JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo nasceu em 6/9/1897, no Rio de Janeiro. Pintor, ilustrador, desenhista, cenógrafo, jornalista, muralista, caricaturista e um dos expoentes da pintura brasileira. Participou da Semana de Arte Moderna, em 1922, e imprimiu um caráter nacional em suas obras ao abordar temas típicos da cultura brasileira, como carnaval, mulatas e figuras populares em cores exuberantes e formas sinuosas.

Filho de Frederico Augusto Cavalcanti de Albuquerque, membro de uma tradicional família pernambucana, e Rosalia de Sena. Pelo lado materno, era sobrinho da esposa de José do Patrocínio, abolicionista do século XIX. Iniciou a carreira como caricaturista, na revista Fon-Fon, em 1914, e mudou-se para São Paulo em 1917, onde ingressou na Faculdade de Direito. Na ocasião, trabalhou como ilustrador de conteúdo e capas para a revista O Pirralho, fez a ilustração do livro Carnaval (1919), de Manuel Bandeira e se entrosou com os artistas e escritores paulistas. A exposição da pintora Anita Malfatti, em 1917, e os contatos com Rubens Borba de Moraes e Sergio Milliet, apresentando-lhe as pinturas de Pablo Picasso, deram-lhe ânimo para retomar o estudo de pintura com o professor alemão Georg Elpons, no Rio de Janeiro. Pouco depois a capital paulista entra num período de efervescência cultural capitaneado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Sergio Milliet etc. dos quais se tornou amigo.

Para ajudá-lo financeiramente, os amigos planejaram uma exposição de suas caricaturas, mas ele sugeriu que no lugar de uma “exposiçãozinha” poderiam fazer um evento maior incluindo outras artes, como música e literatura. Assim, deu-se início a organização da Semana de Arte Moderna, para a qual criou o catálogo e cartaz e expôs algumas de suas obras. No ano seguinte, quando Milliet voltou para a Europa, ele foi junto e arrumou emprego na revista Monde, em Paris. Aí permaneceu até 1925 e frequentou a Académie Ranson. Na condição de jornalista, “sem contar a ninguém que era pintor, entrei em contato com Picasso, Braque, Matisse, Fernand Léger, Jean Cocteau e toda a vanguarda francesa, sempre levado pela mão de Sergio Milliet”. Destes artistas recebeu influências que foram trabalhadas ao seu modo, numa linguagem pessoal.

Tais influências marcam um redirecionamento em sua obra. Passa a adotar uma temática nacionalista ligada a questão social. A tela Samba (1925), considerada sua obra-prima reflete esta tendência. Representa a figura da mulher negra seminua e o samba, ícones da cultura popular brasileira. A influência de Picasso fica evidente no porte volumoso e tratamento dado às mãos e aos pés das figuras. Segundo o crítico Jones Bergamin, este quadro tem um reconhecimento similar ao de Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral e constitui-se numa “das bandeiras da arte brasileira”. Quando retornou ao Brasil, filiou-se ao Partido Comunista em 1928. Retoma com mais afinco sua obra e aprimora seu estilo, influenciado agora pelo expressionismo alemão, com formas simplificadas e curvilíneas em cores quentes, em especial vários tons de vermelho.

Em 1932 fundou em São Paulo, junto com os pintores Flavio de Carvalho e Antonio Gomide, o CAM-Clube dos Artistas Modernos. No mesmo ano foi preso durante a Revolução Constitucionalista e no ano seguinte publicou o álbum A Realidade Brasileira, uma série de 12 desenhos satirizando os militares. Em seguida casou-se com a pintora Noêmia Mourão. Na década de 1940 atinge a maturidade artística e o reconhecimento público no cenário nacional. Adepto da arte figurativa, deu uma conferência no MAM-Museu de Arte Moderna , em 1948, publicada na revista Fundamentos, sob o título Realismo e abstracionismo, defendendo uma arte brasileira e contra o abstracionismo. Por esta época incursiona na arte muralista, sob a influência do mexicano Diego Rivera e produz alguns murais em edifícios de São Paulo. Em 1960 realizou o painel “Candango” na Câmara dos Deputados, em Brasília.

Ao mesmo tempo em que mantinha a carreira artística, participava dos movimentos político-sociais. Foi preso, de novo, em 1936 e libertado por amigos, mudou-se para Paris, onde permaneceu até 1940. Lá recebeu medalha de ouro com a decoração do Pavilhão da Companhia Franco-Brasileira, na Exposição de Arte Técnica. Pouco antes da II Guerra Mundial, retornou ao Brasil, fixando-se em São Paulo. Em seguida passou a expor em Lisboa, México, Buenos Aires e Montevideo e obteve reconhecimento internacional. Participou da I Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em 1951 e recebeu a láurea de melhor pintor na II Bienal, prêmio dividido com Alfredo Volpi. Por essa época fez uma generosa doação de mais de 500 desenhos ao MASP-Museu de Arte de São Paulo.

Em 1954, o MAM-Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro fez uma retrospectiva de suas obras e 2 anos depois participou da Bienal de Veneza. No mesmo ano recebeu o I Prêmio da Mostra Internacional de Arte Sacra de Trieste. Em 1960 criou imagens para a tapeçaria do Palácio da Alvorada e pintou as estações da via sacra, na Catedral de Brasília. No México, ganhou uma sala especial na Bienal Interamericana e foi contemplado com a Medalha de Ouro. Teve sala especial, também, na VII Bienal de São Paulo em 1962. Foi indicado pelo presidente João Goulart para ser adido cultural na França, embarcou para Paris, mas não pode assumir o cargo devido ao Golpe Militar de 1964. Passou a viver em Paris com Ivete Bahia Rocha e lançou uma espécie de autobiografia: Reminiscências líricas de um perfeito carioca.

A década de 1970 foi marcada com diversas exposições retrospectivas, premiações e comendas: Prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Arte; título de doutor honoris causa, da UFBA e teve sua obra Cinco moças de Guaratinguetá, reproduzida em selo postal. Em 1975 recebeu a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique de Portugal. Faleceu em 26/10/1976 e seu funeral foi filmado por Glauber Rocha, constituindo-se no documentário Di-Glauber (1977) em homenagem ao pintor. Principais obras: Pierrete e Pierrot (1924) Samba (1925), Mangue (1929), 5 moças de Guaratinguetá (1930), Músicos (1963) etc.

Em seu centenário, em 1997 foram realizadas exposições comemorativas e retrospectivas: As mulheres de Di, pelo Centro Cultural do Banco do Brasil; Di, meu Brasil brasileiro, pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e Di Cavalcanti, 100 anos, pelo Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado. Três livros, entre tantos outros, dão conta de sua vida, legado e sua contribuição à pintura brasileira: Contando a arte de Di Cavalcanti, de Angela Braga-Torres (Global Editora, 2021); Di Cavalcanti: conquistador de lirismos, de Denise Mattar e Elisabeth Di Cavalcanti (Ed. Capivara, 2016) e A querela do Brasil: a questão da identidade da arte brasileira: a obra de Tarsila, Di Cavalcanti e Portinari: 1922-1945, de Carlos Zilio (Ed. Relume Dumará, 1997).

9 pensou em “OS BRASILEIROS: Di Cavalcanti

  1. MODERNISMO BRASILEIRO
    Neste mês de fevereiro, na comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, estaremos divulgando alguns protagonistas do modernismo brasileiro. Já temos incluído no Memorial: Mario de Andrade, Pagu, Villa Lobos, Victor Brecheret, Tarsila do Amaral, Olivia Penteado, Di Cavalcanti e nas próximas semanas serão incluídos Anita Malfatti e Oswald de Andrade

    • Vejam vocês a que ponto se chega no esquecimento de um nome importante na história. Mesmo já incluído no Memorial, esqueci de citá-lo na nota acima.
      Releve, Mestre Rubens Borba de Morais, um dos mais relevantes e destacados autores e atores de 1922

  2. Caro Brito

    Seus artigos, além de muito esclarecedores, são certamente de muita
    utilidade pública.
    Leva ao conhecimento do público o nome e as ações patrióticas ,dos
    biografados.
    Que turma grandiosa o amigo listou acima.
    Todos são gigantes que colocaram a sua inteligência e cultura para
    melhor honrar o Brasil.

    Dos grandes citados acima, tive a honra de conhecer e participar de
    um evento com o grande Vila Lobos.
    Abraços.

  3. Mestre D. Matt
    é testemunha ocular desse Memorial e tem estimulado sua continuidade com seus comentários e acréscimos à biografia de alguns de seus contemporâneos.
    Villa-Lobos é um deles. Tem e teremos muitos outros.

  4. Mestre Brito,

    Não posso precisar a desimportância na Literatura Brasileiro sem a realização da Semana de Arte Moderna. O que esses caras fizeram pelas artes brasileiras com sua inteligência, sua disposição para romper com o tradicionalismo portuga não está escrito em lugar algum do mundo.

    Eles abalaram os alicerces do traducionalismo.

    Parabéns mais uma vez por abraçar e divulgar essa riqueza literária.

    • A Semana de Arte Moderna foi uma manifestação artístico-cultural que ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo entre os dias 13 a 18 de fevereiro de 1922.

      O evento reuniu diversas apresentações de dança, música, recital de poesias, exposição de obras – pintura e escultura – e palestras.

      Não houvesse acontecido a Semana de Arte Moderna, a cultura brasileira não teria tido o privilégio de conhecer, além do genial Mário de Andrade, nomes hoje conhecidos do grande público, como o escritor Oswald de Andrade, o compositor Heitor Villa-Lobos, o escultor Victor Brecheret e os artistas plásticos Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Vicente do Rego Monteiro, participaram da Semana.

      Rui Castro tem todo o direito de divergir do que representou esse movimento cultural, mas ele não pode apagá-lo da história.

      Isso é fato!

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