JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Hércules Florence

Antoine Hercule Romuald Florence, nasceu em Nice, França, em 29/2/1804. Desenhista, pintor, tipógrafo, inventor e polígrafo, i.é, dotado em diversas matérias científicas. Aos 20 anos passou a viver no Brasil e ficou conhecido como um dos pioneiros no invento da fotografia e criador da palavra “photographie”. Acredita-se que não ficou reconhecido no mundo como inventor devido ao excesso de modéstia e viver num país fora do circuito europeu.

Desde criança demonstrava talento para o desenho e logo cedo tornou-se aventureiro viajante. Aos 16 anos tomou um navio e foi parar no porto de Antuérpia, onde foi assaltado. Empreendeu uma viajem, praticamente a pé, até Mônaco, após breve passagem pela Holanda. Em seguida renovou o passaporte e, em 1824, embarcou para o Brasil. Sem falar português, trabalhou numa loja de roupas e numa livraria/tipografia. Soube da realização de uma expedição científica em busca de desenhistas que fizessem a documentação ilustrada de uma grande viagem pelo norte do Brasil.

Era a expedição Langsdorff, uma empreitada fruto das relações comerciais entre a Rússia e o Brasil visando a exploração geográfica e de novos produtos. Foi admitido como desenhista e percorreu 13 mil quilômetros no período 1826-1829. Seu trabalho resultou numa grande coleção de imagens de valor inestimável, segundo os cientistas brasileiros e estrangeiros, conforme ficou registrado no livro Etnografia e iconografia nos registros de Hércules Florence durante a expedição Langsdorff, na província do Mato Grosso – 1826-1829, de Sonia Maria Couto Pereira (Ed. da UFGO 2016). Tal edição foi possível graças ao seu diário de bordo, publicado em 1875 pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, publicado posteriormente em várias edições com o título Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas – 1825-1829. As ilustrações de Florence, os documentos e as amostras coletadas pela expedição Langsdorff foram esquecidas por mais de um século na Academia Imperial da Rússia, em São Petersburgo e redescobertos somente em 1930. Foi publicada aqui, em 1988, pela Editora Alumbramento com o título Expedição Langsdorff: iconografia da Academia de Ciências da União Soviética.

Em seguida, passou a viver em São Paulo, onde casou-se com Maria Angélica Vasconcelos, em 1830, tiveram 9 filhos e fixaram residência nas proximidades de Campinas. Pouco depois observou a descoloração sofrida pelo tecido exposto à luz do sol. Informado pelo botânico Joaquim Correia de Melo das propriedades do nitrato de prata, iniciou investigações sobre fotografia. Suas primeiras experiências com a câmera obscura datam de janeiro de 1833 e encontram-se registradas no manuscrito Livre d’Annotations et de Premier Matériaux. Mais de 150 anos depois, o exame detalhado desse manuscrito por Boris Kossoy levou-o a comprovar o emprego pioneiro da palavra “photographie”, 5 anos antes que o vocábulo fosse utilizado pela primeira vez na Europa. (Kossoy, Boris. Hercule Florence, a descoberta isolada da fotografia no Brasil, 3ed., São Paulo: EDUSP, 2006).

Seu êxito foi construir de modo rudimentar uma câmera escura usando uma lente e uma paleta de cores como base, obtendo uma imagem fotográfica e cunhado o termo que se eternizou como “fotografia”. Constatando-se que o cientista inglês William Fox-Talbot realizou tal façanha, porém alguns anos depois, constata-se que Hércules Florence o antecedeu na invenção de uma foto impressa. Ele mesmo lamentou o fato de não ter sido reconhecido com seu invento, conforme publicou no seu livro-diário “L’Ami des arts livré à lui même ou Recherches et découvertes sur différents sujets nouveaux” (O amigo das artes entregue a si mesmo ou pesquisas e descobertas em novos tópicos diferentes)

Seu lamento é um desabafo diante do fato de viver num país onde o conhecimento não é prestigiado: ”Estou certo de que, se estivesse em Paris, um único de meus descobrimentos poderia, talvez suavizar-me a sorte e ser útil a sociedade. Lá, talvez não me faltassem pessoas que me ouviriam, me adivinhariam e me protegeriam. Estou certo de que o público, o verdadeiro protetor dos talentos, me compensaria de meus sacrifícios. Aqui, porém, ninguém vejo a quem possa comunicar minhas idéias. Os em condições de as entenderem, seriam dominados por suas próprias idéias, por suas especulações, pela política, etc.”

Foi pioneiro também na imprensa. Em 1836 fundou em Campinas O Paulista, primeiro jornal do interior do Estado. Em 1843 inventou um novo método de impressão para evitar falsificações e publicou num folheto apresentado na Academia de Ciências e Artes de Turim, que constatou ser ele um merecedor da proteção do Governo da Sardenha. Em 1847 descreveu o emprego dos “typo-silabas”, ideia precursora da taquigrafia. Como se vê, seus inventos giravam em torno da impressão e documentação. Em 1850 ficou viúvo e pouco depois casou-se com Carolina Krug, educadora e fundadora do Colégio Florence, em Campinas. Seus desenhos do litoral, do interior e da capital paulista serviram de base para diversas pinturas de autores como Benedito Calixto, José Wasth Rodrigues e Alfredo Norfini entre outros, O diretor do Museu Paulista, Afonso d’Escragnolle de Taunay, no período 1917-1945, denominou-o como “patriarca da iconografia regional”. Faleceu em 27/3/1879.

Foi um prodigioso inventor de registros documentais, bem como um documentalista diligente ao deixar publicado diversas publicações contendo valiosas informações sobre suas descobertas, além das citadas no seu livro-diário: (1) Ensaio sobre a impressão das notas de banco por um processo totalmente inimitável, precedido por algumas observações sobre a gravura das mesmas notas, e o modo de se conhecer as que são falsas. Campinas: Tipografia de Costa Silveira, 1841; (2) Zoophonia. Revista do Instituto Histórico Geográfico e Etnográfico do Brasil. Vol. XXXIX, 1876 e Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. São Paulo: Melhoramentos, duas edições – 1941 e 1948; 3ª ed. em 1977, pela Editora Cultrix e 4ª ed. em 2002, pela Editora do Senado Federal.

Segundo seu biógrafo Leão Estevão Bouroul – Hércules Florence. São Paulo: Tipografia Andrade Mello & Cia., 1900- “a vida de Florence é a narração singela e comovente das peripécias, das descobertas, das viagens, que constituem uma das páginas mais interessantes dos anais do século XIX brasileiro”. Consta mais uma biografia escrita por Dayz Peixoto Fonseca e publicada em Campinas pela Editora Pontes, em 2008: O Viajante Hércules Florence: águas, guanás e guaranás. O Instituto Hercule Florence conta com grande acervo de informações à disposição do público.

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AS BRASILEIRAS: Francisca Diniz

Francisca Senhorinha da Motta Diniz nasceu 30/10/1834, em São João del Rei, MG. Professora, escritora e jornalista. Pioneira do Feminismo no Brasil, teve atuação destacada na educação e participaçãio da mulher na sociedade. Fundou o semanário – O Sexo Feminino -, em 1873, com artigos sobre o dote, abolição da escravatura, pena de morte, sufrágio feminino etc.

Filha de Gertrudes Alves de Melo Ramos e Eduardo Gonçalves da Mota Ramos, e casada com o advogado e jornalista José Joaquim da Silva, diplomou-se professora do curso primário e lecionou em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, onde fixou residência. Logo após formada, passou a dirigir uma escola ao mesmo tempo em que iniciava uma carreira jornalística, escrevendo para a revista A Estação.

Pouco depois, fundou seu próprio jornal – O Sexo Feminino -, “um semanário dedicado aos interesses da mulher”, conforme estampado no título. O jornal foi lançado em Campanha, MG, em 7 de setembro de 1873, marcando a comemoração da Independência do Brasil e, também, a independência da mulher, num editorial na capa do jornal: “Zombem muito embora os pessimistas do apparecimento de um novo orgão na imprensa – O Sexo Feminino; tapem os ouvidos os indifferentes para não verem a luz do progresso, que, qual pedra desprendida do rochedo alcantilado, rola violentamente sem poder ser impedida em seu curso; riam os curiosos seu riso sardonico de reprovação à idea que ora surge brilhante no horizonte da cidade…

…O seculo XIX, seculo das luzes, não se findará sem que os homens se convenção de que mais de metade dos males que os opprimem é devida ao descuido, que elles tem tido da educação das mulheres, e ao falso supposto de pensarem que a mulher não passa de um traste de casa, grosseiro e brusco gracejo que infelizmente alguns individuos menos delicados ousão atirar a face da mulher, e o que é mais as vezes, em plena sociedade familiar!!!”. O jornal era impresso em sua casa e seu marido era editor do jornal O Monarquista.

Em 1875 foi convidada por Dom Pedro II para lecionar na corte e passa a viver no Rio de Janeiro, levando seu jornal a tiracolo, e atinge a tiragem de 4 mil exemplares. Seus leitores iam dos mais ricos -incluindo os membros da corte (Dom Pedro II e a Princesa Isabel eram assinantes) -aos mais pobres. No ano seguinte toda a família foi acometida pela febre amarela; passa por uns perrengues financeiros; e o jornal passa a ser publicado mensalmente por pouco tempo. Só voltou a circular após a Proclamação da República com novo título: O Quinze de Novembro do Sexo Feminino, ou seja: “A República das mulheres”, cujo programa propunha a emancipação feminina através da educação física, moral e intelectual. Trazia também uma coluna tratando exclusivamente do sufrágio feminino.

Colaborou em mais dois jornais do Rio de Janeiro: Primavera e A Voz da Verdade. Era uma defensora intransigente do papel da mulher na nova república que surgia. Seu texto era direto, conclamando à ação: “É tempo de olharmos atentamente para nossa situação. Que papel representa a mulher na sociedade? Quando filha, quando mãe, esposa e viúva, sempre, sempre manietada, oprimida e dominada desde o primeiro até o último homem”. Dava grande importância à educação básica da mulher, tanto para benefício próprio quanto para a melhoria do mundo. Boa parte dos estudos sobre Francisca Diniz estão centrados mais na sua produção jornalística. Porém ela enveredou pela literatura com o livro A judia Rachel: romance original de costumes, publicado em 1886 em coautoria com sua filha Albertina.

Segundo a crítica literária Zahidé Muzart, trata-se de um romance “de aprendizagem”, no sentido de que a obra é um exercício do ofício da escrita. Tendo em vista seus esforços para destacar o papel da mulher na sociedade, a temática de seu livro não poderia ser outro, senão uma crítica ao confinamento a esfera doméstica e seu alijamento da esfera pública. O livro alcançou sucesso de público e crítica, e foi republicado pelo Senado Federal, em 2020, incluído na “Coleção Escritoras do Brasil”.

Sua vida não ficou nos limites da escrita jornalística ou literária. Com o falecimento do marido, e em parceria com suas 3 filhas, também professoras: Amélia, Albertina e Elisa, fundou a Escola Doméstica do Colégio Santa Isabel, em 1890, no centro do Rio de Janeiro. As disciplinas referentes à vida doméstica foram matidas, mas foram ampliadas com o acréscimo de História, Matemática e Geografia. Aí se manteve até 30/10/1910, quando veio a falecer, mantendo a crença que seria pela formação escolar que as mulheres poderiam escolher seu próprio caminho. Em 2013 Bárbara Figueiredo Souto apresentou a dissertação de mestrado – Francisca Senhorinha da Motta Diniz e Josephina Alvares de Azevedo: projetos de emancipação feminina na imprensa brasileira (1873-1894) – no Departamento de História da FFLCH da USP, disponível para consulta. Clique aqui para acessar.

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OS BRASILEIROS: Landell de Moura

Roberto Landell de Moura nasceu em 21/1/1861, em Porto Algre, RS. Sacerdote, cientista e inventor mais conhecido pelo pioneirismo na área das telecomunicações. Para muita gente e instituições como o IEEE-Institute of Electrics and Electronics Engineers, ele é um dos principais inventores do rádio. Em 1893 suas transmissões sem fio alcançavam 8 quilômetros; enquanto o aparelho de Guglielmo Marconi alcançava apenas alguns metros.

Filho de tradicional família gaúcha, estudou no colégio jesuita de São Leopoldo até 1873. No ano seguinte retornou à Porto Alegre e ingressou noutro colégio, onde estudou línguas, humanidades e gramática. Conta-se que aos 16 anos inventou um tipo de telefone, mas não deixou uma descrição do aparelho. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro, afim de estudar na Escola Politécnica. Porém teve uma grande mudança de rumo nos estudos. Seu irmão queria estudar em Roma para ser padre e convenceu-o a seguir o mesmo caminho. Igressou no Colégio Pio Americano, em 1878, e na Universidade Gregoriana, ordenado sacerdote em 1886. Enquanto estudava Direito Canônico, interessou-se também pela ciência e concebeu sua teoria sobre a unidade entre as forças físicas do Universo e sua harmonia. De volta ao Rio de Janeiro em 1887, foi capelão do Paço Imperial e, além de rezar missa, trocava ideias com o imperador Pedro II, conhecido amante das ciências. Pouco depois mudou-se para Porto Alegre, em 1891, onde foi padre e professor de História no Seminário Episcopal. Em seguida foi vigário em Uruguaiana.

No ano seguinte foi transferido para São Paulo, atuando nas paróquias de Santos, Campinas e na capital, como pároco da Capela de Santa Cruz, no bairro de Santana, onde permaneceu até 1900. Ficou mais conhecido através de suas pesquisas científicas, uma atividade mal recebida pelos paroquianos, que chegaram destruir seu laboratório; e pela Igreja, que não admitia a possibilidade vida fora da terra. Ele previa a possibilidade de comunicação entre mundos diferentes. Em 1892 teria construído o 1º transmissor de mensagens sem fio, antes de Guglielmo Marconi, na Itália. Nos anos seguintes realizou experiências de transmissão de som por meio de ondas hertzianas e fez testes com um telégrafo e um telefone sem fio. No entanto a falta de documentação sobre as datas prejudicouu seu reconhecimento internacional. Porém, existem testemunhos de algumas pessoas sobre estes fatos, e em 1899 o Jornal do Commercio puublicou nota sobre seu pioneirismo mundial no campo da transmissão do som sem fio.

Em 1900 ocorreu a 1ª demonstração pública de seus inventos e foram “coroadas de êxito”, conforme noticiou a edição brasileira do jornal La Voz de España, de 10/12/1900. Em 1901 conseguiu a 1ª patente brasileira para seu aparelho sem fio e uma viagem para Itália, França e EUA, onde montou um laboratório em Nova Iorque e ficou lá por 4 anos. Queria obter patente, também, nos EUA. Não conseguiu a patente, mas o jornal New York Herald publicou, em 1902, sua foto com a legenda “Padre Landel de Moura, inventor do aparelho de telefone sem fio”, destacando que “por entre os cientistas, o brasileiro Padre Landell de Moura é muito pouco conhecido”. Alguns , empresários dos EUA ofereceram-lhe uma fortuna para autorizar a produção industrial do aparelho, mas ele recusou alegando: “Os inventos já não mais me pertencem. Por mercê de Deus, sou apenas o depositário deles. Vou levá-los para minha Pátria, o Brasil, a quem compete entregá-los à humanidade”. Em 1904, conseguiu obter 3 patentes nos EUA para um telefone sem fio e um telégrafo sem fio. Ao final do ano criou um sistema de transmissão de imagens à distância tornando-se pioneiro também da televisão e do controle remoto. Mas a documentação sobre isto é pobre, impedindo que se conheça até que ponto ele chegou. De volta ao Brasil, em 1905, assumiu a paróquia de Botucatu, SP, e continou com as pesquisas.

Solicitou aos políticos auxílio financeiro para continuar seus trabalhos e concretizar os inventos, mas não conseguiu sensibilizar os deputados de São Paulo. Chegou a apelar ao presidente Rodrigues Alves, pedindo 2 navios da Marinha para demonstrar a transmissão sem fio em longas distâncias, novamente sem êxito. O assessor encarregado de analisar o pedido não lhe deu crédito e disse ao presidente que “o tal padre é maluco”. Conta-se que na ocasião ele teve um acesso de raiva e destruiu alguns aparelhos. Em seguida, foi obrigado pela Igreja a abandonar seus experimentos. Em 1906 assumiu a paróquia de Mogi das Cruzes, SP, e no ano seguinte voltou à seus experimentos. Escreveu um memorial descritivo dos efeitos eletro-luminescentes de um indeterminado campo energético envolvendo os seres vivos, registrando-os numa fotografia, fenômeno conhecido hoje como “efeito Kirlian”. Na ocasião descreveu os efeitos da eletricidade sobre o corpo humano. Passou mais um tempo vagando por algumas cidades do interior de São Paulo e em fins de 1908 pediu exoneração e retornou à Porto Alegre.

Assumiu a paróquia do Menino Deus e tratou de aperfeiçoar seu sistema de transmissão de imagens, dando-lhe o nome de “televisão’. Com a fundação da Faculdade de Medicina Homeopática em 1914, assumiu uma cátedra junto com seu irmão médico e farmacêutico. Na inauguração da escola, profreriu um discurso sobre a lei dos similares, princípio básico da homeopatia. Porém, no mesmo ano uma crise interna provocou a cisão da faculdade em duas: Faculdade de Ciências Médicas e Escola de Médicina-Cirúrgica, e em nunhuma delas a homeopatia foi incluída. No ano seguinte foi nomeado vigário-geral da Arquidiocese de Porto Alegre e a saúde deu sinais de alerta, levando-o a uma série de pedidos de licença para tratamento médico em estações termais. Por esta época dedicou-se ao estudo da psicologia e espiritismo, para desagrado dos fiéis e da cúpula da Igreja.

Em 1916 foi nomeado cônego capitular do Cabido Metropoloitano de Porto Algre e aprofundou os estudos sobre psicologia, chagando publicar em 1919 o livro Apontamentos de psychologia. Em seguida participou da fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, ampliando sua participação no meio social. A Igreja, mesmo não gostando de suas atividades científicas, tinha na cúpula alguns membros que reconheciam seu valor como religioso. Assim, em 1927 recebeu o título eclesiástico de monsenhor e foi nomeado arcerdíago (ou arquidiácono) no ano seguinte. Mas viveu pouco neste cargo. Na condição de fumante inverterado, era portador de uma tuberculose, que se agravou até 30/6/1928, quando veio a falecer.

Nos EUA ele foi reconhecido por outros inventores e seu nome transita entre membros do renomado IEEE, a maior organização profissional técnica do mundo. Seu pioneirismo na invenção do rádio, na telefonia e telegrafia sem fio desde 1893 conta com vários testemunhos, conforme dois artigos numa grande enciclopédia norte-americana e outras publicações internacionais. Porém no Brasil estas primeiras evidências ainda estão sob controvérsia. Não obstante ser pouco conhecido entre em nós, recebeu diversas homenagens. É cidadão honorário da cidade de São Paulo, patrono da Ciência, Tecnologia e Inovação do município de Porto Alegre, patrono dos radioamadores brasileiros, e em 2012 foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria (Lei nº 12614). Em Porto Alegre, o “Memorial Landell de Moura” batalha para promover seu reconhecimento e mantém um grande acervo de informações à disposição do público. Segundo o Dr. Gildo Magalhães, da USP, sua história “é um retrato das vicissitudes que marcam a trajetória da ciência brasileira”.

Trata-se de um dos nossos cientistas pouco divulgado no Brasil, mas não é por falta de biografia. Ivan Dorneles Rodrigues, tido como o maior conhecedor de sua vida e obra, publicou o livro Pe. Roberto Landell de Moura: a história documentada, pela Editora Corag em 2015. Hamilton Almeida, outro entusiasta no resgate de sua memória, publicou Padre Landell de Moura: um herói sem glória, pela Editora Record, em 2006, e Padre Landell: o brasileiro que inventou o wireless, pela Ed. Insular em 2022. Biografias mais antigas: O incrível Pe. Landell de Moura, de Ernani Fornari, (Ed. Globo, 1960), e Padre Landell de Moura: história de um inventor, de Elida de Freitas e Castro Druck (Ed. Sulina, 1960). A Wikipedia traz um alentado verbete sobre o Padre e o Youtube conta com diversos vídeos sobre sua trajetória.

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AS BRASILEIRAS: Rosalina Lisboa

Rosalina Coelho Lisboa de Larragoiti nasceu em 15/7/1900, no Rio de Janeiro, RJ. Escritora, poeta, jornalista, diplomata, ativista política e praticante de jiu-jitsu. Na condição de amiga do presidente Getúlio Vargas, teve atuação destacada na década de 1930 e foi uma das pioneiras do movimento feminista.

Filha de Luiza Gabizo Lisboa e João Gonçalves Coelho Lisboa, deputado e senador pela Paraíba, teve educação refinada com preceptoras estrangeiras, e foi Mestre em história e culturas políticas pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFMG. Publicou seu primeiro soneto aos 14 anos e aos 15 passou a colaborar na famosa revista Careta. Ainda jovem, casou-se com o comandante Raul Van Rademaker, de quem ficou viúva aos 19 anos. Passou por uns perrengues financeiros e dedicou-se integralmente ao trabalho, escrevendo para revistas e jornais sob diferentes pseudônimos.

Em 1920 foi lecionar inglês no Instituto Benjamin Constant e pouco depois publicou seu livro de poemas Rito Pagão, premiado pela ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1922. Casou-se de novo com James Irwin Miller, gerente da United Press na América do Sul. Na época ficou conhecida como Rainha dos cadetes de Realengo, devido aos seus artigos enaltecendo os jovens oficiais. Na defesa dos oficiais exilados, viajou pela América Latina e viveu alguns anos na Argentina. Foi partidária da Revolução de 1930, ano em que participou do Congresso Feminino Internacional, em Porto Alegre.

Exerceu diversas funções diplomáticas entre 1930 e 1954, estabelecendo uma relação de amizade com o presidente Getúlio Vargas e o ministro Oswaldo Aranha. Foi a 1ª mulher brasileira a ser enviada ao exterior em missão intelectual, em 1932. Por solicitação de Vargas, elaborou programa de propaganda revolucionária pelo rádio e foi a única mulher a integrar o comitê de regulamentação da radiodifusão educativa, em 1933. Com a proximidade do Golpe de 1937 e instauração do Estado Novo, ela foi um dos principais mediadores entre a AIB-Ação Integralista Brasileira e o Governo Vargas. No início da década de 1940, conseguiu anular o 2º casamento e casou-se pela 3ª vez com Antonio Sanchez de Larragoiti, diretor da companhia de seguros Sul América.

Com o fim da II Guerra Mundial, passou a defender maior estreitamento das relações do Brasil com os países vizinhos, aconselhando Vargas, especialmente a Argentina, Chile e Peru.

Em 1945 ocupou a diretoria dos Diários Associados como encarregada das sucursais de Lisboa, Madrid e Paris. Participou, como delegada, da VI Assembleia Geral da ONU, em 1951 (Paris), e propôs o projeto de abolição dos castigos corporais aplicados aos negros na África do Sul. No mesmo ano pronunciou-se na imprensa a favor do divórcio, em apoio a campanha do senador Nelson Carneiro.

Foi membro do conselho consultivo do IBRI-Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, em 1954, e em seguida foi apresentada como candidata ao senado pelo Partido Social Progressista, mas recusou a indicação. Na cerimônia de inauguração da TV no Brasil, em 18/9/1950 nos Diários Associados em São Paulo, ela discursou e recitou um poema na condição de “Madrinha da Televisão”. Além dos artigos nos jornais O Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e A Nação, deixou publicado os livros O desencantado encantamento (ensaios, 1927), Conferências (1927), Passos no caminho (poesia, 1932), Almafuerte (ensaios, 1951) e A Seara de Caim, romance de 1952, publicado pela Ed. José Olympio, reeditado diversas vezes e traduzido para o francês com prefácio de André Maurois.

Conforme análise de seu arquivo pessoal, depositado no CPDOC da FGV-Fundação Getúlio Vargas, “é curioso perceber que uma escritora brasileira tão consagrada internacionalmente e tão engajada na política, não tenha angariado uma análise mais detalhada de sua controversa vida pública” Ao mesmo tempo em que demonstrava vanguardismo por ser favorável ao divórcio e defender a igualdade dos sexos, ora posicionava-se conservadoramente pregando a formação moral e cívica como garantidoras da ordem política. “De forma, que podemos defini-la revolucionária no campo social e conservadora no campo político”, não obstante suas contribuições na área política e cultural. Faleceu em 13/12/1975.

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OS BRASILEIROS: Sobral Pinto

Heráclito Fontoura Sobral Pinto nasceu em Barbacena, MG, em 5/11/1893. Advogado conhecido pela defesa de presos políticos durante a ditadura do Estado Novo em fins da década de 1930 e a ditadura militar instaurada após o golpe de 1964. Teve atuação destacada na luta pela defesa dos direitos humanos em sua longa carreira profissional.

Conta-se que aos 10 anos presenciou 3 policiais arrastando um preso e dando-lhe chutes e pancadas. O garoto ficou indignado e chamou-os de covardes. Nascia ali o senso de justiça que impregnou sua vida. realizou os estudos secundários no Colégio Anchieta, dos padres jesuítas, em Nova Friburgo, RJ. Pouco depois, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Faculdade de Direito, onde foi diplomado em 1917. Trabalhou pouco tempo na área criminalista e foi convidado para ocupar o cargo de Procurador Criminal da República, em 1924. O período do governo de Arthur Bernardes foi conturbado com os movimentos militares revolucionários e ele foi implacável na condenação dos líderes.

Em 1928 foi promovido a Procurador-Geral do Distrito Federal e no mesmo ano ingressou no Centro Dom Vital, criado por Jackson de Figueiredo e Dom Sebastião Leme, ficando responsável pela crônica política publicada no jornal da entidade, A Ordem. Pouco depois deixou a Procuradoria-Geral, recusando qualquer cargo público, passando a ser apenas advogado. Em 1933 aderiu à Liga Eleitoral Católica, a fim de orientar na escolha dos representantes da Assembleia Nacional Constituinte, até que em 1936 surge uma grande causa: defender os líderes da “Intentona Comunista” Luiz Carlos Prestes e o alemão Harry Berger, diante da recusa de diversos advogados. Prestes passou 8 anos de prisão incomunicável, recebendo apenas a visita semanal que o advogado lhe fazia.

No caso do alemão, suas condições no cárcere eram tão desumanas que ele solicitou do governo a aplicação do artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais ao prisioneiro. Mais tarde as razões da defesa foram expostas em seu livro Por que defendo os comunistas. Durante a ditadura do “Estado Novo”, batalhou pela redemocratização através de sua coluna no Jornal do Commercio, incluindo uma grande polêmica travada com o escritor Cassiano Ricardo, diretor do jornal governista A Manhã, publicada no livro Do primado do espírito nas polêmicas doutrinárias: as iras do Sr. Cassiano.

Em 1945 assinou o manifesto de lançamento da Resistência Democrática, convocando a realização da Constituinte, o sufrágio universal, a criação de partidos e dos sindicatos apolíticos. Mais tarde, em 1955, quando um grupo político aliado aos militares tentaram impedir a participação no pleito de Juscelino Kubitschek e João Goulart, ele criou a “Liga da Defesa da Legalidade” para lutar pela realização das eleições e garantir a posse dos eleitos. Com a vitória de Juscelino, pouco depois foi-lhe oferecida uma vaga no STF-Supremo Tribunal Federal. Não foi aceita, para evitar a impressão que seria uma retribuição pela sua atuação na Liga.

Logo após o Golpe Militar de 1964, enviou uma carta ao Marechal Castelo Branco advertindo-o de que sua candidatura, na qualidade de chefe do Estado Maior do Exército, era ilegal, tanto no pleito direto, quanto indireto. Neste período defendeu causas como a Missão Comercial Chinesa, que aqui se encontrava com passaporte diplomático num intercâmbio comercial. Foram presos, torturados e, após a condenação. Foram deportados. Com o AI-5, em 1968, ele foi preso em Goiás por alguns dias. O oficial carcereiro avisou-lhe que o AI-5 visava o estabelecimento de uma democracia à brasileira. Resposta: “Coronel, há peru à brasileira, mas não há democracia à brasileira. A democracia é universal, sem adjetivos”.

Um dos aspectos que mais salientou seu caráter foi o completo desprendimento dos bens materiais. Seu colega Dario de Almeida Magalhães dizia: “Para que esse destino privilegiado de homem livre se realizasse cabalmente, alcançou Sobral Pinto a libertação de um dos jugos mais perigosos e daninhos: a libertação do dinheiro”. Outro colega -Victor Nunes Leal- revela um aspecto de sua atuação: “Sobral Pinto é o crítico vigilante da vida pública, o curador da vivência dos amigos, a consciência de cada um de nós”. Foi conselheiro da OAB-Ordem dos Advogados do Brasil por vários anos; foi presidente do Centro Dom Vital em dois mandatos e catedrático de Direito Penal da PUC-Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Na homenagem que recebeu na Câmara Municipal de São Paulo, em 1976, pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, discursou sobre o Golpe de 1964: “Golpe militar. Não foi Revolução. Não havia naquele movimento nenhuma ideia superior; não havia naquele movimento nenhum propósito de realmente trabalhar para a cultura e o progresso do País’. Na década de 1980, início do período de abertura política teve participação ativa no movimento “Diretas Já” e causou sensação ao participar do histórico Comício da Candelária, em 1984. Foi uma das últimas participações públicas, contando já com 91 anos. Faleceu em 30/1/1991

Foi homenageado com seu nome em alguns logradouros públicos, além do prédio da OAB no Rio de Janeiro, que leva seu nome. Deixou uma enorme quantidade de cartas e artigos na imprensa e dois livros sobre a liberdade: Lições de liberdade (1977) e Teologia da libertação (1984). Sua coragem e legado ficaram registrados em algumas biografias: Sobral Pinto: a consciência do Brasil (2001), de John Forster Dules, publicada também em inglês; Sobral Pinto, o advogado (2002), de Aristóteles Atheniense; Heráclito Fontoura Sobral Pinto: toda liberdade é íngreme (2014), de Márcio Scalero, e uma cinebiografia com o documentário Sobral – O homem que não tinha preço, em 2013, dirigido por Paula Fiuza

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AS BRASILEIRAS: Carmen Portinho

Carmen Velasco Portinho nasceu em 26/1/1903, em Corumbá, MS. Engenheira e primeira mulher a receber o título de Urbanista no Brasil, tornando-se sua patrona em 2022. Foi também uma das pioneiras do Feminismo na condição de vice-presidente da FBPF-Federação Brasileira pelo Progresso Feminista em 1922, junto com sua cunhada, a presidente Bertha Lutz.

Filha de Maria Velasco, boliviana, e do gaúcho Francisco Sertório Portinho, mudou-se para Rio de Janeiro aos 8 anos; completou os primeiros estudos e graduou-se engenheira pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil, atual UFRJ, em 1925. Foi a 3ª mulher formada engenheira no Brasil. Manteve estreita ligação com o incipiente movimento feminista na época em prol da educação das mulheres e pela valorização do trabalho feminino fora da esfera doméstica. Em 1930 fundou a União Universitária Feminina, da qual foi a primeira presidente, com o objetivo de defender os interesses femininos nas profissões liberais. No mesmo ano casou-se com o médico Gualther Adolpho Lutz, irmão de sua amiga Bertha Lutz. Separou-se pouco depois e se casou com o arquiteto Afonso Eduardo Reidy, projetista do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Logo após formada, foi trabalhar na Diretoria de Obras e Viação da Prefeitura do Distrito Federal e em seguida foi lecionar no Colégio Pedro II, causando um escândalo na sociedade carioca, pois tratava-se de um internato masculino. Foi vítima do machismo também no seu trabalho na Prefeitura. Foi reclamar com o presidente Washington Luiz, que mantinha audiências públicas para ouvir queixas e pedidos de funcionários e cidadãos. Posteriormente foi promovida e conseguiu concluir o primeiro curso de urbanismo no País. Em 1937 fundou e foi a 1ª presidente da Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas, visando o ingresso das formandas no mercado de trabalho.

Em 1939 defendeu seu doutorado em urbanismo com a tese “Anteprojeto para a futura capital do Brasil no Planalto Central”. Seu plano tem o formato de um transatlântico, contendo várias características que se encontram no Plano de Brasília, elaborado por Lucio Costa. Pouco depois ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estagiar na comissão de reconstrução das cidades inglesas destruídas na II Guerra Mundial. De volta ao Rio Janeiro, propôs ao prefeito a criação de um Departamento de Habitação Popular (DHP), do qual foi designada diretora na década de 1950. Sua obra maior foi o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, mais conhecido como “Pedregulho”, para abrigar funcionários públicos do município, no bairro de São Cristóvão. O projeto ficou a cargo de seu marido, já reconhecido como um dos grandes nomes da moderna arquitetura brasileira.

Trata-se de um ousado projeto arquitetônico, que conquistou o 1º prêmio da Bienal Internacional de São Paulo (1953) e foi elogiado pelos arquitetos Max Bill e Le Corbusier em visita ao Brasil em 1962. Pela primeira vez centenas de famílias modestas puderam morar numa edificação contando com murais de Cândido Portinari, projeto paisagístico de Burle Marx e piscina. Em sua gestão no DHP foram construídos mais 3 conjuntos de habitação popular menos famosos (Gávea, Vila Isabel e Paquetá) que lhe deram projeção nacional e internacional. Publicou um artigo expondo seu pensamento: “É hora de oferecer ao homem [do século 20], na idade da máquina […] habitação digna de sua era. Uma máquina para viver, bem montada e organizada, que lhe permita recuperar aquela coisa inestimável, que hoje está quase perdida, que é a liberdade individual”.

Sua concepção da arquitetura moderna aliada ao urbanismo consistia em organizar a área residencial em unidades de habitação, separando as funções em um centro administrativo e de negócios, com ênfase em um sistema viário eficiente e equacionado. Em paralelo a construção de conjuntos habitacionais, chefiou as obras de engenharia civil da construção da nova sede do MAM-Museu de Arte Moderna do Rio Janeiro, projetado por seu marido e inaugurado em 1958. Era a única mulher num canteiro de obras com mais de 450 operários. Com a ascensão de Carlos Lacerda ao governo em 1962, Carmen pediu sua aposentadoria, devido a divergências políticas irreconciliáveis com o governador.

Continuou trabalhando através da iniciativa privada e tornou-se diretora da ESDI-Escola Superior de Desenho Industrial a convite do governador Negrão de Lima, em 1963, onde permaneceu por 20 anos. Foi a 1ª escola de desenho industrial da América Latina. Em 1965 organizou a exposição de arquitetura moderna brasileira para o Instituto Hispânico-Americano de Madri e apoiou alguns artistas espanhóis na mostra de vanguarda “Opinião 65”, no MAM. No ano seguinte recebeu convite do Departamento de Estado dos EUA para visitar o país e manteve contatos com diretores de museus, escolas, galerias de arte e colecionadores. Em 1970 recebeu convite idêntico do governo alemão para conhecer o desenvolvimento do desenho industrial nesse país.

Recebeu diversas homenagens, entre as quais destacam-se as prestadas pela UERJ-Universidade do Estado do Rio de Janeiro com a instituição do “Prêmio Carmen Portinho”, criado em 1991, destinado anualmente a valorizar a produção científica dos alunos e a mostra “Carmen Portinho: uma homenagem”, em 1993, abordando sua trajetória profissional. Em 1999, ao completar 96 anos foi homenageada pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil e pela Secretaria Municipal de Obras Públicas. No mesmo ano a UERJ prestou-lhe mais uma significativa homenagem: a edição de um livro de arte em grande formato: Carmen Portinho – Por toda a minha vida, com depoimentos a Geraldo Edson de Andrade e Alfredo Brito. Faleceu em 25/7/2001. Seu sobrinho-neto, senador Carlos Portinho apresentou o Projeto de Lei nº 1.679, em 2022, outorgando-lhe o bem-merecido título de “Patrona do Urbanismo no Brasil”, sancionado pelo Senado Federal em 18/8/2022.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: João Kopke

João Kopke nasceu em 27/11/1852, em Petrópolis, RJ. Advogado, professor, pedagogo, escritor e primeiro autor da literatura infantil brasileira, abrindo caminho para a extensa obra de Monteiro Lobato. Lecionou durante anos em São Paulo, envolvido na causa republicana e foi pioneiro na divulgação de modernas técnicas pedagógicas, com especial atenção à criança e ao ensino da leitura.

Filho de Felisbella Candida de Vasconcellos e Henrique Kopke, português de ascendência alemã. O velho Kopke, junto com seu irmão Guilherme, fundou o Colégio de Petrópolis, em 1850, que ficou conhecido como o famoso Colégio Kopke, atualmente “Escola Municipal João Kopke”. Concluiu o curso primário no colégio do pai e o secundário no Colégio São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro. Mudou-se para o Recife, aos 19 anos, para estudar na Faculdade de Direito, mas logo transferiu-se para São Paulo, onde concluiu o curso aos 23 anos.

Na época a cidade fervia com as novas ideias políticas, quando em contato com Francisco Rangel Pestana e Antonio da Silva Jardim, passou a engrossar o coro dos republicanos. Ainda cursando a faculdade, casou-se com Maria Isabel de Lima e foi dar aulas particulares. Logo formado foi nomeado promotor público em Faxinal e depois transferido para Jundiaí e Campinas. O envolvimento com a causa republicana foi intensificado e, ciente que a instrução pública é a mola propulsora do progresso social, passou a dedicar-se ao magistério a partir de 1878.

Conta-se que era um excelente professor no trato com as criaças. Lecionou Inglês, Francês, Italiano e Geografia no Colégio Rangel Pestana; e Filosofia, História, Geografia e Retórica no curso prepartório, anexo à Faculdade de Direito de São Paulo. Em 1880, mudou-se para Campinas e passou a lecionar no Colégio Culto à Ciência e no Colégio Florence. Imbuído do espirito republicano e positivista, fundou junto com Silva Jardim a “Escola Primária da Neutralidade”, em 1884, indicando a imparcialidade que deveria guiar os passos da ciência e do saber. Era uma escola destinada a crianças de ambos os sexos, algo novo para a época.

Em 1886, mudou-se para o Rio de Janeiro e fundou o Instituto Henrique Kopke, tendo como modelo o ensino ministrado na Escola Primária da Neutralidade. No mesmo ano o Instituto recebeu autorização do governo imperial para ministrar aulas no ensino primário e secundário, conquistando boa parte da elite carioca. Ainda em 1886 fundou uma associação de professores e no ano seguinte foi designado membro substituto do Conselho da Instrução Primária e Secundária da Corte. Na República seu Instituto foi oficializado como escola padrão, por decreto do presidente Prudente de Morais.

Permaneceu na direção do Instituto até 1897, e foi nomeado pelo presidente Campos Salles como Oficial do Registro Geral e de Hipotecas do Rio de Janeiro, i.é, ganhou um cartório, mas continou dedicando-se a pedagogia até o falecimento em 28/7/1926. Seu último trabalho se deu em 1923 na primeira rádio do Brasil -Rádio Sociedade do Rio de Janeiro- com o programa “A Hora da Criança”, onde era chamado de “Vovô”, e divulgava um novo método de alfabetização através do rádio. Como “entretenimento”, o programa contava histórias infantis difundindo no público o gosto pela leitura.

Sem querer, deu incio à formação da Literatura Infantil Brasileira. Hoje é desconhecio do público como importante educador na História do Brasil; porém, vem sendo reconhecido no meio acadêmico.

Em 2014, a profª Norma Sandra A. Ferreira, da Faculdade de Educação da UNICAMP, defendeu tese de livre docência: Um estudo sobre “Versos para os pequeninos”: manuscrito de João Kopke, e descobriu que ele foi o precursor de Monteiro Lobato, a quem foi atribuída a inauguração da literatura infantil brasileira. Em 2015, a profª Maria do Rosário Longo Mortatti fez uma breve biografia e balanço de suas contribuições à educação e ensino e escreveu o capitulo 3 – João Kopke (1852-1926) na história do ensino de leitura e escrita no Brasil- do livro Sujeitos da história do ensino de leitura e escrita no Brasil, publicado pela Editora da UNESP e que pode ser acessado clicando aqui.

É um bom candidato à realização de uma biografia mais detalhada e melhor divulgada por algum estudioso da educação no País. Tem vasto material publicado e noticiado nos jornais da época. Trata-se de um trabalho de ampliar as pesquisas e levantamentos. É merecedor do apoio do Ministério da Educação. Hoje quando tanto se fala em “Escola sem Partido”, o profº Kopke fazia a “Escola da Neutralidade” há mais de 100 anos.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Natércia Silveira

Natércia da Cunha Silveira nasceu em 14/6/1905, em Itaqui, RS. Advogada, ativista política, líder feminista e pioneira na luta pelo direito das mulheres ao voto. Foi a primeira mulher a conquistar o diploma de advogada no Rio Grande do Sul.

Filha de Maria da Conceição do Valle Cunha e Manoel da Cunha Silveira, juiz de Direito em Uruguaiana e ligado ao Partido Libertador do Rio Grande do Sul, de quem herdou o gosto pela política. Aos 18 anos atuou na Revolução de 1923, conflito armado entre os partidários do presidente do Estado, Borges de Medeiros (Chimangos) e os revolucionários comandados por Joaquim Francisco de Assis Brasil (Maragatos). Natércia discursou, em nome das mulheres gaúchas, na recepção dos generais Zeca Netto e Honnório Lemes na chegada a Porto Alegre.

No ano seguinte, enquanto cursava Direito e participava do Centro Acadêmico, sua mãe faleceu. Em 1926 recebeu o diploma de advogada pela atual UFRGS, tornando-se a primeira mulher advogada do Estado. Pouco depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a atuar nos tribunais e movimentos políticos e feministas. Manteve contatos estreitos com a bióloga Bertha Lutz, a engenheira Carmen Portinho e a advogada Orminda Ribeiro Bastos, integrantes da FBPF-Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, e aliou-se à entidade representando o Rio Grande do Sul.

Em fins de 1929 integrou a equipe de advogados da escritora Sylvia Serafim Thibau, que assassinou o jornalista Roberto Rodrigues na redação do jornal A Crítica. O crime se deu porque o jornal publicou na primeira página a notícia do pedido desquite do médico João Thibau Jr. acusando-a de estar mantendo um caso com Manuel Dias de Abreu, futuro inventor da ‘abreugrafia”. Sylvia foi à redação do jornal armada afim de matar seu editor Mário Rodrigues. Não encontrando-o, atirou em seu filho Roberto na presença de seu irmão Nelson Rodrigues, de 17 anos, tornado famoso dramaturgo mais tarde. No julgamento, Sylvia foi absolvida por 5 a 2 votos.

Ainda em 1929, foi uma das fundadoras da União Universitária Feminina, congregando mulheres com ensino superior em prol de seus direitos. Dois anos depois teve uma dissidência com a FBPF, devido ao seu engajamento político e participação em comícios da Aliança Liberal, e fundou a “Aliança Nacional de Mulheres”, cujo objetivo era manter a fiscalização das condições de trabalho da mulher e prestação de assistência jurídica, além de uma caixa de auxílio à mulher desamparada. Com 3 mil filiadas, a entidade foi dissolvida pelo golpe de 1937, instaurando o “Estado Novo” de Getúlio Vargas. Sua participação foi decisiva na comissão organizadora do anteprojeto constitucional que consolidou o sufrágio feminino, em 1934.

Neste mesmo ano candidatou-se a vereadora pela Frente Única do Distrito Federal elegendo-se suplente. Em seguida participou das eleições de 1945 e 1950 como candidata a deputada pelo Partido Libertador e não obteve êxito. Como política, sua pauta sempre esteve ligada aos temas referentes aos direitos da mulher, ao trabalho, à educação e à assistência social. Em 1964, foi a primeira mulher a ocupar a direção do Departamento Nacional do Trabalho. Pediu demissão do cargo, após uma discussão com o ministro do Trabalho sobre um projeto de decreto, que no seu entender aniquilaria o movimento sindical portuário.

Voltou a trabalhar na Procuradoria Geral do Trabalho, onde ocupou diversos cargos relevantes e se aposentou em 1971, mas manteve seu Escritório de Advocacia até 1977 e faleceu em 7/12/1993, aos 88 anos.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Manuel Querino

Manuel Raimundo Querino nasceu em Santo Amaro, BA, em 28/7/1851. Escritor, pintor, folclorista, antropólogo, documentalista e pioneiro nos registros e valorização da cultura africana na Bahia. Fundador do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia e da Escola de Belas Artes. Foi o primeiro afro-brasileiro a publicar livros sobre a história e cultura brasileira.

Seus pais, ambos negros e livres, faleceram na epidemia de cólera em 1855. Órfão, aos 4 anos, foi apadrinhado pelo prof. Manuel Correia Garcia, da Escola Normal de Salvador. Ainda jovem, viajou pelo Nordeste em busca de oportunidades e foi recrutado pelo Exército no Piauí, em 1868. Graças à boa letra, formação intelectual e ao porte franzino, acabou servindo na “escrita do batalhão” no Rio de Janeiro durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), onde chegou a Cabo de Esquadra.

Retornou à Salvador em 1872 e dedicou-se ao desenho e à pintura, estudando no Liceu de Artes e Ofícios, sob a tutela do professor e artista espanhol Miguel Navarro y Cañizares. Estudou também na Academia de Belas Artes, onde trabalhava. Formou-se em Desenho Geométrico e passou a lecionar no Liceu e no Colégio de Órfãos de São Joaquim. Por esta época publicou 2 livros didáticos sobre desenho geométrico. Além da dedicação à arte, atuou na política, destacando-se no movimento abolicionista, na fundação do Partido Operário e da Liga Operária Baiana. Chegou a travar intensos debates com o médico Nina Rodrigues contra as ideias preconceituosas da ciência na época.

O negro brasileiro reivindicado por Querino tem o talento e a vocação da civilização, em detrimento do português, corajoso e hábil no exercício da força, mas um péssimo colonizador, inimigo das artes, da imprensa, da indústria etc. Era uma pessoa bem articulada, preocupada com a cultura local e foi Conselheiro Municipal em duas ocasiões, entre 1891-1892 e 1897-1899. Sua capacidade intelectual inspirou Jorge Amado a criar o personagem Pedro Archanjo, de seu romance Tenda dos milagres.

Naquela época o “branqueamento” da população era defendido como política oficial de estado e pela ciência, visto que o pensamento dominante pregava que a cultura negra era inferior a branca. Querino defendia a ideia que o “branqueamento” não fazia sentido, pois os africanos já tinham civilizado o Brasil. Assim, não havia necessidade de imigrantes brancos e que os negros eram mais capacitados para enfrentar os desafios da sociedade brasileira. Desse modo, ele antecipou as ideias de Gilberto Freyre no estudo da cultura negra no Brasil.

Pouco depois, afastou-se da política para se dedicar aos estudos de pesquisa e realizou um importante trabalho de documentação e resgate dos nomes mais relevantes nas artes da Bahia. Levantou centenas de nomes, sob o critério do talento independente da origem de classe social. Assim incluiu nomes relevantes, porém menos prestigiados no métier intelectual. Tais biografias – Os artistas bahianos: indicações biográficas – foram publicadas na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, vol 12, nº 31, 1906. Em seguida o levantamento foi ampliado e publicado em seus livros Artistas bahianos. Imprensa Nacional, 1909 e As artes na Bahia: escorço de uma contribuição histórica, Oficinas do Diário da Bahia, 1913.

Algumas críticas foram feitas ao seu trabalho de levantamento. Porém ressalta-se seu caráter pioneiro, sem o qual não teríamos registro de relevantes nomes de sua época, particularmente os nomes de vertente africana. Teve o mérito de salvaguardar para a posteridade inúmeras informações, que de outro modo se perderiam irremediavelmente, já que outros mais bem dotados para estes estudos não cogitaram de fazê-lo. Seu trabalho foi comparado ao realizado pelo pintor Vasari com sua coletânea de biografias no período Renascentista. Como pintor foi premiado com as medalhas de bronze, prata e ouro no Liceu de Artes e Ofícios e na Academia de Belas-Artes, com menção honrosa (1880) e 2 medalhas de prata (1882 e 1883).

Na condição de antropólogo, deixou um legado precioso para o estudo da cultura afro-brasileira em livros, tais como Costumes africanos no Brasil, publicado pela Ed. Civilização Brasileira (1938); A Bahia de outrora, pela Ed. Livraria Progresso (1954); A Raça africana e seus costumes na Bahia, pela Ed. Livraria Progresso (1955) e O colono preto como fator da civilização brasileira, republicado pelos Cadernos do Mundo Inteiro, em 2018 e à disposição dos leitores clicando aqui. Completando seu legado deixou um saboroso livro: A arte culinária na Bahia contendo receitas africanas, afro-brasileiras e tradicionais. O livro já foi reeditado diversas vezes e encontra-se na 3ª edição pela Editora Martins Fontes. Faleceu em 14/2/1923.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Josefina Álvares de Azevedo

Josefina Álvares de Azevedo nasceu em Recife, PE, em 5/5/1851. Jornalista, escritora, poeta, dramaturga e precursora do Feminismo no Brasil e na luta pela conquista do voto das mulheres. Era prima do poeta Álvares de Azevedo e teve destacada presença intelectual em São Paulo e Rio de Janeiro em fins do século XIX.

Mudou-se para São Paulo por volta de 1877, aos 26 anos, e passa a escrever, inserindo-se no pequeno núcleo de intelectuais paulistas. Em 1888 fundou o semanário A Família, um jornal de poucas amenidades dirigido à elite local e algumas reivindicações. Tinha como primeiro objetivo tratar da educação para as mulheres, porém, com a transição política vivida na época republicana, o principal objetivo passou a ser a reivindicação dos direitos das mulheres e fazer com que elas tivessem suas vozes representadas nas questões políticas, podendo votar, por exemplo.

Via-se claro que o objetivo central era questionar o patriarcalismo predominante, denunciando o papel a que estava relegado a mulher. No editorial do nº 1 dizia que “a consciência universal dorme sobre uma grande iniqüidade secular – a escravidão da mulher. Até hoje tem os homens mantido o falso e funesto principio de nossa inferioridade. Mas nós não somos a eles inferiores porque somos suas semelhantes, embora de sexo diverso.” E enfatizava: “Em tudo devemos competir com os homens – no governo da família, como na direção do estado… As sociedades assentam suas bases sobre dois princípios cardeais: o princípio da força e o princípio da ordem. O princípio da força é o homem, o da ordem é a mulher… O homem é a negação da ordem… E em abono desta opinião eu vos trarei um exemplo muito vulgar – o governo de uma casa… ele não é capaz de governar uma casa, que se compõe de algumas pessoas”.

No ano seguinte transferiu-se para o Rio de Janeiro, levando o jornal a tiracolo. Segundo a historiadora Karine da Rocha (UFPE), essa mudança ocorreu com o intuito de alcançar maior aceitação do periódico pela proximidade com a Corte. Além disso, queria fazer dele um jornal nacional e viajou pelo Norte e Nordeste em busca de parcerias ligadas nesta intenção. Manteve o jornal em circulação por 10 anos até 1898, contando com colaborações de destacadas mulheres da época em outros estados, como Nacísia Amália, Julia Lopes de Almeida, Inês Sabino, Anália Franco, Presciliana Duarte de Almeida etc. e até do exterior, como Guiomar Torrezão, de Lisboa, e Eugénie Potoinié Pierre, de Paris.

Entre os jornais que circulavam na época, A Familia foi um dos mais combativos e duradouros, servindo como “caixa de ressonância do incipiente movimento feminsita brasileiro”. Foi uma das primeiras mulheres a batalhar pelo sufrágio feminino. Com a proclamação da República em 1889, a conquista do direito das mulheres ao voto foi realçada. Em 1890 publicou em seu jornal uma série de artigos com o título geral “O direito ao voto” e no mesmo ano escreveu a comédia “O voto feminino”, encenada no Teatro Recreio Dramático. A peça pode ser considerada uma das primeiras no Brasil a se uitlizar do teatro como meio de protesto politico.

A autora, bem como a peça em si, foi objeto de estudo realizado por Valéria Andrade Souto Maior e publicado no livro O florete e a máscara: Josefina Álvares de Azevedo, dramaturga do século XIX, lançado pela Editora Mulheres, de Florianópolis, em 2001. Com seu protagonismo, foi acusada de ser contra os princípios do catolicismo, devido ao fato de criticar a Igreja em alguns de de seus artigos ou poemas, como fez em “Fé”, um poema em que faz uma critica aos padres: “A moral de Cristo é a minha religião, essa é a que defendo e procurio incutir no espírito dos meus filhos. A religião dos padres, não; não a quero, nem recomendo a quem quer que seja”.

Josefina faleceu em 1/9/1913 e, infelizmente, não encontramos uma biografia sua, exceto alguns verbetes na wikipedia que serviram para a costura desta síntese biográfica. Encontramos um artigo centrado em sua luta pelo direito das mulheres ao voto – Josefina Álvares de Azevedo: teatro e propaganda sufragista no Brasil do século XIX -, publicado por Valéria Andrade Souto Maior e pode ser acessado clicando aqui.