Tem coração que não mofa
Porque outro nunca deixa
Vivendo um amor bem pleno
Sem brigas ou qualquer queixa
Coração par de alegria
Onde o amor nunca esfria
Nem a paixão se desleixa.
Eu tenho um assim.
O saudoso Gabriel Severiano, bodegueiro em Acary (RN), terra deste colunista
Tenho muito pensado ultimamente
O progresso às vezes é tacanho
E nos traz prejuízos sem tamanho
Nos deixando mais pobres no presente.
Quantas coisas eu trago em minha mente
Outro tanto o meu peito é quem carrega
E a saudade que em mim nunca sossega
Só me traz coisas ricas do passado
Eu não quero o maior supermercado
No lugar que guardei minha bodega.
Dessas minhas lembranças que são caras
De nenhuma eu quero esquecer
Fecho os olhos somente para ver
Certas coisas que hoje são tão raras.
É memória que a nada se compara:
Uma roda de homens educados
Conversando em nada apressados
E por trás do balcão quase dormindo
Um feliz bodegueiro se sentindo
Como o dono de mil supermercados.
Numa caixa de vidro e de madeira
Ele tinha biscoito, broa e pão,
Afastados das barras de sabão,
Do arroz, do feijão e da brejeira.
Tinha açúcar, farinha e peneira,
Margarina, sal fino e chinelas,
Penduradas no teto umas panelas
Sobre vinhos, cachaças, aguardentes,
Frisos, ligas, marrafas e dos pentes
Noutro canto pendiam mortadelas.
Uma faca comida pelos anos
Enfiada na barra de sabão
Era amiga do fumo, lá no chão
Repousando em rolos sobre panos.
Na entrada eu via dois bichanos
Bem deitados no meio do portal
Tinha um maço cortado de jornal
Que servia de embrulho num momento
Para não se perder no vem do vento
Repousava seguro sob um pau.
No balcão de azuis já renovados,
Alguns cremes, perfumes de bons cheiros,
Brilhantinas, espelhos e isqueiros,
Cada um por um vidro separados.
Os cigarros ficavam bem guardados
Mas, com uma carteira a granel
Tinha agulha, tesoura, carretel,
Mais os fósforos… vela, lampião!,
Vermelhando o azul desse balcão
A balança honesta em seu fiel.
Numa peça de vidro que rodava
Os confeitos e doces, mais chicletes,
Chocolates baratos em tabletes,
Pirulitos ali também se achava.
No cliente o dono confiava
E nem sempre vendia no dinheiro
Se por cofre se tinha o gaveteiro
Escondido num canto do balcão
A palavra valia tal cartão
E por pix a fé do bodegueiro.
Lá no teto, se olhar atentamente,
Vejo até na lembrança me tomando
Uma aranha sem pressa projetando
Um tear de saudade em minha mente.
Tudo isso eu vejo no presente
Me chegando em pontos bem lembrados
Como um velho caderno de fiados
Caderneta escrita no guardar
A bodega gostosa de lembrar
Que não dou nem por mil supermercados.
Quando um dia você for em Acary, pouco adiantará perguntar por José Euzébio da Silva. E Francisco Sales da Silva? Nem adianta inquirir sobre Maria Auta de Sousa?
Todos esses aí têm apelidos, e é sobre os apelidos que eu quero falar.
Numa cidade pequena eles são comuns. Afinal, todo interior é igual. Aqui em Acary não é diferente e tem para todos os gostos, entre vivos e mortos, passado e presente. Quer ver?
Só no reino animal teríamos: Gata, Boi Galego, Mosquitinho, Carneiro, Bode, Gavião, Carcará, Rôla Cigano, Baratinha de Kéca , Pinto de Granja, Barata, Gabiru, Rato Bala, Ratinho, Foca, Tejo, Leão, Leitão, Urso, Aranha, Piranha, Patin de Elói, Grilo, Peixinho, Caçote, Piaba, Sapo, Morcego, Macaco, Galo Véi, Porquinho, Cabra Cega, Furão Barbino, Zé Guiné, Novilha, Burrego, João Grilo, Tourin, Galo Assado, Mosquito de Viria, Mané Galinha, Cão-não-morde, etc.
Aí, se a categoria for geral, lá vem: Sapato, Prego, Caitipa, Cu Cagando, Novo, Dão Velho, Tonéa, Gueitão, Lorin, Tola, Tanga, Baía, Íti, Gaguin, Farinha, Cuscus, Bombom, Mestre, Tita, Ema, Lula, Bóca, Babau, Bola, Nego, Seú, Fifin, Pão, Bura, Pinta, Botinha, Vareta, Pacanã, Loro, Trem Virado, Puruega, Cuia, Zibéu, Zé Brinco,Tabaco de Bode, Tabaco de Alumínio, Tabaco de Pau, Leca, Bada, Lelinha, Zé Buíte, Baco, Ôi Pidão, Paraná, Tanda, Biu, Duau, Neguin, Zinha, Fia, Bugrão, Rutin, Hominho, Loló, China, Tota, Papinho, Nadim, Tucão, Boy, Bolo Preto, Pacuíte, Carranca, Pezinho, Shortinho, Pitena, Deusinha, Tuvado, Roleta, Pixilinga, Dioca, Bitira, Boneca, Cebolinha, Buíta, Capela, Nino, Pitola, Gorda, Baiaca, Toquinho, Tuíca, Brilux, Gardo, Cutila, Balá, Sinagoga, Novinha, Tutinha, Chico do Grude, Lamparina, Buá, Aruá, Juá, Dudé, Tenoca, Bia, Dida, Caco Véi, Pitoco, Guriba, Suvelão, Brinquedo, Bigodin, Dora, Garapa, Mima, Bidoca, Inháu, Pelé, Zico, Garrincha, Sukita, Binha, Geba, Loloca, Rivinha, Tíu, Pitíu, Nenén Bascúi, Brejeirim, Big Big, Chiola, Zé Tampinha, Lilía, Veinho, Chorento, Pimba, Dig, Paizinha, Taí, Nuna, 3 Kilos, Pindoba, Bila, Uau, Chapuleta, Apaga Luz, Canjerê, Zé Cocó, Gugué, Dila, Nineca, Caboré, Cara Suja, Macola, Guaxelo, Guaxite, Bebé, Leleco, Ki Coisa, Zé Mandu, Tronco, Zé Mundrunga, Pilão, Ganga, Surrupei, Coquinho, Paluca, Mucamba, Piba, Pirola, Côta, Dodó, Melé, Bonitin, Bobina, Arranhado, Frequé, Guaxinin, Uivé, Cherin, Gordo, Suvaqueira, Faca Cega, Brigadeiro, Pililiu, Manga Rosa, Xôxa, Castelo, Bimbo, Piau, Cara Cuta, Zé Caveira, Bóin, Roseira, Bagaceira, Quíria Biscoito, Pipim, Cascatinha, Pão de Bóia, Batatinha, Tenente, Sol Quente, Coronelzin, Lua, Blecaute, Chiclete, Peninha, Zé Birro, Goipada, Titina, Varetão, Popinha, Muela, Meu Cacete, Nozinho, Candoca, Pompom, Guchinha, Racego (emenda de rato com morcego), Doutô, Lota, Espirro, Furico (também chamado de Cuzin), Popó, Guelão, Espaia Brasa, Gilú, Careca, Gabilão, Camonge, Rasgão, Keto, Tuíca, Má Feito, Lampadinha, Lanchão, Pixototin, Duduca, Come Longe, Guidome, Carrasco, Babalu, Boy Tico, Querida, Bino, Cheirosa, Pintado, Cabôco, Da Lapa, Nuca, Liú, Catolé, Pilóia, Pernambuco, Ditinha, Perna Santa, Brancoso, Bineca, Aritana, Chicola, Sebin, Zomim, Chica Preta, Bebe Água, Cambeba, Espigarto, Zé Oião, Parêia, Quincó, Tulu, Gambêu, Bufa de Alma, Maria Mosquito, Pedro da Porca, Pedro da Ponte, Antõe Oião (também conhecido por Capela de Vaca), Bolacha, Priquito de Pau, Bidoca, Couro Cru, Bia, Caçarola, Papêro, Papêrim, Bilocão, Quixaba, Tílio, Lindo, Divino, Lóla, Lindreza, Mané Golinha, Guardinha, Bião, Sunga, Curinga, Brécia, Barbinha, Buda, Pacato, Cruel, Anil, Punaré, Guiô, Buéca, Cria, Déo Porreta, Bizéu, Nôin, Decate, Cióba, Tantão, Burdão, Carrasco, Bióta, Guaru, Tramela, Caneludo, Cocó, Primin, Pequeno, Suruca, Cizal, Coqueiro, Peruquinha, Mocinha, Tantico, Gotinha, Dedé Testão, Bulú, Santa, Bidu, Santo, Xaréu, Donzela, Cenourinha, Polaco, Manchete, Espirro, Coceira, Moleza, Baca, Mimosa, Chiquinha Ventura, Caçarola, Caldeirão, Uver, Meu Bonito, Balão, Dã de Deca, Boca Torta, Zé Dedão, Dom Ratão, Perneta, Lebrin, Nitona, Pozinho, Zé de Tuda, Candura, Sobrinha, Biró Belém, Saigado, Inçoso, Docin, Zé Destão, Li Cocão, Póca, Atinha, Butija, Vaqueirão, Piolho, Bufeira, Xupa Cabra, Parrudo, Pêinha, Lambe Loiça, Rural, Cafífi, Galetão, Xexéu, Goiamum,Tabajara, Mossoró, Lofreu, Cibite, Baique, D. Efa, Sucata, Xuxinha, Rinha, Nôca, Charuto, Tesourinha, Bezerrinha, Fungado, Floquim, Renato Rico, Chei de Prega, Burro Preto, Cebim, Grachielli, Famfam, Urêa, Ze Bio, Pilola, Presença, Badraba, Mucuin, Papai Oião, Zé Oião, Pente, Tico de Campinadeira, Bilau, Miolo, Toinho Quixó, Bodeiro, Novin do Brega, Deíta, Méda Véi, Pitita, Sorriso, Capitão Caverna, Quenebau, Tampa, Bague, Senhora, Pororoca, Cabelouro, Guigúi, Ponxe, Zarôi, Formigão, Murubinha, Corujinha, Cacuruta, Piquinita, Biritinha, Papagaio, Torrão, Zé do Peido, Fulor, Bitir, Vituca, Trapiá, Aima de Boi, Xirrarrá, Beiçola, Misto, Canção, Catemba, Mª Brejuí, Cafuçu, Cafuringa, Bad Boy, Mil, Piano, Contente, Muriçoca, Biúla, Minador, Trombada, Panteiga, Jararaca, Relampo, Bigodin, Haja Peido, Cristo do Bode, Chica Vintém, Güelo, Torrado, Vara Verde, Milioito, Bigobáu, Boréu, Rasga Olho, Mulambo, Rerré, Borrão, Bigodão, Cachimbão, Cachimbo Eterno, Suvaco, Bebin, Braiado, Muquéi, Dondom, Rei de China, Chuí, Móca, Zóca, Cabo Véi, O Grande, Coucoá, Quingó, Galamprão, Alça, Neco Quarador, Zé da Prestação, Gandinha, Xulêga, Jati, Didin Anão, Zé Moita, Queléu, Zaga, Breguesso, Chupa, Capacete, Cascudo Barbado, Júnior Cururu, Daguia Peba, Maria Bacurau, Câinda, Chico Buriti, Manduca, Palito, Baixinho, Tapuia, Paulo Poiqueira, Trubana, Zé Minhoca, Gambão, Alemão, Fuscão Preto, Rela o Prego, Pirulito, Primoca, Bilrin, Amigão, Caca, Ramin, Zé Bola, Gaída, Quick, Puiga, Gorducho, Dezinho, Fanquinha, Cigano Rôla, Chupa, Baixinho, Biruca, Tupete, Ladeira, etc… etc… etc…
Tem famílias que adotam apelidos em quase todos os seus filhos.
Lá em Zé Mariano, por exemplo: Zé Velho, Bebé, Téu, Cola, Menininha, Galega, Deda, Preta, Bolinha gêmea com Bolão e Santo.
E tem famílias que adotam apelidos como sobrenome, os Mago, os Guiné, os Mororó (parte da família Marques), os Peba, os Côco, os Maranganha (quando não morde abocanha), os Nêgo Félix, os Pinéus, os Januário, os Cuscus, os Tacaca (com orgulho sou um deles), os Muelas, por exemplos.
Tem até gente que ganha apelido e passa a ser conhecido como um astro, como era o caso de Beto Barbosa (Claudinho de Tantico) e Elba Ramalho (Gargalheira).
Mas, você deve estar se perguntando quem são as pessoas acima tratadas por nomes próprios? Bom, o José Euzébio é o meu pai, ou seja, Miúdo. Francisco Sales, era meu Tio Lolô. E quanto a Maria Auta de Sousa, foi a saudosa Dona Tum.
Numa cidade onde os apelidos são tão usados, até as praças ganham esse destaque. Não há quem passando por perto da Praça Antão Lopes de Araújo, não aponte para dizer que ali fica a Praça da Caraca.
PS.: Os apelidos acima são todos aceitos por seus donos. Ninguém se ofende. Ao contrário, há gente que quando é chamado pelo nome nem atende. Esqueceu de como fora batizado.
Meu caminho eu faço no equilíbrio
Sobre a corda da vida vou andando
Cada passo que dou venço um medo
Contra tudo e todos vou lutando
Muitas vezes alguém vem sabotar
E eu sinto a corda se quebrar
Mas, não temo meu corpo desabando.
Certa mão poderosa me amparando
– Toda vez que a corda se partiu –
Fez inútil, porém, essa artimanha
E na queda essa mão me assistiu
Nova corda esticou ante meus passos
Me ordenando “não olhe os seus fracassos,
E nem lembre das vezes que caiu.”
Assim eu sigo me equilibrando.
Félix Bezerra de Araújo Galvão, o Dr. Felu em sua intimidade, era homem de princípios e conceitos caros, de pensamentos e gestos nobres, além de possuir firmeza única em suas convicções.
Nasceu no Sítio Pendanga, município de Acary, aos dezoito dias de maio de 1884 e faleceu em Natal no dia 22 de outubro de 1984.
Entre uma data e outra viveu de forma austera e dando orgulho ao povo que lhe viu crescer.
Concluiu o curso primário em sua cidade Natal no ano de 1900 pelas mãos do Professor Tomás Sebastião.
Para fazer o secundário foi residir na capital potiguar, onde estudou no Atheneu.
Se formou em 1911 na Faculdade de Direito Afonso Celso, no Rio de Janeiro.
Voltou às suas origens para ser Promotor de Justiça começando por Acary e, depois, por várias outras cidades do interior potiguar.
Dr. Felu também exerceu o cargo de Juiz de Direito em algumas comarcas do estado, inclusive na capital, havendo sido promovido a Desembargador em 1944.
Em 1952 foi eleito presidente da mais alta corte de Justiça do estado.
Certa vez viajava da capital para o seu interior quando resolveu parar no meio do caminho para fazer a barba.
Entrou na barbearia, deu bom dia aos presentes, anunciou o serviço que queria e sentou-se na cadeira.
O barbeiro cobriu seu rosto com um pano aquecido, demourou-se um pouco mais afiando a navalha, preparou a espuma e finalmente começou a espalhá-la no rosto do cliente.
De olhos fechados Dr. Felu ia sentindo o pincel deslizar em sua pele.
O barbeiro segurou seu rosto com uma das mãos e iniciou o trabalho com a navalha, puxando em movimentos lentos de baixo para cima no pescoço do homem sentado.
De repente lhe falou:
– O doutor é Promotor de Justiça e se chama Félix Bezerra. Né isso?
Dr. Felu assentiu com um “sim” pelo canto da boca, sem abrir os olhos.
O barbeiro continuou puxando a navalha enquanto falava meio pausado.
– O doutor não deve ter me reconhecido – disse abaixando um pouco a voz. – Mas, eu sou aquele réu que o doutor condenou a doze anos de prisão…
Parou de puxar a navalha ao lado da aorta de Dr. Felu. No entanto não pode continuar sua fala. Foi interrompido pela voz firme do cliente, abrindo os olhos e encarando-o:
– Eu fiz a minha obrigação no que era preciso ser feito. Agora faça a sua. Termine a minha barba.
Quatro horas depois Dr. Felu chegava em sua cidade Natal, esmeradamente barbeado, onde contou a história.
Foto cedida gentilmente pelo Historiador Cícero Araújo
Ontem na fila do almoço do Hotel Aram Imirá Beach Resort, onde eu estava dando um treinamento para a equipe comercial do nosso distribuidor aqui do Rio Grande do Norte, testemunhei uma conversa exageradamente engraçada. E constrangedora também.
Uma senhora à minha frente trazia uma tatuagem nas costas, na altura da “par direita”, como diria minha querida Tia Santa. Era um rosto um tanto quanto esquisito em virtude do enrugamento natural daquela parte do corpo, quando carne e pele não conseguem mais resistir aos poderes da famosa Lei de Newton e descem das costas como se quisessem fazer parte de outra parte.
Abaixo desse mesmo rosto havia ainda a criação de John Wallis, contemporâneo do mesmo Newton, ou seja, havia o número “oito deitado” sobre um coração, simbolizando “amor eterno”. Foi assim que eu interpretei.
Já pelas cores desbotadas dos desenhos, eu vinha calculando a idade da tatuagem em uns… quinze anos. No mínimo. O que coincidia com a segunda data tatuada ao lado do coração: 2008. A outra data era 1958 sobre duas argolas que eu entendi como alianças. As datas eram separadas pelo coração.
Toda essa arte simbólica sendo imprensada e um pouco descaracterizada pela ação do tempo.
Ela, digo, a senhora, servia-se da feijoada quando um senhor bem atrás de mim – aliás, apenas eu os separava – conversou animado e em tom de admiração:
– Nossa como a senhora é fã do Amigo da Onça. Até tatuou o rosto dele nas costas!
Eu não sei quantas vezes aquela senhora é abordada com tal comentário; mas, ela virou-se tão rapidamente que temi sua feijoada caindo do prato sobre os meus pés e dei, por puro reflexo, um passo atrás, deixando-os frente à frente.
– Fala comigo? – ela perguntou altiva.
O senhor respondeu que sim, acrescentando que na infância adorava as piadas do Amigo da Onça.
Eu vi o rosto da senhora se contrair, acentuando ainda mais as rugas na pele branca. Com um sotaque que muito me pareceu ser do outro Rio Grande, ela respondeu:
– Pois, saiba o senhor que este rosto é do meu saudoso marido Péricles – e concluiu demonstrando bastante chateação – seu indelicado!
O senhor olhou para mim com um misto de vergonha e decepção no olhar, enquanto a senhora saiu irritada da fila para se sentar uns quatro metros à nossa frente.
– Rapaz, que coincidência! O Péricles dela era a cara do personagem do outro Péricles – ele falou quase num cochicho.
Eu ri um pouco por fora, segurando como pude a gargalhada querendo explodir do meu peito.
– Aqui para nós dois – baixei o tom de minha voz ao nível da dele, pisquei marotamente um olho e lhe confessei – eu também jurava ser uma homenagem ao Amigo da Onça.
Ríamos juntos quando um turista gritou lá atrás “anda a fila”.
Quinta-feira passada no café da manhã do hotel em João Pessoa, um lugar de pouco espaço entre os móveis, um garotinho aparentando seus cinco anos corria desembestado – como diria o povo lá de nós – entre as cadeiras repletas de turistas vindos em uma caravana do Sul.
O pai, sentado à mesa com a mãe, apenas reclamava de leve quando o menino passava próximo de onde estavam, chamando-o pelo nome:
– Heitor!
Depois dizia sem ser ouvido pelo filho um “você cai” meio sem graça.
Do meu canto eu ficava vendo o menino “tirar fino” nas mesas, nas pessoas e na ilha de comidas expostas, esperando só o grito de alguém e torcendo para ninguém se machucar. Torcer era tudo que podia fazer.
Uma senhora levantou-se no corredor central. Nas mãos uma xícara e um prato.
Não deu tempo de desviar. Na carreira que vinha o menino bateu na lateral do seu corpo. Xícara e pratos no chão. Por sorte a senhora foi amparada por alguém.
– Heitor!
O pai se levantou e agarrou a criança brutalmente pelos braços.
– Não se levante mais daí – vociferou jogando literalmente o filho numa cadeira. – Está me ouvindo? – perguntou irritado.
A esposa se limitou em dizer que havia avisado.
Eu fiquei pensando por que ele não tomaram uma atitude antes?
Heitor ficou sentado ao meu lado direito, com os olhos marejando.
Lembrei-me dos meus dois netos. Especialmente de Levi, com quem o menino do hotel guarda certa semelhança.
Fiquei pensando que aquela criança não tem nenhuma culpa do despreparo dos pais. Talvez sua desobediência seja apenas “um produto do meio”. Bateu um dó em mim…
– Oi, Heitor – puxei assunto.
Ele me olhou desconfiado e voltou-se ao pai, como se quisesse dizer “esse desconhecido está falando comigo”.
– Fala com o tio – compreendeu o pai.
– Oi! Eu sou o Heitor – ele respondeu com os olhos ainda muchos de vergonha.
– Seu nome é bonito. O meu também é.
– Como o tio se chama? – Quis saber.
– É um segredo. Se eu lhe contar promete não falar para ninguém? – aticei sua curiosidade.
– Prometo! – respondeu já se animando com “o segredo” e esquecendo o ocorrido.
Olhei para os seus braços. Estavam vermelhos. As marcas dos dedos do pai em sua pele branquinha.
– Promete mesmo?
– Sim!
O sim dele já veio recheado por aquela ansiedade própria das crianças.
Então. Eu me voltei para o seu lado, inclinei meu tronco e falei arregalando um pouco os meus olhos, como se revelasse algo muito importante:
– Peter Parker.
– Ô pai, o tio é o Homem Aranha! – Seu grito ecoou pelo restaurante. – O Homem Aranha, pai!
– Ssiu! Não fale alto, Heitor. O Duende Verde pode estar aqui – pedi pondo meu indicador nos lábios.
– Certo. Certo!
– Agora somos amigos – falei com a mão fechada para ele bater.
Seus olhos já eram todo alegria.
Eu amo fazer essa brincadeira do Homem Aranha com crianças.
E Heitor comeu sentado, educadamente e sem mais contratempos.
À noite o pai de Heitor me revelaria que ele passou o dia todo pedindo segredo às pessoas, e confessando quase cochichando:
– Eu sou amigo do Homem Aranha.
Dois colunistas do JBF tomando uma na bodega
Quinta-feira passada eu visitei a bodega do inigualável Jessier Quirino.
Tomei uma lapada de cana com tira-gosto de simpatia, mais um petisco bem assado da simplicidade desse nordestino arretado. Fora os caldos de causos e risadas servidos no balcão do estabelecimento.
E o bodegueiro, que em nada ficou adormecido, ainda me serviu com altruísmo um prato quentinho de conhecimento sobre a cultura matuta do sertão de todos nós.
Lá eu voltei ao passado e carreguei embrulhada num papel de bodega a sensação de pertencimento naquele pedacinho de paisagem do interior, que eu levo nas lembranças das bodegas de minha infância, lá no Acary do meu amor.
Da hospitalidade de Jessier Quirino me abasteci de um caminhão completo de satisfação.
O meu coração ficou alegre feito um pinto ciscando um terreiro coberto todinho de Vitamilho, e minha alma segura feito um parafuso de cabo de serrote, apertado na certeza de que o Nordeste é um país sem par. Jessier sendo hoje o seu maior embaixador.
Deixei meu nome escrito na caderneta dos sonhos da bodega, em um fiado que só pagarei noutra visita, desde que eu já possa fazer outro fiado, deixando-o pendurado no prego da melhor saudade.
Viva Jessier Quirino, o tampa de Crush!
O original!
O maior do Nordeste!
(Em memória dos bodegueiros acarienses Pacanã, Gabriel Severiano, Chico Torres, Tomaz Araújo, Zé Birro, Marcos de Pernambuco, Zé de Nequim e Chico da Bodega. As bodegas da minha infância)
O meu nome me faz viver certas situações engraçadas. Outras vezes constrangedoras. Dentre as centenas eu separei uma para contar hoje.
Quando universitário eu fui passar uma semana em Fortaleza participando do ENEAD – Encontro Nacional dos Estudantes de Administração.
Ficamos quase todos alojados num único clube da cidade. Milhares de alunos e ex-alunos, também, do referido curso.
Nossa caravana partiu de Currais Novos o dia ainda estava escuro e chegou ao meio dia na Terra da Virgem dos Lábios de Mel. Uma fila com centenas de estudantes ocupava as calçadas de alguns quarteirões, para o recebimento do crachá de indentificação, mais a pulseira de acesso aos ambientes do encontro. Logo essa fila se tornou quilométrica.
Chegando a minha vez, uma mocinha respondeu ao meu boa-tarde e perguntou para o preenchimento manual do crachá:
– O nome do senhor, por favor?
– Jesus – respondi de pronto.
Ela olhou para mim, baixou a cabeça e repetiu a pergunta.
– O nome do senhor. Por favor.
Voltei a responder “Jesus”.
A mesma pergunta se repetiu a terceira vez, obtendo a mesma resposta. Afinal não havia outra resposta.
Na quarta vez que ela me questionou, sem me olhar nos olhos e balançando negativamente a cabeça, eu já notei certa irritação em sua voz.
A irritação foi demonstrada sem qualquer cerimônia quando, recebendo novamente a minha resposta, ela levantou a cabeça e olhou para mim querendo me fulminar com o olhar.
– Moço, não estou aqui para brincadeiras. Eu sei que o nome do Senhor é Jesus. Leio a Bíblia! ‘Tá? – e apontando com pincel para a fila continuou: – Olhe o tamanho dessa fila. Então. Me diga por favor o nome do senhor. Certo?
A última palavra veio com os dentes quase trincados.
– Moça, sei que a senhora está perguntando o meu nome – falei evidenciando os últimos fonemas – e eu estou lhe dizendo que “o meu nome” é Jesus. Eu me chamo Jesus.
Eu fiz questão de falar soletrando a última frase.
– Ah! Então o senhor se chama Jesus? – perguntou-me com olhos arregalados.
– Sim! É isso que eu estou tentando dizer à senhora. Jesus é o meu nome desde a barriga de mamãe – falei rindo disfarçadamente da confusão feita por ela.
– Entendi. Desculpe-me.
Eu, como um bom Jesus, perdoei-lhe.
Recebi meu crachá.
Daí não sei quantas vezes naquele ENEAD eu tive que responder a pergunta “sério?! Seu nome é Jesus?”
Bom. Era o que estava escrito no crachá.
O paraibano de Paulista, Derosse Júnior, vaqueiro dos bons por gosto e livre escolha profissional, também poeta por descanso da alma, escreveu em um grupo de WhatsApp os versos que seguem:
A vida segue em frente
Mas o que é bom vai ficando
A imagem a mente grava
E o coração vai guardando
A emoção a saudade
Que inunda que invade
E nele vai se alojando.
Este colunista, seridoense do Acary potiguar, inspirado nos versos do amigo paraibano, assim que os leu, lhe respondeu no mesmo estilo:
A vida é como um galope
Que a gente vai controlando
Pelas rédeas do destino,
No acaso cavalgando…
Às vezes vira um trote
Nem precisa de chicote
Pra vida seguir andando.
Muitas vezes esporando
O passo da vida altera…
Puxar rédeas, dar um freio,
E a carreira modera
Trazendo à marcha – a vida –
Controlando com a brida
Mas, ela teima e acelera.
E assim seguimos nós.