Homenagem deste colunista para o Açude Gargalheira, 3ª Maravilha do Rio Grande do Norte, que há treze anos não transbordava.
De em ti deitar meus olhos O meu olhar não se cansa Percorro teu corpo todo Até onde a vista alcança Tua beleza é completa E à vista deste poeta És portal de esperança.
Contigo meu olho dança No verde te rodeando Na água te invadindo No concreto bloqueando Nas serras que são teus braços Por todos esses teus traços Sigo te admirando.
Do meu querido Acary Eu canto sua beleza Algumas obras dos homens Outras da Mãe Natureza Canto o velho e canto o novo Canto também o meu povo A nossa maior riqueza.
A mais formosa represa Entre serras está deitada O Açude Gargalheira De esperança renovada “Dá gosto de se olhar” Pois, parece até o mar Sua água abençoada.
Nossa fé foi aprovada Desde os tempos de outrora Manoel Esteves de Andrade Construiu sem mais demora Um templo pra devoção De louvor, de oração Erguido à Nossa Senhora.
Virgem do Rosário agora Tem templo na freguesia Mas outra igreja se fez Pois, a cidade crescia E o povo muito feliz Construiu uma Matriz À Nossa Virgem Da Guia.
Nossa cidade é magia É orgulho, é paixão, Na limpeza de suas ruas No exemplo de educação Do velho Grupo Escolar Onde o prazer de estudar Era quase devoção.
Por isso eu ergo a mão E digo a Deus “obrigado” Por essas tão belas serras Por este céu azulado Por cada nova manhã Por nosso Rio Acauã Que há muito tem nos banhado.
Um riacho represado E um açude se criou Com nome “Das Oiticicas” Porém, “Da Santa” ficou Por estar nas terras dela E a sede, nossa mazela, Por muitos anos matou.
No centro homenageou Dois homens lá do passado Com o busto do coronel Silvino homem respeitado E Otávio, o corajoso Homem forte e brioso Brutalmente assassinado.
Outro lugar festejado É o nosso belo museu À nossa gente lembrando Da História, o lugar seu Casa de Câmara e Cadeia Hoje o museu nos norteia Tudo que nos pertenceu.
Já se comprou e vendeu Naqueles velhos mercados Construídos como um só Porém, depois separados Se um ficou na estrutura O outro a arquitetura Fez seus traços reformados.
Temos também os sobrados Três ao todo, na verdade, São três raras construções Nos evocando a saudade Dos tempos de antigamente E hoje em dia, no presente, Enfeitam nossa cidade.
Foi Deus quem, por caridade Me fez crescer em Acary Lugar de raras belezas Da gente melhor que vi E a Deus vou agradecendo Por me deixar ir vivendo E por ter nascido aqui.
Eu também me atirei do mesmo jeito Nos abraços dos braços de Maria Lambuzei-me do doce da orgia Bem mais doce que doce de confeito Vi meu peito batendo no seu peito Num compasso de gelo se quebrando Eu gostando do beijo, ela gostando E o romance rondando o lugarejo Eu senti seu amor naquele beijo E até hoje seguimos nos amando
Inspirado na extraordinária glosa acima, do poeta tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira – porém, como sou fã de versos hoje em dia chamados de “sofrença” – eu imaginei uma situação ao contrário e escrevi a poesia que ora segue abaixo.
DESPEDIDA
Fim de tarde você me abandonando Me dizendo “adeus e fique bem” Eu calado, na dor, virei refém Do olhar que lhe dei se afastando. Eu confesso também fiquei chorando Abraçado ao passado com carinho Escorrendo do olhar, como um espinho, Certa água furando o meu rosto Você foi e eu fiquei a contragosto Me lembrando que agora estou sozinho.
Você não sabe quanto eu chorei.
“Vá em paz” você disse e foi embora Eu sozinho na rua atordoado Sem saber onde ir, ou qual o lado Deveria seguir naquela hora. O passado apenas me escora Me ampara de vez na solidão Pois, por mais que você diga que não Eu ficava feliz quando voltava E a você, meu amor, eu me entregava Como sendo só seu meu coração.
Você não sabe quanto eu chorei.
Mas agora acabou. O que fazer? Lhe desejo também que vá em paz E o destino brincando uma vez mais Eu lhe juro não vou mais lhe perder. Só me resta saudade e escrever Alguns versos compostos de lamento E viver de momento em momento Sem saber o que a vida nos reserva Guardarei no meu peito, em conserva, Meu amor, meu mais nobre sentimento.
Eu me lembro daquela tarde quente de um fevereiro no calendário perdido no registro do ano. Não da minha mente.
Nós tínhamos acabado de almoçar, e os pratos ainda repousavam sujos sobre a mesa.
Era meu aniversário e nada demais havia sido feito para aquela refeição. Tampouco existia em mim qualquer expectativa de presente. Papai sentado à mesa, na esquina do móvel, limpava uma laranja girando-a contra a faca, sem deixar se romper a casca. Eu balançava os dois cubos de gelo no fundo do copo, numa água levemente avermelhada do restante do suco sem graça de beterrabas.
De repente ele parou, deixou a casca totalmente retirada no prato e olhou para mim.
Do nada começou a me falar. Senti nos seus olhos calmos a necessidade de me repassar algo.
– Nunca deixe de colocar um parafuso no lugar do prego, quando quiser que a madeira fique mais segura.
A minha juventude não me deixou compreender muito bem aquela alegoria. E ele continuou:
– É sempre mais difícil extrair o parafuso.
Na inquietude de todo jovem, que se alia com a curiosidade própria da idade pouca, eu lhe perguntei “por que o senhor está me dizendo isso?”
Metade da laranja estava ocupando a sua fala. Seus olhos me passaram a mensagem “espere! Já, já eu digo”.
Um silêncio mastigado durou alguns segundos, talvez minutos, enquanto as sementes eram jogadas para fora da boca para a mão dele.
Antes de colocar a outra metade da laranja na boca ele piscou os olhos algumas vezes, olhando pela janela da cozinha aberta para o nosso muro.
– Não sei bem. Só não esqueça. O parafuso dá mais trabalho para entrar. Mas segura muito mais.
Disse isso, colocou a outra metade da laranja na boca, se levantou e saiu.
Nunca mais tocamos naquele assunto, ou falamos sobre algo que fizesse aquele conselho ter algum sentido. Nunca mais.
De vez em quando eu lembrava aquela cena, e um parafuso de incompreensão me tomava o raciocínio.
Até ontem eu não tinha a mínima ideia do que deveria pensar sobre a estranha conversa jamais esquecida em seus pormenores.
Hoje cedo estávamos sentados na calçada da mesma casa e eu tenho a idade que ele talvez tivesse à mesa naquele dia; Papai agora é um homem idoso com Alzheimer, sem a compreensão do que eu represento para ele e, se não fosse o tom sério emprestado à sua fala de vez em quando, eu não poderia dizer que a sua consciência é a do pai que me criou.
Assobiava algo alegre e eu olhava para o seu perfil. Tamborilava no braço da cadeira de plástico e eu olhava o seu perfil.
Do nada, como se um fragmento de qualquer tempo tivesse sequestrado a sua consciência por alguns instantes, ele se virou para mim e disse.
– O cabra só se apresenta parecido com quem ele acompanha.
Eu refleti urgente que Papai estava, do seu jeito, querendo me dizer “diga-me com quem andas, que eu te direi quem tu és”.
Mal deu tempo da frase ser completada em minha mente, ele virou o rosto para a frente e terminou:
– Por isso o sujeito só deve se acompanhar com madeira que segure parafuso. A amizade é de verdade e segura.
De onde Papai tirou isso?!
Não sei. Mas, por alguns segundos eu vi ali o emblema moral do meu velho pai.
Sim! Ali estava meu pai. Se ele não tem essa consciência, eu a tenho.
Doravante, Papai, não apenas nas relações de amizade, mas, em tudo buscarei por madeira que segure parafuso.
Semana que vem farei cinquenta e três anos. O presente veio adiantado.
Seu Moço, meu carnaval Eu brinco só na vontade Ouvindo o som do passado Bailando sobre a cidade Marchinha, frevo e samba… Hoje meu passo descamba Na folia da saudade.
Seu Moço, hoje me invade Um bloco de nostalgia Cantando um samba enredo Na avenida da alegria A letra diz que restou Naquele jovem Pierrot Só saudade da folia.
Carnaval sem euforia Sem pandeiro, tamborim, Sem treme-terra, agogô… Seu moço, hoje é assim: O surdo sem marcação Esvaziaram o salão Já não chora o Arlequim.
Sinto falta do cetim Da ilusão por fantasia Dos confetes, serpentinas Do apito que fremia… O lança não me apraz Eu penso nem sentir mais A saudade da folia.
Porque sem toda magia Da batucada contida Naqueles dias, Seu Moço, Essa saudade sentida É folia repentina Passista tal Colombina Que passou na avenida.
Um dia puxa um outro Que puxa um outro dia Na roda viva do tempo Seu eixo é pura magia O seu motor jamais cessa E o tempo cumpre a promessa De passar, não se desvia.
Afinal, quem nos diria Quem rola a roda dos anos? Ou onde está escrito, Do tempo, todos os planos? Se o destino vem traçado Nele tenho registrado A minha salva de enganos.
Por meus tiros mais insanos O tempo abre feridas São chagas em minh’alma, Medonhas, tão doloridas Como eterna endecha Que o tempo abre e fecha Em rimas não repetidas.
Nesse corpo divino e sensual Viajei até alta madrugada.
O mote abrindo hoje esta coluna é de autoria do poeta Fernando da Bodega.
Eu o recebi do tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira, pelo WhatsApp, com os seguintes versos:
Quando eu era feliz eu dirigia Contornando teus pontos divinais Mapeando na mente teus sinais Carregando prazeres na orgia Comulei muito afago nesta via Sinuosa e de curva acentuada Beijo longo, gemido, mão suada Nossos corpos inertes no final Nesse corpo divino e sensual Viajei até alta madrugada.
Glosando o mesmo mote, eu lhe enviei os versos meus:
Desejei viajar e acelerei Pela mesma estrada, à exaustão, Na boleia da cama a sensação De que horas sublimes transportei. Quantas vezes eu me aventurei Na delícia que é essa estrada Uma faixa contínua liberada De paixão, de prazer, de amor carnal Nesse corpo divino e sensual Viajei até alta madrugada.
Quando eu me encontro com Zé Bola, filho do velho e inesquecível Muquêi, se é dia vira noite e se é noite vira dia.
Nós conversamos sobre as coisas da terrinha por horas e as risadas são a energia para a prosa se sustentar por si, tudo arrimado nas melhores lembranças do nosso maior patrimônio: as coisas e os fatos retirados do meio do nosso povo mais humilde em sua simplicidade mais genuína.
Encontrei hoje em minhas rabiscadas que há cinco anos eu tive a satisfação de encontrá-lo instalando uma lâmpada na casa de Marluce Nogueira, viúva do meu Tio Ema e ex-sogra de Diana, essa a filha mais velha de Zé.
Os meus rabiscos me dão conta que naquela oportunidade a prosa começou no quarto escuro, continuou com o mesmo iluminado, passou para a sala onde as mulheres conversavam, foi para a área, desceu para a calçada e subiu para terminar umas três horas depois no calçamento da Rua Cipriano Pereira.
Causo daqui, causo de lá, apresentei a obra de Jessier Quirino e lhe falei com orgulho da minha amizade apenas – mas, apenas por enquanto – virtual com Zelito Nunes (que no outro dia jogaria mais sementes de cultura, com o lançamento do quarto livro, no solo fértil das almas matutas), dois exímios contadores de estórias e histórias da gente sertaneja.
Pois bem, e de causo em causo fomos ficando ali no meio da rua, mesmo depois da impaciência das nossas mulheres ter levado ambas, cada uma para a sua casa.
Daí, que Zé Bola, também um bom contador de anedotas e um cabra de lembrança apurada, contou-me uma história pela qual eu desenvolvi especial carinho por se tratar de mais uma presepada de Brechió, de quem, aliás, já falei aqui em outra oportunidade.
Brechió, apenas para relembrar, sofria de certa fraqueza na cabeça, doença que lhe acometia vez em quando. Sentindo o tal “aperto no juízo”, de conta própria pedia ao delegado de Acary para passar uns dias na cadeia, de onde geralmente saía curado vinte e poucos dias depois. No entanto, algumas vezes o internamento em uma casa especializada se fazia necessário.
Em uma dessas vezes, Brechió ficou amigo do Doido da Lanterna. O sujeito era um mossoroense de boa família que, em sua loucura, virava caçador de OVNI’s apontando à noite para o céu escuro o facho de luz de uma potente lanterna.
Como era sujeito de temperamento calmo, assim como Brechió, lhe era dado o direito de ir ao pátio à noite, lugar onde pela manhã os internos tomavam banho de sol. E isso, digo, esse livre acesso, se dava até para poder acalmar a sua ansiedade em encontrar um OVNI e derrubá-lo com a luz da lanterna, da qual não se separava nunca!
Pois bem, contou-me Zé Bola de haver ouvido de Brechió a seguinte história.
Noite escura, luzes da unidade apagadas e no meio do pátio o mossoroense de lanterna em punho, porém desligada. Brechió foi se aproximando. Quando chegou ao lado do colega, o mesmo ligou a lanterna e apontou para o céu. O facho de luz se abrindo e se perdendo na imensidão.
– Tem coragem? – perguntou a Brechió.
– De quê? De matar um bicho de outro mundo? – inquiriu o outro.
– Não. De subir aí – respondeu o mossoroense, acompanhando com um movimento do dedo indicador da outra a mão a claridade feita numa reta quase perfeita se abrindo no espaço, apontando para o facho de luz saído da lanterna e se perdendo escuridão acima.
– Ter eu tenho – respondeu Brechió. – Mas você tá achando qu’eu sou doido, tá?
– Oxente! – Por quê?
– Eu subo, né?, e quando eu tiver lá em cima bem tranquilo, tu vai apaga e eu, ó – falou jogando os dois braços para frente – timbungo no chão e me lasco todinho – respondeu Brechió e acrescentou saindo para o quarto onde dormia: – Sou doido, não, mô fie.
Não era mesmo não. Mas, que tinha coragem de subir, isso tinha.
A fartura na mesa do seridoense é coisa conhecida aqui, ali e alhures. É próprio do nosso povo uma mesa cheia com diferentes tipos de comidas, doce e salgados postos para uma mesma refeição. Não importa a hora do dia, a mesa do seridoense é feito exército em tempos de guerra, está sempre ali, pronta para ser usada.
Em recente viagem ao Rio de Janeiro, na casa de uma seridoense, aliás, em sua cozinha, eu fui praticamente obrigado a fazer duas refeições em menos de três horas. Ouvi da boca da dona da casa a afirmativa que “no Rio quando chega uma visita, eles fecham a porta da cozinha. O seridoense não! Escancara a dispensa e parece, até, querer matar o visitante pela boca”. Sônia de Chico Velho foi quem me despertou para isso tudo, apesar de eu já saber há tempos da fama das nossas mesas.
Tal fato, das mesas fartas, vem de longe sendo apreciado. Não sei bem quem foi o autor – Chico de Seu Bilé me garante que foi o “doutor” Juvenal Lamartine, em seu livro Velhos Costumes Do Meu Sertão -, mas, ainda na primeira metade do século passado alguém escreveu que a mesa de José Braz do Talhado, o primeiro do nome, era a mais farta do Seridó.
E era! Ainda segundo Chico de Seu Bilé, sobrinho do dono da casa, lá se costumava fazer quatro refeições diárias. O café servido antes das seis e meia, o almoço estava à mesa antes do meio dia, a janta vinha pouco depois das dezesseis horas e, por fim, a ceia por volta das dezenove horas no máximo.
Do mesmo Chico ouvi a história que passo a narrar agora.
Seu Bilé acordou cedo para ir às compras em Currais Novos, cidade onde também fecharia alguns negócios. Combinara com Antônio Marrada essa ida.
O sol ainda, não mostrara a cara e repousava frio quando pegaram a camionete, e arribaram em busca da cidade vizinha.
No meio do caminho Seu Bilé sabendo da mesa sempre posta na casa do cunhado, sem delongas ou falsa etiqueta, resolveu fazer uma visita de surpresa a fim de realizar a primeira refeição ali.
Depois da alegria demonstrada dos donos da propriedade pela visita inesperada, dos cumprimentos e das bênçãos de Seu Zé Braz Velho e Dona Cantídia, sua esposa, ao afilhado Antônio Marrada, as perguntas tradicionais nesses tipos de chegadas foram feitas, respondidas e o grupo seguiu para se sentar no grande alpendre frontal, onde bancos de madeira maciça davam à parede da grande construção as vezes de espaldar.
A casa já se encontrava movimentada, com gente saindo e entrando e, na cozinha, as tapiocas e outras comidas sendo feitas. O cheiro das carnes e de queijo tomando conta do ar.
Uma boa conversa corria solta e os primeiros raios de sol chegavam ao alpendre, quando alguém anunciou na porta que o café estava pronto.
Os donos da casa, gentis, deram passagem para Seu Bilé e Antônio adentrarem pela sala espaçosa cheia de retratos dos velhos antepassados, passando por uma espécie de saleta para irem todos até uma segunda sala grande, onde a mesa estava posta. Seu Bilé e Seu Zé Braz seguiram bem devagar na frente tratando de negócios, conversando sobre chuvas, sobre gado, sobre safra de algodão… assim chegaram e se sentaram à mesa.
Bolos, biscoitos, cuscuz, leite, coalhada, canjica, pamonha e milho, mais café, frutas, sucos, pães, tapiocas, broas, carnes, ovos… e queijos. Queijos de coalho e de manteiga, já fatiados, cada tipo em sua própria travessa.
Todos começaram a se servir. Numa espécie de ritual puseram o café nas xícaras, trouxeram as tapiocas aos pratos, e foram separando cada um a sua comida.
Antônio Marrada esticou-se até o meio da enorme mesa e pegou a travessa do queijo de manteiga. Trouxe para junto do peito e com um garfo foi depositando as fatias em seu prato. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… a metade!
Já se esticava novamente para devolver a travessa ao seu lugar de origem, quando Seu Zé Braz, vendo o exagero de queijo em seu prato, advertiu o afilhado:
– Antônio, lembre-se que os outros também gostam de queijo.
Nesse momento Antônio já tinha encostado a travessa de volta à mesa, embora não a tivesse largado de tudo. Mas, num impulso, recolheu-a de novo para junto do peito e, empurrando o restante do queijo para o prato, foi respondendo:
Eu quero dividir com vocês uma experiência que vivi ontem, não tão singular assim, mas, que envolveu o meu espírito e me trouxe algumas reflexões.
Não sei se por estarmos nesse período dito como das Boas-Festas, ou porque há dias eu quis desacreditar no futuro e na idoneidade da natureza humana quando vi perdoados R$ 10bi de um “réu confesso”; dinheiro que anda faltando em tantos lares e projetos neste Brasil de corruptos ricos e de honestos paupérrimos.
Minha narrativa começa em agosto quando minha mulher precisou passar por uma cirurgia, e tivemos que contratar alguém para nos auxiliar nas tarefas domésticas por um mês.
Nós fomos apresentados por uma nossa comadre à Sra. Eli (aqui revelo apenas o começo do seu nome).
Embora da minha idade, mais velha apenas dois anos que minha mulher, D. Eli é bem baixinha e traz no corpo as marcas da dureza de sua existência e no rosto as linhas deixando-a como se tivesse a idade de uma década a mais.
Há anos desempregada, D. Eli vive em uma casa sem reboco no subúrbio de uma cidade vizinha à nossa capital. Para vir trabalhar em nossa casa, anda dois quilômetros, pega duas conduções.
O marido desempregado há quatro anos, depois de haver perdido os movimentos da mão direita num acidente doméstico, vive em luta com o INSS tentando receber algum auxílio. Em vão.
Na casa moram mais uma filha do casal – a única carteira assinada, como garçonete num restaurante – e duas netas menores de idade.
Além do dinheiro da filha o capital que entra no lar deles são dos bicos do homem e das faxinas de D. Eli.
Depois do mês aqui em casa, com algumas limitações cognitivas, ainda assim nos afeiçoamos a D. Eli. Nossos filhos criaram carinho por ela também. Tenho certeza que pela simplicidade da pessoa que ela é.
Então resolvemos que D. Eli ficaria vindo de vez em quando fazer um trabalho aqui.
Ontem ela veio.
Muito calada, D. Eli às vezes fala e desabafa em sua voz baixinha. Mas, ontem, com extrema alegria ela embalou em uma conversa para nos contar do orgulho de haver participado de uma homenagem na escola da neta mais velha: a menina foi a melhor aluna do ano.
À tardinha, serviço concluído, agradecemos a D. Eli por sua ajuda e seu cuidado.
Desejamos um Ano-Novo melhor e a abraçamos com carinho.
Fiz o PIX.
Coloquei o dobro do acertado. O que foi passando sendo uma espécie de bônus.
Não lhe falei nada.
Mais tarde a filha de D. Eli ligou para minha esposa.
Educadamente perguntou como estávamos e prosseguiu quase sem deixá-la falar:
– É que eu vim com mãe aqui no banco sacar o dinheiro, e seu marido errou quando fez o PIX. Ele botou “X” – e sem esperar qualquer resposta, ela emendou: – a senhora me dê sua chave PIX que eu quero lhe devolver o que passou.
Minha mulher lhe pediu desculpas por eu não haver falado, e lhe revelou que era um bônus de Boas-Festas.
Então ouvimos a voz de D. Eli nos agradecendo e pedindo a Deus por nossas vidas.
De ontem para cá pensei muito sobre muitas coisas. Entre elas do quanto o nosso povo mais simples carrega em si o preceito do que é correto. Do que é direito.
E chego à conclusão que honestidade não é uma questão de direito. É de caráter.
Muitas vezes onde mais sobra riqueza é justamente onde mais falta caráter.
Pelo ato de D. Eli, ontem, eu vi que há esperança para o nosso povo. E eu não posso desacreditar nele.