CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TRAIÇÃO

Os gêmeos Pedro e Paulo sempre foram unidos. A viúva Dona Esperança criou-os com dificuldade. Conseguiu dar educação em casa e na escola. Ainda jovens, eles passaram no vestibular da Faculdade de Engenharia.

Pedro apaixonou-se por uma colega de turma, Bethânia Cardoso, inteligente, gostava de estudar e da profissão de engenheira, alegre, frequentava as mais badaladas festas nos clubes e casas de família. Gostava de praticar esportes, de namorar como todas as jovens. Bethânia era divina em sua alegria, fortaleza e sensualidade.

Faziam trabalhos de Faculdade juntos, davam-se bem um com outro, Bethânia também apaixonada, iniciaram o namoro. Formaram-se no tempo do “Milagre Econômico”, havia empregos para todos engenheiros formados naquela época. Porém os gêmeos tinham maiores ambições, montaram uma construtora, tendo Bethânia como sócia.

A empresa prosperou graças a trabalho dos gêmeos e principalmente o equilíbrio e controle administrativo de Bethânia. Tornou-se o cérebro da empresa. Dizia sempre que a empresa e os sócios não deveriam gastar mais que arrecadavam. O tempo passou, ficaram bem de vida à custa de muito trabalho. Pedro e Bethânia tiveram dois filhos homens, hoje independentes. Um mora em Tocantins o outro no Canadá

Houve uma tragédia na família, o irmão Paulo morreu em um desastre de automóvel numa viagem. A viúva, Aline, por lei, ficou como sócia da construtora em substituição ao marido. A nova sócia, tinha apenas o primeiro grau e era uma tremenda preguiçosa. Deram-lhe um serviço compatível com sua capacidade, mas no final do mês recebia dividendos de sócio. Seu único filho gostava mesmo de administrar a fazenda do avô materno, moravam num apartamento na praia.

A empresa continuou com bom empenho devido a inteligência e praticidade de Bethânia, era a boa timoneira.

Certa noite o casal comemorava ano novo na casa de amigos na Barra de São Miguel, quando Bethânia percebeu alguma coisa no ar. Pedro falava no celular demoradamente com alguém, coisa inusitada em seu marido. Ela chegou-se perto, ouviu ainda quando se despediu: “Um beijo, lhe vejo amanhã”.

Desconfiada, perguntou ao marido com quem falava. Ele tapeou respondendo que era com o João Peixoto, médico amigo que mora em São Paulo.

No outro dia, repercutia ainda no ouvido de Bethânia a última fala de seu marido: “Um beijo, lhe vejo amanhã”. O primeiro dia do ano estava marcado para um almoço na casa de Aline. Como Pedro poderia ver essa suposta namorada se ele estaria o dia todo na casa da cunhada? Seria alguma convidada?

No almoço estavam alguns casais conhecidos, muitos amigos, algumas jovens bonitas. Bethânia, muito perspicaz e fria ficou analisando as mulheres que estavam na festa como se fosse uma detetive.

Ela não é mulher de se iludir. Ouviu nitidamente a despedida do marido no celular. Quando ele disse estar conversando com o João Peixoto, aumentou, consolidou a desconfiança.

Já era tarde e nenhuma das mulheres que ali estava deu alguma bandeira, um olhar, ou dirigiu-se a Pedro com atenção especial.

Em certo momento, com uma dor no coração, Bethânia matou a charada. Percebeu sua cunhada Aline, a anfitriã, servir uma dose de uísque e apertar o braço de Pedro, olhando em seus olhos. Foi uma intensa pancada. Uma dor incontida de raiva se deu no coração daquela mulher, tornou-se fera. Fez lembrar sua inquebrantável fidelidade, apesar de várias cantadas e oportunidades que apareceram na vida. Brutal traição, logo com a viúva do irmão. A cunhada que foi acolhida, apoiada em todos os momentos de dor.

Bethânia, mulher forte, ficou o resto da festa, observando detalhes de comportamento de seu marido e de Aline. Na hora de ir embora tinha certeza, não havia qualquer dúvida. Confirmou apenas pelos gestos e olhares de ambos.

Em casa fez o marido confessar. Ele chorou. Disse que era apenas um caso passageiro, tinha sido envolvido pela fragilidade da viúva de seu irmão. Bethânia entristeceu-se mais ainda. Percebendo que o marido era um fraco.

Hoje Bethânia está solteira, dona da construtora, uma cinquentona bonita, empresária das mais respeitadas. Gosta de sair nas noitadas de fim de semana, escolhe o homem que quiser, divertida, feliz da vida com muitos amigos, só não quer compromisso, casamento. Para ela Pedro e Aline morreram, a última vez que se viram foi para assinar o divórcio e o novo contrato social da construtora, com apenas ela e os filhos como sócios.

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O PATINHO FEIO

Verinha era uma menina alegre e feliz. Não tinha preconceito, gostava de jogar ximbra, pião, rouba-bandeira. Corria como ninguém. Trepava nas amendoeiras, nas jaqueiras, nas goiabeiras da redondeza. Parecia estar sempre correndo. Na praia, dentro de um maiô apertado, era a líder das meninas, embora gostasse mesmo era de jogar futebol com os meninos. Dentro d’água, no mar ninguém batia, era a mais veloz. Deixava meninas e meninos para trás com suas braçadas contínuas e rápidas. Todos no bairro gostavam daquela diabinha travessa que vivia para brincar, correr e sorrir

Certa vez pediu para a mãe ajudar no vestir. Queria ficar bonita, estava ficando uma moça, com seios crescidos. Tinha sido convidada para uma festa muito especial.

Um rapaz da vizinhança havia passado no vestibular do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, exame difícil. O jovem Humberto ingressaria no ITA. Um sonho de todos os jovens daquela época. A família de Beto resolveu dar uma festa de despedida em sua bela casa. A animação, apesar da despedida, foi o ponto alto. Todos se divertiram, beberam, comemoraram até o dia amanhecer.

Verinha com um vestido rodado bem cintado, se policiava, freando a vontade de correr, de fazer bagunça naquele casarão. Queria parecer uma moça madura. Se continha.

Ela tinha uma paixão infantil por Humberto. Quando estavam na praia, corria em sua direção para se fazer notada. Ele nem se dava conta de existir aquela menina. Às vezes em alguma brincadeira ele falava com ela em tom de gozação chamando-a de menininho. Verinha ficava fula de raiva. Mas a paixão não se pode evitar, coisas do coração.

Em seus devaneios românticos, nos intervalos de suas estripulias, ela sonhava ser uma artista de cinema: Beto lhe abraçando dizendo que lhe amava e eram felizes para sempre. No dia da festa ela se fez bonita, mas sua estampa de menina magra e desajeitada, não ajudava. Ficava perto de Beto para ver se pelo menos olhava alguma vez. Em certo momento ele chamou Verinha. Ela veio toda frajola. Beto nem a olhou foi falando, apresentando um menino de 12 ou 13 anos:

– Esse meu primo quer brincar, como você é a serelepe daqui, vá brincar de pega com ele.

Ela não agüentou. Aquilo era uma humilhação. Retrucou na hora.

– Não sou serelepe, nem menina. Já sou uma moça e não vou brincar com esse pivete, não.

Beto gozou Verinha, chegando à ofensa:

– Você é menina sim. Ainda não tirou o mijo das calçolas. Sua Bostinha!!!

– Verinha ficou uma fera, a raiva subiu para cabeça, gritou:

– Vá para o inferno, Bostinha é sua mãe. Quero que você caia de um avião e morra!!!

A menina saiu correndo. Com lágrimas contidas chegou em casa. Sua mãe notou que ela voltava cedo, perguntou o que havia acontecido. Ela simplesmente deu boa-noite e foi para seu quarto. Só adormeceu quando o dia clareou. Chorou toda noite ouvindo as músicas da festa, pensando na grossura e na saudade de Beto que embarcava naquela manhã para São José dos Campos.

O ano não passou rápido. O tempo só é rápido quando existem apenas divertimentos e alegrias. Para Beto foi um ano de muita luta, muito estudo, muita ralação. Com notas razoáveis ele passou em primeira época. Retornou a Maceió de férias, quase um ano depois, no final de dezembro.

Houve outra festa em sua chegada. Seus pais convidaram os amigos e vizinhos. Muita bebida e comida. Beto feliz da vida em estar com sua bela família e ser o alvo da atenção de tantos amigos. De repente ele notou, ao longe, uma bela jovem. Estava de costas, o rosto pouco aparecia, seu perfil lhe era familiar. Chamou sua irmã ao lado e perguntou quem era a distinta de vestido branco. Rose deu uma gargalhada perguntando se tinha certeza que não conhecia. A irmã dirigiu-se até a jovem misteriosa, cochichou no ouvido e veio conduzindo a moça. Quando Beto a viu de frente e de perto, se encantou. O coração bateu forte como nunca havia batido para ninguém. Rose apresentou sorrindo.

– Quero que conheça minha amiga.

Encantado olhando nos penetrantes e ternos olhos da jovem, Beto estendeu a mão, falando com brandura:

– Prazer, Beto.

A jovem apertou sua mão gentilmente e respondeu sorrindo.

– Muito prazer, sou a Bostinha !

Nesse momento Beto reconheceu e compreendeu que era Verinha, sua vizinha, a menina sardenta serelepe e mal-criada que vivia correndo O patinho feio havia se transformado em uma linda cisne branca.

Passaram o resto da noite conversando. No final da semana os dois estavam namorando de mãos dadas no banco da praça. Era o início da mais bonita paixão daquelas férias de verão, tendo o sol, o céu e o sal de Maceió como testemunha.

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A PRESENÇA DE CLAUDINHA

Na fila da loteria Fábio contemplava o belo pescoço da senhora em sua frente. De repente, a mulher virou o rosto, ele reconheceu Cláudia, ficou feliz ao rever um amor de sua juventude.

Uma alegria para ambos. Sentaram à mesa tomando sorvete e conversaram tantas histórias Há muitos anos não se viam.

– Estou solteiro. Dois casamentos não deram certo. Sou ainda o romântico incorrigível procurando alguém para lhe substituir. Nunca encontrei!

– Você é um danado! Sempre gentil!

– Não é gentileza, Claudinha. Depois de tantos anos, sou um setentão e você está beirando; uma mulher casada, respeito seu marido, mas posso dizer sem mágoa, você sempre foi a mulher de minha vida, nunca lhe esqueci, conservo esse amor bonito dentro de mim. Esse negócio de dizer que sou mulherengo é verdade, depois que você se casou, descambei para as raparigas, tornei-me um grande boêmio, tive muitas mulheres, minha vida desregrada foi fruto da dor-de-cotovelo por você me ter abandonado.

– De fato nosso amor foi bonito, todos comentavam nossa paixão, nosso namoro avançado. Naquela época namorados não transavam, mas você queria muito. Uma paixão louca! Era tarado por mim. Precisei me segurar para continuar virgem. Terminamos o namoro, mas, você teve culpa, queria todas as mulheres do mundo, namorou uma amiga minha.

– Lembra da boia no mar da praia da Avenida? Eu colocava a boia de pneu de caminhão dentro d’água, você estirava seu corpo fazendo os braços de remo, e segurava na borda, por baixo as coisas aconteciam, ninguém percebia. À noite eu subia às casas de raparigas de Jaraguá. Descarregava meu desejo incontido pensando em você.

– Menino sem-vergonha! Como a gente era feliz!

– Como está o Castello, o homem mais feliz do mundo, o homem que tem você nos braços há mais de 30 anos?

– Fábio, vou ser sincera. Desculpe o desabafo, afinal você é um amigo confiável. Namorei com Castello, não era aquela coisa louca de nosso namoro. Casamos, construímos nossa família. São dois filhos e um neto. Ano passado tive duas tristezas na vida. Descobri que meu marido tem uma amante, menina nova, sustentada por ele há mais de três anos. Encheu-me de mágoa. E o pior, descobri um câncer na minha mama esquerda. Já me operei, tenho como tratar do câncer, os médicos dizem que posso controlar a doença e viver muitos anos. Mas o Castello não dá mais para controlar, ele está apaixonado por essa sirigaita. Eu vivo só, ninguém sabe o que se passa comigo, vivo indignada dentro de minha dignidade.

Fábio apertou sua mão, olhou nos seus olhos.

– Minha querida Cláudia, não aguente isso, deixe a merda desse marido. Eu ainda lhe amo, sempre lhe amarei, estou à sua espera o dia que você quiser, pelo resto da vida. Amanhã pela tarde estarei viajando, vou passar quase um mês no navio COSTA MARU, sai do cais do porto direto para Recife e Europa, atravessando o Oceano Atlântico. Quando eu retornar quero conversar com você. Está certo? Você promete que vai me ver? Me dê o número de seu celular.
Despediram-se com beijo no rosto.

À noite Castello chegou tarde e bêbado. Na hora de dormir, Cláudia alisou o corpo do marido, beijou-lhe o pescoço, foi se achegando pedindo carinho, um pouco de atenção. Nesse momento ele falou aborrecido, grosseiro.

– Não quero, não quero pegar sua doença. Você está com câncer. Porra!

Deu-lhe um empurrão, virou-se para o lado e adormeceu.

Humilhada e ofendida, chorando baixinho, Cláudia correu ao banheiro, sentou-se na privada e caiu em prantos, chorou muito. Certo momento se recuperou, respirou fundo, levantou-se, olhou-se no espelho, só de calcinha, levantou os braços, rodou, achou-se uma mulher bonita, conservada, atraente. Veio-lhe um sentimento forte de amor próprio, jurou para nunca mais chorar por Castello e que curaria o câncer.

Retornou à cama, custou a adormecer. Fez um retrospecto de sua vida, ninguém mais dependia dela, vivia praticamente só, os filhos independentes. Pensou no que restava desse futuro hipócrita e humilhante junto a Castello.

Eram oito horas da manhã quando ela levantou-se. Tomou café, trocou de roupa, foi ao cabeleireiro, à manicure. No shopping comprou roupas, foi ao banco, almoçou. Chegou em casa por volta das duas horas, arrumou a mala, escreveu uma carta simples para o marido e filhos. Tomou um táxi.

O navio Costa Maru repleto de passageiros desencostava do cais. Na balaustrada do convés Fábio contemplava o mar, o casario da Avenida da Paz se afastando, diminuindo de tamanho. Ele estava embevecido com a cor do mar de sua terra, quando, de repente, sentiu uma mão por cima da sua. Ao olhar de lado teve a mais bela visão de sua vida: a presença de Claudinha.

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A HERDEIRA DE BEBEDOURO

Em 17 de junho de 1962 o Brasil tornou-se Bicampeão Mundial de Futebol derrotando a Tchecoslováquia por 3 x 1 no Chile. Nesse mesmo dia, nascia o primeiro filho homem de João Simão. O comerciante tomou um porre homérico e deu-lhe o nome de Amarildo, homenageando o grande jogador da Copa 1962. Afinal um homem, depois de duas meninas. Amarildo foi crescendo e deu preocupação ao pai, era um menino diferente. Não gostava de futebol, nem das brincadeiras de meninos na Praça do Centenário, onde moravam numa bela casa. João Simão proprietário de dois postos de combustível, trabalhador, deu conforto e educação para a família. Ele tinha desgosto em Amarildo não gostar de futebol, comprou camisa do CSA, obrigava ao garoto acompanhá-lo aos jogos. Amarildo nem se incomodava se o time ganhasse ou perdesse. Na verdade João Simão tinha um pavor que o filho fosse “viado”, ficava triste com essa possibilidade. Adolescente, Amarildo andava de bicicleta pelas ruas do Farol com os amigos, contudo, era um rapaz bem comportado, não falava, nem se gabava de namoradas e mulheres. Até que um dia João Simão chegou em casa depois do trabalho e encontrou Laurinha, sua esposa, chorando. Quando ela contou que havia flagrado Luzia, a empregada, transando no quartinho dos fundos com seu jovem filho, Amarildo, João Simão deu um pulo de alegria, disse para mulher que deixasse de besteira e foi comemorar com amigos no botequim da esquina, ganhou alma nova. O fantasma da “viadagem” do filho que o atormentava há anos, desapareceu

Amarildo cresceu, sem fazer alarde era o “come quieto” da turma. Tinha uma namoradinha, que naquele tempo deveria ser virgem, mas gostava era de perambular, conquistando as jovens empregadinhas que vinham do interior atrás de melhorar de vida. Vez em quando frequentava a Boate de Mulheres do Rei da Noite de Maceió, o Mossoró.

Ainda era estudante na Faculdade de Economia quando seu pai morreu. Ele teve que assumir a administração dos Postos de Combustível. Com o tempo tornou-se um excelente comerciante. Comprava pequenos apartamentos na planta, quando terminava a obra, vendia o apartamento pronto pelo dobro. Entrou nesse negócio de compra e venda de imóvel, enriqueceu. Certo dia encontrou-se com Fátima, uma colega da Faculdade, saiu com a amiga algumas vezes, até que veio a notícia, ela estava grávida. Fátima era divorciada com um filho, não quis casar. Nasceu o Amarildinho. O pai fazia visitas esporádicas ao filho, aproveitava dormia com a amiga, sempre discreto, aquilo só interessava a ele. Até que conheceu Elizabeth, uma bela jovem, estagiária no escritório de seu advogado. Com um ano de namoro e muita paixão, se casaram. Amarildo, antes de casar confessou ter um filho de cinco anos, mas não havia relacionamento com a mãe. Elizabeth, muito bonita, trabalhadora e inteligente, ajudava nos negócios do marido. Ele gostava de se gabar que havia ganho dinheiro à custa de seu trabalho honesto, nunca havia feito negociatas com políticos e cofres públicos. Amarildo mesmo depois de casado, continuou com dois vícios: correr pela manhã e, vez em quando, sair com uma jovem, era um irresistível mulherengo, sem alarde, discreto.

Quando o marido completou 60 anos, Elizabeth preparou uma festa com a família e amigos mais íntimos. Amarildo bebeu demais e fumou bastante, contrariando ordens médicas, ele tinha um probleminha no coração. No dia seguinte Amarildo acordou-se com mal estar, vomitando. Para acabar a ressaca vestiu um short frouxo, uma camiseta, calçou o tênis e danou-se a correr em torno da Praça do Centenário. Já estava retornando à sua casa quando sentiu uma dor no peito, a vista escureceu, caiu no chão, infarto fatal. Foi uma choradeira geral no enterro de Amarildo, morte inesperada, tão jovem 60 anos. A família, algumas namoradas anônimas choravam de saudade.

Depois da missa de 30º dia, o filho mais velho entrou em contato com a mãe do seu meio irmão, para iniciar o inventário. Estavam reunidos no escritório do advogado os quatro filhos de Amarildo. Elizabeth, a viúva, não quis participar da reunião. Fátima apareceu acompanhada do filho, Amarildinho, e uma jovem em vestido simplório. O advogado informou que todos os bens iriam ser divididos conforme a lei: metade da viúva e a outra metade dos cinco filhos.

Foi quando Fátima interrompeu.

– Cinco não, são seis, tem um menino no bucho dessa jovem, minha empregada, ela afirma que o filho é de Amarildo. Peço fazer DNA quando a criança nascer para se habilitar à herança. Esclareço que essa jovem é faxineira, não dorme em minha casa e mora pelas bandas de Bebedouro.

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A GULOSA DO SANTOS DUMONT

O casal sentou-se diante da promotora e da juíza, cada qual com seu advogado. Ele, magro, moreno, cabelos pretos, aparentando 30 anos e tristeza no rosto. Ela, branca, rosto redondo, meio gorda, cabelos pretos ondulados, aparência de 40 anos. A juíza, sem perda de tempo, perguntou.

– O que resolveram na audiência de conciliação?

– Senhora Juíza, resolvemos pelo divórcio, a papelada foi preparada; mas, agora, ela deu para trás e se recusa a assinar. Eu quero me separar. Não aguento olhar a cara, nem ouvir a voz dessa mulher. Respondeu Manezinho.

– Dona Juíza, ele está afobado, precipitado. Eu o trato bem, com carinho, com amor, agora ele vem dizendo essa história de separação. É a mãe dele que bota na cabeça, ele é fraco, dominado pela mãe. Disse calmamente Alzira.

– Quero conversar com cada um separadamente. Dona Alzira saia por favor. Sr. Manoel da Silva, qual o motivo de desejar o divórcio?

– Dra. Juíza, vou contar a história desde que conheci essa maluca. Há dois anos eu vivia bem com minha mãe numa casa no bairro Santos Dumont. Solteiro, trabalhava de encanador e eletricista, fiz curso do SENAC, sou conhecido na região, não falta trabalho. Coloquei uma placa na fachada de minha casa. Numa noite recebi um telefonema pedindo para socorrer com urgência um vazamento numa banheira. Peguei minha moto e fui bater numa bonita casa em um sítio perto. Falei para a mulher que o conserto exigia a retirada da banheira, eu precisaria da ajuda de um pedreiro. No dia seguinte terminei o serviço à tardinha, era sábado. Dona Alzira me pagou o serviço e convidou-me para tomar uma cervejinha, ficamos conversando, bebendo e comendo até mais tarde. Já era noite quando ela dispensou a empregada, passou a chave na porta, retornou e foi me abraçando. A mulher parecia que tinha o cão dentro do corpo, me levou para o quarto. Dormi com ela, fazendo amor toda a noite. Na manhã seguinte me acordei cansado, ela exigiu mais. A partir daquele dia minha vida mudou. A gulosa vivia comendo e me arrastando para cama a todo o momento. Dizia que os pais eram ricos negociantes de Arapiraca, ela morava sozinha em Maceió para estudar. Matriculou-se numa Escola de Enfermagem que pouco frequentava. Não vou mentir, eu estava gostando daquela vida, o único problema era aguentar ir para cama em momentos inimagináveis. Mulher insaciável, gulosa na mesa e na cama. Passei mais de seis meses com a Alzira naquela vida, ela me agradava com presente. Ciumenta não queria que eu trabalhasse, nem que eu tivesse amigos e o absurdo de não visitar minha mãe. Alzira, um dia me deu um carro Honda de segunda mão. Acontece que eu não estava aguentando aquela vida de ciumeira e exigências. Abusado, pensei em acabar aquele namoro quando ela trouxe a notícia, estava grávida. Queria casar de qualquer maneira ou o pai mandaria me queimar. Fiquei sem saber o que fazer, conversei com minha mãe. Embora não gostasse de Alzira, ela ficou feliz na expectativa de ter um neto. Caí na besteira e casei. Durante a gravidez ela me encheu a paciência, mesmo naquela situação queria cama o tempo todo de todos os modos. Afinal Euzebinho nasceu, ela colocou o nome do pai, Euzébio, sem me consultar. Depois que o menino nasceu piorou o inferno. A mulher me tratava aos gritos. Me chamando de fraco, exigindo cama. Ela entregou o Euzebinho aos pais e continuou vivendo como solteira, e dessa vez pegando homem na rua. Não aguentei, fui morar com minha mãe. Alzira me procura quase todos os dias para eu voltar, entra em meu quarto me abraçando. Não suporto ver, sentir o cheiro, ouvir essa mulher. Consultei a um advogado, ele me aconselhou a me divorciar, por isso estou aqui, senhora juíza, obrigue essa mulher assinar os documentos, por favor, eu imploro.

A juíza dispensou o Manezinho e juntamente com a promotora ouviu Alzira que contou uma versão romântica, acusando Manezinho de frouxo, manobrado pela mãe. Apresentou uma enorme lista de presentes que deu desde que o conheceu. A lista começava com carro Honda, 12 camisas Richards, 2 camisas Aviator, 8 camisas Overende, 3 calças Brumer, 2 calças Hombre, 2 pares de tênis Reebok, continuava com inúmeros e pequenos mimos.

Depois do intervalo a juíza reuniu o casal novamente, entregou a Manezinho a extensa lista de presentes com as datas e informou que Dona Alzira assinaria se ele devolvesse aqueles mimos. Manezinho sorriu e prontamente informou.

– Está tudo dentro do carro, até as cuecas velhas eu lavei. Só os perfumes que ela colocava em minhas partes íntimas para cheirar, acabaram-se.

A juíza sentindo o desespero de um homem. Falou à Dona Alzira:

– Duas pessoas não podem viver juntos se uma não quer, assine esse divórcio, minha senhora. Para o bem do casal.

Alzira assinou as três vias e entregou-as à juíza. Quando Manezinho leu o documento assinado, sorriu, olhou para Alzira, chamou-a de bruxa tarada. Saiu do Fórum correndo e gritando.

– Estou livre! Estou livre! Estou livre!

Entrou no primeiro botequim.

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A AMBULANTE DA PONTA DA TERRA

– Minha mãe, estou com um problemão.

– Diga filha, mãe é para essa coisas.

– Estou namorando o Pedro há cinco meses, ontem ele veio com conversa de casar no fim do ano. Eu me sinto tão nova, 18 anos, iniciando a Faculdade de Direito, cheia de sonhos, quero ser uma boa advogada, melhorar de vida e casamento vai atrapalhar meus planos, meus sonhos.

– Bernadete, sei que é uma decisão difícil. O problema do amor é muito complexo, pior ainda a convivência a dois. Em compensação, amar, gostar de alguém, se dar, se entenderem; uma vadiação na cama com a pessoa amada é muito bom. Pense direitinho, eu mesmo não quero interferir na decisão mais importante de sua vida. Tem que ser sua. É você quem vai decidir. Pense e faça o que o coração mandar.

– Minha mãe, obrigado, eu que tenho que resolver. Amo o Pedro como nunca amei ninguém, mas, pensando bem, só tive dois namorados além dele. O problema é que ele se diz apaixonado, pensa em mim o tempo todo, até quando está consertando carros velhos em sua oficina. Já deu até a ideia de vir morarmos juntos em sua casa, para senhora não ficar tão sozinha.

– Bernadete eu me casei cedo demais, na sua idade, quando eu tinha 20 anos, era uma menina você nasceu. Logo depois veio a tragédia, a explosão na fábrica química, um erro humano, quatro morreram, entre eles seu pai. Fiquei viúva com uma filha pequena. Com a pensão ridícula e uma indenização de fazer vergonha. Consegui levar a vida como ambulante na praia, dei um duro danado, mas o trabalho dignifica qualquer um. Hoje meu acarajé é conhecido em toda orla, os turistas adoram e ainda tenho três empregados. Nunca quis que você trabalhasse, só para dar prioridade aos estudos e você entendeu que para vencer na vida é preciso o jovem estudar. Você tem esse problema, embora o casamento apenas atrapalha a dedicação ao estudo. Quem tem de resolver é você já que o namorado não quer esperar. Apenas digo que nossa modesta casa aqui no bairro da Ponta da Terra está à sua disposição.

O casamento aconteceu no dia 8 de dezembro na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, com uma festa entre parentes e amigos. Pedro tomou um porre, como de costume, e passou uma curta lua de mel num modesto hotel na praia de Coruripe. A vida da família mudou muito, o quarto de Bernadete ficou para o casal. Ela todos os dias tomava um ônibus para cidade Universitária, às vezes almoçava por lá. Pedro com sua moto logo pela manhã estava trabalhando nos consertos de automóveis. Como tinha boa locomoção, almoçava em casa todos os dias, esquentando a comida preparada pela sogra na noite anterior. E Dona Laurinha levava em uma Van alugada a pasta de feijão do acarajé e os apetrechos. Trabalhava das 10 às 17 horas na praia de Cruz das Almas.

Assim foram vivendo logo nasceu Pedrinho. Criança bonita tinha os traços do pai: andar arqueado, rosto redondo, sobrancelhas cheias se juntando acima do nariz adunco. A família adorava os dias de domingo quando frequentava a praia de Cruz das Almas, Pedrinho corria na areia e Pedro enchia a cara aproveitando a cerveja e a cachaça que a sogra levava para vender aos fregueses do acarajé. Dona Laurinha gostava de uma cerveja e de sair nas sextas e sábados com as amigas, às vezes com algum amigo. Contudo, dizia, casamento jamais.

Antes de Pedrinho completar dois anos, apareceu a novidade inesperada. Dona Laurinha grávida. O pai da criança era casado morava em Santa Catarina. Já que foi viúva tantos anos, não abortaria, e o menino nasceu no tempo certo. Jorginho foi mais uma alegria para casa. Tiveram que rachar uma babá para tomar conta das crianças. Laurinha reclamava a falta de creches nesse Brasil.

Passaram-se quase três anos. Certo domingo, enquanto Pedro e Laurinha enchiam a cara de cerveja e cachaça. Bernadete brincava à beira-mar com as crianças. Foi quando de um susto, notou a semelhança no andar de Pedrinho e Jorginho. Chamou os dois fez uma comparação no rosto. As mesmas sobrancelhas grossa emendadas em cima do nariz adunco. O instinto de mulher foi um choque no coração de Bernadete quando suspeitou que seu marido poderia ser o pai de Jorginho, filho de sua mãe. Sua alma emudeceu, olhava para as crianças achando-as cada vez mais parecidos com o marido. Até que teve certeza. Não deu uma palavra durante a viagem de volta na Van alugada

À noite Bernadete explodiu. Laurinha e Pedro, ainda de pileque confessaram tudo, inclusive que continuavam transando. Laurinha ainda fez uma proposta:

– Vamos viver assim minha filha, segredo nosso, o povo que vá a puta que pariu. Quis dar um beijo na filha, ela se afastou, trancou-se no quarto fechou a porta.

Era meia-noite quando Bernadete arrumou as malas, saiu do quarto com Pedrinho dormindo no colo, tomou um táxi e foi bater na casa de uma grande amiga solteira. Contou a história, a amiga deu guarita. Desde aquela noite Bernadete nunca mais falou com a mãe, nem com o marido. Encontraram-se duas vezes, no Tribunal.

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VÂNIA

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa mulher que todo dia faz tudo sempre igual? Depois do café da manhã sai com suas pastas embaixo do braço direto ao escritório e divide com o genro e a filha o trabalho de clientes em busca de seus direitos?

Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que poderia estar desfrutando de uma aposentadoria merecida, porém reabriu o escritório e trabalha todos os dias? Quem é essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos, a levar os netos às aulas de inglês, de tênis, de natação? Quem é essa mulher síndica do prédio onde mora, que administra com dedicação como fosse sua casa? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu pequenos coqueiros morrendo na praia da Jatiúca, comprou três pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância? Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade? Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a Casal para que possa consertar o bueiro fétido? Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pôde e o que não pôde até o final de seus dias? Quem é essa mulher que leva comida a um cão abandonado no quintal de uma casa e nos dias de sábado dá banho e conforto ao pobre animal? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores? Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve? Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa mulher que paga a faculdade das filhas da secretária? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e no zap, aproveitando a fase madura da vida?

Quem é essa mulher que desde menina gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até em New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu, tenente, cantei pra ela em premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”? Poucos anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa 73 anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija com a boca de paixão. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosas. Vânia aprendeu a remar.

Obs – Até quando minhas cinzas estiverem espalhadas e absorvidas no Mar de Avenida da Paz, repetirei, com permissão dos leitores, essa crônica no aniversário de Vânia 22/agosto.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CENTRO DA CIDADE

Há tempos que eu não passava pelo centro da cidade. Essa invenção dos judeus americanos, o Shopping Center, fez a civilização mudar de hábitos. Em minha mocidade andar pela Rua do Comércio era o melhor divertimento vespertino. Os jovens adoravam o programa. Depois da sessão das três horas do Cine São Luiz, encontravam os amigos encostados nos carros estacionados olhando o movimento, assistindo o desfile das meninas bonitas dos Colégios Sacramento e São José desfilando juntas, sorrindo, rumo à sorveteria DK-1 ou à Gut-Gut. Eram os pontos da paquera, dos namoros, dos convites para festas. Deliciando um sorvete de pinha, mangaba, manga ou chocolate, as conversas prolongavam até escurecer. Nós moradores da Avenida da Paz, caminhávamos descendo do Centro em direção às nossas casas. Ao passar pelo Arcebispado, havia um ambulante vendendo um divino suco de maracujá com pão doce. Muitas vezes nem jantávamos. Agora está tudo mudado, prédios modernos, bancos, expulsaram os carros, o que fizeram muito bem. O centro da cidade pertence aos pedestres.

Ao sair do Banco do Brasil na Rua do Livramento resolvi dar uma volta no centro da cidade. Avistei a Sorveteria Danúbio, alegrou meu espírito e o metabolismo do corpo em temperatura alta. Minhas glândulas salivares se encharcaram ao pensar no sorvete de mangaba. Enchi a taça, sentei-me numa mesa de onde avistava a rua, o vai-e-vem do povo. Saboreava o sorvete devagar enquanto imaginava quem seriam aquelas pessoas anônimas dando vida ao centro da cidade.

Uma senhora gorda, de preto, andava com mão direita segurando uma criança loura, devia ter cinco anos, ela chorava pedindo alguma coisa, a gorda negava com paciência puxando-a pela mão. Senhores de terno, apressados, pareciam advogados ou corretores, andavam para um lado, depois apareciam outros, parecendo às mesmas pessoas. Jovens bonitas davam graça à rua com calças apertadas, marcando as curvas, barriga de fora, inspirando fantasias nos homens. Um mendigo, maltrapilho, calça rota, descalço, camisa rasgada, entrou na sorveteria de mão estendida. Um funcionário discretamente pediu que se retirasse empurrando o miserável. Teoricamente sou bondoso, o mendigo me fez pensar na injustiça social de nossa terra.

Estava nesses devaneios quando ela apareceu. Devia ter 20 anos, jovem da classe média, com porte nobre de dama, e uma mini saia de entusiasmar eunuco. Entrou na sorveteria como uma rainha, bolsa e um jornal na mão. Por cima da saia, uma blusa azul claro. Rosto oval, coberto por cabelos negros, escorridos. Nariz afilado dava um perfil de deusa grega. Completava uma boca encarnada e carnuda, dentes alvos e brilhantes. Nas orelhas pendiam duas argolas feito brincos. A deusa encheu a taça de sorvete, voltou em direção à mesa em frente.

Colocou a bolsa, o jornal e a taça de sorvete em cima da mesa, sentou-se voltada para meu lado. Foi quando percebi melhor sua pele branca rosada parecia porcelana, sem defeito de fábrica. Tomou sorvete como um ritual, cada colherada na boca, empurrava a colher, e retirava com uma lambida mostrando a maravilhosa língua carmim. A jovem abriu o jornal, leu anúncios. Devia procurar emprego. Riscava o jornal, penetrava a colher cheia de sorvete em sua boca. De repente cruzou as pernas. Tive um susto quando aconteceu, não me preparei para aquele espetáculo de sensualidade. Não, ela não estava como a Sharon Stone, a doce jovem vestia calcinha azul com bolinhas amarelas.

Ela percebeu meu olhar impertinente. Em vários momentos repetiu o magnífico gesto em cruzar as pernas. Se não estivesse tão entretida lendo o jornal, seria capaz de jurar que balançava as pernas propositalmente. Eu era o único ser vivo a assistir àquele espetáculo sensual. Cinema grátis, como nós chamávamos quando menino. Assisti maravilhado o desenho animado das bolinhas amarelas.

Até que a jovem com elegância levantou-se. Arrumou o jornal, a bolsa, olhou para os lados. Sorriu-me discretamente, saiu lépida e faceira rumo à Rua do Comércio.

Também saí da sorveteria, fiquei admirando ao longe seu andar, doce balanço a caminho do nunca mais. Parecia dona do mundo. De repente, assustei-me; quando ela passou pela Igreja do Livramento, olhou para trás, me encarou, como tivesse certeza de eu estar ali. Acenou-me duas vezes com a mão, desapareceu entre os passantes. Foi a única e última vez que vi a jovem da bolinha amarela.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A ROQUEIRA

O baiano Danilo abriu a janela da confortável suíte do Hotel Ponta Verde, encheu-se de recordações, estava extasiado com mar azul com matizes verdes. Logo telefonou para um amigo da cidade onde há 40 anos morou e cursou por cinco anos a Faculdade de Engenharia de Alagoas.

Danilo passou alguns dias sendo alvo de almoços e jantares por parte dos colegas. No sábado, enquanto esperava o amigo no lobby do hotel, avistou uma senhora, pareceu-lhe familiar, achegou-se, e o coração disparou ao reconhecer aquela jovem alegre, bonita que ensaiava, cantava e dançava o rock nas festas de Maceió. Doce e inesquecível namorada. Com certeza, chamou-a pelo nome.

– Tereza!

Espantada, ela levantou-se, aproximou-se, o sangue ferveu e explodiu ao reconhecer o amor de juventude, um grito saiu da goela.

– Danilo! Não é possível.

Abraçaram-se longamente, pensamentos rodando, 40 anos de lembranças repentinas e sentimentos passados. Ao arrefecer o ânimo e a emoção, sentaram-se no sofá sorrindo um para outro. Lágrimas correram nas faces de Tereza. Em um relance, o baiano fez uma rápida análise de seu ex amor: devia estar pelos sessenta, ainda uma mulher bonita, cabelos castanhos longos e lisos envolviam o rosto pouco machucado pela idade, olhos vivos castanhos, brilhavam cheio emoção. A boca carnuda era a mesma, ele dizia na época que seus lábios pareciam com os da Brigite Bardot. Tereza interrompeu-o:

– O que está olhando, seu cabra? Estou em forma, graças a muita malhação, bisturi e hormônios.

Conversaram bastante, Danilo contou que estava em Maceió para comemorar 40 anos de formatura. Confessou que, mesmo no tempo de casado, nunca esqueceu aquele amor juvenil, puro e bonito. Tereza emocionada deu um beijo em sua face, resumiu sua vida.

– Fiquei viúva há cinco anos, 3 filhos, 4 netos. Há algum tempo apareceu um câncer no seio, muita luta contra a doença, parece que venci, os últimos exames estavam bons. A compreensão da morte transformou minha cabeça. Hoje quero aproveitar o que resta, tenho vivido intensamente nesses últimos anos. Entendi que a vida é uma dádiva. Sou uma coroa alegre que ama estar viva.

Nesse momento apareceu um colega de turma vinha buscar Danilo para o almoço de despedida. Cumprimentaram-se, ela conhecia o engenheiro. Tereza perguntou o restaurante do almoço, ficou de telefonar para Danilo.

Passava um pouco das três horas no agradável restaurante Akuaba os engenheiros com esposas deleitavam-se numa caprichada moqueca de arabaiana com cerveja. Rolavam histórias, memórias e muito uísque. De repente surgiu Tereza, deu boa tarde, cumprimentou o pessoal, puxou uma cadeira, sentou-se junto a Danilo e cochichou no seu ouvido:

– Não lhe largo mais.

Chegaram no hotel às sete da noite cantando antigas canções. Sozinhos no elevador, beijaram-se. No quarto amaram-se como se o mundo fosse acabar. Danilo havia tomado uma azuladinha, ficou surpreso com a performance de Tereza; parecia uma loba no cio.

Depois do banho, enrolados em toalhas, sentados na varanda, pediram uma garrafa de uísque, os dois abriram os corações, contaram histórias de suas vidas. Tereza lembrou o pacto que fizeram de não escrever cartas. Ela na ilusão dele retornar sofreu muito quando soube que ele estava morando no Canadá.

– O tempo passou e eu desisti de você, meu querido, no que fiz bem. Casei-me, mas nunca lhe esqueci. Essa é a verdade.

– Não há mais tempo de pedir desculpas. Assim que retornei à Bahia, meu pai, deputado, logo arranjou um emprego irrecusável no Canadá. Tive dificuldades com a língua e a parte técnica nos primeiros meses, logo estava dominando a tecnologia moderna de construção. Tive vontade de lhe escrever, mas achei que estaria alimentando uma ilusão. Numas férias em Salvador conheci uma prima bonita e rica. Casei-me. Depois de 10 anos retornei ao Brasil, sempre com bons empregos arranjados pelo deputado, meu pai. Tenho dois filhos, três netos e um casamento desmanchado há alguns anos. Preferi ficar solteiro e boêmio. Nunca me prendi à outra mulher, acho que no inconsciente eu estava amarrado à você. Hoje me deu essa clareza. Tenho certeza, embora velhos, reencontrei o amor de minha vida.

Tereza aproximou-se deu um beijo em sua boca, desceu no queixo, beijou-lhe o peito cabeludo e o ventre, os corpos rolaram no tapete. Só adormeceram depois de mais sexo e muito uísque. Estavam bêbados.

Amanheceu o domingo, Danilo deu-lhe um beijo no rosto, ela acordou-se e o puxou, se amaram do jeito dos velhinhos, mas valeu. Passaram o domingo conversando no apartamento do hotel. Desceram apenas para dar uma volta na orla, tomar uma cervejinha numa barraca. O resto do domingo deitaram-se no tapete, se cheirando, se beijando, contando histórias, relembrando o tempo que Tereza era roqueira num conjunto da garagem de sua casa no bairro da Cruz das Almas e como ele gostava de dançar o rock levantando-a em volta de sua cintura.

Afinal chegou a segunda-feira ingrata, só para contrariar. Danilo tinha que deixar o carro alugado no aeroporto, o avião decolava às 14:00 horas para Salvador. Tereza o acompanhou, retornaria de táxi. O carro deslizava na grande avenida. Num impulso ela beijou sua mão, seu rosto, suas pernas. Danilo dirigindo e sorrindo pedia cuidado e juízo. Ao parar num sinal vermelho, uma van cheia de freiras parou justaposta ao carro de Danilo. As noviças ao perceberam o que eles estavam fazendo, ficaram escandalizadas, fizeram o sinal da cruz, balançaram a cabeça repreendendo aquela falta de vergonha. O semáforo fez-se verde, Danilo acelerou, ao mesmo tempo deu um grito, sorrindo.

– Sua maluca!

Na hora do embarque despediram-se entre beijos e lágrimas. Tereza retornou feliz da vida. Passou a semana recordando os bons momentos. Na quinta-feira telefonou para Danilo.

– Meu amor, agora não vou desistir de você nunca. Estou com a passagem para Salvador. Chego às 15:30 amanhã. Vou lhe procurar.

– Não precisa. Estarei no aeroporto.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ALAGOAS DOS PRAZERES

Caminho de Moisés – praia de Ponta Verde

16 de setembro é dia da emancipação política do Estado de Alagoas. Fomos Pernambuco desde o descobrimento, desde as Capitanias Hereditárias (317 anos). O donatário da Capitania deu prioridade às vilas de Olinda e Recife e deixou o sul da capitania ao Deus dará. Os franceses perceberam a região abandonada, construíram o Porto dos Franceses (onde hoje é a praia do Francês) e durante 60 anos danou-se a derrubar nossa Mata Atlântica extraindo o valiosíssimo pau-brasil e contrabandeando para os países ricos da Europa. Os franceses foram os primeiros ladrões que despontaram nessa região. Eles exploraram a mão de obra dos índios caetés em troca de espelhos e bugigangas. Não construíram uma casa, não lhes interessavam colonizar, só roubaram nossas riquezas. No final do século XVI, Duarte Coelho, o donatário da Capitania de Pernambuco, se mancou, deu uma sesmaria a seu sobrinho para expulsar os franceses e iniciar a colonização do sul da Capitania de Pernambuco (Alagoas) criando três vilas: Porto Calvo, Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul (hoje Marechal Deodoro) e Penedo. A partir do século XVII, a comarca de Alagoas desenvolveu sua economia e cultura. Porém, só foi emancipada em 1817 quando estava economicamente independente, quando havia formado o sentimento de pertencimento e teve uma desavença com o governo pernambucano. Surgiu a Província de Alagoas com capital na cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro).

Alagoas é berço da República, proclamada e consolidada pelos Marechais Deodoro e Floriano. Alagoas das letras e das artes de Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Djavan, Aurélio Buarque, Cacá Diegues. Alagoas do esporte com Marta, Dida. Alagoas que sempre teve destaque político nacional para o bem ou para o mal. O Estado tem uma vigorosa história. Um fato marcante na História do Brasil aconteceu em Alagoas. Ariano Suassuna costumava dizer que para se conhecer o Brasil verdadeiro tem de conhecer a história da República dos Palmares, onde escravos fujões negros se organizaram na Serra da Barriga, no hoje município de União dos Palmares, e viveram em comunidade organizada por mais de 100 anos. Tropas coloniais portuguesas, depois de muitos anos, de vários ataques, conseguiram destruir o grande Quilombo liderado por Zumbi, o primeiro herói brasileiro. A República de Palmares durou quase todo o século XVII; havia mais de 20 mil escravos negros fugidos, organizados. Palmares resistiu a vários ataques e representou durante cem anos um grande incômodo às autoridades portuguesas, foi a primeira sinalização de brasilidade oriunda da África.

Para finalizar estas poucas linhas, quero homenagear meu Estado transcrevendo um texto, uma poesia, do paraibano Noaldo Dantas, que veio a serviço a Maceió, encantou-se com a cidade, adotou-a como sua pátria e ficou em Alagoas para sempre.

O DIA EM QUE DEUS CRIOU ALAGOAS – Noaldo Dantas.

Escrevi certa vez que Deus, além de brasileiro, era alagoano. Em verdade, não se cria um estado com tanta beleza, sem cumplicidade. Sou capaz de imaginar o dia da criação de Alagoas. Ô São Pedro, pegue o estoque de azul mais puro e coloque dentro das manhãs encarnadas de sol; faça do mar um espelho do céu polvilhado de jangadas brancas; que ao entardecer sangre o horizonte; que aquelas lagoas que estávamos guardando para uso particular, coloque-as neste paraíso. E tem mais, São Pedro: dê a esse estado um cheiro sensual de melaço e cubra os seus campos com o verde dos canaviais. As praias, ora, as praias deverão ser fascinantemente belas, sob a vigilância de altivos e fiéis coqueirais. Faça piscinas naturais dentro do mar; coloque um povo hospitaleiro e bom; e que a terra seja fértil e a comida típica melhor que o nosso maná. Dê o nome de Alagoas e a capital, pela ciganice e beleza de suas noites, deverá chamar-se Maceió, e a padroeira, Nossa Senhora dos Prazeres.

OBS – ESSA É A PRIMEIRA CRÔNICA DO LIVRO “MACEIÓ, MINHA LINDA” A SER LANÇADO DIA 4 DE AGOSTO NO ARMAZEM GUIMARÃES, AV. AMÉLIA ROSA NA JATIÚCA ENTRE 18 E 22 HORAS. TODOS CONVIDADOS, ESTAREI AUTOGRAFANDO OS LIVROS A PARTIR DAS 17:00 HORAS.