CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CHUMBINHO

Gosto da modernidade, não vivo sem televisão, sem computador, nem o celular. Porém, o modernismo trouxe o detestável patrulhamento, o “Politicamente Correto”. O adolescente que ainda levo em minha alma é irreverente, meio anarquista, politicamente incorreto e se choca com essa vigilância globalizada.

Durante minha juventude, fizemos muitas presepadas, éramos maloqueiros das ruas de Maceió. Com o amadurecimento nos aquietamos, o conhecimento adquirido através do tempo nos tornou pacatos cidadãos, como meu querido amigo, Ulisses Ávila, Chumbinho de apelido. Veterinário, ocupou diversos cargos de relevância no Estado de Alagoas, hoje cidadão tranquilo que leva a vida administrando sua idade provecta. Conhecendo aquele educado senhor, ninguém dirá que foi um dos jovens mais irreverentes dos anos 1950/60 na cidade de Maceió.

Naquela época era costume organizar times de futebol juvenil nos bairros. Na Avenida da Paz, foi criado o Atlântico Futebol Clube. Em cada bairro havia um time. A turma do Farol, liderada pelo Cláudio Oiticica e o Chumbinho, criou o Palmeira Futebol Clube. A sede ficava próxima à Rua Comendador Palmeira. Tinha excelentes jogadores, chegou a disputar o campeonato alagoano de futebol juvenil. Para manter a forma física, estabeleceram dois treinos na praia durante a semana. Às cinco horas da manhã, nos dias de treino, a juventude do Palmeira descia o bairro do Farol para treinar na praia. Depois de muito correr, tinha a compensação, cada jogador ganhava um pão. Essa ideia partiu do Diretor Ulisses Ávila. Perguntaram com que dinheiro ele compraria o pão. Respondeu que deixasse com ele.

Enquanto os jogadores desciam à praia às cinco da manhã, as sacolas de pão já haviam sido jogadas nos terraços das casas pelos funcionários da padaria em suas bicicletas. Chumbinho, com um comparsa, na maior desfaçatez, pulava o muro baixo da entrada da casa e pegava a contribuição do morador, uma sacola de pão para o time. Alguns moradores desconfiaram e passaram a mandar comprar o pão da manhã na padaria, outros levavam na brincadeira. Mas um Doutor ficou revoltado, colocou um cachorro no jardim. Quando Chumbinho apareceu, foi derrotado pela brabeza do cachorro. Na véspera de um treino Chumbinho e amigos estavam sentados no banco da praça quando notou uma cachorra vira-lata no cio e seis cachorros querendo cruzar com ela.

Chumbinho se aproximou com um saco, conseguiu encaçapar a cachorrinha e a deixou amarrada em seu quintal. Dia seguinte, cinco horas da manhã, desceu para o treino com os amigos do Palmeira, levando a cachorra magra embrulhada em um saco. Ao passar na casa do Doutor percebeu o cachorro bem ao lado da sacola cheia de pão. Ao aproximar-se, o cachorro começou a latir, Chumbinho sacudiu a cachorra no cio dentro do quintal longe da sacola de pão. O cachorro, com o olfato apuradíssimo, correu e ficou cheirando, cheio de desejo, as partes íntimas da cachorra no cio. Chumbinho rapidamente pulou o muro baixo e trouxe a sacola cheia de pão. Foi aplaudido pelos colegas. O Doutor fez a reclamação aos pais dos jovens jogadores do brilhante Palmeira.

OBS – Essa crônica está inserida no livro MACEIÓ, MINHA LINDA lançamento na Bienal.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O VERÃO DA CHAINA

Praia da Avenida da Paz

No início do século XX o bairro de Bebedouro era o mais chique, o mais festeiro, o mais rico da cidade de Maceió. Muitas mansões, bonitos palacetes, colégios embelezando o bairro. (Infelizmente, recentemente, a fábrica BRASKEM afundou seis bairros à beira da Lagoa Mundaú, inclusive Bebedouro, por conta de uma descabida, ambiciosa mineração de Salgema na Lagoa Mundaú). Nos anos 1930 Bebedouro foi desbancado como bairro chique da cidade pela urbanização da praia da Avenida da Paz.

No final da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), o prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos, comemorou o fim da guerra com uma festa na praia do Aterro e prometeu naquele local construir a Avenida da Paz. Terminada a obra em 1922, a burguesia, a classe média começou a construir bangalôs e casarões na Avenida da Paz, no bairro de Jaraguá e o bairro de Bebedouro foi desbancado. Nessa época apareceu a moda do “banho salgado”, que depois passou a ser chamado de banho de mar. A mulherada moderninha vestia maiô até o joelho e caía na água. O sucesso das mulheres era uma provocação entre os homens. Para alguns moradores mais antigos da cidade, o maiô até o joelho escandalizou; uma sem-vergonhice usar aqueles trajes indecentes. Vinham homens, velhos e meninos do interior apreciar as modernas senhoritas com maiô mostrando a batata das pernas. Causava reboliço entre os marmanjos. Nessa época também foram aparecendo os primeiros “tarados”.
O tempo foi passando e a mulherada diminuiu o tamanho do maiô, subindo à metade das coxas. Quanto mais reduzia o tamanho do maiô, mais aumentavam os discípulos de Onã na bela praia da Avenida.

Em meados da década de 1950 nós jovens éramos maloqueiros de praia. Nadávamos singrando a calmaria do mar. Pulávamos da cumeeira dos trapiches que se estendiam mar adentro, jogávamos futebol na areia dura, molhada, pescávamos nas jangadas, puxando rede. Entretanto, o que mais apreciávamos, o nosso esporte predileto, era ficar olhando, que nem jacaré, as belas mulheres que se estendiam deitadas na areia para pegar um bronzeado.

É próprio do homem o “voyeurismo”, o olhar, o apreciar os encantos da mulher. Alguns não se controlam, e praticam o onanismo nas mais esdrúxulas situações. Apanhados em flagrante são taxados de pervertidos. Naquela época, nós meninos com cara de santinho passávamos pelas rodas de conversa na praia com as moças descontraídas. Quando entravam na água, não havia quem segurasse.

Gaguinho era um mestre. Ele aproximava-se das moças, deitava de bruços, cavava uma cova adaptada a sua mão, e dava estímulo às suas fantasias. Certa vez, um amigo percebeu o Gaguinho em posição de trincheira perto de sua gostosa irmã. Ele foi se chegando por trás, devagar, de repente virou o Gaguinho que estava em vias da apoteose final. Levaram o “tarado” para a Delegacia de Jaraguá. Ficou preso e sumiu por um tempo da praia.

Certo verão ela apareceu! Foi o primeiro biquíni em Maceió. Uma bonita ruiva, dizia-se atriz, hóspede do Hotel Atlântico. Toda manhã descia à praia. Como se fosse uma liturgia, estendia uma toalha, enfiava o pau da barraca na areia, armava a sombrinha. Ainda em pé, descobria sua blusa devagar, como se tivesse preguiça, aparecia a parte superior do biquíni diminutamente cobrindo seus belos seios. Em seguida, como se fizesse um strip-tease, descia lentamente o short requebrando os quadris em movimentos harmoniosos, sensuais, até transpassá-lo por baixo dos pés. Finalmente levantava o short com o pé direito como se chutasse o vento, dobrava o short, a blusa, arrumava-os num monte junto à sombrinha. Deitava-se de bruços, deixando o sol acariciar suas pernas, seu dorso, sua bunda. Foi o maravilhoso espetáculo daquele verão. Os homens se deliciavam com o ritual sensual da musa dos cabelos de fogo.

A deusa amarrava sua cachorrinha de nome Chaina no pau da sombrinha. Às vezes a cachorrinha se soltava e corria pela praia para alegria da moçada que tentava alcançá-la. Capturada a pequenez, o sortudo se aproximava e entregava a cachorrinha à dona, recebendo os agradecimentos com um beijo na face. De perto o sortudo apreciava as penugens douradas das coxas da dona. Depois que a Chaina começou a frequentar a praia, o número de banhistas, principalmente homens, aumentou nos mares da Avenida da Paz. Foi a primeira atração turística de Maceió.

OBS – ESTA CRÔNICA ESTÁ INCLUÍDA NO LIVRO; “MACEIÓ, MINHA LINDA.” A SER LANÇADO NA BIENAL DO LIVRO DE ALAGOAS (11 A 20 AGOSTO)

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

PALESTRA DE PLACA

Na guerra e entre bombas e brincadeiras: As memórias de Marina Colasanti da vida na Itália - Estadão

Marina Colasanti

Em 2009, o Prefeito de Marechal Deodoro, Christiano Matheus, convido-me a assumir a Secretaria de Cultura do município, topei e permaneci oito anos Secretario. Primeiro projeto, a “Festa Literária de Marechal Deodoro – FLIMAR”, realizada todos os anos com o entusiasmo. Os melhores escritores do Brasil passaram pela FLIMAR em palestras, mesas de debates e oficinas.

Certa vez a escritora Marina Colasanti deu uma palestra tão envolvente, tão emocionante, tão bonita que o auditório lotado bateu palma em pé durante cinco minutos. Empolgado, eu cumprimentei Marina, lembrei que Pelé fez um golaço no Maracanã contra o Fluminense e colocaram uma placa perpetuando o gol. Ficou célebre o Gol de Placa. E que aquela palestra divina merecia uma placa em homenagem. Dia seguinte mandei fazer a placa e fixei na parede no auditório.

O escritor Ignácio Loyola Brandão, testemunha do fato, (havia participado pela manhã de uma excelente mesa de debates com o escritor pernambucano Luiz Berto, editor deste JBF), escreveu em sua coluna no Estadão:

Palestra de Placa

Nenhum voto meu foi dado com tanta certeza e alegria como o que acabei de dar a Marina Colasanti, que acabou de ganhar o Prêmio Machado de Assis. Não sei o tanto de votos que dei na vida. De concursos literários a miss, melhor filme, fantasia de carnaval, receita culinária, canção e jogador em campo, etc. Mas nenhum voto meu foi dado com tanta certeza e alegria como o que acabei de dar a Marina Colasanti, que acabou de ganhar o Prêmio Machado de Assis 2023, da Academia Brasileira de Letras. Desci das estantes todos os livros que tenho dela. De Esse Amor de Todos Nós a A Morada do Ser. De Minha Guerra Alheia a Contos de Amor Rasgados. De Zooilógico, pincei esse trecho: “Nasceu fauno ao contrário. Da cintura para cima cabra, da cintura para baixo homem. Estavam perdidos os melhores atributos”. De Hora de Alimentar Serpentes – e como não invejar um título desses? – a Do Seu Coração Partido. De Como Uma Carta de Amor a O Nome da Manhã. E de todo o restante, chegando a Mais de 100 Histórias Maravilhosas, aquele que leio e releio desde 2014.

Marina, escritora e mulher que amo desmesuradamente. Companheira de não sei quantas viagens por este Brasil e fora, junto a Affonso Romano de Sant’Anna e com Marcia, minha mulher. De Israel a Frankfurt, Paris ou Lisboa. Em auditórios, tavernas, tascas. E a tarde que passei na casa dela, ouvindo histórias de sua vida, para um perfil da revista Vogue, 20 anos atrás? Lembrando que Marina e sua amiga Ira Etz foram as primeiras do Rio de Janeiro a costurar seus biquínis e usá-los em Ipanema. A jornalista mais linda e brilhante de sua época. A Marina que nasceu na Etiópia, e cresceu no Parque Lage, no Rio de Janeiro.

Devo a Marina um momento fundamental. Escrevi e reescrevi meu livro Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos ao longo de 60 anos. E a história não fechava. Certa vez, a falar, percorri com Marina cidades do interior do Paraná, a convite do Sesc. Em Guarapuava, ao encerrar, nos pediram que cada um contasse uma história. Marina se levantou, gelei. Ela hipnotizava plateias. Foi quando, depois de mais de 20 versões frustradas, ao longo de décadas, dentro de mim senti a história de meu avô se costurando. Contei. Ao terminar, quatro mulheres choravam na primeira fila. A história, real, tinha se fechado. Passei a noite no hotel a colocá-la em um caderno. Prêmio Jabuti.

Quanto a Marina, quero acrescentar que na cidade de Marechal Deodoro, em Alagoas (o nome primitivo era Vila Santa Madalena da Lagoa do Sul), todos os anos, havia a FLIMAR, deliciosa festa literária. Certa manhã, depois de essa admirável Colasanti terminar sua fala sobre os livros que a encantaram, Carlito Lima, que promovia tudo, declarou: “Já criaram o gol de placa no Brasil. Nesta manhã, a FLIMAR institui a Palestra de Placa”. E a placa de Marina está na fachada do auditório da cidade histórica.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

UMA AVENTURA DE MEU PRIMO CUCA

Beth, Sofia e Gina eram três irmãs jovens e bonitas. Seus nomes foram homenagens às artistas de cinema: Elizabeth Taylor, Sofia Loren e Gina Lollobrígida. As moças não perdiam em beleza para as três celebridades da época. Sua família morava em Jaraguá, na Rua do Queimado. Quando elas, sempre juntas, de biquíni, desciam à praia da Avenida da Paz, nós, mancebos maloqueiros, interrompíamos o futebol, a bola parava para apreciar a entrada triunfal daquelas magníficas jovens, fonte de inspiração dos tarados, que dentro d’água se possuíam na sua intenção, como diria Martinho da Vila em seu samba.

Acontece que elas tinham um irmão mais velho; alto, forte, sua musculatura mantida por contínuos exercícios contrastava com o cérebro do rapaz do tamanho de uma ervilha. Tucão era conhecido por sua valentia, aliás, por suas brigas. Era o maior arruaceiro do bairro e da zona das mulheres da vida em Jaraguá. Certa vez brigou com quatro policiais, foi preso, espancado. Passou a detestar qualquer tipo de polícia. Contudo, Tucão tinha um sentimento nobre: o afeto pelas irmãs. De um ciúme doentio, partia para briga quando o chamavam de cunhado ou qualquer comentário que suas irmãs eram “boas”.

Em certa ocasião, meu querido e saudoso primo Alberto Lima, de apelido Cuca, encantou-se com a mais nova e engrenou um namoro com Gina. Namoro casto, como era naquela época, mão na mão, de vez em quando um beijinho. Sempre com a fiscalização ostensiva de Tucão, que era contra o namoro de qualquer irmã.

Certa noite, depois do namoro comportado com Gina, Cuca, ao passar dirigindo devagar pelo Beco Vitória, avistou Julieta, jovem destrambelhada, conhecida como avançada, que sorriu descaradamente para Cuca. Este prontamente parou o jipe e ela sentou-se ao lado. Foram para numa sessão de amor enlevado pela brisa marinha por trás do Posto de Salvamento da praia do Sobral.

Cuca estava feliz. Toda noite namorava de beijinhos com sua amada Gina, depois pegava Julieta no jipe e faziam amor sob o carinho da brisa.

Certa vez Beth, a cunhada, percebeu quando Cuca apanhou Julieta no jipe para mais uma sessão de amor. Na noite seguinte, quando ele encostou à casa de Gina, ela estava uma fera, namoro acabado, não admitia ser traída por ninguém no mundo. Nesse momento apareceu Tucão arregaçando as mangas da camisa, cara trancada, falando alto que irmã dele não levava chifre. Cuca na hora tomou um susto. Brigar com Tucão era apanhar na certa, levaria uma surra histórica. Com presença de espírito, ele convidou Tucão para tomar uma bebida e conversar. Beber de graça era tentação irresistível para o arruaceiro. Foram para um bar por perto, serviram cerveja, pinga e tira-gosto. Cuca explicou que Julieta era só para se divertir, ele gostava mesmo de Gina, namoro para casamento e coisa e tal. No campo da astúcia Cuca ganhava tranquilo do mastodonte.

Aconteceu uma noitada de muita bebida, passaram por bares diferentes. Tucão, aonde chegava, provocava alguém, a sorte é que os provocados tiravam o corpo fora. Noite adentro e Tucão na maior amizade com Cuca, chamando-o de cunhado. Em certo momento, o desordeiro inventou de visitar às boates de mulheres. Cuca, esperando que a noitada terminasse, acabou concordando. Partiram rumo a Jaraguá. Ao passar no final do calçadão da Avenida da Paz, Tucão, bêbado, pediu para parar o jipe e saltou. Dirigiu-se a dois policiais, uma dupla de Cosme e Damião que fazia ronda. Cuca não acreditou quando assistiu Tucão se aproximar dos soldados e desfechar um murro em cada um, deixando-os no chão, ainda deu ponta pé, recolheu dois capacetes e correu para o jipe. Cuca, assustado, deu partida e por insistência parou e subiram à Boate Tabariz. Sentados à mesa, Tucão colocou o capacete em sua cabeça e colocou o outro na cabeça de Cuca. Pediram cachaça, olharam as mulheres. Depois da primeira dose Cuca conseguiu tirar o capacete, colocou-o embaixo na mesa, estava apreensivo com aquela loucura do “cunhado”.

Em certo momento Cuca foi ao sanitário. Ao retornar percebeu a confusão. Cinco policiais xingando e batendo em Tucão, seguro por trás. Cuca saiu furtivamente do banheiro, sem ser percebido, desceu a escada íngreme de um salto. Teve sorte, não havia policial perto de seu jipe. Deu a partida e chegou em sua casa, aliviado. No dia seguinte, soube do acontecido por amigos. Tucão brigou com os cinco policiais, levou muita porrada, amarraram o arruaceiro, levaram preso para a 2ª Delegacia, onde lhe deram uma surra inesquecível.

Cuca esqueceu a bela Gina, por muito tempo ficou sem passar perto da casa da jovem nos arredores da Rua do Queimado. Evitou pelo resto da vida encontrar-se com Tucão, seu ex-cunhado. Porém, sobrou-lhe a fogosa serelepe, Julieta. Continuaram se refrescando pela brisa marinha por trás do Posto de Salvamento na praia do Sobral.

Meu querido primo Cuca tornou-se grande advogado com excelente escritório. Trabalhador, amava a profissão e seus amigos. Casou-se com o amor de toda vida, sua vizinha, Wilmene Wanderley. Cuca vivia em eternas brigas com o primo-irmão Lelé desde que nasceram em 1945. Eles se amavam, se entendiam. Quando Cuca morreu, Lelé chorava e perguntava: Com quem vou brigar agora? Meu querido primo deixou um vazio impreenchível, mas sempre é lembrado nos divertidos almoços dos Meninos da Avenida.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

NÊGO JAIME

Nêgo Jaime, mais de 1,90 m, elegante, enfermeiro da Rede Ferroviária, boêmio, calmo como um budista, contudo, não levava desaforo para casa.

Certa vez, no Bar do Relógio, ponto de boemia, de virada de noite de Maceió, dois marinheiros bêbados tomavam a saideira para retornarem ao navio. Ao avistarem o Nêgo Jaime solitário em uma mesa bebendo uma cervejinha, um dos marinheiros, com ar de superioridade, entregou-lhe uma dose de cachaça, “Toma Negão, quero ver se você é bom”. Jaime, na maior paciência, disse que estava apenas de cervejinha, no dia seguinte tinha trabalho. O marinheiro bêbado insistiu, provocando: “Você não é homem, Macaco?” Jaime levantou-se calmamente, aproximou-se do marinheiro, deu-lhe um violento murro na cara e iniciou boa briga de fim de noite.

Os marinheiros também eram de briga, entretanto, Jaime ficou com o diabo no corpo. Mais de meia hora entre murros e golpes, o Negão bateu com raiva, quase mata um dos marujos. Levaram-no para o Pronto Socorro com a cara e o corpo cheios de pancadas. No dia seguinte cinco marinheiros ficaram rondando o Bar do Relógio, perguntando onde Jaime trabalhava, queriam matar o Negão. Precisou de um sério entendimento entre a Capitania dos Portos e a Rede Ferroviária. Só houve sossego quando o navio partiu.

Jaime não era desordeiro, nem arruaceiro, era debochado, apenas gostava de umas biritas e de umas cabrochas, o que atraía os provocadores. Toda sexta-feira, antes de comparecer à boêmia de Jaraguá, ele tomava umas cervejinhas no Bar da Maravilha. Numa dessas noites apareceram três playboys de lambreta e provocaram Nêgo Jaime, quieto em sua mesa. Ele se retirou elegantemente, deixou os provocadores, foi para os braços de Lourdinha na Boate Tabariz. Na sexta-feira seguinte Nêgo Jaime apareceu no Bar Maravilha segurando um paletó de linho entre os dedos; ao sentar-se, colocou seu paletó branco pendurado na cadeira ao lado, pediu cerveja e ficou observando o movimento.

De repente apareceram os três playboys fazendo a maior zoada. Ao sentarem começaram a perturbar: “Olha aí o Picolé de Onça todo de branco”. “Macaco de branco fica mais feio”. Jaime segurou seu paletó pelos dedos, aproximou-se na maior calma, nem conversou, rodou o paletó na cara do primeiro que caiu no chão, ao se levantar levou outra paletozada, ficou estatelado, o Negão virou-se e mandou o paletó num lourinho metido a James Dean que se arriou no calçamento. Desesperados, os playboys montaram nas lambretas, partiram sem destino. Nunca mais apareceram às sextas-feiras no Bar Maravilha. Nêgo Jaime mostrou sua estratégia ao dono do bar ao descosturar a manga do paletó e tirar pedras arrumadas dentro das mangas: criativo, inventou uma arma.

Jaime tinha um chamego com a Nêga Jandira, dona de um bar e de uma bela bunda. Todo ano eles desfilavam pela Escola de Samba Unidos do Poço. Jandira era a porta-estandarte; bonita, sabia requebrar sua maravilhosa bunda deixando a moçada com água na boca. No carnaval, a Unidos do Poço desfilava para valer, queria ganhar o terceiro campeonato seguido. Jandira fazia evoluções com o estandarte no ar, delirantemente aplaudida pelo povo na Rua do Comércio; ao passar pelo palanque, defronte ao Cine São Luiz, Jandira deu tudo de si. Nêgo Jaime dançando, acompanhava mais atrás sua amiga a evoluir. De repente apareceu um popular, como disse o jornal, que não aguentou, atravessou a corda de segurança, passou a mão na bunda da Jandira e agarrou-a à retaguarda. Foi preciso Jaime destravá-lo do abraço traseiro, deu-lhe um murro, o tarado caiu de costas em frente à bilheteria do Cine São Luiz. Mesmo com esse inusitado acontecimento, como foi noticiado, os jurados compreenderam o desvario do tarado, deram à Escola de Samba Unidos do Poço o título de tricampeã do carnaval alagoano.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEU QUERIDO SÃO JOÃO

Ele chegava alegre com três ou quatro pacotes, colocava-os na mesa e abria mostrando aos cinco filhos os fogos comprados para o São João. Arrodeando a mesa da sala na imensa varanda de minha casa, contemplávamos cheios de alegria aquele presente de meu pai. Ele sentia prazer, satisfação ao distribuir os fogos para os filhos. Aos menores cabiam traques, chuvinhas e estalos bebé. Aos maiores eram distribuídos foguetes de três tiros, foguetes de estrelas, bombas travalianas e peidos de veia, e o melhor, os vulcões. Perto de escurecer, na véspera de São João, dava-se o momento mágico: acender a fogueira bem arrumada na rua em frente à minha casa. Meu pai lançava o álcool por cima e tocava fogo com um fósforo. O fogaréu começava, chispando faísca, iluminava a rua enfeitada por uma fileira de fogueiras queimando. Os adultos, sentados nas cadeiras na calçada, conversavam, tomando doses de quentão, uísque ou cerveja, comendo pamonha, canjica e milho assado. A moçada soltava fogos. Os vizinhos seguiam o mesmo ritual. A rua engalanava-se em fogueiras e bandeirinhas, havia um rodízio de visitas enquanto a eletrola tocava: A fogueira tá queimando… Em homenagem a São João… O forró já começou… Vamos, gente, rapa pé nesse salão… Dança Joaquim com Zabé, Luiz com Yaiá… Dança Janjão com Raqué e eu com Sinhá…Traz a cachaça Mané! Eu quero ver, quero ver paia avoar…

Quando dava meia-noite, as mocinhas entravam para fazer “adivinhações”. Em uma bacia cheia d’água deixavam pingar cera de uma vela acesa até formar ou aparentar com os pingos alguma letra. Pronto, era com um jovem de nome iniciado com aquela letra que iria casar a moça que deixava pingar a vela. Ou levavam para o fundo do quintal uma faca que enfiavam no tronco de uma bananeira, e no dia seguinte puxavam a faca marcada, manchada com a primeira letra do seu futuro marido. Eu, menino, acompanhava com fascínio toda aquela movimentação da véspera de São João, ouvindo o som da eletrola rodando as músicas de Luiz Gonzaga. Quando a fogueira baixava, convidava um amigo do peito para pular por cima das brasas, um de cada lado, e ser “compadre” para o resto da vida. O momento mais esperado era a queima de três ou quatro vulcões enormes, um esplendor de explosão jorrando forte para o alto enorme faíscas com pontos coloridos.

Durante a adolescência, a expectativa do São João iniciava-se um mês antes com os ensaios da Quadrilha no Iate Clube. Vários pares de jovens dançavam e rebolavam ao som de uma animada música junina e sob o comando do quadrilheiro que cantava a sequência dos passos em francês: “En avant tout”, “change de dame”, “balancê”, “returnê”, “tur”, e lá íamos nós, os jovens casais felizes da vida. Ensaiávamos bastante até a noite da grande apresentação. Durante os repetitivos ensaios, a paquera era maravilhosa, iniciavam-se namoros entre os componentes da quadrilha, muitas vezes o próprio par. Afinal a noite de glória, a apresentação da Quadrilha do Iate. Todos fantasiados de matutos, com as calças e camisas remendadas, bigodes e costeletas de carvão, chapéu de palha, dançávamos como se fosse para a plateia do maior teatro do mundo. Enchiamo-nos de orgulho e felicidade quando os aplausos ensurdeciam o enorme salão cheio de mesas.

No CRB havia a famosíssima Festa dos Pedros, organizada na véspera de São Pedro, dia 28 de junho. As mesas rapidamente vendidas, quem tinha o nome Pedro, a mesa era cortesia. Um arrasta-pé intermitente animado por quatro trios nordestinos, forró de pé de serra, tocavam até o sol raiar. Ao lado de fora uma enorme fogueira acesa iluminava o Clube e a praia da Pajuçara.

Quando terminava a animada festa, nós, meninos da Avenida da Paz, vínhamos andando e cantando, geralmente de mãos dadas com a namorada, insistindo um beijo roubado, cantando pela noite iluminada: “Olha pro céu meu amor… Veja como ele está lindo… Olha para aquele balão multicor… Que lá no céu está sumindo… Foi numa noite igual a esta… Que tu me deste o coração… O céu estava em festa… Porque era noite de São João… Havia balões no ar… Xote, baião no salão… E no terreiro o teu olhar… Que incendiou meu coração…” A música valia um beijo da namorada já segura pelo pescoço. Durante a alegre caminhada, às vezes caía chuva, era sinal de alegria, estimulava nossa energia. Ao chegar perto do coreto da Avenida, o sol amanhecendo, o céu dourado anunciando um novo dia, com chuva ou sem chuva, corríamos para um mergulho no mar alaranjado da madrugada com a roupa que tivesse no corpo. Alegres, cansados, molhados, cada qual caminhava para sua casa. Era a despedida, acabavam-se as festas juninas tão esperadas durante o ano inteiro.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

COLÉGIO DIOCESANO

Pátio Interno e Campo de Futebol do Colégio Diocesano

Depois do banho de mar matinal na Praia da Avenida da Paz, eu tomava um café reforçado da Dona Zeca. Era hora de pegar o bonde para o Colégio Diocesano. Havia um ponto de parada de bonde perto de minha casa, na esquina, defronte à belíssima mansão de Seu Paulo Tenório. Eu, menino cheio de vigor, preferia pegar o bonde andando ao passar em frente à minha casa. Pulava dando impulso com um pé, juntava o outro firme no estribo, a mão segurava o barrete vertical; viajava em pé, mesmo com vagas nos bancos, equilibrando uma pesada bolsa de livros e cadernos na outra mão. O bonde paquidérmico andava lentamente. Eu sentia, gostava da carícia do vento no rosto. O cobrador passava esperto, uniforme desalinhado e inefável quepe, as notas de dinheiro arrumadas entre os dedos facilitando o troco aos passageiros; mandava sair do estribo e sentar nos bancos. Nós, meninos livres e teimosos, não obedecíamos.

O motorneiro (condutor) acelerava o bonde rangendo nos trilhos, tocando “Tim-Tim”. Entrava pela Praça Sinimbu, Rua do Imperador, dobrava por trás da Assembleia, subia a Rua do Comércio, finalmente chegava a nosso destino, o majestoso e bonito casarão, Colégio Diocesano, onde hoje é a Secretaria de Agricultura.

Às sete da manhã, impreterivelmente, tocava o sino, os alunos entravam enfileirados na sala. Depois de rezar três ave-marias e um padre-nosso, iniciava-se a primeira aula. Assistíamos às aulas pensando no intervalo, recreio de dez minutos, mal dava para tomar água, jogar ximbra, pião, trocar figurinhas. O sino batia novamente acabando a alegria fugaz, retorno à sala de aula.

O Colégio tinha um ensino bem organizado, todos os colegas daquele tempo ficaram bem encaminhados devido ao excelente nível de educação. Alguns colegas disputavam o primeiro lugar nas notas. Outros também se distinguiam nas aulas práticas de oratória, mostravam seus dotes brilhantes. Eu era bom na matemática. Fui aluno particular do professor Benedito na Praça das Graças, onde, três vezes por semana, assistia às aulas noturnas do excelente professor Benedito, que ficou na história da cidade.

Fui aluno marista de 1948 a 1955, sete anos, um bom tempo de aprendizado. Devo parte da minha educação aos Irmãos Maristas; havia aula de civilidade e religião. Outra parte de minha educação, mais escrachada, anárquica, devo à vida livre nas praias, praças, mares, lagoas e ruas de Maceió.

Nossa turma teve como “lente” (responsável) durante o curso Colegial o irmão Bráulio, grande liderança sobre professores e alunos. Incentivador do esporte, treinador de nossa classe, alguns anos campeã de futebol do Colégio. Eu era um jogador medíocre, mas estava sempre escalado ou na reserva do time. Os jogos do campeonato eram pela tarde no campo do Colégio, uma área entre o prédio e o muro cheia de oitizeiros centenários, ou seja, jogávamos à sombra. Quando a bola batia em uma árvore, continuava valendo. Houve um caso do goleiro Marcos Mello ter feito uma bela defesa, mas quando chutou a bola para frente, ela bateu em uma árvore e voltou entrando na própria trave, o gol foi validado.

Havia um irmão sempre mal humorado; francês, vivia enfezado. Velho ranzinza, professor de francês e matemática, reclamava e censurava a nossa educação. Insistia em nos comparar com a educação dos meninos franceses, seus conterrâneos. Um crítico dos nossos costumes. Certo dia, no intervalo de aula, um colega de turma, um tremendo gozador, hoje sério e recatado cidadão, escreveu no quadro-negro uma quadra que dizia mais ou menos assim: “Irmão Júlio vai morrer buchudo… Sem poder cuspir… Com um pirulito na boca… Sem poder engolir… E com um filho na barriga… Sem poder parir”. Quando o velho irmão entrou na sala de aula, leu os versos, soltou um grito, xingando de mal educados, cafajestes. Naquele momento teve um ataque, ficou vermelho que nem um pimentão e desmaiou na cadeira. Pensamos que estava morto, foi um corre-corre; com tapinhas na bochecha, água no rosto, ele voltou ao normal.

Era uma turma eclética. Deu bons profissionais que fizeram a história e construíram a cidade de Maceió no século XX.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TOROCA

Walter Pitombo Laranjeiras, Toroca, figura de destaque no Estado de Alagoas, conhecido nas altas e baixas rodas, peça insubstituível no mundo dos esportes. Jogou bem voleibol, inclusive na seleção alagoana e brasileira. Entretanto, sua vocação foi ser técnico de voleibol feminino. Há mais de 50 anos treina as equipes do CRB. Inúmeras vezes campeão como treinador da seleção, muitas de suas pupilas chegaram a titular da seleção brasileira. Nesses últimos 50 anos, Alagoas esteve no topo do voleibol nacional graças ao treinador Toroca. Severo, considerado durão na condução do time em campo, porém, no voleibol não pode haver relaxamento, as atletas têm que estar sempre em momento de tensão.

Outra paixão de Toroca é o Clube de Regatas Brasil, o CRB. Ele foi presidente várias vezes. No final da década de 1960, eleito presidente do clube, convidou-me a participar de sua diretoria, não me fiz de rogado, tomei posse como Diretor Social. Juntos, fizemos um bonito trabalho, organizando festas e atividades sociais. Contudo, o grande sucesso de nossa gestão foi a boate do CRB aos sábados à noite. A moçada e a coroada dançavam esbaldando-se ao som do afinado conjunto LSD. Os componentes do conjunto afirmavam ser Luz, Som e Dimensão, para não confundir com o ácido lisérgico, droga altamente consumida naquela época. A afinadíssima Leureny Barbosa era vocal, Lino outro componente, na guitarra, um jovem tocava um som moderno e arrasava também cantando, de nome incomum, Djavan.

No intervalo, descanso dos músicos, havia alguma atração. Certa vez, Toroca contratou um mágico. O cara era bom, muito aplaudido com suas fantasias mágicas no escurinho da boate. Estranho apenas, que em vez de tirar coelho da cartola, o mágico tirava um pato branco, bonito e lustroso. Com muito aplauso o “Mandrake” terminou o espetáculo.

Ao iniciar o segundo tempo da boate, fui procurado pelo mágico, estava desesperado, havia sumido seu querido e lustroso pato branco. Fomos em busca, todos procurando, em cada canto da sede do CRB havia um funcionário vasculhando, até cheirando, nenhuma pista do pato. O mágico se aborreceu quando um funcionário, por ignorância ou gozação, perguntou: – O senhor não é mágico? Faça o pato aparecer!

Chegamos à conclusão de que o pato havia fugido, só assim poderia ter sumido. Iniciamos busca pela rua, pela praia; nenhum indício, ninguém viu algum pato passar, que dirá um pato branco.

O mágico, inconformado, aborrecido, tinha compromisso no dia seguinte pela manhã, espetáculo em Caruaru. Recebeu o cachê, despediu-se, agradecendo nossos préstimos. Irado, junto à sua gostosa ajudante, deu arranque no carro, pensando no trabalho de amestrar outro pato, chorava, não sei se de raiva ou saudade do querido pato branco.

A boate continuou animada, namorados dançando lentamente na escuridão da luz vermelha, na leveza da música afinada e sensual do LSD. Ninguém àquela altura imaginaria que estava dançando ao som de um dos músicos mais importantes da história da música brasileira, Djavan.

Ao terminar a boate, cerca de duas horas da manhã, um garçom procurou a mim e ao Toroca, tinha um recado de amigos que estavam à nossa espera no Restaurante Galo de Campina, anexo à sede do CRB, onde se comia o melhor galeto assado da cidade.

Eu e Toroca descemos e entramos no restaurante lotado e logo percebemos em uma animada mesa, felizes, risonhos, tomando cerveja, os amigos Hélio Miranda, Betuca, Clailton, Lelé, Frazão, Quico e Beto Prazeres. Hélio, gentil, reverente, ofereceu cadeira: “Senhores diretores, sentem-se, são nossos convidados”. Agradecemos tomando uma cerveja geladinha comentando o sucesso da boate e do espetáculo do mágico. Pena o pato ensinado, tão branquinho, ter fugido, alguém deve ter achado pela praia de Pajuçara.

Não demorou e para nossa surpresa apareceu o garçom “Pescoço” equilibrando uma vistosa travessa de metal. Acolchoado de farofa, laranjas, maçãs; deitado em decúbito ventral, majestosamente, um suculento, dourado e apetitoso pato assado.

Obs – Essa história contei a algum tempo em minha coluna. No último dia 31 de maio, meu querido Toroca, amigo e parceiro foi embora. Alagoas está de luto, nunca mais aparecerá um esportista igual ao grande Toroca. Se eu fosse prefeito mandava esculpir sua estátua e a colocava no calçadão da praia de Pajuçara, em frente onde foi um dia a sede do CRB.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

THEREZA COLLOR

Semana passada tive o prazer em conversar com Thereza Collor, celebrávamos o aniversário do amigo, Cacá Diegues, uma tarde agradável na deslumbrante praia de Ipioca. Eva Amaral, dona do sítio Carababa, sabe organizar uma festa. Deliciosas comidas e uma Banda de Pífano para alegrar os corações dos convidados. Fiquei impressionado como o tempo não conseguiu aplacar a beleza de Thereza, jovial, alegre, bela, e principalmente inteligente; de bem com a vida. Viva Thereza.

Conheci Thereza Collor menina, nessa época eu trabalhava na Construtora Sena e prestava serviços de construções da Usina Laginha de João Lyra em União dos Palmares. Certa vez, junto ao arquiteto, discutíamos sobre o projeto da casa da família perto da Usina com Dona Solange, mãe de Thereza, ela estava presente.

O tempo passou, e como passa depressa esse tal de tempo. Certo dia recebi o convite das famílias Collor e Lyra para o casamento de Pedro e Thereza. Um refinado casório num local paradisíaco, onde corriam bons uísques e alegres conversas.

Até que aconteceu o impeachment do Fernando. A Imprensa e o Brasil ficaram conhecendo e fascinados com beleza morena, bem brasileira, de Thereza. Aconteceu repentinamente sua vertiginosa e indelével celebridade. Muitos pensavam ela ser apenas uma dondoca socialite de brilho fugaz. Porém Thereza já era uma empresária, estilista, designer e tinha o genes da política, gostava de exercer a cidadania, reconhecida por ter sido uma voz feminina firme em favor de causas ambientais.

Certa época ela foi convidada a dirigir o belo e centenário Teatro Deodoro no Centro de Maceió. Aceitou e fez uma revolução, conseguiu verba para restauração, movimentou o Teatro com peças de sucesso e deu chances aos artistas alagoanos.

No final de 1994 houve a tragédia, a fatalidade da morte prematura de seu marido, Pedro Collor aos 42 anos. Alagoas se comoveu com a morte do filho do ex-governador Arnon de Mello, Pedro tinha muitos amigos em todo Estado.

Depois do trabalho à frente da Cultura, Thereza, já viúva, aceitou um convite em ser secretária do Turismo do Estado de Alagoas.

– Eu não pensava em retornar à administração do Estado. Mas os apelos foram muitos para que eu entrasse no mutirão para mudar a imagem de Alagoas perante o país, afirmou Thereza.

Ela exerceu com brilhantismo o trabalho de divulgação de Alagoas. Investiu no fomento da infraestrutura hoteleira, o turismo se profissionalizou no Estado. Alagoas entrou na prosperidade de sua vocação turística. O incrível é que, a Secretária tornou-se atração turística, faziam fila por uma foto com Thereza Collor.

Ao deixar a secretaria Thereza continuou empresária e sempre atenta às Alagoas. Em 2010, lançou o livro “Alagoas. Um Olhar”, 400 páginas, com centenas de fotos sobre o estado, sendo a maioria das fotos dela própria e a apresentação do livro de meu querido amigo Ignácio Loyola Brandão. Ela viajou por todo o estado conhecendo novos povos e seus costumes, pesquisando suas riquezas e mazelas, o que fez com que sua voz fosse muito representativa não só para Alagoas, mas para todo o Nordeste. O livro é dividido em categorias: belezas naturais, artesanato e arquitetura. Resultado de uma pesquisa de seis anos desenvolvido com sua formação em História. Livro belo e de pesquisa à cultura do Nordeste. Livro e mulher bonita fazem bem à alma, aos corações e às mentes.

Atualmente Thereza é casada com Gustavo Halbreich, empresário paulista do ramo da construção civil. Thereza Collor é constantemente relacionada à causa ambiental, aos direitos das mulheres e ao combate à corrupção. Defensora intransigente do Rio São Francisco, participa de debates em várias partes do Brasil.

Tenho maior carinho e admiração à essa mulher ativa, inteligente e culta. Ela ama Alagoas, e Alagoas ama sua maior embaixadora e propagadora. Empreendedora, dinâmica, continua trabalhando, contribuindo com o progresso e modernização das Alagoas.

Obs – Essa crônica fará parte do livro sobre figuras de Maceió, anônimas ou famosas, a ser lançado na Bienal.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEU AMIGO RÁS GONGUILA

Gonguila será enredo do Carnaval da Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis no Carnaval de 2024

Uma cidade não é feita apenas de prédios, ruas, praças, calçadas, parques, praias e jardins. Toda cidade tem uma alma criada por suas figuras humanas, por seus costumes, por suas histórias.

Na charmosa, adorável e alegre Maceió conheci e convivi com figuras notáveis; às vezes anônimos, às vezes famosos, que contribuíram para os genes de minha cidade.

Um ser humano especial, inesquecível era um engraxate com banca na Rua do Comércio; meu amigo Rás Gonguila.

Negrão forte, alto, espadaúdo, tornou-se uma figura popular e importante em sua comunidade, a região lagunar, no bairro da Ponta Grossa. Ele se dizia príncipe africano, descendente de Reis e Rainhas da Etiópia, fazia questão de ser reverenciado pelo título nobiliárquico africano: Rás (príncipe etíope). Sua ancestralidade vem da Etiópia e da República dos Palmares, onde os escravos fujões formaram uma comunidade na Serra da Barriga. Sua família vinda do Quilombo de Santa Luzia do Norte se estabeleceu em Maceió no inicio do século XX quando Gonguila nasceu.

O Negão era bom, os clientes faziam fila, esperando sua vez, para sentar na cadeira na Rua do Comércio. Eram funcionários, poetas, amigos; ficavam na fila, conversando potocas. A cadeira de graxa do Negão tornou-se ponto de encontro.

Gonguila era um ser divertido, gostava do Carnaval e de folguedos natalinos. Criou e comandou o “Bloco Carnavalesco Cavaleiros dos Montes”. Todo ano o bloco começava a desfilar, a ensaiar pelas ruas da cidade antes do Natal com uma orquestra tocando frevos vibrantes. A moçada caía no passo. Naquela época um bloco de carnaval era nivelador da sociedade, pulavam e dançavam juntos: pedreiros, engenheiros, médicas, enfermeiras, desempregados, filhinhos de papai, putas, soldados. A elite e o povão.

O Negão era um líder na Ponta Grossa, respeitado, ouvido e querido. Naquele tempo não havia associação de moradores, eles se reunião em busca da sobrevivência, da melhoria de qualidade de vida e diversão de sua comunidade.

Theobaldo Barbosa, político sagaz, inteligente, coordenava a campanha de Arnon de Mello para governador em 1950. Falou para o chefe, que havia feito excelente contato com um cabo eleitoral, a maior liderança do bairro da Ponta Grossa e Vergel do Lago, um negro forte chamado Gonguila. Marcaram uma reunião numa noite de sexta-feira. O galpão lotou de gente, pescadores, marisqueiros da lagoa Mundaú, havia mais de 400 pessoas.

Arnon e Theobaldo desceram do carro ao lado do mal iluminado galpão, onde a turma estava esperando. Arnon admirou a estatura elegante do líder, Gonguila vestido de branco. No momento Arnon esqueceu o nome do Negrão e perguntou em voz baixa para Theobaldo, que cochichou no ouvido de Arnon: Gonguila!

O Negão aproximou-se e estendeu a mão a Arnon, dando “boa noite”. Arnon ofereceu sua mão respondendo: “Boa Noite, Seu GORILA”. Ao ouvir o nome GORILA, Gonguila ficou puto da vida, retrucou quase gritando: “ARNON, GORILA É O CARALHO! MEU NOME É GONGUILA, RÁS GONGUILA!” Apesar das caras amarradas, alguém soltou uma salvadora gargalhada, que quebrou o gelo. Arnon desculpou-se várias vezes, deu um abraço no Negão, conversou com os catadores de sururu, e catou os votos.

Em Maceió no domingo anterior ao carnaval a Prefeitura organizava O Banho de Mar à Fantasia na Avenida da Paz, com desfile de blocos, escolas de samba, troças. Depois do Cavaleiro dos Montes desfilar perante a Comissão Julgadora, Gonguila rumava para minha casa, onde estava esperando bebida e comida para os músicos. A orquestra tocava 3 ou 4 frevos, a juventude dançava e cantava no amplo terraço de minha casa.

Gonguila arrumava uns trocados como porteiro de festas nos clubes, na Assembleia, em casas de ricos. Tinha um uniforme especial com botões dourados para essas ocasiões.

Assim era o Negão: não tinha papa na língua, nem se intimidava com figurões. Apesar de analfabeto, preto, pobre, impunha respeito por sua liderança e amor à cidade. Os nomes dos figurões daquela época estão nas placas de ruas, colégios, praças. O nome de Rás Gonguila ficou apenas na lembrança e nos corações dos seus amigos.

• OBS – A crônica acima sobre meu amigo Gonguila escrevi em 2006, publicada no livro Viventes de Maceió. Hoje tive a alegria em saber que Goguila será o enredo da Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis em 2024.