JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em 14/3/1847, na Freguesia de Curralinho, atual Castro Alves, BA. Poeta, dramaturgo e expoente da 3ª fase do Romantismo, conhecido como “Poeta dos Escravos”, entre outros epítetos: “Poeta Republicano” (Machado de Assis); “Poeta nacional, social, humano e humanitário” (Joaquim Nabuco); “Maior poeta brasileiro, lírico e épico” (Afrânio Peixoto) e “Apóstolo andante do condoreirismo” (José M. da Cruz).

Iniciou os primeiros estudos na cidade de Cachoeira e logo a família mudou-se para Salvador, onde estudou no Colégio Sebrão até 1857. Ano seguinte ingressou no Ginásio Baiano, do célebre educador Dr. Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas. Nesta escola, onde também estudava Rui Barbosa, foi seduzido pelos frequentes saraus e declamações de poesia e discursos. Alí foi revelado o poeta, com os primeiros poemas aos 13 / 14 anos. Na época, a mãe -Clélia Brasília- faleceu; o pai casou-se de novo e ele, junto com o irmão mais velho, mudaram-se para o Recife, em 1862, a fim de ingressarem na Faculdade de Direito.

Reprovado no “vestibular” da época, mergulhou na vida cultural da cidade e passou a frequentar a “Escola do Recife”, um núcleo de intelectuais dentro da Faculdade de Direito. Aos 16 anos, publicou o poema A Canção do Africano no jornal “Primavera”, em maio de 1863, quando ainda não se ouvia falar de “Abolição da escravatura”. Poesia era um dos talentos do rapaz; o outro era desenho, vindo a tornar-se bom desenhista e até pintor. Nesse período conheceu a atriz portuguesa Eugênia Câmara, com quem se enamorou, e pouco depois consegue matricular-se na Faculdade. No ano seguinte sentiu um abalo com o suicídio do irmão, ampliado com a notícia do diagnóstico de tuberculose, e retorna à Salvador.

Em março de 1865, volta ao Recife em companhia do poeta Fagundes Varela. No ano seguinte, reencontra Rui Barbosa e fundam uma sociedade abolicionista. Em seguida passou a viver com Eugênia Câmara e tem início grande produção poética junto com declamações públicas. Seu contemporâneo Vicente de Azevedo disse que “ele sabia preparar a cena, como emérito que era. Para essas ocasiões, punha pó de arroz no rosto, a fim de acentuar mais a palidez; um pouco de carmim nos lábios e muito óleo nos cabelos que ele arremessa da formosa cabeça”. Além da abolição da escravatura, passou também a lutar pela causa republicana, quando finaliza o drama Gonzaga, ou a Revolução de Minas, representada no Teatro São João, em Salvador.

Nessa estadia no Recife ocorreu uma acirrada disputa com Tobias Barreto, 10 anos mais velho e protagonista da “Escola do Recife”. Conta-se que o filósofo tinha temperamento nervoso, às vezes insociável, uma antítese do poeta baiano, de índole meiga e atraente. A disputa se deu quando Tobias se enamorou da atriz Adelaide Amaral, da mesma companhia de Eugênia, e passa a defendê-la em detrimento da outra. A partir daí surgem dois núcleos na cidade em que cada grupo defendia suas musas. Após uma noite em que Tobias e seus aliados vaiam Eugênia, Castro Alves improvisa de forma avassaladora na réplica e, dias depois, em novo confronto, nova vitória sobre o rival com versos que ficaram memoráveis, levando a disputa às páginas da imprensa e a uma derrota fragorosa de Tobias Barreto.

Em 1868, partiu junto com Eugênia para o Rio de Janeiro, onde manteve contato com o romancista José de Alencar, que publicou o artigo Um Poeta no Correio Mercantil. Além do artigo, Alencar apresentou-o a Machado de Assis junto com um bilhete pedindo: “Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento”. Foi curta a permanência no Rio de Janeiro; em seguida, mudou-se para São Paulo e ingressa no 3º ano da Faculdade de Direito, onde retoma a vida acadêmica e cultural iniciada no Recife. Logo dá-se a primeira apresentação pública de Tragédia no Mar, que pouco depois teve o título mudado para Navio Negreiro. Ingressou na Loja América, da Maçonaria, onde reencontra o amigo Rui Barbosa, que baixou um decreto obrigando os afiliados a adotarem a imediata libertação de seus escravos. Pouco depois já estava participando da comissão de literatura do “Ateneu”, o jornal dos estudantes e da “Bucha”, sociedade secreta criada a fim de ajudar os estudantes em situação precária, mas que transcendeu o ambiente acadêmico e teve projeção política.

Não chegou a concluir o curso; dedicou-se mais aos poemas, alcançando êxito no meio cultural da cidade. Diz-se que o sucesso lhe subiu a cabeça, fazendo-o descuidar-se da amada Eugênia, resultando em traições, brigas e separações até o dia em que ela efetivou o desenlace. Segundo Afrânio Peixoto, ele passou por uns perrengues: “não lia, não escrevia; passeava, fumava, saía à caça, sem disparar sequer um tiro”. Numa dessas caçadas, ao transpor a vala num pulo, a espingarda disparou acertando-lhe o pé esquerdo. O tratamento prestado não surtiu efeito e os antigos padecimentos com o pulmão reapareceram mais agravados. Em 19/3/1869 embarcou para o Rio de Janeiro, onde havia mais recursos médicos. A solução consistiu numa amputação sem anestesia, pois a situação pulmonar não permitia o uso de clorofórmio, o anestésico da época.

Pouco depois, retorna à Salvador; visita Curralinho; reencontra Leonídia Fraga, sua prometida desde menino; compõe versos melancólicos; vagueia de um lado pra outro e prepara os manuscritos para a edição do livro Os Escravos. Em outubro de 1870, já combalido pela tuberculose, pediu ao amigo José Joaquim de Palma que lhe emprestasse a voz para declamar alguns poemas, o que é feito no Teatro São João e foi ovacionado. No mês seguinte, dá-se o lançamento de Espumas Flutuantes, seu único livro publicado em vida. Na ocasião, Adelaide apresenta-o à cantora lírica Agnese Trinci Murri, por quem fica encantado, escreve-lhe cartas de amor e tenta roubar-lhe um beijo, mas foi rejeitado. São os últimos lampejos do poeta romântico.

Em 21/3/1871 participou de um sarau e faz declaração pública de seu amor por Agnesi, que é correspondido apenas na forma de um amor platônico. Em fins de junho, já “acamado” e pressentindo o ato final, pediu que sua cama fosse colocada na sala. Segundo Adelaide, “queria morrer olhando para o infinito azul, esse infinito que irá em breve recolher suas últimas aspirações”. Seguem-se os dias de agonia até 6/7/1871 pela manhã, quando Adelaide lhe passa o lenço pela fronte úmida. Lúcido e com um fiapo de voz, fixa o olhar na irmã e murmura: “Guarda este lenço… com ele enxugaste o suor de minha agonia…”. Aos poucos o olhar foi-se esmaecendo até às 15:30, quando deu-se a partida.

No dia seguinte foi sepultado no Cemitério do Campo Santo e teve sua memória mantida e divulgada pela irmã Adelaide, falecida em 1940. Segundo Afrânio Peixoto, a ela o poeta deve muito de sua fama. Em 6/7/1881, no 10º ano de sua morte, o “Largo do Teatro”, em Salvador, foi renomeado para “Praça Castro Alves”, ao lado do Elevador Lacerda e principal ponto turístico da cidade. Lá foi erguido um monumento, em 1923, com sua estátua esculpida em bronze pelo italiano Pasquale De Chirico, de 2,9 metros, num pedestal com 11 metros de altura. No centenário da morte, em 6/7/1971, na gestão do prefeito Antônio Carlos Magalhães, foi realizado o translado de seus restos mortais para o monumento. Em 1977, Caetano Veloso parafraseou o poeta – A praça é do povo, como o céu é do condor – e cantou no Frevo novo: “A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”.

Em 1997, a Biblioteca Nacional e o Departamento Nacional do Livro realizaram ampla comemoração dos 150 anos de nascimento do poeta, com a exposição “Castro Alves: o olhar do outro” e diversas homenagens. É o poeta mais conhecido dos brasileiros, através do cinema, teatro, TV e inúmeras biografias. Desde a 1ª, em 1896 com Múcio Teixeira: Vida e obras de Castro Alves, até 1942 com Afrânio Peixoto e seu Castro Alves: o poeta e o poema, da coleção Brasiliana e Jorge Amado com seu ABC de Castro Alves entre outros. Em 1960, outro conterrâneo entusiasmado – Norlandio Meirelles de Almeida – realizou um trabalho de fôlego e publicou Cronologia de Castro Alves, relatando ano-a-ano a vida do poeta, incluindo fotos e trechos dos poemas pertinentes a cada fase de sua curta vida. Não por acaso, o dia de seu nascimento é celebrado como o “Dia da Poesia”

8 pensou em “OS BRASILEIROS: Castro Alves

  1. Caro Brito.

    Ao apresentar a mini-bio de Castro Alves, você me trouxe lembranças de um avô que não conheci, mas que com Clóvis Beviláquia, Maciel Pinheiro, Joaquim Nabuco e o próprio poet, muito lutou na Imprensa contra a escravatura.

    Pacífico dos Santos foi um dos bravos que no Jornal do Recife deu parte de seu talento e trabalho para libertar os negros brasileiros.

    Guardo com cuidado publicações do 1880 sobre essa efervecência.

    Não poderia ter escolhido tema melhor.

    Abs.

    Carlos Eduardo

  2. Estimadíssimo bibliográfico Mestre Brito,

    O Mestre focou seu magnífico trabalho num dos maiores representantes do byronismo, mal que afetou os melhores poetas da época do romantismo brasileiro.

    Sem dúvida que Castro Alves, assim como Augusto de Azevedo, com apenas 22 anos, foi o maior poeta dessa geração bioroniana.

    Suas poesias precisam ser resgatadas como o está fazendo o editor do JBF, um fervoroso defensor do tempo que se fazia poesia com honestidade.

    O mestre nos traz o belíssimo retrato dessa época, dentro do seu projeto resgatatório, tendo Castro Alves (1947-1831), como seu maior expoente.

    Abraçaço e feliz 2022.

  3. Correção: o poeta não é Augusto de Azevedo e sim Álvares de Azevedo, jovem de um domínio poético acima da média – um gênio.

  4. Caro Brito.

    Começaste o ano com uma crônica de ouro. pois o biografado é merecedor
    de muitas louvações, sendo um verdadeiro poeta e seu texto está magnifico.

    Parabéns meu Caro, pois embora seja uma repetição de um dito popular, já não se
    faz poetas como antigamente.
    Na minha memória consta como que a última grande poeta foi a nossa querida
    Cecilia Meireles, uma poeta que deixou muitas saudades.

    Como afirma acertadamente o nosso colega Cícero Tavares, é preciso resgatar
    os belíssimos trabalhos de poesia para conhecimento dos nossos
    jovens atuais, pois creio que eles desconhecem completamente a beleza
    das palavras em verso, mas a poesia também é mostrada em prosa, como eu
    tive a oportunidade de ler muitas vezes neste JBF, crônicas de grande beleza poética e creio que os cronistas algumas vezes nem se deram conta da
    beleza singela de suas narrativas.

    O nosso Guru Berto, grande escritor e apaixonado pelas palavras, certamente
    sabe de quem eu estou falando, pois seus textos me inspiraram a continuar
    acessando este Jornal devido a sua alta qualidade literária . Infelizmente
    esse colega já se afastou voluntariamente , depois de se isolar e não
    desejar se inteirar com os demais comentaristas.

    Lembro aqui um comentário feito por um novo leitor que afirmou que após
    experimentar a leitura dos comentários, ficou ciente de os mesmos são parte
    integrantes dos textos comentados , pois complementam o que foi dito pelo
    redator e como sempre acrescentam a sua valiosa colaboração.

    Preciso me censurar, pois já estrou começando o novo ano
    com um longo e prolixo comentário. Desculpem, porque se me deixar levar
    sou capaz de escrever 50 páginas sem me dar conta que preciso ´parar.

    Sou grato a todos os leitores que têm paciência suficiente para ler tantas palavras.

    Ao nosso Guru Berto, agradeço mais uma vez por ter a genialidade de criar
    algo tão espetacular e sem comparação como este JBF, um farol , de muita luz
    em uma ilha deserta desta nossa Internet.

    Abraços a todos e obrigado pela paciência.

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