CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

EU E A BRASKEM (II)

O Trapiche da Barra é um dos bairros mais antigos de Maceió. Começou com um porto na lagoa Mundaú que transportava mercadorias e passageiros aos povoados e pequenas cidades à margem da imensa lagoa. Aos poucos, o bairro foi se modernizando. A classe média e a alta descobriram a beleza, o clima de constante brisa e a excelente qualidade de vida. Um paraíso entre a lagoa e o mar.

Nos anos 70 o bairro do Trapiche da Barra tinha se transformado no futuro urbano de Maceió. No bairro construíram uma ótima infraestrutura: Escolas, Universidade, o “Campus Tamandaré”, Faculdade de Medicina, Hospital Carneiro, Hospital do Pronto Socorro, Ginásio Esportivo Completo, o Trapichão (Estádio Rei Pelé), Supermercados, Motonáutica Clube, comunidade das mulheres rendeiras, cemitério, praças, entre outros equipamentos urbanos e culturais. O Trapiche estava pronto para o futuro. Construíram belas casas, já se pensava na construção vertical entre edifícios e hotéis, competindo com a Pajuçara e Ponta Verde, quando estourou a bomba.

“No bairro do Trapiche da Barra será instalada uma fábrica de produtos químicos aproveitando as jazidas de Salmoura no sub solo da lagoa Mundaú nos bairros da região de Bebedouro”.

Para nós que já tínhamos comprado um terreno pensando em construir um edifício de seis andares, 18 apartamentos com vista para o mar e a lagoa, foi uma tristeza. Apenas alguns ecologistas, alguns estudantes fizeram manifestações contra a implantação da Fábrica Salgema (Braskem). Com a notícia, os imóveis da região foram desvalorizados estupidamente. Desistimos de construir o primeiro belo edifício do Trapiche. Acabaram com o futuro da região. O movimento ambientalista ainda era incipiente. No tempo da ditadura o Sistema Econômico era forte. Aliás, até hoje os Podres Poderes continuam musculosos.

Em 1976, quatro meses antes de iniciar o funcionamento da Fábrica Salgema (Braskem), houve uma reunião com os chefões da Fábrica, Polícia Militar, Bombeiros, autoridades e o pró reitor Radjalma Cavalcante do Campus Tamandaré que funcionava na antiga Escola de Aprendizes de Marinheiro, no final da restinga. Abriram a reunião, um Chefão dirigiu-se ao pró reitor Radjalma perguntando.

– Quantos alunos e funcionários tem o “Campus Tamandaré”, senhor Reitor?

– Cerca de 3.000 (três mil) entre funcionários e alunos. Respondeu Radjalma prontamente.

– Dentro de três meses a fábrica Salgema estará funcionando. E para maior segurança em um eventual vazamento de cloro ou outro produto, é necessário que a Universidade Federal de Alagoas adquira 3.000 (três mil) máscaras contra gases para os alunos e construa um galpão revestido de protetor contra gases tóxicos, que caiba 3.000 (três mil) pessoas. – Ordenou o Chefão como se o resto do mundo fosse à ele subordinado.

– A Universidade Federal de Alagoas não tem dotação para comprar as máscaras, nem de construir esse galpão. – Respondeu prontamente o Pró-Reitor Radjalma Cavalcante olhando nos olhos do Chefão.

– Isso é problema da Universidade.

Encerrou bruscamente a reunião e partiu sem conversa o Chefão.

A Fábrica Salgema (Braskem) iniciou sua produção de matérias cloradas expulsando 3.000 (três mil) estudantes universitários do Pontal da Barra no Trapiche, acabou com o “Campus Tamandaré”. Essa história, o brilhante professor Radjalma Cavalcante contava abertamente em qualquer lugar.

Alguns amigos ainda lembram com saudades do “Campus Tamandaré” onde estudavam cerca de 3.000 universitários. A UFAL teve que alugar urgente algumas casas até terminar a construção e inaugurar a Cidade Universitária no Tabuleiro. 

(continua na próxima coluna)

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

EU E A BRASKEM (I)

Fábrica Braskem, entre o mar, a lagoa Mundaú e encravada na parte urbana do bairro do Trapiche

Éramos meninos, meninos, maloqueiros e reis de um paraíso, nosso reinado: a bela cidade de Maceió. A praia da Avenida da Paz, o coreto, era o ponto de encontro da boa turma divertida. Entre nós não havia diferença social, racial ou religiosa. Havia uma escala de valores: quem melhor jogava ou nadava ou os melhores contadores de histórias. Infância feliz, livre, leve e solta. De repente a puberdade, fomos descobrindo seus encantos.

Pela manhã, logo cedo, hora do racha, futebol na areia branca e limpa. Ainda suados um mergulho no mar azul esverdeado, calmo e transparente. Muitas vezes corríamos até o final a praia do Trapiche da Barra. O ponto de referência na praia era o Morro Tom Mix. Belas dunas do Trapiche e seus imensos coqueiros. Subíamos as dunas com o pé enfiando na areia. Em cima, nos sentíamos donos do mundo. Descíamos pelo lado oposto onde se espelhava a enorme, tranquila e belíssima Lagoa Mundaú com suas ilhas cheias de coqueiros, suas garças voando rente ao espelho d’água, pescando o sustento de seus filhotes em ninhos bem escondidos. Lagoa adentro inúmeros pescadores jogavam tarrafas pescando carapeba, tainha e outros tipos de peixe. Marisqueiras peneirando catavam sururu. Nosso bando percorria a Lagoa Mãe, divertindo-se, descobrindo coisas bonitas e malvadamente matando passarinhos com atiradeiras que levávamos no bolso.

No retorno subíamos o Morro Tom Mix e descíamos pelo o lado da praia sentados em palhas de coqueiros, dava uma sensação gostosa na barriga enquanto escorregávamos sentados nas palhas. Tínhamos inventado o “skybunda”, hoje uma brincadeira adorável nas praias onde existem dunas ou morros. As Dunas do Trapiche, o morro Tom Mix nos fascinavam. De um lado, um mar azul esverdeado e do outro, a Lagoa Mundaú, mãe dos pescadores. Nesse paraíso crescemos, ele ainda vive em nossas almas.

Às vezes partíamos para outros locais, como o Vale do Riacho Salgadinho, onde havia vários sítios. Pulávamos a cerca e ligeiro surrupiávamos: coco, cana, melancia, manga e outras frutas. Era nosso lanche divertido à beira do Salgadinho. Às vezes pescávamos naquela água límpida do riacho que corta toda cidade de Maceió.

O tempo foi dispersando cada menino da Avenida da Paz. Nos anos 70 eu me formei engenheiro, passei a trabalhar na Construtora de um amigo, iniciamos a construir edifícios de apartamento na orla de Maceió. Certa dia o chefe, um visionário, apareceu alegre, havia comprado um terreno na praia do Trapiche para construir um edifício com vista da praia e da lagoa Mundaú. No bairro do Trapiche já havia uma ocupação urbana com belas casas. Na época do início de construção de edifícios na praia de Pajuçara, Ponta Verde, meu chefe, enxergou mais longe. A expansão urbana da cidade seria o belo bairro do Trapiche, o bairro do futuro. Todos os dias havia reunião de planejamento e de um projeto moderno do Edifício do Trapiche. Éramos entusiasmados por aquela obra, o projeto pioneiro faria sucesso, competindo com os incipientes edifícios das praias de Pajuçara e Ponta Verde

Até que um dia nos chegou a sinistra, a trágica notícia: Uma fábrica de produtos químicos clorados seria instaladas entre a praia do Trapiche a lagoa Mundaú. A partir daquele dia houve uma polêmica entre a população pela periculosidade de uma fábrica de produtos de cloro (elemento letal). A Imprensa ajudou a espalhar a mentira que a fábrica traria mais de 2.000 empregos e seria a redenção econômica do Estado. A fábrica iria transformar em produtos químicos a matéria prima, SALGEMA, encontrada em descomunais quantidades no sub solo na Lagoa Mundaú. Poucas vozes surgiram contra a Instalação da Salgema, uma delas, Dr. José Geraldo Marques ainda ecoa, e se tornou líder contra a instalação da fábrica. O Governo Federal, o Poder Econômico, a Petrobrás, interessados, sempre foram bem mais fortes e naquela época não havia consciência ambiental. Não teve jeito, por imposição dos poderosos e da ditadura, a Fábrica Salgema foi instalada numa região de fragilidade ambiental entre o mar e a lagoa. Terraplenaram o Morro Tom Mix, as dunas de minha infância, deu-me uma tristeza! A notícia foi suficiente para desvalorizar todos os imóveis do bairro do Trapiche da Barra e circunvizinhança.

(continua na próxima coluna)

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A BRIGA DO SÉCULO: CAPIXABA x PORRETA

Osvaldo Carlos do Rego Couto, de apelido Capixaba por ter nascido no Espírito Santo, filho do Coronel Couto, criou-se praia da Avenida da Paz. Forte, musculoso, xodó das meninas, cuidava de seu corpo. Foi meu colega na Escola Preparatória de Cadetes em Fortaleza, atleta de primeira grandeza, excelente ponta direita, não quis continuar a carreira militar. Desde cedo apreciou boas mulheres, bons papos, inteligência e raciocínio rápidos lhe davam o toque de bom humor e alegria. Contador de história nato; prendia atenção ao contar suas aventuras.

Mudou-se para Brasília, nunca perdeu o contato com os companheiros de juventude, gentil, quando visitava Maceió distribuía presentes entre os amigos. Tinha simpatia e alegria, inatas, um ser humano de bem com a vida. Na última vez que almoçamos juntos, festa de fim-de-ano do Cáu, relembramos grandes noitadas, aventuras de jovens cheios de sonhos e até irresponsabilidades. A vida de Capixaba é um livro bem humorado, ainda não escrito.

Capixaba gostava de carnaval, certa vez nós estávamos fazendo o passo no Bloco Cavaleiro dos Montes numa manhã quente de Banho de Mar à Fantasia, a moçada enlouquecia ao tocar o frevo Vassourinhas. Eu vi quando Capixaba recebeu uma cotovelada na cara, caiu no asfalto, atordoado. Ao recuperar-se da pancada identifiquei o agressor, mas não tive a petulância de partir para briga contra o agressor de meu amigo, era nada mais, nada menos que Porreta, um baiano, alto, forte, arruaceiro de zona, certa vez lutou e bateu em três policiais na Boate Tabariz em Jaraguá. Porreta, conhecido nas baixas rodas por ser briguento e homossexual, era o “Madame Satã” de Maceió. Todos tinham medo de Porreta, bicha macho para ninguém botar defeito. Capixaba inconformado, desafiou o baiano para um duelo, tipo Vale Tudo dali a um mês, na Praça Sinimbu à noite. Porreta não refugou, topou a parada.

Capixaba começou a preparar-se para grande luta. Boêmios, prostitutas, policiais, políticos, desocupados, estudantes, comentavam o duelo marcado, causou a maior expectativa na cidade.

Capixaba começou a treinar. Corria diariamente às cinco da manhã do coreto da Avenida ao Morro Tom Mix, uma linda duna demolida na praia do Trapiche pela Salgema (Braskem).

Naquela época, Nezito Mourão, um dos maiores beques do Brasil, jogou pelo CRB, depois jogou no Santos com Pelé, campeão do mundo em 61-62, havia aberto uma Academia de Boxe. Capixaba matriculou-se, recebeu aulas técnicas de murros e defesas, preparando-se para enfrentar o Porreta. Certa vez “brigaram” em treinamento, Capixaba de repente aproveitou uma guarda aberta de Mourão, deu-lhe um soco no olho, zonzou, Nezito tentou dar o troco no indisciplinado aluno, entretanto, Capixaba com medo do revide correu em disparada foi bater em Marechal Deodoro. Fez parte do treinamento.

Certa manhã, nós estávamos conversando sentados num banco da Avenida da Paz, quando Capixaba avistou dois marinheiros ingleses caminhando em direção ao cais do porto, ele gritou “Son of bich”, os marinheiros não gostaram, continuaram a caminhada, Capixaba correu atrás, provocando, deu uma tapa em cada inglês. Iniciou no calçadão uma briga de cinema, dois contra um. Lutaram até cansar. Certo momento Capixaba correu da luta, dizia ser treinamento para enfrentar Porreta.

Afinal, chegou a noite esperada ansiosamente pela população de Maceió. Alguns amigos acompanharam nosso herói até a Praça Sinimbu. Ao se aproximar do local, Capixaba ouviu o grito provocativo do Porreta com as mãos nos quartos, “Preparou-se para levar a maior surra de sua vida?”

Capixaba tirou seus sapatos, a camisa, o relógio, me pediu para guardar. arregaçou a calça. A assistência formou um círculo deixando os dois lutadores no centro. Aconteceu uma das maiores lutas presenciadas nas Alagoas e alhures. Primeiros movimentos, os adversários se estudando, alguns ataques, outras defesas, jogo de pernas. De repente rápidos murros, socos na cara, na barriga, às vezes se atracavam, se soltavam, não havia juiz para separar. Esmurraram-se, se digladiaram por mais de uma hora, suavam, sangravam.

Estavam cansados, Capixaba distraiu a guarda, Porreta aproveitou, acertou um soco desconcertante na cara, nosso amigo caiu no chão, jorrando sangue pela boca. A raiva subiu para cabeça, Capixaba num ímpeto surpreendente levantou-se num pulo dando cabeçada no peito do atônito Porreta. “Madame Satã” caiu de costas, abriu a cabeça no calçamento, sangrou. Ato contínuo, Capixaba montou em Porreta, não perdoou, esmurrando-o incessantemente.

Retiraram Capixaba de cima de “Madame Satã” nocauteado, sangrando. Imediatamente levaram-no para o Pronto Socorro, quatro dentes quebrados, muito sangue. Assim terminou o reinado de Porreta, o baiano mais macho do Brasil.

Capixaba também acabou seu reinado nesse mundo, foi-se embora meu querido amigo. Resta agora lembranças, contar suas histórias, ou dançar um tango.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O MILAGRE

Riacho Poxim – Coruripe – Alagoas

Sangrando à bala no ombro esquerdo Vadinho conseguiu com dificuldade atracar a canoa à beira do riacho Poxim. Levantou, ajudou Tereza a sair do barco. Sua namorada também baleada; o tiro acertou o medalhão de Santa Terezinha que ela o levava no pescoço, a bala amassou e resvalou. Os dois abraçados caminharam devagar em direção ao Posto de Saúde do povoado. Durante o percurso, amigos e moradores notando o sangue nas vestes do casal, acudiram e ajudaram. Eram onze horas da manhã daquele sábado meio nublado. O Doutor Luiz prestava consulta ao povo da região. Ao ver Vadinho entrar ensanguentado, o médico levantou-se, enquanto a enfermeira deitou o ferido na cama sala de curativos, retirou-lhe a camisa, constatou que uma bala havia penetrado, o ferimento sangrava. Em poucos minutos o médico anestesiou o local do ferimento, extraiu a pequena bala calibre 22, estancou e limpou o sangue, espalhou pomada, costurou alguns pontos, encobriu o ferimento com gaze e esparadrapo.

– Está pronto para outra. Pode ir em paz, Vadinho. Cuidado com a vida.

– Obrigado Doutor Luiz, foi sorte encontrar o senhor aqui.

– Fui contratado para atender o povoado do Poxim aos sábados, cumpro minha obrigação, mas não estou dando conta. Há necessidade de mais médicos todos os dias. Exijam ao Prefeito.

Tereza na sala de espera do Posto, apreensiva, segurava e beijava o medalhão de Santa Terezinha amassado pela bala que acertou, amassou e resvalou pelo seu corpo. Enquanto atendiam Vadinho, ela contava e repetia os detalhes aos que lotavam o Posto. Uma senhora passando dos 60 anos, fanática adoradora de Santa Terezinha, ao ouvir a história da medalha, como uma explosão saiu caminhando pelo povoado, beijando sua medalha de Santa Terezinha no peito e anunciando, gritando.

– Milagre! Milagre! Milagre!

Tereza continuou contando os tiros que ela e Vadinho levaram.

– Quando notei João de Antônia à beira do rio apontando o revólver e atirando, gritei por socorro. Quando a bala bateu no centro do medalhão, me desequilibrei e caí no fundo da canoa meio atordoada. Vadinho pensou que eu tinha morrido, largou o remo, abraçou-me chorando, gritando que me amava, que eu não morresse. Nesse momento, outro tiro atingiu-lhe o ombro. A dor de me perder era maior, ele continuava me abraçando e chorando. Ao notar que eu abri os olhos e estava viva, ele sorriu feliz. Ficamos abraçados no fundo da canoa. Só nos levantamos quando João de Antônia ligou o carro e fugiu. Vadinho em poucas remadas conseguiu atracar a canoa à beira do rio.

Zé do Grilo, Betoca e Quincas da Marieta, três desocupados que bebiam no Bar do Chico assistiram aos fatos. Zé do Grilo com sua fanfarronice, aproveitou a oportunidade. Contando a todos que chegavam ao bar para tomar uma birita lhe prestavam à maior atenção.

– Chegamos ao Bar do Chico vi ainda Vadinho desatracar a canoa e navegar rio abaixo com Tereza. Não tinha dado dez horas quando apareceram no Bar do Chico, João de Antônia e Inácio, os dois bêbados que nem um gambá, tinham virado a noite numa casa de raparigas de Coruripe. Tomavam a saideira no Bar do Chico, de repente João de Antônia, gritou: “-Filhos de uma puta!!”. Eu vi que Vadinho e Tereza chegavam na canoa Flor do Poxim. João desceu à beira do rio, puxou um revólver, atirou três vezes em direção à canoa que chegava. O primeiro tiro acertou em Tereza que e caiu no fundo da canoa; o segundo tiro, errou; e o terceiro tiro acertou no ombro Vadinho. Tereza estava morta. Os dois deitaram-se abraçados no fundo da canoa. Quando João de Antônia fugiu, eu assisti o milagre, Tereza ressuscitou abraçada à Vadinho que levantou-se ferido, pegou o remo e conseguiu atracar a canoa.

Milagre! Milagre! Milagre. Diziam no Bar do Chico, em poucas horas todo povoado queria abraçar Tereza e segurar a medalha amassada pelo tiro. Vadinho, depois de tratado, sentou a namorada num banco aproveitando a sombra de um figueira de 200 anos.

Foi quando o povo teve a oportunidade de segurar a Medalha Milagrosa por apenas R$ 2,00 que caíam direto no bolso do ferido, o astuto, namorado de Tereza. No final do dia, não se sabe como, o povo, os amigos de Tereza já haviam promovida pelas leis canônicas do povo, como Beata Tereza. Assim surgiu a beata mais bondosa, carinhosa, bonita, fogosa e desejada beata do Nordeste Brasileiro.

Primeira página de meu novo romance: BEATA TEREZA CANSADA DE REZA

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

RAPADURA, OURO NORDESTINO

Tinha de estudar muito, só passava quem soubesse. Não havia cola (o professor entregava a prova, saía da sala, só retornava para recolher na hora determinada, ninguém colava, era parte do nosso Código de Honra, não escrito). O dia do cadete estudante iniciava às seis horas da manhã com o toque da alvorada, imediatamente todos faziam a higiene pessoal, arrumavam as camas, limpavam banheiros e privadas. Vestiam a farda, ficavam prontos para mais um dia de estudo e instruções que só terminava com o toque de silêncio pelo corneteiro às 22 horas.

Havia momentos de lazer, principalmente nos fins de semana. Sem pai, nem mãe, nem irmãos, os colegas tornaram-se nossa nova família. Uma amizade fortalecida entre os irmãos de armas que conviveram juntos por seis anos, incluindo a Academia Militar das Agulhas Negras, conseguimos o objetivo maior: ser oficial do Exército Brasileiro. Essa irmandade entre cadetes da mesma turma é indissolúvel e respeitosa. Alguns colegas deixaram a carreira pelo meio, fui um deles, deixei a carreira militar como capitão. Porém, a maioria continuou com muito esforço e estudo cursando a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, Estado Maior, Escola Superior de Guerra, entre inúmeros cursos. Difícil é chegar a general, dos 77 colegas de 1956 apenas dois galgaram ao posto de general.

Quando termina o curso da Academia Militar das Agulhas Negras os novos oficiais são distribuídos para servir nos mais diversos e longínquo locais do Brasil: Cucuí na Amazônia , Cruz Alta, Cuiabá, e outras cidades melhores e piores, dependendo da classificação. Eu fui servir no 19º BC em Salvador.

O tempo passou, os colegas dispersaram, até que em 1994 o General Rômulo Bini, comandante da guarnição de Natal resolveu organizar um encontro de nossa turma. A partir daquele ano, essas reuniões tornaram-se constantes trazendo alegria e muitas recordações, brincadeiras, passamos a ser cadetes novamente. Este ano haveria uma reunião em Maceió dos OITENTÕES, a maioria daqueles meninos de 1956 completa 80 anos em 2020, mas a pandemia não deixou, ficou adiada para 2021.

Foi numa dessas reuniões que Rocha, aluno 108, laureado primeiro de turma, Porta-Bandeira da Escola Preparatória, contou-me a história da bomba. Confirmada pelo coronel Wanderley, o maior goleiro que passou pela Academia Militar.

Wanderley, paulista de Lorena, foi um dos colegas da Escola de Fortaleza. No tempo de Ceará ele apaixonou-se pela comida nordestina: carne de sol, peixe frito, frutas regionais, mangaba, pinha, e principalmente a rapadura.

No final dos anos 60, eram capitães. Rocha de Engenharia servia na Fabrica de Material Bélico em Piquete e Wanderley de Infantaria, servia no 5º RI de Lorena, cidades próximas. O fato se deu na época de repressão e terrorismo em alta escala, principalmente em São Paulo, onde aconteceram vários ataques terroristas a quartéis do Exército e o caso da fuga do Capitão Lamarca, nosso contemporâneo na AMAN.

Rocha depois de uma viagem de férias ao Jati no Ceará, onde mora, trouxe, como sempre, deliciosas rapaduras para o amigo Wanderley.

Era um dia de quarta-feira à tarde, não havia expediente no 5º RI. Rocha, apressado, parou o carro em frente ao quartel, chamou um soldado e entregou-lhe o pacote de rapaduras embrulhadas em palha de milho, envolta em papel de jornal, pediu para entregar ao Capitão Wanderley. Deu partida no carro rumo a Piquete.

Nesse momento o tenente, oficial de dia observava o movimento pela janela, percebeu quando o soldado recebeu o pacote. O tenente saiu da sala correndo, ordenou ao soldado colocar o embrulho no chão do pátio, mandou tocar alarme geral e gritava: Cuidado é uma bomba !

Soldados que estavam dentro do quartel, tomaram posições estratégicas, atrás de colunas e paredes, vigiando, ao longe, a ”bomba”, imóvel, soberba no meio do pátio.

O quarteirão foi interditado, o transito desviado, ninguém podia se aproximar do quartel. Logo a mídia tomou conhecimento, encheu os prédios vizinhos de câmara de televisão de onde filmavam a bomba no meio do pátio, esperando especialista de São Paulo para desativá-la.

Naquela tarde, o Capitão Wanderley vinha de uma pescaria e notou um movimento estranho, se dirigiu ao quartel. Os soldados contaram o que estava ocorrendo ao capitão. Wanderley entrou no quartel, ao olhar o pacote da bomba, reconheceu os abençoados pacotes que o Capitão Rocha lhe trazia. Contou sua versão sobre a rapadura ao tenente, que nessa altura não admitia outra hipótese, era uma bomba.

Os soldados abrigados por trás das colunas ficaram apavorados com a aproximação do capitão em direção ao pacote. Wanderley nem ligou os gritos de atenção, só pensava na deliciosa rapadura. A expectativa e o silêncio tomaram conta dentro e fora do quartel nos edifícios. Wanderley chegou junto, acocorou-se segurando o pacote, foi abrindo pelos lados, tirou as palhas de bananeiras até aparecer algumas barras douradas de rapadura, o ouro nordestino. Com os dedos quebrou um pedaço, levou-o a boca, saiu mastigando, andando devagar, com o pacote no sovaco, deixando a plateia pasmada e a imprensa frustrada.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A MALUCA TRICOLOR

O Brasil inteiro estourou. Fluminense Campeão das Américas, levantou a Taça Libertadores da América no templo do futebol brasileiro, o Estádio Municipal do Maracanã. O sábado 4 de novembro foi um dia histórico para o futebol brasileiro. A vitória do Tricolor das Laranjeiras em cima do arquirrival argentino Boca Júnior, mexeu com todo o Brasil de Norte a Sul. Torcedores de outros times entraram na alegria e na celebração. A Taça Libertadores da América equivale ao Campeão da América que disputará em dezembro o título mundial contra os clubes campões de outros continentes.

Livaldo é torcedor fanático, assistiu ao jogo no apartamento dos pais. Emborcou bastante uísque e cerveja. Quase morria do coração quando o Boca empatou. Ao começar a prorrogação assistiu o resto do jogo ajoelhado junto à televisão. Quando John Kenedy fez o golaço da vitória, os pais de Livaldo tiveram medo dele ter um ataque cardíaco. O jogo terminou não poderia haver no mundo uma alegria maior que a de Livaldo. Assistiu na televisão todos os comentários, a entrega de medalhas, as repetições dos gols. Durante à noite saiu a pé de bar em bar até encontrar alguma turma comemorando com bandeiras na mesa. Abraçou os tricolores, sentou-se à mesa àquela altura cantaram, beberam.

Livaldo queria ver mais tricolores pela cidade para curtir aquela noite maravilhosa, despediu-se dos amigos e caminhou devagar pelo calçadão da Praia da Jatiúca, uma festa. De repente avistou ao longe uma moça na praia bem iluminada de vestido longo verde, faixa branca na cintura, fone no ouvido, descalça, dançando sozinha na areia. As pequenas ondas cobriam seus pés molhando e a ponta do vestido, ela dançava, se requebrava, tendo o mar como companheiro. Livaldo sorriu com a bêbada maluca, continuou sua andança até que retornou. Ao passar novamente pelo local da bêbada notou que ela calçava as sandálias, retornava ao calçadão. Quis o destino, ou o diabo, ou o Sobrenatural de Almeida, que a moça cruzasse com Livaldo. Ele teve um susto quando a bêbada, ao avistá-lo com a camisa do Fluminense, abriu os braços e cantou sorrindo:

– “Sou tricolor de coração… Sou do time tantas vezes campeão…”

A bela maluca aproximou-se deu uma abraço em Livaldo. Depois de algum papo, sentaram num banco olhando o mar. Os dois se entenderam, maior empatia, eram tricolores doentes beirando à loucura. Livaldo calculou a idade da moça entre 25 a 30 anos, bonita coroa. Meio bêbados conversaram sobre a grande vitória. Valéria contou um pouco de sua vida. Engenheira morava em Brasília, estava em Maceió para resolver pendências numa obra, retornaria na quarta-feira. Certa hora, a garota tricolor convidou para tomar uma cerveja, precisava comemorar e muito mais esse título. Sentaram-se à mesa de uma barraca de praia. Entornaram cerveja e uísque. Livaldo observou gracejando que ela estava vestida apenas de verde e branco, perguntou se não tinha pelo menos uma faixa vermelho-grená. Valéria deu uma gargalhada, apertou a mão do amigo, cochichou no ouvido para ele olhar. Sentou-se em sua frente, num gesto discreto e sensual levantou devagar o vestido, apareceu as pernas bem torneadas, as coxas, finalmente ele viu nitidamente a calcinha vermelha grená. Ela levantou-se deu uma gargalhada e disse bem alto, todos ouviram na barraca:

– Eu sou do time tantas vezes campeão. Nelson Rodrigues disse: o Fluminense nasceu com a vocação da eternidade… Tudo passará… Só o Tricolor não passará.

Abraçaram-se, beijaram-se foram para o hotel. Ainda vestidos Valéria puxou-o para dentro do banheiro, abriu o chuveiro, abraçaram-se tirando a roupa do outro, se beijaram, encharcados da água que descia em suas cabeças em seus corpos, se amaram feito dois animais.

Eram duas horas da tarde do domingo quando Livaldo saiu do hotel. Valéria dormia o sono dos justos, dos amantes, dos campeões. Ele deixou um bilhete pedindo para telefonar quando acordasse. Perto da hora do jantar, sem alguma notícia de sua tricolor, Livaldo resolveu caminhar até o hotel, comprou flores vermelhas. Pediu para interfonar, Valéria acordou-se naquele momento, mandou subir. Ao abrir a porta, radiante Valéria abraçou, beijou, arrastou seu tricolor para cama. Não saíram durante a noite, amor ininterrupto, uísque, carinho e alegria. Foi a maior comemoração do Fluminense campeão da América 2023.

Valéria passou mais três dias e meio de amor, interrompidos apenas por algumas horas de trabalho e passeios. Nos dias seguintes Livaldo levou a garota tricolor para magníficos passeios por perto da cidade: Barra de São Miguel, praia do Francês, Mostrou as cidades histórias de Marechal Deodoro e Penedo, onde dormiram no Majestoso Hotel São Francisco.

Valéria retornou à Brasília encantada e com a sorte de ter encontrado um maluco tricolor igual à ela. Marcaram encontro em Brasília para voarem à Arábia Saudita assistirem o Campeonato Mundial Interclubes em 12 de dezembro. Quem sabe se voltarão campeões do mundo?

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UM MATUTO NO LA LICORNE

Semana passada fui a um consultório médico, cheguei cedo, antes da hora marcada. Encontrei Jairo, velho amigo de juventude e de boas farras. Ele observou pertinente.

– Capita, tempos atrás nos encontrávamos em bares, na boa boemia da cidade, hoje só nos encontramos em consultórios, laboratórios. Essa é a vida de quem viver mais um pouquinho.

O médico estava atrasado tivemos tempo para uma boa conversa. Jairo me mostrou a revista feminina que ele folheava. Tomei um susto ao ler a chamada de capa da matéria principal da revista feminina.

Na capa, a foto de uma mulher, loura, vistosa, sensual, e a manchete: PROSTITUTAS DE LUXO CONTAM COMO DEIXAR UM HOMEM LOUCO. “Você já se perguntou que talentos especiais têm as mulheres das casas de prostituição de luxo?”.

A matéria de quatro páginas apresentava o ambiente da prostituição de luxo de São Paulo. Mostrando segredos desse mundo paralelo que valem riscos, segundo a jornalista. Contava com detalhes o que fazem as profissionais para agradarem os homens. Quatro prostitutas são entrevistadas e dão as dicas como deixar os homens doidões. Ensinam desde o primeiro olhar; como conversar e ser educada: “Ser uma dama na mesa e uma puta na cama”. Confessaram pormenores de toda espécie de carinho. Ensinaram a fazer sexo com criatividade. Massagem nos pés, nas costas e em todos os pontos do corpo masculino. Finalmente constataram que os homens sentem-se poderosos, quando percebem que são solicitados para fazê-las felizes (fingindo, claro). Uma bela aula teórica numa revista comprada nas bancas.

Aproveitando o fascinante tema, meu amigo Jairo, contou-me que há anos ele viajou a São Paulo para resolver algum problema de sua secretaria. Depois de um dia de trabalho, ao chegar no hotel, tomou um banho e jantou. Como nada tinha a fazer foi ao bar, sentou-se no banquinho alto, tomou dois uísque. Sem querer, ouviu a conversa entre dois homens, vizinhos de bar. Eles falavam das lindas mulheres do La Licorne, uma boate de mulheres, perto do hotel. Jairo ouviu o bastante para dar vontade de conhecer. Pediu informações na portaria e saiu. Ao entrar no La Licorne ficou encantado com a decoração e as belíssimas mulheres sentadas no bar esperando a chamada de algum cliente.

Jairo foi atendido por um garçom que o conduziu à uma mesa vazia e deu a dica que ele poderia escolher qualquer daquelas mulheres. Jairo pediu um uísque, sem olhar o preço no cardápio. Ficou pensando que aquelas mulheres deviam ser caras. Mas ele estava disposto, fez um sinal para uma loura tipo Marilyn Monroe, cheia de curvas, com um vestido bem caído, cabelos penteados. A magnífica sentou-se à sua mesa, conversaram, quando soube ele ser engenheiro, ela revelou que seu irmão também era. Não deu meia hora, Jairo, ansioso para saber o custo da mulher na cama, perguntou.

Ela discretamente mostrou três dedos da mão direita. Jairo se alegrou pensando, trezentos reais é cachê de Maceió. Imediatamente levou a Deusa para o quarto. A mulher era uma mestra, fazia coisas que ele nunca imaginou que se praticasse na cama, ele ficou louco com a eficiência da mulher, com a habilidade incrível em usar preservativos na língua. Sentiu-se morrer durante o êxtase. Quando Jairo estava tomando banho, tocou uma sineta discreta. A Deusa apressou o nosso amigo.

– Está na hora, temos cinco minutos para sair ou pagar o dobro do quarto. Gostou meu amor? Pode me pagar agora, o consumo e o quarto você paga na mesa ao garçom.

– Claro que gostei e voltarei. Você foi tão maravilhosa que vou pagar mais um pouco.

Tirou da carteira e entregou à Divina, três notas de cem e uma de cinquenta.

– O que é isso? R$ 350,00? Você está louco? Nosso cachê tabelado é três mil reais, foi o que acertamos.

– Você me mostrou três dedos, eu pensei em trezentos reais. Não tenho R$ 3.000,00 comigo, agora.

– Aceito cartão de crédito, pague junto à conta do bar.

– O problema é que meu cartão de crédito é conta conjunta com minha mulher, ela vai notar a despesa quando chegar a fatura. Deus me livre!

– Vamos à administração para resolver esse problema. Rá, rá. Por R$ 350 reais eu não seguro no cacete.

– Depois de muito discutir qual seria a melhor forma dele pagar. O gerente confirmou por telefone que ele estava hospedado no hotel com saída marcada para segunda-feira. Jairo deixou todos os documentos, levou apenas a identidade e um cartão de um Banco.
Dia seguinte, depois das dez horas conseguiu sacar R$ 3.800,00 no banco. Às quatorze horas quando o La Licorne abriu as portas para recomeçar os trabalhos, ele pagou o cachê e as doses de uísque. Nunca esqueceu a estupenda Marylin.

– Valeu!!!

Me revelou às gargalhadas, enquanto entrava na sala do médico.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

EDUARDO BOMFIM

Certo vez recebi um telefonema do amigo Eduardo Bomfim marcando um encontro num café. Para surpresa ele me convidou a ser seu assessor durante o mandato de vereador em Maceió. Me senti honrado mas, ponderei, ele ser do Partido Comunista do Brasil e eu um liberal, embora tivesse simpatia com alguns propósitos da esquerda, como a justiça social, eu era à favor da livre iniciativa, do empreendedorismo e além do mais, um Capitão do Exército, embora reformado. O Partido não iria me rejeitar? Naquela calma e poder de persuasão, falou que, antes de tudo, ele era um democrata, aceitava ideias contraditórias, gostava de argumentar suas razões. Já havia consultado o Partido que aprovou meu nome, um técnico como assessor. O convite fora feito, por eu ter exercido vários cargos na Prefeitura e ser conhecedor dos problemas e das soluções da cidade, queria realizar um mandato participativo, ouvir o povo, fazer um trabalho em direção aos mais carentes, principalmente a cultura popular. Aceitei imediatamente, faria aquele trabalho junto ao Bomfim até como voluntário, pois ele era um dos políticos alagoanos da maior credibilidade.

Desse dia em diante começamos a planejar e viabilizar projetos, ele me dava carta branca para o trabalho técnico e principalmente ouvir a população em seus anseios da comunidade.

Problemas nos bairros, eu fotografava e dava entrada direto nas secretarias, cobrava, eles resolviam os problemas. Gratificante e inesquecível trabalhar com o Bomfim. Todos os dias nos encontrávamos para avaliação de trabalho e projetos em andamento. Foi iniciativa de Eduardo Bomfim um projeto cultural de maior sucesso na cidade. Transformamos a Rua da Praia em Rua Shopping às sextas-feiras. Fechávamos a rua aos carros, as lojas ficavam abertas e muita apresentação cultural nas ruas. O Prefeito Ronaldo Lessa deu total apoio. Eu conversei e convenci com todos os moradores e donos de loja da rua da Praia. Até hoje o projeto Rua da Praia – Rua Shopping é lembrado. Eduardo certa vez mandou que a assessoria escrevesse um rascunho da Lei de Incentivo à Cultura. Em pouco tempo, adaptamos as leis de outros municípios, a Lei da Cultura foi aprovada na Câmara de Vereadores. Mas nunca regulamentada. Uma lei tão importante numa cidade tão rica em cultura popular e tão pobre para manter essa cultura. Foi muito trabalho durante o mandato que fazíamos com convicção.

Eduardo Bomfim foi figura de destaque da geração inquieta dos anos 60/70, que testemunhou e participou da revolução dos costumes, da cultura, da luta contra preconceitos do mundo. Foi a vitória da humanização e da minoria oprimida, principalmente as mulheres.

Conheci Eduardo Bomfim nos anos 70, quando ele liderava a Sociedade de Direitos Humanos em Alagoas. Minha admiração pelo político Eduardo Bomfim vem dessa época. Figura das mais dignificantes deste Estado, além de ser um idealista, era um homem de princípios. Eduardo Bomfim foi Deputado Constituinte, participou da elaboração da Constituição de 1988. Considerado um dos mais atuante parlamentares, os jornalistas de Brasília escolheram Eduardo Bomfim como Constituinte Nota 10 pelo seu trabalho, incluindo na Constituição cláusulas em defesa do povo, dos menos favorecidos.

Bomfim mostrou, quando presidiu a Fundação Cultural Cidade de Maceió, que tinha tino administrativo e visão do futuro, encaminhando diversos projeto ao Ministério da Cultura. Fez uma administração marcante para a cultura maceioense. O que mais se precisa nessa Brasil é de gente honesta como o Bomfim. O resto se resolverá.

Mas, foi uma pena, essa semana Alagoas ficou de luto, recebi com profunda tristeza a notícia da morte de Eduardo Bomfim. Deu uma dor no peito pelo amigo que se foi, a figura humana que Alagoas perdeu. Resta apenas citar os versos do poeta John Donne que diz mais ou menos assim:

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Ouço os sinos dobrando pelo Bomfim, pelos amigos, por Alagoas. Por todos nós. Difícil um homem do porte ético, político e intelectual de Eduardo Bomfim. Até mais, amigo velho!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Não sou de mentir. Tive uma infância feliz e uma vida atribulada. Com 16 anos fiz concurso para Escola de Cadetes do Exército em Fortaleza. Aos 21 anos era tenente na Bahia quando pedi transferência para o Recife onde havia a Escola Politécnica. Passei no vestibular de engenharia, quando em abril rebentou o movimento, o golpe militar, eu servia na 2ª Cia de Guardas, tropa de elite, onde ficaram trancafiados os principais presos políticos do Nordeste, em um ano de convivência tornei-me amigo daquelas autoridades.

Me mandaram para fronteira, 9ª Companhia de Fronteiras, Roraima. Deixei o Exército em 1972, fui trabalhar na engenharia construindo prédios e lutando na iniciativa privada. Com 61 anos em 2001, resolvi escrever o livro de memória, Confissões de um Capitão. Depois da entrevista com o Jô Soares, o livro foi sucesso em todo Brasil e traduzido para o espanhol. Plínio Lins editor do O Jornal me descobriu contador de histórias, prontamente convidou-me para escrever uma coluna semanal “Histórias do Velho Capita”, onde conto um conto, uma historinha toda semana desde 2002. Escrevi esse preâmbulo para esclarecer que não sou protagonista das histórias que escrevo, muitos leitores pensam que os casos aconteceram comigo. Impossível. Confesso que fico catando histórias, às vezes me oferecem na rua. Como o e-mail que recebi ontem de um leitor, o qual transcrevo como a historinha dessa semana. Obrigado pela atenção.

Sr. Carlito, sou leitor das Histórias do Velho Capita toda semana, não sei como o senhor inventa tantas histórias. Li seus romances. Sou seu fã. Para lhe ajudar segue a história de meu avô. Talvez dê para aproveitá-la em sua coluna.

Meu avô era bom comerciante, vendia remédio em sua casa, sem ter farmácia, era muito querido na pequena cidade do interior. Nasceram dois filhos de minha avó. O segundo filho, meu pai, foi de um parto complicado, precisou contratar uma enfermeira para cuidar do recém-nascido. Maria, a enfermeira, era dedicada e se apegou aos dois meninos. Com um ano o menino, meu pai, recuperou a saúde, a enfermeira foi ficando, gostou da família e também ajudava em outros trabalhos, varria, cozinhava. Morava em um quarto nos fundos da casa, ganhava um pequeno salário. Maria, perto dos 30 anos, gostava de passear pela cidade, onde conheceu muita gente e recebeu propostas de muitos homens, rejeitou todas.

Ninguém sabia, ela tinha uma paixão secreta por meu avô, escondia de todas amigas, até dela mesma. Meu avô um homem impecável, vivia para minha avó, o amor dos dois era bonito e comentado em toda região, passeavam juntos de mãos dadas nas praças e ruas. Quando viajava para comprar remédios ele levava minha avó. Viviam sempre juntos num amor eterno. Até que desconfiou da paixão obscura de Maria. A primeira vontade foi dispensá-la, porém, as crianças eram muito apegadas à Maria. Ela foi ficando. Meu avô também se afeiçoou, resistindo aos impulsos. Até que um dia o Diabo venceu, não resistiu, deitou na cama com Maria, uma ardente mulher. O tempo foi passando, o povo foi desconfiando daquela mulher bonita continuar solteira.

Mesmo sem provas o povo tinha certeza que meu avô dava conta das duas mulheres, discretamente. Meu avô viveu pelo resto da vida praticamente com duas esposas. Minha avó fazia não saber, amava meu avô tanto que só desejava sua felicidade. No dia que completou 86 anos meu avô teve uma dor forte do coração e morreu. Foi um reboliço e muito choro, todos amavam aquele sábio velho. Minha avó, amava tanto o marido que pedia a Deus que a levasse junto. O corpo de vovô foi velado na sala, as janelas da casa com cortinas pretas indicavam que havia um velório. Meu avô no caixão parecia mais sério, levaram minha avó medicada com calmante para descansar em sua cama. Maria olhava seu amor com uma dor imensa, lágrimas caíam de seu rosto triste, ela não tinha parentes.

Na hora de sair o féretro para o cemitério, quando foram acordar minha avó, a surpresa, com um sorriso nos lábios ela estava morta. Retardaram o enterro, prepararam minha avó em outro caixão. Os dois seguiram juntos, foram enterrados na mesma cova. Foi uma comoção na cidade. Meu pai e meu tio resolveram que Maria continuaria morando na casa. Meu tio mora em Maceió. Meu pai continuou na casa, abriu uma farmácia, casou-se com minha mãe, tiveram dois filhos. Eu nasci e me criei naquela casa. Ainda moro com os meus pais e Maria beirando os 100 anos, continua ocupando o mesmo quarto, não reconhece ninguém. Essa é a história. Gostou? Um abraço do Alex.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O ET ESPIÃO

Desde os primórdios as grandes nações conquistadoras priorizaram o serviço de espionagem em suas conquistas, os espiões foram importantes na economia. Os navegantes da Escola de Sagres, os descobridores não passavam de um destacamento precursor de informações. Na era moderna, as grandes nações não vivem sem agentes secretos. Espiões estrangeiros travestidos em ONGs embrenharam-se na Amazônia espionando sorrateiramente nossas riquezas, esperando que um dia a Amazônia seja internacionalizada. “Aqui pra eles!”.

Assim como nós da Terra ansiamos desvendar o Universo, outros mundos distantes já existem agentes nos espionando. Há anos na Terra muitos extraterrestres enviam informações para seus planetas. Nós não damos conta, um vizinho, ou uma amante, pode ser um ET. Recentemente fui visitar meu primo Arnaldo, internado no Hospital Psiquiátrico; a expectativa de receber o tal do precatório deixou-o avariado da cabeça, com mania de perseguição. Confidencialmente entregou-me um papel com desenhos, garranchos que achou no lixo do Hospital. Ele afirma ser documento de um E.T. Pediu-me para verter ao português inteligível. Tentei a tradução possível das garatujas por intermédio de computadores, segue abaixo o resultado.

“Caro ORDEP LARBAC-3, Grande Chefe do planeta ATOXOX-69.

Desci do disco voador travestido de humano, estou na Terra, precisamente no Brasil, em uma cidade, Maceió (vide mapa). Seguem as informações solicitadas:
Maceió é uma cidade de 1(um) milhão de terráqueos. Existe uma faixa de areia branca limpa e bonita chamada praia, repleta de plantas altas e vistosas são os coqueiros, fica em frente aos prédios de moradia e o mar. O mar é uma enorme área de água salgada. A boniteza da cor desse mar impressiona qualquer visitante, tem magia, não se sabe se é verde ou azul, deixa as pessoas felizes só em olhar, aqui o povo é bom e alegre.

Os terráqueos deitam-se na areia branca para se queimarem com os raios do Sol, essa pequena estrela que nós só avistamos com lunetas de nosso planeta. As terráqueas fêmeas não são que nem as nossas, feito tábuas, pranchadas e verdes; as daqui têm curvas, dá vontade de alisá-las, de agarrá-las; os machos chamam de gostosas. As curvas da frente são duas, têm o nome de seios. A curva maior é uma protuberância dupla por trás e embaixo do corpo, chama-se bunda. É muito bonita, não existe no Universo coisa tão deslumbrante. Os terráqueos machos gostam muito, mas nem todos podem pegar. Na praia as fêmeas usam uma tanga para mostrar mais ainda os seios e a bunda. Vi um terráqueo passando óleo nas pernas e na bunda de uma gostosa deitada, pensei que eu podia, alisei a bunda dela, levei um tapa na cara. Tive que desligar meu dispositivo de sensibilidade endurecido. Tenho muito a aprender.

GOVERNO – Instituíram uma tal de democracia, quer dizer governo do povo. Mas acho que o povo tem só o direito de escolher os governantes que governam para eles mesmos. O chefe chama-se Presidente. Ele aparece sempre na televisão prometendo coisas para o povo, só não entendo porque ele que é o chefe não faz logo sem precisar prometer. O povo elege também os deputados, representantes do povo; vivem brigando cada um quer mandar mais, ganhar mais e colocar parentes nos cargos comissionados. Essa semana eles brigaram na televisão, um deputado que roubou, quando foi descoberto, acusou outros deputados de receberem propinas maiores. Foi aí que não entendi, se o deputado é represente do povo e trabalha pelo povo, porque ele tem que ganhar mais com as propinas? Vou pesquisar mais, preciso entender esse negócio, digo negócio porque dizem que o melhor negócio do Brasil é ser deputado. Outros poderosos são os Ministros juízes que fazem a Justiça no Brasil. Não entendi porque só pobres são condenados. Ladrões ricos andam soltos e são autoridades. O povo está cheio de roubalheira desses poderosos, quer seriedade, segundo me disse um companheiro de lazer (vagabundo que vive de calção na praia).

RIQUEZA – Existe muita, mas está nas mãos de seis a sete grandes famílias. Aqui tem açúcar, petróleo, coco e muitas outras riquezas, inclusive o turismo; é uma terra belíssima difícil de existir igual em todos os universos. O povo é bonito, bom e alegre.

Chefe, estou me dando bem travestido de humano. Fico no calçadão da praia apreciando as fêmeas, com vontade de agarrar aquelas maravilhas. Quando tirei algumas notas (dinheiro) para pagar uma bebida chamada cerveja, deliciosa, uma fêmea chamada rapariga me abordou perguntando se não queria fazer um programa. Perguntei o que era, se no programa eu podia alisá-la. Ela sorriu e falou no meu ouvido o que faria comigo. O sensibilizador estremeceu. Fomos direto para o hotel.

Chefe, vocês no planeta ATOXOX-69, não podem imaginar o que seja fazer menino aqui na Terra; não é feito aí em chocadeira. Aqui o macho e a fêmea se abraçam, se beijam, é bom demais. Para evitar engravidar usam a camisa de Vênus. Os nossos inimigos de Vênus já estiveram por aqui, vou investigar.

Estou no quarto do hotel com três terráqueas, vou raparigar, a melhor coisa do Universo. Depois conto mais. Um abraço do subordinado. OCIUQ- 21.”

Essa foi a possível tradução do documento achado por Arnaldo. Depois que leu a decodificação, ele quer ir à ONU. Confidenciou-me convicto: o Hospital está infiltrado de extraterrestre, até seu médico, de barbicha bonita, o competentíssimo Dr. Everaldo Moreira, Arnaldo desconfia que seja um E.T.