JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Casimiro Montenegro

Casimiro Montenegro Filho nasceu em Fortaleza, CE, em 29/10/1904. Militar da Aeronáutica, Marechal-do-Ar, pioneiro do CAN-Correio Aéreo Nacional, criador do ITA-Instituto Tecnológico de Aeronáutica, patrono da Área de Engenharia da FAB-Força Aérea Brasileira e da Academia Nacional de Engenharia e um dos patronos do INCAER-Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica.

Concluiu os primeiros estudos em Fortaleza e mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1923, a fim de tornar-se piloto do Exército. Ingressou na Escola Militar do Realengo e tornou-se Aspirante-a-Oficial do Exército em 1928, integrando a primeira turma da Arma de Aviação Militar da Escola de Aviação Militar, que iniciava no Campo dos Afonsos. Teve destacada atuação na “Revolução de 1930” junto com o brigadeiro Eduardo Gomes, Juarez Távora e Siqueira Campos. Ao atingir o posto de tenente, fez o voo inaugural entre Rio-São Paulo, que resultou na criação do CAN-Correio Aéreo Nacional, em 1931. Em seguida cruzou o País de norte a sul em voos expostos às mais diversas e inseguras condições, aterrissando em campos improvisados e pilotando sem instrumentação de voo.

Em 1938 concluiu o curso de Engenheiro Militar na Escola Técnica do Exército, atual IME-Instituto Militar de Engenharia. Em seguida deu-se a unificação dos serviços de voos da Exército e da Marinha, dando origem ao Ministério da Aeronáutica, em 1941. No novo Ministério, assumiu a Subdiretoria Técnica da Aeronáutica. Tinha em mente uma ideia, aparentemente, óbvia e costumava dizer que “somente seria possível desenvolver uma indústria aeronáutica no Brasil se o país dispusesse de uma escola que proporcionasse formação técnica de alto nível”. Assim, em 1943, viajou para os EUA afim de adquirir um lote de aviões e, com sua ideia de formar engenheiros aeronáuticos, visitou o MIT-Massachusetts Institut of Technology e ficou encantado com sua estrutura educacional. Retornou ao Brasil disposto a criar algo semelhante num país sem condições de fabricar até bicicletas.

Claro que a ideia de projetar e fabricar aviões pareceram excêntricas demais aos olhos dos colegas. Mal sabiam que ele contava com a ajuda de um contato feito nos EUA: o prof. Richard Herbert Smith, chefe do Departamento de Engenharia do MIT. Em 1945 reuniu um grupo de oficiais da Aeronáutica no local, que viria a ser um campus universitário, e apresentou seu projeto: “Aqui construiremos o túnel aerodinâmico, mais à direita o laboratório de motores, ali a área residencial: casas e apartamentos para os professores, oficiais e pessoal da administração e alojamento para os alunos. Ali à esquerda, os edifícios escolares e laboratórios. Aqui será o futuro aeroporto. Esta área está reservada para a indústria aeronáutica. Tudo isto constituirá o Centro Técnico da Aeronáutica.” Ao concluir a apresentação, verificou que a plateia havia sumido. Um dos oficiais que permaneceu no local, despediu-se gracejando da megalomania do projetista: “Até a vista, Júlio Verne!”.

Na década seguinte o sonho do piloto visionário começou a se concretizar e pouco depois estava criado o ITA-Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em 1950. Com instalações adequadas, bons professores inicialmente trazidos do exterior e residindo no próprio campus junto aos alunos, criou-se uma escola de engenharia de alto nível no País. Sua função não era apenas ensinar bem, mas também educar, o que não era assumido pelos cursos universitários brasileiros. Alguns itens constantes do ensino “Iteano”: cumprimento rigoroso do calendário de ensino, as aulas não dadas têm que ser repostas; diversificação dos professores não apenas na formação profissional, mas também na nacionalidade com muitos professores estrangeiros; currículo composto de matérias não técnicas (humanidades); professor e aluno morando próximos, possibilitando encontros fora das salas de aula.

Porém o atributo educacional que mais diferencia o ITA de outras universidades é a chamada “disciplina consciente”, que implica na realização honesta de todos os trabalhos escolares. A “cola” comprovada é punida com severidade, a expulsão do aluno. Em 1950, o Reitor Joseph Morgan Stokes delegou esta função aos alunos através do Centro Acadêmico, que para isso criou o Departamento de Ordem e Orientação. Ou seja, os vigilantes desse processo eram os próprios alunos, que identificavam o transgressor, julgavam e propunham a penalidade. Ao reitor cabia apenas a execução. Outra inovação relevante se deu com a pós-graduação, em 1961. Através de convênio mantido com a Universidade de Michigan, foi adotado o modelo de pós-graduação vigente nos EUA, com poucas alterações, que teve grande repercussão Brasil. No ano seguinte, a COOPE-Coordenadoria de Pós-Graduação em Engenharia, da UFRJ, seguiu o ITA e ambas influenciaram o Conselho Nacional de Educação, com sua resolução de 1965, que alterou toda a pós-graduação brasileira.

Na sequência, outro visionário, o engº Ozires Silva, entra em cena e cria o primeiro avião usado nas linhas regionais, denominado “Bandeirante” (1968). No ano seguinte foi criada a EMBRAER-Empresa Brasileira de Aeronáutica, tornando-se a 3ª maior fabricante de aviões do mundo. Junto com Santos Dumont e Ozires Silva, Casimiro integra o que vem sendo chamado de “Santissima Trindade da Aviação Brasileira” e já foi homenageado em diversas ocasiões, contando com sua estátua no Campus do ITA, que lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa. Em 1975 recebeu o mesmo título da Unicamp-Universidade Estadual de Campinas e em 1981 foi agraciado com o “Prêmio Anísio Teixeira”, a mais prestigiada comenda dirigida aos grandes educadores brasileiros. Faleceu 26/2/2000, aos 95 anos, e foi sepultado na Cripta dos Aviadores do Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Pouco depois foi aclamado “Patrono da Engenharia da Aeronáutica”, por Decreto Presidencial, de 28/6/2000.

Duas biografias dão conta de sua trajetória, além de alguns textos na Internet: Montenegro: as aventuras do Marechal que fez uma revolução nos céus do Brasil, de Fernando de Morais, publicada em 2006 e Marechal Montenegro, criador do ITA e do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), de seus amigos Ozires Silva e Decio Josué Antonio Fischetti, publicada em 2006. Há um consenso em se afirmar que “se a indústria aeronáutica é o que é, hoje, em termos mundiais, isso começou com o ITA e com o antigo CTA, com a criação do Bandeirante”, aproveitando o nome que os paulistas deram aos desbravadores do interior do Brasil. Em 2020, o ITA fez 70 anos e realizou uma exposição virtual – “Asas para que te quero”, mostrando as diversas áreas da instituição e relato de sua história. Vale a pena dar uma olhada: Mostra #VicentinaNaSuaCasa on Behance

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Dorina Nowill

Dorina de Gouvêa Nowill nasceu em 28/5/1919, em São Paulo, SP. Professora, administradora, filantropa e pioneira da educação e inclusão social das pessoas com deficiência visual. Criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, em 1946, com a implantação da imprensa Braille, constituindo-se numa das maiores gráficas no gênero do mundo.

Ficou cega aos 17 anos; foi a primeira aluna a frequentar um curso regular e conseguiu a matrícula de outra colega cega na Escola Normal Caetano de Campos, onde se formou professora em 1945. Na ocasião, junto com outras colegas, desenvolveu um projeto dirigido a formação de crianças cegas. Visando aprimorar o projeto, realizou curso de especialização em educação de cegos no Teacher’s College, da Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Lá conheceu Edward Huber Alexander, com quem se casou em 1950. De volta ao Brasil, fundou a FLCB-Fundação para o Livro do Cego no Brasil.

Nos EUA, manteve reunião com as diretorias da Kellog’s Foundation e American Foundation for Overseas Blind. Expôs o problema da falta de livros em Braille para cegos e a necessidade de se conseguir uma imprensa para a Fundação recém-criada no Brasil. Em 1948, a Fundação recebeu uma imprensa Braille completa. 43 anos depois, a FLCB passou a se chamar Fundação Dorina Nowill. Dizem que hoje não há uma só pessoa cega alfabetizada no Brasil que não tenha tido em mãos pelo menos um livro em Braille produzido pela Fundação. Trata-se de uma das maiores imprensa Braille do mundo em capacidade produtiva, com produção em larga escala. A Fundação distribui gratuitamente livros em Braille para mais de 2500 escolas e organizações que atendem ao público com deficiência visual. Além da imprensa Braille, mantém livros em áudio e em formato digital.

Em 1954, ela conseguiu que o Conselho Mundial para o Bem-Estar do Cego se reunisse no Brasil, em conjunto com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia e a Associação Panamericana de Saúde. Tais reuniões serviram de plataforma para lançamento de um movimento junto aos órgãos públicos visando a inclusão escolar das crianças cegas. O passo seguinte foi a elaboração da lei de integração escolar, regulamentada em 1956. Em seguida, dirigiu a “Campanha Nacional de Educação de Cegos” do MEC-Ministério da Educação e Cultura, no período 1961-1973. Em sua gestão foram criados serviços de educação de cegos em todos os estados do Brasil.

Em 1979 foi eleita presidente do Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos e sua luta pela inclusão da pessoa cega não se deu apenas na educação. Lutou também pela abertura e encaminhamento destas pessoas no mercado de trabalho. Em 1982, na Conferência da OIT-Organização Internacional do Trabalho, conseguiu que a “Recomendação 99”, que trata sobre a reabilitação profissional, fosse rediscutida. No ano seguinte, a Conferência com o apoio dos representantes do governo brasileiro, dos empresários e dos trabalhadores, votou a favor da proposta do Conselho Mundial para o Bem-Estar do Cego, pela aprovação da “Convenção 159” e da “Recomendação 168”, da OIT, convocando os Estados membros a cumprirem o acordo, oferecendo programas de reabilitação, treinamento e emprego para as pessoas com deficiência.

Na década de 1990 foi reconhecida como pioneira na luta pela inclusão da pessoa cega e a FLCB passa a se chamar “Fundação Dorina Nowill”, em 1991. Publicou sua autobiografia –“… E eu venci assim mesmo”, em 1996, traduzida para o espanhol e distribuída em toda a Europa e América Latina. A partir daí foi homenageada em diversas ocasiões, incluindo seu nome dado por Mauricio de Souza à personagem com deficiência visual –“Dorinha”- da Turma da Mônica, em 2004, uma homenagem que deixou-a sensibilizada. Em 2009, ano do centenário de Louis Braille, inventor do sistema Braille, realizou palestras em diversas instituições e foi incluída entre “Os 100 brasileiros mais influentes de 2009”, numa enquete realizada pela revista “Época”. Foi a última homenagem que recebeu em vida. Faleceu em 29/8/2010.

As homenagens prosseguem em 2011, quando o jornalista Luiz Roberto de Souza Queiroz tratou de documentar sua trajetória e lançou o livro Dorina Nowill: um relato da luta pela inclusão social dos cegos. Continua em 2013, com o Senado Federal homenageando-a com a criação da Comenda “Dorina Nowill”, entregue anualmente a personalidades destacadas na defesa das pessoas com deficiência no Brasil. Atualmente, é mantida na Internet a “Dorinateca”, uma biblioteca digital online, da Fundação Dorina Nowill, disponível no site dorinateca.org.br.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Victor Brecheret

Vittorio Brecheret nasceu em Farnese, Itália, em 15/12/1894. Escultor expoente do Modernismo no Brasil, tem diversas obras instaladas em logradouros de São Paulo, dentre as quais o “Monumento às Bandeiras”, no Ibirapuera. Considerado um dos principais artistas de vanguarda, nunca abandonou a formação clássica, ligada à arte greco-romana e renascentista e fez uso de diferentes técnicas de escultura, do mármore à terracota.

Ao perder a mãe aos 6 anos, foi criado pelo tio materno Enrico Nanni, cuja família emigrou para o Brasil quando o garoto tinha 9 anos. Só aos 30 e poucos anos é que recorreu à Justiça para inscrever seu registro de nascimento. Assim, consolidou sua nacionalidade brasileira. Quando criança, trabalhava e estudava, mas não se interessava pelos estudos. Era tímido, retraído e passava horas brincando com barro modelando figuras. Vendo seu interesse na modelação com barro, a Tia estimulou-o a se matricular no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, em 1912. Observando seu talento, os professores do Liceu incentivam-no e estudar em Roma, polo da escultura europeia.

Em 1914, através da Maçonaria, tornou-se auxiliar do escultor Arturo Dazzi, prestigiado artista que trabalhava para o rei Vittorio Emanuelle III. Ali aprendeu técnicas da tradição mesclando o clássico (Michelangelo) e o naturalismo com Auguste Rodin. Também conheceu o escultor Ivan Mestrovic, de quem sofreu influência com sua linguagem dramática e heroica. Em Roma participou de algumas mostras coletivas e foi elogiado pela crítica. Junto ao mestre Dazzi, não gostou das lições de anatomia com a dissecação de humanos e animais e abriu seu próprio ateliê, aos 22 anos, e passou a viver dizendo-se sul-americano para não ser convocado para a I Guerra Mundial. De volta ao Brasil, em 1919, reencontrou os amigos no Liceu e o novo diretor Ramos de Azevedo, que conseguiu-lhe um ateliê no Palácio das Indústrias.

Após um ano de enorme produção, foi descoberto pelos críticos e artistas modernistas, que viram em sua obra algo de novo, totalmente diferente do que existia na cena paulista. Aos poucos e em contatos com Di Cavalcanti, Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia, foi se integrando ao métier artístico até tornar-se o mestre da escultura do movimento modernista brasileiro, em 1922. Antes disso e já conceituado como escultor, recebeu a incumbência de realizar a maquete para o Monumento às Bandeira, evocando a saga dos bandeirantes, sua maior obra. Por motivos politicos, a obra só foi inaugurada 33 anos depois, na comemoração do IV Centenário da Cidade, em 1954, um ano antes de seu falecimento em 17/12/1955.

Em 1921 ganhou uma bolsa do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo e viaja para Paris, onde viveu por 5 anos. Mesmo ausente da Semana de Arte Moderna, participou do evento com 12 esculturas, dentre as quais a famosa “Cabeça de Cristo”, mais conhecida como “Cristo de trancinhas”, que foi adquirida por Mario de Andrade. Em Paris aprofundou sua arte ao fundir 3 fontes: ênfase no volume geométrico, tratamento sintético da forma, dado pelo escultor Constantin Brancusi e estilização elegante do “art-déco”. A partir daí passou a se utilizar de formas lineares e simplificadas de cunho ornamental evocando um clima de grande serenidade. Sua vivência em Paris, foi ntensificada a partir de 1923, com chegada de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfati, que introduziu-o no circuito das artes, conhecendo Blaise Cendrars e os cubistas André Lhote e Léger. A partir dessa época manteve a carreira vivendo entre Paris e São Paulo, em diversas exposições.

Após 15 anos em Paris, se estabeleceu em São Paulo, realizando encomendas de esculturas públicas e trabalhos religiosos. Em 1932 fundou, junto com outros artistas, a SPAM-Sociedade Pró-Arte Moderna e passa a cultivar temas ligados à cultura indigena em esculturas de bronze ou terracota. Na ocasião, retoma sua maior obra, o Monumento às Bandeiras. Pouco depois, retornou à Paris para destativar seu ateliê e se despedir de sua namorada, que foi contra o retorno ao Brasil, pois já era famoso por lá. Em 1938 casou-se com Jurandy Helena, retratada em diversas esculturas, e teve 3 filhos. Em 1941 deu-se o concurso internacional de maquetes para homenagear Duque de Caxias. Ele venceu o concurso, entre 30 concorrentes, e a estátua de 48 metros de altura –o duque em bronze montado num cavalo sob um um pedestal de granito- foi instalada na praça Princesa Isabel, centro da cidade. Dizem que é o maior monumento equestre do mundo. Ou seja, suas duas maiores obras estão expostas em São Paulo.

Além destas grandes obras, existem outras de tamanho médio expostas noutros logradouros da cidade: Carregadora de perfumes, no Parque da Luz; Musa Impassível, na Pinacoteca do Estado; Fauno, no Parque Trianon; Graças, na Galeria Prestes Maia; Eva, no Centro Cultural São Paulo; Depois do banho, no Largo do Arouche, entre outras. Em sua fase final ampliou o interesse em representar temas indígenas na busca de uma identidade nacional. A obra O Índio e a Suaçuapara recebeu o primeiro Prêmio de Escultura Nacionnal da I Bienal de São Paulo, em 1951. Outra vertente enfocada nesta fase foi a escultura de santos, particularmente São Francisco (São Francisco e as Pombas, São Francisco com Boizinho, São Francisco com Jumento), incluindo a Cabeça de São Francisco, sua última obra.

Boa parte destas obras encontram-se hoje em coleções particulares e algumas em túmulos de cemitérios e igrejas centrais de São Paulo. Assim, tornou-se também mestre na “arte funerária”. Em 2007 foi realizada uma grande exposição de suas obras no Centro Cultural da Caixa Econõmica, em São Paulo. Uma visão completa de seu legado e obras podem ser vistas na Fundação Victor Brecheret, criado por sua filha Sandra Brecheret, através do site Fundação Escultor Victor Brecheret, onde consta uma entrevista com o escultor, realizada em 1953.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Rita Lobato

Rita Lobato Velho Lopes nasceu em Rio Grande, RS, em 9/6/1866. Médica, política e uma das pioneiras do movimento feminista brasileiro. Considerada a primeira mulher médica formada no Brasil e a segunda a obter êxito acadêmico na América do Sul. Aos 17 anos, vendo a morte da mãe no parto do 14º filho, firmou a promessa de se tornar médica obstetra, enfrentando os obstáculos da época em tal empreitada.

Filha de Rita Carolina Velho Lopes e Francisco Lobato Lopes, rico estancieiro e comerciante de charque gaúcho, viveu e teve os primeiros estudos em diversas estâncias perto de Pelotas. Perseguindo o sonho de se tornar médica, a familia mudou-se para o Rio de Janeiro em 1884, onde ela e o irmão entraram na Faculdade de Medicina. No 1º ano do curso, seu irmão teve problemas com a Reitoria, devido a discordâncias sobre a Reforma Felipe Franco de Sá, que alterava o regulamento da escola e outras medidas que alguns alunos julgaram prejudiciais. Afim de evitar retaliações contra os filhos, a família mudou-se para Salvador, onde ela e o irmão ingressaram no 2º ano do curso de medicina, em 1885.

O entrosamento com os professores e seu empenho nos estudos possibilitou que requeresse adiantamento dos exames e fosse aprovada, conforme a norma da faculdade. Estudando incessantemente, conseguiu matrícula no 3º ano do curso em março de 1886. Um novo pedido de adiantamento, permitiu-lhe ingressar no 4º ano do curso, em julho do mesmo ano. Em outubro a aluna prodígio fez mais um pedido de adiantamento e realizou as provas que a levaram ao 5º ano. Fez uma pausa, passou 5 meses viajando pelo interior da Bahia e retornou ao curso, que foi concluído em menos de 3 meses, em outrubro de 1887, aos 21 anos. Um fenômeno em termos de capacidade realçado pelo fato de ser mulher. O curso de medicina, com duração de 6 anos foi realizado em 3 anos.

Com boas notas em todas as disciplinas, apresentou o trabalho de conclusão do curso, num auditório lotado, e foi aprovada em novembro de 1987 com a tese “Paralelo entre os métodos preconizados na operação cesariana”. No mês seguinte, na cerimônia de formatura, conquistou o título de 1ª mulher médica do Brasil. Na época subverteu o sistema dominante onde o pudor imperava em detrimento da saúde e quando começou a atender, muitas mulheres que se recusavam a ser examinadas por médicos passaram a frequentar seu consultório instalado em Porto Alegre. Em 1889 casou-se com Antonio Maria Amaro de Freitas, um namorado da adolescência, que ficou esperando a conclusão do curso. A partir daí passou a atender a clientela em sua própria casa.

Com o nascimento da primeira e única filha, o casal passou a viver na Estância de Capivari e no ano seguinte realizaram uma viagem pela Europa. Tempos depois, em 1910, e com a família consolidada, passou 5 meses fazendo cursos em Buenos Aires, atualizando-se em novas descobertas na área médica e fazendo estágios em hospitais. De volta ao Brasil, passou a atender a clientela na região de Capivari, Rio Pardo e arredores. Em 1925, logo após o casamento da filha, decidiu encerrar a carreira médica, apossentando-se aos 59 anos. No ano seguinte, dá-se o falecimento de marido. Após o período de luto, vivendo sozinha, abraçou a causa da descriminação da mulher e passou a defender seu direito ao voto, uma luta que vinha sendo travada pela bióloga Bertha Lutz.

Nesta nova fase, participou do incipiente movimento feminista, com artigos na imprensa e organização politica. Assim, testemunhou algumas vitórias, como a conquista do “Código Eleitoral de 1932”, que permitiu o voto feminino e a eleição da médica Carlota Pereira de Queiroz como Deputada Federal. Como militante da causa feminista, filiou-se ao Partido Libertador e foi eleita vereadora de Rio Pardo em 1934. Assim, a 1ª médica formada no Brasil tornou-se também a 1ª vereadora gaúcha. Com o golpe getulista de 1937 e a ascensão do Estado Novo, seu mandato foi interrmpido. Porém, não deixou de participar da politica, mesmo após o acidente vascular cerebral, que sofreu aos 73 anos, em 1940.

Nos últimos anos de vida, perdeu parcialmente a visão e audição, mas manteve-se lúcida e ativa até 6/1/1954, quando veio a falecer aos 93 anos. Além de alguns logradouros de Porto Alegre, que receberam seu nome, foi homenageada com um selo postal dos Correios, em 9/6/1967, no dia do 1º centenário. O selo postal é um importante documento; é um registro “oficial”; uma boa homenagem, mas falta uma biografia mais detalhada de sua trajetória. Navegando pela Internet, encontrei apenas alguns verbetes que serviram para a costura desta biografia concisa.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Antônio Candido

Antônio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro, em 24/7/1918. Sociólogo, professor, escritor, político, crítico literário e estudioso da literatura brasileira, é uma das principais referências do País na área da cultura e um dos pensadores sobre a formação do Brasil ao lado de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes chamados de “intérpretes do Brasil”.

Filho do médico Aristides Candido de Mello e Souza, seus primeiros estudos se deram em casa, com a mãe, Clarisse Tolentino de Mello e Souza. Concluiu o ensino secundário em 1935, no Ginásio Estadual de São João da Boa Vista, SP. Iniciou a formação acadêmica na Faculdade de Direito e Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP, em 1939. A primeira foi abandonada no 5º ano e formou-se em Ciências Sociais em 1942. A carreira de crítico literário teve início na revista “Clima”, em princípios da década de 1940, junto com um grupo de destacados amigos: Paulo Emilio Salles Gomes, Alfredo Mesquita, Décio de Almeida Prado, Gilda Rocha de Mello e Souza, com quem veio a se casar, dentre outros.

Iniciou a carreira de professor em 1942, na USP, como assistente do prof. Fernando de Azevedo, de quem era também assistente Florestan Fernandes. No ano seguinte, passou a colaborar com o jornal Folha da Manhã, com artigos sobre escritores que despontavam, tais como João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Em 1945, obteve o título de livre-docente com a tese “Introdução ao método crítico de Silvio Romero”. O título de doutor em Ciências Sociais veio em 1954 com a tese “Parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida”, um de seus destacados livros, publicado em 1964. Trata-se de uma obra considerada até hoje como um marco nos estudos brasileiros sobre sociedades tradicionais.

As carreiras de crítico e professor foram intercaladas com a militância política, iniciando com o Grupo Radical de Ação Popular, em princípios da década de 1940. Por essa época, participou da criação do jornal clandestino “Resistência”, para combater a ditadura de Getúlio Vargas. Em seguida, o grupo cria a União Democrática Socialista (UDS), que pouco depois adere à esquerda democrática, para formar o Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 1947. Aí permaneceu até 1954 e foi dirigente da seção paulista. Consolidando a carreira de crítico, criou o Suplemento Literário, encartado aos domingos no jornal O Estado de São Paulo, junto com os amigos Paulo Emilio Salles Gomes e Wilson Martins. Durante muitos anos, o suplemento dominical foi visto como o principal veículo do pensamento crítico brasileiro.

Sua obra-prima, Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, lançada em 1959, consiste num apurado estudo da produção literária nacional. Para isso, utiliza-se de um método amplamente empregado mais tarde: a dialética, que envolve uma visão inter e transdisciplinar, que entende a literatura como uma das expressões da nossa cultura e objeto de estudos das Ciências Sociais. Segundo o autor, “o livro constitui uma história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”. Pode-se dizer, também, que é uma história de brasileiras e brasileiros em “seu desejo de ter uma nação”. Vem daí a sua inclusão entre os autores “intérpretes do Brasil”.

No período de 1964-1966, quando o Brasil ficou inabitável para qualquer intelectual avesso ao Golpe Militar de 1964, foi dar aulas de literatura brasileira na Universidade de Paris. Em 1968, no auge da ditadura, lecionou literatura comparada na Universidade de Yale, nos EUA. De volta ao Brasil, retoma sua cadeira na USP e, a partir de 1974, torna-se professor-titular de Teoria Literária e introduz o estudo da Literatura Comparada na grade curricular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. No cargo, foi responsável pela formação de destacados nomes: Antônio L. de Almeida Prado, Fernando Henrique Cardoso, Roberto Schwarz, Davi Arrigucci Jr., Walnice Nogueira Galvão, João Luiz Lafetá, Antônio Arnoni Prado e Antônio Cagnin entre outros.

Aposentou-se em 1978, mas permaneceu ligado à pós-graduação, orientando trabalhos acadêmicos até 1992, quando orientou a última tese, a do crítico mexicano Jorge Ruedas de la Serna. Permaneceu como crítico atuante na área literária e na política. Em 1980, ao lado de outros intelectuais, como Sergio Buarque de Holanda, participou da criação do Partido dos Trabalhadores (PT). Para ele, no sistema capitalista “não havia face humana nenhuma” e a redução da desigualdade social é fruto das lutas do socialismo, a exemplo de direitos trabalhistas, como as férias e a jornada de 8 horas de trabalho. Em sua opinião, o socialismo seria a possibilidade de almejar a equidade. Explicava: “Por exemplo, sou um professor aposentado da USP e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode”.

Foi agraciado com grandes premiações literárias, como o Prêmio Camões, em 1998, e o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, no México, em 2005. Foi contemplado também com o Prêmio Jabuti em 4 ocasiões: 1960, 1965, 1966 e 1993; Prêmio Juca Pato (2007); e Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (1993). Em 2005, sofreu um abalo com a morte de sua esposa, Gilda de Mello e Souza, também professora da USP, e passou a viver mais recluso, distante da vida social e acadêmica, porém sempre procurado por alunos e instituições. Faleceu em 12/5/2017.

Antônio Candido deixa um considerável acervo de obras essenciais, com destaque, além das citadas, para: Tese e antítese: ensaios (1964); Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária (1965); Na sala de aula: caderno de análise literária (1985); O estudo analítico do poema (1987); O discurso e a cidade (1993); Iniciação à literatura brasileira – Resumo para principiantes (1997); O Romantismo no Brasil (2002) e outros livros em parceria. Em termos biográficos, expondo seu legado, temos: Antônio Candido: pensamento e militância (1999), de Flavio Aguiar; Antônio Candido y los estúdios latinoamericanos (2002), de Raúl Antelo; História e literatura: homenagem a Antônio Candido (1999), de Jorge Ruedas de la Serna; A formação de Antonio Candido: uma biografia ilustrada (2020), de sua filha Ana Luiza Escorel. Uma síntese biográfica pode ser vista na homenagem que lhe foi prestada pelo Jornal da USP, em 2017. Clique aqui para acessar.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Pérola Byington

Pérola Ellis Byington nasceu em 3/12/1879, em Santa Bárbara do Oeste, SP. Professora, ativista social e filantropa. Integrante da Cruz Vermelha, nos EUA, e pioneira em sua instalação no Brasil, com a fundação da Cruzada Pró-Infância na década de 1930, transformada em hospital em 1959. Pouco depois o hospital recebeu o nome “Pérola Byington”, centro de referência da saúde da mulher, na capital de São Paulo.

Filha de imigrantes norte-americanos, casou-se em 1901 com Alberto Jackson Byington, precursor da indústria no Brasil. Durante a 1ª Guerra Mundial estava nos EUA e foi responsável por uma seção da Cruz Vermelha. De volta ao Brasil liderou, junto com Maria Antonieta de Castro, uma campanha de combate à mortalidade infantil. É importante ressaltar que as duas rezavam em catecismos diferentes e que naquela época protestantes (Pérola) e católicos (Maria) não se bicavam bem. No entanto, deixaram as divergências religiosas de lado para trabalhar em conjunto, guiadas por seus princípios sociais.

Pérola, morando num casarão da Av. Paulista, perguntava-se: “O que esperar de um país onde as crianças morrem ao nascer?”. Este foi o mote de seu trabalho iniciado em sua casa, em bases sólidas e que resultou na fundação de uma das maiores instituições de assistência social, que recebeu o nome de “cruzada’, dada as dificuldades e empenho na sua realização. Pouco depois conseguiu instalar um hospital dedicado às mulheres e crianças: O Hospital da Cruzada Pró-Infância, em 1959.

Em 1932, na Revolução Constitucionalista, a Cruzada teve relevante participação com a confecção de ataduras, roupas para os soldados e assistência às suas famílias. Seu trabalho não se restringia ao aspecto caritativo. Batalhou pela igualdade de direitos iguais entre homens e mulheres; lutou pelo direito do voto feminino; foi a primeira pessoa a apresentar projeto sobre a necessidade da educação sexual nas escolas e foi responsável pela institucionalização do “Dia da Criança” não como uma data criada para a venda de brinquedos, mas como um dia para celebrar o direito das crianças no Brasil. No período 1930-1960 ficou conhecida como uma das mulheres mais importantes em São Paulo e, talvez, no Brasil.

Em 1963 reuniu amigos e colaboradores para anunciar uma viagem aos EUA para conhecer os bisnetos e rever os netos, filhos de Elizabeth Byington, sua filha que lá vivia. Brincando com os netos, sofreu uma queda e veio a falecer em 6/11/1963. No mesmo ano foi homenageada com seu nome dado ao Hospital da Cruzada Pró-Infância. A partir daí as homenagens foram se multiplicado. Em sua cidade natal uma das avenidas recebeu seu nome e em 2016, a Câmara Municipal criou o “Diploma Pérola Byington”, concedido anualmente às pessoas que exercem o serviço voluntário, pelo menos, por 2 anos em Santa Bárbara do Oeste.

No Paraná, um distrito do município de Xambrê foi elevado a categoria de cidade e recebeu o nome Pérola, onde localizava-se a Companhia Byington de Colonização Ltda. Em Campinas, nomeou o 64º Grupo de Escoteiros do Brasil. Para familiarizar os leitores com seus descendentes, dona Pérola é bisavó da atriz Bianca Byington e da cantora Olivia Byington, mãe do ator e escritor Gregório Duvivier. Sua neta Maria Elisa Botelho Byington declarou aos 88 anos: “O discurso que Pérola tinha é totalmente atual. Fico pensando como ele seria encarado hoje pois sinto que estamos regredindo 100 anos ao questionar a educação sexual nas escolas. Ela defendia que prevenção era a palavra que deveria ser guia de qualquer área do governo. Estamos esquecendo a nossa história”.

Maria Elisa ficava inconformada pelo fato de sua avó ser conhecida em São Paulo apenas pelo nome de um grande hospital e da praça onde está localizado. Para que seu nome e legado não caíssem no esquecimento, juntou-se às historiadoras Maria Lucia Mott e Olga Sofia Fabergé Alves e publicaram o livro O Gesto que Salva – Pérola Byington e Cruzada Pró-Infância, lançado em 2005. Conforme o título indica, não se trata apenas de uma biografia e sim um relato dos sucessos e dificuldades de uma das maiores instituições de assistência social do País. Maria Elisa é filha de Alberto Byigton Jr., um dos dois filhos de Pérola, empresário e pioneiro da indústria cinematográfica no Brasil. Como se vê a família Byington tem história para contar sobre o Brasil.

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OS BRASILEIROS: Mário de Andrade

Mário Raul de Morais Andrade nasceu em 9/10/1893, em São Paulo, SP. Escritor, poeta, administrador, cronista, musicólogo, fotógrafo, crítico de literatura e de arte, pesquisador do folclore, agitador cultural… “Eu sou 300, sou 350”, disse no poema Remate dos males. Foi protagonista do “Movimento Modernista” (1922), pioneiro no estudo da “etnomusicologia” e na preservação da memória nacional com a criação do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937.

Nascido numa aristocrática família paulistana, teve os primeiros estudos em casa e foi considerado um pianista pródigo na infância, quando lia em francês e estudava história da arte como autodidata. A educação formal veio apenas aos 18 anos, quando ingressou no Conservatório Dramático de Musical de São Paulo. Em 1913, seu irmão mais novo faleceu, causando-lhe um profundo choque. Retirou-se, para tratamento, numa fazenda da família em Araraquara e teve que deixar o piano devido a um tremor das mãos. Passou a estudar canto e teoria musical com a intenção de se tornar professor de música, ao mesmo tempo em que se interessou, também, pela literatura.

Ao se formar, em 1917, publicou seu primeiro livro de poemas – Há uma gota de sangue em cada poema -, com o pseudônimo Mário Sobral, considerado hoje raríssimo e disputado entre os bibliófilos. Em seguida, passou a viajar pelo interior do Brasil realizando meticuloso trabalho de documentação da música e folclore local ao mesmo tempo em que publicava ensaios na imprensa paulista. Duas destas viagens (1919 e 1924) foram nas cidades históricas de Minas Gerais, e viu “que Aleijadinho não copiou, mas inventou, fundiu o barroco com o rococó e criou uma identidade na sua obra”, conforme Ângelo Oswaldo. Em 1928 publicou o ensaio O Aleijadinho no livro Aspectos das artes Plásticas no Brasil, imprimindo nova visão sobre a obra do escultor e redimensionando sua importância em âmbito internacional. Pode-se dizer que é a partir daí que Aleijadinho adquire o prestígio que veio a ter na arte brasileira.

Escrevendo e lecionando piano no Conservatório, angariou grande número de amigos, jovens artistas e escritores antenados como a cultura europeia. Em 1920, comprou uma escultura – Busto de Cristo – de seu amigo Victor Brecheret, um Cristo brasileiro de cabelos trançados, que deixou a família chocada. Aborrecido, retirou-se para o quarto, e da varanda pôs-se a observar a praça “sem realmente vê-la. Ruídos, luzes, as brincadeiras ingênuas dos taxistas: todos flutuaram até mim. Eu estava aparentemente calmo e não pensando em nada em particular. Não sei o que de repente aconteceu comigo. Fui até minha mesa, abri um caderno e anotei um título que nunca havia passado pela minha cabeça: Pauliceia Desvairada!”.

O título inesperado deu origem ao segundo livro, anunciando a “Semana de Arte Moderna”, com verso livre, transgressões sintáticas, valorização da fala brasileira e ausência da solenidade poética, entre outras inovações que marcaram a ruptura com o “parnasianismo”. Enquanto trabalhava na edição do livro, preparava junto ao “Grupo dos Cinco” (Ele, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Menotti del Picchia e Tarsila do Amaral) a “Semana de Arte Moderna”. No evento leu o “Prefácio extremamente interessante” do livro como o clímax da “Semana”. Em seguida as viagens pelo interior do País foram intensificadas, ampliando o estudo a cultura e o folclore, bem como as dimensões sociais da música. Tais viagens renderam um diário, que resultou numa coluna no jornal “O Diário Nacional”, seguido do livro O turista aprendiz, em 1927, um documentário (com fotos) do Brasil. No mesmo ano lançou o romance Amar, verbo intransitivo, a história de uma alemã, cuja profissão era iniciar sexualmente os jovens. Ou seja, mais uma transgressão literária.

No ano seguinte veio a grande obra – Macunaíma -, consagrando o romancista e seu envolvimento com a cidade. Tal envolvimento resultou na organização do Departamento de Cultura, em 1935, com o empenho do prefeito Paulo Duarte, cuja função era resgatar e divulgar a cultura brasileira e não apenas paulista. Um dos principais legados do Departamento foi a criação da biblioteca municipal, que em 1960 recebeu seu nome e tornou-se a segunda maior do País, além do sistema de bibliotecas públicas, contando hoje com 51 bibliotecas em quase todos os bairros da cidade. Criou também parques públicos e fundou a Discoteca Municipal, um dos maiores e melhores acervos organizado sobre música do hemisfério. Nessa época e na condição de diretor do Departamento pôde ajudar Claude Lévy-Straus em suas pesquisas para o livro Tristes trópicos, que viria publicar em 1955.

Em 1937 elaborou a lei de criação do SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e passa a ter problemas políticos com a volta do Governo Vargas. No ano seguinte criou, junto com o antropólogo Lévi-Strauss, a Sociedade de Etnografia e Folclore. Por essa época, perdeu o cargo na Prefeitura de São Paulo. O prefeito Prestes Maia estava mais interessado em abrir grandes avenidas na cidade e não via tanto interesse no Departamento de Cultura, que acabou em terceiro plano. Segundo seu amigo Rubens Borba de Moraes, Mário passou por uns perrengues, ficou desanimado e em 1938 foi incentivado pelos amigos Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Rodrigo Melo Franco e o ministro Gustavo Capanema a viver no Rio de Janeiro, onde ocupou o cargo de diretor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. Na ocasião, dirigiu o Congresso da Língua Nacional Cantada, importante conferência de folclore e música folclórica.

No Rio sua vida sofreu grande transformação. Não obstante continuar escrevendo e participando da vida cultural da cidade e fazer projetos para o ministro Capanema, passou a sentir certo vazio, “não se ambientava, não conseguia fazer sua vida, trabalhar direito. Tudo lhe parecia tão inútil e fútil. Não conseguia equilibrar-se de novo”. No encontro que teve com o amigo Rubens Borba de Moraes, revelou: “Sabe, dei para beber. Tomo bebedeiras! Caí na farra…” O fato é que no Rio caiu numa roda de jovens literatos e boêmios e fez o que não fizera quando moço. Em 1942, retornou à São Paulo, mas não era o mesmo. Mais tarde, Rubens encontrou-o num bar da Rua Líbero Badaró. “Estava magro, esverdeado, acabado e queixando-se da saúde. Suas moléstias indefinidas eram psicossomáticas: resultado dessa vontade de viver. Não tinha ânimo para reagir, deixou-se morrer”. (Moraes, Rubens Borba de Testemunha ocular – recordações). Brasília, Briquet de Lemos Livros, 2011). Foi vitimado por um ataque cardíaco em 25/2/1945.

10 anos após foram publicados seus Poemas completos (1955), marcando o início de sua “canonização” na cultura brasileira. Deixou um considerável legado, tanto na produção literária, com 58 livros, como na institucionalização e no cuidado com a memória, criando o SPHAN, e com a cultura, criando o Departamento de Cultura (SP). Atualmente, depois de Machado de Assis, é o autor mais estudado da literatura brasileira. Foi o autor que mais praticou a “literatura epistolar“ no Brasil. Manteve correspondência com centenas de cartas à quase todos os escritores e artistas conhecidos. Muitos dos quais deixaram livros publicados sobre essa troca de correspondência. Sua vida e legado foi registrado em diversos ensaios, artigos e biografias. As duas últimas publicadas: Eu sou trezentos: Mário de Andrade – Vida e obra, (2018), de Eduardo Jardim e Em busca da alma brasileira: biografia de Mário de Andrade (2019), de Jason Tércio, apresentam amplo e documentado panorama de sua trajetória.

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AS BRASILEIRAS: Francisca Julia

Francisca Julia César da Silva Münster nasceu em Eldorado, SP, em 31/8/1871. Professora, poeta, pianista, crítica literária e expoente do movimento “parnasianismo”, ao lado de Olavo Bilac, Raimundo Correa e Alberto de Oliveira, a “Trindade Parnasiana”. Ficou conhecida como “Poeta do Impassível”, valendo-se de uma linguagem e de figuras mitológicas e históricas. É também reconhecida como precursora da literatura infantil no Brasil, com o Livro da infância (1899), destinado às escolas públicas.

Ainda criança demonstrava habilidade com as letras. Aos 8 anos mudou-se com a família para São Paulo e aos 14 passou a escrever sonetos para os jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano e Diário Popular. Tais publicações lhe abriram as portas para trabalhar nos periódicos “Álbum”, de Artur Azevedo e “A Semana”, de Valentim Magalhães, no Rio de Janeiro. Ninguém acreditou que aqueles versos fossem de uma mulher. O crítico João Ribeiro achou que fossem de Raimundo Correia usando pseudônimo. Mas quando soube de fato, empenhou-se na publicação de seu primeiro livro de poemas – Mármores -, em 1895. O livro foi elogiado pela crítica e ficou conhecida no métier literário.

Olavo Bilac apreciou a forma de seus versos e a linguagem remoçada “por um banho maravilhoso de novidade e frescura”. A consagração veio em seguida com seu rosto estampado nas capas de revistas. O próximo livro surgiu apenas em 1903: Esfinges, que veio a ser uma edição ampliada de Mármores, do qual excluiu 7 poemas e incluiu 20. Em 1904 foi integrada ao comitê central brasileiro da “Societá Internazionale Elleno-Latina”, de Roma. Por razões nunca esclarecidas, abandonou a vida pública em São Paulo e foi morar em Cabreúva, em 1906, onde sua mãe exercia o magistério e ela foi professora particular de piano para crianças. Ainda em Cabreúva foi membro da Academia Paulista de Letras, fundada em 1907 mas não vingou. Refundada em 1909, recusou o convite por não querer ingressar sem seu irmão Júlio César da Silva, também poeta prestigiado.

Em 1909 proferiu uma conferência no salão da Câmara Municipal de Itu: “A feitiçaria sob o ponto de vista científico’, revelando sua personalidade mística e interesse em temas espirituais. Neste ano casou-se com Philadelpho Edmundo Münster, tendo como padrinho o poeta Vicente de Carvalho. A partir daí, passou a viver mais isolada do público e dedicar-se mais aos estudos místicos e espirituais. Seu último livro – Alma infantil – saiu 1912, escrito em parceria com o irmão e dedicado às crianças, alcançou grande repercussão nas escolas públicas e grande parte da tiragem foi adquirida pelo Secretário do Interior, Altino Arantes.

Em 1916, seu marido contraiu uma tuberculose e ela mergulhou numa depressão profunda. As poucas poesias que ainda escreve refletem uma mulher que almeja a paz espiritual fora do plano terrestre. Numa entrevista à Correia Júnior, disse que sua “vida encurta-se hora a hora”. Mesmo assim, saíram algumas poesias na revista “A Cigarra” e prometia mais um livro chamado “Versos áureos”. Em 31/10/1920, o marido faleceu. Pouco depois do sepultamento, no dia de finados, ela foi repousar no quarto e ingeriu grande dose de narcóticos, vindo a falecer em 1/11/1920. O fato causou comoção no circuito literário de São Paulo, e foi homenageada com seu nome numa importante rua do bairro de Santana. No ano seguinte saiu uma 2ª edição ampliada do livro Esfinges.

No sepultamento no Cemitério do Araçá, estiveram presentes alguns dos próceres da Semana de Arte Moderna, que viria ocorrer em 1922: Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Martins Fontes, Paulo Setúbal e Ciro Costa, que discursou à beira do túmulo. Ali ficou decidido que iriam homenageá-la com um mausoléu.
Solicitaram ao então governador Washington Luís e o pedido de uma estátua foi encaminhado ao jovem escultor Victor Brecheret, que estudava em Paris e trabalhou 2 anos na escultura. 10 anos depois, a estátua chegou e em 1933, o senado paulista aprovou a implantação da enorme estátua “Musa Impassível” em seu túmulo. Na ocasião Menotti Del Picchia fez um discurso comovente: “A estátua que se ergue hoje… a Musa Impassível, é um mármore criado pelo cinzel triunfal de Victor Brecheret. Na augusta expressão dos seus olhos, do seu busto ereto, da suas mãos rítmicas, há toda a grandeza e a beleza daquela musa impassível da formidável parnasiana… O estatuário é bem digno da poetisa”.

O nome da estátua – esculpida em granito carrara com uns 3 metros de altura e pesando 3 toneladas – foi extraído de um de seus poemas mais famosos, publicado no livro Mármores. Em 2006, através de um acordo entre a Prefeitura e o Estado de São Paulo, essa estátua saiu do mundo dos mortos para entrar na vida da cidade: foi removida para a Pinacoteca de São Paulo. No centenário de seu falecimento, em 2/11/2020, a UFU-Universidade Federal de Uberlândia realizou um evento reunindo professores e pesquisadores com palestras e debates sobre a vida e obra da poeta. Na ocasião deu-se o lançamento do livro Versos áureos, com poemas selecionados, organizado pelo professor Carlos Augusto de Melo. Existem alguns artigos e textos avulsos, à disposição na Intenet, sobre sua trajetória de vida e obra. No entanto, estamos devendo ainda uma biografia mais completa sobre a “Musa Impassível”.

Clique aqui para assistir ao vídeo contendo homenagem ao centenário de morte da escritora Francisca Júlia da Silva

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OS BRASILEIROS: Noel Rosa

Noel de Medeiros Rosa nasceu em 11/12/1910, no Rio de Janeiro, RJ. Compositor, cantor, violonista e um dos nomes mais destacados não apenas no samba, mas na história da música popular brasileira. Sua contribuição foi fundamental na legitimação do samba como ritmo genuinamente brasileiro. Em seu curto período de vida deixou mais de 250 músicas, muitas delas clássicas do cancioneiro popular.

Nascido de um parto complicado, que incluiu o uso de fórceps para salvar a vida da mãe e da criança. Além disso, tinha uma hipoplasia, com uma diminuição da mandíbula, que marcou sua feição dotando-o de uma fisionomia particular. Cresceu no bairro carioca de Vila Isabel, reduto de boêmios e sambistas tradicionais do Rio de Janeiro, oriundo de uma família de classe média. Estudou no tradicional Colégio de São Bento e dizem que, não obstante a inteligência, não era um aluno aplicado nos estudos.

Aprendeu a tocar bandolim de ouvido ainda adolescente e gostou da atenção que despertou nos ouvintes. Pouco depois passou ao violão e logo fazia parta das rodas de samba. Aos 21 anos entrou na Faculdade de Medicina, mas cedo se deu conta da inviabilidade do projeto de ser médico diante da vida de artista que se apresentava entre as noitadas regadas a cerveja. Aos 19 anos já era integrante do “Bando dos Tangarás”, ao lado de Braguinha, Almirante e Henrique Brito. Em 1929 compôs Minha viola e Festa no céu e no ano seguinte, aos 20 anos, surge o primeiro grande sucesso Com que roupa?, uma de suas clássicas composições,

No folclore musical surgiu uma história em que ele, em certa noite, queria sair com os amigos, mas sua mãe não deixou, escondendo suas roupas. Foi aí que perguntou: “Com que roupa eu vou?” Mas esta história foi desmentida por Almirante, seu parceiro e primeiro biógrafo. Ele atesta que os primeiros acordes da música eram muito parecidos aos do Hino Nacional. O problema foi detectado pelo maestro Homero Dornelas e Noel prontamente fez a modificação. O fato é que ele era um grande cronista e suas músicas eram um retrato da vida simples e cotidiana, que primam pelo humor e pela veia crítica. Orestes Barbosa chamava-o de “o Rei das letras”.

O cotidiano e o humor sempre estiveram nas letras de suas músicas, incluindo as “brigas”. Numa polêmica com seu rival Wilson Batista, os dois pelejaram em sambas. Os dois andaram enamorados de uma morena do “Dancing Apollo. Noel compôs o samba Rapaz folgado, detonando a empáfia de Lenço no pescoço, de Wilson. Este, quando ouviu o samba, deu o troco com Mocinho da Vila, aconselhando Noel a cuidar de seu microfone e deixar quem era malandro em paz e ao final orgulhava-se “modéstia à parte, eu sou rapaz (folgado?)”. Noel continuou a polêmica com Feitiço da Vila: “modéstia à parte, eu sou da Vila (Isabel)”. Em seguida, Wilson compõe Conversa fiada, questionando a superioridade do bairro. Noel retruca com o samba Palpite infeliz. Ao final da “briga”, os dois tornaram-se parceiros e amigos.

A vida boêmia nos bares da lapa era intensa e parece que começava cedo no café da manhã: Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada / Um pão bem quente com manteiga à beça… Essa Conversa de botequim é um dos seus maiores sucessos. Até agora já foi executada mais de 546 mil vezes na Spotfy e 1.3 milhão de vezes no Youtube. Ao longo da breve vida teve muitas namoradas e foi amante de outras já casadas. Aos 24 anos casou-se com Lindaura Martins, por quem tinha certo afeto, mas era apaixonado mesmo por Ceci, prostituta de um cabaré na Lapa. Essa paixão resultou no samba Dama do Cabaré, outro sucesso. Ele quis tirá-la da “vida fácil”, dar-lhe uma casa e uma vida tranquila como amante. Mas ela recusou a oferta; não queria ser uma “manteúda”; queria alguém que assumisse o casamento. Era uma mulher bonita, elegante e educada. Mas ele não pode encarar o escândalo social e na família, que não aceitaria o casamento com uma meretriz.

A vida boêmia segue o curso, às vezes interrompida com tratamentos contra a tuberculose que o consumia. Viajou diversas vezes para cidades montanhosas em função do clima e passou uma temporada em Belo Horizonte. De lá, escreveu ao seu médico, Dr. Graça Melo: “Já apresento melhoras/Pois levanto muito cedo/E deitar às nove horas/Para mim é um brinquedo/A injeção me tortura/E muito medo me mete/Mas minha temperatura/Não passa de trinta e sete/Creio que fiz muito mal/Em desprezar o cigarro/Pois não há material/Para o exame de escarro”.

De volta ao Rio, sentiu alguma melhora e parou com as medicações. Achou que estava curado, mas pouco depois adoeceu fortemente, não conseguindo mais se alimentar e nem levantar da cama. Faleceu repentinamente em 4/5/1937 aos 26 anos. Sua vida foi filmada e biografada diversas vezes. São filmes de curta, média e longa duração, com destaque para “Noel – Poeta da Vila” (2007), baseado na essencial biografia Noel Rosa: uma biografia (1990), de João Máximo e Carlos Didier. No teatro também foi retratado na peça O poeta da Vila e seus amores (1977), de Plínio Marcos e cenário de Flávio Império, inaugurando o Teatro do SESI, em São Paulo. Em 2010, centenário de seu nascimento, a Escola de Samba Unidos da Vila Isabel desfilou em sua homenagem com o samba Noel: a presença do “Poeta da Vila”, de Martinho da Vila. Em 2016 foi agraciado in memoriam com a “Ordem do Mérito Cultural do Brasil”, na classe de grão-mestre.

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OS BRASILEIROS: José Lutzenberger

José Antonio Lutzenberger nasceu em 17/12/1926, em Porto Alegre, RS. Engenheiro agrônomo, cientista, escritor, filósofo, ambientalista e pioneiro na luta em defesa do meio ambiente. Trocou uma próspera carreira, como técnico e executivo de empresas multinacionais, pela organização do movimento ecológico na década de 1970, com a publicação do “Manifesto Ecológico Brasileiro”.

Filho do artista plástico Joseph Franz Seraph Lutzenberger e Emma Kroeff, imigrantes alemães, desde criança mantinha contato e encanto pela natureza. Estudou no Colégio Farroupilha e do Rosário, com interesse em química e física. Após o serviço militar, entrou na Faculdade de Agronomia, da UFRGS e demonstrava temperamento combativo. Era visto como excêntrico pelos colegas. Diplomado em 1950, passou 2 anos nos EUA fazendo pós-graduação na Universidade de Louisiana em agroquímica. De volta à Porto Alegre, empregou-se na Companhia Riograndense de Adubos, onde trabalhou por 4 anos e transferiu-se para a Sulpampa Agropastoril, no cargo de intérprete de línguas do diretor da Basf, empresa associada. Em 1957 foi convidado para trabalhar na Ciba-Geigy, na Alemanha, na área de agrotóxicos. Em seguida mudou-se para a Venezuela, atuando como técnico e executivo na área de adubos da Basf. Pouco depois, já casado e com 2 filhas, foi transferido para o Marrocos, em 1966. Na condição de executivo bem sucedido, conheceu diversos países.

Na Venezuela esteve em contato com o cientista Leon Croizat, aprofundando os estudos em biogeografia. O interesse nos problemas causados pelo agrotóxico foi despertado com a leitura do livro Silent Spring (1962), de Rachel Carson, com quem manteve contato. Discordava dos ataques que a cientista sofria dos empresários da indústria química e passou a se interessar pela ecologia. A “crise existencial” ou profissional iniciou quando a Basf passou a produzir agrotóxicos. O dilema foi resolvido com o pedido de demissão, em 1970. Ano seguinte fundou a AGAPAN-Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, a primeira “Ong” ecológica do País. Logo tornou-se líder do movimento com o lançamento do “Manifesto Ecológico Brasileiro: o fim de futuro?”, numa tiragem de 46 mil exemplares. Em seguida foi impresso em papel jornal e formato “pasquim” de 22 páginas e foi vendido em bancas de jornal. Assim o movimento ecológico tomou as ruas. Com o manifesto, tornou-se importante líder no movimento ambientalista internacional, recebendo cumprimentos do cientista Konrad Lorenz, Prêmio Nobel de Medicina.

Antes do “manifesto” já havia publicado muitos artigos denunciando o desastre ecológico e viajou pelo mundo dando palestras e conquistando adeptos. Se em alguns setores da sociedade era tratado como gênio e pioneiro, noutros era tido como louco e fanático. Denunciava a poluição do lago Guaíba, a perseguição aos morcegos de Porto Alegre, o desmatamento e a redução das áreas verdes urbanas, o uso de agrotóxicos e da energia nuclear etc. Com o empenho e as lutas da AGAPAN, obteve conquistas como a criação do Parque Delta do Jacuí, do Parque Estadual de Itapuã e da Reserva Biológica do Lami. Mas a luta mais notória que enfrentou foi contra a produtora de celulose “Borregaard”, que poluía o ar e as águas do rio Guaíba. Para muitos foi “uma das mais importantes lutas ecológicas da história”, inaugurando um inédito processo de revisão de métodos produtivos. Em fins de 1973, a fábrica foi interditada.

O movimento ecológico torna-se mais expressivo em termos políticos com a criação dos “partidos verdes” em todo o mundo. A entrada de novos atores na AGAPAN, afastou-o da entidade em 1987. “Aconteceu que surgiu um grupo de guris que não sabia nada de nada e que transformou a Agapan em política partidária. E aí eles perderam, inclusive, a penetração nos meios de comunicação. Eles não tinham nada a dizer”. Ao deixar a AGAPAN, criou a Fundação Gaia, dedicada a promoção de um modelo de vida sustentável. A fundação atua na área de educação ambiental e na promoção de tecnologias socialmente compatíveis, tais como a agricultura regenerativa, o manejo sustentável dos recursos naturais, a medicina natural, a produção descentralizada de energia e o saneamento alternativo. Presta, também, consultoria ambiental para auxiliar municípios e estados a implantar o desenvolvimento sustentável. Seu envolvimento com a questão ambiental rendeu-lhe o prestigioso “The Right Livelihood Award 1988”, conhecido como o Prêmio Nobel Alternativo na área de ecologia, em Estocolmo.

Além de manter a Fundação, conduzia uma empresa de reciclarem de resíduos industriais. Em 1990, o presidente Fernando Collor, interessado em melhorar a imagem do Brasil no exterior e tendo em vista a realização da CNUMAD-Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento ou “Rio-92”, convidou-o para assumir a pasta do Meio Ambiente e comandar os preparativos para a grande conferência. Sua ideia era que o Brasil deveria encaminhar uma proposta em que os países possuidores de florestas de grande porte fossem recompensados, através de um fundo internacional, pelo prejuízo de não explorá-las. Defendia ainda que a diplomacia brasileira deveria adotar uma legislação internacional sobre florestas e no estabelecimento de metas precisas para evitar o desmatamento. Em termos políticos p.p. dito, dizia: “Li Marx de ponta a ponta no original, em alemão. Ele é tão tecnocrata quanto os capitalistas; Hitler e Mussolini também diziam ser socialistas, como Fidel. Essa palavra e ser de esquerda não significam mais nada”.

Sua permanência no governo durou mais que o previsto (março/1990-março/1992), tendo em vista o temperamento direto e pouco dado às conveniências políticas. Foi demitido antes mesmo da Rio-92, logo após denunciar a corrupção no IBAMA, que ele acusava de ser uma “sucursal de madeireiros”. Nos 2 anos como ministro realizou algumas conquistas, como a demarcação de terras indígenas, em especial a dos Ianomâmis, em Roraima; a definição do conceito de Área de Proteção Ambiental na nova legislação; a decisão do Brasil de abandonar o projeto da bomba atômica e a assinatura do Tratado da Antártida e da Convenção sobre a Diversidade Biológica. Já fora do governo, fez um importante pronunciamento na Rio-92, quando foi homenageado e recebeu convite de Dalai Lama para uma conversa privada. No mesmo ano participou do “Simpósio Internacional sobre questão da Ética na Política”, organizado pelo Instituto Goethe.

Seu último trabalho no governo foi de consultor ambiental no estado do Amazonas, em 1997. Faleceu em 14/5/2002 e foi sepultado no bosque da Fundação Gaia do modo como pediu: nu envolto num lençol e sem caixão para não deixar marcas. Suas ideias e legado ficaram registrados em centenas de artigos e livros, dos quais vale destacar: Pesadelo atômico (1980), Ecologia: do jardim ao poder (1985) e Gaia, o planeta vivo (1989). Em termos biográficos, temos Sinfonia inacabada: a vida de José Lutzenberger (2005), de Lilian Dreyer e Lutz – A história da vida de José Lutzenberger, o grande ambientalista do Brasil (2019), de Amauri Antonio Confortin e outros autores. Recebeu títulos de “Doutor honoris causa” de diversas universidades no Brasil e no exterior e foi agraciado com uns 80 prêmios, homenagens e condecorações.