CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMORIAL DA RAPARIGA DESCONHECIDA

2 de junho marca a resistência da profissão mais antiga do mundo, a prostituição

Quando iniciaram a construção dos trapiches para dar suporte à exportação do açúcar no cais do porto, ainda nas primeiras décadas do século XX, os proprietários dos casarões de Jaraguá, em Maceió, sentiram-se incomodados com a proliferação de bares, foram debandando para outros bairros em expansão na cidade.

No final do século XIX, deu-se início ao bairro de Jaraguá. Os grandes comerciantes, os burgueses, os governantes construíram casarões avarandados em frente à praia. Residências modernas, dois andares avarandados, moradias chiques da época, orgulho da capital das Alagoas.

Região portuária é chamariz de biroscas e raparigas, logo as casas avarandadas de dois andares foram transformadas em boates, lupanares ocupados pelas mariposas do amor atraídas pela região do cais do porto. O bairro do Jaraguá tornou-se zona de prostituição. Os cabarés refinados de Jaraguá importavam produtos do Recife, Bahia e até da França, além das brejeiras sertanejas nordestinas. Ambiente fino, visitado por coronéis de engenho e do Exército, deputados, senadores, grandes figuras da nação. As boates tinham os nomes mais variados: Alhambra, Night and Day, Tabariz, São Jorge, Verde, entre outros.

©LulaCastelloBranco

Jaraguá ao amanhecer

Nos anos 60, a região das praias de Pajuçara, Ponta Verde tornou-se moradia predileta dos mais abastados, a classe média alta sonhava com casa nessas belas praias. A região foi crescendo, os moradores quando iam ao centro da cidade, inevitavelmente passavam pelo corredor da prostituição, os casarões avarandados de Jaraguá; isso incomodava muita gente da alta burguesia.

Certo dia, a senhora do Secretário de Segurança Pública foi ao mercado às seis da manhã, quando o carro da Secretaria passava por Jaraguá a madame tomou um susto, um boêmio retardatário após descer a escadaria do lupanar, calmamente puxou o negócio para fora da calça, fez jorrar um jato de xixi amarelo no meio-fio da calçada. Aquela cena não saiu da cabeça da madame, principalmente o tamanho do negócio, ao chegar em casa exagerou a história ao coronel.

Rua Sá e Albuquerque, no bairro Jaraguá, em Maceió

No outro dia todas as boates receberam uma circular dando um prazo de 60 dias para se mudarem daquela região. O coronel com uma canetada acabou a zona de Jaraguá em 1969. Terminava a história da boemia e da moradia por mais de 60 anos das prostitutas, das raparigas desvalidas, prestadoras do serviço mais antigo da humanidade. Logo, a ganância imobiliária iniciou a derrubada de alguns casarões de Jaraguá para construir monstrinhos modernos, a sede do Bradesco, a Comisplan, entre outros.

No início dos anos 70 artistas, arquitetos, Ênio Lins, Pierre e Solange Chalita, entre outras figuras sensíveis, organizaram um movimento, batalharam, conseguiram com muito esforço, cidadania, mobilização. Os casarões de Jaraguá foram tombados. Graças a esse movimento possuímos esse acervo arquitetônico, patrimônio do povo brasileiro. Enquanto as meninas ocuparam aqueles casarões por mais de 60 anos, nunca houve demolição, mesmo involuntariamente elas preservaram o belo acervo cultural, e nos legaram um dos mais importantes patrimônios arquitetônico e histórico da cidade.

©LulaCastelloBranco,

Jaraguá à noite

Hoje Jaraguá com seus prédios restaurados, poucos lembram que ali foi um ambiente da boemia, da zona das meretrizes, das marafonas, das perdidas que alimentavam de fantasias os homens, naquela bela época. Para fazer Justiça a essas bravas guerreiras, a Confraria do Sardinha, formada por artistas, intelectuais, boêmios, políticos e outros desocupados frequentadores do Bar da Zefinha, resolveu homenagear essas injustiçadas mulheres, as raparigas que conservaram os casarões.

Numa cerimônia singela, porém muito emotiva, reunidos antigos frequentadores de Jaraguá, foi afixada na parede da ex Boate Alhambra, a placa, MEMORIAL DA RAPARIGA DESCONHECIDA, como reconhecimento e justiça ao trabalho da mulher que conservou, nos legou o mais importante acervo arquitetônico da cidade, os casarões de Jaraguá.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ANINHA ARREPENDIDA

Rui aparentava boa saúde andava diariamente na orla; elegante, de calção frouxo, sem camisa e tênis branco. Naquela tarde, caminhando, ele sentiu um mal estar, dor no peito, caiu no chão. Socorreram, colocaram-no em um taxi, avisaram à Julia, sua esposa, levaram o infartado ao Hospital, ao chegar estava morto. Foi um choque entre parentes e amigos, os dois filhos não se conformavam. A notícia correu rápida no Facebook, postaram o laço preto, a foto e a notícia fúnebre: “Alagoas fica menor. Morre o empresário Rui Cavalcante. O velório será o Parque das Flores e o enterro às 17 horas de amanhã.” Rui era querido por sua generosidade, gentileza e alegria. Trabalhador, bom pai de família. Tinha apenas um pequeno defeito, gostava de mulheres. Teve casos fortuitos, mas nunca se prendeu a alguma de suas aventuras. A esposa minimizava essa fraqueza para viver bem.

O Parque das Flores logo ficou repleto, as duas amigas Julia e Ana abraçadas diante do caixão choravam em desespero, os amigos consolavam a viúva. Foram 31 anos de casados, eles viviam em harmonia possível. Quando os filhos foram para o Sul estudar, o casal ficou mais amigo, precisavam um do outro. Júlia permaneceu aos prantos diante do marido inerte no caixão, sabia que nunca mais teria seu bom humor, seu carinho e as noitadas gostosas de amor. Rui era sábio de cama.

Deram um calmante à Júlia, ela deitou-se nos aposentos do velório. Aninha acordada aguentou no salão olhando para o defunto, estava chocada, desesperada, arrependida, havia descoberto naquele momento doloroso que amava Rui, marido de sua melhor amiga, sua cabeça pensava em perda, lamento e traição, quando apareceu a amiga Miriam convidando-a a um passeio pela alameda iluminada do cemitério. Sentaram-se no banco embaixo de enormes pés de eucaliptos. Foi naquele momento que Ana desabafou junto à amiga.

– “Eu devia ter dado.” Abriu seu coração para Miriam. – Continuou.

– “Eu e Júlia sempre fomos grandes amigas. Depois que me separei do Manoel Eduardo, comecei a sair com o casal, Rui cheio de bom humor vivia me arranjando namorado, até que dei algumas escapulidas. Ano passado na praia de Paripueira em um passeio na piscina natural, eu estava segurando a jangada com o corpo dentro d’água, de repente, senti um corpo junto ao meu por baixo d’água, entrelaçou-me entre as pernas, deu-me uma gostosa excitação, olhei nos olhos de Rui e balancei a cabeça negando amavelmente. Aquele momento me agradou, confesso, eu adorei sentir as pernas másculas do Rui entrelaçando as minhas. Dias depois me encontrei com ele no Shopping, ele convidou-me para um sorvete. Sentamos, ele perguntou se eu acreditava que um homem podia amar duas mulheres? Porque me amava e era tarado por mim. Já pensou? Eu cinquentona. Mandei que ele se aquietasse, já não era menino, não ligou, continuou a conversa. Fez-me a proposta. Por quê não um encontro em vez em quando num motel gostoso? Não precisava Júlia saber. Saí do Shopping excitada com a proposta, a cabeça a mil. Porém, havia uma amiga no meio do caminho. Rui quando podia, dizia-se apaixonado, eu resisti durante esse tempo todo. Hoje eu o vendo morto, inerte, a vida acabada, fiquei num profundo sentimento de perda e de arrependimento. Eu devia ter dado a ele! Miriam”.

Retornaram ao velório, Aninha procurou Júlia, ela estava sozinha no quarto, sentada na cama, deu duas batidas no colchão com a mão, convidando a amiga sentar-se. Abraçaram-se. A viúva puxou conversa.

– “Minha querida amiga, Rui gostava muito de você, muito mesmo, eu não sentia ciúme. Ele lhe tinha um carinho especial, eu percebia. Agora que tudo acabou, diga-me, até por curiosidade, continuarei sua amiga seja qual for a resposta. Vocês transavam?”.

Deu-se um momento longo de profundo silêncio.

– “Júlia vou lhe contar a verdade, fui sua amiga fiel com muito esforço. Rui tentou, tentou muitas vezes, insistente. Confesso várias vezes tive vontade, só não dei, para não lhe trair”.

– “E eu pensava que vocês transavam. Você devia ter dado, o bichinho queria tanto.” Disse Júlia chorando, beijando a testa da amiga.

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CONVERSA DE TAXISTA

Peguei um taxi no centro da cidade cumprimentei o motorista e dei-lhe o destino: orla de Jatiúca. Nesse mesmo momento, em frente, uma jovem atravessava a faixa de pedestre quando de repente o forte o Vento Nordeste levantou a saía da moça mostrando um belo traseiro apertado por uma minúscula calcinha vermelhe, as mãos da jovem ocupadas com sacolas, não teve como baixar a saia continuando a exposição de seu belo corpo para os sortudos que olhavam. Ao abrir o sinal, o taxista engatou a primeira e partiu Ele sorriu, satisfeito da vida, olhou-me de soslaio e comentou.

– O senhor viu que coisa linda? Há quem não goste disso. Sou casado, sustento minha família com esse taxi, mas tenho esse vício por mulher, gosto de dar uma voltinha por fora quando aparece oportunidade, entendeu Doutor?

Afirmei que entendia. O taxista continuou falando entrando na praia da Avenida da Paz.

– Maceió é a única capital que tem praia no centro da cidade. Não parou mais de falar, conhecia a velhaca política alagoana, foi citando os conhecidos até chegarmos à praia da Pajuçara, quando o taxi parou numa faixa de pedestre em frente a um luxuoso hotel. Nesse momento atravessaram três turistas andando devagar, vestidas em saída de praia, tecido fino e transparente mostrando os pequenos biquínis que mal cobriam as partes pudentes. Foi o pretexto para o taxista continuar a apologia à mulher.

– Olha aí que coisa mais linda, essas mulheres com o andar macio, sem pressa, ficam desfilando para o mundo, elas sabem que homem gosta de olhar. É um espetáculo e eu quero viver muito tempo para apreciar. A gente não come, mas olha, Doutor.

Deu uma risada de sua própria piada. E não parou de falar.

– Vou contar uma história, o senhor não vai acreditar. Na temporada em janeiro eu peguei no hotel duas paulistas bonitas feito a gota serena, levei-as à praia do Francês. Providenciei sombrinha, cadeiras, elas ficaram encantadas, pediram cerveja ao garçom, tomaram banho de mar, andaram na praia, retornaram à mesa, enchendo a cara com cerveja e caipirinha, eu só espiando e esperando ao longe. Já tarde resolveram almoçar na barraca, me convidaram. Comi uma boa moqueca de peixe, sem beber, é claro. Eu percebi que as duas estavam meio bêbadas, cantavam e conversavam. Só retornamos a Maceió anoitecendo. As paulistas começaram a conversar sacanagem, perguntavam-me coisas, se eu gostava, eu respondia tudo, meio encabulado no começo da conversa. Ao passar por um motel na beira da estrada, uma delas mandou eu para o carro. Imediatamente freie e estacionei no acostamento. Uma delas se achegou por trás de mim, convidou-me para uma “menage atroá”. Eu topei mesmo sem saber o que era “menage atroá”. Doutor nunca tinha visto tanta sem-vergonhice na minha vida, as mulheres fumaram maconha. Passamos duas horas no motel, aprendi tudo que é safadeza na minha idade. No final, elas pagaram a conta. Levei-as ao hotel em que estavam hospedadas na praia da Ponta Verde. Ao despedir-me, ofereci meus préstimos para o dia seguinte, levá-las a qualquer praia que quisessem. Elas me agradeceram, viajariam na madrugada, estavam numa excursão. Quando voltassem a Maceió, me procurariam. Entreguei-lhes meu cartão. Deram beijinhos, pagaram-me a conta com uma boa gorjeta.

O taxista só parou de falar quando chegamos ao meu prédio, ele ainda tinha outras história para contar. Agradeci, paguei. Fiquei pensando. Na outra encarnação quem sabe se terei a sorte em ser motorista de taxi em Maceió.

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A GRINGA DE CRUZ DAS ALMAS

A praia de Cruz das Almas é uma das mais charmosas de Maceió. Há alguns anos, quando o bairro era pouco habitado, apresentou-se no Posto de Saúde uma enfermeira americana, de nome Hanna. Houve um frenesi na comunidade, algumas casinhas entre os coqueirais. A jovem veio de San Diego da Califórnia (terra roubada dos Mexicanos pelos USA) estagiar no Posto por conta de um convênio de seis meses no Brasil. Esse semestre ficou na memória de todos os moradores do povoado. A enfermeira era um encanto de jovem. Sua pele de um rosado leve, parecia porcelana. Dava vontade em qualquer ser humano de alisar aqueles braços. Os cabelos louros, olhos verdes fuzilavam quando fixavam em algum ser humano. Nariz afilado como uma menina de Renoir e lábios carnudos, sensuais, eternamente molhados. Vontade de mordê-los.

Hanna, a bela, encantou-se com a praia de Cruz das Almas. Assim que largava o serviço de enfermagem, vestia um minúsculo biquíni, atravessava o coqueiral, em direção ao mar, mergulhava e nadava leve, solta. Quando o sol se punha, ela retornava à casa onde morava com um casal de enfermeiros americanos. Esse fato espalhou-se pelas redondezas. O Posto de Saúde de Cruz das Almas começou a ser frequentado pelos homens da redondeza. Bastava uma furada no dedo, corriam para ser atendidos pela jovem. Eles cantavam a bela, ela fazia não entender. Sorria muito.

Um político do Passo de Camaragibe, terra do mestre Aurélio, apaixonou-se. Todos os dias ele aparecia e levava um presente. Ficava contemplando aquela belezura como se fosse um ser do outro mundo. Achava-a pura como uma santa e a desejava com uma puta. Os médicos da região constantemente passavam pelo posto. Convidavam Hanna para estágios nos hospitais ou suas clínicas particulares. Fazendeiros ofereciam empregos vantajosos e passeios maravilhosos. Em pouco tempo eram muitos os pretendentes. Todos a desejavam. Várias figuras conhecidas queriam comê-la: uma dentista, dois advogados, um engenheiro, duas médicas, um capitão e um escritor da Academia Alagoana de Letras, imortal. Cheios de amor e desejos por Hanna, a bela. Ninguém imaginava que ela já havia escolhido um sortudo. Apareceu a paixão de sua vida. Seu coração de jovem de vinte anos foi aberto, junto com braços e pernas para um novo amor.

O afortunado, o escolhido, o ungido foi Tonho, tirador de coco, magro, vestido com rota bermuda, suja de palha de coqueiro. A magreza de seu corpo seminu, o sorriso constante, o corpo queimado do Sol, encantaram Hanna, a bela.

Tonho não é um padrão global de beleza. Mas foi ele quem Hanna, a bela, escolheu. Desde que lhe viu ficou apaixonada. Ele semianalfabeto, ela entendia pouco o português.

Toda noite Hanna tentava conversar com Tonho em sua casa de taipa, morava com os pais. Até que certa tarde, ela afinal conseguiu arrastá-lo pelo braço. Levou-o em direção à praia. Quando na areia, juntou seu corpo ao franzino corpo do jovem de 18 anos, ele tremeu de emoção e desejo. Hanna, a bela, ofereceu-se e deu seus lábios carnudos para Tonho beijá-los. Enrolaram-se na areia. Fizeram amor com carinho, ela comandando o ato. Foi a primeira vez de Tonho. Todas as tardes os dois se banhavam no mar até o anoitecer. Tinham como testemunha apenas a imensidão de céu e a proteção de Yemanjá.

Até a natureza mudou nessa época. Os coqueiros pareciam mais alegres com o embalo do vento. As flores dos gajurus se tornaram mais brilhantes. Os gramíneos, as folhas verdes ficaram mais viçosas e a vegetação praieira se transformou em um tapete de flores amarelas, como se fora uma homenagem à beleza daquela mulher. O azul do mar tomou um esverdeado que nenhum pintor jamais ousou imaginar. No final da tarde a maré trazia cardumes de peixes: carapeba, tainha, arabaiana, curimã, camarão, siri. Vinham beber, sorver o líquido, os fluidos das entranhas, do suor da Deusa, que se banhava na piscina do mar, amando Tonho. Houve uma troca. As seivas dos coqueiros, das gramas, dos gajurus, das flores amarelas, juntaram-se com as águas-marinhas, os sargaços, as águas-vivas e penetraram no âmago da americana. Essa troca de fluídos resultou na fecundação de um ser no ventre de Hanna, com a cumplicidade do sêmen de Tonho, seu homem.

Hoje Hanna, a bela, vive em San Diego com seu filho, Antônio, de cinco anos, moreno de olhos verdes. Gosta de subir em árvores, de correr na praia. Fica fascinado com o mar ao longe, o horizonte cheio de mistério.
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MARTHA DA CHÃ DA JAQUEIRA

Foi na sala de audiências do Fórum da Serraria que ela apareceu acompanhada da delegada de mulheres. A negra Benedita surgiu com seu permanente e debochado sorriso. O Promotor pediu para ela contar a surra que levou de seu companheiro, o servente de pedreiro, Severino, que ali se encontrava também para depor sobre sua violência intempestiva e seu ciúme incontrolável quando viu sua mulher, Benedita, jogando futebol com a meninada da rua, perto de sua casa na Chã da Jaqueira.

– Meu marido Severino me arrastou pelo braço quando me viu jogando futebol com os meninos. Entrou em casa me deu bofete e murro com força, eu caí no chão. Severino tem ciúme por qualquer besteira.

– E o senhor, Seu Severino, conte como conheceu a Benedita

Conheci há mais ou menos três anos, quando fui construir uma casa na praia do Pontal do Peba, foz do Rio São Francisco. Benedita morava no Pixaim, um povoado, onde nem existe luz elétrica. Gostei da bichinha, ficamos namorando, depois a gente veio morar na capital, onde eu tenho mais facilidade de serviço de pedreiro. Benedita engravidou, nasceu uma menina. Colocamos o nome de Débora. Benedita se apaixonou, é viciada por televisão e acha a Débora Seco a mulher mais bonita do mundo. Benedita não se encaixou com a vida de Maceió. Não gosta de sapatos. Calça sandália lepe-lepe quando não está descalça. Sua maior paixão é jogar Futebol com os meninos da rua quase da sua idade. Os parceiros já a apelidaram de Martha – Disse Severino.

A Delegada se intrometeu.

– Ele também é analfabeto, proibiu sua mulher de sair na rua e jogar com os meninos. Benedita fica em casa acabrunhada, infeliz, cuidando da filha. Certo dia não aguentou, quando debruçada na janela de sua casa assistia os meninos jogar futebol. Deixou a criança dormindo e com sua habilidade de atleta foi dar seus dribles e chutes certeiros, melhores que os da molecada da rua. Todos os moleques só a chamam de Martha. Nesse dia Severino voltou mais cedo para casa. Quando viu sua mulher jogando com a meninada, no mesmo instante a trouxe pelos seus fortes braços. Ele estava irado e esmurrava a indefesa Benedita, que sofria, não pela dor, mas pelo ódio em não poder com Severino, um touro de forte.

Foi essa a história contada no Fórum ao juiz Dr. Caio Monteiro na presença do Promotor. Dr. Caio estava emocionado, era o último dia de sua carreira de magistrado. Havia solicitado a aposentadoria. Aquele era o último caso da sua vida como juiz. Dr. Caio é tido como um homem sério, correto e honesto, dessas pessoas que honram qualquer instituição. Bem casado, com três filhos e três netos, viveu sempre para o lar. Em todo tempo de casado jamais prevaricou, fiel à esposa e a seus princípios. Enfim um homem que, por seu perfeccionismo, exige de si mesmo o que prega o que acredita.

Certo momento, a delegada pediu ao juiz e ao promotor para comprovar os edemas no corpo de Benedita, a Martha. Na sala contígua entraram apenas o juiz, o promotor e a vítima. A delegada pediu para Benedita mostrar as manchas no corpo. Num átimo, sem nenhum constrangimento, sem pudor e sem sequer uma ponta de maldade, Benedita puxou o zíper e deixou cair seu vestido chita. Deu-se uma comoção surpreendentemente e forte quando surgiu aquele corpo moreno perfeito, apenas coberto por uma minúscula calcinha branca, parecia uma estátua. A jovem Benedita bonita de cara, tinha o corpo cheio de fogo, pois esquentou o sangue dos presentes. A lascívia exalada por Benedita deixou o promotor boquiaberto e o vestal, puro e sério juiz, Caio Barreto, com uma encantada emoção. O coração disparou, deu-lhe taquicardia.

Foi o último julgamento do Dr. Caio Barreto: Houve separação, estipulou-se uma quantia do salário de Severino e que o acusado todos os fins de semana prestasse serviços comunitários. Benedita ficou com a guarda da filha. E trabalhando com o que aparecesse.

Dr. Caio aposentou-se. Ficou sem trabalhar. Era o ócio merecido. Certa tarde de sol, nosso juiz aposentado descia de carro a ladeira do Farol. Parou num sinal de um cruzamento. De repente seu coração acelerou, disparou, reconheceu entre os meninos que vendiam frutas e verduras, a jovem Benedita, a inesquecível Martha, com um curto short e uma blusa leve. Ela caminhava dengosamente em direção a seu carro com quatro sacolas de feijão verde. Ao ver o juiz, Benedita pulou de alegria e saiu-lhe um grito espontâneo: “DOUTOR!”.

O sinal abriu, ele mandou que ela atravessasse a rua. Quando Caio parou o carro do outro lado, ela já vinha correndo, alegre e feliz, oferecendo o feijão verde ao juiz, dizendo que era presente. Ele não aceitou e lhe deu uma nota de R$ 20,00. Iniciou um interrogatório, queria saber de tudo, como estavam o ex-marido, sua filha e ela. Benedita disse que morava com seus pais que vieram para Maceió e ajudava a família vendendo coisas na rua. Estava feliz com a vida que levava. Deus a livre de casar de novo.

Depois de contar sua história. Ela enfiou a cabeça dentro do carro, com um sorriso encantador e o decote mostrando os seios mais lindos que Caio tinha visto nesse mundo. Disse em voz clara, quase sussurrando: – “Doutor o senhor é um homem bonito, naquele dia tive vontade de lhe beijar. Sou muito agradecida pelo que fez. Se precisar de mim, dou o que o senhor quiser, é só pedir”.

Caio ficou surpreso, avermelhou o rosto, se emocionou, o desejo foi mais forte. Abriu a porta do carro, Martha entrou. Já faz um ano e meio daquele encontro. Agora, toda quarta-feira, eles passam uma tarde de amor. Dr. Caio vive feliz, bem humorado. E a moleca Martha fazendo gols incríveis na Chã da Jaqueira.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O LINDO RODRIGÃO

Ritinha nasceu e se criou no sertão, lá para as bandas de Traipu, bonita cidade às margens do Rio São Francisco. Quando completou 18 anos só havia namorado um rapaz, namoro discreto e de pouco tempo. Em seu aniversário estava solteira. Nessa época apareceu em Traipu um certo gaúcho chamado Rodrigo, contratado para um trabalho nas terras de um grande fazendeiro da região. Era veterinário, especializado em inseminação artificial. Logo ficou conhecido. Pelo saber, e, sobretudo, por ser um tipo de homem bonito, alto, forte de cabelos e bigodes espessos e pretos. O gauchão enfeitiçou as moças do sertão.

Onde Rodrigão aparecia era uma festa. Todos queriam participar de sua inteligente conversa. As moças ficaram encantadas por sua estampa de homem e sua gentileza. Rapaz educado, de fino trato, másculo e espadaúdo. Foi convidado e compareceu à festa de 18 anos de Ritinha. Rodrigo amava o campo, era de Cruz Alta, uma bonita cidade do Rio Grande do Sul. Ficou apaixonado pelo sertão alagoano. A hospitalidade e humildade do povo nordestino fizeram bem ao seu ego e à sua alma. Alugou uma casa para morar, se estabeleceu em Traipu, num sítio à beira do Velho Chico.

Com a vivência e o trabalho dos primeiros meses, Rodrigo já era um dos homens mais respeitados de toda região. Durante o natal foi à sua terra visitar a família. Em breve retornou. Em sua casa bem arrumada havia dois auxiliares: Dona Presenta, a cozinheira, e um jovem para pequenos serviços, aliás, rapaz. Cicinho com seus 16 anos era um homem de corpo moreno e peito liso de tanto nadar no Rio São Francisco.

Rodrigo era um ótimo patrão. Dona Presenta não tinha o que reclamar e Cicinho depois que começou a trabalhar como caseiro, com direito a comida e dormida, possuía um padrão de vida que muitos filhos daquelas bandas do sertão não tinham. O rapaz passou a andar alinhado, vestindo camisas e calças dos “shoppings” de Maceió. Até uma bicicleta nova, moderna, cheia de marchas, uma belezura, ganhou no dia de seu aniversário. Rodrigo tinha muita atenção com Cicinho.

Rodrigo considerado um exemplar cidadão. Não era chegado às farras e nem às putas das redondezas. Nunca viram o gaúcho na zona. Um exemplo para os maridos pecadores daquela região, que diziam ir a negócio e ficavam nas casas de rapariga de Arapiraca.

Desde o aniversário, Ritinha e Rodrigão iniciaram um xodó. Depois de certo tempo começaram a namorar. Era do agrado de seus pais. Pouco depois de completar um ano no sertão, Rodrigo casou-se com Ritinha. No festejado casamento apareceram os familiares do Rio Grande do Sul e um monte de autoridades de Alagoas e Sergipe. O casal ganhou de casamento uma fazenda de gado em São José da Tapera, presente do Major Gerôncio, pai de Ritinha. Essa fazenda ficou administrada por Cicinho. Agora um homem durão e mandão, como se a propriedade fosse dele. Cheio de soberba, suas ordens, sagradas.

Quando completaram 7 anos de casados, Rodrigo e Rita optaram morar em Maceió onde têm melhores escolas para seus dois filhos, maior conforto e qualidade de vida. Cicinho administrava bem a fazenda. No início tudo uma maravilha, de repente deu um jejum de quatro meses sem amor na cama. Ritinha ficou desconfiada, não se conteve, contratou o detetive Audálio. Mandou seguir o marido e deu todos os dados de Rodrigão para o investigador.

Com duas semanas de trabalho, Audálio marcou encontro no seu escritório no Edifício Breda. Foram momentos dramáticos quando o detetive revelou que Rodrigo teve vários encontros amorosos. E mostrou as fotografias travestis entrando no carro de Rodrigo. O que mais entristeceu Ritinha foram algumas fotos do marido entrando no motel com seu dileto amigo, auxiliar, pau-para-toda-obra, o administrador de seus bens, o jovem Cicinho.

Rodrigo ao entrar em casa teve a grande surpresa. Ritinha sem conseguir falar, atirou em seu peito as fotografias reveladoras que se espalharam no chão. Rodrigão quando olhou a primeira foto ficou vermelho de vergonha e de raiva. Botou as mãos na cabeça e danou-se a chorar: “Me perdoe, me perdoe Ritinha”.

Essa foi a infeliz história que Rita contou com muita emoção a seu amado pai Coronel Gerôncio. No dia seguinte Rodrigo embarcou no primeiro avião para Cruz Alta. Cicinho desapareceu. Ninguém mais o viu pelas bandas do sertão.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MARECHAL BOCA

Sinésio Souza Lima é seu nome, os pais esforçaram-se para educar sete filhos. Durante a juventude, enquanto os amigos mais abastados, após o namoro bem comportado, de mãos dadas no portão da namorada virgem, subiam os degraus dos cabarés de Jaraguá, pagando descarrego e prazer com alguma mariposa do amor, Sinésio procurava aventuras com as jovens empregadas domésticas, geralmente vindas do interior tentando melhoria de vida, trabalhando em casas das famílias burguesas. As mais salientes saíam à noite em busca de aventuras, faziam ponto nas praças da cidade, gostavam de rapazes, estudantes, não cobravam pela noite de amor atrás de um muro ou na praia da Avenida da Paz. Sinésio, frequentador assíduo da Praça Centenário, conhecia, era íntimo das peniqueiras (assim eram chamadas maldosamente as empregadas domésticas – hoje seria crime), havia uma Associação no Farol, a famosa UCPM, União dos Conquistadores de Peniqueiras de Maceió, onde os sócios se reuniam contando aventuras, conquistas. Todos tinham postos, eram promovidos conforme o relato das aventuras, Sinésio tinha a maior patente, Marechal da UCPM. Por ser bom de lábia, cantadas açucaradas, prometendo o que não cumpriria, as empregadas apelidaram nosso amigo de Boca, assim ficou conhecido em todos os redutos da cidade.

Sinésio amava as domésticas, certa vez teve um caso prolongado, quase um ano com uma bonita morena. Maria Cícera trabalhava na casa de um médico na Rua Itatiaia. Os pais de Sinésio ficaram preocupados quando Cicinha apareceu grávida, um Deus-nos-acuda, falaram em casamento, aborto nem cogitar. A criança nasceu, Cicinha entregou-a aos pais de Sinésio que criaram o menino como filho fosse, o oitavo. Seus pais aconselharam, ele fez que ouvia, continuou em busca de suas queridas. Sinésio nunca perdeu o encantamento, a veneração pelas empregadas.

Ele casou-se com 31 anos, constituiu família, entretanto, não dispensava uma saída, uma voltinha quando podia acontecer. Sempre respeitou, à muito custo, as empregadas de sua casa, fez muita força, às vezes resistindo provocações de estar sozinho em casa com uma bela jovem. Fora de casa, dava umas saídas à noite para reunião com a turma no Shopping, mas, continuou exímio caçador de doméstica.

Certa vez, Marília, sua amada esposa, professora da Universidade, teve problema com uma empregada, dispensou-a e marcou entrevista numa agência. Numa segunda-feira, depois do jantar, a campainha tocou. Sinésio foi atender, deveria ser a nova empregada. Ao abrir a porta tomou um susto deparou-se com uma de suas conquistas amorosas. Rosa ao ver Sinésio não conseguiu segurar o espanto, saiu-lhe naturalmente um grito de espanto, “Boca?”. Ele assustou-se, perguntou o que queria, ela balbuciou, “sou a nova empregada, a agência me mandou”. Dona Marília se aproximava, ouviu o diálogo de espanto entre os dois, conhecia a fama do marido das brincadeiras dos amigos, dispensou Rosa na hora, não serve, disse. Ao fechar a porta perguntou, que história é essa de Boca, ela é sua amiguinha? Conta tudo, vai, quero saber. Boca? É assim que elas lhe chamam?

Sinésio recuperou-se do susto, defendeu-se.

– Não é nada que você está pensando, me respeite, você ouviu mal, ela falou “Boa”, de boa noite, como você é maldosa. Sou um homem sério, me respeite.

Deixou Marília em dúvida, o fato caiu no esquecimento. Por via das dúvidas, a esposa contratou uma matrona de 56 anos, exímia cozinheira.

Sinésio, agora aposentado, foi eleito síndico do prédio, está implantando a coleta seletiva de lixo no edifício, na primeira reunião para informações e procedimentos com todas as secretárias (é assim que se chamam hoje as empregadas domésticas) dos apartamentos, Sinésio ficou fascinado, deu-lhe uma recaída ao ver mais de vinte “secretárias” a seu redor no decorrer da reunião. Pelo olhar, sentiu atração por duas. Sentiu-se no paraíso. Depois de vários anos, o Marechal Boca volta a atacar, já tem planos, sem perceber que o mundo mudou.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEMANA SANTA

Meus netos estão se empanturrados de chocolate para alegria da Nestlé e da Garoto. Essa invencionice comercial, venda da “comida dos deuses” durante a Páscoa, está definitivamente institucionalizada pela propaganda massiva. O ovo de chocolate e o coelho tornaram-se símbolos da semana da paixão e morte de Cristo. Um período apropriado à meditação, à oração, reverteu-se em festa do chocolate.

Os marqueteiros não combinaram com a Igreja, tão conservadora nos assuntos sobre sexo, pois, coelho é o símbolo de procriação, de fertilidade, e chocolate é alimento afrodisíaco. Portanto, os símbolos da semana santa moderna, inventados pelo comércio, são apologias ao sexo.

Gosto das tradições, tenho boas recordações da semana santa de meu tempo de criança.

Iniciava no Domingo de Ramos quando se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado em um burrico. Seus discípulos trouxeram dois jumentos puseram em cima deles suas vestes, sobre elas Jesus montou. A multidão cortou ramos de oliveiras, espalhou-os pela estrada, formando um tapete de folhagem para o Rei dos Reis passar, em cima de um jerico. O povo acompanhava Cristo, clamava: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!”. Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda cidade se alvoroçou. Perguntavam: “Quem é este cara?” E a multidão clamava: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia.”

Assim aprendi nas aulas de catecismo no Colégio Diocesano (Marista). Essa parte da história de Cristo é muito emblemática. Entrada triunfal num jerico, logo depois, traído e crucificado.

Entretanto, para moçada dos anos 50, o melhor do Domingo de Ramos era a procissão. Ela iniciava na Catedral, os colégios femininos religiosos compareciam: São José, Sacramento, desfile de meninas bonitas, a moçada assistia a procissão na intensão de paquerar as belas alunas. Um olhar, um sorriso, um piscar de olho valia a pena se postar à beira da calçada assistindo a procissão se arrastando que nem cobra pelo chão.

O feriado começava na quinta-feira santa, a partir desse dia era proibido comer carne, em compensação minha mãe cozinhava um delicioso bacalhau ou arabaiana ao molho de camarão, feijão e jerimum ao coco, bredo; uma delícia. Pena que esses deliciosos manjares dos Deuses só venham à mesa na semana santa.

Na noite da quinta-feira havia uma brincadeira perigosa. A moçada juntava-se em bando, cinco a seis moleques para “serrar velho”. A serração do velho é uma tradição europeia conhecida desde o século XVIII. Na Antiguidade reunia-se um grupo de brincalhões, diante da casa de um velho, na noite da quinta-feira santa serravam uma tábua com muito ruído, muito choro, muito lamento. Os velhos serrados irritavam-se com a brincadeira. Pela crença popular, velho serrado não chegava à próxima Quaresma. Na minha juventude fazíamos o ritual bem parecido.

Cantávamos alto tipo “incelênça” na porta de um velho conhecido:

“- As almas do outro mundo, vieram lhe avisar que deste ano o senhor não vai passar”.

“- Encomende a alma a Deus, que seu corpo já não vale nada” e líamos um bem humorado testamento em versos.

Os velhos ficavam irados. Levamos muitas carreiras. Seu Pádua, um velho ranzinza da Avenida da Paz, quando cantávamos seu “testamento” jogou um penico cheio de xixi, me molhou da cabeça aos pés. Corri para casa, tomei um banho e retornei ao local do crime, onde os amigos estavam às gargalhadas.

Na Sexta-feira da Paixão parecia que o mundo havia se acabado. As rádios só tocavam músicas clássicas ou fúnebres, era proibido ir à praia, até sorrir. As prostitutas fechavam as portas dos cabarés de Jaraguá, e o balaio; nem pensar numa fortuita noite de fornicação.

Finalmente o sábado de aleluia. A moçada preparava um boneco de pano, o Judas, sempre com um nome de algum político ou algum inimigo público.

Quando às 10 horas, os sinos da Igreja dobravam anunciando a aleluia, a moçada caía de cacete malhando o Judas amarrado em um poste. Melhor do que malhar um Judas, era roubar os Judas dos vizinhos, dos pivetes.

Afinal chegava o domingo da ressurreição. Os padres contavam a história como Cristo depois de morto subiu aos céus. Hoje acontece um espetáculo pirotécnico com atores globais, para se assistir comendo chocolate e tomando vinho. Uma festa de celebridades.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

LENDAS ALAGOANAS – LENDA DA BARONESA

Em um cemitério de Paris, numa lápide havia um epitáfio:

“DULCE FARNESI de SFORZA, Baroneza de Rosenville, fidalga italiana, descendente dos Doges de Veneza. Casada com o nobre francês Barão Julien de Rosenville, senhor do Castello de L’ Etoille. Morreu numa lagoa da região de Pernambuco em terras dos Brasis, 1511.”

Alfredo Brandão, escritor e pesquisador alagoano, procurou desvendar o fato, e numa viagem à Itália, pesquisou sobre a genealogia dos nobres italianos. Depois de exaustivas pesquisas conseguiu reconstituir a história.

* * *

“Numa festa em Veneza, o Barão de Rosenville conheceu Dulce. A moça desfilava em uma gôndola, fantasiada de rainha do Adriático. O barão apaixonou-se perdidamente pela beleza, meiguice e bondade da jovem. Nessa época, toda a Europa falava do descobrimento da terra de Santa Cruz. O barão casa-se com Dulce e resolve viajar para a terra recém-descoberta. Por dois anos, habitou no litoral de Pernambuco junto à enorme lagoa Manguaba (Alagoas fazia parte da Capitania de Pernambuco, na época). Ali mandou construir uma casa senhorial – um galpão de madeira em forma de castelo – e junto a este foi edificado um fortim de pedras. O Barão comercializava pau-brasil, fornecendo a madeira aos traficantes, seus conterrâneos, que atracavam a nau no porto dos franceses (hoje praia do Francês). O Barão gostava de caçar durante o dia. À noite, estudava as estrelas, enquanto Dulce bordava. Os marinheiros e os índios tocavam viola e dançavam ao ar livre.

A jovem Baronesa encantou-se com a região. Adorava a Lagoa Manguaba, os passeios de canoa, tudo lhe lembrava Veneza, sua terra natal. A moça era doce como seu nome indicava. Sempre a sorrir, alegre e esvoaçante, gostava de montar em seu cavalo, que trouxera da Bretanha, vestida de amazonas, cabelos esparsos ao vento. Ela lembrava assim uma ninfa dos bosques, uma aparição das florestas, uma iara das lagoas. Os indígenas caetés tornaram-se amigos dos franceses, principalmente do casal.

Um dia, Dulce resolveu improvisar uma festa aquática, idêntica às de Veneza. Convidou os indígenas caetés da região, que compareceram em suas canoas adornadas de flores silvestres. Julien não pôde assistir à festa, tendo que ir à nau de D. Rodrigo D’Acunã, que nesse dia seguia para a Europa com um carregamento de pau-brasil. Foi despedir-se de sua amada, maravilhando-se com o que viu: Dulce pronta para partir para a lagoa, com seu séquito de moças caetés, belíssima, fantasiada de rainha dos índios. Vestia uma túnica branca. Presa à cintura delgada havia uma tanga de penas de arara. Sobre a cabeça, um cocar de plumas alvas. Nas orelhas, dois muyrakitãs de pedras verdes. Um simulacro de tatuagem, com as cores do jenipapo e urucum, de pintinhas azuis e rosadas, o colo alvo e os braços nus. O Barão não resistiu, abraçou-a e beijou-a ali mesmo em frente a todos.

Quando o cortejo da rainha passava em frente à barra, o vento Nordeste soprou rijamente. A maré enchente arrastou as canoas para o meio da lagoa onde se espalhava o encantamento da planta cheia de flores. Súbito, todos gritaram. A canoa da Baronesa afundara e desaparecera no turbilhão das águas e das plantas.

Quando o Barão soube da tragédia, louco de dor, auxiliado pelos seus marinheiros e os indígenas caetés, procurou o corpo da Baronesa durante o resto da tarde e durante toda a noite. Pelo amanhecer, viram no meio da lagoa um ajuntamento de flores alvas, pintadas de roxo e azul, tal qual Dulce se tatuara. Os índios mergulharam e, logo depois, trouxeram à tona a sua Baronesa, morta, muito pálida, mas muito bela ainda. O Barão, em sua dor, regressou à Europa, onde enterrou o corpo da amada em Paris. Triste e solitário, terminou seus dias no castelo de L’ Etoille. Os índios caetés, a partir desse acontecimento, deram à flor o nome de baronesa.”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A ERRADICAÇÃO DA VELHA GONÔ

Durante a II Guerra Mundial aconteceram problemas com a população boêmia no Nordeste, houve proliferação de doenças venéreas, principalmente a gonorreia, a velha Gonô. Os americanos com seus dólares aumentaram a prostituição em nossas terras, trouxeram e disseminaram gonorreia e outras doenças. As prostitutas ficaram infestadas, transmitindo moléstias à população nativa, foi considera epidemia na época.

Em Maceió houve um trabalho organizado contra as doenças venéreas. O Ministério da Saúde enviou remédios. Surgiram as camisinhas. O Governo enviou verba para uma campanha de prevenção.

O ponto mais visado foi o bairro boêmio de Jaraguá onde as raparigas exerciam seu trabalho. Naquela época as melhores mulheres frequentavam os casarões da Rua Sá e Albuquerque e adjacências

Todas as prostitutas passaram por rigoroso exame. O Posto de Saúde da Praça das Graças se encheu de mulheres na fila dos exames, tiravam a carteirinha de serviço com data de exame carimbado, havia espaço para notificar as revalidações.

A procura foi tão grande que abriram outro ponto de exame na Delegacia de Jaraguá. O delegado da época, Cabo Boaventura, se empenhou na campanha com muito zelo. Como autoridade da região, o cabo-delegado fazia ronda diária fiscalizando se todas as operárias do sexo tinham suas carteirinhas carimbadas em dia.

Constatando alguma doença transmissível como gonorreia, cancro, etc., a jovem era obrigatoriamente internadas no Hospital de Doenças Tropicais para tratamento. Com a cura podia voltar à atividade, ao trabalho.

Nos quartos das pensões foram colocados cartazes preventivos: “EXIJAM A CARTEIRA PROFISSIONAL DE SAÚDE”. Alguns clientes se constrangiam em exigir a carteira das raparigas, pegaram doenças por conta disso. Essas carteiras eram atualizadas no Posto Avançado da Erradicação de Jaraguá, com médicos fazendo exames diários e indicando o tratamento adequado se fosse o caso ou internando a portadora de DST (doença sexuais transmissíveis).

A atuação do Cabo Boaventura foi fundamental nos serviços da erradicação. Onde havia alguém com suspeita de doença, ele mandava buscar para rigorosa investigação.

Foi formada uma rede de informações em vários cabarés. As raparigas recusavam fregueses quando desconfiavam que eles estivessem infectados. Muitas davam parte na delegacia, entregando o cliente. O delegado levava o acusado para o posto em nome da lei, sob a custódia de seus auxiliares.

Cidadãos da mais alta sociedade constrangeram-se em serem levados por policiais para o Posto Avançado de Jaraguá a fim de serem examinados. Não tinha acordo com o delegado. Geralmente essas denúncias eram fundamentadas e o delegado, além de dar uma bronca no doente fazia verdadeiras investigações policiais com os “criminosos” para descobrir a pessoa que lhe transmitiu a doença, e quem transmitiu a essa pessoa.

As diligências eram constantes. As pessoas transmissoras da doença eram intimadas a comparecerem à Delegacia até chegarem aos sadios. O Cabo Boaventura era rigoroso nas investigações.

Houve até problemas conjugais. O cabo obrigava ao portador da doença confessar a quem mais ela havia transmitido e com quem havia pegado a doença até chegar ao final do novelo.

Em uma dessas investigações, Laurinha, uma das jovens mais requisitadas da Boate Alhambra, promíscua como ela só, apareceu doente. O delegado a fez relacionar todos os parceiros da última quinzena. Na relação, havia gente conhecida, inclusive um capitão do Exército e um deputado. O delegado intimou todos os clientes de Laurinha, via carta entregue em mãos, para que fossem devidamente examinados e tratados.

Teve deferência especial com um deputado e um capitão do Exército. O cabo Boaventura visitou pessoalmente a Assembleia Legislativa e o 20º BC, juntamente com o médico, para que essas autoridades fossem examinadas. O trabalho imprescindível do zeloso Cabo Boaventura conseguiu erradicar as nefastas doenças venéreas da cidade trazidas pelos soldados americanos.