CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Rui aparentava boa saúde andava diariamente na orla; elegante, de calção frouxo, sem camisa e tênis branco. Naquela tarde, caminhando, ele sentiu um mal estar, dor no peito, caiu no chão. Socorreram, colocaram-no em um taxi, avisaram à Julia, sua esposa, levaram o infartado ao Hospital, ao chegar estava morto. Foi um choque entre parentes e amigos, os dois filhos não se conformavam. A notícia correu rápida no Facebook, postaram o laço preto, a foto e a notícia fúnebre: “Alagoas fica menor. Morre o empresário Rui Cavalcante. O velório será o Parque das Flores e o enterro às 17 horas de amanhã.” Rui era querido por sua generosidade, gentileza e alegria. Trabalhador, bom pai de família. Tinha apenas um pequeno defeito, gostava de mulheres. Teve casos fortuitos, mas nunca se prendeu a alguma de suas aventuras. A esposa minimizava essa fraqueza para viver bem.

O Parque das Flores logo ficou repleto, as duas amigas Julia e Ana abraçadas diante do caixão choravam em desespero, os amigos consolavam a viúva. Foram 31 anos de casados, eles viviam em harmonia possível. Quando os filhos foram para o Sul estudar, o casal ficou mais amigo, precisavam um do outro. Júlia permaneceu aos prantos diante do marido inerte no caixão, sabia que nunca mais teria seu bom humor, seu carinho e as noitadas gostosas de amor. Rui era sábio de cama.

Deram um calmante à Júlia, ela deitou-se nos aposentos do velório. Aninha acordada aguentou no salão olhando para o defunto, estava chocada, desesperada, arrependida, havia descoberto naquele momento doloroso que amava Rui, marido de sua melhor amiga, sua cabeça pensava em perda, lamento e traição, quando apareceu a amiga Miriam convidando-a a um passeio pela alameda iluminada do cemitério. Sentaram-se no banco embaixo de enormes pés de eucaliptos. Foi naquele momento que Ana desabafou junto à amiga.

– “Eu devia ter dado.” Abriu seu coração para Miriam. – Continuou.

– “Eu e Júlia sempre fomos grandes amigas. Depois que me separei do Manoel Eduardo, comecei a sair com o casal, Rui cheio de bom humor vivia me arranjando namorado, até que dei algumas escapulidas. Ano passado na praia de Paripueira em um passeio na piscina natural, eu estava segurando a jangada com o corpo dentro d’água, de repente, senti um corpo junto ao meu por baixo d’água, entrelaçou-me entre as pernas, deu-me uma gostosa excitação, olhei nos olhos de Rui e balancei a cabeça negando amavelmente. Aquele momento me agradou, confesso, eu adorei sentir as pernas másculas do Rui entrelaçando as minhas. Dias depois me encontrei com ele no Shopping, ele convidou-me para um sorvete. Sentamos, ele perguntou se eu acreditava que um homem podia amar duas mulheres? Porque me amava e era tarado por mim. Já pensou? Eu cinquentona. Mandei que ele se aquietasse, já não era menino, não ligou, continuou a conversa. Fez-me a proposta. Por quê não um encontro em vez em quando num motel gostoso? Não precisava Júlia saber. Saí do Shopping excitada com a proposta, a cabeça a mil. Porém, havia uma amiga no meio do caminho. Rui quando podia, dizia-se apaixonado, eu resisti durante esse tempo todo. Hoje eu o vendo morto, inerte, a vida acabada, fiquei num profundo sentimento de perda e de arrependimento. Eu devia ter dado a ele! Miriam”.

Retornaram ao velório, Aninha procurou Júlia, ela estava sozinha no quarto, sentada na cama, deu duas batidas no colchão com a mão, convidando a amiga sentar-se. Abraçaram-se. A viúva puxou conversa.

– “Minha querida amiga, Rui gostava muito de você, muito mesmo, eu não sentia ciúme. Ele lhe tinha um carinho especial, eu percebia. Agora que tudo acabou, diga-me, até por curiosidade, continuarei sua amiga seja qual for a resposta. Vocês transavam?”.

Deu-se um momento longo de profundo silêncio.

– “Júlia vou lhe contar a verdade, fui sua amiga fiel com muito esforço. Rui tentou, tentou muitas vezes, insistente. Confesso várias vezes tive vontade, só não dei, para não lhe trair”.

– “E eu pensava que vocês transavam. Você devia ter dado, o bichinho queria tanto.” Disse Júlia chorando, beijando a testa da amiga.

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