JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

6 DE MARÇO, DATA MAGNA DE PERNAMBUCO

A República (ou Revolução) Pernambucana de 1817 não se deu apenas em Pernambuco, seu epicentro. O movimento revolucionário abrangeu as regiões de Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. A República ali instaurada em 6 de março de 1817 durou 74 dias, tinha como objetivo obter a independência do Brasil e para isso criaram uma bandeira, um hino e enviaram um embaixador para os EUA em busca do apoio dos americanos.

Mesmo assim a data, considerada magna em Pernambuco com feriado estadual, é praticamente desconhecida em outros estados do País. Ou seja, não é considerada em âmbito nacional. Já a Inconfidência Mineira, ocorrida apenas em Minas em abril de 1792, que foi um movimento logo desbaratado pela corte portuguesa, foi transformado em feriado nacional comemorado com pompa e circunstância em todo o País.

Assim, Pernambuco que teve 2/3 de seu território surrupiado devido as revoluções de 1817 e 1824, com a Confederação do Equador, continua sendo injustiçado e desconhecido como o estado que antecipou em 5 anos a Independência do Brasil. Foi também a primeira província a se desligar de Portugal, em 1821, com a Convenção de Beberibe, antecipando em 11 meses o 7 de setembro de 1822.

Bem sabemos que hoje as comemorações nesta data histórica estão se dando de modo magnífico em Pernambuco. É sua data magna. Porém, se quiséssemos fazer justiça histórica a data deveria merecer um ponto facultativo. Não digo feriado, pois já temos muitos, em todo o território nacional. Poderíamos aproveitar o fato de termos um presidente pernambucano e encaminhar a solicitação deste pleito.

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AS BRASILEIRAS: Lygia Fagundes

Lygia Fagundes da Silva Telles nasceu em São Paulo, SP, em 19/4/1923. Advogada, jornalista, romancista e contista, conhecida como “a Dama da Literatura Brasileira”. Transitou com desenvoltura após o “Modernismo” de 1922, na geração modernista de 1945 até o “Pós-Modernismo” em princípios do século XXI. Trata-se de uma das mais elegantes, expressivas, representativas e profícuas escritoras brasileiras.

Filha de Maria do Rosário S.J. de Moura e Durval de Azevedo Fagundes. Devido a profissão do pai -juiz e promotor público- passou a infância em cidades do interior e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu por 5 anos. De volta a São Paulo, ingressou na Escola Normal Caetano de Campos e tomou gosto pela literatura. Aos 17 anos ingressou na Escola Superior de Educação Física e aos 18 iniciou, em paralelo, o curso de Direito na USP. Fez sua estreia literária com um livro de contos – Porão e sobrado -, publicado em 1938 e foi bem recebido pela crítica. O 2º livro publicado – Praia viva – se deu em 1944, quando já cursava a Faculdade de Direito da USP.

Aí manteve contatos com Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, Hilda Hilst e participou da Academia de Letras da faculdade, colaborando nos jornais Arcádia e A Balança. Em 1946 formou-se advogada e no ano seguinte casou-se com Gofredo Teles Júnior, seu professor. Na época ele era deputado federal e o casal mudou-se para o Rio de Janeiro. Seu 3º livro de contos – O cacto vermelho (1949) – recebeu o Prêmio Afonso Arinos da ABL-Academia Brasileira de Letras. No Rio trabalhou pouco tempo como advogada na Secretaria de Agricultura, mas logo deixou a profissão para dedicar-se a escrever.

Manteve uma coluna de crônicas no jornal A Manhã e pouco depois teve o 1º filho Gofredo da Silva Telles Neto, em 1954. No mesmo ano lançou seu 1º romance: Ciranda de Pedra e, segundo o crítico Antônio Cândido, atinge a maturidade literária. Ela mesma considera este romance como o marco inicial de suas obras e o que ficou para trás “são juvenilidades”. Em agosto de 1954, William Faulkner esteve em São Paulo num encontro com os escritores. Fitando-lhe os olhos, animou-se e elogiou: “Se seus contos forem tão bonitos quanto seus olhos, a senhora certamente é uma grande escritora”.

A partir daí, são frequentes os lançamentos seguidos de premiações literárias: Histórias do desencontro (1958) recebeu o Prêmio do INL-Instituto Nacional do Livro, Verão no Aquário (1963) conquistou o Prêmio Jabuti. Na época, já divorciada, casou-se com Paulo Emílio Sales Gomes e, em pareceria com ele, escreveu o roteiro do filme Capitu (1967), baseado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, agraciado com o Prêmio Candango de melhor roteiro cinematográfico. Na década seguinte ficou consagrada como escritora em âmbito internacional. Antes do Baile Verde (1970), o conto que nomeia o livro, ganhou o 1º prêmio no Concurso Internacional de Escritores, na França; As meninas (1973) recebeu o Prêmio Jabuti; da ABL e da APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte; Seminário dos Ratos (1977) foi premiado pelo PEN Club do Brasil.

As premiações continuam com A disciplina do Amor (1980), Prêmio da APCA; As Horas Nuas (1989) Prêmio Pedro Nava; A Noite Escura e Mais Eu (1995) Prêmio Arthur Azevedo, da Biblioteca Nacional e Prêmio Jabuti; Invenção e Memória (2000) Prêmio Jabuti, Prêmio APCA e “Golfinho de Ouro”; Conspiração de Nuvens (2007) Prêmio APCA. A consagração maior veio com o Prêmio Camões, outorgado pelos governos de Portugal e Brasil, em 2005, pelo conjunto da obra.

Ao todo recebeu 20 prêmios literários; teve seus livros traduzidos para diversos países; integrou as Academias Paulista e Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa. Segundo Clarice Lispector, Lygia é uma das maiores escritoras de contos do País, “inclusive entre os homens”.

Tinha uma nítida concepção de seu papel: “O escritor pode ser louco, mas não enlouquece o leitor, ao contrário, pode até desviá-lo da loucura. O escritor pode ser corrompido, mas não corrompe. Pode ser solitário e triste e ainda assim vai alimentar o sonho daquele que está na solidão”. Algumas de suas obras foram adaptadas para o cinema, teatro e TV. Foi condecorada com a Ordem do Rio Branco; Ordem das Artes e das Letras, pelo governo da França; Ordem do Mérito Docente e Cultural “Gabriela Mistral”, pelo governo do Chile e Ordem do Ipiranga, pelo governo do Estado de São Paulo; Ordem do Infante D. Henrique de Portugal, entre outras condecorações, além do título de Doutora Honoris Causa concedido por diversas universidades. Em 2016 foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores.

Apesar de muitas informações e a própria ABL indicarem seu nascimento em 1923, uma pesquisa realizada pelo genealogista Daniel Taddone revelou que, conforme o registro de nascimento, de batismo e certidão de casamento, informa que ela nasceu em 1918. Faleceu, portanto aos 103 anos e não aos 98, em 3/4/2022. Ainda não temos uma biografia de Lygia, temos apenas diversos verbetes biográficos na Wikipedia. Mas existem alguns livros sobre seu processo criativo: Técnica Narrativa em Lygia Fagundes Telles, de Katia Oliveira, publicado em 1972, pela Editora da UFRGS; A Metamorfose nos Contos de Lygia Fagundes Telles, de Vera Maria T. Silva, em 1985 pela Presença Edições; A Ficção Intertextual de Lygia Fagundes Telles, da mesma autora, em 1992, pela Editora da UFG. Os Cadernos de Literatura Brasileira, do IMS-Instituto Moreira Salles, dedicaram-lhe o nº 5, de novembro de 1998, com um seletivo panorama sobre a escritora e sua obra.

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OS BRASILEIROS: Manoel Bomfim

Manoel José do Bomfim nasceu em 8/8/1868, em Aracaju, SE. Médico, psicólogo, pedagogo, sociólogo, historiador, jornalista e escritor. Devido ao caráter revolucionário de suas obras, ficou no limbo da História durante mais de 50 anos e foi redescoberto por Darcy Ribeiro apenas em 1984. Trata-se de um dos primeiros autores a empregar o termo “América Latina” em seu livro América Latina: males de origem (1905). Mais tarde estudou os males de origem que também afligem o Brasil.

Filho de Maria Joaquina do Bomfim e Paulino José do Bomfim, tradicional família sergipana, teve os primeiros estudos em Aracaju. Aos 18 anos ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, onde estudou por 2 anos e transferiu-se para Rio de Janeiro, concluindo o curso aos 22 anos. Enquanto estudava, colaborou no jornal Correio do Povo, auxiliando Alcindo Guanabara na defesa do regime republicano. Em 1891 ingressou, como médico, na Polícia Militar e no ano seguinte foi promovido a tenente-cirurgião da Brigada Policial do Rio de Janeiro, ocupando o cargo até 1894.

Por essa época, casou-se com Natividade de Oliveira; tiveram 2 filhos; abandonou a Medicina e passou a lecionar na Escola Normal do Rio de Janeiro, onde assumiu a cátedra de Pedagogia e Psicologia. Em 1902 foi mandado a Paris para ver e estudar o funcionamento das escolas. Ficou por lá até 1903, estudou psicologia na Sorbonne e manteve contatos Georges Dumas e Alfred Binet, com quem planejou a instalação do primeiro laboratório de psicologia experimental no Brasil, em 1906, no ”Pedagogium” (museu pedagógico fundado em 1890 e transformado num centro de cultura superior em 1897), do qual foi diretor por 15 anos. De volta ao Brasil em 1905, foi diretor interino da Instrução Pública do Rio de Janeiro e no ano seguinte foi nomeado Diretor Geral.

Em 1907, foi eleito deputado estadual, defendendo importantes projetos educacionais. Sua obra é extensa e variada entre ensaios sobre História, Sociologia, Medicina, Zoologia, Botânica, incluindo alguns livros de Língua Portuguesa em coautoria com Olavo Bilac. No livro Pensar e Dizer: estudo do símbolo no pensamento e na linguagem (1923), demonstra avançado conhecimento da Psicologia de sua época. Publicou uma série de livros relevantes: O methodo dos testes (1926); Cultura do povo brasileiro (1932); Crítica à Escola Activa, O fato psychico, O respeito à criança etc. Sua interpretação do Brasil apoia-se na análise histórica da colonização, na exploração e na espoliação das riquezas do país, analisando as consequências sobre as condições culturais do povo. Mantinha uma veemente defesa e expansão da educação pública como meio para a emancipação e construção de uma sociedade democrática.

Suas concepções de Psicologia, quanto ao método e objetivo, eram destoantes em relação a seus contemporâneos. Considerava o fenômeno psicológico como um fato histórico-social, fruto das relações entre consciências, mediadas pela linguagem, esta entendida como produto e meio da socialização. Assim, antecipou ideias mais tarde adotadas por Vigotski, Piaget, Ernst Bloch entre outros em sua interpretação da sociedade. No entanto, ficou praticamente esquecido na historiografia brasileira, por se contrapor ao pensamento dominante na época.

Manteve uma longa polêmica, pela imprensa, com Sílvio Romero originada como o lançamento do livro América Latina: males de origem (1905). Romero era um intelectual importante, conhecido como o “rei da polêmica”, que defendia o branqueamento da população como uma solução para o “defeito de formação” étnica do brasileiro. Bomfim era um novato audacioso, que defendia a miscigenação, valorizando-a e negando a validade científica das teorias racistas em voga. Via a educação popular como um “remédio” para o atraso do Brasil. No livro O Rebelde Esquecido, lançado pela ed. Topbooks, em 2000, por Ronaldo Conde Aguiar, consta que a polêmica entre os dois rendeu 25 artigos e 400 páginas de injúrias e ataques tendo a vítima revidado uma única vez.

Sua convicção era firme e o pensamento claro: “Vale discutir (…) a célebre teoria das raças inferiores. Que vem a ser esta teoria? Como nasceu ela? A resposta a estas questões nos dirá que tal teoria não passa de um sofisma abjeto do egoísmo humano, hipocritamente mascarado pela ciência barata, e covardemente aplicado à exploração dos fracos pelos fortes”. Visando fundamentar suas convicções, escreveu: O Brasil na América: caracterização da formação brasileira (1929), reeditado pela Ed. Topbooks, em 1997; O Brasil na História: deturpação das tradições, degradação política (1930), reeditado pela Ed. Topbooks em convênio com a PUC/MG, em 2013 e Cultura e educação do povo brasileiro e O Brasil nação: realidade da soberania brasileira, lançados em 1931. Não encontramos uma reedição deste primeiro livro. Porém temos uma boa análise de seu pensamento sobre a educação, publicada no livro Manoel Bomfim, de Rebeca Gontijo, lançado em 2000, pela Fundação Joaquim Nabuco e Editora Massagana, à disposição, bastando clicar aqui. Manoel Bonfim faleceu em 21/4/1932.

Acredita-se que seu apagamento da história por mais de 50 anos, deve-se às suas críticas e por defender as classes populares. Foi “resgatado” por Darcy Ribeiro, que destacou o porquê do desconhecimento do autor: “Teve predecessores, é certo, que cita copiosamente, dos quais se quis fazer herdeiro e continuador. Não teve foi sucessores, porque jamais existiu, de fato, na bibliografia brasileira. A culpa não é de Bomfim, é nossa. Não porque ele fosse adiantado demais, mas sim porque nossos pensadores são servis demais. Entre nós, a cultura não constrói, como em toda parte, pela superposição de tijolos nas paredes de um edifício que se levante coletivamente. Aqui, cada pedreiro está olhando para a casa alheia e só deseja contribuir com seu grão de areia exemplificativo ou seu tijolinho de lisonjas ao pensador estrangeiro que mais o embasbaca”.

Em 2019 o cineasta Carlos Pronzato lançou o documentário Por que não se fala em Manoel Bomfim, realçando a opinião de Darcy Ribeiro. Ainda reiterando esta opinião, temos a biografia O rebelde esquecido: tempo, vida e obra de Manoel Bomfim, lançada em 2000 por Ronaldo Conde Aguiar pela Editora Topbooks. Para ele, Bomfim era “uma voz que ousava dizer o indizível, um pensador que não temia pensar o impensável”. Outra biografia ressalta sua luta contra o racismo: Manoel Bomfim: combate ao racismo, educação popular e democracia racial, de Aluísio Alves filho, lançado em 2008 pela Ed. Expressão Popular.

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AS BRASILEIRAS: Barbara Heliodora II

Heliodora Carneiro de Mendonça nasceu em 29/8/1923, no Rio de Janeiro, RJ. Professora, escritora, tradutora e renomada crítica de teatro, conhecida como Barbara Heliodora, nome adotado em homenagem à inconfidente e esposa do poeta Alvarenga Peixoto. Era temida pelos atores e diretores teatrais, devido ao seu profundo conhecimento desta arte e ao rigor analítico. Foi uma autoridade na obra de Shakespeare, tradução de mais de 30 de suas peças.

Filha de dois destacados intelectuais: A poeta Ana Amélia Mendonça e o historiador Marcos Carneiro de Mendonça. Aos 12 anos ganhou da mãe um volume das obras completas de Shakespeare, que a acompanhou durante toda sua vida. Costumava dizer que o “Bardo inglês” foi um grande bom amigo ao longo dos anos. Aos 16 anos foi morar nos EUA para estudar literatura inglesa e se formou no Connecticut College. De volta ao Brasil, manteve contato com o grupo de teatro O Tablado, onde os amigos vendo sua paixão pela arte, insistiram para que escrevesse sobre o assunto.

Iniciou como crítica teatral do jornal Tribuna da Imprensa, em 1958. Durante 6 anos comandou uma coluna no Jornal do Brasil (1958-1964), onde promoveu uma modernização na crítica teatral, através do Círculo Independente de Críticos Teatrais. Em seguida assumiu a direção do SNT-Serviço Nacional de Teatro, permanecendo no cargo até 1967, imprimindo um sentido cultural e educativo às suas atividades, rompendo com algumas práticas desde a sua criação em 1936. Não obstante o regime imposto pela ditadura militar em 1964, ela pode manifestar em diversas ocasiões seu posicionamento contra sobre qualquer tipo de censura.

Atuou como professora de história do teatro no Conservatório Nacional de Teatro e foi professora titular do Centro de Letras e Artes da Uni-Rio-Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, onde permaneceu até aposentar-se em 1985. Pouco depois ministrou cursos de pós-graduação na USP-Universidade de São Paulo, onde defendeu a tese A expressão dramática do homem político em Shakespeare, em 1975. Mais tarde voltou a exercer a crítica na revista Visão e a lecionar no curso de mestrado na Uni-Rio. Na condição de “polemista inveterada”, publicou diversos artigos nos jornais O Globo e O Estado de São Paulo, na década de 1990.

Deixou publicado algumas relevantes obras: Algumas Reflexões sobre o Teatro Brasileiro (1972), A expressão dramática do homem político em Shakespeare (1978); O teatro barroco (1982); Falando de Shakespeare (1997); Martins Pena: uma introdução (2000); Reflexões shakespearianas (2004); Por que ler Shakespeare (2007) e Caminhos do teatro ocidental (2013). Apaixonada pela obra de Shakespeare, voltou a insistir na importância do autor, no intuito de convencer os leitores, e publicou seu último livro em 2014: Shakespeare: o que as peças contam – Tudo o que você precisa saber para descobrir e amar a obra do maior dramaturgo de todos os tempos.

Foi uma frequentadora assídua do teatro e costumava sentar-se sempre nas primeiras filas para observar melhor o desempenho dos atores. Numa entrevista, pela TV em 2013, disse que já tinha visto mais de 3.500 espetáculos. Para ela “O teatro é um documentário perfeito da história do ocidente. Você lendo as peças vai acompanhar o desenvolvimento do ocidente exatamente. Os autores teatrais acabam refletindo exatamente a história toda”.

No ano seguinte saiu de cena e veio a falecer em 10/4/2015, aos 91 anos. Foi condecorada pelo Ministério da Cultura da França com a “Ordre des Arts e des Lettres” e recebeu a medalha João Ribeiro da Academia Brasileira de Letras. Segundo a pesquisadora Maria Inês Barros de Almeida, há um paradoxo em seu perfil provocado no panorama teatral. Enquanto alguns diretores e autores enxergavam nela uma pessoa rigorosa e durona, “a sua fama como colunista de jornal… a que se dedica com igual intensidade. Estou me referindo à comunicação direta com o público… convivendo com grande número de pessoas e atendendo-lhes à curiosidade e ao desejo de saber. É aí que aparece a Barbara mestra, madrinha dadivosa, flexível, exuberante, que conquista os espíritos e as mentes.

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OS BRASILEIROS: Abdias do Nascimento

Abdias do Nascimento nasceu em 14/3/1914 em Franca, SP. ator, poeta, escritor, dramaturgo, pintor, professor e político, considerado um dos expoentes da cultura negra no Brasil. Foi um destacado ativista dos direitos humanos e líder pioneiro do movimento negro no Brasil e fundador do TEN-Teatro Experimental do Negro, Museu de Arte e Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros.

Filho de Georgina Ferreira do Nascimento, doceira e ama de leite e José Ferreira do Nascimento, sapateiro e violonista, Teve os primeiros em sua cidade natal e concluiu o curso de contabilidade no Ateneu Francano, em 1929. Em seguida mudou-se para o Rio de Janeiro e manteve contatos com um grupo de intelectuais integrantes da AIB-Ação Integralista Brasileira. Segundo seu colega, o poeta Gerardo Melo Mourão, “Abdias se dedicou exclusivamente ao problema da raça negra, da redenção dos negros brasileiros. Dizia que era a missão dele e era realmente uma coisa importante”. Tempos depois, questionado sobre sua participação na AIB, declarou “Dentro do integralismo eu me separava do movimento negro, mantendo assim duas atividades paralelas. Logo que percebi, concretamente, o racismo dentro do integralismo, me desliguei definitivamente desse movimento político”.

Em 1938 concluiu o curso de Economia pela Universidade do Rio de Janeiro e passou a se interessar pelo teatro, levando-o a fundar o TEN-Teatro Experimental do Negro, em 1944. Sua primeira peça – O imperador Jones -, de Eugene O’Neill, foi encenada em maio de 1945.

No ano seguinte, foi o ator principal da peça Otelo, de Shakespeare.

Na mesma época, participou da fundação do PTB-Partido Trabalhista Brasileiro. Na condição de pioneiro do movimento negro, foi um dos organizadores da Convenção Nacional do Negro, realizado por 2 anos no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde propôs à Constituinte de 1946 tipificar a discriminação racial como crime de lesa-pátria. Pouco depois organizou o Congresso do Negro Brasileiro, em 1950, e passou a se interessar pelo estudo das ciências sociais. Ingressou no ISEB-Instituto Superior de Estudos Brasileiros e concluiu o curso de sociologia em 1956.

Por essa época participou da UNE-União Nacional dos Estudantes, mas pouco depois foi alijado do movimento sob a alegação de ter sido um dos integrantes da AIB. Com o golpe militar de 1964 passou a ser perseguido e teve seu nome incluído em vários inquéritos policiais militares. Em 1968, com o recrudescimento do regime, fechou o TEN e exilou-se nos EUA, onde passou a lecionar na School of Drama da Universidade de Yale e Wesleyan Center of the Humanities. No período 1970-1982 lecionou na Universidade de Nova Yorque, chegando a tornar-se professor emérito e diretor do Centro de Pesquisas e Estudos Porto-Riquenhos. Exerceu, também, atividades acadêmicas em outros países e lecionou na Universidade de Ifé, Nigéria, em 1976-1977.

De volta ao Brasil, foi cofundador do Movimento Negro Unificado e fundou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brsileiros, na PUC/SP, em 1981 e atuou como membro do Conselho Deliberativo do Memorial Zumbi, em 1980. No exílio conheceu Leonel Brizola, junto ao qual ajudou a fundar o PDT-Partido Democrático Trabalhista, em maio de 1980, designado como vice-presidente. Em 1983 tornou-se deputado federal e assumiu a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Sua atuação política foi centrada na defesa dos direitos humanos e civis dos negros, identificando o racismo e a discriminação racial como questões nacionais e propondo a criação de uma Comissão do Negro na Câmara.

Batalhou pelo resgate histórico de Zumbi dos Palmares, como herói da Pátria e propôs o feriado nacional no dia 20 de novembro, aniversário de sua morte, como “Dia Nacional da Consciência Negra”. Apresentou projeto de lei estabelecendo mecanismos de compensação para os negros, prevendo a criação de uma cota de 20% de vagas na seleção de candidatos ao serviço público. A proposta incluía incentivos às empresas para a eliminação da discriminação racial e a incorporação ao sistema de ensino de uma imagem positiva da família afro-brasileira, bem como a inclusão no curriculum escolar de uma matéria sobre a história das civilizações africanas e do africano no Brasil.

Suas iniciativas em defesa dos negros foram importantes nas discussões da Assembleia Nacional Constituinte. Com a nova Constituição, promulgada em 1988, o direito brasileiro passou a ser mais bem considerado ao contemplar a natureza pluricultural e multiétnica do País. O racismo tornou-se crime inafiançável e deu-se a demarcação das terras dos remanescentes de quilombos. Teve atuação destacada na Comissão do Centenário da Abolição, em 1988 e seu desdobramento na criação da Fundação Cultural Palmares. Em 1990 foi empossado como suplente do senador Darcy Ribeiro e no ano seguinte, foi designado Secretário Extraordinário para Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras, do Rio de Janeiro, pelo governador Leonel Brizola.

Pouco depois, tomou posse no Senado com a saída de Darcy Ribeiro, que foi comandar o Programa Especial de Educação no governo Brizola. Em 1997, com a morte de Darcy, voltou ao Senado e ao final da legislatura 1995-1999, assumiu a Secretaria de Direitos Humanos e da Cidadania, na administração do governador Anthony Garotinho. Seu empenho no movimento negro rendeu-lhe 2 indicações ao Prêmio Nobel da Paz, em 2004 e 2009, além de diversas homenagens no Brasil e no exterior. Como pintor, teve suas obras expostas em galerias e universidades dos EUA e do Brasil. Faleceu em 23/5/2011, aos 97 anos.

Deixou alguns livros publicados, com destaque para Sortilégio (1957), traduzido para o inglês em 1978; O negro revoltado (1968), reeditado em 1982; Racial democracy in Brazil: myth or reality? (Nigéria, 1972); O genocídio do negro brasileiro (1978), reeditado em 3ª edição pela Ed. Perspectiva em 2016; O quilombismo (1980), reeditado em 2002; Orixás: os deuses vivos da África (edição bilingue, 1995), O Brasil na mira do Pan-Africanismo (2002). Duas biografias dão conta de seu legado: Abdias Nascimento, da jornalista Sônia de Souza Almada, publicada pela Selo Negro Edições, em 2009 e Abdias Nascimento, a luta na política, pela Ed. Perspectiva, em 2012, da norte-americana Elisa Larkin Nascimento, sua última esposa, que ressalta “muito do debate e das políticas públicas que assistimos hoje e que foram implementadas no País devemos à sua atuação parlamentar”. Uma vista panorâmica de sua vida e legado podem ser vistos no link: http://www.abdias.com.br

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AS BRASILEIRAS: Ana Amélia Mendonça

Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça nasceu em 17/8/1896, no Rio de Janeiro. Jornalista, poeta, tradutora, ativista cultural, entusiasta do futebol e uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil. Considerada uma das melhores tradutoras de literatura da sua época, transmitiu o legado a sua filha caçula, a crítica teatral Barbara Heliodora, que assinou a tradução de inúmeras peças de William Shakespeare.

Passou a infância em Itabirito, MG, onde seu pai -José Joaquim de Queiroz Júnior- fundou a primeira usina siderúrgica do Brasil. Foi aí que tomou gosto pelo futebol; traduziu um livro com as regras do jogo; pediu ao pai uma botina para jogar bola; ensinou o esporte aos operários da usina e apitou vários jogos. Como parte da elite da época, não frequentou escola regular. Teve professores particulares estrangeiros, aprendendo inglês, francês e alemão. Em 1911 a família retornou ao Rio de Janeiro e aos 15 anos publicou seu primeiro livro de poesias Esperanças, Recordações de Infância. O livro foi elogiado pelos colunistas literários Barbosa Lima Sobrinho e Austregésilo de Athayde.

Aos 17 anos foi assistir a um jogo do América Futebol Club. No intervalo da partida, aproximou-se da arquibancada para apreciar melhor o goleiro. Foi amor à primeira vista e o casamento deu-se em 1917, quando o goleiro vestia a camisa do Fluminense. Pouco depois Marcos Carneiro de Mendonça tornou-se o primeiro goleiro da Seleção Brasileira de Futebol. Encerrada a carreira de goleiro, tornou-se colecionador de livros e pesquisador especializado no século XVIII. Fundou o CEPH-Centro de Estudos e Pesquisas Históricas e sua biblioteca foi a maior coleção de livros sobre o Brasil do século XVIII. Com um acervo de 11 mil volumes e 7 mil documentos, é hoje um dos destaques da biblioteca da Academia Brasileira de Letras.

O casal foi morar no “Solar dos Abacaxis”, um belo casarão a poucos metros do Largo do Boticário, no bairro Cosme Velho, hoje tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural. Os concorridos saraus promovidos pelo casal atraiam a nata da sociedade carioca. Foi neste ambiente que Ana Amélia fundou, junto com Paschoal Carlos Magno em 1929, a Casa do Estudante do Brasil-CEB. Foi eleita “Rainha dos Estudantes” e presidente da CEB até sua morte, em 31/3/1971.

Como jornalista foi diretora do suplemento feminino do Diário de Notícias e foi colaborou em diversos jornais do Rio de Janeiro: O Globo, O Jornal, A Noite e na Revista O Cruzeiro. Foi a primeira mulher a integrar o Tribunal Superior Eleitoral, fazendo parte da mesa apuradora das eleições de 1934. Foi, também, presidente da Associação Brasileira de Educação e introduziu o tema do futebol na literatura brasileira com a poesia O Salto, publicada no livro Alma. Além de sua atuação na área ramo educacional teve destaque como secretária do Hospital Pró-Matre e vice-presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, na década de 1930, onde atuou ao lado de Bertha Lutz e outras mulheres pelo direito ao voto feminino, conquistado em 1932.

Representou o Brasil, em 1935, no II Congresso Feminista Internacional da Woman League International, realizado em Istambul, em 1935, e foi delegada do Brasil na Comissão Interamericana de Mulheres, entre 1941 e 1943. Foi convidada pelo governo de Israel, em 1964, para representar a mulher brasileira no Congresso Internacional Feminino pela Paz e Desenvolvimento. Publicou alguns livros de poesias: A Harmonia das coisas e dos seres (1936), Versos que eu digo (1937), Mal de amor (1939), Castro Alves, um estudante apenas, 50 poemas de Ana Amélia (1957), Todo mundo (1959) e a publicação póstuma de Quatro pedaços do planeta no tempo do Zeppelin (1976).

Seu arquivo no CPDOC-Centro de Pesquisa e Documentação da FGV-Fundação Getúlio Vargas foi o primeiro a ser organizado e disponibilizado para consulta após a inserção do marcador de gênero da Linha de Acervo da instituição e por apresentar a narrativa da mulher de forma independente da atuação de seu marido. Nesse arquivo ela é a protagonista. Os alunos que estudam hoje na Escola Municipal Ana Amélia Carneiro de Mendonça, em Bangu, talvez não conheçam a mulher que integrou o Conselho Diretor da Associação Brasileira de Educação por mais de 30 anos, pois não temos uma biografia e seu nome caiu na esquecida memória brasileira.

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OS BRASILEIROS: Hermilo Borba Filho

Hermilo Borba Filho nasceu em 8/7/1917, em Palmares, PE. Advogado, crítico literário, escritor, jornalista, tradutor, dramaturgo e diretor teatral. Ingressou no Teatro de Amadores de Pernambuco junto com Ariano Suassuna, com o qual fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco e mais tarde criou o Teatro Popular Nordeste e o Teatro de Arena do Recife. Um expoente destacado no Teatro Brasileiro, na Literatura e na pesquisa da cultura nordestina.

Criado numa tradicional família de usineiros no Engenho Verde na Zona da Mata, teve os primeiros estudos em Palmares e logo mudou-se para o Recife, para estudar na Faculdade de Direito. Tornou-se advogado, mas nunca exerceu a profissão. Já na faculdade tomou gosto pelo teatro e passou a atuar junto com os amigos Valdemar de Oliveira, Ariano Suassuna e Samuel Campelo. Em 1947 iniciou como crítico de teatro com a coluna “Fora de Cena”, publicada na Folha da Manhã, do Recife. Em seguida, mudou-se para São Paulo, onde viveu 5 anos e manteve a crítica teatral nos jornais Última Hora, Correio Paulistano e na revista Visão, além de integrar a Comissão Estadual de Teatro.

Em 1957 foi premiado pela APCT-Associação Paulista de Críticos Teatrais como diretor revelação, com a peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. De volta ao Recife, em 1958, passou a lecionar na Universidade do Recife (atual UFPE) e fundou o TPN-Teatro Popular do Nordeste, em 1960, junto com Ariano Suassuna e outros amigos. Pouco depois criou o Teatro de Arena do Recife junto com Alfredo de Oliveira, trabalhando ao lado de Gastão de Holanda, Capiba, José Carlos Cavalcanti Borges, Aldomar Conrado e Leda Alves. Neste ano encenou peças de Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, Dias Gomes, Osman Lins, Gogol, Ibsen e Max Frish, bem como sua peça O cabo Fanfarrão.

Sua companhia teatral acumulou um déficit permanente, fazendo-o atrair operários e estudantes e manter convênios com entidades do comércio e indústria. Mas não consegue liquidar as dívidas e fecha o teatro de 90 lugares. Numa entrevista, questionado se algum dia ganhou dinheiro com teatro, ele cita a montagem de Dercy Gonçalves para sua versão de A Dama das Camélias como exemplo único, e acrescenta: “mas, de repente, verifiquei que a prostituição era muito pesada, e parei”. No período 1959-1968 foi premiado diversas vezes pela Associação dos Críticos Teatrais de Pernambuco e em 1969 recebeu o título de Chevalier de L’Ordre des Arts et Letres, do governo francês. Por esta época fundou o MCP-Movimento de Cultura Popular junto com Paulo Freire e Ariano Suassuna, entre outros simpatizantes do Partido Comunista, vindo a sofrer perseguição política. Foi autor de 18 peças teatrais e 11 livros entre romances e contos.

Seu primeiro romance – Os caminhos da Solidão – saiu em 1957, pela Editora José Olympio. Como dedicava-se mais ao Teatro, o segundo – Sol das Almas – só veio sair em 1964 pela Ed. Civilização Brasileira. Em 1966 empreendeu a escrita de uma tetralogia – Um Cavalheiro da Segunda Decadência -, publicada pela mesma editora e ficou conhecido em âmbito nacional: (1) Margem das Lembranças (1966); (2) A Porteira do Mundo (1967); (3) O cavalo da Noite (1968); (4) Deus no Pasto (1972). O volume 3 discorre sobre um intelectual nordestino em São Paulo, na década de 1950, numa atribulada vida boêmia. Um livro de cunho memorialístico e autobiográfico, que suscitou uma comparação entre o autor e seu dramaturgo predileto Henry Miller.

Seu legado na área teatral vai além da direção e autoria de peças. Publicou Teatro, arte do povo e reflexões sobre a mise en scène (1947), resultado de 2 palestras; História do Teatro (1950), o primeiro manual de história do teatro editado no Brasil; Teoria e Prática do Teatro (1960); Diálogo do Encenador (1964); Espetáculos Populares do Nordeste e Fisionomia e Espírito do Mamulengo (1966) e nova edição da História do Teatro, com o título História do Espetáculo, em 1968. Seu objetivo foi colocar em prática a fusão ente o popular e o erudito, o mesmo objetivo palmilhado por Ariano Suassuna, com o surgimento do “Movimento Armorial”, em 1970.

Num artigo publicado no Diário de Pernambuco, Benjamin Santos, ex-integrante do TPN, relata algumas características do teatro de Hermilo e conclui: “Mais importante, porém, que todos esses aspectos encontrados é a concretização de uma estética do espetáculo. […] Em resumo, seria um teatro com o canto, a dança, a máscara, o boneco, o bicho… uma recriação do espírito popular nordestino […]; o homem brasileiro posto no palco com toda a sua luta, o sofrimento, a derrota, a insistência, a vitória; um teatro de intensidade emocional e crítica, um teatro vivo, aberto, sem a ilusão da quarta parede, permitindo ao público a compreensão maior de sua própria história. O teatro como um ato político e religioso a um só tempo. Esta é a busca de Hermilo”.

Em meados da década de 1970 teve um abalo na saúde e telefonou para seu amigo José Paulo Cavalcanti Filho, em 26/5/1976. Disse-lhe que iria morrer dentro de uma semana e que precisava falar com ele. José Paulo foi até sua casa e tiveram uma conversa antológica, que deverá ser publicada em livro. A conversa ocorreu numa 4ª feira e Hermilo faleceu na 4ª feira seguinte, em 2/6/1976. José Paulo concluiu que seu amigo “era um homem de palavra”. A Prefeitura de Palmares deu seu nome à Fundação Casa de Cultura da cidade, em 1983. Em seguida a Prefeitura do Recife criou o Centro de Formação das Artes Cênicas Apolo-Hermilo, formado pelo Teatro Hermilo Borba Filho e o Teatro Apolo, em 1988. Uma coletânea de 12 de suas peças foi reeditada e incluída na Coleção Teatro Selecionado, editada pela FUNARTE. Em 2018, no centenário de seu nascimento, o Governo do Estado mudou o nome do “Prêmio Pernambuco de Literatura” para “Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura”.

Sua obra foi analisada no livro Hermilo Borba Filho: fisionomia e espírito de uma literatura, de Sônia Maria Van Dijck Lima, publicado pela Ed. Atual em 1986. Outra oportuna análise sobre o autor e obra encontra-se no livro Hermilo Borba Filho: memória de resistência e resistência da história, publicado por Geralda Medeiros Nóbrega pela Ed. da Universidade Estadual da Paraíba, em 2015.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Nara Leão

Nara Lofego Leão nasceu em 19/1/1942, em Vitória, ES. Jornalista, artista plástica, atriz e principalmente cantora, conhecida como “Musa da Bossa Nova”. Estreou profissionalmente com voz tímida e destemida em 1964, ano do Golpe Militar, e percorreu as décadas seguintes com opinião, conforme o título do espetáculo que a consagrou como cantora e dois de seus discos.

Filha caçula da professora Altina Lofego Leão e do advogado Jairo Leão, se mudou com os pais e a irmã Danuza Leão para o Rio de Janeiro logo no 1º ano. Lá teve os primeiros estudos e manifestou interesse pela música. Ganhou um violão do pai aos 12 anos e teve aulas particulares com o músico Patrício Texeira. Em seguida ingressou numa Academia de Violão, comandada por Carlos Lyra e Roberto Menescal. Aos 15 anos se enturma com outros jovens que mais tarde daria início a um novo ritmo/estilo musical, a “Bossa Nova”. Aos 16 anos contraiu uma hepatite; afasta-se da escola e passa a trabalhar como secretária de redação e repórter do jornal Última Hora.

Pouco antes de completar 18 anos estreou como cantora no show “Segundo comando da operação bossa nova”. Além de cantar, gostava de fazer xilogravura e atuar no teatro. O surgimento da Bossa Nova deu-se em 1959 com o lançamento do disco “Chega de Saudade”, a estreia de João Gilberto. Por essa época namorou com o compositor Ronaldo Bôscoli e mais tarde manteve um relacionamento com o cineasta Ruy Guerra.

No início da década de 1960 encarou a carreira profissional como cantora e em fevereiro de 1964 lançou seu 1º disco, o LP “Nara”. O sucesso foi instantâneo, levando-a a contratação pela gravadora Philips e o lançamento do 2º LP no mesmo ano: “Opinião de Nara”.

Em outubro de 1964, concede uma entrevista para a revista Fatos & Fotos. A matéria foi intitulada “Nara de uma bossa só, demonstrando sua insatisfação com o epiteto “Musa da Bossa Nova”. Ela era mais do que isso. No ano seguinte, é lançado o 3º LP reiterando sua opinião: “Opinião livre de Nara”, marcando sua presença no cenário político adverso instaurado pelo Golpe Militar de 1964. Foi protagonista do espetáculo musical “Opinião”, com João de Valle e Zé Keti, uma crítica social à dura repressão política imposta pela ditadura militar. O espetáculo continua até o ano seguinte, quando foi substituída pela jovem baiana Maria Bethânia em princípio de carreira. Assim, tornou-se consagrada no púbico. Em 1966 foi intérprete da canção A Banda, de Chico Buarque, premiada no Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record.

Segue fazendo turnês pelas principais cidade do Brasil e chegou a comandar um programa na TV Record –“Pra ver a banda passar”- em companhia de Chico Buarque. Em fins de 1967 se casou com o cineasta Cacá Diegues e pouco depois deixam o País devido à ditadura militar, para viver em Paris. O casal teve dois filhos: Isabel e Francisco. Em 1968 aproximou-se do grupo tropicalista e participou da gravação do disco “Tropicália ou Panis et Circenses”, o disco-manifesto do “Movimento Tropicalista. No início da década de 1970 foi considerada a melhor cantora pela APCA-Associação Paulista dos Críticos de Arte.

Das suas interpretações, vale destacar algumas músicas de sucesso: “O barquinho”, ”A Banda” e “Com açúcar e com afeto”, feita a seu pedido por Chico Buarque, a quem homenageou nesse disco homônimo, lançado em 1980. Dos 28 discos lançados, “My foolish heart” foi o último lançado em 1989. Seu coração “tolo” parou de bater devido a um tumor cerebral inoperável, em 7/6/1989, aos 47 anos. A foto que se vê acima, de Frederico Mendes, foi exposta na capa de seu 17º LP – Romance popular – lançado em 1981, com repertório de músicas de compositores nordestinos. É também a capa de sua última biografia – Ninguém pode com Nara Leão: uma biografia -, escrita pelo jornalista Tom Cardoso, lançada em 2021 pela editora Planeta, cujo mérito maior é a fluência da narrativa. O título reproduz uma sentença proferida por Glauber Rocha em carta endereçada do exílio à Cacá Diegues.

A primeira biografia – Nara Leão: uma biografia – (ed. Lumiar), com um texto mais completo, foi lançada em 2001 pelo experiente biógrafo Sérgio Cabral; a segunda – Nara Leão: a musa dos trópicos – saiu em 2009 pela editora do autor Cassio Cavalcanti; a terceira, numa narrativa mais acadêmica envolvendo as circunstâncias de sua época – Nara Leão: trajetória, engajamento e movimentos sociais -, escrita por Daniel Lopes Saraiva, saiu em 2018, pela editora Letra e Voz. Como era de se esperar, a curta vida de Nara Leão não pode ser contada em apenas uma biografia. Uma visão geral e rápida de sua vida e legado podem ser vistos no site oficial: www.naraleao.com.br

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Joaquim Gomes de Souza

Joaquim Gomes de Souza nasceu em Itapecuru-Mirim, MA, em 15/2/1829. Matemático, astrônomo, filósofo e político, conhecido pelo nome “Souzinha”, é uma das figuras mais interessantes e esquecidas da História do Brasil. Para o cientista José Leite Lopes, trata-se do “primeiro vulto matemático do Brasil – e talvez o maior até hoje”.

Filho de Antônia Carneiro de Brito e Souza José Gomes de Souza, proprietário do Solar Gomes de Souza, no centro histórico de São Luís, atual Museu Histórico e Artístico do Maranhão. Realizou os primeiros estudos em São Luís e aos 14 anos foi para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Escola Militar da Corte. Mas não se sentiu vocacionado nesta área. No ano seguinte ingressou na Faculdade de Medicina, aos 15 anos, e encontrou na Física e na Química a motivação para suas pesquisas na área da Matemática. Interrompeu o curso de Medicina no 3º ano e passou a dedicar-se como autodidata ao estudo de Cálculo Diferencial e Integral, Mecânica e Astronomia.

Após o 3º ano deixou o curso de Medicina e voltou à Escola Militar para estudar Matemática. Pediu permissão para realizar “exames vagos” de todos os cursos que faltavam para completar o curso de Ciências Matemáticas e Físicas. Nesse intento ganhou a proteção do senador José Saturnino da Costa Pereira, lente da Escola Militar e graduado em Matemática pela Universidade de Coimbra. Foi aprovado com boas notas em todas as matérias e colou grau de bacharel em 1848.

Ao final do ano, solicitou a defesa pública de uma tese sobre o Modo de indagar novos astros sem auxílio de observações diretas, baseada na “Mecânica Celeste” de Laplace, colando grau de doutor em Ciências Matemáticas, com apenas 19 anos. Em seguida foi aprovado no concurso para professor da Escola Militar, tornando-se tenente-coronel e capitão honorário da Escola. Nos anos seguintes dedicou-se, como autodidata, ao estudo da integração de equações diferenciais parciais, equações integrais, usando séries divergentes, e Física Matemática. Em 1855 viajou à Paris e assistiu diferentes cursos de Matemática na Universidade de Sorbonne, em contato com estudiosos franceses e ingleses.

Teve aulas com August Louis Cauchy, o maior matemático de seu tempo. Certa vez o professor apresentou uma equação não integralizável. Souzinha pediu licença timidamente, pegou o giz e demonstrou na lousa onde, por duas vezes, o sábio Cauchy se enganara, sendo levado a concluir erroneamente pela não integralização da equação. Impressionado, Cauchy cumprimentou-o e tornaram-se amigos. Apresentou na Academie des Sciences de Paris os trabalhos: 1) Memória sobre a determinação das funções incógnitas sob o sinal de integral definida, cujo resumo foi apresentado na Royal Society of London, pelo físico G.G. Stokes; 2) Memória sobre a propagação do som e 3) Memória sobre um teorema de cálculo integral aplicado a Física Matemática.

Na ocasião aproveitou o tempo para concluir o curso de medicina na Faculdade de Medicina de Paris. Mesmo estando na Europa foi designado deputado geral pelo Maranhão e casou-se com a inglesa Rosa Edith, em 1857. Retornou à São Luís para tomar posse na Assembleia Geral do Império, onde defendeu projetos voltados à educação. Em 1858 foi nomeado professor de Matemática e de Ciências Físicas e Naturais da Escola Central, sucessora da Escola Militar, e foi reeleito deputado em 1861. Como cientista Souzinha ficou mais conhecido na Europa do que em seu País.

Assim, a divulgação de seus livros se deu a partir da França: Resolução das equações numéricas (1850); Recueil des memoires d’analise mathematiques (1857); Mélanges du calcul intégral (1889) e teve o resumo de seus trabalhos editados postumamente pela Editora Brockhaus, em Leipzig. Seu interesse pela literatura foi manifestado numa coletânea de poesias publicada também pela Brockhaus, em 1859: Anthologie universelle choix des meilleurs poésies lyriques de divers nations dans les langues originales. O livro de 950 páginas surgiu a partir de um encontro que manteve, na Alemanha, com o romancista maranhense Antônio Gonçalves Dias em meados da década de 1850. A conversa girou em torno do lançamento de uma coletânea poética de alta qualidade.

Nos anos seguintes ocorreram tragédias domésticas: sua esposa faleceu e, 2 anos depois, o filho também. A tragédia atingiu-o com uma tuberculose, A doença foi agravada e veio a falecer em 1/6/1864, em Londres, ainda jovem aos 35 anos. No Maranhão é lembrado com um busto de bronze na Praça do Pantheon, em São Luís; tem seu nome estampado em escolas e logradouros da cidade e é patrono da cadeira nº 8 da Academia Maranhense de letras. Em 1996, a FUJB-Fundação Universitária José Bonifácio (RJ) instituiu o Prêmio Joaquim Gomes de Souza, destinado a contemplar os melhores trabalhos apresentados nas Jornadas de Iniciação Científica, Artística e Cultural da UFRJ. É também um dos patronos da Academia Nacional de Engenharia.

Como biografia contamos com artigos e estudos acadêmicos esparsos e textos de alguns entusiastas motivados pela manutenção de sua memória. Gastão Rúbio de Sá Weyne publicou o livreto Joaquim Gomes de Souza – Souzinha entre o cálculo integral e os poemas universais, por inciativa própria, editado em 2012 pela Scortecci Editora. Outro entusiasta -Ubiratan D’Ambrosio- apresentou o trabalho Joaquim Gomes de Souza, o Souzinha (1829-1864) no 3º Encontro da AFHIC-Associação de Filosofia e História da Ciência do Cone Sul, realizado em Campinas (SP) em 2004. Ele finaliza seu trabalho dizendo que “Um estudo da vida e obras da figura fascinante de Joaquim Gomes de Souza falta na historiografia da matemática brasileira”. Encontramos o verbete “’Souzinha’, o maior matemático da história do Brasil”, no link conhecimento infinito.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Carolina Florence

Carolina Krug Florence nasceu em 21/3/1828, em Kassel, Alemanha. Professora e distinguida pedagoga colaborando na fundação do Colégio Culto à Ciência, em Campinas (SP). Em 1863 fundou sua própria escola, o Colégio Florence com ajuda do marido, o cientista Hércules Florence, um dos inventores da fotografia.
Filha Elizabeth Debus e João Henrique Krug, demonstrava extraordinária capacidade intelectual e interesse pela Literatura e História. Manifestava determinação na escolha profissional e dedicou-se ao magistério. Teve os primeiros estudos na Escola Ruppel e mudou-se para a Suíça, onde ingressou numa escola de moças, o Instituto de Madame Niederer, e foi aluna de um discípulo de Pestalozzi, já famoso na época devido ao seu método inovador. Até os 24 anos, teve diversas oportunidades profissionais.

Em Altona (Suiça), lecionou no Instituto Biernatriski por 3 anos e chegaram a lhe oferecer o cargo de diretora da instituição. Não pôde aceitar devido a viagem que a família empreendeu, em 1852, para o Brasil, motivada pela perseguição política sofrida pelo pai por ser “liberal”. Vieram juntar-se ao seu irmão mais velho, Vice-Cônsul da Suiça na Província de São Paulo. Em 1854 casou-se com Hércules Florence e manteve o sonho de criar uma escola no Brasil nos moldes daquela que frequentou na Europa.

Em 1863 fundou o Colégio Florence voltado para a educação feminina. Uma escola diferenciada, com aplicação do método Pestalozzi. O Colégio ficou conhecido e famoso em pouco tempo e recebeu a visita de Dom Pedro II em duas ocasiões (1875 e 1886) em grandes festividades envolvendo a cidade. Sua história encontra-se registrada no livro – A educação feminina durante o século XIX: o Colégio Florence de Campinas 1963-1889 -, de Arilda Inês Miranda Ribeiro, publicado na Coleção Campiniana, do Centro de Memória da Unicamp, em 2006.

Em 1889, durante a epidemia de febre amarela, que dizimou cerca de dois terços da cidade, transferiu o Colégio para Jundiaí, onde se manteve até 1928. De formação protestante, nunca estimulou o proselitismo no seu Colégio e procurava incentivar o ecumenismo religioso e cultural. Ao contrário dos colégios religiosos em que as alunas tinham, na maioria das vezes, apenas freiras, no Colégio Florence o contato com os professores favorecia uma educação mais voltada para a realidade social. Vale dizer que na época emergia a necessidade da educação feminina, recomendada pelo escritor José Veríssimo. No entanto, em seu livro A educação nacional, (1906) ele deixava claro que “dado serem as mulheres menos inteligentes do que os homens, elas não devem receber instrução em matemática e outras disciplinas científicas.”

O que diferenciava sua escola era o fato de ser um espaço de aprendizagem da vida cultural. Nos internatos religiosos o estímulo à educação se encontrava na assimilação e dogmas, rezas, abnegação, santificação da mulher; enquanto no Colégio Florence, por ser laico, tratava suas alunas como mulheres para viverem no espaço privado e público. Além disso, procurava absorver dos novos métodos que foram surgindo, contribuições para a melhoria do ensino. Permitia assim, que o corpo docente da instituição elaborasse seus programas de ensino livremente. A abertura às ideias que chegavam com novos professores sempre foi bem recebida.

Desde o início, procurou manter um corpo de professores qualificados. Entre os docentes que passaram por lá destacam-se Hercule Florence, Julio Ribeiro, Rangel Pestana, João Kopke, Emílio Giorgetti, Armelina Lamaneres, Leonor Gomes, Ana Krug Kupfer, Augusta e Isabel Florence, entre outros. Viajou várias vezes à Europa para recrutar professores franceses e ingleses. No ano de 1889, com o início da epidemia de febre amarela que deixou a cidade de Campinas em pânico, Carolina foi prudente. Para evitar o pior, fechou temporariamente as portas do Colégio, e mandou as alunas de volta às famílias, evitando que corressem o risco da doença que dizimou cerca de dois terços da população em um ano.

A atitude foi elogiada pela imprensa e serviu de exemplo para que outras instituições tomassem as mesmas medidas. Pouco depois o Colégio reabriu em Jundiaí e continuou nos moldes idealizado por sua fundadora até 1928, quando foi transformado em Escola Normal Livre. Após 33 anos dedicados a educação, decidiu afastar-se da direção, deixando o cargo com as professoras Hermínia Michaelis, Cecília Almeida e Augusta Florence, sua filha. Em 1907 retornou a Europa para tratar da saúde. Foi viver em Florença, onde veio a falecer em abril de 1913, aos 85 anos. Na falta de uma biografia mais completa, seu legado pode ser visto clicando aqui.