JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BRECHIÓ. O CORAJOSO

Quando eu me encontro com Zé Bola, filho do velho e inesquecível Muquêi, se é dia vira noite e se é noite vira dia.

Nós conversamos sobre as coisas da terrinha por horas e as risadas são a energia para a prosa se sustentar por si, tudo arrimado nas melhores lembranças do nosso maior patrimônio: as coisas e os fatos retirados do meio do nosso povo mais humilde em sua simplicidade mais genuína.

Encontrei hoje em minhas rabiscadas que há cinco anos eu tive a satisfação de encontrá-lo instalando uma lâmpada na casa de Marluce Nogueira, viúva do meu Tio Ema e ex-sogra de Diana, essa a filha mais velha de Zé.

Os meus rabiscos me dão conta que naquela oportunidade a prosa começou no quarto escuro, continuou com o mesmo iluminado, passou para a sala onde as mulheres conversavam, foi para a área, desceu para a calçada e subiu para terminar umas três horas depois no calçamento da Rua Cipriano Pereira.

Causo daqui, causo de lá, apresentei a obra de Jessier Quirino e lhe falei com orgulho da minha amizade apenas – mas, apenas por enquanto – virtual com Zelito Nunes (que no outro dia jogaria mais sementes de cultura, com o lançamento do quarto livro, no solo fértil das almas matutas), dois exímios contadores de estórias e histórias da gente sertaneja.

Pois bem, e de causo em causo fomos ficando ali no meio da rua, mesmo depois da impaciência das nossas mulheres ter levado ambas, cada uma para a sua casa.

Daí, que Zé Bola, também um bom contador de anedotas e um cabra de lembrança apurada, contou-me uma história pela qual eu desenvolvi especial carinho por se tratar de mais uma presepada de Brechió, de quem, aliás, já falei aqui em outra oportunidade.

Brechió, apenas para relembrar, sofria de certa fraqueza na cabeça, doença que lhe acometia vez em quando. Sentindo o tal “aperto no juízo”, de conta própria pedia ao delegado de Acary para passar uns dias na cadeia, de onde geralmente saía curado vinte e poucos dias depois. No entanto, algumas vezes o internamento em uma casa especializada se fazia necessário.

Em uma dessas vezes, Brechió ficou amigo do Doido da Lanterna. O sujeito era um mossoroense de boa família que, em sua loucura, virava caçador de OVNI’s apontando à noite para o céu escuro o facho de luz de uma potente lanterna.

Como era sujeito de temperamento calmo, assim como Brechió, lhe era dado o direito de ir ao pátio à noite, lugar onde pela manhã os internos tomavam banho de sol. E isso, digo, esse livre acesso, se dava até para poder acalmar a sua ansiedade em encontrar um OVNI e derrubá-lo com a luz da lanterna, da qual não se separava nunca!

Pois bem, contou-me Zé Bola de haver ouvido de Brechió a seguinte história.

Noite escura, luzes da unidade apagadas e no meio do pátio o mossoroense de lanterna em punho, porém desligada. Brechió foi se aproximando. Quando chegou ao lado do colega, o mesmo ligou a lanterna e apontou para o céu. O facho de luz se abrindo e se perdendo na imensidão.

– Tem coragem? – perguntou a Brechió.

– De quê? De matar um bicho de outro mundo? – inquiriu o outro.

– Não. De subir aí – respondeu o mossoroense, acompanhando com um movimento do dedo indicador da outra a mão a claridade feita numa reta quase perfeita se abrindo no espaço, apontando para o facho de luz saído da lanterna e se perdendo escuridão acima.

– Ter eu tenho – respondeu Brechió. – Mas você tá achando qu’eu sou doido, tá?

– Oxente! – Por quê?

– Eu subo, né?, e quando eu tiver lá em cima bem tranquilo, tu vai apaga e eu, ó – falou jogando os dois braços para frente – timbungo no chão e me lasco todinho – respondeu Brechió e acrescentou saindo para o quarto onde dormia: – Sou doido, não, mô fie.

Não era mesmo não. Mas, que tinha coragem de subir, isso tinha.

E de sobra!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

MESA FARTA

A fartura na mesa do seridoense é coisa conhecida aqui, ali e alhures. É próprio do nosso povo uma mesa cheia com diferentes tipos de comidas, doce e salgados postos para uma mesma refeição. Não importa a hora do dia, a mesa do seridoense é feito exército em tempos de guerra, está sempre ali, pronta para ser usada.

Em recente viagem ao Rio de Janeiro, na casa de uma seridoense, aliás, em sua cozinha, eu fui praticamente obrigado a fazer duas refeições em menos de três horas. Ouvi da boca da dona da casa a afirmativa que “no Rio quando chega uma visita, eles fecham a porta da cozinha. O seridoense não! Escancara a dispensa e parece, até, querer matar o visitante pela boca”. Sônia de Chico Velho foi quem me despertou para isso tudo, apesar de eu já saber há tempos da fama das nossas mesas.

Tal fato, das mesas fartas, vem de longe sendo apreciado. Não sei bem quem foi o autor – Chico de Seu Bilé me garante que foi o “doutor” Juvenal Lamartine, em seu livro Velhos Costumes Do Meu Sertão -, mas, ainda na primeira metade do século passado alguém escreveu que a mesa de José Braz do Talhado, o primeiro do nome, era a mais farta do Seridó.

E era! Ainda segundo Chico de Seu Bilé, sobrinho do dono da casa, lá se costumava fazer quatro refeições diárias. O café servido antes das seis e meia, o almoço estava à mesa antes do meio dia, a janta vinha pouco depois das dezesseis horas e, por fim, a ceia por volta das dezenove horas no máximo.

Do mesmo Chico ouvi a história que passo a narrar agora.

Seu Bilé acordou cedo para ir às compras em Currais Novos, cidade onde também fecharia alguns negócios. Combinara com Antônio Marrada essa ida.

O sol ainda, não mostrara a cara e repousava frio quando pegaram a camionete, e arribaram em busca da cidade vizinha.

No meio do caminho Seu Bilé sabendo da mesa sempre posta na casa do cunhado, sem delongas ou falsa etiqueta, resolveu fazer uma visita de surpresa a fim de realizar a primeira refeição ali.

Depois da alegria demonstrada dos donos da propriedade pela visita inesperada, dos cumprimentos e das bênçãos de Seu Zé Braz Velho e Dona Cantídia, sua esposa, ao afilhado Antônio Marrada, as perguntas tradicionais nesses tipos de chegadas foram feitas, respondidas e o grupo seguiu para se sentar no grande alpendre frontal, onde bancos de madeira maciça davam à parede da grande construção as vezes de espaldar.

A casa já se encontrava movimentada, com gente saindo e entrando e, na cozinha, as tapiocas e outras comidas sendo feitas. O cheiro das carnes e de queijo tomando conta do ar.

Uma boa conversa corria solta e os primeiros raios de sol chegavam ao alpendre, quando alguém anunciou na porta que o café estava pronto.

Os donos da casa, gentis, deram passagem para Seu Bilé e Antônio adentrarem pela sala espaçosa cheia de retratos dos velhos antepassados, passando por uma espécie de saleta para irem todos até uma segunda sala grande, onde a mesa estava posta. Seu Bilé e Seu Zé Braz seguiram bem devagar na frente tratando de negócios, conversando sobre chuvas, sobre gado, sobre safra de algodão… assim chegaram e se sentaram à mesa.

Bolos, biscoitos, cuscuz, leite, coalhada, canjica, pamonha e milho, mais café, frutas, sucos, pães, tapiocas, broas, carnes, ovos… e queijos. Queijos de coalho e de manteiga, já fatiados, cada tipo em sua própria travessa.

Todos começaram a se servir. Numa espécie de ritual puseram o café nas xícaras, trouxeram as tapiocas aos pratos, e foram separando cada um a sua comida.

Antônio Marrada esticou-se até o meio da enorme mesa e pegou a travessa do queijo de manteiga. Trouxe para junto do peito e com um garfo foi depositando as fatias em seu prato. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… a metade!

Já se esticava novamente para devolver a travessa ao seu lugar de origem, quando Seu Zé Braz, vendo o exagero de queijo em seu prato, advertiu o afilhado:

– Antônio, lembre-se que os outros também gostam de queijo.

Nesse momento Antônio já tinha encostado a travessa de volta à mesa, embora não a tivesse largado de tudo. Mas, num impulso, recolheu-a de novo para junto do peito e, empurrando o restante do queijo para o prato, foi respondendo:

– Mais do que eu, eu duvido, padrinho.

Ô medo fila da mãe de ficar sem queijo!

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

D. ELI

Eu quero dividir com vocês uma experiência que vivi ontem, não tão singular assim, mas, que envolveu o meu espírito e me trouxe algumas reflexões.

Não sei se por estarmos nesse período dito como das Boas-Festas, ou porque há dias eu quis desacreditar no futuro e na idoneidade da natureza humana quando vi perdoados R$ 10bi de um “réu confesso”; dinheiro que anda faltando em tantos lares e projetos neste Brasil de corruptos ricos e de honestos paupérrimos.

Minha narrativa começa em agosto quando minha mulher precisou passar por uma cirurgia, e tivemos que contratar alguém para nos auxiliar nas tarefas domésticas por um mês.

Nós fomos apresentados por uma nossa comadre à Sra. Eli (aqui revelo apenas o começo do seu nome).

Embora da minha idade, mais velha apenas dois anos que minha mulher, D. Eli é bem baixinha e traz no corpo as marcas da dureza de sua existência e no rosto as linhas deixando-a como se tivesse a idade de uma década a mais.

Há anos desempregada, D. Eli vive em uma casa sem reboco no subúrbio de uma cidade vizinha à nossa capital. Para vir trabalhar em nossa casa, anda dois quilômetros, pega duas conduções.

O marido desempregado há quatro anos, depois de haver perdido os movimentos da mão direita num acidente doméstico, vive em luta com o INSS tentando receber algum auxílio. Em vão.

Na casa moram mais uma filha do casal – a única carteira assinada, como garçonete num restaurante – e duas netas menores de idade.

Além do dinheiro da filha o capital que entra no lar deles são dos bicos do homem e das faxinas de D. Eli.

Depois do mês aqui em casa, com algumas limitações cognitivas, ainda assim nos afeiçoamos a D. Eli. Nossos filhos criaram carinho por ela também. Tenho certeza que pela simplicidade da pessoa que ela é.

Então resolvemos que D. Eli ficaria vindo de vez em quando fazer um trabalho aqui.

Ontem ela veio.

Muito calada, D. Eli às vezes fala e desabafa em sua voz baixinha. Mas, ontem, com extrema alegria ela embalou em uma conversa para nos contar do orgulho de haver participado de uma homenagem na escola da neta mais velha: a menina foi a melhor aluna do ano.

À tardinha, serviço concluído, agradecemos a D. Eli por sua ajuda e seu cuidado.

Desejamos um Ano-Novo melhor e a abraçamos com carinho.

Fiz o PIX.

Coloquei o dobro do acertado. O que foi passando sendo uma espécie de bônus.

Não lhe falei nada.

Mais tarde a filha de D. Eli ligou para minha esposa.

Educadamente perguntou como estávamos e prosseguiu quase sem deixá-la falar:

– É que eu vim com mãe aqui no banco sacar o dinheiro, e seu marido errou quando fez o PIX. Ele botou “X” – e sem esperar qualquer resposta, ela emendou: – a senhora me dê sua chave PIX que eu quero lhe devolver o que passou.

Minha mulher lhe pediu desculpas por eu não haver falado, e lhe revelou que era um bônus de Boas-Festas.

Então ouvimos a voz de D. Eli nos agradecendo e pedindo a Deus por nossas vidas.

De ontem para cá pensei muito sobre muitas coisas. Entre elas do quanto o nosso povo mais simples carrega em si o preceito do que é correto. Do que é direito.

E chego à conclusão que honestidade não é uma questão de direito. É de caráter.

Muitas vezes onde mais sobra riqueza é justamente onde mais falta caráter.

Pelo ato de D. Eli, ontem, eu vi que há esperança para o nosso povo. E eu não posso desacreditar nele.

Feliz Ano Novo para vocês todos.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

BO(DEG)A LEMBRANÇA

O saudoso Gabriel Severiano, bodegueiro em Acary (RN), terra deste colunista

Tenho muito pensado ultimamente
O progresso às vezes é tacanho
E nos traz prejuízos sem tamanho
Nos deixando mais pobres no presente.
Quantas coisas eu trago em minha mente
Outro tanto o meu peito é quem carrega
E a saudade que em mim nunca sossega
Só me traz coisas ricas do passado
Eu não quero o maior supermercado
No lugar que guardei minha bodega.

Dessas minhas lembranças que são caras
De nenhuma eu quero esquecer
Fecho os olhos somente para ver
Certas coisas que hoje são tão raras.
É memória que a nada se compara:
Uma roda de homens educados
Conversando em nada apressados
E por trás do balcão quase dormindo
Um feliz bodegueiro se sentindo
Como o dono de mil supermercados.

Numa caixa de vidro e de madeira
Ele tinha biscoito, broa e pão,
Afastados das barras de sabão,
Do arroz, do feijão e da brejeira.
Tinha açúcar, farinha e peneira,
Margarina, sal fino e chinelas,
Penduradas no teto umas panelas
Sobre vinhos, cachaças, aguardentes,
Frisos, ligas, marrafas e dos pentes
Noutro canto pendiam mortadelas.

Uma faca comida pelos anos
Enfiada na barra de sabão
Era amiga do fumo, lá no chão
Repousando em rolos sobre panos.
Na entrada eu via dois bichanos
Bem deitados no meio do portal
Tinha um maço cortado de jornal
Que servia de embrulho num momento
Para não se perder no vem do vento
Repousava seguro sob um pau.

No balcão de azuis já renovados,
Alguns cremes, perfumes de bons cheiros,
Brilhantinas, espelhos e isqueiros,
Cada um por um vidro separados.
Os cigarros ficavam bem guardados
Mas, com uma carteira a granel
Tinha agulha, tesoura, carretel,
Mais os fósforos… vela, lampião!,
Vermelhando o azul desse balcão
A balança honesta em seu fiel.

Numa peça de vidro que rodava
Os confeitos e doces, mais chicletes,
Chocolates baratos em tabletes,
Pirulitos ali também se achava.
No cliente o dono confiava
E nem sempre vendia no dinheiro
Se por cofre se tinha o gaveteiro
Escondido num canto do balcão
A palavra valia tal cartão
E por pix a fé do bodegueiro.

Lá no teto, se olhar atentamente,
Vejo até na lembrança me tomando
Uma aranha sem pressa projetando
Um tear de saudade em minha mente.
Tudo isso eu vejo no presente
Me chegando em pontos bem lembrados
Como um velho caderno de fiados
Caderneta escrita no guardar
A bodega gostosa de lembrar
Que não dou nem por mil supermercados.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

APELIDOS

Quando um dia você for em Acary, pouco adiantará perguntar por José Euzébio da Silva. E Francisco Sales da Silva? Nem adianta inquirir sobre Maria Auta de Sousa?

Todos esses aí têm apelidos, e é sobre os apelidos que eu quero falar.

Numa cidade pequena eles são comuns. Afinal, todo interior é igual. Aqui em Acary não é diferente e tem para todos os gostos, entre vivos e mortos, passado e presente. Quer ver?

Só no reino animal teríamos: Gata, Boi Galego, Mosquitinho, Carneiro, Bode, Gavião, Carcará, Rôla Cigano, Baratinha de Kéca , Pinto de Granja, Barata, Gabiru, Rato Bala, Ratinho, Foca, Tejo, Leão, Leitão, Urso, Aranha, Piranha, Patin de Elói, Grilo, Peixinho, Caçote, Piaba, Sapo, Morcego, Macaco, Galo Véi, Porquinho, Cabra Cega, Furão Barbino, Zé Guiné, Novilha, Burrego, João Grilo, Tourin, Galo Assado, Mosquito de Viria, Mané Galinha, Cão-não-morde, etc.

Aí, se a categoria for geral, lá vem: Sapato, Prego, Caitipa, Cu Cagando, Novo, Dão Velho, Tonéa, Gueitão, Lorin, Tola, Tanga, Baía, Íti, Gaguin, Farinha, Cuscus, Bombom, Mestre, Tita, Ema, Lula, Bóca, Babau, Bola, Nego, Seú, Fifin, Pão, Bura, Pinta, Botinha, Vareta, Pacanã, Loro, Trem Virado, Puruega, Cuia, Zibéu, Zé Brinco,Tabaco de Bode, Tabaco de Alumínio, Tabaco de Pau, Leca, Bada, Lelinha, Zé Buíte, Baco, Ôi Pidão, Paraná, Tanda, Biu, Duau, Neguin, Zinha, Fia, Bugrão, Rutin, Hominho, Loló, China, Tota, Papinho, Nadim, Tucão, Boy, Bolo Preto, Pacuíte, Carranca, Pezinho, Shortinho, Pitena, Deusinha, Tuvado, Roleta, Pixilinga, Dioca, Bitira, Boneca, Cebolinha, Buíta, Capela, Nino, Pitola, Gorda, Baiaca, Toquinho, Tuíca, Brilux, Gardo, Cutila, Balá, Sinagoga, Novinha, Tutinha, Chico do Grude, Lamparina, Buá, Aruá, Juá, Dudé, Tenoca, Bia, Dida, Caco Véi, Pitoco, Guriba, Suvelão, Brinquedo, Bigodin, Dora, Garapa, Mima, Bidoca, Inháu, Pelé, Zico, Garrincha, Sukita, Binha, Geba, Loloca, Rivinha, Tíu, Pitíu, Nenén Bascúi, Brejeirim, Big Big, Chiola, Zé Tampinha, Lilía, Veinho, Chorento, Pimba, Dig, Paizinha, Taí, Nuna, 3 Kilos, Pindoba, Bila, Uau, Chapuleta, Apaga Luz, Canjerê, Zé Cocó, Gugué, Dila, Nineca, Caboré, Cara Suja, Macola, Guaxelo, Guaxite, Bebé, Leleco, Ki Coisa, Zé Mandu, Tronco, Zé Mundrunga, Pilão, Ganga, Surrupei, Coquinho, Paluca, Mucamba, Piba, Pirola, Côta, Dodó, Melé, Bonitin, Bobina, Arranhado, Frequé, Guaxinin, Uivé, Cherin, Gordo, Suvaqueira, Faca Cega, Brigadeiro, Pililiu, Manga Rosa, Xôxa, Castelo, Bimbo, Piau, Cara Cuta, Zé Caveira, Bóin, Roseira, Bagaceira, Quíria Biscoito, Pipim, Cascatinha, Pão de Bóia, Batatinha, Tenente, Sol Quente, Coronelzin, Lua, Blecaute, Chiclete, Peninha, Zé Birro, Goipada, Titina, Varetão, Popinha, Muela, Meu Cacete, Nozinho, Candoca, Pompom, Guchinha, Racego (emenda de rato com morcego), Doutô, Lota, Espirro, Furico (também chamado de Cuzin), Popó, Guelão, Espaia Brasa, Gilú, Careca, Gabilão, Camonge, Rasgão, Keto, Tuíca, Má Feito, Lampadinha, Lanchão, Pixototin, Duduca, Come Longe, Guidome, Carrasco, Babalu, Boy Tico, Querida, Bino, Cheirosa, Pintado, Cabôco, Da Lapa, Nuca, Liú, Catolé, Pilóia, Pernambuco, Ditinha, Perna Santa, Brancoso, Bineca, Aritana, Chicola, Sebin, Zomim, Chica Preta, Bebe Água, Cambeba, Espigarto, Zé Oião, Parêia, Quincó, Tulu, Gambêu, Bufa de Alma, Maria Mosquito, Pedro da Porca, Pedro da Ponte, Antõe Oião (também conhecido por Capela de Vaca), Bolacha, Priquito de Pau, Bidoca, Couro Cru, Bia, Caçarola, Papêro, Papêrim, Bilocão, Quixaba, Tílio, Lindo, Divino, Lóla, Lindreza, Mané Golinha, Guardinha, Bião, Sunga, Curinga, Brécia, Barbinha, Buda, Pacato, Cruel, Anil, Punaré, Guiô, Buéca, Cria, Déo Porreta, Bizéu, Nôin, Decate, Cióba, Tantão, Burdão, Carrasco, Bióta, Guaru, Tramela, Caneludo, Cocó, Primin, Pequeno, Suruca, Cizal, Coqueiro, Peruquinha, Mocinha, Tantico, Gotinha, Dedé Testão, Bulú, Santa, Bidu, Santo, Xaréu, Donzela, Cenourinha, Polaco, Manchete, Espirro, Coceira, Moleza, Baca, Mimosa, Chiquinha Ventura, Caçarola, Caldeirão, Uver, Meu Bonito, Balão, Dã de Deca, Boca Torta, Zé Dedão, Dom Ratão, Perneta, Lebrin, Nitona, Pozinho, Zé de Tuda, Candura, Sobrinha, Biró Belém, Saigado, Inçoso, Docin, Zé Destão, Li Cocão, Póca, Atinha, Butija, Vaqueirão, Piolho, Bufeira, Xupa Cabra, Parrudo, Pêinha, Lambe Loiça, Rural, Cafífi, Galetão, Xexéu, Goiamum,Tabajara, Mossoró, Lofreu, Cibite, Baique, D. Efa, Sucata, Xuxinha, Rinha, Nôca, Charuto, Tesourinha, Bezerrinha, Fungado, Floquim, Renato Rico, Chei de Prega, Burro Preto, Cebim, Grachielli, Famfam, Urêa, Ze Bio, Pilola, Presença, Badraba, Mucuin, Papai Oião, Zé Oião, Pente, Tico de Campinadeira, Bilau, Miolo, Toinho Quixó, Bodeiro, Novin do Brega, Deíta, Méda Véi, Pitita, Sorriso, Capitão Caverna, Quenebau, Tampa, Bague, Senhora, Pororoca, Cabelouro, Guigúi, Ponxe, Zarôi, Formigão, Murubinha, Corujinha, Cacuruta, Piquinita, Biritinha, Papagaio, Torrão, Zé do Peido, Fulor, Bitir, Vituca, Trapiá, Aima de Boi, Xirrarrá, Beiçola, Misto, Canção, Catemba, Mª Brejuí, Cafuçu, Cafuringa, Bad Boy, Mil, Piano, Contente, Muriçoca, Biúla, Minador, Trombada, Panteiga, Jararaca, Relampo, Bigodin, Haja Peido, Cristo do Bode, Chica Vintém, Güelo, Torrado, Vara Verde, Milioito, Bigobáu, Boréu, Rasga Olho, Mulambo, Rerré, Borrão, Bigodão, Cachimbão, Cachimbo Eterno, Suvaco, Bebin, Braiado, Muquéi, Dondom, Rei de China, Chuí, Móca, Zóca, Cabo Véi, O Grande, Coucoá, Quingó, Galamprão, Alça, Neco Quarador, Zé da Prestação, Gandinha, Xulêga, Jati, Didin Anão, Zé Moita, Queléu, Zaga, Breguesso, Chupa, Capacete, Cascudo Barbado, Júnior Cururu, Daguia Peba, Maria Bacurau, Câinda, Chico Buriti, Manduca, Palito, Baixinho, Tapuia, Paulo Poiqueira, Trubana, Zé Minhoca, Gambão, Alemão, Fuscão Preto, Rela o Prego, Pirulito, Primoca, Bilrin, Amigão, Caca, Ramin, Zé Bola, Gaída, Quick, Puiga, Gorducho, Dezinho, Fanquinha, Cigano Rôla, Chupa, Baixinho, Biruca, Tupete, Ladeira, etc… etc… etc…

Tem famílias que adotam apelidos em quase todos os seus filhos.

Lá em Zé Mariano, por exemplo: Zé Velho, Bebé, Téu, Cola, Menininha, Galega, Deda, Preta, Bolinha gêmea com Bolão e Santo.

E tem famílias que adotam apelidos como sobrenome, os Mago, os Guiné, os Mororó (parte da família Marques), os Peba, os Côco, os Maranganha (quando não morde abocanha), os Nêgo Félix, os Pinéus, os Januário, os Cuscus, os Tacaca (com orgulho sou um deles), os Muelas, por exemplos.

Tem até gente que ganha apelido e passa a ser conhecido como um astro, como era o caso de Beto Barbosa (Claudinho de Tantico) e Elba Ramalho (Gargalheira).
Mas, você deve estar se perguntando quem são as pessoas acima tratadas por nomes próprios? Bom, o José Euzébio é o meu pai, ou seja, Miúdo. Francisco Sales, era meu Tio Lolô. E quanto a Maria Auta de Sousa, foi a saudosa Dona Tum.

Numa cidade onde os apelidos são tão usados, até as praças ganham esse destaque. Não há quem passando por perto da Praça Antão Lopes de Araújo, não aponte para dizer que ali fica a Praça da Caraca.

PS.: Os apelidos acima são todos aceitos por seus donos. Ninguém se ofende. Ao contrário, há gente que quando é chamado pelo nome nem atende. Esqueceu de como fora batizado.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

EQUILÍBRIO

Meu caminho eu faço no equilíbrio
Sobre a corda da vida vou andando
Cada passo que dou venço um medo
Contra tudo e todos vou lutando
Muitas vezes alguém vem sabotar
E eu sinto a corda se quebrar
Mas, não temo meu corpo desabando.

Certa mão poderosa me amparando
– Toda vez que a corda se partiu –
Fez inútil, porém, essa artimanha
E na queda essa mão me assistiu
Nova corda esticou ante meus passos
Me ordenando “não olhe os seus fracassos,
E nem lembre das vezes que caiu.”

Assim eu sigo me equilibrando.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DR. FELU

Félix Bezerra de Araújo Galvão, o Dr. Felu em sua intimidade, era homem de princípios e conceitos caros, de pensamentos e gestos nobres, além de possuir firmeza única em suas convicções.

Nasceu no Sítio Pendanga, município de Acary, aos dezoito dias de maio de 1884 e faleceu em Natal no dia 22 de outubro de 1984.

Entre uma data e outra viveu de forma austera e dando orgulho ao povo que lhe viu crescer.

Concluiu o curso primário em sua cidade Natal no ano de 1900 pelas mãos do Professor Tomás Sebastião.

Para fazer o secundário foi residir na capital potiguar, onde estudou no Atheneu.

Se formou em 1911 na Faculdade de Direito Afonso Celso, no Rio de Janeiro.

Voltou às suas origens para ser Promotor de Justiça começando por Acary e, depois, por várias outras cidades do interior potiguar.

Dr. Felu também exerceu o cargo de Juiz de Direito em algumas comarcas do estado, inclusive na capital, havendo sido promovido a Desembargador em 1944.

Em 1952 foi eleito presidente da mais alta corte de Justiça do estado.

Certa vez viajava da capital para o seu interior quando resolveu parar no meio do caminho para fazer a barba.

Entrou na barbearia, deu bom dia aos presentes, anunciou o serviço que queria e sentou-se na cadeira.

O barbeiro cobriu seu rosto com um pano aquecido, demourou-se um pouco mais afiando a navalha, preparou a espuma e finalmente começou a espalhá-la no rosto do cliente.

De olhos fechados Dr. Felu ia sentindo o pincel deslizar em sua pele.

O barbeiro segurou seu rosto com uma das mãos e iniciou o trabalho com a navalha, puxando em movimentos lentos de baixo para cima no pescoço do homem sentado.

De repente lhe falou:

– O doutor é Promotor de Justiça e se chama Félix Bezerra. Né isso?

Dr. Felu assentiu com um “sim” pelo canto da boca, sem abrir os olhos.

O barbeiro continuou puxando a navalha enquanto falava meio pausado.

– O doutor não deve ter me reconhecido – disse abaixando um pouco a voz. – Mas, eu sou aquele réu que o doutor condenou a doze anos de prisão…

Parou de puxar a navalha ao lado da aorta de Dr. Felu. No entanto não pode continuar sua fala. Foi interrompido pela voz firme do cliente, abrindo os olhos e encarando-o:

– Eu fiz a minha obrigação no que era preciso ser feito. Agora faça a sua. Termine a minha barba.

Quatro horas depois Dr. Felu chegava em sua cidade Natal, esmeradamente barbeado, onde contou a história.

Foto cedida gentilmente pelo Historiador Cícero Araújo

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

DE CONVERSAS QUE ME INSPIRAM

Ontem na fila do almoço do Hotel Aram Imirá Beach Resort, onde eu estava dando um treinamento para a equipe comercial do nosso distribuidor aqui do Rio Grande do Norte, testemunhei uma conversa exageradamente engraçada. E constrangedora também.

Uma senhora à minha frente trazia uma tatuagem nas costas, na altura da “par direita”, como diria minha querida Tia Santa. Era um rosto um tanto quanto esquisito em virtude do enrugamento natural daquela parte do corpo, quando carne e pele não conseguem mais resistir aos poderes da famosa Lei de Newton e descem das costas como se quisessem fazer parte de outra parte.

Abaixo desse mesmo rosto havia ainda a criação de John Wallis, contemporâneo do mesmo Newton, ou seja, havia o número “oito deitado” sobre um coração, simbolizando “amor eterno”. Foi assim que eu interpretei.

Já pelas cores desbotadas dos desenhos, eu vinha calculando a idade da tatuagem em uns… quinze anos. No mínimo. O que coincidia com a segunda data tatuada ao lado do coração: 2008. A outra data era 1958 sobre duas argolas que eu entendi como alianças. As datas eram separadas pelo coração.

Toda essa arte simbólica sendo imprensada e um pouco descaracterizada pela ação do tempo.

Ela, digo, a senhora, servia-se da feijoada quando um senhor bem atrás de mim – aliás, apenas eu os separava – conversou animado e em tom de admiração:

– Nossa como a senhora é fã do Amigo da Onça. Até tatuou o rosto dele nas costas!

Eu não sei quantas vezes aquela senhora é abordada com tal comentário; mas, ela virou-se tão rapidamente que temi sua feijoada caindo do prato sobre os meus pés e dei, por puro reflexo, um passo atrás, deixando-os frente à frente.

– Fala comigo? – ela perguntou altiva.

O senhor respondeu que sim, acrescentando que na infância adorava as piadas do Amigo da Onça.

Eu vi o rosto da senhora se contrair, acentuando ainda mais as rugas na pele branca. Com um sotaque que muito me pareceu ser do outro Rio Grande, ela respondeu:

– Pois, saiba o senhor que este rosto é do meu saudoso marido Péricles – e concluiu demonstrando bastante chateação – seu indelicado!

O senhor olhou para mim com um misto de vergonha e decepção no olhar, enquanto a senhora saiu irritada da fila para se sentar uns quatro metros à nossa frente.

– Rapaz, que coincidência! O Péricles dela era a cara do personagem do outro Péricles – ele falou quase num cochicho.

Eu ri um pouco por fora, segurando como pude a gargalhada querendo explodir do meu peito.

– Aqui para nós dois – baixei o tom de minha voz ao nível da dele, pisquei marotamente um olho e lhe confessei – eu também jurava ser uma homenagem ao Amigo da Onça.

Ríamos juntos quando um turista gritou lá atrás “anda a fila”.

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

PETER PARKER

Quinta-feira passada no café da manhã do hotel em João Pessoa, um lugar de pouco espaço entre os móveis, um garotinho aparentando seus cinco anos corria desembestado – como diria o povo lá de nós – entre as cadeiras repletas de turistas vindos em uma caravana do Sul.

O pai, sentado à mesa com a mãe, apenas reclamava de leve quando o menino passava próximo de onde estavam, chamando-o pelo nome:

– Heitor!

Depois dizia sem ser ouvido pelo filho um “você cai” meio sem graça.

Do meu canto eu ficava vendo o menino “tirar fino” nas mesas, nas pessoas e na ilha de comidas expostas, esperando só o grito de alguém e torcendo para ninguém se machucar. Torcer era tudo que podia fazer.

Uma senhora levantou-se no corredor central. Nas mãos uma xícara e um prato.

Não deu tempo de desviar. Na carreira que vinha o menino bateu na lateral do seu corpo. Xícara e pratos no chão. Por sorte a senhora foi amparada por alguém.

– Heitor!

O pai se levantou e agarrou a criança brutalmente pelos braços.

– Não se levante mais daí – vociferou jogando literalmente o filho numa cadeira. – Está me ouvindo? – perguntou irritado.

A esposa se limitou em dizer que havia avisado.

Eu fiquei pensando por que ele não tomaram uma atitude antes?

Heitor ficou sentado ao meu lado direito, com os olhos marejando.

Lembrei-me dos meus dois netos. Especialmente de Levi, com quem o menino do hotel guarda certa semelhança.

Fiquei pensando que aquela criança não tem nenhuma culpa do despreparo dos pais. Talvez sua desobediência seja apenas “um produto do meio”. Bateu um dó em mim…

– Oi, Heitor – puxei assunto.

Ele me olhou desconfiado e voltou-se ao pai, como se quisesse dizer “esse desconhecido está falando comigo”.

– Fala com o tio – compreendeu o pai.

– Oi! Eu sou o Heitor – ele respondeu com os olhos ainda muchos de vergonha.

– Seu nome é bonito. O meu também é.

– Como o tio se chama? – Quis saber.

– É um segredo. Se eu lhe contar promete não falar para ninguém? – aticei sua curiosidade.

– Prometo! – respondeu já se animando com “o segredo” e esquecendo o ocorrido.

Olhei para os seus braços. Estavam vermelhos. As marcas dos dedos do pai em sua pele branquinha.

– Promete mesmo?

– Sim!

O sim dele já veio recheado por aquela ansiedade própria das crianças.

Então. Eu me voltei para o seu lado, inclinei meu tronco e falei arregalando um pouco os meus olhos, como se revelasse algo muito importante:

– Peter Parker.

– Ô pai, o tio é o Homem Aranha! – Seu grito ecoou pelo restaurante. – O Homem Aranha, pai!

– Ssiu! Não fale alto, Heitor. O Duende Verde pode estar aqui – pedi pondo meu indicador nos lábios.

– Certo. Certo!

– Agora somos amigos – falei com a mão fechada para ele bater.

Seus olhos já eram todo alegria.

Eu amo fazer essa brincadeira do Homem Aranha com crianças.

E Heitor comeu sentado, educadamente e sem mais contratempos.

À noite o pai de Heitor me revelaria que ele passou o dia todo pedindo segredo às pessoas, e confessando quase cochichando:

– Eu sou amigo do Homem Aranha.