JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Portinari

Candido Portinari nasceu em 29/12/1903, em Brodowski, SP. Gravador, ilustrador, professor e considerado o pintor brasileiro a alcançar maior projeção internacional. É também o mais prolífico com cerca de 5 mil telas de diversos tamanhos, entre as quais os painéis Guerra e Paz presenteados à sede da ONU em Nova Iorque.

A vocação artística foi despertada logo na infância e teve pouco estudo formal. Aos 14 anos foi recrutado como ajudante de um grupo de pintores e escultores italianos que trabalhavam na restauração de igrejas. Aí foi percebido o talento do garoto. Aos 16 anos partiu para o Rio de Janeiro para estudar na ENBA-Escola Nacional de Belas Artes. No curso, despertou a atenção dos professores e pouco depois chamou a atenção também da imprensa, com seus quadros expostos em algumas exposições, contando com apenas 20 anos. Nesta época apresentava suas telas num estilo tipicamente moderno, considerado até então uma tendência marginal.

Seu desejo era ganhar a medalha de ouro do Salão da ENBA, mas não conseguia agradar os juízes do concurso. Porém, teve algum destaque nos anos 1926 e 1927. No ano seguinte preparou, deliberadamente, uma tela com elementos acadêmicos tradicionais – Retrato do poeta Olegário Mariano – e ganhou a medalha junto com uma viagem à Europa. Em Paris aperfeiçoou sua técnica e manteve contatos com Modigliani e Pablo Picasso, de quem recebeu influências. Conheceu a uruguaia Maria Martinelli, com quem casou-se em 1930 e passou a administrar sua carreira. De volta ao Brasil, em 1931, desenvolveu uma nova estética e uma intensa produção de obras com características nacionais baseada em tipos brasileiros, indo de encontro aos ideais pregados pelo Movimento Modernista iniciado em São Paulo.

O Mestiço e Lavrador de Café (1934) são exemplos típicos dessa fase, reforçada no ano seguinte com Café, que lhe garantiu uma premiação do Carnegie Institute, em 1935, tornando-o o primeiro modernista brasileiro premiado no exterior. Ganhou notoriedade na Feira Mundial de Nova Iorque de 1939, onde as telas atraem a atenção de Alfred Barr, diretor do MoMa, que adquire a tela Morro do Rio e expõe no Museu. Em seguida providenciou uma exposição individual, tornando seu nome conhecido entre os norte-americanos. Aos 37 anos, foi o primeiro brasileiro a ter uma exposição no MoMa. Nessa ocasião fez 2 murais para a Biblioteca do Congresso dos EUA. Ao ver o mural Guernica, “baixou” a influência de Picasso e passou a apresentar maior dramaticidade em suas obras, revelando um caráter de denúncia das questões sociais do Brasil em obras como as da Série Bíblica e Os Retirantes (1942-45).

Seu envolvimento com a vida cultural e política do País foi intenso e manteve amizade com quase todos os escritores e intelectuais mais conhecidos, muitos deles retratados em suas telas. Em 1945 foi levado pelos amigos a candidatar-se a deputado federal pelo PCB-Partido Comunista Brasileiro e em 1947 a senador. Felizmente não foi eleito, dando mais chance à sua obra. Sua fama nos EUA foi consolidada em 1940 com uma amostra da arte latino-americana no Riverside Museum de Nova Iorque e continuou com exposições individuais no Instituto de Artes de Detroit e no MoMa, além do lançamento do livro Portinari, his life and art, lançado no mesmo ano pela University of Chicago Press. Na França teve diversas exposições e foi agraciado pelo governo francês com a comenda “Legion d’Honeur”, em 1946. A partir deste ano, ficou conhecido como “O Pintor do Novo Mundo”.

Sua predileção por grandes murais em edificações vem desde 1936, com o Monumento Rodoviário da Estrada Rio-São Paulo; Santuário de São Francisco, na Pampulha; Edifício do Ministério da Educação etc. Em 1948, exilado por motivos políticos, no Uruguai, pintou o painel A primeira missa no Brasil e, em 1949, o painel Tiradentes, que lhe garantiu a medalha de ouro concedida pelo júri do Prêmio Internacional da Paz, em Varsóvia. Outra medalha de ouro veio do International Fine-Arts Council de Nova York, em 1955. No ano seguinte inaugurou os 2 painéis Guerra e Paz (de 14x10m cada), instalados na sede da ONU em 2 pontos relevantes: Guerra na entrada e Paz na saída, alertando os líderes mundiais que o objetivo dos painéis é lembrar que a guerra deve se transformar em paz.

Expôs suas obras nas grandes cidades do mundo e foi o único artista brasileiro a participar da exposição “50 anos de Arte Moderna”, no Palais des Beux Arts, em Bruxelas, em 1958. A saúde vinha dando sinais de alerta desde 1954, quando apresentou uma grave intoxicação pelo chumbo presente nas tintas, mas continuou pintando. Quando se preparava para uma grande exposição, a convite da Prefeitura de Milão, faleceu em 6/2/1962 vitimado por uma intoxicação inalando as tintas que utilizava. Um fato pouco conhecido do público é sua veia poética. Seu filho João Candido recolheu algumas de suas poesias e o jornalista Antônio Callado selecionou e viabilizou a edição do livro Poemas de Portinari, prefaciado por Manuel Bandeira e lançado pela Editora José Olympio, em 1964 e relançado em 2019 pela FUNARTE.

O filho tornou-se guardião de sua obra e criou, em 1979, o “Projeto Portinari”, junto a PUC-RJ com o objetivo de resgatar toda a obra do pai e colocá-la à visitação pública, inclusive pela Internet, uma vez que se constitui em grande parte, coleções particulares inacessíveis ao público. O trabalho resultou também na transformação da casa onde o pintor viveu no “Museu Casa de Portinari”, em Brodowski. O pintor, historiador, crítico de arte e ex-aluno de Portinari, Israel Pedrosa disse: “Nenhum pintor pintou mais um País do que Portinari pintou o seu”, fato confirmado em suas biografias: Infância de Portinari, de Mário Filho, publicada pela Edições Bloch em 1962; Portinari, de Antonio Bento, publicada pela ed. Leo Chistiano em 1980; Cândido Portinari, de Annateresa Abris, publicada pela Edusp em 1996.

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AS BRASILEIRAS: Almerinda Gama

Almerinda Farias Gama nasceu em 16/5/1/1899, em Maceió, AL. Advogada, escritora, jornalista, poeta, tradutora e sindicalista nas horas deo lazer. Foi uma das primeiras mulheres negras a ter participação destacada na política brasileira e pioneira no combate ao patriarcalismo. Costumava dizer que “A inteligência não tem sexo” e “Eu sempre, por instinto, me revoltei contra a desigualdade de direitos entre homem e mulher”.

Filha de Eulália da Rocha Gama e José Antônio Gama, ficou órfã do pai aos 8 anos e foi morar com uma tia em Belém do Pará. Já quase adulta fez curso de datilografia e pouco depois frequentou a Escola Prática de Comércio. Aos 21 anos passou a escrever crônicas para o jornal A Província. Aos 24 casou-se com o primo, o escritor Benigno Farias Gama, que escrevia para vários jornais, falecido 2 anos depois. Logo percebeu que o salário pago aos homens era o dobro daquele pago às datilógrafas.

Em 1929 mudou-se para o Rio de Janeiro e filiou-se à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), presidida pela bióloga Bertha Lutz, que a incentivou a criar o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos, reconhecido em 1933. Na FBPF a pauta predominante era o direito ao voto feminino, conquistado em 1932. Outra conquista foi a criação de uma data para a comemoração do “Dia das Mães”, com o Decreto nº 21.366, de 5/5/1932, consagrando o segundo domingo de maio para a celebração da data no Brasil.

Pouco depois passou a colaborar com O Jornal, com a coluna “Para a mulher no lar”, onde escreveu diversos artigos sobre a falta de estímulos para a publicação de livros escritos por mulheres sobre, incluindo uma carta aberta ao escritor Humberto de Campos, contrário ao ingresso de mulheres na ABL-Academia Brasileira de Letras. Participou da Assembleia Constituinte de 1933, junto com a deputada Carlota Pereira de Queiroz, como delegada classista representando o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos e a Federação do Trabalho do Distrito Federal. Candidatou-se a deputada federal em 1934, sem êxito. Em sua propaganda política dizia-se “Advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação. Lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus“.

Devido à sua atuação nas lutas pelo ensino obrigatório e gratuito, foi homenageada com seu nome dado ao “Ginásio Almerinda Gama”, dirigido por Laurentino Garrido, em São João do Meriti. Em seguida passou a dirigir o Partido Proletário Socialista, ao lado de Plínio Gomes de Melo, Vasco de Toledo, Waldemar Rikdal, João Vitaca e Orlando Ramos, entre outros. Permaneceu na direção do Partido até 1937, quando o Partido foi extinto com o golpe do Estado Novo. Por esta época concluiu o curso de Direito, em meados de 1935.

Junto a estas atividades, foi professora e tradutora dos idiomas francês, inglês e espanhol e publicou algumas coletâneas de poemas – Zumbi (1942) e O dedo de Luciano (1964), além de contos e crônicas em revistas e jornais do Rio de Janeiro. Em 1943, foi contratada como escrevente do 9º Ofício de Notas, onde trabalhou até 1967. Em 1984, concedeu ao CPDOC da FGV-Fundação Getúlio Vargas uma longa entrevista para o projeto Velhos Militantes, publicado em livro, pela Editora Zahar, em 1988.

Pouco antes de completar 100 anos, faleceu em 31/3/1999 em São Paulo. Em 2016 a Prefeitura de São Paulo instituiu o “Prêmio Almerinda Farias Gama”, para distinguir iniciativas na área das comunicações ligadas à defesa da população negra. Como biografia temos a dissertação de Mestrado em História na Universidade de Brasília, realizada por Patrícia Cibele Tenório, A trajetória de vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999): feminismo, sindicalismo e identidade política, em 2020.

No canal Youtube temos dois belos documentários sobre sua trajetória:

ABVP – Almerinda, uma mulher de trinta

Almerinda, a luta continua

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OS BRASILEIROS: Dyonélio Machado

Dyonélio Tubino Machado nasceu em Quaraí, RS, em 21/8/1895. Escritor, poeta, ensaísta, jornalista, psiquiatra, político e um dos pioneiros da psicanálise no Rio Grande do Sul. Foi também um autor destacado na 2ª geração do Modernismo brasileiro.

Filho de Elvira Tubino Machado e Sylvio Rodrigues Machado, morto num duelo quando ele era uma criança, fato que o marcou por toda a vida. Para ajudar no sustento da família, vendia bilhetes de loteria junto com o irmão. Contudo, continuou estudando e se dando bem na escola. Auxiliava os alunos mais atrasados e com isso conseguiu gratuidade na escola para si e o irmão. Aos 12 anos conseguiu um emprego como auxiliar no jornal O Quaraí e passou a conhecer a intelectualidade local. O gosto pelo jornalismo estimulou-o a fundar um jornal intitulado O Martelo por volta dos 16 anos, demonstrando certo interesse pelo comunismo

Em 1921 mudou-se para Porto Alegre e fundou o jornal A Informação, ligado ao Partido Republicano. Pouco depois publicou o ensaio Política contemporânea: três aspectos e ingressa na Faculdade de Medicina, em 1924. Diplomado em 1929, foi trabalhar no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Em seguida, passou 2 anos no Rio de Janeiro, onde se especializa em psiquiatria e neurologia e publica sua tese de doutorado: Uma definição biológica do crime. De volta à Porto Alegre, foi um dos responsáveis pela divulgação da psicanálise no Rio Grande do Sul. Em 1934 traduziu o livro Elementos de psicanálise, de Edoardo Weiss e fez dessa especialidade sua profissão.

No entanto, manteve o interesse pelo jornalismo, que foi estendido à literatura. Assim, participou de um círculo de amigos conhecido como “a turma da Praça da Harmonia”. A estreia literária se deu em 1927 com uma coletânea de contos: Um pobre homem. Por insistência do amigo Érico Veríssimo, escreveu o romance Os Ratos, em 1935, e ganhou o Prêmio Machado de Assis, tornando-se sua obra prima. No mesmo ano, devido à “Intentona Comunista”, foi preso por 2 anos e na cadeia adere ao PCB-Partido Comunista Brasileiro. Em 1942 publicou O louco do Cati, mais um romance muito bem recebido pela crítica e público.

Eleito deputado constituinte, pelo PCB, em 1947, manteve-se até ser cassado com a dissolução do partido. Afastou-se da política e do mercado editorial por quase 20 anos, dedicando-se à medicina e escrevendo romances. Além da medicina e da literatura, foi um entusiasta do jornalismo. Participou da fundação da pioneira ARI-Associação Rio-Grandense de Imprensa, em 1935, e foi colaborador dos jornais Correio do Povo e Diário de Notícias. Em 1946, junto com Décio Freitas, fundou a Tribuna Gaúcha, porta-voz do PCB. Em 1966, com a reedição de Os Ratos, voltou a cena literária com a publicação de Deuses econômicos (1976), Endiabrados (1980), Ele vem do fundão (1982) e O estadista, publicação póstuma em 1995.

Sua obra, após um período de esquecimento, foi resgatada no meio acadêmico a partir de 1990, devido ao caráter psicológico arraigado em suas obras, particularmente em Os Ratos e O Louco do Cati. Foi considerado um “escritor maldito” bem antes do tempo em o termo foi aplicado a alguns escritores na década de 1970. Ele mesmo confirmou esta impressão ao declarar “Eu sou um rebelde. Eu não sou do público. Sou incapaz de escrever algo pensando no que vão achar, qual será a impressão que causará. Sou incapaz de ser vendido à editora, ou ao público”, publicado no livro O cheiro da coisa viva, em 1995, pela Graphia Editorial.

Independente da fama de maldito, fato é que Os Ratos e O Louco do Cati encontram-se no cânone da literatura brasileira, conforme diversos críticos e estudiosos que se debruçaram em sua obra através de teses e dissertações acadêmicas. Faleceu em 19/6/1985 e seu último livro – Proscritos – teve publicação póstuma em 2014 pela editora Siglaviva. Entre as biografias do autor, contamos com uma “intelectual”, escrita por Marinês Dors: Dionélio Machado (1895-1985): os múltiplos fios da trajetória ambivalente de um intelectual, na forma de uma dissertação de mestrado realizada na UNISINOS-Universidade do Vale dos Sinos, em 2008 e outra, digamos, “literária”, escrita por Maria Zenilda Grawunder: Instituição literária: análise da legitimação da obra de Dyonélio Machado, publicada pela EDIPUCRS, em 1997.

Encontramos também um “retrato” do autor, que pode se constituir numa síntese biográfica, escrita por Jonas K. Moreira Dornelles: Dyonélio Machado como figura pública e intelectual brasileiro – notas para compreensão, na forma de um artigo publicado na revista Opinião Filosófica, vol. 10, nº 2, de 2019, a disposição na Internet. Clique aqui para ler.

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AS BRASILEIRAS: Cristina Tavares

Maria Cristina de Lima Tavares Correia nasceu em 10/6/1934, em Garanhuns, PE. Linguista, professora, jornalista e política. Como deputada federal foi uma das fundadoras do PSDB-Partido da Social Democracia Brasileira e ficou conhecida como defensora intransigente de uma política nacional de informática. Foi a primeira mulher a liderar uma bancada na história do parlamento brasileiro.

Filha de Maria Mercês de Lima Tavares Correia e José Alves Tavares Correia, dono do maior hotel de Garanhuns, o antigo Sanatório Tavares Correia. Em 1955 graduou-se em línguas neolatinas pela Faculdade de Filosofia do Recife e passou a trabalhar no jornalismo, atuando no Jornal do Comércio, Diário de Pernambuco e Jornal da Cidade, e como correspondente da Folha de São Paulo em Recife, além de dirigir a sucursal da revista Visão no período 1973-75.

Em 1960, recebeu o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em viagem pelo Recife. O filósofo apaixonou-se por Cristina e queria levá-la à Paris. Na ocasião sua esposa ficou doente e registrou em suas memórias: “Enquanto eu jazia no meu leito de dor, ele passeava com ela”. Em meados da década de 1970, ingressou na política, pelas mãos do deputado Fernando Lira e candidatou-se a deputada federal, em 1978, pelo MDB-Movimento Democrático Brasileiro, fazendo parte do “Grupo Autêntico” e integrando a assessoria de Ulysses Guimarães, presidente do Partido. Foi empossada no ano seguinte e exerceu a vice-presidência da Comissão de Comunicação e titular das CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre fome, desnutrição e saúde; comercialização do café brasileiro e cheias do Rio São Francisco.

Em seguida, pelo mesmo partido, já transformado em Partido Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), ganhou mais dois mandatos consecutivos como deputada federal: em 1982 (legislatura 1983-1987), com 27.963 votos, e em 1986 (legislatura 1987-1991), com 40.613 votos. Com a extinção do bipartidarismo, em 1979, tornou-se vice-líder do PMDB. Nesta legislatura, foi relatora do “Simpósio sobre Informática”. Em 1982 reelegeu-se deputada federal e fundou o Centro de Estudos Políticos e Sociais Teotônio Vilela. Na Câmara Federal teve atuação destacada nas comissões de Economia, Indústria e Comércio e de Comunicação e Informática. Votou a favor das eleições diretas em 1984 e no candidato oposicionista Tancredo Neves, em 1985, que não pode assumir devido ao falecimento em 31 de abril.

No mesmo ano integrou a delegação brasileira no “Seminário sobre Dívida Externa”, em Havana. Na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, foi relatora das comissões da Família, da Educação e Esportes, da Ciência e Tecnologia e da Comunicação e titular da Comissão de Sistematização. Ainda na Constituinte votou a favor da limitação do direito de propriedade privada, do mandado de segurança coletivo, da jornada de 40 horas semanais, da unicidade sindical, do voto aos 16 anos, da criação do fundo de apoio à reforma agrária e contra a pena de morte, a pluralidade sindical, o presidencialismo e o mandato de 5 anos para José Sarney.

Devido a um câncer de mama, faltou às votações do segundo turno e licenciou-se do mandato para tratamento no exterior. Atuou na Constituinte em defesa da Lei de Informática, da revisão do Código Nacional de Telecomunicações e mudanças no regime de propriedade dos meios de comunicação. Defendeu também reinvindicações do movimento feminista: descriminalização do aborto, instalação obrigatória de creches nas empresas e ampliação dos direitos da mulher trabalhadora. Em 1988 participou da fundação do PSDB- Partido da Social Democracia Brasileira e pouco depois. Na primeira eleição presidencial por voto direto, em 1989, filiou- se ao PDT-Partido Democrático Trabalhista e apoiou à candidatura de Brizola. No pleito de 1990, candidatou-se à reeleição como deputada pelo PDT, mas não obteve êxito e deixou a Câmara dos Deputados em 1991. Em seguida passou a dirigir, no Recife, a seção regional do Instituto Alberto Pasqualini, organismo de estudos políticos ligado ao PDT. Faleceu em 23/2/1992, vitimada por um câncer.

Em sua vida pública, elaborou 139 projetos, proferiu 334 discursos, participou de diversas Comissões Parlamentares e foi relatora de dois simpósios. Na Constituição de 1986, apresentou 227 emendas, das quais 95 foram aprovadas. Deixou 6 livros publicados: Cristina Tavares Correia, repórter (1978), relato sobre sua visão da imprensa; Conversações com Arraes (1979), suas conversas com o governador; Informática: a batalha do século XXI (1984), em coautoria com Mílton Seligman; Informática e a Nova República (1985), Onde está o meu filho? (1985), em coautoria com Chico de Assis, Gilvandrio Filho, Glória Brandão e Jodeval Duarte e A última célula: minha luta contra o câncer (1990), um relato pungente sobre seu martírio.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Pernambuco instituiu, em 1993, o “Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo”, outorgado anualmente aos profissionais destacados na área. Como biografia, temos o texto de Tereza Cruvinel – Cristina Tavares: ensaio biográfico – publicado na série “Perfis Parlamentares” nº 71, da Câmara dos Deputados, em 2016, e o trabalho Cristina Tavares: memória, imagem e representação, apresentado no XIII Encontro Estadual de História, em 2020, que pode ser acessado clicando aqui.

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OS BRASILEIROS: Pinheiro Machado

José Gomes Pinheiro Machado nasceu em Cruz Alta, RS, em 8/5/1851. Advogado, jornalista e militar-civil ou vice-versa. Foi um dos políticos mais influentes da República Velha (1889-1930) e recebeu o epiteto de “o condestável da República”. Na condição de senador, e devido ao seu poder e influência, era visto como um símbolo da “política dos governadores”.

Filho Maria Manoela de Oliveira Ayres e do deputado federal Antônio Gomes Pinheiro Machado. Estudou na Escola Militar e aos 15 anos largou o curso para lutar, como voluntário e contra a vontade do pai, na Guerra do Paraguai. Afastou-se do Exército em 1868 e passou a viver na fazenda da família até meados da década de 1870. Em seguida foi viver em São Paulo afim de ingressar na Faculdade de Direito, concluindo o curso em 1878. Durante o curso, e interessado na política, juntou-se a alguns colegas, criou o Clube Republicano Acadêmico e fundou o jornal A República.

Logo após formado, casou-se com Benedita Brazilina da Silva Moniz, voltou para o Sul e passou a viver em São Luiz Gonzaga, onde montou escritório e fundou o primeiro partido republicano da província junto com Venâncio Aires, Demétrio Ribeiro, Apolinário Porto Alegre, Ramiro Barcelos, Joaquim Francisco de Assis Brasil e Júlio Prates de Castilhos, seu grande amigo. Com a Proclamação da República (1889), foi eleito senador e passou a viver no Rio de Janeiro. Em 1893, com a Revolução Federalista em seu estado, decidiu licenciar-se do cargo para assumir o comando da Divisão Norte. Com sua experiência em combates, foi bem-sucedido na Batalha de Passo Fundo, ganhou a patente de general de brigada honorário e retornou ao Senado.

Sua primeira articulação política se deu com o presidente Deodoro da Fonseca. A pedido de Júlio de Castilhos tentou convencê-lo a moderar o relacionamento com os políticos, apelando em nome do Rio Grande do Sul para que não fechasse o Congresso Nacional. O diálogo não logrou sucesso, mas impressionou o então presidente. Em 1897 ocorreu o atentado contra o Presidente Prudente de Morais e ele foi acusado de ser o mandante junto com Francisco Glicério. Foi preso por alguns dias, mas logo foi solto devido à falta de provas. No início da República o ambiente político era bastante conturbado e os partidos eram organizados apenas em âmbito regional. Com sua influência e ambição ampliou o âmbito político com a criação do PRC-Partido Republicano Conservador Nacional.

Em 1902 tornou-se vice-presidente do senado e passou a coordenar a Comissão de Verificação de Poderes, um simulacro de tribunal de justiça eleitoral. Com tal poder em mãos, conseguiu eliminar diversos mandatos parlamentares de alguns adversários. No período, que foi até 1914, seu poder político atingiu o ápice. Na época havia uma piada contando que Hermes da Fonseca ao passar a faixa presidencial para seu sucessor Venceslau Brás, teria dito: “Olha Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente”. Teve intenção de disputar a presidência, mas os oponentes não deixaram. Assim, continuou nos bastidores da política. Seu temperamento era difícil e algumas vezes enfrentou o clamor das ruas. Ao tentar impor o nome de Hermes da Fonseca ao Senado quase foi linchado pela multidão. Num desses “encontros” com o povo, teve sair às pressas. O cocheiro perguntou: “Como devemos sair dessa?”. “Nem tão depressa que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação”.

Em 8/9/1915, acompanhado pelos deputados paulistas Cardoso de Almeida e Bueno de Andrade no saguão do Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro, foi apunhalado pelas costas por Francisco Manço de Paiva e faleceu. O assassino foi preso e assumiu a autoria do crime sem revelar mandantes. Meses antes, previu sua própria morte numa entrevista ao jornalista João de Rio: “Morro na luta. Matam-me pelas costas, são uns ‘pernas finas’. Pena que não seja no Senado, como César”. Era famoso na política nacional e implacável com seus desafetos. Seu conterrâneo e senador Pedro Simon disse que ele era “um político afastado dos holofotes, mais voltado para a atividade de gabinete e totalmente interessado nas manobras de bastidores e na costura dos grandes acordos políticos. Era uma eminência parda… Quem mandava e elegia presidentes era o Machado, um dos mais influentes políticos da República, de quem hoje ninguém fala.”

Era poderoso também no Nordeste, com suas ligações com o Padre Cícero no Ceará. Através de seus conchavos políticos, colocou o Padre como terceiro vice-presidente estadual da província, ampliando seus poderes na região. Seus embates com Rui Barbosa no plenário do Senado eram frequentes. A “Águia de Haia”, diplomata, jurista e jornalista tinha tudo para ser eleito presidente da República nas eleições de 1910, mas perdeu para Hermes da Fonseca, devido às suas articulações.

Os dois brigavam por qualquer coisa: o estouro do tempo das falas, ofensas infantis e correções gramaticais expostas por Rui, que irritavam ainda mais o “nobre” senador. Foi um político importante para a consolidação da República e foi homenageado com um monumento na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, inaugurado em 1931, além de nomear uma cidade no Rio Grande do Sul. Sua biografia – Pinheiro Machado – escrita numa narrativa quase mítica, foi publicada em 1951 pelo historiador Cyro Silva, editada pela Livraria Tupã Editora. Outra biografia, não menos mítica a julgar pelo subtítulo, saiu em 2018, publicada por seu sobrinho-bisneto José Antônio Pinheiro Machado: O Senador acaba de morrer: a vida e o assassinato de um dos políticos mais importantes da História do Brasil.

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AS BRASILEIRAS: Maria Lacerda de Moura

Maria Lacerda de Moura nasceu em Manhuaçu, MG, em 16/5/1887. Escritora, professora, jornalista, ativista política e uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil. Destacou-se também na luta pelas reformas educacionais e campanhas nacionais de alfabetização.

Teve os primeiros estudos em Barbacena, onde foi diplomada professora pela Escola Normal Municipal, em 1904. Foi diretora do Pedagogium de Barbacena e teve atuação destacada na Campanha Barbacense de Alfabetização. Não era bem-vista pela igreja local, devido ao fato de seus pais serem espíritas e anticlericais. Publicou crônicas no jornal da idade a partir de 1912 e teve seu primeiro livro – Em torno da educação – publicado em 1918. Por essa época conheceu o jornalista José Oiticica e teve contatos com as ideias pedagógicas renovadoras de Maria Montessori, Paul Robin, Sebastien Faure e Francisco Ferrer y Guardia. Em 1921 mudou-se para São Paulo e iniciou contatos com o movimento feminista e operário, comandado pelos anarquistas.

Foi convidada para unir-se à Bertha Lutz, líder do Movimento Sufragista, com quem fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, logo transformada em Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1922. Por esta época foram conquistados o ingresso de meninas no Colégio Pedro II, o voto feminino e leis de proteção à mulher e à criança. Ainda em 1922 foi presidente da Federação Internacional Feminista, mas logo afastou-se do movimento por considerar que estava muito ligado ao sufrágio feminino. Para ela, a luta pelo direito de voto respondia a uma parcela muito limitada das necessidades femininas.

Colaborou regularmente com a imprensa operária nos jornais A Plebe, O Combate, A Tribuna e o jornal feminista gaúcho O Corymbo. Em 1923 fundou a revista Renascença, publicação cultural divulgada entre setores progressistas. Na revista intensificou suas convicções teosóficas em contato com seu programador visual, o poeta e pintor santista Ângelo Guido. Em 1926 manteve contatos com a obra do anarquista francês Han Ryner, causando-lhe grande impacto e segundo ela mesma “desejo maior de uma purificação interior bem mais alta”, dando-lhe “a noção mais alta da liberdade ética… livre de escolas, livre de igrejas, livre de dogmas, livre de academias, livre de muletas, livre de prejuízos governamentais, religiosos e sociais”.

No período 1928-1937, viveu numa comunidade agrícola em Guararema (SP), formada por anarquistas e desertores espanhóis, e passou a se destacar na militância política. A convite de instituições educacionais, proferiu palestras no Uruguai e na Argentina, onde manteve contatos com Luiz Carlos Prestes, do Partido Comunista, exilado em Buenos Aires, numa entrevista para o jornal O Combate. Como jornalista tratava de temas ligados ao amor livre, direito ao prazer sexual, divórcio, maternidade consciente, prostituição, combate ao clericalismo, ao fascismo e ao militarismo. Seu posicionamento político era bastante avançado para a época e em muitos aspectos eram semelhantes àqueles das feministas da década de 1960.

Entre 1934 e 1935 publicou dois livros – Clero e fascismo: horda de embrutecedores! e Fascismo: filho dilecto da igreja e do capital – gerando polêmicas no meio político. Em 1935 rompeu com a Fraternidade Rozacruz, com a qual mantinha certa proximidade, ao saber que sua sede em Berlim havia sido cedida aos nazistas e passou a atuar no Comitê Feminino Contra a Guerra. Com o Estado Novo, em 1937, a Comunidade de Guararema foi desmantelada pela repressão polícia, deixando-a na clandestinidade por alguns meses. Voltou a morar em Barbacena, onde tentou retomar a vida de professora e ampliar suas reflexões nas ciências ocultas.

Não suportou o marasmo de uma cidade do interior e mudou-se em 1938 para o Rio de Janeiro. Em 1942 a saúde deu sinais de alerta e passou a levar uma vida mais tranquila participando de um programa na Rádio Mayrink Veiga sobre astrologia. Sua última atividade pública foi uma conferência na Fraternidade Roza-Cruz Antiqua, em 1944, intitulada O Silêncio e veio a falecer em 20/3/1945. Não obstante a intensa vida social, casou-se em 1905 com Carlos Ferreira de Moura; não teve filhos; manteve o casamento até 1925, quando separou-se, mas continuaram amigos até o fim de sua vida. Teve 2 filhos adotivos: um sobrinho e uma órfã carente. De 1926 a 1937, teve como companheiro o francês André Néblind, mentor da Comunidade Guararema, preso e deportado em 1937.

Foi uma política bastante criticada pelos conservadores, mas foi defendida por estudantes de esquerda, intelectuais e escritores, como Raquel de Queiroz. É muito pouco citada na história oficial, incluindo os estudos sobre anarquismo no Brasil e até mesmo na história do feminismo, mesmo tendo escrito 20 livros. Não fosse o extenso trabalho de pesquisa e resgate realizados pela historiadora Miriam Moreira Leite, pouco saberíamos sobre esta feminista diferenciada. Publicou dois livros: Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura (2003), um estudo biográfico, e Maria Lacerda de Moura, uma feminista utópica (2005), uma pesquisa historiográfica, além do documentário Maria Lacerda de Moura: trajetória de uma rebelde (2003), que pode ser visto na íntegra clicando aqui

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pereira Passos

Francisco Franco Pereira Passos nasceu em São João Marcos, RJ, em 29/8/1836. Engenheiro, político e prefeito do Rio de Janeiro (1902-1906), nomeado pelo presidente Rodrigues Alves. Foi chamado por Olavo Bilac de “furor das picaretas regeneradoras” e recebeu da população o apelido de “Bota Abaixo”, devido a radical transformação urbana ocorrida na cidade, colocando-a no patamar das metrópoles mundiais.

Filho de Clara Oliveira e Antônio Pereira Passos, barão de Mangaratiba. Teve os primeiros estudos no Colégio São Pedro de Alcântara e ingressou na Escola Militar (atual Escola Politécnica da UFRJ), onde diplomou-se engenheiro civil em 1856. No ano seguinte mudou-se para Paris e estudou na École de Ponts et Chaussées. Conviveu com a reforma ubana empreendida pelo Barão Haussmann, o “artista demolidor”, prefeito da cidade, que ficou conhecido na história do urbanismo. Retornou ao Brasil, em 1860, e passou a dedicar-se à construção e expansão das ferrovias requeridas pela demanda da economia cafeeira: Estrada de Ferro Santos-Juundiaí (1867), prolongamento da Estrada de Ferro D.Pedro II (1868). Foi também consultor do Ministério da Agricultura e Obras Publicas (1870).

Voltou à Europa em companhia do Visconde de Mauá, a serviço do Governo Imperial e estudou os sistemas ferroviários, particularmente na Suiça, onde analisou a estrada de ferro com grande inclinação para aplicar o sistema no prolongamentio da estrada de ferro da Serra de Petrópolis. Tal sistema foi aplicado fambém na Estrada de Ferro do Corcovado, a primeira estrada turística do Brasil. Convidado pelo Barão de Mauá, diriigiu o Arsenal de Ponta da Areia, na construção de vagões, trihos e equipamentos ferroviários. Na condição de engenheiro do Império, acompanhou todas as obras urbanas e integrou a comissão de planejamento da reforma urbana da capital, base do futuro plano diretor que iniciaria mais tarde como prefeito.

Passou mais um ano em Paris, onde estudou na Sorbonne, no College de France e visitando siderúrgicas e obras públicas. Na volta ao Brasil, passou a residir no Paraná para acompanhar a construção da ferrovia ligando o Porto de Paranaguá a Curitiba, um projeto realizado pelos irmãos Rebouças (André e Antonio) que até hoje se destaca pela ousadia em sua concepção. Após sua inauguração em 1882, retornou ao Rio de Janeiro e assumiu a diretoria da Companhia Ferro-Carril de São Cristovão. Em dois anos reestruturou a empresa e propôs a construção de uma grande avenida no centro da cidade. O plano só veio prosperar 20 anos depois com a abertura da Avenida Central, quando tornou-se prefeito. Vale lembrar que no início do séc. XX, o Rio de Janeiro era uma grande cidade com quase um milhão de habitantes, conhecida no mundo como “cidade da morte”, devido a precariedade de sua infra-estrutura com o rápido e desordenado crescimento ocorrido pela imigração europeia e pela transição do trabalho escravo para o livre.

Quando assumiu a prefeitura, em 1902, o centro da cidade com sua estrutura colonial não dispunha de equipamentos urbanos e eclodiam as habitações coletivas insalubres (cortiços) em ruas estreitas sem abastecimento de água e rede de esgotos. Tal adensamento da população em condições precárias foi a causa de epidemias de febre amarela, varíola e cólera no segundo ano de seu governo, resultando na ação do médico Oswaldo Cruz e a consequente “Revolta da Vacina”, em 1904. Assim, a reforma urbana visava o saneamento, o urbanismo e embelezamento da cidade. Logo no inicio, foram iniciadas as obras da Av. Beira Mar ligando o centro da cidade ao Morro da Viúva. Esta obra foi muito útil na ligação posterior com a abertura dos túneis.

Um dos marcos de sua administração é Avenida Central (atual Av. Rio Branco), com 1.800 m. de comprimento e 33 m. de largura, que ainda hoje exerce o papel de centro econômico e administrativo. Outro marco destacado é a Av. Atlântica no bairro de Copacabana. A lista de suas obras é grande e vale registrar algumas: Biblioteca Nacional (1905), Vista Chinesa (1903), ajardinamento da Praça Tiradentes, Largo do Machado, Praça da Glória entre outras (1903), Mercado Municipal (1907), Aquário do Passeio Público (1904), Teatro Municipal (1905), Av. Maracanã, Embelezamento de Paquetá (1904), Palácio Monroe (1906), alargamento e abertura de diveras ruas do centro etc., além da demolição de alguns morros para permitir o arejamento de zonas densamente povoadas. Calcula-se que 1.600 velhos prédios foram demolidos para alargamento e construção de novas ruas.

Com suas obras e o trabalho do sanitarista Oswaldo Cruz, o Rio perdeu o apelido de “Cidade da Morte” e passou ficar conhecido como “Cidade Maravilhosa”. O custo social da empreitada foi enorme. A população com alguma renda teve que mudar-se para o subúrbio e os mais pobres tiveram que habitar nas encostas dos morros, engrossando o contingente das favelas que começavam a surgir desde a abolição da escravatura. Boa parte da população permaneceu na região e nos morros do centro da cidade: Providência, Santo Antônio. Outros, pouco habitados, sofreram uma rápida ocupação com o contigente operário, dando origem as favelas.

Foi um dos primeiros presidentes do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e teve papel destacado no desenvolvimento da engenharia em seus primórdios. A prefeitura do Rio de Janeiro prestou-lhe uma homenagem em reconhecimento ao seu trabalho com um monumento e seu busto esculpido em bronze por Rodolfo Bernardelli, localizado na Praça da Igreja da Candelária, em 1913, ano de seu falecimento a bordo do navio Araguaia, quando realizava mais uma de suas viagens à França. Publicou também uma breve biografia -Pereira Passos, vida e obra- na coleção “Rio Estudos, nº 221, em agosto de 2006.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Alzira Soriano

Luiza Alzira Teixeira Soriano nasceu em 29/4/1897, em Jardim de Angicos, RN, na época um distrito de Lages. Política e primeira mulher prefeita de uma cidade na América Latina numa época em que o “Feminismo” engatinhava. Assim, deu provas de sua condição com base em fatos e atitudes muito além das palavras de ordem e proclamas provenientes de uma necessidade do meio social.

Filha de Margarida de Vasconcelos e Miguel Teixeira de Vasconcellos, coronel da Guarda Nacional e líder politico regional, casou-se aos 17 anos com um promotor público, com quem teve 4 filhas e faleceu 4 anos depois vitimado pela Gripe Espanhola, em 1919. Alzira contava com 22 anos; estava grávida da quarta filha e voltou a morar na fazenda dos pais. Em seguida foi morar no Recife, afim de educar melhor as filhas, na casa da sogra. Porém, não se deu bem e retornou à Jardim de Angicos. Passou a administrar a fazenda e participava das reuniões políticas promovidas por seu pai. Nestas reuniões, chamou a atenção do governador Juvenal Lamartine de Faria e da líder feminista Bertha Lutz, que lá se encontrava justamente para propor uma candidatura feminina.

Lembremos que o Rio Grande do Norte foi o primeiro estado do Brasil a instituir o voto feminino em 1927 e Bertha Lutz foi líder feminista, fundadora da “Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher”, em 1919 e pioneira na luta pelo sufrágio feminino.

Contando com o apoio do pai, de Lamartine e Bertha Lutz, aceitou disputar a prefeitura de Lages como candidata do Partido Republicano em 1928. Durante a campanha sofreu todo tipo de preconceito e difamação. Chegaram a dizer que ela tinha um caso com o governador. Achavam, também, que pelo fato de querer ser uma “mulher pública”, poderia ser uma prostituta.

Foi eleita, em 1929, com mais de 60% dos votos e o fato revelou-se num fenômeno mundial, noticiado no jornal New York Times. O adversário político -Sérvulo Pires Neto Galvão- envergonhado por ter perdido a eleição para uma mulher, abandonou a política e a própria cidade. Seu governo foi responsável pela construção de estradas, mercado público, escolas e a implantação da iluminação pública a vapor. Na eleição presidencial de 1930, apoiou o paulista Júlio Prestes. Porém, com a Revolução de 1930 e o “Estado Novo”, que levou Getúlio Vargas ao poder, os prefeitos de todo o país foram substituídos por interventores.

Apesar de ser convidada a permanecer na prefeitura, não aceitou o cargo de interventora municipal. Antes de deixar o cargo, visitou seus eleitores para agradecer o apoio recebido. Conta a história que um de seus opositores ao vê-la na rua, passou a cantarolar versos contra ela. Sua reação consistiu nuns tapas na cara do opositor, quebrando-lhe os óculos. Em casa e repreendida pela família, revelou que “só tive essa reação por que disse o que faria e não quis bancar a covarde”.

Mudou-se para Natal em 1932, onde as filhas foram estudar; retornou à fazenda Primavera e reconstruiu sua atividade política. Em 1947 foi eleita vereadora de Lajes pela UDN-União Democrática Nacional. Na época enfrentou opositores políticos até em sua família, incluindo o irmão caçula, eleito prefeito. Mas os laços familiares se mantiveram intactos. Foi reeleita vereadora de Lajes por mais dois mandatos e presidiu a Câmara Municipal. Em fins de 1961, descobriu um câncer no útero e foi se tratar no Rio de Janeiro. A doença estava em estado avançado e retornou à Natal, onde veio a falecer em 28/5/1963, aos 66 anos.

Hoje o desenho de seu retrato encontra-se no brasão da bandeira do Município de Jardim de Angicos e é reconhecida como pioneira da participação política da mulher no Brasil. Em 2008, a cidade de Lages instituiu a “Semana Alzira Soriano”, evento anual para concentrar estudos e debates sobre a defesa dos direitos da mulher e sua participação política. Em 2018, a Prefeitura de Jardim de Angicos adotou a data de seu nascimento como feriado municipal.

No mesmo ano recebeu, como homenagem póstuma, o “Diploma Mulher-Cidadã Carlota Pereira de Queiróz”, da Câmara dos Deputados. Ainda não dispomos de uma biografia disposta a relatar todos seus feitos e legado no mundo da Política municipal, aquela mais ligada ao eleitor. Mas podemos contar com um trabalho acadêmico de conclusão de curso de licenciatura em História – A primeira prefeita brasileira Alzira Soriano: o poder político coronelístico, Lages/RN, 1928 – Trata-se de uma pesquisa, digna de uma dissertação de mestrado, desenvolvida por Isabel Engler e apresentada na UFFS-Universidade Federal da Fronteira Sul, em 2019, disponível no link ENGLER.pdf (uffs.edu.br)

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Prudente de Moraes

Prudente José de Moraes Barros nasceu em 4/10/1841, em Mairinque, SP. Advogado, político e primeiro presidente civil do Brasil (1894-1898), numa eleição direta. Com ele dá-se a ascensão da oligarquia cafeicultora de São Paulo no poder político nacional e a consolidação da Repúlica, que manteve-se em constante disputa após sua proclamação em 1889.

Filho de Catarina Maria de Moraes e José Marcelino de Barros, foi descendente dos primeiros colonizadores de São Paulo. Ficou órfão do pai aos 5 anos; graduou-se advogado em 1863 e passou a exercer a profissão em Piracicaba por 2 anos. Ingressou na politica e elegeu-se vereador em 1865. Na condição de mais votado, assumiu a presidência da Câmara Municipal. Em 1866 casou-se com Adelaide Benvinda Gordo e tiveram 9 filhos. A casa onde viveram, atualmente sedia o Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes. Como vereador conseguiu mudar o nome da cidade de Vila Nova da Constituição para Piracicaba, um nome indígena que significa “lugar onde moram os peixes”.

Na eleição seguinte foi deputado provincial (1868-1869) pelo Partido Liberal. Abraçou a causa republicana em 1876 e a causa abolicionista em 1886. Com a proclamação da República, em 1889, passou a integrar a junta do Governo de São Paulo e logo governador do Estado até 1890 No ano seguinte foi eleito senador, exercendo a presidência da Assembleia Nacional Constituinte e a vice-presidència do Senado (1891). Neste ano disputou a presidência com Deodoro da Fonseca, numa eleição indireta, e perdeu. Porém, assumiu a presidência do Senado até 1894, quando foi eleito presidente da República numa eleição direta. Governou o País até 1898 e passou chefiar o Partido Republicano Dissidente.

Em plena crise econômica, em decorrência da política do “encilhamento”, enfrentou intensa oposição política, liderada por militares florianistas; pelo Partido Monarquista que buscava se reorganizar; e por parcelas dos setores médios da população, além da Revolta Federalista no Rio Grande do Sul em 1893-95. Em 1896 licenciou-se do cargo por motivo de saúde, agravando a crise política, que passou a ser enfrentada pelo vice Manuel Vitorino, aliado de Floriano. A crise agiganta-se com a eclosão da Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, liderada por Antonio Conselheiro, e vista como uma reação da Monarquia. Na verdade, era apenas um movimento messiânico pregando uma vida ascética, que atraiu uns 30 mil sertanejos.

Os revoltosos venceram as tropas da Bahia e mobilizou o Exército a enviar tropas federais, sendo vencidas em duas batalhas. A batalha final deu-se em agosto de 1897 com a devastação do arraial de Canudos por uma expedição do Exército de 8 mil homens, equipada com canhões. A batalha resultou numa carnificina denunciada por Euclides da Cunha em seu livro Os Sertões. Pouco depois o presidente reassume o governo na nova sede do governo, o Palácio do Catete. Em 5/11/1897, na recepção dos batalhões que retornavam de Canudos, sofreu um atentado cometido por um soldado, que resultou na morte do ministro da Guerra Marechal Bittencourt. Foi decretado o “estado de sítio” no Distrito Federal, livrando-se dos oposicionistas mais radicais.

Não obstante o período conturbado de seu governo, conseguiu êxitos em questões fundamentais para o País: restabeleceu as relações diplomáticas com Portugal, rompidas por Floriano durante a Revolta da Armada; assinou o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação com o Japão, com o objetivo de fomentar a vinda de imigrantes japoneses; enfrentou a questão diplomática com os ingleses, que tomaram posse da Ilha da Trindade e com a França, que invadiu o Amapá. Nestas questões, valeu-se sempre do arbitramento internacional, contando com os governos de Portugal e Suiça, e foram resolvidas favoravelmente ao Brasil. Obteve sucesso, também, na questão dos limites com a Argentina, arbitrada pelo presidente dos EUA e comandada pelo Barão do Rio Branco.

Não menos fáceis foram as questões econômico-financeiras, herdadas da crise do encilhamento, acentuadas em sua administração, devido aos gastos militares, aumentando as dívidas com os credores estrangeiros. Assessorado por seus ministros da Fazenda, Rodrigues Alves e Bernardino de Campos, negociou com os banqueiros ingleses a consolidação da dívida externa. Ao fim de seu mandato em 15/11/1898, gozava de grande popularidade e passou o cargo ao sucessor Campos Sales. Retornou à Piracicaba e retomou a advocacia até 3/12/1902, quando veio a falecer vitimado por uma tubeculose.

Escreveu, entre outros textos, Orçamento e política geral (1888), Projeto de impostos sobre escravos (1888) e A nação brasileira (1894), além dos discursos e um belo manifesto ao assumir, como primeiro civil, a presidência da jovem República Brasileira. Foi homenageado com seu nome dado à cidades em 3 estados: Presidente Prudente (SP), Prudentópolis (PR) e Prudente de Morais (MG). Entre suas biografias, destacam-se Prudente de Moraes: uma vida marcada (1971), de Antonio Barreto do Amaral, Biografia de Prudente de Moraes (s.d.), da Academia Piracicabana de Letras e Os Presidentes: Prudente de Moraes (1983), de Hélio Silva.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Antonieta de Barros

Antonieta de Barros nasceu em 11/7/1901, em Florianópolis, SC. Professora, jornalista e política, foi a primeira mulher negra brasileira a ocupar um mandato como deputada e uma das primeiras mulheres eleitas no Brasil. Batalhou pela emancipação feminina, pela educação de qualidade e pelo reconhecimento da cultura negra no Sul do País.

Filha da lavadeira Catarina de Barros e Rodolfo de Barros, ficou órfã do pai ainda criança. A mãe era empregada na casa do político Vidal Ramos, pai de Nereu Ramos, futuro presidente da República. Sua irmã e seu irmão foram ativistas no incipiente movimento negro local. Em seguida a mãe criou uma pensão para estudantes em sua casa, criando um ambiente propício à alfabetização dos filhos.

Teve os primeiros estudos na Escola Lauro Miller e aos 17 anos ingressou na Escola Normal Catarinense. Colaborava na edição da revista da escola e presidiu o Grêmio Estudantil. Diplomada professora em 1921, criou no ano seguinte o “Curso Particular Antonieta de Barros” em sua casa, voltado à população carente. Queria ser advogada, mas o curso de Direito era vedado à mulher. Mais tarde lecionou na escola onde fez o curso primário, no Colégio Coração de Jesus e na escola onde se formou professora, na qual foi diretora nos anos 1944-51, quando foi exonerada por motivos políticos. Além do magistério, teve atuação destacada como jornalista e escritora. Fundou e dirigiu o jornal A Semana entre os anos 1922-27, conseguindo com isto outro pioneirismo: a primeira mulher negra a exercer o jornalismo.

Suas crônicas tratavam das questões ligadas à educação, condição feminina, desmandos políticos e preconceito. Em 1930 dirigiu a revista Vida Ilhoa e escrevia sob o pseudônimo “Maria da Ilha”. Em 1937 reuniu algumas de suas crônicas e publicou o livro Farrapos de Ideias. Participou da Associação Catarinense de Imprensa e passou a trocar correspondência com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, através de sua fundadora, a bióloga Bertha Lutz. Em 1934, na primeira eleição em que as mulheres puderam ser votadas, foi convidada pelo deputado Nereu Ramos a ingressar no Partido Liberal Catarinense e candidatar-se a Deputada.

Foi eleita deputada estadual em 1935 e ficou responsável pelos capítulos Educação e Funcionalismo na Assembleia Constituinte. Em 1937 assumiu a presidência da Assembleia Legislativa e concluiu seu mandato no mesmo ano com a instauração do “Estado Novo” e o fechamento dos parlamentos em todo o País. Voltou à política em 1947, foi eleita deputada em 1948, centrando sua atuação na área da educação. Batalhou pela concessão de bolsas de cursos superiores e magistério, dirigidos à alunos carentes e foi autora da lei estadual nº 145, de 12/10/1948, instituindo o Dia do Professor e feriado escolar no estado.

Foi vítima do preconceito e atacada pelo deputado Oswaldo Rodrigues Cabral, em 1951, quando disse que suas ideias políticas e educacionais eram uma “intriga barata da senzala”. Sua delicada resposta veio através de um artigo publicado no jornal O Estado: “Fizemos do Magistério o nosso caminho, e agimos sempre respeitando a professora que não morreu em nós, ainda, graças a Deus. Como, pois, a intriga? Compreendemos que a delicada sensibilidade do nobre Deputado tenha sofrido diante daquela frase. Sua Excelência, para a felicidade de todos quantos são arianos – apesar de portador de um diploma de jornalista – não milita no ensino público. Dizemos felicidade porque, à sua Excelência, falta uma das qualidades de professor: não distinguir raças, nem castas, nem classes”.

Aposentou-se em 1951, mas continuou lecionando até o ano seguinte, quando veio a falecer em 28/3/1952, vitimada pela diabetes. Ela passou por um processo de “apagamento histórico” até fins da década de 1990, quando a ex-senadora Ideli Salvatti iniciou o resgate de sua memória e uma série de homenagens foram e vem sendo feitas com seu nome extrapolando a fronteira de seu Estado: nome do auditório do palácio do governo, nome do programa de formação de jovens aprendizes, projeto de inclusão de seu nome no “Livro dos Heróis da Pátria”, Medalha Antonieta de Barros, comenda da Câmara Municipal, concedida a mulheres relevantes etc., além de seu nome dado à alguns logradouros de Florianópolis. Sua biografia – Antonieta de Barros: professora, escritora, primeira deputada catarinense e negra do Brasil – foi publicada em 2021 por Jeruze Romão.