CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

NOITES DE AZUL E VINHO

No 30º ano o casamento tornou-se monótono, burocrático. Uma ou outra noitada, para não esquecer que existiam, Luizinho e Lucinha aconteciam na cama como se fosse obrigação.

Certo dia, Lucinha por insistência de uma amiga acompanhou-a a uma palestra sobre o amor na fase madura. A sexóloga de uma maneira simples, sincera, mostrou que sexo não acaba e as alternativas existentes. Lucinha falou para si mesma, se eu for fazer essas coisas com Luizinho, do jeito que ele é moralista, vai me expulsar de casa como rapariga de beira de estrada. Entretanto, ela arriscou, comprou um filme para incentivar, excitar, seu sessentão.

Numa noite de sexta-feira, Lucinha contou a Luizinho que Lourdinha levou-a à uma palestra sobre sexo para mulheres maduras, não entrou em detalhes, porém, mostrou a fita, produção pernambucana, “As Secretárias Taradas”. Que tal assistir ao filme tomando um vinho? Perguntou.

Luizinho topou na hora. Sentaram-se no sofá, ele abriu um Château Lafite colocou em cima da mesinha, os dois brindaram, deu início ao filme. Era uma historinha em que algumas jovens são candidatas a uma vaga no emprego. O patrão pessoalmente entrevista as candidatas à secretária, faz a primeira triagem, marca reunião com as três escolhidas, as três mais bonitas, cada qual, hora diferente. Na primeira entrevista, como era esperado, começa a pornografia explícita. Luizinho gostou, nunca tinha visto tanta safadeza, no fundo estava excitado, tomando mais vinho, junto de Lucinha, cheia de gás.

Estavam em início de vias de fato quando a terceira história surpreendeu Luizinho olhou mais fixamente para a artista em ótimo desempenho, a esposa perguntou, por que parou a fita. Surpreso, reconheceu a artista, era uma amiga, todo mês Luizinho passava uma tarde com Michelle num motel para descontrair. Ela dizia ser atriz, trabalhava em teatro, fazia algumas pontas em filmes no Recife, toda semana viajava para esse pequeno trabalho, ajudava a sustentar sua filha, queria mesmo estudar arte, tinha apenas 28 anos, se achava nova. Luizinho admirava essa mulher com tanta garra, contribuía sempre com bom ajutório, achava Michelle desinibida em suas carícias. Reconheceu, não teve dúvida quando deu um close, a atriz do filme era Michelle.

A noitada foi preciosa para o casal, cheia de revelações. Luizinho gostou quando Lucinha depois da terceira garrafa de Château Lafite fez coisas que jamais teve coragem nos 30 anos de casados. Ajudado pela azuladinha, Luizinho foi ótimo acompanhante.

Dias mais tarde Luizinho marcou com Michelle. Ela entrou em seu lindo carro direto para os motéis praia de Jacarecica. Luizinho puxou conversa, perguntou sobre o trabalho, sobre o filme, ela respondeu, seu trabalho era uma ponta no filme de arte, Pernambuco, agora é a Hollywood brasileira, filmes premiados, qualquer dia ganharia um Oscar. No quarto do motel ele pediu para assistir um filme pornô, para melhorar o desempenho, ela sorriu enquanto lhe abraçava. Em vez do filme do motel ele colocou, “As Secretárias Taradas”, ficou aguardando começar abraçado à Michelle. Ao reconhecer o filme, ela levantou-se pediu para tirar a fita. Luizinho acalmou-a, contou toda história, até agradeceu, ela reascendeu o desejo à sua mulher, o seu casamento estava insípido, agora havia reencontrado o sexo na maturidade. Pagou a Michelle e nunca mais a procurou. Luizinho adora as noitadas de amor com vinho e azulzinho com sua querida esposa, Lucinha.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UM É POUCO, DOIS É BOM, TRÊS É MELHOR AINDA

Numa ensolarada manhã de sábado, dessa que a brisa acaricia, beija e balança a alma, vesti meu velho calção de banho, desci à praia. Caminhei na areia molhada, pés lavados pelas marolas. De um lado, suntuosos edifícios de apartamentos, guarnecidos por altivos coqueiros no calçadão, do outro, a imensidão do mar azul esverdeado se estendendo até onde a vista não pode alcançar. No retorno fui ao acarajé com cervejinha.

Sentado em uma pequena mesa pensado em nada desse mundo, quando alguém tocou meu ombro, reconheci Ubiratã, não o via há anos. O homem ao envelhecer engorda, cai os cabelos. Bira pediu licença, puxou recordações. Somos amigos desde os anos 80.

Perguntei pela namorada da época, Jeane uma bela jovem, eram apaixonados. Ele pegou o embalo e contou-me sua vida. Engravidou Jeane, casou-se, foi morar com os sogros no Prado. Teve dois filhos, hoje rapazes. O casamento durou 10 anos, largou a mulher e os sogros. Preferiu viver sozinho.

De repente apareceram duas mulheres com acarajé na mão e sorriso nos lábios. Ubiratã me apresentou, Ruth, morena, marrom café-com-leite, cabelos crespos, rosto redondo, olhos negros salientes, nariz achatado e lábios carnudos. A outra, Quitéria, pele alva, rosada, cabelos pretos como uma graúna, rosto oval, nariz afilado, belo sorriso dava um toque de sensualidade em sua boca carmim molhada. Duas simpáticas e gostosas mulheres, vestiam minúsculo biquíni. Calculei-as entre 30 e 35 anos de idade.

Conversamos bastante, todos bem humorados numa exuberante manhã do agosto alagoano. Ruth, de Palmeira dos Índios, terra de mulheres bonitas, ainda menina veio para capital. Quitéria, baiana, mora em Maceió, fez curso de enfermagem, vai à Bahia de visita. As mulheres foram caminhar, Bira contou sua história.

Atualmente é chefe de vendas de cerveja, conheceu Ruth no Hospital da Santa Casa, ao fazer alguns exames. Boa amizade, entretanto paquerou, assediou. Surpreendeu-se quando Ruth confessou morar com uma colega de hospital, Quitéria, eram namoradas. Ubiratã ficou chocado com a sinceridade da amiga, continuaram amigos, gostava de sair com as duas jovens comprometidas, achava-as divertidas.

Certo dia a mãe de Ruth morreu, o apartamento de três quartos herdado da mãe ficou enorme para o casal, Ruth gostaria de alugar um dos quartos, por que não ele? Vivia perambulando nas casas de tios e irmãos.

Ubiratã aceitou, foi morar junto ao casal, acertaram pagamentos e algumas normas para viverem em harmonia. Bira sentiu-se mais confortável, não teve problemas de convivência entre os três, passaram-se alguns meses de convivência, até que numa noite de sexta-feira, Ruth foi dar plantão no Hospital, Quitéria e Bira foram para uma barraca de praia, ficaram até mais tarde bebendo e conversando, o álcool derruba barreiras, preconceitos, desinibe, as pessoas ficam mais verdadeiras, ela falou que notava seus olhares pra cima dela, ela gostava de homem também, sentia uma forte atração por ele.

Depois da meia-noite, foram para casa a pé cantando pela rua. Bira trabalhava na manhã do sábado, tomou banho, deitou-se. Ainda não havia pegado no sono quando Quitéria entrou no quarto apenas de calcinha branca. Bira olhou-a, sentou-se na cama, ela se aproximou, encostou-se, abraçando a cabeça do amigo. Amaram-se com fúria de apaixonados. Depois do amor, cabeças no lugar, resolveram falar a verdade à Ruth, não podia haver traição entre eles, passaram a tarde de sábado se amando, bebendo e confabulando.

Ruth chegou quando os dois assistiam televisão, sentiu que havia alguma coisa no ar além da TV. Os três reuniram-se à mesa, garrafa de uísque, beberam, confessaram o que havia ocorrido. Ruth calada, ouviu atentamente a história. Quando terminou o relato houve um clima de expectativa e constrangimento entre eles, ficaram calados se olhando, minutos de silêncio. Até que Ruth levantou-se, aproximou-se de Bira, baixou a cabeça e deu-lhe um beijo ardente em seus lábios.

Daí por diante aconteceu a maior noite de amor entre três seres humanos nas Alagoas, a Terra tremeu.

A partir dessa noite, os três ficaram juntos. Mês passado comemoraram dois anos de casados. Agora querem um filho, adotado, Bira fez vasectomia.

As mulheres retornaram da caminhada, pedimos mais acarajés e cerveja, conversamos até chegar a hora de um idoso bem comportado voltar para casa. Quando a gente passa dos sessenta, pensa que já viu tudo na vida, aí se surpreende com o ser humano. Não havia imaginado o comportamento de um trio amoroso oficial. Os três, na maior felicidade. Convidaram-me e aceitei, serei padrinho do menino que vão adotar.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

VERÔNICA NÃO COBROU

Jaraguá – antigo bairro boêmio

Nos tempos dos cabarés morava em Maceió um rapaz alegre chamado João de Andrade Lima, mas conhecido por Joãozinho Amoroso. Amante da boemia e do carnaval. Certa vez, em ensaio noturno do Bloco Cavaleiro dos Montes que arrastava foliões cantando e dançando pela Avenida da Paz. Joãozinho, feliz da vida, agarrado à uma bela jovem que conhecera no bloco àquela noite, dançava o frevo com maestria. O bloco tomou rumo ao bairro boêmio de Jaraguá.

Ao passar pelo corredor de cabarés, a bela acompanhante de Joãozinho se identificou, Verônica, “inquilina” da Boate Alhambra, fazia a vida naquele casarão, convidou-o a subir. Entre surpreso e alegre, prontamente galgou as íngremes escadas do lupanar. De paquera sentiu-se namorado, mesmo sem dinheiro, foi para o quarto com a Verônica.

Depois do amor, a jovem rapariga cobrou pelos competentes serviços. Joãozinho confessou, não tinha dinheiro, pensava ser de graça. Verônica ficou braba, ele tratasse de arranjar o pagamento, pegou calça, cueca, camisa e sapato de Joãozinho e entregou ao Leão de Chácara (segurança) da Alhambra, só devolvesse quando ele pagasse. E foi se arrumar para o trabalho da noitada.

Joãozinho não teve o que pensar, nu, abriu a porta do quarto, desceu as escadas aos pulos, a rapariga gritava: “Xexeiro, Xexeiro…” Eram nove horas da noite, a Boate Alhambra começava a lotar de frequentadores.

O Leão de Chácara não conseguiu alcançar Joãozinho, um excelente atleta, exímio jogador de futebol. Sua nudez foi notada pelos passantes, olhavam incrédulos. Joãozinho continuou correndo pela rua Sá e Albuquerque até desembocar na Avenida da Paz. Teve uma surpresa, não podia continuar caminhando nu, na calçada em cada casa havia cadeiras formando rodas das família conversando, um costume na cidade naquela época, antes da televisão aparecer.

João escondeu-se atrás do primeiro poste do calçadão da Avenida da Paz. Olhou em frente, meninos brincavam, jovens namoravam nos bancos, a Avenida da Paz, à noite, era uma festa. Joãozinho não encontrou outra solução, correu em direção à praia iluminada pela Lua cheia. Correu na areia fofa, branca, fria, até encontrar solo de areia dura, molhada, beira mar, onde alguns jovens jogavam futebol sob o luar. Ao se aproximar devagar, a meninada percebeu, ouviu-se a gritaria: “Um homem nu! Um homem nu!”. Imediatamente Joãozinho correu, mergulhou no mar, água tépida, deliciosa, era noite de verão.

Nosso herói ficou por muito tempo curtindo gostoso banho de mar noturno, deixava o corpo nu ser levado pelas pequenas ondas, não havia pressa. Naquele momento, olhando pro céu prateado pela Lua cheia, deslumbrou uma cintilante estrela, sentiu-se dono do mundo, do universo, poeta, seresteiro, no seu encantamento, começou a cantar para o infinito: “A estrela Dalva… no céu desponta… e a lua anda tonta… com tamanho esplendor… as pastorinhas pra consolo da lua… vão cantando na rua… lindos versos de amor…”

Por volta da dez horas da noite, depois de tomar a fresca, as famílias recolheram-se, os jovens cansados das brincadeiras foram dormir, os namorados, depois do xumbrego, excitados, se auto aliviariam depois. Joãozinho esperou mais um pouco. Eram onze horas, apenas alguns boêmios passavam em direção às boates de Jaraguá, dar expansão aos instintos e fantasias.

Afinal nosso herói saiu do mar, corpo molhado, dedos engelhados. Sentiu o vento, tremia de frio. Andou, correu, pulou, recuperou-se. Caminhou pela praia. Retornou às calçadas na Praça Sinimbu, pouca gente na rua. Correndo de poste em poste, Joãozinho, nu, conseguiu chegar em sua casa na Rua da Alegria. Ao abrir a porta da casa, recebeu a devida descompostura do pai que no fundo se orgulhava em ter aquele filho boêmio, cheio de histórias e picardias. No dia seguinte, o pai deu-lhe o dinheiro, não queria filho desonesto, xexeiro, a moça merecia o pagamento.

À tarde, Joãozinho resgatou suas roupas, seu sapato de coro de jacaré. Contou à Verônica sua aventura noturna, ela caiu às gargalhadas, amaram-se novamente no quarto. Dessa vez Verônica não cobrou.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A DAMA DE AMARELO

Ao receber a herança do pai, Nivaldo comprou três apartamentos pequenos, mobiliou-os apostando no aluguel por temporada, afinal o turismo é uma das vocações econômicas das Alagoas. No verão ele descola dinheiro extra. Por conta desses aluguéis, depois da semana santa, faz uma viagem com sua amada esposa, Margarida. Nivaldo fez amizades com turistas de todo Brasil, até estrangeiros estão em sua agenda. Tem muito trabalho administrar roupa de cama, equipamentos domésticos, etc… vale a pena, diz Nivaldo.

No último verão ele recebeu um telefonema, uma senhora solicitando detalhes do apartamento, aluguel de 20 dias, também pediu alguns dados sobre o proprietário. Ele estranhou esse interesse, entretanto, não de fez de rogado, deu detalhes, 50 anos, casado, engenheiro. A senhora desejou olhar o apartamento, marcaram às cinco da tarde em frente à Sorveteria Bali na praia de Pajuçara. Para reconhecê-la iria de vestido amarelo.

No local e hora combinados Nivaldo parou o carro, a senhora aproximou-se, ele abriu a porta dianteira. Com classe de mulher bem vivida, a dama de amarelo sentou-se, cumprimentou-o com um belo sorriso, Giselle seu nome. Ele encantou-se com a beleza da mulher, idade indefinida entre 35 e 40 anos, sentiu o cheiro suave e sensual de Fleur de Rocaille, seu perfume predileto, respirou fundo, deu partida no carro.

Ao dirigir-se ao edifício na praia de Jatiúca foram conversando amenidades. Ela baiana, morava em Maceió, queria o apartamento para um parente em visita à cidade. Nivaldo empolgado, em rápida olhada percebeu as belas pernas da madame. Ao estacionar o carro, ela desceu como uma princesa, ficou parada, olhou o prédio, balançou a cabeça como aprovação. Tomaram o elevador, deu um fervor nas veias do nosso amigo ao notar a generosidade do decote da madame. Ele sugeriu ver primeiro a cobertura comum ao prédio, onde fica a piscina, o lazer. Giselle se encantou com a vista do mar azulado da Jatiúca, percorreram o bar, restaurante. Nessa altura o bom humor e a beleza da madame tinham conquistado a simpatia do nosso herói.

Afinal foram ao 5º andar, entraram no apartamento, quarto e sala, cama de casal, geladeira, mobílias e utensílios foram mostrados, ela se abaixou olhando as gavetas e mostrando mais o que tinha por baixo do decote, Nivaldo estava quase subindo às paredes. Depois de olhar os detalhes, Giselle sentou-se na cama, bateu no colchão, convidou Nivaldo sentar-se a seu lado. Giselle perguntou o preço de 20 dias. R$ 3.000,00 respondeu. Fecharam o negócio por R$ 2.500,00, avisaria seu parente para efetuar o pagamento. Olhou nos olhos do nosso amigo, apertou sua mão, levantou-se, pediu licença para ir ao banheiro. Nivaldo sentiu-se aliviado. De repente ouviu abrir a porta, ao olhar teve uma emoção inesperada, seus testosteronas se agitaram, o sangue ferveu nas veias. Giselle simplesmente linda, estava apenas de calcinha amarela, corpo esguio, ancas largas, falsa magra, cabelos louros escorridos. Sorriu estirando-lhes os braços: “Que tal? ”.

Nivaldo levantou-se, aproximou-se, abraçou-a devagar, beijou-lhe a testa, o nariz, a boca carnuda, molhada. Nivaldo nunca pensou na vida que existissem tudo que fizeram naquela tarde.

A madame deitada, fumava um cigarrinho, olhava o teto, abriu o jogo, contou sua história. Usava proprietários e corretores de imóveis para essa aventura semanal, na verdade não queria alugar o apartamento. Ela tinha necessidade, compulsão pelo sexo. Casada, seu marido, bem mais velho, sabia de suas traquinagens, pedia apenas que ela não repetisse a mesma pessoa, não se apegasse. Como a dama de amarelo gostou de fazer amor com Nivaldo, sugeriu encontrar-se com ele mais duas vezes, no máximo, depois tudo acabado. Não podiam ter laços afetivos, assim foi acertado.

A dama de amarelo continua satisfazendo sua compulsão sexual, toda semana se veste de amarelo em busca de novas aventuras, escolhe a vítima pelos anúncios dos classificados na Internet. A história da dama de amarelo já se espalhou na cidade, tem corretor gastando uma fortuna em anúncios, na esperança de ser a bola da vez. Nivaldo agora é só lembrança, saudades das três tardes de amor com a dama de amarelo.

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A VIRGEM IRACEMA DOS LÁBIOS DE MEL

O fato se deu no início dos anos 60, quando a humanidade ainda era ingênua. Iracema tinha 17 aninhos, todo homem de Atalaia desejava seu corpo moreno. Bela cafuza, exótica e exuberante jovem, cabelos negros escorridos, rosto redondo, olhos pequenos, lábios carnudos e encarnados, Iracema era conhecida como Índia, filha de cortador de cana, pobre e analfabeta, os homens desejavam a jovem alegre morena sensual.

Certo dia o pai morreu, cachaça. Sua mãe havia fugido com um motorista de caminhão, arribou pela estrada afora, tornou-se prostituta estradeira, o maior desgosto do marido. Iracema ficou só no mundo. Aconselhada por amigas foi tentar sobreviver na capital. Arranjou trabalho de empregada doméstica, logo foi assediada pelo patrão, pelos dois filhos e pelo avô, o bom velhinho quando olhou a Índia pensou que era moço, todos tentaram. Iracema saiu do emprego, queria continuar virgem até casar, assim havia prometido ao pai. Não tinha para onde ir, perambulando pela capital, conheceu Cícero que teve pena levou-a para sua casa, pediu a mãe para dar guarida até arranjar emprego. Na casa de Cícero não se podia pagar empregada. Iracema fez alguns trabalhos em troca da comida e dormida. Difícil uma analfabeta achar emprego. Certo dia, uma vizinha aconselhou.

– Menina você é muito bonita, os homens lhe desejam, vá ganhar dinheiro no cabaré.

– Eu sou virgem- disse Iracema.

– Sua virgindade vale ouro, muito coronel pagaria um dinheirão para tirar-lhe o cabaço.

O Cão, o Demo, o Belzebu ficou atentando o juízo de Iracema. Numa bela noite, ela procurou a vizinha, pediu para conhecer a zona. Ao chegar à Boate Tabariz no bairro boêmio de Jaraguá, subiram a íngreme escada. Iracema empolgou-se com a beleza do salão. O proprietário, Severino dos Santos, o rei da noite, chegou perto, a amiga foi falando ao proxeneta.

– Olhe o presente que trouxe, essa bela índia. Aproximou-se, cochichou no ouvido do Negão: -É virgem.

Severino, conhecedor profundo das almas das putas, interessou-se por Iracema; o fato de ser virgem, deixou-lhe empolgado. Havia quem desse uma boa grana pela virgindade daquela jovem. Mandou-a esperar, Iracema estava deslumbrada com a música do conjunto, a alegria da casa, os pares dançando no salão. Severino levou-a ao escritório, um quarto especial e deu uns trocados para amiga e despachou-a. Ficou com Iracema, era todo sorriso, simpático, passava confiança às jovens, um explorador adorado pelas raparigas. Fez algumas perguntas à Índia. De repente pediu-lhe para tirar a roupa. Iracema desabotoou os laços nos ombros, o vestido de chita caiu no chão, desabrochou a beleza nua da jovem, o sangue esquentou as veias do cafetão, conteve-se. Se não fosse virgem ele seria o primeiro, contudo, aquele cabaço valia ouro.

– Você vai passar alguns dias só aparecendo no salão. Amanhã vou comprar alguns vestidos para você. Não vá para cama com ninguém, só apareça, diga que é virgem, eu vou arranjar alguém especial para lhe tirar a virgindade, depois fica trabalhando na boate.

Toda noite Severino anunciava o leilão da virgem Iracema dos lábios de mel no dia 22 de março, com Show de Reinaldo, uma trupe divertida de travestis, e inauguração da luz negra no salão. Na noite marcada a Boate estava cheia; políticos, coronéis, usineiros, reservaram mesa. Foi uma das maiores festas na história do bairro boêmio de Jaraguá. O felizardo ganhador do leilão foi um fazendeiro, colecionador de cabaços, tinha um colar, cada conta significava uma virgem sacrificada. Pagou uma fortuna por Iracema, a virgem dos lábios de mel.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

BEATA TEREZA CANSADA DE REZA

Sangrando, baleado no ombro esquerdo, Vadinho conseguiu, com dificuldade, atracar a canoa à beira do riacho Poxim. Ajudou Tereza a sair do barco. Ela também fora baleada; deu sorte, o tiro acertou seu medalhão pendurado no pescoço, e resvalou, não penetrou no corpo da jovem. Os dois abraçados caminharam devagar em direção ao Posto de Saúde do povoado. Moradores e amigos, notando o sangue nas vestes do casal, acudiram e ajudaram. Eram onze horas da manhã daquele sábado meio nublado. O Doutor Luiz Lima prestava consulta ao povo da região. Ao notar Vadinho entrar ensanguentado no Posto de Saúde, o médico levantou-se. A enfermeira deitou o ferido na maca da sala de curativos, retirou-lhe a camisa, constatou que uma bala havia penetrado; o ferimento sangrava. Em poucos minutos o médico limpou o ombro, anestesiou o local do ferimento e extraiu uma pequena bala calibre 22. Estancou e limpou o sangue, espalhou pomada, costurou alguns pontos, encobriu o ferimento com gaze e esparadrapo.

– Está pronto para outra. Pode ir, Vadinho. Cuidado com a vida.

– Obrigado, Doutor Luiz, foi sorte encontrar o senhor aqui.

Tereza, na sala de espera do Posto, apreensiva, segurava e beijava o medalhão de Santa Terezinha amassado pela bala que o acertou e por sorte, resvalou. Enquanto atendiam Vadinho, ela contou e repetiu os detalhes do tiro aos que lotavam o Posto. Todos queriam saber a história e segurar a medalha amassada. Uma senhora passando dos 60 anos, fanática adoradora de Santa Terezinha, ao segurar a medalha, ficou em estado de êxtase. Como uma explosão, beijando ininterruptamente a medalha, foi a primeira a anunciar: “– Milagre!”. De braços abertos, caminhou percorrendo as ruas do povoado, gritando para o povo:

– Milagre! Milagre! Milagre!

Andava pelas ruas contando a sorte de Tereza, com o milagre de Santa Terezinha.
Tereza, mais calma, esperando Vadinho, continuou narrando os detalhes dos tiros disparados pelo seu ex-namorado.

– Estávamos chegando na canoa, percebi uma gritaria, era João de Antônia à beira do rio apontando um revólver. Gritei por socorro, tinha certeza de que ele estava bêbado. Ouvi um disparo, senti uma batida no meu corpo, a bala havia acertado o medalhão e resvalado. Desequilibrei-me e caí no fundo da canoa. Vadinho pensou que eu havia morrido, largou o remo, abraçou-me chorando, gritando que me amava, que eu não morresse. Nesse momento, outro tiro acertou seu ombro. A dor de me perder era maior, ele continuava me abraçando e chorando. Ao notar que eu abri os olhos e estava viva, Vadinho sorriu. Ficamos abraçados no fundo da canoa. Só nos levantamos quando o louco do João de Antônia ligou o carro e fugiu. Em poucas remadas Vadinho conseguiu atracar a canoa à beira do rio. Logo viemos caminhando para o Posto de Saúde.

Milagre! Milagre! Milagre. As palavras ecoavam em todo canto. Em pouco tempo todos do povoado, principalmente as senhoras idosas, queriam abraçar Tereza e segurar a medalha milagrosa amassada.

Obs. Esta é a primeira página do romance, BEATA TEREZA CANSADA DE REZA, que terá seu lançamento na sexta-feira, dia 19 de julho, no Café Jardim, junto à Torre da TELASA na Jatiúca, aqui em Maceió. Todos convidados entre 17 e 21 horas.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ENQUANTO VOCÊ DORMIA

– Doutora, na verdade estou cansada do Renato, me abusei da vida casada. Casei-me cedo aos 19 anos, hoje aos 26 ainda me sinto jovem, meu marido passa a noite em casa assistindo novela e jogo de futebol. Sem filhos, minha vida é um tédio, acabou a alegria do casamento. Quando fazemos amor é burocrático, obrigatório. Confesso, já tive vontade e oportunidade de traí-lo, entretanto, não faz minha cabeça, tenho forte sentimento de respeito, quero apenas meu marido como era antes. Oriente-me, por favor!

A doutora Leonora da Silveira olhou para Maria Alice, pigarreou discretamente, com fala bem compassada deu sua opinião.

– Minha querida, você está passando pela crise dos sete anos, todo casal tem esse problema. Está na hora de temperar esse casamento, a cama é ótima para reorganizar uma vida a dois. Faça uma surpresa, no fim de semana convide o maridinho para assistir a um bom filme, alugue um com cenas quentes de sexo. Compre três garrafas de bom vinho, vista um lingerie sensual, e vamos ver o que acontece.

Um mês depois Alicinha retornou radiante, satisfeita da vida.

– Doutora foi um santo remédio, não havia acabado a segunda garrafa de vinho, nem terminado o filme, nós já estávamos abraçados no tapete, tudo como antigamente. Renato adorou o filme, a senhora salvou meu casamento. Ele está interessadíssimo, comprou até o Kama Sutra para praticarmos posições depois das sessões de cinema.

Passaram-se alguns meses, Maria Alice retornou à psiquiatra. Entrou nervosa.

– Doutora, desde aquela época nós estamos praticando experiências novas na cama, coisas que jamais pensei fazer, eu adorando. Acontece que Renato me perguntou se eu já tinha ouvido falar em swing, eu pensava ser um ritmo de música. Ele sorriu e explicou: “Existe aqui no Recife um Clube de Swing, entretanto, não é para dançar, esse swing é a troca de casais. Os casais se encontram conversam, bebem, quebram o gelo, depois cada qual arrasta a mulher do outro para o motel. Quando termina é como nada tivesse acontecido.” Ele propôs: “Nós dois já fizemos todas as experiências que imaginávamos. Será que você toparia fazer essa novidade?” Eu fiquei chocada, sem saber responder. Não é um procedimento correto, ético, mesmo que o casal esteja em crise conjugal. Comecei a achá-lo meio canalha, me trocar, saber que eu vou com outro homem que mal conheço. Isso é degradante. Que decepção. Estava tão bom, me ajude doutora.

– Querida Alicinha, para algumas pessoas a traição é relativa, é o caso de seu marido aceitar a troca de casais, já para você é inconcebível pela sua formação moral, intelectual e ética. Eu conheço bem os padrões rígidos da educação cristã, porém, a decisão é sua. Nada posso aconselhar. Siga sua consciência faça o que você achar correto, sem medo, o importante é ser feliz.

Na sexta-feira à noite Renato voltou a insistir no swing. Era a evolução dos costumes, dos casais modernos. Alice constrangida, com o coração apertado, aceitou a proposta, só para satisfazê-lo. Foram ao Clube do Swing, tomaram uma mesa, pediram uísque, Alicinha nervosa e chateada. Logo apareceu um casal pedindo para sentar. Muita conversa, Renato estava radiante quando viu a bela mulher do cara. O marido também era um cara bonito. Beberam, conversaram, sorriram, dançaram muito, cansaram até que chegou a hora da troca. Alice com o coração aos pulos. Ao entrar no quarto do motel ela caiu no choro, pediu desculpas ao parceiro, não conseguiu sequer dar um abraço. O senhor educadamente mandou-a continuar chorando, compreendia, era a primeira vez. Ele foi elegante não se sentiu ludibriado. Levou Alice para seu apartamento.

Ela agradeceu ao cavalheiro. No apartamento ficou contemplando o mar, pensando. Três horas depois chegou Renato satisfeito da vida, perguntando:

– Que tal? Gostou?

Alice teve nojo e raiva do marido, vontade de jogar-lhe um vaso na cara. Cansado ele vestiu o pijama e deitou-se. Enquanto o marido dormia, ela arrumou três malas, tomou um taxi para o aeroporto. Pegou um avião, retornou para sua querida cidade, Natal.

Ficou um tempo na casa dos pais que lhe deram todo apoio. Arrumou um cargo na Assembleia com um primo deputado. Alicinha está solteira e feliz, é vista nos bares bem frequentados pelas mulheres mais descoladas da cidade de Natal. Vez em quando, em seu pequeno apartamento, ela oferece um bom vinho a algum parceiro, assistindo a um bom filme. Renato, inconformado, certo dia, tomou um avião, conversou durante um fim de semana com Alice que o rejeitava. Ela foi taxativa, não havia retorno. O ex marido quis saber porque ela saiu de casa sem conversar, em que momento ela decidiu a separação e viajar de repente. Alice respondeu simplesmente. “Enquanto você dormia.”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CUIDADORA DO CLIMA BOM

Cícero ficou radiante ao conseguir emprego na transportadora de valores, passado o período de capacitação, deram-lhe fardamento, armamento e logo iniciou seu trabalho com atenção e medo de assaltantes. Ao retornar em seu bairro, fardado, sentia-se o próprio coronel de Polícia, até brigas e pendengas entre moradores ele era consultado. Comprou uma moto barata de segunda mão, em cujas prestações escorriam metade de seu salário. Numa festa conheceu Alzira, jovem, 18 anos; apaixonou-se, namorou, engravidou e casou-se. Foram morar numa casa alugada de porta e janela, perto do sogro, onde nasceu Geraldo. Cícero não deixou Alzira trabalhar para cuidar do menino, comiam na casa do sogro no bairro do Clima Bom.

Passaram-se seis anos, o casal sobrevivendo, até que Cícero deu para beber, vivia reclamando da vida, comportamento estranho, deixou de procurar a esposa na cama, ela que gostava tanto da vadiagem. Nessa época Alzira havia arranjado um emprego de doméstica na casa de um ricaço. Limpava, lavava, passava e cozinhava. Melhorou sua situação econômica, Geraldo estudando, entretanto, a cachaça e o distanciamento do marido entristecia a bela Alzira. Certa tarde ela apanhou o filho mais cedo na escola, estava febril, ao chegar em casa percebeu a moto de Cícero, entrou e teve a maior surpresa de sua vida. Ao abrir a porta do quarto, o marido abraçado, se pegando com um rapaz conhecido no bairro. A maior decepção, humilhação e traição que uma mulher pode ter. No mesmo dia expulsou o marido de casa, chorou a noite toda. Levantou-se de madrugada, olhou-se no espelho, prometeu a ela, recuperar sua vida, tinha o amor de Geraldo para lhe dar força.

Com um ano de separação a dor amenizou. Alzira, bonita, assediada por muitos homens, preferiu, embora gostasse tanto do amor, fechar-se, não queria outro homem por enquanto. Até o patrão rico mostrava uma queda pela bela empregada, ela fingia não entender as insinuações.

No dia que Arnaldo, o patrão, completou 67 anos teve um derrame, uma tragédia na casa de Dona Geruza. Ela e os dois filhos deram a assistência devida no hospital. Ao voltar para o luxuoso apartamento, Arnaldo precisou de uma enfermeira para ajudar no banho, no vestir-se, o empresário falava um pouco enrolado, mas, dava para entender, o que queria. Cismou com as enfermeiras, toda semana trocava de assistente. Certo dia na falta de enfermeira, Alzira ajudou Arnaldo a tomar o banho de banheira, enxugou-o, vestiu-o. O velho ficou surpreso com a delicadeza, a suavidade de gestos da empregada, gostou daquele cuidado, disse que Alzira havia nascido para cuidar de idoso. A partir daquele momento só chamava pela empregada, durante todo dia, inclusive no banho de sol em cadeira de roda, só queria a jovem bonita.

Alzira dava conta da casa e do patrão, ficou muito cansativo, inclusive em suas folgas sábado à tarde e domingo era chamada com urgência, Arnaldo só queria a assistência da enfermeira improvisada. Quando Alzira se recusou a trabalhar à noite e nos dias de folga, foi um Deus no acuda, Dona Geruza entendeu, seu marido, não só gostava do tratamento de Alzira, ele estava encantado pela jovem. Dona Geruza foi de uma grandiosidade extraordinária só encontrada nas grandes mulheres. Entrou em um acordo com a empregada. Propôs Alzira morar em um de seus apartamentos perto da sua casa, pagaria a escola de Geraldo e aumentava o salário, desde que ela desse maior dedicação em seu tempo a Arnaldo. Alzira só não abriu mão das noites com seu filho e sua folga aos domingos, assim ficou acertado. O bom salário e o colégio de Geraldo pago, compensava.

Hoje, aos 70 anos Arnaldo melhorou bastante sua mobilidade, Alzira foi treinada a aplicar certos exercícios. O velho, com o tempo, está mais conformado com a situação, tem em casa uma mulher que o apoia, dois filhos que tomam conta de seus negócios, e uma cuidadora competente, suave, cuja delicadeza ameniza o sofrimento do enfermo.

Uma vez na semana Dona Geruza vai às compras no Shopping, é dia do banho prolongado. Arnaldo passa a tarde com a gentil Alzira trancados no banheiro, os dois dentro da banheira, água morna. Ela o massageia em todas as partes e buracos do corpo, as partes íntimas deixa por último, sua mão de ouro faz milagres, bem devagar, suave, sensual. Arnaldo adora.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OS OITO CADETES

O nosso país está passando por uma crise política, moral, ética, de honradez e nobreza em sua História. Desde a Guerra do Paraguai o Exército Brasileiro envolveu-se na política. Não vou discutir sobre esses aspectos. Quero apenas esclarecer que me orgulho em ter sido Oficial do Exército Brasileiro durante 17 anos, inclusive servi em Roraima entre os índios durante dois anos e meio e em outros Estados do Brasil. Pelo exposto, conto uma história para mostrar que o aprendizado na Escola Militar não ficou apenas na matemática, física, direito ou ciências militares, entre outras matérias.

Há alguns anos fui à Resende, Rio de Janeiro, comemorar aniversário de formatura de minha turma na AMAN. Ao ultrapassar depois de tanto tempo o Portão Monumental da Academia Militar das Agulhas Negras veio-me forte emoção e recordação. Caminhei pelos quatro cantos da grande escola de minha vida, boas lembranças, revi os bancos escolares, o bosque com o Rio Lambari, onde eu costumava ler meus livros. Enfim revi a escola que muito me ensinou na vida. A Academia Militar das Agulhas Negras é considerada a mais bem equipada e mais bonita do mundo.

Depois de três dias em Resende seguimos, oito casais; sete generais e um capitão, para o Rio de Janeiro. Uma semana de muitas histórias relembradas. Companheiros de turma, irmãos por adoção, durante anos ralamos juntos naquela magnífica Escola Militar ao pé das Agulhas Negras, um dos picos mais altos do Brasil. Nas noitadas dessa gostosa semana reuníamos os casais para longas conversas relembrando fatos e lendas que se incorporaram às nossas vidas, como a história dos oito cadetes de pelerine.

No início de 1943, tempo de II Guerra Mundial, a construção da AMAN havia paralisada por falta de verba; funcionava no Rio a velha Escola Militar do Realengo, instituição que formou muitos militares.

Naquela época uma das diversões do cadete era montar nos dias de folga. Oito amigos nos fins de semana costumavam cavalgar. Oito companheiros inseparáveis saíam sempre juntos, um ajudava ao outro nos estudos, nas dificuldades. Irmãos por escolha, por opção. Em algumas noites costumavam sorrateiramente cavalgar até uma boate de mulheres que havia no subúrbio do Rio de Janeiro. Naquela época prostituta namorava. Os oitos cadetes vestiam-se apenas com pelerine (capa militar longa, azul marinho, sem mangas), botas e o quepe a Príncipe Danilo, o mulherio se assanhava quando eles apareciam. Havia um detalhe, por baixo das pelerines eles nada vestiam, todos nus, faziam farras tremendas no cabaré. Os cadetes cavalgavam nus, dançavam nus, apenas cobertos pela pelerine. Certamente iam nus para os quartos das prostitutas apaixonadas. Diversão de alto risco, se fossem apanhados pela Patrulha Militar pegariam cadeia ou até expulsão.

Certa noite depois de dançar e deitar com as “namoradas”, os oito amigos montaram nos cavalos escondidos no mato, com um grito de comando dispararam pela estrada de barro retornando à Realengo. Ao passar por uma rua deserta, por volta da meia noite, perceberam numa esquina escura quatro homens assaltando, batendo num senhor, ele pedia clemência, que não lhe matassem. Os cadetes, os oitos cavaleiros, não precisaram combinar, puxaram as rédeas, os cavalos, dirigiram-se para o local do assalto, com destemor e perícia, desmontaram dos cavalos à galope, agarraram os bandidos. Dois socorreram o cidadão, devia ter mais de 60 anos, os outros prenderam os marginais. Entregaram os facínoras numa delegacia próxima, e o velho ferido foi deixado num hospital.

Na segunda-feira durante a formatura matinal, o comandante da Escola Militar do Realengo pediu à tropa para que os cadetes que tinham salvado a vida de um cidadão se apresentassem, o filho desse senhor encontrava-se na Escola, queria agradecer. Receosos de pegar uma cadeia, os oito amigos não se revelaram. Depois do comandante muito insistir e promessa de não haver punição, os cadetes se apresentaram. Foram levados à presença do velho no hospital. Era nada mais nada menos que Henrique Lage, um dos homens mais ricos do Brasil, donos de empresas, inclusive a Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, navios que faziam a costa brasileira. O rico senhor agradeceu aos cadetes e perguntou qual a precisão de cada um, eles dissessem o que queriam, casa ou carro, ou o que fosse.

Os oito amigos pediram para pensar. Reuniram-se, discutiram muito. No dia seguinte foram ao ricaço, nada queriam para eles, pediam que ele ajudasse a terminar a construção da Academia Militar das Agulhas Negras que estava paralisada. O velho deu a ordem, mandou buscar o mais fino mármore de Carrara na Itália para o revestimento, mandou comprar todo o piso em granito, recomeçaram as obras da Academia por sua conta. Até hoje perdura o luxo e a suntuosidade daquele belíssimo conjunto arquitetônico. A AMAN é considerada a mais bonita Academia Militar do mundo. Esta história dos oito cadetes, hoje anônimos militares reformados de nomes esquecidos, o belo gesto, a coragem, o destemor e o amor à sua Escola tornaram-se lenda, sempre lembrada nas reuniões de militares brasileiros.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEVERINO, O SÁBIO

Olegário comprou um sítio com uma bela casa para as bandas do Alto de Ipioca. Uma linda vista da praia e o clima ventilado pela brisa. Contratou um caseiro para tomar conta do sítio. Severino, o caseiro, ficou morando numa casa de taipa nos fundos do sítio com um quarto, sala, cozinha e banheiro.

Olegário gostou do rapaz trabalhador, incentivou ao empregado arrumar uma moça e se casar ou se amigar. Severino confessou ter acontecido uma decepcionante experiência marital. Sua mulher fugiu com um pilantra, ele preferia ficar só na vida.

Certo dia o caseiro foi a Rio Largo, aniversário de um primo, conheceu uma prima, Esmeralda, morena bonita, 26 anos, também separada.

A família começou a encorajar o namoro entre os primos. Severino mesmo traumatizado em ter levado galha, foi engolindo a corda. Depois de algumas cervejas os dois conversavam animados. No mês seguinte Severino parou um caminhão na porta de Esmeralda. Pegaram uma cama e um guarda-roupa, se juntaram na casa de morador do Sítio.

A lua-de-mel durou pouco, Esmeralda tem um defeito congênito que alguns chamam de furor uterino ou comichão na genitália ou ninfomaníaca; o companheiro tem que ser ótimo de cama para dar conta de Esmeralda e seu novo homem não era tão bom assim. Ela começou a sair com um vaqueiro da redondeza, até o menino Pedroca visitava a mulher enquanto Severino toda tarde entrava nas matas em busca de lenha e fiscalizando os caçadores proibidos, deixava a mulher sozinha, sem ter o que fazer. Alguém chegou a fuxicar no seu ouvido, ele não quis saber, achava Esmeralda bonita, gostava dela, lhe dava carinho e boa comida quando chegava cansado da mata. Mas ficou desassossegado com o fuxico.

Nos fins-de-semana o casal descia à praia de Ipioca, direto para a Bodega do Joaldo. Os dois casais se davam bem, tomavam cerveja, cachacinha, iam ao mar, tinham um domingo maravilhoso. Até que Joaldo deu para visitar Severino com assiduidade, mesmo sem ele em casa, aparecia para uma prosa com Esmeralda. Precisou um amigo contar a Severino: Joaldo estava de caso com sua mulher, toda tarde ele chegava sorrateiramente para visitá-la.

Severino ficou indignado. Seu maior amigo fazer uma traição dessa! Uma punhalada nas costas. A coisa não ia ficar assim. Depois de muito remover, pensar, resolveu dar fim aquela história que machucava o fundo de seu coração. Foi à Feira do Passarinho, comprou um velho revólver, R$ 150,00.

Ao entrar em casa, Esmeralda desconfiou, havia alguma coisa no ar, perguntou porque ele estava estranho. Severino pediu que o deixasse em paz. No outro dia, domingo, os dois desceram até a Bodega de Joaldo. Enquanto as mulheres foram ao mar, Severino pediu um particular. Foram para mesa mais afastada. O caseiro foi direto, estava com mágoa no coração.

– Joaldo, estou com um problema. Primeiro eu desconfiei, agora tenho certeza de um caso muito sério. Esmeralda está me traindo, ela tem um amante. Eu preciso acabar com esta situação. Comprei uma arma, está aqui em minha cintura, vou matar o amante de minha mulher.

O amigo se assustou, respirou fundo, baixou os olhos. Maior silêncio entre os dois. De repente Joaldo olhou nos olhos de Severino e falou bem pausado.

– Meu amigo, não faça isso. Você vai acabar sua vida por causa dessa mulher que não lhe merece. No mínimo 20 anos de cadeia. Eu estou sabendo que ela é doente, precisa procurar um médico para ver se tem cura. Se você matar esse amante, vai ser uma desgraça. Segurou na mão do amigo e perguntou

– Escute! Por quanto você comprou o revólver?

– R$ 150,00

– Vamos fazer um negócio! Eu estou precisando de uma arma na bodega, tenho medo de assalto, lhe dou R$ 250,00 por ela. Está bom?

Calaram-se, um olhando para o outro. Severino pensou, pensou, depois de alguns minutos de silêncio, chegou à conclusão.

– Você tem razão, não vale a pena pegar uma cadeia por aquela cadela. Mas, me faça um favor, eu vou para casa agora, você diga a essa vaca que não pise mais em minha casa, vou queimar tudo dela. Ela não apareça!

Pegou o dinheiro de Joaldo, colocou no bolso, entregou o revólver, levantou-se. Subiu ao Alto de Ipioca aliviado da dor que oprimia seu coração. Tocou fogo em tudo que era de Esmeralda. Prometeu-se nunca mais casar ou amigar; só raparigar. Hoje Severino, o Sábio, vive sozinho no Sítio do Olegário, com direito a levar uma rapariga para esquentar a cama juntos, vez em quando. Casar nunca mais.