavam de Bixiguinha, Pixiguinha… Houve essa complicação de apelidos e eu não sei por que eu fiquei como Pixinguinha. Não sei se foi pelos discos. Não sei por que foi”. Ainda em 1914 entrou para o “Grupo do Caxangá”, nome extraído da música Cabocla de Caxangá, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense, sucesso de carnaval naquele ano. Na época o grupo se apresentava de chapéu de palha e os componentes do grupo adotaram apelidos matutos, como “Guajarema”, “Catingueira” etc. Pixinguinha atendia por “Chico Dunga”. Por essa época compôs o choro Carinhoso, uma de suas mais importantes obras gravadas em 1929, e logo passou a integrar o conjunto “Oito Batutas”, que ficou famoso a partir de 1919.

O grupo realizou diversas excursões pelo País e no exterior. Em 1921 apresentaram-se na residência do presidente da República, Epitácio Pessoa, para uma seleta plateia. No ano seguinte embarcaram para Paris, onde passaram 6 meses em apresentações, incluindo uma apresentação para a família imperial brasileira, lá exilada desde 1889. Na volta se apresentaram na Exposição do Centenário da Independência, em setembro de 1922, e participam da primeira transmissão de rádio no País. O sucesso do grupo garantiu a estreia da revista Tudo preto, no Teatro Rialto, em 1926, encenada pela Companhia Negra de Revistas. Na ocasião Pixinguinha conheceu a vedete Albertina Nunes, com quem veio a se casar no ano seguinte. Na apresentação em São Paulo, Mario de Andrade procurou o músico na busca de informações para um livro que estava escrevendo (Macunaíma). Pixinguinha forneceu informações sobre o ambiente na casa de Tia Ciata, um terreiro onde se reuniam festeiros e religiosos para festas de candomblé e música. Mário incluiu no capítulo 7 -“Macumba”- um personagem “negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão”, inspirado em Pixinguinha.

Na década de 1930 foi contratado pela gravadora RCA Victor e criou arranjos para grandes cantores, como Francisco Alves e Mario Reis. Aí trabalhou até 1939, quando foi substituído por Radamés Gnattali. Em 1931, junto com João da Bahiana e Donga, criou o “Grupo da Velha Guarda”. Afim de conhecer melhor a teoria musical, ingressa no Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ) e concluiu o curso em 1933. Neste ano passou tocar no dancing Eldorado, onde conheceu o arranjador Radamés Gnattali, que declarou: “Conheci Pixinguinha tocando no dancing Eldorado na Praça Tiradentes, na década de 30. Era uma pequena orquestra de jazz, como muitas da época. Eles faziam uma sessão de choro, e eu ali, aprendendo”. Mesmo com o sucesso, não tinha como se manter e precisava de um trabalho fixo. O prefeito Pedro Ernesto nomeou-o fiscal do Serviço de Limpeza Urbana, em 1934. A nomeação explica-se pelo fato de o prefeito querer montar uma banda da guarda municipal, mas não existindo a função de “maestro de banda” nos quadros da prefeitura, ele foi contratado e logo transferido para outro setor, onde passou a ministrar aulas de música.

Até aqui o choro Carinhoso era apenas música. Os versos de João de Barro só foram incorporados à música em 1937 e tornou-se um dos maiores clássicos com mais de 400 gravações, tornando-se a música mais regravada no País em todos os tempos. Com o sucesso foi contratado pela Rádio Mayrink Veiga como arranjador e regente. A situação econômica vai melhorando, ele sai do aluguel e adquire sua casa própria no bairro de Ramos, em 1939. No ano seguinte, o maestro inglês Leopold Stokowski chega ao País para 2 concertos no Teatro Municipal e aproveita para colher material para o Congresso Pan-Americano de Folclore, resultando no lançamento do álbum “Brazilian native music” nos EUA. Pixinguinha, além da flauta, entrou com a voz num dueto com Jararaca. Na década seguinte o sucesso continua com a marchinha Alá-la-ô, de Haroldo Lobo e Nássara, gravada por Carlos Galhardo, premiada no Carnaval de 1941. Nássara declarou: “Sem o (arranjo) do grande Pixinguinha, minha música não seria o que é. Alá-la-ô teve um parceiro oculto, de gênio”. Dessa época em diante, passou por uns perrengues, caiu na bebida, sumiu de circulação, “virou um alcoólatra”, era o que se dizia. Chegou a atrasar o pagamento das prestações e foi ameaçado de perder a casa. Nesse período largou a flauta e passou a tocar apenas saxofone.

Quem lhe ajudou a sair do perrengue foi o amigo Benedito Lacerda, propondo uma dupla com flauta e saxofone. Lacerda conseguiu o valor para quitar a dívida da casa e um adiantamento com a RCA Victor. O acordo incluía a gravação de 25 discos em que Lacerda seria seu parceiro em todas as músicas. O amigo Canhoto disse que “As músicas eram só do Pixinguinha. E o Benedito combinou com ele: fazia os discos, mas entrava nas parcerias. Muitas pessoas meteram o pau no Benedito, mas não tinham razão. Ele foi franco”. Em meados de 1945 a situação melhorou com sua contratação pela rádio mais popular do País: a Rádio Nacional. No ano seguinte o compositor e cantor Almirante levou-o para a Rádio Tupi. O dueto permaneceu até 1951 e foi um sucesso. Segundo Brasílio Itiberê. a dupla produziu um contraponto musical “dos mais complexos e de maiores consequências estéticas que existe na música popular brasileira”. Em princípios da década de 1950, junto com Almirante e Benedito Lacerda realiza uma excursão pelo Norte e Nordeste e participa das comemorações do IV Centenário de São Paulo, em 1954, com o “I Festival da Velha Guarda”. O encerramento do show, no Parque do Ibirapuera, foi uma apoteose contando com veteranos e um jovem violonista de 16 anos: Baden Powell. O sucesso do evento propiciou o II Festival em 1955, agora ampliado para 4 dias e participação do pianista Radamés Gnattali, do violonista Dilermando Reis, das irmãs Linda e Dircinha Batista, entre outros grandes cartazes.

Em 1956 consolida a fama com seu nome dado à rua onde vivia desde 1939. Em fins do ano seguinte teve um encontro com Louis Armstrong no Palácio Laranjeiras, num jantar oferecido pelo presidente Juscelino Kubitschek. A nata da música brasileira estava presente: Dorival Caymmi, Ary Barroso, João de Barro, Herivelto Martins, Lamartine Babo, Ataulfo Alves… Seguem-se mais shows e discos, intercalados por uma crise cardíaca logo superada, até 1958, na festa de recepção da Seleção Brasileira, campeã mundial de futebol. Cobrindo o evento, estava lá seu futuro biógrafo, o jornalista Sergio Cabral: “Eu, que estava lá e já era fã, aproveitei o intervalo da música para ir conversar com ele. Queria puxar o saco do Pixinguinha”. Pouco depois o presidente Jânio Quadros nomeou-o para integrar o Conselho Nacional de Música, a pedido do professor Mozart de Araújo, em 1961. Em seguida enveredou noutras áreas e produziu a trilha sonora do filme Sol sobre a lama (1963), de Alex Viany, em parceria com Vinicius de Moraes. O “poetinha” disse mais tarde que essa parceria “foi uma coisa dos deuses, nenhum casamento valeu tanto dentro da alma quanto essa parceria com Pixinguinha”. Para ele Pixinguinha era “o maior de todos os músicos populares brasileiros”. Logo saiu a primeira gravação da suíte Retratos, em 4 movimentos pela CBS, orquestrado por Radamés Gnattali, que dá ao primeiro movimento o nome de Pixinguinha.

Em meados de 1964 foi internado por 50 dias no Hospital Getúlio Vargas com um edema pulmonar e passou a fazer eletrocardiogramas quinzenalmente. Após gravar um disco em parceria com Vinicius, em 1966, participou da série de depoimentos ao MIS-Museu da Imagem e do Som, seguido de outras homenagens ao completar 70 anos. Na ocasião foi homenageado com um almoço no Palácio do Itamaraty, ao lado de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Elis Regina e Gilberto Gil, oferecido pelo Ministro das Relações Exteriores, Magalhães Pinto. Pouco depois, foi condecorado com a Ordem do Mérito do Trabalho, pelo Ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho. As homenagens culminam num concerto no Teatro Municipal, onde ele, no camarote presidencial, vê suas músicas interpretadas por Radamés Gnattali, Jacob do Bandolim, conjunto Época de Ouro, entre outros.

O espetáculo resultou no LP Pixinguinha 70, lançado em pelo MIS.

Em 1969, vendeu sua casa em Ramos e mudou-se para outra alugada em Jacarepaguá. Novas dificuldades econômicas levam-no a se mudar novamente, agora para Inhaúma, num apartamento do Conjunto Residencial dos Músicos. Em junho de 1972 sua esposa Betty veio a falecer e a tristeza tomou conta da casa até a manhã do dia 17/2/1973, quando recebe a visita dos amigos Hermínio Bello de Carvalho, Walter Firmo e Eduardo Marques. Conversam amenidades, ouvem música e, na despedida, ele chora. À tarde, foi até Ipanema batizar o filho de um amigo. No instante em que foi assinar o livro da igreja, caiu no altar fulminado por um infarto. Dentre as homenagens ao músico, além das regravações de discos, merece destaque o “Dia Nacional do Choro”, em 23 de abril, data presumida de seu nascimento, criado em 2000; tema-enredo da Escola de Samba Portela, em 1974: “O Mundo Melhor de Pixinguinha”; estátua no Bar da Portuguesa, em Ramos; filme Pixinguinha, um homem carinhoso (2021), dirigido por Denise Saraceni etc. Entre as biografias, cabe destacar: Pixinguinha, vida e obra (1978) de Sergio Cabral, e Pixinguinha, filho de Ogum bexiguento (1998), de Marília Trindade Barbosa e Arthur de Oliveira Filho. Toda sua obra, biografia, cronologia e legado são mantidos pelo IMS-Instituto Moreira Salles, aberto à visitação e no site Pixiguinha.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Zalina Rolim

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo nasceu em 20/7/1869, em Botucatu, SP. Poeta, escritora, professora e tradutora. Foi pioneira da educação infantil, na condição de inspetora do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em fins do século XIX. Colaboradora ativa da Revista do Jardim da Infância (1896), teve atuação destacada na pedagogia e literatura infantil.

Filha de Maria Cândida do Amaral Gurgel e do juiz José Rolim de Oliveira Ayres, tradicional família paulista. Teve os primeiros estudos em Itapeva e desde criança teve aulas particulares de português, francês, italiano e inglês com o conhecido prof. João Köpke, do qual teve influências em sua atividade pedagógica. Devido a profissão do pai, morou em diversas cidades do interior paulista. A vocação de professora foi se aprimorando desde os 15 anos, quando passou a dedicar-se à alfabetização das crianças numa fazenda em São Roque, onde a família morava.

Em seguida, passou a fazer versos, recebendo estímulos do pai, que a colocou em contato com as obras de Ezequiel Freire e Narcisa Amália entre outros. A partir dos 20 anos passou a colaborar com os jornais A Provincia de São Paulo (O Estado de São Paulo) e Correio Paulistano. Em 1893 seu pai foi designado presidente do Tribunal de Justiça do Estado, passando a residir na Capital. Aí ela se entrosou com a elite cultural paulistana e no mesmo ano publicou sua primeira coletânea de poesias – O Coração – recebendo elogios de Olavo Bilac, Artur Azevedo e Vicente de Carvalho.

Por esta época, a capital paulista passava por grandes transformações econômicas e sociais, com a expansão do café e chegada dos imigrantes para suprir a mão-de-obra escrava. Tais mudanças tiveram reflexo na Educação, que passou a formar professores melhor qualificados. Neste surto de desenvolvimento, a Escola Normal passa por uma significativa reforma sob a orientação do prof. Antônio Caetano de Campos, contando com a colaboração de Guilhermina Loureiro de Andrade e Miss Márcia Brown. Assim, a Escola Normal criou o Jardim da Infância que, além de atender as crianças, serviria também para treinar as novas professoras. Foi nesse ambiente que ela pode aplicar seu talento de professora.

Com seus conhecimentos de línguas, traduziu diversas obras utilizadas no Jardim da Infância. Sua colaboração na Revista do Jardim da Infância permitiu a publicação de várias adaptações, traduções e produções originais destinadas às crianças. Na ocasião, atendendo o pedido do prof. João Köpke, publicou o Livro das Crianças, em 1897, distribuído nas escolas públicas. O livro incluía poesias, cantigas e histórias, contando com ilustrações, cujo objetivo era despertar o interesse das crianças pela leitura. Nos anos seguintes colaborou nas revistas Educação e Mensageira: Revista Literária Dedicada à Mulher Brasileira, dirigida por Presciliana Duarte de Almeida. Assim, passou a integrar o “movimento feminista” que se iniciava.

Em 1900 casou-se com José Xavier de Toledo, ministro do Tribunal de Justiça, e escreveu mais um livro de poesias – Livro da saudade -, em 1903, que não foi publicado. Ao ficar viúva em 1918, afastou-se da vida social e literária, vindo a falecer em 24/6/1961, aos 92 anos. Hoje seu nome é lembrado na denominação da Escola Estadual de Primeiro e Segundo graus da Vila Matilde; da Biblioteca Pública Infanto-Juvenil da Vila Mariana e de uma rua na Vila Ede. Foi também homenageada pelo Centro Professorado Paulista, em 1944, e recebeu o título de Mestra do IV Centenário da Cidade de São Paulo, no Instituto de Educação Caetano de Campos, em 1954.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Radamés Gnattali

Radamés Gnattali nasceu em Porto Alegre, RS, em 27/1/1906. Músico, compositor, pianista, maestro e um dos mais destacados arranjadores musicais. Substituiu Pixinguinha na gravadora RCA Victor; trabalhou 30 anos como arranjador na Rádio Nacional; fez arranjos para os 4 grandes cantores do rádio: Francisco Alves, Silvio Caldas, Carlos Galhardo e Orlando Silva; participou da criação do choro, como forma musical e foi um dos maiores compositores da música clássica brasileira.

Nascido numa família de músicos italianos, foi iniciado no piano aos 3 anos pela mãe Adélia Fossati Gnattali. Aos 14 ingressou no Instituto de Belas Artes de Porto Alegre e passou a dedicar-se ao estudo da música através do piano, flauta, clarineta, violino e viola, dentre outros instrumentos. Formado em 1924, iniciou tocando piano em cinemas e bailes de Porto Alegre, além de participar de serestas e blocos carnavalescos tocando cavaquinho e violão. No ano seguinte integrou o quarteto de cordas de Henrique Oswald, onde atuou por 4 anos.

Em fins da década de 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro com a intenção de tornar-se concertista. Antes, porém, teve que se manter tocando viola e piano em orquestras de teatro e da Rádio Clube do Brasil e integrar o quarteto do Hotel Central. Em 1930 apresentou ao público suas primeiras composições eruditas. Mas para garantir a manutenção, aproximou-se da música popular e passa a trabalhar como arranjador, regente e compor para o teatro musicado. Por essa época gravou seus primeiros choros utilizando o pseudônimo “Vero”. Com a proliferação das rádios comerciais e início da indústria fonográfica, passou a ser mais solicitado e deixa a carreira de concertista em segundo plano.

Segue compondo música erudita nas horas vagas entremeadas com alguns concertos. Em 1936, foi contratado como maestro e arranjador na Rádio Nacional e criou a Orquesta Carioca. Com o acréscimo de 2 violões, cavaquinho e vasta percussão, criou a Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali, em 1943. A proposta é clara: dar um ar mais brasileiro às orquestrações. Segundo os críticos, ele criou um estilo próprio ao sistematizar uma nova forma de orquestrar o samba, ao transferir a cadência rítmica da percussão para o naipe dos metais. Tal recurso pode ser ouvido no “riff” da Aquarela do Brasil, executado pelos saxofones. “Riff’ (refrão) é um pequeno fragmento rítmico-harmônico, em geral sincopado, executado na forma de “ostinato”, que vem a ser uma figura repetida obstinadamente.

Tal como Pixinguinha, suas composições têm alguma influência do jazz, como no uso da orquestra completa de metais, que gera nos arranjos um timbre influenciado pela música norte-americana, mas criando um estilo próprio. Na década de 1930, o rádio e a música popular representam a ideologia do governo Vargas. Assim, de modo semelhante ao maestro Villa-Lobos, ele aproveita o espaço aberto aos novos maestros e arranjadores. Claro que sua atuação, como a de Villa-Lobos, não é fazer propaganda do governo. Porém, estão em consonância com os projetos do governo e com a atuação da Divisão de Radiodifusão do DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda. O trabalho destes compositores ajudou a criar um “imaginário sonoro” do País com um repertório “nacional” de qualidade musical.

Com o fim da era Vargas, em 1945, liberta-se dessa fase nacionalista neoclássica e parte para as grandes formas musicais, tais como “Trio miniatura”, “Brasiliana nº 1” e “Concerto romântico’. Mesmo nos arranjos feitos para os 4 grandes cantores do Rádio, podem-se ouvir alguns instrumentos e timbres considerados como precursores da bossa nova. O arranjo de “Copacabana”, por exemplo, gravado em 1946 por Dick Farney, é considerado por alguns críticos como um marco neste processo, que culminou na bossa nova. Outra inovação é a instrumentação de suas peças, escrevendo para solistas, como “Concerto para harmônica de boca e orquestra”, para Edu da Gaita e “Concerto para acordeão e orquestra”, para Chiquinho do Acordeom.

Com o fim das orquestras radiofônicas e o surgimento da TV, passou a trabalhar na TV Excelsior e TV Globo como maestro e arranjador no período 1968-1979 e volta a dedicar-se à composição erudita. Ainda na década de 1970, com o renascimento do “choro”, deu algumas “canjas” com apresentações em público. Assim, transitou entre o popular e o erudito com uma vasta produção -mais de 400 obras- no repertório da música brasileira. Uma de suas últimas composições foi o “Hino de Mato Grosso do Sul”, que venceu o concurso público nacional, em 1979. Em 1983 recebeu o Prêmio Shell na categoria de música erudita.

No mesmo ano, junto com Elizeth Cardoso, prestou homenagem a Pixinguinha com o recital “Uma Rosa para Pixinguinha” e gravou o disco Vivaldi e Pixinguinha. Encerrou a carreira com a gravação de diversos volumes de história infantil para discos LP (Coleção Disquinho). Em 1986 sofreu um AVC que o deixou meio paralisado e veio a falecer em 13/2/1988. Temos uma vasta bibliografia sobre seu legado musical e em termos biográficos contamos com os livros de Valdinha Barbosa e Ana Maria Devos: Radamés Gnattali, o eterno experimentador, publicado pela FUNARTE, em 1985, e o de Aluísio Didier: Radamés Gnattali, publicado em 1996 pela editora Brasiliana Produções.

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AS BRASILEIRAS: Guiomar Novaes

Guiomar Novaes nasceu em São João da Boa Vista, SP, em 28/2/1894. Compositora e pianista com sólida carreira internacional e destacada intérprete das obras de Chopin e Schumann. Foi uma das responsáveis pela divulgação de Villa-Lobos no exterior e participante da Semana de Arte Moderna de 1922.

Filha da pianista Ana de Carvalho Meneses e José da Cruz Novaes, major e negociante de café. Foi a 17ª dos 19 filhos do casal. Demonstrou interesse pelo piano aos 4 anos, tocando de ouvido. Aos 6 anos a família se mudou para a capital e passou a ter aulas com o professor Eugênio Nogueira, além do incentivo da mãe. Em seguida teve aulas com o professor Luigi Chiaffarelli, famoso mestre italiano, quando foi aprimorada na base técnica e teórica. Aos 8 anos estreou, digamos profissionalmente, em salas de concerto e foi notícia de jornal como menina prodígio. Em São Paulo, era vizinha do escritor Monteiro Lobato, e serviu-lhe de inspiração para criar a personagem “Narizinho”.

Aos 15 anos foi contemplada com uma bolsa de estudos no Conservatório de Paris, onde estudou com o mestre húngaro Isidore Philipp. Lá passou por uma banca examinadora, da qual participava o compositor Debussy, e ficou em primeiro lugar ente 35 concorrentes, além de ganhar 1200 francos e um piano de cauda. Ao chegar em Paris foi convidada para visitar a Princesa Isabel, também pianista, que desejava ouvi-la. Foi ela quem estimulou Guiomar a incluir em seu repertorio a Grande fantasia triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro. Após 2 anos de curso no Conservatório, recebeu diversas ofertas de contratos e fez uma turnê pela Europa.

Retornou ao Brasil em 1914 e nos anos seguintes fez apresentações no Madison Square Garden (1915) e Carnegie Hall (1916), acompanhada pela Orquestra Filarmônica de Nova Iorque. No Brasil, os organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922 precisavam de um nome importante para se apresentar no evento e ela foi convidada. Não gostou do deboche à música de Chopin e manifestou seu protesto numa entrevista. Mesmo assim, fez sua apresentação num dos poucos momentos em que a plateia ficou em silencio para ouvi-la tocar. No mesmo ano se casou com o arquiteto e compositor Oscar Pinto, com quem teve um casal de filhos.

A partir daí incluiu em seu repertório as obras de Villa-Lobos, tornando-se importante divulgadora do maestro nos EUA, onde se apresentou inúmeras vezes. A imprensa norte-americana a reconheceu como a melhor pianista do mundo. Em 1938 foi convidada a tocar para o presidente Franklin Roosevelt. Em meados da década de 1950, seu marido faleceu. Sofreu um abalo e cogitou um fim de carreira, mas logo se ergueu e voltou aos palcos, fortalecendo-se com a música. Em 1963 foi convidada para representar a América Latina na comemoração dos 15 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promovida pela ONU.

Em março de 1967 foi escolhida, entre vários artistas do mundo, pela rainha Elizabeth II para participar da inauguração do Queen Elizabeth Hall, em Londres. No mês seguinte foi, de novo, convidada pela rainha para um recital no Palácio de Buckingham. Foi condecorada diversas vezes com títulos, medalhas, insígnias, comendas, e homenagens, dentre as quais o grau de “Chevalier” da Legião de Honra da França (1939) e a Ordem Nacional do Mérito (1955), concedida pelo governo brasileiro. Sua última temporada se deu em 1972 nos EUA, aos 78 anos, e veio a falecer em 7/3/1979, em São Paulo, vitimada por um infarto do miocárdio. Foi velada na Academia Paulista de Letras e sepultada no Cemitério da Consolação ao som da Marcha Fúnebre, da Sinfonia Eroica, de Beethoven, executada pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a regência do Maestro Eleazar de Carvalho.

Sua vasta discografia, num período de 60 anos, foi gravada pelas companhias RCA Victor, Duo Art, Columbia Vox, Vanguard e Fermata, que gravou seu último disco com uma série de obras de compositores brasileiros: Francisco Mignone, Marlos Nobre, Souza Lima, Camargo Guarnieri e Villa-Lobos. Dois documentários nos dão um retrato fiel da grande pianista: Guiomar Novaes: depoimento e memória (1978), produzido por Olívio Tavares de Araújo e Infinitamente Guiomar Novaes (2003), dirigido por Norma Benguel. Boa parte de sua biografia pode ser encontrada em Guiomar Novaes do Brasil: a trajetória da pianista em Nova York, incluindo 2 CDs, publicada em 2011 por Luciana Medeiros e João Luiz Sampaio.

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OS BRASILEIROS: Vicente Monteiro

Vicente do Rego Monteiro nasceu em Recife, PE, em 19/12/1899. Escultor, desenhista, artista gráfico, muralista, poeta, dançarino e um dos pintores pioneiros ao retratar o Brasil indígena. Renomado no mundo, trouxe-nos o Modernismo na “Semana de Arte Moderna de 1922”, em São Paulo e na “Exposição Internacional de Arte Moderna”, em 1930, no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

Membro de uma família de artistas, sua mãe era prima do pintor Pedro Américo. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1908 e ingressou na Escola Nacional de Belas Artes ainda criança. Foi iniciado na arte sob a orientação de sua irmã, a também pintora Fédora do Rego Monteiro. Em 1913 foi à Paris e participou do Salon des Indépendents, do qual se torna associado e manteve contatos com os modernistas Modigliani, Joan Miró, Fernand Léger Georges Braque etc.

Na volta ao Brasil, em 1914, passou a residir no Rio de Janeiro. Sua primeira exposição individual se deu no Teatro Santa Isabel, em 1918, no Recife. Pouco depois expôs no Rio de Janeiro e São Paulo, revelando seu interesse por lendas e costumes da Amazônia. Seu interesse pela cultura indígena e paixão pela dança, conduzem-no ao espetáculo Lendas, crenças e talismãs dos índios do Amazonas, no Tetro Trianon, no Rio de Janeiro em 1921. Pouco antes, expôs algumas de suas obras em São Paulo e travou contato com o grupo de modernistas, abrindo caminho para sua participação na Semana de Arte Moderna de 1922, onde expôs 8 obras inspiradas na cerâmica marajoara e cultura indígena.

Mudou-se, de novo, para Paris e realizou desenhos, ilustrações gráficas e figurinos. Após longa temporada, retornou ao Brasil, em 1930, trazendo a exposição da escola de Paris, a primeira mostra internacional de arte moderna no Brasil, incluindo Picasso, Braque, Miró, Gino Severini e Fernand Léger. Pouco depois fixou residência no Recife, alternando períodos no Brasil e França até 1950. Em 1941 publicou suas primeiras poesias no livro Poemas de bolso, seguido da promoção de vários salões e congressos de poesia no Brasil e na França, com a colaboração de João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna. Animado o novo talento, fundou a Editora La Presse à Bras, para publicar poesias brasileiras e francesas em 1946. Em Paris, recebeu o Prêmio Guillaume Apollinaire pelos sonetos reunidos no livro Broussais – La Charité, publicado em 1960.

Além de grande pintor, poeta, escultor… era um bom dançarino tendo vencido muitos concursos de dança de salão em Paris. Sua paixão por carros levou-o a disputar o Grand Prix do Automóvel Clube da França. Gostava de engenharia mecânica, chegando a construir um planador. Gostava também de cachaça, pois chegou a fabricar aguardente no Recife. Como se vê, era um artista completo. Algumas de suas obras: Goleiro, A mulher sentada, Os calceteiros, Maternidade indígena, Burro de carga de telhas, Mulher com galinhas, O artesão, Leda e o cisne, A mulher e o galgo, Adoração dos Reis Magos, O aguardenteiro, O vaqueiro…

Seu amigo João Cabral dedicou-lhe este poema:

Esse recifense em Paris
taquigrafou (como Miró)
o magro e o nu, o inexcessivo
de onde nasceu e se exilou;
e essa parca caligrafia
de recifense soube apor
aos verdes podres do alagado,
traduzindo o que é lama em cor.

Segundo a crítica, “sua pintura é marcada pela sinuosidade e sensualidade. Contido nas cores e contrastes, suas obras nos reportam a um clima místico e metafísico. A temática religiosa é frequente em sua pintura, como em Pietá e Crucifixão, de 1924, além de cenas do Novo Testamento, com figuras que, pela densidade e volume, se aproximam da escultura”. Ele mesmo, dizia que “Minha pintura não poderia existir antes do cubismo, que me legou as noções de construção, luz e formas. Minhas influências: O futurismo, o cubismo, a estampa japonesa, a arte negra, a escola de Paris, nosso barroco, e sobretudo a arte do nosso ameríndio na ilha de Marajó.”

Suas obras estão expostas em museus e galerias em todo o mundo. Realizou 30 exposições individuais, 52 coletivas e 134 póstumas. Foi professor na Escola de Belas Artes da UFPE, em 1957-66, e no Instituto de Artes da UnB entre 1966-68. Faleceu em 5/6/1970 em sua cidade natal. Sua vida, legado e obra ficaram registradas em muitos livros, artigos, textos acadêmicos e na obra de Walter Zanini – Vicente do Rego Monteiro: artista e poeta 1899-1970 -, publicada em 1997 pela Empresa das Artes.

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AS BRASILEIRAS: Anesia Pinheiro Machado

Anesia Pinheiro Machado nasceu em Itapetininga, SP, em 5/6/1904. Jornalista, taquígrafa e aviadora, foi a primeira mulher a realizar um voo com passageiro; primeira brasileira a realizar um voo acrobático e decana mundial da aviação feminina. Foi também pioneira como atriz do cinema mudo e ativista do movimento de emancipação da mulher ao participar do Primeiro Congresso Internacional Feminista, representando a Liga Paulista pelo Progresso Feminino, em 1922.

Filha de Aurélia de Vasconcelos Pinheiro Machado e Gustavo Pinheiro Machado, teve os primeiros estudos em sua cidade natal. A paixão pela aviação se deu em 1920, na “Festa do Divino”, quando um piloto norte-americano a convidou para dar um passeio em seu avião. No ano seguinte voltou a voar com outro piloto, de quem recebeu informações sobre o curso de pilotagem. Aos 17 anos mudou-se para São Paulo e iniciou o curso, tendo como instrutor o piloto alemão Fritz Roesler. Seu primeiro voo solo se deu em 17/3/1922, pilotando um biplano Caudron G.3., e recebeu o brevet do Aero Club do Brasil no mês seguinte, junto com Thereza de Marzo, as duas primeiras brasileiras a terem licença de voo.
No mesmo ano, nas comemorações do centenário da Independência, realizou o primeiro voo São Paulo-Rio de Janeiro, onde participou do show de acrobacias aéreas. Na ocasião foi homenageada por Santos Dumont, que lhe deu uma medalha de ouro, réplica de uma que ele recebeu da Princesa Isabel. O fato foi relevante também para a causa feminista, devido a sua participação nos eventos feministas realizados naquele ano. Dois anos após, participou da Revolta Paulista de 1924 ao lado dos capitães Joaquim e Juarez Távora, chegando a ser detida pelas tropas revoltosas.

Sua participação na Revolta deu-se com um voo sobre as tropas legalistas e sobre o encouraçado Minas Geraes, jogando flores e panfletos com a frase “E se fosse uma bomba?”. Por conta disso, foi proibida de voar. Por isso, no período 1927-1928, voltou ao jornalismo e manteve um coluna sobre aviação no jornal O Paiz; trabalhou no DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda e na Assembleia Legislativa, voltando a voar somente em 1939. Em seguida realizou um voo acrobático que impressionou a fundadora da Women’s International Association of Aeronautics, Elizabeth Lippincott McQueen, em 1940. No mesmo ano obteve licenças de piloto privado e piloto comercial do DAC-Departamento de Aviação Civil e 2 anos após, obteve a licença de piloto instrutor pelo Aeroclube do Brasil.

Recebeu, em 1943 durante a II Guerra Mundial, convite da FAA-Federal Aviation Administration para realizar um curso avançado de aviação nos EUA e trabalhou como piloto e instrutora de voo na Panair do Brasil, de 1944 a 1948 e no CPOR-Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, da FAB-Força Aérea Brasileira. São diversos feitos e pioneirismos na aviação: travessia da Cordilheira dos Andes e uma viagem transcontinental pelas três Américas, em 1951; proclamada “Decana Mundial da Aviação Feminina”, pela Federação Aeronáutica Internacional, durante a Conferência de Istambul, em 1954. Na ocasião recebeu o Diploma “Paul Tissander”, pioneiro da aviação francesa.

No livro Frontier by air (1942), a escritora e jornalista Alice Roger Hager deixou registrado que “Anesia is the finest pilot in the country, there was no question abour her ability. When we went to the Aero Club she took a little Bucher up and outflew any women stunt pilot I have ever seen”. Foi homenageada nos EUA como cidadã honorária em diversos estados: Missouri, Oklahoma, Iowa, Louisiania e Kansas. Entre nós, recebeu o título de Cidadã Carioca e Paulistana. Recebeu dezenas de condecorações civis e militares, brasileiras e estrangeiras. Sua cidade natal, orgulhosa de seus feitos, exibe hoje sua estátua em tamanho natural no Largo dos Amores.

Faleceu em 10/5/1999, aos 95 anos. Perguntada diversas vezes por que dedicou-se à aviação, dizia: “O meu desejo de voar talvez seja fruto do meu anseio, sempre cada vez mais intenso, de me elevar, de sair da banalidade do viver comum. É o incontido ímpeto de minha alma, que me impulsiona e me leva a procurar as emoções mais fortes do voo. A vida corriqueira não me satisfaz; ando sempre em busca de alguma coisa nova. É essa faceta de minha personalidade que dirão inconstante, que fez com que eu me dedicasse à aviação”.