CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

VIVA AS MULHERES

Ricardo Diegues, digníssimo Promotor de Justiça no Sertão Pernambucano tinha sessenta e poucos anos quando enviuvou. Acostumado com ótima companhia de cama e carinho feminino, não durou sua viuvez, logo paquerou uma bela morena sertaneja, cantora amadora nas festinhas da cidade, Ana Maria, 21 anos, tinha sonho em ser cantora profissional e famosa. Enquanto não chegou a fama namorou o coroa mais disputado em todo sertão. Ricardo, além de ser um homem parrudo, bonito, era excelente companheiro com seu bom humor, sua sabedoria, Eram felizes, a namorada não reclamava dos afagos, da competência, da constância e dos ensinamentos do companheiro, apesar da diferença de idade viviam no cotidiano básico, normal, claro que a ajuda da azulzinha melhorava a vida do casal.

Até que um dia, sempre tem um dia… Aninha desconfiou que havia alguma coisa no ar. O sexto sentido feminino funcionou, resolveu seguir os passos do Dr. Ricardo e o pegou em flagrante no seu carro numa estrada deserta embaixo de uma jaqueira se enganchando com uma mulher mais velha, uma coroa bem cuidada.

Em casa, durante a separação, Aninha fez aquela célebre pergunta: “O que ela tem que não tenho?” O sessentão com a sabedoria dos mais vividos, acariciando as faces da jovem respondeu: ”Experiência e estrada de vida!”

Deus quando elaborou o projeto do Mundo colocou a mulher como a criatura mais semelhante à sua imagem. Uma mulher depois dos 40 anos é o estágio mais avançado do ser humano, perto do sublime, do divino. Nessa fase a mulher alcança o auge da sabedoria, da experiência, da sensibilidade, da sensualidade, do despudor.

A mulher amadurecida é apetitosa que nem manga espada madurinha, daquelas que dá vontade de descascar e abocanhar, uma mulher madura não precisa descascar, já está pronta.

A jovem de 20 anos lê o Kama-Sutra, a coroa de 50, pratica. Nada contra a juventude, é o encanto dos olhos, fantasia de desejos, êmulo do sentido. Quanto ao sexo feminino aprecio de Nabokov a Balzac.

No mundo moderno viver a vida não é mais privilégio exclusivo dos jovens. A nova geração de coroas continua trabalhando, amando, em todos os lugares, nos lares, nos bares, nos mares, encarando a vida, dançando, sorrindo, sentindo. Os mais velhos não se entregam, querem viver, apreciar os encantos, as magias, os mistérios mais simples da vida. A mulherada de nossa geração muito contribuiu na mudança dos costumes, um presente de nossa vida.

A maior revolução da história da humanidade não foi a Queda da Bastilha, nem a Revolução Russa, foi a das mulheres no século passado, ganhando seus merecidos lugares dentro da sociedade.

Venceram preconceito, intolerância. No dia que as mulheres tiverem mais poder, mais comando; quando tiverem as rédeas do mundo, a humanidade será mais bela, mais gentil, mais generosa, mais tolerante. Vejam o exemplo onde existe opressão contra as mulheres, onde reina o machismo exagerado, nos países como Irã, Iraque, Afeganistão, campeia a violência.

Prestemos homenagens à geração dessas mulheres maduras e corajosas, fizeram a revolução sexual e feminina no final dos anos 60. O mundo não foi mais o mesmo graças à coragem dessas mulheres belas, cheias de charme, que estão aí em sua plenitude.

Além disso, a mulher madura tem o instinto maternal mais exacerbado. A mulher que é mulher, não basta ser boa na cama, tem que fazer o papel da companheira, namorada, amante. A vida floresce na mulher aos quarenta, cinquenta, sessenta, setenta e tantos anos. Nada melhor, nada tão atraente quanto a sexualidade, a experiência, da mulher madura, gostosa que nem uma pinha madurinha da Palmeira dos Índios.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

WALDEMAR FOSSE MÃE

Waldemar aportou em Maceió nos anos 60, vindo de Santo Amaro da Purificação, terra de celebridades: Caetano e Bethânia. Muitos baianos, naquela época, vinham tentar vestibular de engenharia em Alagoas pensando ser mais fácil. Waldemar penou com duas tentativas seguidas. Na terceira conseguiu entrar na faculdade. Hoje é engenheiro aposentado da rede ferroviária.

Naquela época Waldemar morava no Hotel Atlântico, praia da Avenida da Paz. Em vez de estudar, vivia na praia organizando “baba”, pelada, como chamam os baianos, e paquerando as meninas pudicas que vestiam comportados maiôs.

Ele não teve coragem de falar para os pais ter sido reprovado no vestibular. Deram uma festa de arromba quando retornou à fazenda do velho. Todos crentes que nosso amigo retornava para Maceió para cursar engenharia.

Assim Waldemar passou dois anos em Maceió vagabundeando com uma boa mesada. Ele gostava de se exibir com os amigos, pagando uma conta aqui, outra acolá. Fez boas amizades por conta disso e de sua simpatia.

Acordava-se por volta das nove horas da manhã. Tomava o café matinal no Hotel Atlântico e descia à praia da Avenida com uma bola couraça. Na extensa areia dura da praia dava um chute na bola para o alto, era o sinal que havia chegado, começava o baba entre os desocupados que ficavam esperando pela pelada do “Baiano”. Depois da pelada e de um bom banho de mar com direito a algumas braçadas para estirar os músculos, Waldemar procurava alguma paquera. Era esse seu ponto fraco: mulheres.

Namorou algumas jovens bonitas da cidade, mas seu habitat era a zona de Jaraguá, frequentava religiosamente os cabarés. Waldemar, o dono da zona, ficou íntimo de Mossoró, o rei da noite. Era o queridinho de todas as raparigas. Além de bom pagador, tratava todas com carinho e respeito. Isso enfeitiçou as quengas acostumadas com muitos clientes grosseiros.

Numa noitada na Boate Tabariz, ele contou numa roda de amigos, a história do seu apelido: “Waldemar Fosse Mãe”.

Quem não tem uma prima, uma tia jovem, uma parenta que de quando em vez, se hospeda em sua casa? Pois Waldemar também tinha na época de sua adolescência. Sua tia Leninha passava alguns dias na fazenda da irmã, em Santo Amaro da Purificação. No mês de janeiro a fazenda se enchia de parentes e aderentes. Tia Leninha tinha o privilégio em ter um quarto exclusivo, bem junto ao principal banheiro da casa grande. Certa noite, Waldemar acordou-se com a bexiga cheia. Para entrar no banheiro tinha de atravessar o quarto da tia Leninha. Ao abrir cuidadosamente a porta, Waldemar teve um susto quando viu sua amada tia deitada em decúbito dorsal, apenas de calcinha preta, dormindo como um neném. Com o coração disparado, o sangue fervendo, andou na ponta dos pés em direção ao banheiro sem perder de vista aquela bunda magnífica coberta apenas por uma minúscula calcinha. Entrou no banheiro, fez o serviço, retornou no mesmo ritual. Pecou sozinho entre os lençóis de sua cama.

Dia seguinte no café da manhã, sua tia cochichou no ouvido: “Eu lhe vi, ontem à noite!” Waldemar não conseguiu sossegar o espírito, durante todo o dia vinha-lhe a imagem da tia deitada na cama, o detalhe da calcinha de renda preta lhe excitava, lhe deixava louco.

O ritual se repetiu por mais três noites. Ele levantava-se, passava pelo quarto da tia, ficava contemplando aquela beleza. Só sossegava na cama entre suas mãos. Tia Leninha, durante o dia, continuou provocando com olhares lânguidos e sorrisos marotos.

Na quinta noite, Waldemar estava a ponto de bala, só pensava na tia. Havia passado da meia-noite quando ele abriu a porta do quarto. Sua tia estava deitada, nua em pelo. Ele endoidou, não conseguiu conter-se, quando se deu, estava por cima da tia Leninha, que o segurou repreendendo: “Sou sua tia, menino!!””

Ele virou-a. Antes de beijar na boca, deu um grito sussurrante: “FOSSE MÃE!!!!!!!!!!!!!!!!!”. A tia lhe abraçou às gargalhadas, arranhando suas costas.

Pela manhã, feliz da vida, contou sua aventura, entre juras de segredo, em maior confidência, a seu amigo mais íntimo, Carlos Romeu, “Boca de Ponche”. A partir desse dia toda Santo Amaro da Purificação soube da história. E nosso herói ficou conhecido até hoje como “Waldemar Fosse Mãe”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CARNAVAL É COISA SÉRIA

“Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou… E no entanto é preciso cantar…”

A Marcha da Quarta-feira de Cinzas de Carlinhos Lyra e Vinicius de Moraes ecoa em todo Brasil depois de quatro dias de Carnaval. Há quem diga que as coisas no Brasil só funcionam depois do Carnaval. Pode até ser na Ilha da Fantasia, Brasília, onde Podres Poderes vivem nababescamente. Mas o brasileiro comum, do grande empresário ao operário, dia 2 de janeiro já estão no batente para sustentar sua vida e pagar os impostos.

Mas voltemos ao Carnaval. As Escolas de Samba e Blocos estão se reunindo pensando no Carnaval de 2025. Isso mesmo Carnaval é coisa séria, é emprego e renda. Em muitos locais profissionalizaram carnavalescos e planejadores de captação de recursos. Os ingleses há pouco tempo inventaram o termo Economia Criativa, ou seja a economia, o dinheiro gerado pela criatividade humana e o Carnaval Brasileiro é a síntese dessa Economia Criativa, onde pequenos empresários, tipo: ambulantes, taxistas, costureiras, músicos, montadores, pousadas, hotéis, restaurantes e outros são os maiores beneficiários. Carnaval é um grande negócio, que digam as cidades de São Paulo, Rio, Salvador, Recife, entre outras que começaram a se estruturar durante o Carnaval.

Há oito anos que um grupo de foliões formaram blocos para desfilar no domingo de carnaval na orla de Maceió. Nosso carnaval se restringe a esses Quixotes que há oito anos não deixaram a peteca cair, pelo menos no domingo de carnaval. Nos outros dias de carnaval Maceió fica uma tristeza. A burguesia, mais de 200 mil habitantes, viaja para assistir os carnavais de outras cidades. A estrutura carnavalesca da cidade para os 800 mil habitantes que ficam em Maceió é pífia, o maceioense não tem direito à maior manifestação cultural popular do brasileiro, a alegria fugaz que se chama carnaval.

Esse ano de 2024 também viajei, não pude recusar o convite da Diretoria da Escola de Samba Beija-Flor que desfilou com o tema: “Um Delírio de Carnaval de Maceió de Rás Gonguila.” Homenageando Maceió e o meu amigo, carnavalesco dos anos 50/60, Gonguila.

Comprei passagens e hospedagens. Minha esposa e uma filha me acompanharam na aventura carnavalesca. Ao chegar ao Rio de Janeiro fui ao Barracão da Beija-Flor na Cidade do Samba, uma descomunal estrutura para as Escolas de Samba. Fiquei impressionado. Durante o carnaval dei um bordejo nos bairros mais badalados, Copacabana, Leblon e Ipanema, nunca vi tantos blocos. Os cariocas se fantasiam para desfilarem nos blocos, ou para ir à praia ou tomar chope nos restaurantes. As cariocas charmosíssimas veste um biquíni e uma flor no cabelo, estão fantasiadas. Nunca vi tantas mulheres bonitas e bundas tão maravilhosas.

Afinal domingo à noite o desfile da Beija-Flor, fantasiado de Guerreiro me colocaram em cima do carro alegórico representando a cultura alagoana, junto com Cacá Diegues, Márcio Canuto, Yara Pão, Setton Neto, Guga Rocha, entre outros.

Tive muitas emoções em minha vida, mas nunca igual a desfilar num carro alegórico da Beija-Flor com as alas de sambistas fantasiadas de folguedos alagoanos. O desfile das Escolas de Samba do Rio é considerado o maior espetáculo da Terra. Dançando e cantando o samba enredo inspirado em minha amada cidade: “Em Maceió, o Paraíso deu à luz a um menino… à beira-mar nascia um Rei… Que o senhor das ruas deu o seu caminho…”

O sambódromo lotado cantava e aplaudia, eu era apenas um entre os 3.500 componentes da Beija-Flor. Cheguei a pensar que todas as palmas eram para mim, bela e louca ilusão explodiu meu coração, chorei de emoção…

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DOMINGÃO DE CARNAVAL

Quem foi quem disse que em Maceió não tem carnaval?

Olha aí o que copiei do site da Prefeitura de Maceió. Serão 4 dias de carnaval todas as noites no bairro histórico de Jaraguá.

“Em Maceió, a população e os turistas já podem se preparar para viver os quatro dias de frevo e folia na cidade mais bonita do Brasil. O histórico bairro de Jaraguá irá se conectar com a cidade de Nilópolis – RJ e receberá o QG do Rás Gonguila.

Com uma programação diversa, os artistas locais serão os responsáveis por agitar a folia de Momo. De sábado (10) a terça (13) o público contará com orquestras de frevo, bandas de samba, pagode, axé e muito mais. Durante os quatro dias de festa, a Rua Sá e Albuquerque terá o frevo ecoando das 16h às 18h. Já na Praça Dois Leões, as bandas estarão presentes garantindo a folia. Na terça-feira, já no clima de despedida, haverá um arrastão do trio elétrico, que sairá do Estacionamento de Jaraguá, passará pelo Coreto e irá finalizar voltando para o local de início, daquele jeito massa de Maceió. Além disso, para torcer e festejar a Maceió de Rás Gonguila na Beija-flor de Nilópolis, haverá a transmissão do desfile no dia 11, a partir das 23h, e da apuração do votos na quarta-feira de cinzas.”

ROGÉRIO DYAS – No sábado comanda a folia no Bom Parto com os Blocos do Bobo e Sururu na Lama

DOMINGÃO NA ORLA

Já no domingo dia 11 de fevereiro o Bloco da Nega Fulô prepara-se para mais uma edição, prometendo muita animação e inclusão.

Fundado em 2016, o Bloco da Nêga Fulô tem se destacado como uma opção alternativa e acolhedora para os foliões locais, atuando com o objetivo de resgatar a tradição do Carnaval de rua em Maceió. Neste ano, o desfile irá acontecer no dia 11 de fevereiro, domingo de carnaval, e terá concentração na Praça Sete Coqueiros, a partir das 14h. O desfile do Bloco da Nega Fulô proporciona um espetáculo descontraído com uma banda animada, pé no chão e um mini trio elétrico. O evento atrai uma média de 500 pessoas a cada ano, consolidando-se como uma celebração familiar e livre de incidentes. Em 2024, o tema do desfile será “O Circo Vem Aí” e a grande homenageada será Peró Andrade, artista que dedicou sua vida ao circo, trabalhando arduamente tanto dentro quanto fora dos picadeiros. A homenagem visa reconhecer o valioso legado de Peró para a comunidade circense.

O desfile também contará com uma ala especial dedicada aos cadeirantes, o que reforça o compromisso do bloco com a inclusão social e a acessibilidade, proporcionando uma experiência de Carnaval para todos os participantes.

Os blocos “Mamãe Eu Quero”, “Bloco dos Bonecos”, “Sonho Encantado” e “Só Vai Quem Chupa” irão se juntar ao Bloco da Nêga Fulô nesta grande festa carnavalesca no dia 11 de fevereiro, formando o Domingão de Carnaval na Orla.

Não existe corda, nem exigência de camisas dos blocos, todos podem entrar na folia. Haverá um concurso da melhor fantasia. Saída dos blocos às 14.30 da pracinha dos 7 Coqueiros.

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BANHO DE MAR À FANTASIA

Em Maceió, os carnavais de outrora eram a suprema alegria, alto astral fazia bem ao espírito e à cabeça dos foliões dessa terra bonita, onde todos se conheciam, se amavam. No carnaval a ordem era cair no passo, dançar o frevo, sambar, se esbaldar, curtir, namorar.

A temporada carnavalesca começava com o chique Réveillon do Clube Fênix, logo após vinha o esperado Baile de Máscaras, só entrava com fantasias e máscaras obrigatórias ou traje a rigor. Os foliões pulavam até o Sol raiar e um banho de mar amanhecendo o dia na praia da Avenida da Paz. Enquanto a moçada esperava o carnaval, aos sábados tinham as festas pré-carnavalescas: Noite no Havaí, Preto e Branco, Baile Tricolor. Os surdos e tamborins começavam a esquentar nessas festas, onde a paquera era escancarada.

Durante a quinzena anterior ao carnaval, a Prefeitura organizava uma animada Maratona Carnavalesca toda noite na Rua do Comércio, com corso de carros rodando e muito frevo. As jovens desfilavam sentadas nos para-lamas dos carros, jipes e caminhonetes. Em cada esquina havia uma orquestra tocando o frevo. Ali se misturava a burguesia, a classe média, o povão, os estivadores, as empregadas, soldados, pedreiros, lavadeiras. A Maratona Carnavalesca emendava com o carnaval, só terminava quarta-feira de cinzas.

No domingo anterior ao carnaval a Avenida da Paz lotava de gente de toda espécie e classe social. A partir das oito da manhã começavam a aparecer as troças, as fantasias, as críticas, os blocos de frevo, as Escolas de Samba para o grande desfile do Banho de Mar à Fantasia coordenado pela COC – Comissão Organizadora do Carnaval da Prefeitura de Maceió. Nas imediações do Clube Fênix um palanque dava guarida para uma banda tocar músicas de carnaval e o povo na rua pulava e dançava até mais tarde no maior calor. Depois de passar pela Comissão Julgadora, alguns fantasiados caiam no mar, um mergulho com fantasia no corpo, na água límpida do mar da Avenida da Paz.

Iniciava o desfile oficial perante o palanque com os jurados escolhidos pela COC para entregar as taças de campeão. Primeiramente vinham as críticas e troças com a irreverentíssima turma do Bráulio Leite, Santa Rita, Rubens Camelo, Vadinho, Alipão, João Moura, Pitão, Napoleão. Esses não perdoavam governo e governantes. Depois vinham fantasias. Tarzan e sua esposa eram o casal devorador de prêmios. Havia um grande folião, Fusco, militar da aeronáutica sempre gozava um enredo de um filme da época. Certa vez, o filme do momento era “Amar foi minha ruína”, Fusco fantasiou-se de moça grávida, e nas costas, um cartaz: “Amar foi minha ruína”. Lincoln Jobim um especialista, fantasiava-se de Seu Fortes, um louco conhecido na cidade, maltrapilho, à sua volta alguns cachorros, Lincoln era um artista, imitava Seu Fortes melhor que o próprio.

O desfile finalizava com a competição entre os blocos carnavalescos: Vulcão, Bomba Atômica, Pitanguinha vai à Lua, Vou Botar Fora, Cara Dura, Cavaleiro dos Montes, Amigo da Onça, disputa era acirrada.

Depois de passar pelo palanque dos jurados e receberem prêmios, os blocos continuavam arrastando as multidões pela avenida, atravessavam a ponte do Salgadinho e perto do coreto entravam na Rua Silvério Jorge, onde o general Mário Lima, em sua casa, esperava cada bloco com bate-bate de maracujá, cerveja gelada e um bom tira-gosto para os músicos. O bloco tocava 4 ou 5 frevos, depois seguiam em frente; outro bloco já estava na porta. Minha casa era uma festa, amigos dançavam, faziam o passo na enorme varanda durante o restante da tarde-noite.

Figuras das mais conhecidas entravam no embalo, badaladas senhoras, misturavam-se com o povão, era a democracia carnavalesca. Atrás dos blocos pulavam engenheiros e serventes, médicos e enfermeiras, capitão e soldado, filhas de Maria e prostitutas. Os blocos terminavam de tocar em minha casa ao anoitecer, antecipando o carnaval. Namoros feitos, outros desfeitos, a alegria do carnaval tomava conta da juventude.

À noite o povão voltava para suas casas. Cansados, os blocos recolhiam seus estandartes esperando o carnaval chegar na próxima semana.

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QUEM SERÁ O BENEDITO DA BEIJA-FLOR?

O Samba Enredo de 2024 da Escola de Samba Beija-Flor, começa com o refrão cantando o coroamento de Benedito:

“Aqui é Beija-Flor doa a quem doer
Do gênio sonhador, a gana de vencer
Tá no meu peito, tá no meu grito
Escola de respeito que coroa Benedito.”

Quem será o Benedito? O próprio enredo da Beija-flor esclarece:

“Uma delícia de carnaval na Maceió de Rás Gonguila”

Com um samba para lá de animado, enaltecendo a cultura popular, a Escola de Samba Beija-Flor esse ano homenageia a cidade de Maceió e um de seus carnavalesco: Benedito dos Santos ou Rás Gonguila, um homem amado pelo povo, dedicou sua vida à cultura popular. Um líder em seu bairro, Ponta Grossa, criou e desfilava comandando o Bloco Cavaleiro dos Montes e durante as festas natalinas ele alegrava o povo com apresentação dos folguedos populares, pastoril, coco, samba de roda, guerreiro, chegança e outras danças da Soberania Popular.

Meu amigo era um ser humano especial, inesquecível. Engraxate com banca na Rua do Comércio; Rás Gonguila, negrão forte, alto, espadaúdo, tornou-se uma figura popular. Ele se dizia príncipe africano, descendente de Reis e Rainhas da Etiópia, fazia questão de ser reverenciado pelo título nobiliárquico africano: Rás (príncipe etíope). Sua ancestralidade vem da Etiópia e da República dos Palmares, onde os escravos fujões formaram uma comunidade na Serra da Barriga. O Negrão era bom, os clientes faziam fila, esperando a vez para sentar na cadeira na Rua do Comércio. Eram funcionários, poetas, amigos; ficavam na fila, conversando potocas. A cadeira de graxa de Rás Gonguila tornou-se ponto de encontro.

O Negrão, líder popular, era Rei na periferia, respeitado, ouvido e querido. Naquele tempo não havia associação de moradores, eles se reuniam em busca da sobrevivência, da melhoria de qualidade de vida e diversão de sua comunidade.

Certa vez, Theobaldo Barbosa, político sagaz, inteligente, coordenador da campanha para governador de Arnon de Mello (pai de Fernando Collor de Mello), falou para o chefe, que havia feito excelente contato a maior liderança dos bairros da Ponta Grossa e Vergel do Lago, um negro forte chamado Gonguila. Marcaram uma reunião numa noite de sexta-feira. O galpão lotou de gente, pescadores, marisqueiros da lagoa Mundaú, havia mais de 400 pessoas.

Arnon e Theobaldo desceram do carro. Arnon admirou a estatura elegante do líder, Gonguila vestido de branco. No momento ele esqueceu o nome do Negrão e perguntou em voz baixa para Theobaldo, que cochichou no ouvido de Arnon: Gonguila!

O Negão aproximou-se e estendeu a mão a Arnon, dando “boa noite”. Arnon ofereceu sua mão respondendo gentilmente: “Boa Noite, Seu GORILA”. Ao ouvir o nome GORILA, Gonguila ficou puto da vida, retrucou quase gritando: “ARNON, GORILA É O CARALHO! MEU NOME É GONGUILA, RÁS GONGUILA!,” Apesar das caras amarradas, alguém soltou uma salvadora gargalhada, que quebrou o gelo. Arnon desculpou-se várias vezes, deu um abraço no Negrão, conversou com os catadores de sururu, e catou os votos.

Em Maceió no domingo anterior ao carnaval acontecia o Banho de Mar à Fantasia na Avenida da Paz, com desfile de blocos, escolas de samba, troças. Depois do desfilar perante a Comissão Julgadora, Gonguila rumava para minha casa com o Bloco Cavaleiros dos Montes, onde estava esperando bebida e comida para os músicos. A orquestra tocava 3 ou 4 frevos, a juventude dançava e cantava no amplo terraço de minha casa. Em seguida saía e entrava outro bloco, até o anoitecer minha casa era uma festa.

Assim era o Benedito: não tinha papa na língua, nem se intimidava com figurões. Apesar de semianalfabeto, preto, pobre, impunha respeito por sua liderança e amor à cidade. Os nomes dos figurões daquela época estão nas placas de ruas, colégios, praças. O nome de Rás Gonguila ficou apenas na lembrança e nos corações dos seus amigos.

O poeta Jucá Santos e o jornalista Alves Damasceno nos legaram o belo frevo canção: “Evocação de Alagoas, que termina com esses versos saudosos:

“…os coqueirais de Altavilla…E o “Cavaleiro dos Montes”… Quero evocar sem demora…Na imagem de Rás Gonguila” .

Nesse carnaval de 2024 a Escola de Samba Beija-Flor vai cantar a cultura popular e a Soberania Popular do Benedito. Vai arrasar na Sapucaí com belíssimas fantasias inspiradas no folclore alagoano. E eu lá desfilando e cantando com emoção.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MACEIÓ É UMA FESTA

A segunda edição do Festival Verão Massayó começou nessa sexta-feira no Estacionamento de Jaraguá, com muita animação e boa música. Uma multidão lotou o espaço no primeiro dia do festival. O prefeito de Maceió, JHC, abriu a programação, que acontece em dois finais de semana, e destacou o fomento da economia criativa e a cadeia turística da capital alagoana.

“Maceió é a cara do verão. Nós somos referência para o Brasil. É a maior alta temporada, Maceió também já é a cidade mais procurada no carnaval de 2024, e a gente fica feliz por estimular nossa cidade da maneira correta. É uma cidade que está cada vez mais vibrante, que tem melhorado sua infraestrutura, e eventos como esse geram emprego, renda e movimentam a economia e o turismo”, destacou o prefeito.

O texto acima copiei da Imprensa essa semana. Concordo com o Sr. Prefeito, João Henrique Caldas, JHC. A belíssima Maceió estourou para o turismo. Desde o Natal a orla se revestiu de uma decoração brilhante. Turistas e nativos se deleitam com várias opções ao longo dos calçadões à beira mar. Geralmente a decoração da orla é retirada no dia de Reis (6 janeiro), o povo pediu e a diversão da orla irá até o final do mês. O Festival de Verão está acontecendo com resplendor de arte, cultura e divertimento, um público nunca visto no bairro histórico de Jaraguá.

Pra completar vêm aí as prévias carnavalescas, com o Pinto da Madrugada, o Jaraguá Folia e outros grandes blocos com seus trios-elétrico. Na televisão todo o Brasil ficará fascinado com o desfile da Escola de Samba Beija Flor com o tema e o samba enredo inspirado na beleza e cultura alagoana, contadas e cantadas por um carnavalesco dos anos 60/70, Gonguila, saudoso amigo, engraxate na Rua do Comércio que organizava o Bloco de Frevo Cavaleiro dos Montes, onde eu caía no passo cortando tesouras. Gonguila, um negro alto, amava as festas natalinas e organizava no seu bairro, Ponta Grossa, folguedos na época do natal. Grande figura alagoana, um dos construtores da alma de nosso povo. Milhões de brasileiros vão se encantar com as belezas de Maceió no desfile da Beija Flor.

Ainda no início do ano, em abril, o cineasta Cacá Diegues lançará nacionalmente seu novo filme, DEUS AINDA É BRASILEIRO, o qual tive a alegria em participar do roteiro e da produção. O filme está belíssimo, cenas divinas nas praias alagoanas onde o ator Antônio Fagundes faz o papel de Deus. Outros cenários fascinantes em Piranhas, Ilha do Ferro, os Canyions do Rio São Francisco. Um filme totalmente rodado em nosso Estado e com 70% dos atores e pessoal de apoio das Alagoas. O filme está sendo comercializado na Europa, USA, China e claro no Brasil. É um presente do cineasta Cacá Diegues, oitentão, à amada Alagoas, sua terra. Depois desse filme os turistas farão filas atravessando o Oceano Atlântico para conhecer nossa bela Alagoas.

Porém Maceió tem um fraco Carnaval nos dias de Carnaval. A cidade fica deserta. Nós que temos uma tradição, uma cultura carnavalesca ficamos frustrados.

Durante os quatro dias de carnaval 200.000 maceioense viajam para o Recife, Barra de São Miguel, Bahia, Rio; onde tenha carnaval e possam cair na folia. Se cada uma dessas pessoas que fogem de Maceió gastar R$ 1.000,00 (um mil reais) durante o carnaval, seriam R$ 200.000.000,00 (duzentos milhões) de reais que deixariam de circular em Maceió nos quatro dias de carnaval. É de fazer chorar vendo os ambulantes jogando o gelo fora porque nada vendeu, os restaurante e bares vazios. É preciso repensar, planejar um bom carnaval nos dias de carnaval. Um economista inglês fez um estudo e concluiu que o carnaval é um grande negócio, é a síntese da Economia Criativa. Todos ganham, os músicos, os ambulantes, as costureiras, os hotéis, as pousadas, os taxistas, ao bares, restaurantes e toda cadeia de produção.

Há algum tempo, um grupo amante do carnaval vem batalhando por um carnaval organizado na cidade de Maceió. Todos têm direito a essa alegria fugaz que se chama carnaval. Cansados de falar em rádios, televisões; resolvemos criar o Bloco da Nêga Fulô em 2016. O Bloco vem desfilando todos os domingos de carnaval na orla. Somos insistentes, persistentes, convidamos turistas nos hotéis, eles amam o desfile na Rua Fechada partindo ás 14:00 horas dos 7 Coqueiros. Este ano de 2024 mais cinco blocos de médio porte de frevo de pé no chão acompanharão o Bloco da Nêga Fulô no Domingão do Carnaval, dia 11 de fevereiro. A homenageada será a grande circense alagoana Peró Andrade, uma mulher que dedicou sua vida ao circo. Como novidade haverá uma Ala de Cadeirantes à frente do bloco, comandada pelo nosso Promotor de Justiça, Fernando de Araújo Jorge.

Mas ainda é muito pouco, Maceió merece um Carnaval digno nos quatro dias. Os turistas e os 8000.000 habitantes que ficam em Maceió, iriam adorar.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

54 ANOS DE VENERAÇÃO E PRAZER

Aconteceu no ano da graça de 1965. Cheguei em férias a Maceió, na época, eu era tenente do Exército, bonito e solteiro. Estava no meu paraíso, vesti um velho calção de banho desci à praia da Avenida da Paz, mar azul esverdeado, mergulhei, nadei, cheio de felicidade. Dona Zeca havia preparado um almoço de delícias dos Deuses, carapeba, sururu e fritada de camarão. Após o almoço conversando com a família, minha irmã Rosita convidou-me a visitar o acampamento das bandeirantes, ela a chefe. Ao entardecer fui ao Pontal da Barra onde jovens adolescentes se divertiam brincando de escotismo. Logo notei uma lourinha bonita, beleza de anjo que me tocou, tirei-lhe uma graça cantando um trecho de ciranda: “oh galeguinha você é tão bonitinha, engraçadinha, vou me casar com você…”

O tempo passou, anos depois reencontrei a galeguinha, a mulher mais bonita que já vira, meu coração explodiu, fui direto: “Quero casar com você, se possível, amanhã”. Vânia levou na brincadeira, só acreditou com minha insistência de homem apaixonado. Iniciamos o namoro, eu nadava em alegria. Em seu aniversário, agosto, noivamos e casamos dia 9 de janeiro de 1970, há exatamente 54 anos. Durante o curto namoro/noivado, nos divertimos comprando móveis. Para os noivos tudo é belo, eu beirando os 30 anos, Vânia, 21. Todos os dias nos encontrávamos entre abraços, beijos, paixão ardente, hormônios ativos, amor e tara, conseguimos comprar os móveis. Passaram-se 54 anos e ainda beijo seus cabelos que a neve do tempo marcou.

Na noite do 8 de janeiro, véspera do casamento, houve a despedida de solteiro. Os amigos foram se achegando ao Bar do Miltinho na Praça 13 de Maio, tinha o melhor tira-gosto da cidade, cerveja gelada, uísque, cachaça da boa, foi ali a celebração de meu último dia de homem livre. O Bar do Miltinho ficava na Praça Treze de Maio, um recanto bucólico, arborizado, a melhor área verde da região do bairro do Poço. A Praça hoje está acabada, foi construída criminosamente a sede do SESC, por que destroem nossa bela cidade? Se eu fosse prefeito, implodia o SESC, retornava a praça ao povo.

Às oito da noite o bar estava lotado, de repente aparece o Téo Vilela com uma Banda de Pífano, alegrou o encontro. Houve discursos, cantorias, histórias engraçadas e obscena relembradas. Amigos militares junto a amigos comunistas no auge da ditadura, um padre, duas raparigas, uma cafetina, sentadas juntos. Alegre despedida de um boêmio. Terminamos com o dia amanhecendo cantando em ritmo de guerreiro: “A minha turma que bebe um pouquinho no Bar do Miltinho até o sol raiar…”

Dia seguinte, a Catedral lotada de convidados, o Capitão no altar, esperando a noiva que atrasou uma hora, os amigos brincavam que a noiva havia fugido. Até que ela entrou de braços com seu pai, linda, devagar ao som da marcha nupcial, eu tinha os olhos molhados, a imagem em nada mudou, vestida de noiva, sorrindo e querendo chorar.

A cerimônia do casamento foi belíssima. A Banda de Música do 20º Batalhão de Caçadores caprichou nas músicas no auge da MPB, da Bossa Nova. O padre Salomão fez uma emocionante oração sobre a união, o casamento. Após a cerimônia saímos de braços dados, do lado de fora da igreja estavam meus colegas oficiais do Exército com suas espadas cruzadas, fazendo um túnel, a abóboda de aço, por onde, abaixados, atravessamos. Durante a recepção a alegria reinou com uma Banda de Pífano, muito uísque, muitos amigos, está gravada em minha memória aquela noite, mais importante e mais feliz.

Nesses 54 anos, o céu nem sempre foi de Brigadeiro, algumas rotas de colisão, alguns percalços, soubemos enfrentar. Agora nenhuma tempestade poderá fazer nosso barco afundar. Além de tudo, já avistamos a praia do outro lado. Estamos pertos, navegar é preciso e inexorável.

Construímos uma bela família, três filhos, quatro netos, Vânia deixa um legado à sociedade: sua atuação na Justiça sempre ao lado do bem social como Promotora, como Advogada e Professora. Também deixo meu legado nos livros, na cidadania.

Em nossa casa de praia, na parede da sala, está desenhado um verso de meu querido Lêdo Ivo: “Na Barra de São Miguel, diante do mar, só agora compreendi, o dia mais longo de um homem dura menos que um relâmpago.”

Esses 54 anos tornaram-se um relâmpago. Resta apenas o carinho, a veneração e a felicidade em estarmos juntos, antes do último clarão do relâmpago.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DE MÃOS DADAS

Antonieta acordou-se com leve dor de cabeça e um amargo na boca, havia bebido na noite anterior. Ainda deitada desligou o ar condicionado. Veio-lhe a imagem, detalhes da tarde de amor, Luciano, terno, carinhoso, ao mesmo tempo selvagem, deixou-a em êxtase duas vezes, quase desmaia. Jamais pensou ficar apaixonada por um homem mais velho, poderia ser seu pai. Ela não tinha algum sentimento de culpa, pouco lhe importava aquela situação camuflada de namorar um homem mais velho e casado. Sem problema para ela, bem melhor que Elizeu, ex marido, Luciano usava a experiência, sabia trabalhar nos pontos sensíveis de uma mulher, devagar, sem pressa, ficava a explorar sua anatomia, enquanto Elizeu era um desastre na cama, apesar do belo corpo jovem. Ele bebia muito, cheirava; na hora do amor pensava apenas em satisfazer-se.

Antonieta aguentou apenas dois anos de casada, e não tinha saudade daquela época. Hoje, é uma mulher livre, faz o que quer, até um caso de amor com um homem maduro. Na véspera, depois da estonteante tarde de amor, Antonieta, satisfeita da vida, juntou-se a um grupo de amigos na balada noturna, dançou e bebeu até quase o dia amanhecer.

Ainda deitada saiu do devaneio ao olhar o relógio, 11:30 horas. Levantou-se, abriu a cortina de seu apartamento na praia de Jatiúca, alegrou-se ao contemplar o dia ensolarado, a luminosa manhã. O mar de um verde esmeralda com matizes azul turquesa, convidativo a um mergulho. Contemplando do alto da janela deu-lhe uma sensação de bem estar, amava sua cidade, sua praia, a vida bela.

Na sala encontrou os pais, a irmã mais nova.

– Tieta querida, a noitada foi boa, sua cara de ressaca não nega. – Entregou a irmã.

– Foi ótima, saí com as amigas, eu posso, sou adulta, independente, dona do meu nariz.

Conversavam enquanto Antonieta preparava um lanche na cozinha. O celular tocou, era Didi. Toda mulher bonita, gostosa, separada, tem um amigo homossexual. Didi não parece homo, não dá para notar sua opção sexual até ele abrir a boca. Tieta atendeu.

– Diga Didizinho querido! Como está vossa excelência?

– Estou à toa na vida, quero saber da programação nesse belo sábado, que tal nos encontramos numa barraca de praia, para um bom chope? Depois seja o que Deus quiser. Esse dia ensoralado é um convite para desmantelo.

– Fechado, a uma hora na Barraca Pedra Virada, tem sempre amigos curtindo uma cervejinha.

A mãe ouvindo a conversa, não perdeu oportunidade para um conselho e um puxão de orelha.

– Tieta, você já vai sair? Daqui a pouco fica falada, não arranja outro marido. Esse Didi parece, mas não é homem, cuidado com a vida. Quero que você se divirta, com juízo.

– Minha mãe essa vida é curta, ou eu me divirto ou tenho juízo; os dois são incompatíveis. – Deu uma gargalhada.

Antonieta deu partida no carro rumo ao encontro, tomou a Avenida Beira Mar. De repente, sinal vermelho, ela freou, ficou à espera, ao olhar de lado teve um susto. Seu amado Luciano entrava num restaurante de mãos dadas com a esposa. Deu-lhe uma sensação de mal estar, acabou-se a alegria, veio-lhe um profundo ciúme do fundo da alma. Precisou uma buzinada para acordá-la ao abrir sinal, acelerou o carro, mais adiante parou no acostamento, colocou a cabeça entre as mãos por cima do volante, chorou de raiva e pena de si mesma. Ao se recuperar retomou a Avenida Beira Mar.

Didi esperava sentado, camisa vermelha, bem penteado, moço bonito, elegante, copo de cerveja na mão, peixinho frito na outra, ao vê-la fez sinal. Antonieta achegou-se devagar, sentou-se, queria tomar um porre, contou ao amigo o encontro inesperado com o amado Luciano.

– Você diz não ter preconceito, aceita esse amor proibido. Faz análise, tem cabeça boa, não entendo esse choque, esse chilique ao ver Luciano e a esposa. –  Provocou-a Didi.

– De mãozinhas dadas com a esposa! De mãozinhas dadas não dá para aguentar!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

EU E A BRASKEM (3ª PARTE E ÚLTIMA)

Não poderia deixar de prestar algum depoimento sobre a Fábrica de Produtos Químicos, Braskem. Essa é a 3ª e última parte, muitos problemas e acontecimentos foram notórios e publicados desde que a fábrica começou a funcionar em 1975. Assim que surgiu a notícia que uma fábrica de produtos químicos, Salgema (Braskem) seria instalada entre a praia e a lagoa no bairro do Trapiche, os valores dos imóveis despencaram nos bairros vizinhos. O bairro do Trapiche seria a futura expansão urbana da classe média, uma nova Ponta Verde. Nenhuma casa nova foi construída nesses 47 anos de funcionamento da BRASKEM, por medo da possibilidade de vazamento de produtos clorados.

Para entender melhor. Foi descoberta uma grande mina de Salgema (Salmoura) no subsolo da lagoa Mundaú, nos bairros de Bebedouro, Mutange, Pinheiro, Bom Parto e uma parte do Farol. A fábrica Braskem escavou 35 minas durante esses anos, extraindo a Salmoura para ser beneficiada pela fábrica do Trapiche por meio da eletrólise separam o Cloro do Sódio, fabricando e exportando produtos básicos para plásticos.

O grande perigo seria um vazamento de cloro. A inalação do cloro causa asfixia na garganta e no peito. O gás cloro é letal foi a primeira arma química utilizada em guerras em 1915 (e proibida usá-las pelo Tratado de Genebra). Esse o grande motivo da desvalorização dos imóveis. Todos os dias, às 10 horas da manhã, o Departamento de Segurança da Braskem liga uma estridente e apavorante sirene como exercícios de fuga, ouvida em toda região. A Braskem tem excelente esquema de segurança (dizem eles), mas, já aconteceram no mundo acidentes de gravíssimas consequências, como numa fábrica de produtos químicos em Bophal na Índia em 1984, quando morreram mais de 6.000 funcionários e moradores dos arredores num vazamento de gás mortífero ainda hoje não explicado (procurem na Internet essa história).

Em 1985, os então estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Érico Abreu e Mário Lima, preocupados com a possibilidade de um acidente semelhante ocorrer na BRASKEM, produziram um material investigativo sobre as consequências da extração de salmoura na Lagoa. Concluíram dentre as possibilidades, estava a de tremores e rebaixamento no solo de áreas próximas às minas. Érico Abreu considera o alerta feito há trinta anos, uma espécie de previsão. Em 2015 aconteceram vários pequenos terremotos, rachando as casas com perigo de afundar. 60.000 moradores foram desalojados da região.

Em 2009 fui convidado e com muita honra passei oito anos como Secretário de Cultura da cidade histórica de Marechal Deodoro. O prefeito deu-me a missão de realizar uma Festa Literária nos moldes da FLIP em Paraty. Planejei durante alguns meses, para realizar a FLIMAR, o orçamento estourou. Deram-me a ideia de solicitar as 11 passagens dos grandes escritores à BRASKEM. Achei até que seria uma obrigação da fábrica pois a cidade de Marechal fica nas proximidades. Fui bem recebido pelos diretor, não teve problema em cooperar com as 11 passagens, desde que colocássemos a logomarca da BRASKEM em folhetos, site, auditórios e distribuísse propaganda da BRASKEM ao povo durante os quatro dias de evento. A 1ª FLIMAR foi um sucesso à nível nacional.

No ano seguinte retornei à BRASKEM, eles ofereceram a colocar trenzinho para conhecer a cidade e convidar grandes nomes não só da literatura como também da música. Assim a FLIMAR cresceu nos outros anos. Era um negócio como outro qualquer, a BRASKEM nos dava parte das precisões em troca de espaços para propaganda. Era importante para eles a propaganda na comunidade. Nesses oito anos eu fui oportuno, todos os anos me convidavam para entregar o Prêmio Braskem instituído exclusivamente à Imprensa com concurso de reportagens ambientais. A entrega dos Prêmios era festa de arromba com artistas globais.

Quando eu soube que a BRASKEM iria instalar a segunda fábrica no município de Marechal Deodoro, duplicando a produção. Falei com Prefeito, Secretário de Meio Ambiente, mas já estava tudo pronto, a Odebrecht construiu a fábrica em um ano. Em 2013 assisti a inauguração da 2ª fábrica da Braskem em Marechal, na ocasião tive a honra em apertar a mão da presidente Dilma Roussef.

Em 2015 aconteceram os primeiros terremotos e a previsão dos jornalistas: Mário Lima e Érico Abreu. O restante da histórias todos conhecem, mas, consultem à Internet ou leiam o excelente livro: “Rasgando a Cortina de Silêncios”. A mim, resta acompanhar milhões de alagoanos gritando: FORA BRASKEM!