JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Darcy Ribeiro I

Darcy Ribeiro da Silveira nasceu em Montes Claros, MG, em 26/10/1922. Antropólogo, sociólogo, museólogo, educador. administrador, político e escritor. Foi um dos mais brilhantes pensadores (e fazedores) brasileiros destacado em diversas áreas. Passou a vida repensando o Brasil e suas mazelas; sua riqueza natural e cultural a partir da miscigenação entre brancos, negros e índios. Sua trajetória de vida daria belo documentário da história do Brasil durante a segunda metade do século XX.

Filho de “Dona Fininha” (Josefina Augusta da Silveira), professora que nomeia uma avenida da cidade, e Reginaldo Ribeiro dos Santos, falecido quando ele tinha 3 anos. Sem pai, virou moleque traquino e curioso. Na farmácia do tio, ouviu falar que a quantidade de “azul de metileno” que lá havia daria para pintar o oceano Atlântico. Ficou intrigado com a informação e despejou um pacote na caixa d’água da cidade. A água azul saiu em todas as torneiras, causando pânico na cidade. Aos 17 aos foi estudar medicina em Belo Horizonte, mas sem vocação para isso largou o curso no 4º ano. Em contato com o sociólogo Donald Pierson, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ganhou uma bolsa de estudos e aí foi estudar, em 1944, graduando-se em antropologia, em 1946. No ano seguinte foi trabalhar no SPI-Serviço de Proteção ao Índio e conheceu Rondon e os irmãos Villas-Boas. A partir daí passou a viver 10 anos, alternadamente, entre os índios e no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro –Religião da mitologia Kaiwéu – foi publicado em 1950, e lhe valeu o Prêmio Fábio Prado. Em 1953 criou o Museu do Índio. Mas, logo os irmãos Villas-Boas viram que, além do museu, os índios precisavam de um local para viver seguramente e idealizaram o Parque Indígena do Xingu, cujo projeto foi realizado por Darcy e inaugurado em 1961. Por essa época era um antropólogo completo: organizou o 1º curso de pós-graduação em antropologia (1955) e presidiu a Associação Brasileira de Antropologia (1959)

O Parque é a maior reserva indígena do mundo, onde vivem hoje cerca de 5.500 índios de 14 etnias. Afirma-se que sua criação evitou um grande genocídio no Brasil. Sua dedicação à estes povos, levou-o a elaborar para a Unesco um estudo sobre o impacto da civilização sobre os índios e, em 1954, trabalhou na OIT-Organização Internacional do Trabalho na edição de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. No ano seguinte, com a eleição de Juscelino Kubitschek, foi convidado a participar da elaboração do plano educacional do novo governo, junto com Anísio Teixeira, seu chefe e “guru”. Anísio, vendo que o rapaz prometia, entregou-lhe a Divisão de Estudos Sociais do CBPE-Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. O “cabra” tornou-se um educador obstinado e produtivo. Em seguida, JK pede à Darcy e Anísio para planejarem a Universidade de Brasília-UnB, em 1959. Reuniram um seleto grupo de professores nacionais e alguns estrangeiros e a UnB foi inaugurada em 1962, com Darcy na Reitoria, tendo Anísio como vice. Pouco depois foi conduzido ao MEC-Ministério da Educação e deixou a reitoria com Anísio. O País passa por transformações profundas na Política com o governo de João Goulart e seu envolvimento vai se alargando. Em 1963 convidado pelo presidente para exercer a “eminência parda” do governo e assume a chefia da Casa Civil. Neste cargo, passou a coordenar as reformas estruturais à serem implantadas no Pais.

Com o Golpe Militar de 1964, articulou uma resistência armada, mas não encontrou apoio suficiente e foi obrigado a fugir em direção ao exilio no Uruguai. Em 4 de abril o deputado Rubens Paiva conseguiu um pequeno avião Cessna e um acordo com o pessoal da torre de controle do aeroporto de Brasília. Levou Darcy e Waldir Pires até a cabeceira da pista e ficaram agachados num capinzal aguardando a chegada do avião. O piloto não sabia quem eram e foi orientado apenas a recolher os dois passageiros e levantar voo. Alguém na torre percebeu o rápido embarque e passou uma ordem pelo radio para retornar. O piloto quis obedecer, mas uma contra ordem incisiva de Darcy fez com que o voo prosseguisse até uma fazenda de Mato Grosso, e daí noutro voo até Montevideo.

No Uruguai foi bem recebido e logo foi nomeado professor de antropologia da Universidad de la Republica. Ficou, também, encarregado de presidir um seminário de reformas na universidade, com base no trabalho feito na UnB. Aí tem inicio sua função de “sapateiro remendão” de universidades na Am. Latina, como ele mesmo definia. Com passaporte uruguaio pode viajar pela Europa, Rússia e Cuba, onde manteve encontros com Fidel Casto e Che Guevara em longas conversas. “Sempre me lembrarei dessa conversa com Che. Ele suave e duro como ninguém. Eu me desmanchando, palavroso, em argumentações”, disse mais tarde em suas Confissões (1997). Por essa época começou a escrever seus “Estudos de antropologia da civilização em 5 volumes: O processo civilizatório (1968), As américas e a civilização (1970), O dilema da América Latina (1978), Os brasileiros (1972), Os índios e a civilização(1970). Publicou também A universidade necessária (1970), sintetizando sua experiência em reformas universitárias e, para “espairecer”, fez o primeiro esboço do romance Maíra (1976), com o qual se fez romancista.

Em Montevideo participou da vida cultural junto com Angel Rama e Eduardo Galeano entre outros; escreveu artigos para a revista “Marcha” e participou da edição da Enciclopedia de la Cultura Uruguaia, vendida em capítulos em bancas de jornal. Em meados de 1968, os processos que lhe eram movidos foram anulados pelo STF-Supremo Tribunal Federal. Após 4 anos de exílio e sabendo da “Marcha dos Cem Mil” (26/6/1968) no Rio de Janeiro, se animou a voltar achando que a anulação dos processos lhe favorecia. Mesmo advertido por Jango e Brizola, pediu ao seu advogado Wilson Mirza que avisasse o governo brasileiro que estaria voltando em tal avião, dia tal, no aeroporto do Galeão. Ao chegar foi avisado, ainda no aeroporto, que deveria se apresentar no DOPS-Departamento da Ordem Política e Social. Lá respondeu um longo questionário e foi liberado. Como era o primeiro cassado e exilado que voltava, a imprensa não deu sossego. Passou 3 meses se esbaldando em jantares com os amigos e falando, “pelos cotovelos”, bem do governo deposto e mal da ditadura em diversas entrevistas. Foi advertido pelos amigos: “Isso não se faz na ditadura, Darcy. Ninguém fez isso aqui”. Não demorou para que a polícia batesse na sua porta; mas não o levaram com a promessa de se apresentar ao Superior Tribunal Militar. A ordem era para prender, mas seu advogado apelou para o STF e continuou livre, porém vigiado de perto pelos agentes do DOPS. Até que em 13/12/1968 veio o AI-5 e foi aconselhado a fugir. Mas não admitiu “voltar com minhas próprias pernas para o exílio”. Foi preso no dia seguinte e levado para o batalhão blindado do Rio, numa cadeia que logo ficou lotada de “subversivos”. A prisão durou 9 meses.

Ali passou 3 dias e foi levado para o clube dos cabos. A acomodação melhorou bastante, tanto que deu para fazer a 2ª versão de Maíra. Depois levaram-no para a Fortaleza de Santa Cruz, onde havia muitos estudantes presos e podia conversar com eles no “banho de sol”. Mas isso durou pouco, um oficial do dia proibiu a conversa. Às vezes a proibição não era cumprida e foi advertido: “Se o senhor continuar a falar com os presos, eu tiro o banho de sol deles”. Em seguida foi transferido para a Ilha das Cobras, sob os cuidados da Marinha. Ao chegar foi avisado que devido ao fato de ter sido agraciado com a ordem do mérito naval em grau de grã-cavalheiro, teria direito a prisão de almirante. Aí ficou alguns meses bem melhor instalado. Na Marinha, o pessoal era mais educado e com o tempo passaram a respeitá-lo pelo fato de ter convivido com os índios e ser discípulo de Rondon, herói das forças armadas. Assim, passou a receber visitas semanais de sua esposa Berta e de alguns amigos. Foi convencido pela esposa e amigos a escrever uma carta ao presidente Costa e Silva, pedindo-lhe um passaporte para deixar o País, quando saísse da cadeia, pois havia um convite da Universidade de Columbia, para dar aulas como professor visitante. Concluiu a carta com “Saudações republicanas” e recebeu o passaporte.

Em 1969 foi julgado por um tribunal de oficiais da Marinha e foi absolvido. Em liberdade, ficou alojado na casa de seu advogado e no outro dia, soube que o Exército, em desacordo com a sentença da Marinha, ordenara sua volta à prisão. Desesperado, correu para a Embaixada Americana para conseguir um visto de entrada nos EUA. Teve uma conversa ríspida com o Cônsul, que relutava em lhe dar o visto. “Não estou convencido. Não o vejo como mero professor visitante”. Vendo que não conseguiria o visto, retrucou: “Claro. Sou um eminente antropólogo. Fui honrado com um convite para lecionar na Columbia, coisa que nunca sucederia ao senhor”. A troca de farpas se prolongou com o cônsul dizendo que ele estivera em Cuba em conversas com Fidel e Che. “Tenho aqui uma foto sua em viagem para lá. Aliás, seu arquivo é um dos maiores que temos”. Darcy encerrou a a conversa: “Cuide bem dele. Vai ser útil para meus biógrafos”. Na ocasião, seu amigo José Augustin Michelena, sociólogo venezuelano de passagem pelo Rio, foi acionado para lhe conseguir um visto consular para entrar em Caracas. Junto com Berta, foram para o Aeroporto e deixaram um amigo na fila de embarque, enquanto ficaram dispersos entre as pessoas até a chamada do voo.

Em Caracas foi contratado pela UCV-Universidad Central de Venezuela como professor de antropologia, orientador de teses e a direção de um seminário de renovação da UCV. Posteriormente deu aulas também na Universidade de Mérida. Durante um ano conviveu com a intelectualidade local e viajou pelo Caribe. Se deu bem em Caracas, inclusive com uma namorada de 22 anos, filha de um ricaço. O único problema que teve foi com um adido militar do Brasil, que, na condição de amigo do Ministro da Justiça, impedia que lhe dessem o visto permanente. Foi obrigado a obter visto de turista em Curaçao. Na terceira vez que foi renovar o visto, se aborreceu e reclamou numa entrevista de programa de TV. A apresentadora passou a reclamar que o presidente Caldera estava expulsando da Venezuela um dos maiores intelectuais da Am. Latina, professor contratado pela UCV, devido à pressões da ditadura brasileira. A bronca deu certo e o visto permanente saiu no dia seguinte. Tudo ia muito bem, até a vitória de Allende no Chile, em 1970, seu amigo quando vivia em Montevideo.

Em contatos com o Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, mudou-se para Santiago, em 1971, procurou Allende e se colocou à seu serviço. Na condição de assessor especial redigia os discursos do presidente. Foram 2 anos de trabalho em conduzir o país pela via do socialismo em liberdade, com democracia e desenvolvimento da economia nacional. O único país aliado era Cuba, cuja longa presença de Fidel no país acirrava a esquerda radical, desagradava a elite e alimentava o complô que se armava nos EUA. A situação chegou num ponto em que a esquerda declarou: “A economia deu tudo o que podia dar. Cabe agora à ação política abrir caminhos”. O MIR-Movimiento de Izquerda Revolucionária ganhou força e passou a conspirar querendo dar o golpe para “cubanizar” o processo chileno. A elite passou a conspirar; a classe média perdia o emprego; o povo passou a sofrer com filas até para comprar pão. Faltava alimentos em todos os mercados e alguns itens de consumo diário passaram a ser controlados. O caos se instalou a partir de 1973. Nesta ocasião, Luis Echeverria, presidente do México, achando que Darcy corria risco de vida naquela situação diante de um golpe, designou o escritor Juan Rulfo para ir até Santiago, procurá-lo, levá-lo até a Embaixada e trazê-lo para o México. Rulfo passou alguns dias procurando-o e não encontrou. Outro presidente –Velasco Alvarado, do Peru- havia se antecipado, enviando à Santiago Carlos Delgado com um convite à Darcy para “ajudar a pensar revolução peruana”. Diante da situação chilena, o convite foi aceito de imediato.

No Peru trabalhou junto ao gabinete da Presidência na construção do Centro de Estudos da Participação Popular, com ajuda de Oscar Varsavsky, matemático argentino, inventor da simulação computacional. O Centro resultava de uma parceria com o PNUD-Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e contava com ajuda da OIT-Organização Internacional do Trabalho. A partir de uma grande base de dados projetou-se um sistema de informações para implementar políticas sociais, que Darcy chamou de “socialismo cibernético”, pois “não se fundava em nenhuma ideologia, mas num jogo de números dentro do computador”. Suas ideias combinavam a implantação de uma modernidade tecnológica com o renascimento da cultura incaica. Porém encontrou resistências entre a intelectualidade peruana, que relutava em admitir um estrangeiro na formulação do novo Peru. Percebeu também que não havia interesse da área acadêmica em estudar o quéchua como uma língua nacional, uma de suas propostas. Mesmo assim, conseguiu a edição de um dicionário geral da língua nativa.

Neste ambiente apreensivo, aproveitou para tirar férias e viajou para Portugal. Lá manteve encontros com amigos lusitanos e o ex-deputado Marcio Moreira Alves, proferindo palestras em Coimbra e Porto. Certa noite acordou mal com muita tosse e expelindo sangue. Ficou assustado; procurou o médico; fizeram exames e pela cara do médico viu que era câncer, mas o médico negou. Encaminhou-o à um oncologista, que também negou: “trata-se de uma tuberculose antiga que voltou”. Darcy não acreditou e Marcio levou-o à Paris para fazer exames no “Cretuil”, o melhor hospital de câncer da Europa. Era um câncer pulmonar. “O senhor tem uma bomba no peito, pode explodir a qualquer momento”, disse-lhe o médico. A cirurgia tinha que ser marcada para os próximos dias. Foi um abalo e tanto; passou por uns perrengues revisando a vida passada e refletindo sobre o que fazer diante do pouco tempo de vida que restava. “Envelheci mais nesses últimos dois meses do que nas últimas duas décadas”, confessou. Recebeu uma oferta para fazer a cirurgia nos EUA e recusou. Para espanto dos médicos franceses, recusou também fazê-la em Paris, dizendo que ia fazê-la no Rio de Janeiro. Fez do câncer seu “cavalo de Tróia” para poder voltar ao Brasil em dezembro de 1974. (Continua)

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No próximo domingo concluiremos a biografia concisa de Darcy Ribeiro com sua volta ao Brasil; seu retorno à política como vice-governador do Rio de Janeiro; como senador; sua luta contra o câncer e seu papel na configuração de uma identidade nacional e latino-americana do Brasil.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Sergio Milliet

Sérgio Milliet da Costa e Silva nasceu em São Paulo, SP, em 20/9/1898. Escritor, pintor, poeta, sociólogo, bibliotecário, professor, crítico de arte e tradutor. Conhecido como um “intelectual poliédrico” entre os organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, foi um dos pioneiros da crítica de arte e literária.

Filho de Aída Milliet e Fernando da Costa e Silva, concluiu os primeiros estudos em São Paulo e mudou-se para Genebra aos 12 anos, onde estudou humanidades e concluiu o curso na Universidade de Berna. Lá tornou-se colaborador da revista Le Carmel e permaneceu até 1920, atravessando todo o período da I Guerra Mundial. A neutralidade da Suíça no conflito atraiu muitos artistas e escritores, com os quais o rapaz manteve convivência. Lá publicou seus primeiros livros de poesia: Par le sentir (1917) e Le depart sous la pluie (1919).

De volta ao Brasil, em 1920, juntou-se ao meio intelectual e artístico de São Paulo, que pouco depois realizaria a Semana de Arte Moderna. Como ainda dominava mal o português, sua participação na Semana ficou restrita a apresentação de um poema lido por um amigo. Participou mais da organização do evento e, dotado de espírito de liderança, fez a ligação entre o modernismo europeu e o que se projetava em São Paulo, firmando sólida amizade com seus protagonistas: Mario e Oswald de Andrade, Rubens Borba de Moraes (também recém-chegado da Suíça), Anita Malfatti, Di Cavalcanti…

Em 1923 retornou à Europa, levando o amigo Di Cavalcanti a tiracolo, que tempos depois declarou numa entrevista: “…em Paris entrei em contato com Braque, Picasso e toda a vanguarda francesa, sempre levado e guiado pela mão de Sérgio Milliet”. Sua poesia era naturalmente avançada e, conforme o crítico Leodegário A. de Azevedo Fº, observa-se uma “falta quase total de pontuação, superposição de ideias e imagens em lugar da sequência lógica, técnica analógica, simultaneidade, versos elíticos, independentes, dando ideia de descontinuidade”. Em Paris, continuou intermediando os modernistas brasileiros e europeus através de colaborações nas revistas Klaxon, Terra Roxa, Ariel e Revista do Brasil e traduzindo poemas dos brasileiros para a revista Lumière.

Retornou à São Paulo, em 1925, e criou a revista Cultura junto com Oswald de Andrade e Afonso Schmidt. Pouco depois foi gerente do Diário Nacional, jornal do Partido Democrático, onde manteve a coluna de crítica artística “Terminus Seco”, que resultou em livro com o mesmo título, publicado em 1932. Pouco depois, junto com os amigos da Semana de 22, participou da criação do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, onde foi nomeado chefe da Divisão de Documentação Histórica e Social. Em seguida foi professor da Escola de Sociologia e Política, onde atuou também com secretário e ajudou o antropólogo Claude Lévi-Strauss a viabilizar sua expedição etnográfica.

Colaborou com artigos e crítica para o jornal O Estado de São Paulo e passou a escrever uma série de livros: Pintores e Pintura, Sal da Heresia, Fora de Forma e A Marginalidade da Pintura Moderna. No contato com os pintores paulistas, começou a pintar. Em 1943 viajou para os EUA e ao retornar publicou A pintura norte-americana. No mesmo ano foi convidado a dirigir a Biblioteca Municipal, imprimindo uma série de atividades culturais e criando o primeiro acervo público de arte moderna brasileira. Em 1944 publicou Pintura quase sempre e iniciou a publicação de seu Diário crítico, uma antologia de 10 volumes, concluída em 1959. Sua atuação destacada como crítico, levou-o a fundar a Associação Brasileira de Críticos de Arte, presidindo-a durante dez anos (1949-1959).

Como tradutor, verteu diversas e importantes obras para o português, entre elas Os Ensaios de Michel de Montaigne; O segundo sexo, de Simone de Beauvoir e a obra completa de Guy de Maupassant. Foi um dos articuladores na formação do MAM/SP-Museu de Arte Moderna de São Paulo, inaugurado em 1948. Pontificou nas artes como pintor, curador de exposições, dirigente de museus e diretor da 2ª, 3ª e 4ª Bienal Internacional de São Paulo e ficou consagrado como um dos mais importantes críticos de arte no Brasil.

Faleceu em 9/11/1966 e no ano seguinte o MAM/SP organizou uma exposição retrospectiva de suas pinturas. Em 1998, no centenário de seu nascimento, foram promovidos eventos lembrando sua contribuição ao Modernismo Brasileiro no MIS/SP- Museu da Imagem e do Som; na USP-Universidade de São Paulo e na Biblioteca Municipal de São Paulo Mario de Andrade. Foi homenageado com seu nome em algumas escolas e biblioteca de São Paulo, mas tem sido injustamente esquecido entre os protagonistas do Movimento Modernista. Um livro realiza o resgate de suas contribuições: Sérgio Milliet: crítico de arte, de Lisbeth Rebollo Gonçalves, publicado pela editora Perspectiva, em 1992, ampliado e relançado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 2004 com o título Sergio Milliet Cem Anos.

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AS BRASILEIRAS: Malvina Tavares

Julia Malvina Hailliot Tavares nasceu em 24/11/1866, em Encruzilhada do Sul, RS. Professora, escritora, poeta e ativista política. Foi pioneira na implantação de uma metodologia de ensino libertário nos moldes da Escola Moderna, do pedagogo espanhol Francisc Ferrer y Guardia.

Filha de Henriette Souleaux Hailliot e François de Lalemode Hailliot, imigrantes franceses que aportaram aqui em meados do século XIX. Dados em seu diário fazem referência ao fato de sua mãe ter nascido num castelo em Bordeaux, dando a entender uma possível origem aristocrática. Em fins da década de 1880 foi estudar na Escola Normal de Porto Alegre, onde passou a lecionar como professora da rede escolar do Estado.

Casou-se em 1890 com o comerciante português José Joaquim Tavares e manteve-se ativa no movimento político como defensora do federalismo, que não admitia a inteferência dos republicanos em algumas áreas da província. O embate resultou numa guerra civil, a Revolução Federalista ocorrida no período 1983-1895, tendo Julio de Castilhos (republicano) um de seus lideres, à quem Malvina combatia. Conta a história que ele próprio providenciou sua transferência para a vila de Encruzilhada do Sul, como represália ao seu posicionamento político, em 1898.

Pouco depois mudou-se para Cruzeiro do Sul, onde lecionou até o fim de sua vida. Em seu método de ensino foram abolidos os castigos corporais aos alunos e o ensino religioso, adotando uma didática revolucionária para a época. Pesquisadores de sua história acreditam que, devido às críticas que mantinha ao governo e ao seu pensamento libertário, tudo leva a crer que ocorreu um silenciamento intencional de sua memória. Desse modo, invisibilizada pela história local, acabou sendo esquecida.

O que restou de sua memória são estudos acadêmicos e pesquisas sobre sua trajetória. Alguns a definem como anarquista; outros negam. Faleceu em 16/10/1939 e deixou um considerável legado no movimento operário e vários de seus alunos se tornaram destacados líderes anarquistas e sindicalistas, tais como Armando Martins, Artur Fabião Carneiro, Cecílio Villar, Dulcina Martins, Nino Martins e Virgínia Martins.

Em sua família persistiram os ideais revolucionários por gerações. Um de seus netos, o jornalista Flávio Tavares participou da luta armada contra a ditadura em fins da década de 1960. Foi um dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado pelos grupos de resistência em setembro de 1969. Temos notícia que sua conterrânea, a escritora Laura Peixoto, está escrevendo um romance biográfico sobre Malvina.

Biografia ainda não temos, mas dispomos de esboços biográficos: Mulheres em cena: as trajetórias de Ana Aurora e Malvina Tavares no limiar do século XX, de Carlos Gilberto Pereira Dias, publicado pela Editora Primas, 2016 e Escrituras marginais: fragmentos de memórias da professora Malvina Tavares (1891–1930), um artigo publicado pelas pesquisadoras Doris Bittencourt Almeida e Luciane Sagrbi Santos Graziottin, publicado na Revista Brasileira de História da Educação, vol 15, nº 1: 109-142, jan./abr. 2015. Para acessar, basta clicar aqui.

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OS BRASILEIROS: Zé Arigó

José Pedro de Freitas nasceu em Congonhas do Campo, MG, em 18/10/1921. Célebre médium e dirigente do Centro Espírita Jesus Nazareno, ganhou fama internacional devido a milhares de cirurgias realizadas por intermédio de um espírito alemão, denominado Dr. Fritz. Foi contemporâneo e amigo de Chico Xavier, Divaldo Franco e Herculano Pires, destacados espíritas da época.

Filho de Maria André de Freitas e Antônio de Freitas Sobrinho, família humilde de sitiantes. Estudou até o 3º ano do curso primário e recebeu o apelido “Arigó”, que significa roceiro, matuto, analfabeto. Aos 15 anos ingressou numa empresa de mineração, onde trabalhou por 6 anos, e prestou concurso para trabalhar como funcionário público no IAPTC, atual INSS, onde permaneceu até o fim da vida. A partir de 1950 passou a sentir fortes dores de cabeça, ter visões de uma brilhante luz e ouvir uma voz gutural em outro idioma. Acreditou encontrar-se à beira da loucura e procurou tratamento por 3 anos sem melhora ou diagnóstico.

Em seguida teve um sonho nítido, junto com a voz que o atormentava, vendo uma pessoa robusta e calva, com avental branco supervisionando alguns médicos e enfermeiros numa sala cirúrgica em torno de um paciente. O sonho se repetiu mais algumas vezes e o personagem apresentou-se como o médico alemão Adolph Fritz, falecido durante a I Guerra Mundial sem completar sua obra. Mesmo ignorando o idioma, Arigó compreendeu a mensagem que lhe foi dirigida. Ele fora escolhido como médium para completar a obra do médico. Nessa tarefa ele seria ajudado por outros médicos e enfermeiros.

Acordou do sonho assustado e saiu correndo pela rua aos gritos e, de volta à sua casa, chorou copiosamente. Novos exames clínicos e psicológicos foram realizados sem sucesso, contando até com sessões de exorcismo feitas por um padre. Desesperado e sofrendo as interferências do Dr. Fritz, decidiu experimentar as orientações. Pediu a um amigo aleijado para largar as muletas e caminhar. Deu-se o “milagre” e o amigo passou a andar. A partir daí, começou a sentir uma força estranha em suas mãos e um impulso dirigido a procedimentos cirúrgicos no atendimento aos enfermos.

Em 1950 conheceu Carlos Alberto Lúcio Bittencourt, candidato a deputado federal e futuro senador, diagnosticado com um câncer no pulmão e recomendação para uma cirurgia imediata. Devido a campanha eleitoral, o político adiou a cirurgia e convidou Arigó (ex-líder sindical) para realizar comícios em Belo Horizonte. Os dois hospedaram-se no mesmo hotel e na madrugada, segundo relato do próprio político, ele viu a porta de seu quarto se abrir e sentiu a presença de um vulto, que parecia ser Arigó, com uma navalha na mão. Tentou levantar-se, mas sentiu-se dominado por uma prostração que o fez cair adormecido sobre a cama. Na manhã seguinte, acordou com o pijama sujo de sangue e cortado nas costas. O tumor fora removido e o político foi curado.

A fama logo se espalhou e ele abriu uma clínica em Congonhas, atendendo gratuitamente até 200 pessoas por dia. Vinha gente de todos os Estados, EUA, Europa, incluindo Argentina e Chile, que mantinham linha de ônibus regular e direta. O atendimento a numerosos enfermos incomodou os médicos e a Associação Médica de Minas Gerais instaurou um processo acusando-o de curandeirismo. Em 1958 foi condenado a 15 meses de prisão, mas foi indultado pelo presidente Juscelino Kubistschek, cuja filha também foi curada pelo médium. Em novo processo (1964) foi preso de novo e recusou o indulto alegando que “indulto é para criminoso”. Detido por 7 meses, passou a atender alguns enfermos dentro da prisão. Ao ser libertado teve a fama alavancada.

Pouco depois o fenômeno despertou interesse científico internacional. Henri Belk, pesquisador de fenômenos paranormais e Andrija Puharich, especialista em bioengenharia, acompanhados por Jorge Rizzini, conhecido pesquisador espírita, iniciaram uma pesquisa com Arigó. Na ocasião, o Dr. Puahrich teve extraído um lipoma de seu cotovelo num procedimento indolor, em apenas 5 segundos, com um canivete. A cirurgia foi filmada e causou espanto na comunidade científica. Em 1968, mais 2 médicos (Laurence John e P. Aile Breveterd) da William Benk Psychic Foundation vieram investigar o fenômeno. Não alcançaram uma explicação conclusiva, mas comprovaram que a prática do médium não comportava ilusionismo ou feitiçaria, declarando que 95% dos diagnósticos do médium eram corretos e que suas cirurgias só eram possíveis devido à sua sensibilidade, explicável apenas à luz da parapsicologia

Arigó faleceu em 11/1/1971 num acidente de carro e teve sua vida esmiuçada pela imprensa, em diversos artigos acadêmicos e biografias: COMENALE, Reinaldo. Zé Arigó, a oitava maravilha. B.Horizonte (1968), Ed. Boa Imagem, com prefácio de Chico Xavier; FULLER, John Grant. Arigo: surgeon of the rusty knife. New York (1974), Ed. Thomas Y. Crowell; OLIVEIRA, Leida Lúcia. Cirurgias espirituais de José Arigó. B. Horizonte (2014), AME Editora. A história do espírito Arigó ficou a cargo de seu amigo e pesquisador José Herculano Pires, com o livro que se tornou clássico na literatura sobre o espiritismo: Arigó: vida, mediunidade e martírio, reeditado diversas vezes e pode ser consultado gratuitamente na Internet.

O fenômemo Arigó durou de 1950 a 1970 e passou mais de 50 anos esquecido do grande público. Agora há pouco, em meados de 2019, o cinema veio resgatar sua história com o filme Predestinado: Arigó e o espírito do Dr, Fritz, previsto para exibição em 2021, ano do centenário do médium. Porém, a pandemia interrompeu o projeto, que foi adiado para setembro de 2022. Trata-se de um belo filme dirigido por Gustavo Fernandez numa coprodução da Paramount Pictures e Camisa Listrada, contando com grande elenco.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Luísa Mahin

Luísa Mahin nasceu em fins do século XVIII na Costa da Mina, África, ou Salvador, BA. Sua existência histórica é controversa, porém existem documentos comprovando que foi uma ex-escrava alforriada em 1812 e que teve participação ativa na Revolta dos Malês (1835) e na Sabinada (1837). A história conta que sua banca de quitutes era um ponto de informações sigilosas dos revoltosos e sua casa foi transformada em quartel general destas revoltas.

O único registro existente sobre sua vida é uma carta de 1880, escrita por Luís Gama e enviada ao jornalista Lúcio de Mendonça, onde o abolicionista afirma que Luísa Mahin foi sua mãe. No entanto, alguns historiadores não descartam a hipótese que ela tenha sido uma espécie de alter ego dele, também ex-escravo tornado escritor e poeta. O fato é que ela se tornou um mito na história da escravidão brasileira, estudado em diversas épocas e que adquiriu uma existência real ao ser inscrita no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria” através da Lei nº 13.816, de 24/4/2019.

Já na década de 1930, Pedro Calmon publicou o romance histórico Malês: a insurreição das senzalas, onde surge pela primeira vez seu nome como líder da Rebelião dos Malês, uma revolta dos negros muçulmanos, ocorrida em 1835 em Salvador. No entanto, o pesquisador João José Reis ao publicar o livro Rebelião escrava no Brasil (1986) afirmou que embora tenha estudado exaustivamente os documentos sobre a rebelião Malê, não localizou uma única referência sobre Luísa Mahin, o que o leva a crer que se trate de “um misto de realidade possível, ficção abusiva e mito libertário”.

Em 2006, a escritora Ana Maria Gonçalves publicou o romance histórico Um defeito de cor com mais de 900 páginas percorrendo sua trajetória de vida dos 5 anos até sua morte. Pouco depois surgiram estudos tentando desvendar o mito. Em 2010 Aline Najara da Silva Gonçalves publicou o estudo Luísa Mahin entre ficção e história e no ano seguinte, Dulcilei C. Lima lançou o estudo Desvendando Luísa Mahin: um mito libertário no cerne do feminismo negro. Trata-se de uma busca da compreensão sobre a enigmática figura de Luísa Mahin.

Há relatos que em 1837, após a Revolta Sabinada, ela conseguiu evadir-se para o Rio de Janeiro, onde foi detida e presa. Mas não existe nenhum documento que comprove esta informação. Alguns autores acreditam que ela tenha conseguido fugir para o Maranhão, onde desenvolveu o tambor de crioula. Há também relatos que ela, junto com outros negros amotinados, tenha sido presos e deportados para Angola. Mas são relatos sem provas documentais.

Luís Gama conclui em sua carta afirmando que ela “Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do doutor Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856, em 1861, na corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas, que a conheciam e que me deram sinais certos que ela, acompanhada com malungos desordeiros, em uma “casa de dar fortuna”, em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses ‘amotinados’ fossem mandados para fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores”. E encerra dizendo que “Nada mais pude alcançar a respeito dela”.

Em 2018 a Escola de Samba Alegria da Zona Sul desfilou com o enredo Bravos Malês! A Saga de Luísa Mahim. No ano seguinte apareceu de novo no Carnaval carioca, citada como heroína entre outras figuras históricas negras, no enredo História para ninar gente grande, com o qual a Escola de Samba Mangueira ganhou o primeiro lugar. A manchete do jornal O Globo anunciava: “Enredo da Mangueira contará o lado B da história do Brasil na Sapucaí”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILERIOS: Manuel Bandeira

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu em 19/4/1886, no Recife, PE. Crítico literário e de arte, professor, cronista, ensaísta, tradutor e essencialmente poeta. Foi chamado por Mario de Andrade “São João Batista do Modernismo brasileiro”, por ter antecipado certos postulados do novo movimento artístico. Seu poema – Os Sapos – foi o abre-alas da Semana de Arte Moderna, em 1922.

Filho de Francelina Ribeiro e Manuel Carneiro de Souza Bandeira, tradicional família do Recife, mudou-se para o Rio de Janeiro ainda criança e estudou no Colégio Pedro II. Em 1903 mudou-se para São Paulo, onde ingressou na Escola Politécnica para estudar arquitetura, mas logo interrompeu o curso devido a uma tuberculose. Voltou ao Rio de Janeiro na busca de tratamento e morou em algumas cidades serranas: Petrópolis, Teresópolis e Campanha. Não encontrando melhora, partiu para a Suíça, em 1913, e ficou internado mais de um ano no Sanatório Clavadel.

Lá conviveu com o poeta Paul Éluard, através do qual teve contato com a vanguarda francesa. Levado pela perspectiva da morte, passou a fazer poesia “para de certo modo iludir o sentimento de vazia inutilidade”, como dizia. Com a eclosão da I Guerra Mundial, voltou para o Brasil em 1914. Publicou seu primeiro livro – A cinza das horas – em 1917, ainda parnasiano e simbolista. Em 1919 publicou Carnaval já se utilizando do verso livre e incursionando na linha modernista. O primeiro verso esbanjava: “Quero beber, cantar asneiras”. Um crítico do Diário de Pernambuco escreveu: “O sr. Bandeira conseguiu plenamente o que queria” e arrancou gargalhadas do poeta.

Em 1921, numa reunião na casa de Ronald de Carvalho, conheceu Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Sergio Buarque de Holanda, protagonistas da Semana de Arte Moderna de 1922. Não participou diretamente do evento, mas colaborou nas revistas Klaxon, Revista de Antropofagia, Lanterna Verde, Terra Roxa e A Revista. Em 1924 publicou Ritmo absoluto, reiterando a transição para uma nova poesia, cuja feição definitiva foi alcançada em 1930, com a publicação de Libertinagem. Em 1935 foi nomeado inspetor federal do ensino secundário pelo ministro Gustavo Capanema. No ano seguinte foi publicada a Homenagem a Manuel Bandeira, coletânea de estudos sobre sua obra, assinada pelos grandes críticos da época. Em 1937, recebeu o prêmio da Sociedade Filipe de Oliveira pelo conjunto da obra. A consagração pública viria 3 anos depois ao entrar na ABL-Academia de Letras, em 1940.

A literatura não o afastou do magistério. Nos anos 1938-1942 lecionou literatura no Colégio Pedro II e, mais tarde, na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil (atual UFRJ) lecionando Literatura Hispano-Americana até se aposentar em 1956. A produção literária foi se ampliando na poesia: Poesias completas (1948), Mafuá do malungo (1948), Estrela da tarde (1958) etc. e na prosa: Crônicas da província do Brasil (1936), A autoria das cartas chilenas (1940), Noções de histórias das literaturas (1944), Literatura hispano-americana (1949), Itinerário de Pasárgada (1954), Flauta de papel (1956) etc. Em 1958 sua obra completa foi incluída nas “edições da plêiade”, publicada pela Editora Aguilar. Ao completar 80 anos a Editora José Olympio lançou sua obra poética reunida: Estrela da vida inteira.

Sua obra reflete o quotidiano, porém marcada de um apuro técnico e musicalidade. Não obstante estar vinculado ao modernismo, nunca deixou de utilizar as formas tradicionais, como sonetos, redondilhas e baladas. Segundo os críticos, seu estilo é simples e direto, conforme se vê no poema Autoretrato:

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
a faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Seu conterrâneo José Paulo Cavalcanti Filho, da Academia Brasileira de Letras, fez um versinho acerca de uma palestra que seu médico e amigo Gentil Porto pronunciou sobre o Poeta:

Pena certeira
Bem brasileira
Um vivo, um morto
Manuel, bandeira
E Gentil, porto.

A bibliografia sobre o poeta e sua obra é extensa, com destaque para o livro de Ivan Junqueira – Testamento de Pasárgada -, publicado em 1981 e reeditado em 2003, contendo uma crítica literária acrescido de uma bela antologia. Merecem destaque também as obras de David Arrigucci Jr.: Humildade, paixão e morte – a poesia de Manuel Bandeira (2003); Stefan Baciu: Manuel Bandeira de corpo inteiro (1966) e Yudith Rosebaum: Manuel Bandeira – uma poesia da ausência (1993). Duas entrevistas dão conta da simplicidade, do bom humor e da seriedade do poeta. A primeira, em meados da década de 1940, conduzida por Homero Sena, e a segunda em março de 1964, realizada por Pedro Bloch podem ser vistas no link Manuel Bandeira (tirodeletra.com.br).

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Cora Coralina

Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas nasceu na Cidade de Goiás (ou Goiás Velho), GO, antiga capital do estado, em 20/8/1889. Poeta, contista e doceira, com seu estilo simples e alheio a escolas literárias, é considerada uma das maiores poetas brasileiras. Publicou seu primeiro livro aos 75 anos, mesmo escrevendo desde a adolescência.

Filha de Jacyntha Luiza do Couto Brandão e Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro II. Concluiu apenas o curso primário e passou a escrever os primeiros textos aos 14 anos, publicando-os mais tarde em jornais da cidade e outros locais. Seus primeiros textos foram publicados no jornal Tribuna Espírita, do Rio de Janeiro, em 1905. Publicou seu primeiro poema – “A tua volta” – no semanário Folha do Sul, da cidade de Bela Vista, em 1906, e no semanário A Rosa, em 1907, fundado por ela junto com as amigas Leodegária de Jesus, Rosa Godinho e Alice Santana.

Por essa época, frequentou o “Clube Literário Goiano” e escreveu o poema evocativo “Velho Sobrado”. O primeiro conto – Tragédia na roça”’ – foi publicado em 1910, no Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás. Neste ano seu padrasto faleceu; a família passou por uns perrengues e ela adotou o pseudônimo “Cora Coralina”. Aos 22 anos conheceu o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo e fugiu com ele para Jaboticabal, SP, onde nasceram seus 6 filhos. Em 1922 ficou sabendo da Semana de Arte Moderna na capital e manifestou interesse em participar do evento, mas foi dissuadida pelo marido.

Dois anos depois, mudou-se para a capital em plena “Revolta Paulista”, comandada pelos tenentes contra o presidente Arthur Bernardes. Em 1926, casou-se de papel passado. Com o falecimento do marido, em 1934, vendeu a pensão que mantinham e passou trabalhar para o editor José Olympio na venda de livros. Pouco depois Mudou-se para Andradina; montou loja de retalhos de tecidos; comprou um sítio; candidatou-se a vereadora, mas não se elegeu. Retornou à Goiás em 1956, aos 67 anos, e voltou a viver em sua velha “Casa da Ponte”, no centro da cidade. Escreveu o panfleto “Cântico da volta”; retomou a escrita de poemas e passou por uma transformação que ela mesma definiu como a “perda do medo”.

Seu primeiro livro publicado – Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (1965), aos 75 anos, pela Editora José Olympio, foi bem recebido pelo público e crítica. Porém foi com a 2ª edição, em 1978 pela Editora da UFGO, que passou a ser admirada em todo o País. A edição primorosa foi saudada por Carlos Drummond de Andrade numa crônica publicada no Jornal do Brasil, em 27/12/1980, após ler seu poema “Vintém de cobre”: “Minha querida amiga Cora Coralina: Seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia”.

A 3ª edição saiu em 1980 pela Editora da UFGO, incluída na “Coleção Documentos Goianos”. Pouco depois publicou Vintém de cobre: meias confissões de Aninha (1983) pela Editora Global. Por essa época, aos 95 anos, a saúde deu sinais de alerta e veio a falecer, lúcida, em 10/4/1985. A casa onde viveu, no centro da cidade, foi transformada em “Museu Casa de Cora Coralina”, em 20/8/1989, na comemoração do centenário de seu nascimento. 20 anos depois, O Museu da Língua Portuguesa prestou-lhe homenagem com a exposição “Cora Coralina – Coração do Brasil”, em 2000. Em Goiás, a Secretaria de Turismo inaugurou o “Caminho de Cora” (caminho dos antigos bandeirantes), um trecho de 300 km. ligando Vila Boa a Corumbá de Goiás.

Em 2019, na comemoração do seu 130º ano de nascimento, o Governo de Goiás decretou o “Ano Cora Coralina”. Deixou mais de 15 livros publicados e bastante material inédito em seus cadernos escolares para alguns livros póstumos. Conta com dezenas de obras biográficas, críticas literárias, teses e dissertações publicadas: Cora coragem; Cora poesia, de Vicência Bretas Tahan (Ed. Global, 1989), Cora Coralina: celebração da volta, de Darcy França Denófrio e Goiandira Ortiz de Camargo (Cânone Editorial, 2006) e Cora Coralina: raízes de Aninha, de Clóvis Carvalho Britto (Ed. Ideias & Letras, 2011) entre outros.

Foi contemplada com diversos prêmios e títulos: Doutora Honoris Causa pela UFGO (1983); Intelectual do Ano, com o Prêmio Juca Pato, da UBE-União Brasileira dos Escritores (1983); condecoração póstuma com a Ordem do Mérito Cultural do Governo de Goiás (2006). Em seu túmulo no cemitério São Miguel, na Cidade de Goiás, está registrado:

“Não morre aquele
Que deixou na terra
A melodia de seu cântico
Na música de seus versos”

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Castro Maya

Raymundo Ottoni de Castro Maya nasceu em Paris, em 1894. Advogado, industrial, ecologista, colecionador de obras de arte, fundador do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e destacado mecenas. Seu trabalho de remodelação da Floresta da Tijuca, na década de 1940, possibilitou a criação do Parque Nacional da Tijuca, em 1961. Foi um dos milionários mais conhecidos do Rio de Janeiro na década de 1920.

Filho de Teodósia Ottoni de Castro Maya e do diplomata Raymundo de Castro Maya, tradicional família carioca. Seu pai foi convidado por D. Pedro II para ser preceptor de seus netos. Passou toda infância em Paris e, aos 5 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou no colégio jesuíta Santo Inácio. Em seguida formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Destacou-se na área industrial com a fábrica de óleos vegetais e no comércio atacadista de tecidos. Porém, ficou conhecido sobretudo como grande colecionador de obras de arte com um acervo de 22 mil peças.

Tal acervo encontra-se aberto à visitação pública nos Museus Castro Maya (Museu da Chácara do Céu e Museu do Açude), locais onde residiu nos bairros de Santa Tereza e Alto da Boa Vista, respectivamente, integrados ao IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O Museu da Chácara do Céu oferece uma das melhores vistas panorâmicas do Rio de Janeiro. Fica no alto do morro de Santa Teresa, num terreno de 25 mil m² com paisagismo assinado por Roberto Burle Marx. A área conta com um bambuzal, que funciona como uma espécie de isolante acústico, garantindo um silêncio absoluto. O Museu do Açude é outro belo recanto incrustado no alto da Boa Vista numa área de 151 mil m². Definidos pelo trinômio Museu-Natureza-Cidade, o visitante fica em dúvida sobre qual aspecto deve ser melhor apreciado: a natureza ou o conjunto de peças artísticas ali instalado.

A única função pública que exerceu em vida se deu a convite do então prefeito do Rio de Janeiro Henrique Dodsworth. Devido ao seu interesse em manter a beleza natural da cidade, recebeu a missão de coordenar os trabalhos de remodelação da Floresta da Tijuca, uma área de quase 40 km². Tal trabalho foi realizado em 4 anos com a condição de que não fosse remunerado. Recebia o salário mensal de um cruzeiro e os cariocas deram-lhe o apelido de “One dólar man”

Sua contribuição, além da doação de seu acervo ao patrimônio público, foi significativa no campo cultural. Criou a Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, em 1943, com a edição de livros raros, e a Sociedade dos Amigos da Gravura, em 1952. Foi também um dos principais incentivadores da criação do MAM e seu primeiro presidente, em 1948. Nas comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro, coordenou a comissão organizadora dos festejos. Como executivo, foi membro da Câmara do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e do Conselho Federal de Cultura, para o qual foi nomeado em 1967.

A riqueza artística de seus museus já contou com obras de Picasso, Matisse, Salvador Dali e Monet, que infelizmente foram roubadas em 2006. Mas conta ainda com alguns quadros de Portinari e a maior coleção de obras de Jean-Baptiste Debret, constituída de 451 aquarelas, 58 desenhos e 29 gravuras, retratando a vida no Brasil colonial. Entre os artistas brasileiros, encontram-se obras de Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Iberê Camargo, Antônio Bandeira, José Pancetti, Manabu Mabe, Poty, Aldemir Martins… Entre os estrangeiros, temos Joan Miró, Modigliani, Edgar Degas e George Seurat entre outros. Faleceu em 1968 e o poeta Drummond chamou-o de “O carioca da perfeição”.

Deixou publicado um único livro, espécie de relatório poético sobre o trabalho realizado na Tijuca – A floresta da Tijuca -, publicado em 1967 pela Bloch Editores, considerado hoje um livro raro. Não encontramos biografia do refinado colecionador e mecenas, exceto um ensaio realizado por Vera de Alencar, publicado em 2002 pela Editora Nova Fronteira: Castro Maya: Bibliófilo. Para compensar esta lacuna, temos uma bela cinebiografia, um documentário de Silvio Tendler, realizado em 2016: Castro Maya: carioca da perfeição, apresentado neste vídeo:

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Francisco Julião

Francisco Julião Arruda de Paula nasceu em Bom Jardim, PE, em 16/2/1915. Advogado, escritor e político. Ficou conhecido como líder do movimento “Ligas Camponesas”, no início da década de 1960. Parlamentar e advogado do movimento, batalhou pela reforma agrária e foi protagonista de importantes conquistas sociais para o campesinato brasileiro.

Filho de Maria Lídia Arruda de Paula e Adauto Barbosa de Paulo, aos 13 anos, foi estudar no Recife e concluiu o curso secundário no Instituto Carneiro Leão, em 1933. Em seguida entrou na Faculdade de Direito, diplomando-se em fins de 1939. Na Faculdade, um núcleo de oposição ao governo, envolveu-se na política social junto aos camponeses. Após montar seu escritório de advocacia, verificou a enorme distância que separava “a lei codificada e a que realmente se aplicava no campo” e costumava dizer que a “grande revolução em curso se limitava a tirar o camponês da porta do delegado para a porta do juiz”. Como advogado dos camponeses, escreveu alguns documentos, como a “Carta aos foreiros de Pernambuco”, em 1946, incentivando a presença dos camponeses nas audiências e julgamentos dos processos. Em 1951 publicou seu primeiro livro – Cachaça -, um relato sobre a prática dos latifundiários em pagar os trabalhadores com a bebida, o qual foi elogiado por Gilberto Freyre. Ingressou no PSB-Partido Socialista Brasileiro, em 1954, e foi eleito deputado estadual. No ano seguinte assumiu a defesa dos moradores do engenho Galileia, um engenho desativado, cujo proprietário arrendou as terras em pequenos sítios, num sistema de cooperativa, às 140 famílias lá existentes.

O proprietário do engenho decidiu acabar com a cooperativa e expulsar os camponeses. Julião entrou com um processo na justiça afim de garantir a posse pelos moradores, deflagrando uma luta jurídica, com ganho de causa 4 anos depois pelos camponeses. Foi a partir daí que o movimento ganhou o nome de “Ligas Camponesas”. Em 1955 ocorreu o “Congresso pela Salvação do Nordeste”, organizado pela Prefeitura do Recife, sob a gestão de Pelópidas Silveira. Na ocasião deu-se uma concentração de 3 mil camponeses na Assembleia Legislativa, onde Josué de Castro, autor do livro Geografia da fome, fez uma palestra sobre a reforma agrária. O movimento das “Ligas” foi intensificado até 1958, quando Cid Sampaio foi eleito governador. Uma coligação dos partidos de esquerda foi vencedora pela primeira vez desde o fim do Estado Novo. Com a criação de um departamento de terras e colonização, no governo, foram organizadas algumas cooperativas de agricultores visando diminuir o poder das “Ligas”, que passam a despertar o interesse da imprensa e ganham repercussão nacional.

No início da década de 1960, o jornal The New York Times publicou artigos sobre a gravidade da situação econômica-social e do movimento político no Nordeste. Pernambuco foi visitado por jornalistas e políticos dos EUA, que viam a situação como séria ameaça. Segundo analistas, o impacto causado pela recente revolução cubana foi utilizado pelos norte-americanos para criar uma “mitologia em torno das ligas”, que deu ao movimento “uma dimensão que ele não tinha”. Com a renúncia do presidente Jânio Quadros e a posse de Jango, o programa de reformas de base ganhou impulso. Após o Congresso de Trabalhadores Agrícolas, realizado em 1961, foi decidida a “radical transformação da estrutura agrária do país” e a “aplicação da parte da legislação trabalhista já existente que se estende aos trabalhadores agrícolas”, além da “elaboração de um estatuto que vise uma legislação adequada aos trabalhadores rurais”.

A partir de 1962, deu-se o enquadramento institucional patrocinado pelo governo. A CLT-Consolidação das Leis do Trabalho e o direito de organização sindical foram estendidos ao campo. No mesmo ano, Julião foi eleito deputado federal numa coligação do PSB-Partido Socialista Brasileiro com o PST- Partido Social Trabalhista e foi combatido pelo governo de João Goulart e pela Igreja. Nas eleições para governador, aliou-se a candidatura de Miguel Arraes, que teve apoio de todas as forças nacionalistas e de esquerda. A vitória de Arraes ocorreu no momento em que se dava em todo o país a polarização entre as forças que defendiam reformas sociais e as tendências conservadoras. No ano seguinte, deu-se a primeira greve dos trabalhadores rurais de Pernambuco, que paralisou a economia do estado e tiveram suas reivindicações atendidas.

As tensões políticas foram intensificadas em todo o País e tivemos o Golpe Militar de 31 de março de 1964. Julião encontrava-se na Câmara dos Deputados, que foi cercada pela tropa militar. Saiu dali escondido num carro e foi para Belo Horizonte disfarçado de migrante nordestino. Em 9 de abril, com a edição do Ato Institucional nº 1, ele estava entre os primeiros atingidos e passou a ser procurado. Em 3 de junho foi encontrado e preso por 20 dias em Brasília. Em seguida foi entregue à tutela do IV Exército, no Recife, onde ficou 40 dias numa cela solitária. Depois foi ficou preso num alojamento do Corpo de Bombeiros junto com o governador Miguel Arraes.

Em 27/9/1965, foi libertado através de um habeas-corpus impetrado por seu advogado Sobral Pinto. Deram-lhe 24 horas para deixar o País e recebeu convite de Fidel Castro para viver em Cuba. Preferiu viver com a família em Cuernavaca, México. A partir daí, passou a proferir palestras, ministrar cursos e redigir artigos regulares para os jornais Siempre e El Dia, além de publicar o livro Cambão: a cara oculta do Brasil. Mais tarde participou do Encontro dos Trabalhistas do Brasil com os Trabalhistas no Exílio, em Lisboa sob a liderança de Leonel Brizola, em 1979. No mesmo ano, com a anistia, retornou ao Brasil e passou a reorganizar o PTB junto com Brizola. No entanto, perderam a sigla numa disputa com a ex-deputada Ivete Vargas e criaram o PDT-Partido Democrático Trabalhista.

Em 1985 participou da campanha eleitoral do candidato a prefeito de São Paulo, Ademar de Barros Filho. Foi criticado por isto, mas alegou que ele representava o capital nacional e que era preciso unir forças com diversas correntes políticas. Em 1986 concorreu a uma vaga de deputado constituinte por Pernambuco, pelo PDT, com apoio do PT-Partido dos Trabalhadores e PSB-Partido Socialista Brasileiro. No arco das coligações partidárias, participou de comícios do PFL-Partido da Frente Liberal ao lado de usineiros e apoiou a candidatura do pefelista Roberto Magalhães ao Senado. Tal aproximação com seus adversários na década de 1960, provocou um estranhamento entre seus eleitores e correligionários, incluindo seus dois filhos Anatólio e Anatilde, dirigentes regionais do PDT, que se desligaram do Partido e ingressaram no PMDB-Partido do Movimento Democrático Brasileiro, em protesto contra a atitude do pai.

Pouco depois, derrotado eleitoralmente, declarou ter dado “um golpe de misericórdia no próprio mito”. Em fins de 1986 recebeu convite de uma editora mexicana para escrever o livro Os últimos soldados de Zapata e voltou a viver no México, onde faleceu em 10/7/1999. Além dos livros citados, publicou Irmão Juazeiro (1961), O que são as Ligas Camponesas (1962), Até quarta, Isabela (1965) e Escuta camponês (s.d). No Exílio, traduziu do francês, junto com Miguel Arraes, o livro A mistificação das massas pela propaganda política (1967), de Sergei Tchakhotine. Em termos biográficos, temos um alentado trabalho de 10 anos de pesquisa, realizado por Cláudio Aguiar, que resultou no livro Francisco Julião: uma biografia, publicado pela Ed. José Olympio em 2015.

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AS BRASILEIRAS: Niomar Bittencourt

Niomar Moniz Sodré Bittencourt nasceu em 4/9/1916, em Salvador, BA. Escritora, jornalista, empresária, mecenas e proprietária do Correio da Manhã (1901-1974), um dos jornais mais importantes nas décadas de 1950-60. Pretendeu e conseguiu fazer do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro a “obra de sua vida”, conforme declarou Lucio Costa.

Filha de Maria de Teive Argollo e do deputado Antonio Moniz Sodré de Aragão. Estudou breve período no Colégio Sacré Couer de Jesus, de onde foi expulsa por não se adaptar às rígidas normas da escola. O estopim se deu com o fato de se recusar a tomar banho de camisola. Em seguida foi estudar Colégio Sion do Rio de Janeiro, menos rígido, porém ainda inadequado para o temperamento da moça que o deixou antes de graduar-se.

Desde jovem começou a escrever novelas, contos e crônicas, colaborando mais tarde em jornais e revistas: A Noite, Vamos Ler, Carioca. Aos 15 anos apaixonou-se pelo primo e manteve o namoro em segredo até o dia em que o pai flagrou o casal. Deu-se o maior “barraco”; o velho danou-se e expulsou o rapaz de casa. No outro dia ela fugiu indo morar num hotel. Mandou avisar o pai que só voltaria se fosse para casar com o primo. Teve que esperar até completar 16 anos, a idade permitida, e casou-se em 1932 com o primo Hélio Moniz Sodré Pereira. Viveu com ele até princípios da década de 1940 e separou-se. Pouco depois casou-se com o jornalista Paulo Bittencourt, dono do Correio da Manhã.

Passou a se interessar por artes plásticas e tornou-se uma grande colecionadora de obras de arte. Era amiga do empresário Raymundo Ottoni de Castro Maia e da escultora Maria Martins, junto aos quais engajou-se na criação do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, inaugurado em 1948. Durante 10 anos ocupou sua diretoria e projetou a sede atual no Aterro do Flamengo. Depois ficou como presidente de honra, membro do conselho deliberativo, do comitê internacional e dos comitês de exposição, aquisição e doação no Brasil e no exterior. Segundo Lucio Costa, ao assumir a direção do Museu, deliberou fazer dele a obra de sua vida. Projetou o MAM no cenário internacional.

Com a morte do marido, em 1963, assumiu a direção do Correio da Manhã até 1969, quando foi presa, processada devido ao posicionamento político do jornal e teve os direitos políticos cassados pelo AI-5 por 10 anos. Apesar do apoio dado ao Golpe Militar de 1964, passou a criticar logo em seguida o regime ditatorial, denunciando casos de tortura entre os presos políticos. Em fins de 1985 foi homenageada com um almoço no MAM, onde o então presidente José Sarney discursou e se desculpou em nome do governo brasileiro, pelas perseguições políticas, junto com seu jornal, no período do regime militar. O jornal sofreu algumas pressões econômicas e políticas, que forçaram sua transferência a um grupo empresarial que modificou a linha editorial e posicionamento político.

Como decorrência do endividamento dos arrendatários, ela recusou-se a retomar o jornal antes que expirasse o prazo do contrato. Assim, foi decretada a falência do jornal, que deixou de circular em 1974. No mesmo ano mudou-se para Paris, onde viveu 10 anos, retornando ao Brasil em 1984. Em seguida participou do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro e da ABI-Associação Brasileira de Imprensa, representando-a na Conferência de Chapultepec, no México. Como uma das fundadoras do MAM, representou o Brasil na Bienal de Veneza. Em 1993 foi diagnosticada como portadora do Mal de Alzheimer e faleceu em 31/10/2003.

Não contamos ainda com uma sua biografia publicada em livro, mas temos um trabalho biográfico consistente na forma de uma dissertação de mestrado – De coadjuvantes a protagonistas: a trajetória de três mulheres que trocaram os salões de sociedade pelo controle de grandes jornais brasileiros nas décadas de 50 e 60 apresentada por Flávia Bessone na PUC/Rio, em 2001. A parte referente a Niomar foi publicada na Internet, que pode ser acessada clicando aqui.