CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

YELLOW BUTTERFLY

Durante a 2ª Guerra Mundial o Nordeste Brasileiro tornou-se uma região estratégica. Os alemães tinham um plano secreto de invasão aos USA tendo o Nordeste como corredor de assalto. Em 1942/1943 seis navios brasileiros foram torpedeados por submarinos alemães nos mares nordestinos. Os moradores, pescadores do litoral acudiram e conseguiram salvar feridos.

Nessa época os americanos instalaram um Grupo de Dirigíveis, chamado “Blimps” e pequenos aviões de caça em Maceió, com pista aérea no Tabuleiro dos Martins. Esses “Blimps” realizavam observação aérea no Atlântico Sul em busca de submarinos alemães e imediatamente passavam informações para os aviões bombardeá-los. Durante o período de dois anos cerca de 250 americanos moravam em Maceió. Geralmente frequentavam as casas de mulheres no bairro histórico Jaraguá. Os oficiais alugaram o salão térreo do Clube Fênix Alagoana, o clube da aristocracia. Nas festas contratavam a Jazz Band formada por militares do 20º BC, conjuntos musicais e show do folclore alagoano. O salão térreo tornou-se um clube privado dos americanos que penduraram uma placa com o nome de USO (United State Organization). Nos dias de festa dançante somente as moças, as mulheres, eram convidadas. Houve uma reação dos jovens nativos contra os americanos. Numa cidade conservadora, como Maceió, os pais proibiram as filhas frequentarem as festas. Os jovens logo apelidaram as moças mais independentes que frequentavam o Clube USO, de “usadas”. As festas eram pela tarde nos fins de semana, à noite os americanos transformava o clube em salão de jogos, tomavam porres homéricos e a jogatina virava a noite.

Certo dia, perto do natal, Mister Sharpless, um americano gordo que se dizia vice-cônsul dos USA, morava em uma pequena casa na praia de Pajuçara, solteiro, homossexual, tinha um negócio de venda de peças artesanais de casco de tartaruga. Bajulador das tropas americanas convidou um pastoril de um colégio para dançar no USO num sábado à tarde, prometendo às bonitas jovens quinquilharias modernas, principalmente meias de nylon. A apresentação do pastoril, eram mais de 20 jovens bonitas, entre 17 a 20 anos, dançando com suas saias rodadas, divididas nos cordões azuis e encarnados. No final entrou a jovem Babu fantasiada de borboleta amarela, com duas singelas asas cantando: – “Eu sou uma borboleta, pequenina e faceira…”. Foi um sucesso, não só pela música, como também pela beleza de Babu; morena queimada do sol constante da praia da Avenida da Paz, onde morava.

O tenente aviador da Marinha Americana, Pinkenton, 25 anos, alto, forte bonito, bigode a Clark Gable ficou encantado com Babu chamando-a de Yellow Butterfly. Houve uma recíproca atração quando o Tenente Pinkenton segurou-a pela mão arrastando-a à uma mesa vazia. Os dois se entenderam, Babu estudava inglês e o tenente, morava há mais de um mês em Maceió pilotando blimps e aviões de caça. Os jovens conversaram, se entenderam, até o termino da festa; quando um ônibus deixou as jovens em suas casas, felizes por terem cantado e dançado o pastoril e terem ganhado tantos presentes.

Pinketon procurou o “vice-cônsul” Mr. Sharpless em sua casa na deserta praia de Pajuçara. Foi direto ao assunto queria saber quem era a jovem que dançou fantasiada de Borboleta, queria saber tudo sobre ela. O tenente estava fascinado pela Yellow Buterfly, o olhar profundo da jovem sorridente lhe tocou o coração e na mente. Do outro lado, Babu, não tirava de seu pensamento a imagem do tenente gentil, bonito e encantador. Houve um problema, os pais não consentiram o namoro. Os jovens enamorados quando podiam escapavam num jipe da USO para s bandas da praia do Gogó da Ema, por mais de seis meses conseguiram escapar das vistas dos pais e dos moradores da cidade, naquela época Maceió era uma pequena cidade provinciana. Até que um dia Babu engravidou; os pais exigiram o casamento e o Tenente Pinkenton prometeu casar. Foi quando terminou a Guerra. O Tenente teve que embarcar para os USA, retornaria uma semana antes do casamento. Deixou um monte de dólares para compra dos móveis, a noiva escolhesse a casa para alugar. Babu feliz da vida só falava no casamento e no filho que ia nascer. O tempo foi passando, o tenente não mandava notícias, passou o dia do casamento, ela ainda na expectativa, até que o belo menino nasceu. Foi assim que bela Babu tornou-se mãe solteira. Tempos depois Babu casou-se com um comerciante apaixonado, teve mais 2 filhos, mas nunca esqueceu o primeiro amor, Tenente Pinkenton, o desaparecido.

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AGUACEIRO EM PALMARES

Quando João Cabral acertou o pagamento da pousada no Recife, Seu Manoel, o proprietário, pediu-lhe um favor: dar uma carona à Daniela, sua filha, até Maceió. Gentil, João disse ser um prazer. Partiram após o almoço. A jovem acomodou-se no banco da frente do Honda, não cumprimentou João, sequer um boa tarde, tinha “walk-man” grudado ao ouvido, parecia estar em outro mundo. Partiram rumo as Alagoas. A jovem calada, como se estivesse fazendo um favor ter sua companhia durante a viagem.

Cabral sentiu desconforto com o comportamento mal-agradecido da adolescente. Daniela, bem crescida, dizia ter 20 anos, entretanto, não completara 17. Corpo de mulher, cintura fina, quadris largos, a pele rosada destacava sob a blusa transparente de malha branca. Bermuda jeans apertada, esfarrapada, pernas bem torneadas. “Uma bela potranca” pensou Cabral enquanto analisava discretamente a companheira acidental.

A viagem transcorreu monótona, sem conversa, Daniela ouvindo rock. Em certo momento ela retirou o fone do ouvido, sem pedir licença, ligou o rádio do carro, procurou um rock pauleira, ficou a ouvir enquanto o carro rodava na estrada. Cabral tentou conversar, mas desistiu diante do mutismo irritante de Daniela.

Após quase duas horas de viagem caiu uma chuva persistente, há uma semana chovia na região. Ele parou num posto de combustível e abasteceu o carro. Foram à lanchonete, pela primeira vez, Daniela falou.

– Minha conta eu pago. Faço questão de não lhe dar despesas.

João Cabral já havia pagado, respondeu brincando:

– Na próxima você paga.

Retornaram à estrada sob intensa chuva, o limpador de para-brisa oscilava veloz limpando o aguaceiro que caia. De repente deparou-se com um engarrafamento, trânsito lento, carros parados. Acontecera um problema na estrada, o aterro da cabeça de uma ponte desmoronou devido à enxurrada da chuva. O D.E.R. tentava liberar a estrada a qualquer momento, entretanto ninguém podia passar, era perigoso enfrentar a estrada àquela hora, escurecia. O policial aconselhou a dormir em Palmares e continuar viagem no dia seguinte.

Cabral perguntou a opinião de Daniela. Simplesmente ela fez um gesto com os ombros e os lábios, como se dissesse tanto faz, ele precavido retornou ao posto. Recomendaram um hotel na cidade.

Na portaria Cabral pediu dois quartos. A chuva continuava mais forte ainda, marcou com Daniela para jantar no próprio hotel às 19: 00h.

Ele desceu na hora combinada, Daniela já havia jantado, subia as escadas para seu quarto, sequer deu um boa-noite. Cabral não entendia a grossura da jovem, jantou, recolheu-se cedo, leu um pouco, custou a dormir.

Durante a noite ouvia-se o forte retumbar dos trovões. Em certo momento João acordou-se com várias batidas na porta do quarto e a voz aflita de Daniela pedindo desesperada: -“Por favor, abra logo.” Cabral deixou a cama num salto, abriu a porta, Daniela entrou enrolada num lençol, deitou-se na cama, confessou com voz trêmula que morria de medo de raio e trovão. Cabral surpreso, fascinado pelo encanto da mulher-menina, sentou-se à cabeceira, buscou confortá-la, alisou a cabeça, mandou-a dormir à vontade, ele iria para o sofá. Surpreendeu-se quando ela puxou-o pelo braço pedindo: -“Vem para junto de mim cara!”

Abriu o lençol, estava apenas de calcinha preta, abraçou-o tomando os lábios. Irresistível, não houve outro jeito, se amaram feitos dois animais.

A noite continuou chuvosa, continuaram mudos nos intervalos de amor. Não conversaram, havia apenas gemidos na hora do prazer. A louca ninfeta sabia tudo do amor, perfeita na hora certa, nada foi aprendido, sábia de nascença, uma Deusa.

No dia seguinte Cabral acordou-se espreguiçando, olhou ao lado, de Daniela apenas o suave perfume de alfazema na cama vazia. O tempo havia melhorado. João Cabral tomou um banho, fez a barba, arrumou a mala e desceu. Durante o café da manhã percebeu Daniela pronta sentada numa poltrona com a mala, esperando a partida.

Entraram no carro e Daniela sentou-se na mesma posição, calada como se nada tivesse acontecido, como se Cabral fosse um estranho. Arrogante, cheia de soberba não sorriu sequer ao companheiro do amor noturno. Nariz empinado, fone no ouvido, não lhe dirigiu a palavra durante o resto da viagem, sequer deu um “obrigado” quando ele a deixou na casa de um tio no bairro do Farol.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A FESTA DE PAFINHA

Ninguém sabia seu nome, que dirá sobrenome. Os amigos a conheciam como Pafinha, apelido carinhoso. Moça bonita, pele aveludada, cabelos escuros escorridos, os olhos vivos harmonizavam com a boca carnuda. Pafinha tinha a beleza da juventude e a graça de quem é feliz.

Estatura mediana, curvas visíveis, cintura fina e seios abundantes faziam dessa jovem uma mulher charmosa e atraente. Deusa calipígia morena, seu balaio bem torneado era desejo e fantasia de muitos homens.

Todos cobiçavam aquela jovem com ar de moleca sapeca. Vivia a vida como se o mundo fosse acabar amanhã. Pafinha trabalhava na Boate Tabariz, era a rapariga predileta do famoso dono da noite de Maceió, o popular Mossoró. Nativa de Pariconha, sertão das Alagoas, sua família passava fome com a seca. Aos 16 anos, só havia conhecido miséria e pobreza. O dono das terras onde ela morava a deflorou. Como ele era casado, prometeu aos pais da jovem, uma amigação com casa montada na capital. Depois de muito discutir, os pais liberaram a filha para morar com o canalha em Maceió. Ele viajou com Pafinha num fim de semana, ao chegar deixou-a nos cabarés de Jaraguá, entrego-a aos cuidados do Mossoró, o dono de casa de mulheres mais famoso da cidade.

Tornar-se prostituta foi uma grande transformação. Cursou a Universidade da Vida. Pafinha era a mais querida do bordel, conhecia e tratava os frequentadores pelo nome. Podia ser senador, deputado, coronel ou capitão. Era o xodó de Jaraguá. Certo dia apaixonou-se por um jovem deputado, rapaz novo, iniciando a carreira política. Quando o deputado aparecia, ela corria para os braços de seu amor, largava quem tivesse ao lado.

Naquela época, em Maceió, havia um bingo nas tardes de domingo, numa área descampada do bairro do Trapiche da Barra, era a fonte de recurso para construção de um grande estádio de futebol (o atual Rei Pelé). Os prêmios convidativos: carros, camionetes e caminhões. Mossoró não perdia um bingo e levava suas meninas, comprava uma cartela para cada uma. Certo domingo, Pafinha teve sorte. Faltava apenas a pedra 27, uma torcida eletrizante entre as jovens alegres. De repente chamaram 27, foi uma explosão de alegria e abraços. Pafinha ganhou um carro IMPALA. Um conhecido senhor negociava prêmios de bingos, comprou o carro na hora. Foi dinheiro que Pafinha jamais pensou possuir.

Na mesma noite ela iniciou uma festa no bairro boêmio de Jaraguá. Todos queriam abraçá-la ou pedir dinheiro emprestado. A festa durou oito dias e oito noites. Pafinha não tinha noção de economia, seu coração solidário e generoso emprestou e deu muito dinheiro. Teve festa até na Zona do Baixo Meretrício, ela aparecia radiante pagando tudo para as companheiras de copo e de cruz na Boate Verde, no Duque de Caxias, no Sovaco do Urubu, frequentadas por estivadores, pescadores, catraieiros, os pobres amigos. Ela pagava tudo.

– O filme dinamarquês a “Festa de Babette”, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, conta a história de uma famosa cozinheira dos reis na Europa, depois da queda de várias monarquias, ela retornou à sua aldeia na Dinamarca. Triste por não ser mais cozinheiras de reis e rainhas, certo dia ganhou um dinheirão na loteria. Pensou o que lhe daria satisfação à sua alma. Resolveu realizar uma festa, um jantar, convidou reis, rainhas e príncipes que viviam exilados. Mandou buscar as melhores iguarias em diversos locais, preparou o mais requintado e delicioso jantar jamais acontecido na história do mundo. A Festa de Babette deu-lhe satisfação e felicidade, até que a festa acabou-se, os reis retornaram e ela voltou a ser pobre, não sobrou um tostão.

Bem assim foi a Festa de Pafinha, Uma semana de alegria e diversão. Só acabou quando ela percebeu que não havia mais um centavo do dinheiro do bingo. Ficou pobre novamente. Depois das farras homéricas, de repente, Pafinha estava despojada.

– Na praia da Avenida da Paz, no trecho mais perto do cais havia uma birosca frequentada por embarcadiços, pescadores, desocupados, desempregados e putas. As raparigas de Jaraguá ao se acordarem por volta do meio-dia vestiam o maiô e devam um mergulho na praia, se refrescando da noitada anterior.

Pafinha sempre presente ajudava a comer o delicioso tira-gosto de panã ou arabaiana, contava casos da noite no cabaré. Gosta de ouvir as aventuras de Seu Rodolfo, velho pescador, o melhor contador de historias de peixes, da mãe d’água, sereias, afogamentos, de botos salvando vidas empurrando os afogados até a praia.

Pafinha aprendeu a nadar, boiava e mergulhava se purificando ao mar até o pôr-do-sol alaranjar o céu. Depois das seis da tarde era hora de trabalho no Cabaré. A sertaneja dizia que seu destino estava naquele mar azul com matizes esverdeados.

A história da Pafinha ainda hoje é contada nas biroscas e bares de Jaraguá. Tornou-se lenda, dizem alguns que ela numa tarde desapareceu boiando no mar, deixou-se levar pela correnteza. Iemanjá veio buscá-la e a transformou em um boto que vagueia vigilante na enseada da praia da Avenida da Paz, salvando os afogados.

Há muito tempo não acontece afogamento no mar de Jaraguá e Avenida. Um boto nas águas perto do cais mergulha vigilante, empurra até a praia, salvando os banhistas desavisados ou crianças mais afoitas. Depois retorna junto ao cardume, brincando alegre com seus pareias.

À noite, nos bares do mercado e na zona da boemia, marinheiros, pescadores, contam histórias de salvamentos milagrosos. Atribuem esses milagres ao boto presepeiro, alegre e bonito. Para o povo do cais do porto, Pafinha é uma espécie de santa protetora dos boêmios, das raparigas, dos bêbados e afogados de Jaraguá.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CONFRARIA DO DOUTOR MILTON HÊNIO

Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo do Brasil no século XX, pernambucano de boa cepa, foi também um genial frasista, dentre elas, uma inesquecível: “A Unanimidade é Burra”. Ainda bem que existe a exceção para contrariar a regra. Aqui nas Alagoas temos um Doutor pediatra, um jovem oitentão, que atendeu a cinco ou seis gerações de crianças, Dr. Milton Hênio Gouveia, o homem mais amado da cidade, nossa unanimidade. Ricardo Nogueira, colega da Academia Alagoana de Letras, já o canonizou, promovendo a Santo Milton Hênio, ou seja, a única alma sagrada em vida aqui na Terra.

Há algum tempo, nosso querido Miltinho, promove em uma manhã de sábado, um encontro, um Café da Manhã no Hotel Jatiúca. A Confraria do Dr. Milton reúne-se com muita alegria e camaradagem. Os membros são oitentões, figuras carimbadas da cidade, médicos, advogados, professoras, intelectuais, aposentados, desocupados, que aproveitam para desfrutar a manhã onde reina a camaradagem. Depois do saboroso Café alguns confrades tomam a palavra cerca de quatro a cinco minutos para lembrar alguma história, recitar um poema, ou mesmo colocar em debate algum assunto pertinente.

No sábado passado, Alberto Rostand, presidente da Academia, apresentou a esmerada programação da celebração dos 130 anos do poeta alagoano Jorge de Lima. Outros falaram. Em minha vez, lamentei o reduzido número de áreas verdes, parques e jardins na cidade. Informei que a Organização Mundial da Saúde estabeleceu que toda cidade deve ter no mínimo, 12 m² de área verde por habitante. Curitiba tem 55 m² p/ hab., João Pessoa 60 m² p/ hab., Recife tem 18 m² de área verde por hab. E Maceió não chega a 6 (seis) m² de área verde p/ habitante. Um dos fatores que mais contribuíram para esse cruel número foram doações de praças de uso comum, às entidades privadas. Citei uma relação de áreas do povo doadas, um crime urbano e ambiental. Terminei lamentando a ideia de cortar o Corredor Vera Arruda com quatro ruas, acabando com nosso único parque da cidade. Em seguida o historiador Douglas Apratto pegando o gancho no problema, me apoiou e foi mais adiante repelindo a ideia de trocar nomes de ruas, acabando com a memória da cidade. Recentemente um vereador apresentou um projeto mudando o nome do bairro de Cruz das Almas para “Oceano”, música mais conhecida do compositor alagoano, Djavan, que abriu mão dessa honraria declarando que amava o bairro de Cruz das Almas. Logo depois das sempre brilhantes palavras do professor Douglas, Dr. Álvaro Machado, médico, poeta, membro do Instituto Histórico, contou com seu bom humor essa história de sua terra.

– O irrequieto vereador Pedro Lúcio Rocha de Pão de Açúcar estava em seu terceiro mandato, nos anos 1970, e, apesar de ter apenas o curso primário não se intimidava em falar em públicos suas ideias. Pedro Lúcio integrava a bancada do governo, sendo fiel aliado ao então prefeito Augusto Machado, um hábil político que governava o município pela quarta vez, numa época em que não havia reeleição. Pedro Lúcio teve seu nome citado em vários jornais importantes do país, devido ao fato de ter apresentado um projeto sugerindo a “quem de direito” que fosse realizada uma pequena mudança numa frase do “Hino à Bandeira do Brasil”. Pedro sugeriu que, em vez da frase “Salve, símbolo augusto da paz”, integrante do hino, fosse colocada a frase: “Salve símbolo Augusto Machado”, alegando que esse tal Augusto da Paz não passava de um desconhecido, um homem do qual ninguém ouviu falar nada de importante, ao passo que Augusto Machado tinha sido quatro vezes prefeito de Pão de Açúcar, deputado duas vezes, sendo pessoa bastante querida de muitos brasileiros. Pedro continuou o argumento: Falei com parentes de todo Brasil ninguém sabe quem é Augusto da Paz. Mas todo mundo conhece Augusto Machado que merece essa homenagem dentro do Hino à Bandeira. – O projeto não foi adiante, mas deu muito que falar. Álvaro Machado encerrou a narrativa às gargalhadas.

Assim são as reuniões da Confraria do Dr. Milton Hênio. Um bom café, manhã maravilhosa, carinho de amigos, conversas inteligentes e bem humoradas. Que dure por muitos anos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

1º DE ABRIL DE 1964

Comício do presidente João Goulart em frente ao Ministério da Guerra, dia 13 de março de 1964

Acordei-me com o som cadenciado do toque de alvorada pelo corneteiro do quartel. Eu era tenente do Exército Brasileiro servia na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército sediada no centro da cidade. Soldados altamente treinados contra distúrbios e guerrilha urbana. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica cidade do Recife. A Companhia estava de prontidão há mais de uma semana devido aos acontecimentos políticos da época. Um processo de desgaste do Governo Federal se espalhou sobre a Nação. O presidente João Goulart era ambíguo, acendia uma vela a Deus outra ao Diabo (como diria Julião em uma entrevista, tempos depois). O que sustentava Jango era um suposto esquema militar. O General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército (Nordeste), jurou de que defenderia a legalidade ao lado do Presidente. Quando a conjuntura mudou, ele também mudou. A situação política ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, dia 13 de março, com discursos provocativos às Forças Armadas. Jango, foi inábil, estava cutucando a onça com vara curta.

Naquela bela manhã, logo depois da formatura matinal da tropa, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandantes de pelotão e informou as notícias já confirmadas. A tropa do general Mourão Filho de Minas Gerais havia se rebelado e estava em marcha ao Rio de Janeiro para unir-se ao I Exército, e depor o presidente João Goulart. O objetivo da rebelião militar era restabelecer a ordem no país e garantir a eleição para presidente em 1965. O capitão mandou preparar o pelotão para um possível enfrentamento, entrar em combate urbano a qualquer momento, tendo necessidade.

Eu era um jovem que amava os Beatles, os Rolling Stones, a Bossa Nova, a Boemia, pensava em mil coisas, retornei ao alojamento do pelotão. Fiquei especulando o que haveria de ser. As notícias do rádio, televisão, de boca a boca e os boatos previam até guerra civil. O presidente João Goulart estava para dar o golpe, não haveria eleição em 1965 e seria implantado um Estado Socialista-Sindicalista, eram os comentários mais fortes.

Eu encontrava-me ainda em devaneios, quando o comandante me chamou, fui ao seu encontro no gabinete. Ele olhou nos meus olhos e deu-me as primeiras ordens:

– Tenente a Revolução foi deflagrada em todo Brasil, chegou a nossa hora. Escolhi seu pelotão para primeira missão, talvez um batismo de fogo. Está havendo uma manifestação em frente ao Sindicado dos Bancários. A missão do Pelotão é dissolver esses militantes, confio no seu bom senso, por isso o escolhi.

Coloquei o pelotão em forma, passei em revista os soldados, o armamento e equipamento, fiz uma preleção sobre a missão, deixei bem esclarecido, tiro só com minha ordem. O Sindicato não era longe, o Pelotão tomou a Rua do Príncipe em marcha. A batida uníssona do coturno no calçamento fazia um barulho assustador. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam, eu percebia a movimentação nas ruas: mães colocando meninos para dentro das casas, pedestres entravam em seus lares. De cima dos prédios ouvi alguns aplausos, como também algumas vaias, era o povo dividido. O Pelotão avançava, eu continha a emoção, lembrava as informações, os boatos, os rumores que os sindicalistas, os camponeses, os homens que o governador Arraes apoiava, tinham sido treinados em guerrilha em Cuba e possuíam armamentos tchecos modernos.

De repente, mais emoção, avistei ao longe a multidão, em torno de 400 manifestantes. Tive de controlar um velho sargento, auxiliar, que suplicava dar um tiro para o alto, a fim de dispersar a multidão. Mandei o sargento se aquietar, lembrando que comando era exclusivo meu. Evitar uma reação por parte dos manifestantes e provocar numa carnificina de balas dos dois lados. O pelotão se aproximava cada vez mais, já dava para ver as fisionomias dos manifestantes, me preparava para dialogar, se possível. Enquanto o sargento, junto a mim, insistia em atirar, eu esbravejei em sua cara: Não!

Naquele instante dei voz de comando ao Pelotão: – “Acelerado marche!” Os soldados iniciaram a avançar em acelerado (correndo curto). De repente tive o maior alívio e alegria de minha vida ao perceber a multidão se dispersando em todas as direções.

Invadimos o sindicato a “manus militaris”. Ficaram apenas três sindicalistas. Pedi para que eles deixassem o prédio ou teria que levá-los presos, era a ordem. Apenas um sindicalista, barbudo, corajoso, magro, me encarou: -“Só saio morto ou preso”. Dei a ordem “Então têje preso, não vou lhe matar”. Mandei lacrar todos os móveis, deixei cinco soldados guarnecendo o sindicato. Retornei com o resto do pelotão para Avenida Visconde de Suassuna, sede da Cia de Guardas.

Durante o percurso, o pelotão marchava em duas colunas, e o barbudo, preso, caminhando no meio da tropa.

Encostei-me e cochichei no seu ouvido uma mentira assustadora: -“Estão matando tudo que é comunista, quando você chegar ao quartel vai ser fuzilado. Vou lhe dar uma chance, na próxima esquina lhe empurro e você se manda, corra”. Ao chegar mais perto da esquina, o barbudo olhou para trás, encarou-me com olhar suplicante. Aproximei-me, segurei-o pela camisa, puxei-o pelo braço e o empurrei. Ele disparou, escafedeu-se na primeira rua. No quartel fiz um relatório verbal ao Comandante. Ainda no 1º do abril, meu pelotão teve outras missões: Ocupou a sede dos Correios, patrulhou a cidade do Recife. À noite, cansado, dormi pensando no dever cumprido, em ter contribuído para garantir da ordem e a paz, a democracia e as eleições presidenciais de 1965. Ninguém, nenhum cientista político, nenhum profeta, nenhum futurólogo, acreditaria que aquele dia era o primeiro de uma ditadura de 21 anos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A TRAIÇOEIRA DO BOM PARTO

A modernidade acabou com as cartas pessoais via Correio. Fiquei surpreso ontem ao receber uma carta. Não constava o remetente. Tomei minha poltrona confortável, abri o envelope e li surpreso uma história de amor contada por uma mulher e pedindo para divulgá-la, transcrevo-a abaixo.

* * *

Maceió 13 de março de 2023

Meu querido escritor Carlito.

Sou sua fã número um, todos os sábados impreterivelmente leio e me delicio com as suas histórias bem humoradas. Quisera passar uma tarde com o Mestre, deve ser divertida a conversa. Mas, o motivo dessa carta é contar a minha história para você transformá-la num conto, tem toda permissão. Só não revelarei os nomes dos protagonistas. Invente.

Eu nasci e me criei no bairro do Bom Parto, mas precisamente na Grota do Padre, onde há muitos anos morava um padre. Conta a lenda que o padre era apaixonado por uma mulher casada, e nas “caladas” da noite se encontravam. Toda população sabia, menos o marido. Até que ele descobriu e cortou a cabeça do padre. A partir daí o padre aparece vez em quando à noite debaixo de uma arvore. Muitos moradores já viram o padre de batina e sem cabeça. Mas deixemos a lenda, a minha história é mais interessante. Meu avô ficou com uma casa quando a Fábrica de Tecidos Alexandria faliu em 1966. Minha mãe herdou, e quando se casou, ficaram morando na casa, onde eu nasci no primeiro dia do Século XXI, ou seja, 1º de janeiro de 2000. Fui criada livre perambulando pelos bairros vizinhos, nadando e pescando na lagoa Mundaú. Na adolescência me senti uma moça cheia de hormônios, namorava e ficava com quem aparecia. Minha mãe que se casou nova separou-se de meu pai. Ele saiu de casa ao levar um bruto chifre do vizinho. Mamãe, solteira novamente, caiu na gandaia, nunca vi uma mulher gostar tanto de farra e de homem, foi o exemplo que tive durante minha criação. Ela levava os namorados para casa, chegava embriagada altas horas. Vive de uma pensão que meu pai deposita todo mês. Mas, verdade se diga, ela incentivou meus estudos em escolas públicas, foi exigente.

Um pouco antes da pandemia, mas precisamente no início de 2020, comemorei meu aniversário com amigos em minha casa. Meu pai bancou a festinha no primeiro dia do ano. Nessa época eu namorava o Rodrigo, um cara alto, forte, bonito. Eu gostava daquele homem belo que era ótimo de cama. Quando ele entrou em minha casa, notei que minha mãe teve uma empatia com meu namorado. Passou a noite tentando saber detalhes da vida dele. Foi notório entre minhas amigas, algumas advertiram, cuidado com sua mãe. Eu não liguei para as desconfianças de minhas amigas. A festa terminou com o dia amanhecendo, minha mãe bêbada só queria ficar junto a Rodrigo, até que ela adormeceu, colocamos mamãe na cama.

O tempo passou veio a braba pandemia, todos os cuidados possíveis, máscaras, remédios, eu tomava tudo que aparecia, tinha pavor à doença logo que uma amiga morreu. Nessa época horrível continuei com Rodrigo que almoçava todos os domingos em minha casa, às vezes dormíamos juntos. Minha mãe sempre prestativa. Era, genrinho para cá, genrinho para lá.

Para encurtar a história no final do ano de 2020, numa segunda-feira, minha mãe chegou em casa ao meio-dia, estava taciturna. Depois do almoço ela pediu para ter uma conversa comigo no quarto, sentamos na cama, tivemos esse o diálogo.

– Minha filha. Quero você seja a primeira a saber. Estou grávida. Você vai ganhar um irmão ou irmã.

– Minha mãe que loucura, você me deixou feliz pelo irmão, mas preocupada, você tem 38 anos. Me diga: sabe quem é o pai com certeza?

– Sei

– Quem é esse meu “padrasto” minha mãe?

– O Rodrigo.

Eu me levantei, não sei se de raiva da traição, deu-me uma dor no peito, saí correndo abri a porta e caminhei automaticamente para um botequim à beira da lagoa. Pedi uma cachaça e chorando tomei várias doses enquanto pensava naquela traição. Já era noite quando eu embriagada andei até o centro da cidade, onde dormi num hotel fuleiro. Dia seguinte peguei meus panos e fui morar com uma amiga. Nunca aceitarei aquela traição, meu namorado virou meu padrasto, o menino nasceu. Hoje eles vivem juntos na casa da Grota do Padre. Sei que meu irmão não tem culpa, é lindo, já o vi várias vezes. Mas não consigo sequer me aproximar. Consegui me formar em enfermagem, sou excelente cuidadora de idosos. Solteira, vou levando minha vida, gosto da boemia, fim de semana nos barezinhos sem dar satisfação. Mas, levo ódio no coração, não consigo perdoar minha mãe. Não é interessante minha história? Digna de um de seus contos. Quem sabe se, algum dia, nos encontraremos num bar dessa linda cidade?
Um abraço e um beijo de sua fã número um. X.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SONHO DE CONSUMO

Comemorando seu aniversário de 20 anos na Barraca Pedra Virada, Antônia conheceu Tonhão. Deu-lhe um frio na barriga, uma química inesperada nos hormônios, uma vontade louca de abraçar-lhe, beijar-lhe. Foi o melhor presente aparecer aquele homem bonito, moreno, alto, forte que se tornou a grande paixão. A recíproca foi verdadeira, Tonhão empolgou-se no primeiro instante com a linda e sorridente morena. Numa coincidência dos Deuses, ele também fazia aniversário, 24 anos, no dia dos namorados, 12 de junho, véspera de Santo Antônio. Nenhum amigo percebeu aquela atração repentina. Os dois ficaram conversando e bebendo até o término da festa. Na mesma noite foram a um motel iniciando o maior amor do mundo. Os dois passaram a se ver todos os dias, viviam grudados que tem tapioca, bela pareia de jovens, comentavam. Não deu um ano de namoro resolveram casar-se. Tiveram dois filhos, Tonhão formou-se advogado, trabalhando muito em tradicional escritório, tornou-se conhecido. Nesses anos todos, no dia dos namorados, os dois cumpriam a liturgia de uma festa íntima pra lá de erótica. Durante mais de 20 anos celebraram essa noite tórrida de amor num motel.

Certo dia, Tonhão foi defender um preso em um complicado júri em Palmeira dos Índios. Seu cliente havia assassinado a esposa e o amante, crime hediondo, com requinte de crueldade. O assassino antes de matar o sedutor, cortou seus colhões com uma facada. Joana, a irmã do preso, em nome da família, contratou Tonhão por uma boa quantia. A moça além de desenvolta, bem articulada, simpática, era um belo espécime feminino. Morena de olhos escuros, olhar profundo, sensual. Tonhão ficou cativo do olhar faceiro de Joana. O assassino pegou 17 anos de cadeia. O advogado perdeu no júri, entretanto, ganhou o coração e todos os outros órgãos de Joana, a bela. Embora mais velho, se deram bem na cama, na mesa, nas conversas, coincidiram as afinidades, os valores de vida, semelhantes sonhos de consumo. Ela ama joias, viagens, conforto e carinho. Ele também ama as coisas caras do mundo moderno, um carrão bonito, roupas de grifes, relógios e sapatos. Não puderam esconder por muito tempo essa comunhão carnal. Tanto fizeram que houve a separação. Muito choro e depressão, foi difícil para Antônia aceitar o divórcio.

Algum tempo depois de separados, no dia dos namorados, véspera de Santo Antônio, dia das comemorações alucinantes, Tonhão marcou um encontro com a ex-esposa, precisava discutir alguns detalhes sobre os filhos. Ele levou-a a um discreto restaurante na praia de Ipioca. Conversaram bastante sobre os filhos. O amor paterno de Tonhão sempre encantou Antônia. Retornando ao centro da cidade, ao passar no corredor de motéis, Tonhão puxou o carro de lado, entraram num belo motel. Fizeram amor a tarde toda como nos velhos tempos. Antônia aceitou a situação por dois motivos: vingança contra a sirigaita e ainda gostava de ser amada por Tonhão. Mantiveram a tradição, por mais de cinco anos, todos os dias dos namorados eles se encontravam.

Antônia, solteira, não ficou sozinha, de vez em quando saía com alguém sem compromissos, alguma aventura amorosa, guardava no íntimo a esperança da volta de seu primeiro amor, aquele que nunca se esquece.

No ano passado no dia dos namorados, Tonhão telefonou para Antônia, marcou o almoço e tarde de amor. Dessa vez ela estava fria, arredia, pediu para acabar com aqueles encontros anuais, não era correto. Tonhão insistiu em pegá-la de qualquer maneira, ansioso para mostrar seu novo carro. Depois do almoço quando se dirigia aos motéis da praia de Jacarecica, Antônia segurou a mão de Tonhão, e implorou: – “Por favor, leve-me para casa, a situação mudou, tenho outra pessoa, estou namorando firme, não fica bem. Amo o Pedro, agora é diferente, sou uma mulher honesta. Ele me ama, é carinhoso, faz café e me traz na cama, mais moço pouca coisa que eu, entretanto, é um homem maduro, ajuda em meus problemas. Além de tudo, ótimo professor na cama, me ensinou coisas que não pensei existir. Um verdadeiro sonho de consumo de qualquer mulher de 47 anos. Não fica bem, por favor Tonhão, me atenda!”

Tonhão deu a volta no carro, rumou para o Centro, sem dizer uma palavra, Antônia percebeu que lhe caiu uma lágrima, ele chorava contido, não sabia se de raiva ou de saudade por ter perdido para sempre aquele amor que foi o maior amor de sua vida.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A BOÊMIA DE JACARECICA

Surfando no mar de Jacarecica

Jacarecica nome indígena composto da junção de yacaré + icica, ou seja, a baba do jacaré. É um bairro localizado da orla norte da bela cidade de Maceió. A praia de tem águas limpas com ondas altas, excelente para prática de surf. Destaca-se a Avenida Litorânea com bares servindo um bom peixe, cerveja gelada, água de coco para lazer dos moradores e turistas. Um local aprazível onde Maristela nasceu se criou e mora até hoje na casa, herdada de seus pais, em frente ao marzão azul esverdeado. Ela ama seu bairro, ali criou seu único filho.

Certa manhã, ainda em jejum, Maristela dirigia seu carro à beira-mar em direção ao laboratório, detestava levar agulhada, entretanto, precisava fazer exame de sangue. De repente lembrou, havia deixado o cartão de saúde em cima da cabeceira da cama. Retornou apressada à sua casa, estacionou o carro. Ao entrar ouviu Cavalcanti, o marido, falando ao telefone. Fechou a porta com cuidado e escutou em silêncio a conversa do marido.

– Meu bem, você sabe, eu te amo, mas só posso me encontrar com você pela tarde, é melhor, a Jararaca não desconfia. “Se você quer ser minha namorada… Ai que linda namorada você poderia ser…” Tenha paciência, só posso lhe pegar no final da tarde.

Parou de falar quando um vaso espatifou-se em sua cabeça. Zonzo, Cavalcanti soltou o telefone, assustou-se ao ouvir os gritos de Maristela louca de raiva.

– Saia dessa casa agora! Seu filho de uma puta! Vá encontrar sua rapariga, não quero você aqui dentro dessa casa. Suma antes que eu lhe mate.

O marido sequer levantou a voz, não adiantava defender-se. Pela segunda vez foi flagrado. A primeira foi com uma namorada dentro no carro, agora um flagrante audível, sem questionamento. Com medo da mulher louca e traída, Cavalcanti escafedeu-se com a roupa do corpo, hospedar-se-ia num hotel até as coisas de acalmarem.

Maristela caiu aos prantos na cama, sem condições de fazer os exames no laboratório. Por toda manhã chorou sozinha, reviveu sua vida, 20 anos de casamento. O filho único, maior orgulho, estudando no Canadá. Entretanto, a traição é imperdoável. A força do amor próprio reagiu à fera ferida. Em certo momento ela levantou-se, respirou fundo, tirou a roupa, só de calcinha olhou-se no espelho. 42 anos, corpo perfeito se não fossem algumas detestáveis celulites, ainda era muito atraente, muitos homens olhavam com desejo, algumas vezes havia sido cantada por belos homens, até mulheres, contudo, nunca admitiu traição, sempre fiel ao marido. Desconfiava de o marido não ser santo, entretanto, dessa vez, foi um flagrante contundente, machucou, ainda martelava no ouvido, a ter chamado de Jararaca. Entrou no banheiro, uma hora de ducha morna ajudou ao reconforto. Almoçou, deitou-se na cama, o pensamento rodopiava. Algumas amigas telefonaram, sequer comentou o flagrante, nem conselho pediu. Pela tarde foi a uma loja chique, comprou três belos vestidos, decotados e sensuais.

Ao anoitecer telefonou para Vera, uma amiga separada e vida torta. Perguntou qual o melhor programa daquela sexta-feira. Vera percebeu que havia alguma coisa no ar. Tornou-se cúmplice da amiga. Convidou-a imediatamente a dar um bordejo pelas nove da noite nos bares da Jatiúca. E seja o que Deus e o Diabo quiserem, disse, soltando uma gostosa gargalhada.

Maristela chegou às nove e meia no bar marcado, ao avistar Vera numa roda de amigos acenou com a mão, dirigiu-se à mesa animada, sua amiga apresentou-a, os homens se encantaram com a jovem coroa, inteligente, bonita e recém-separada como frisou com certa maldade Vera. Foi uma noitada de alegria e muita farra, Maristela aproveitou toda noite, mudaram de bar, jantaram, terminaram numa boate da moda, dançando, cantando, paquerando, até o dia amanhecer.

Maristela acordou-se ao meio-dia na cama de um companheiro de noitada, o cara dormia, roncava. Ela levantou-se, foi ao banheiro, vestiu-se, saiu sem barulho e sem vestígio. Pegou um taxi para casa, nem triste, nem alegre, relembrou de toda noitada, fazer amor com um desconhecido, experiência nova, vida nova, ainda não sabia o rumo a tomar. Sabia apenas que jamais voltaria para o Cavalcanti.

No sábado à noite retornou à balada, começava a gostar ser solteira novamente, em pouco tempo tornou-se a maior boêmia. Dois anos se passaram. Maristela se sente feliz, tem seu emprego, ninguém dá palpite em sua vida, gosta da noite, sem compromisso sai com um ou outro namorado fortuito. Não gosta sequer de conversar com o ex-marido, nem cogita de casamento, pelo menos enquanto tiver fôlego para enfrentar baladas. Adora, durante a manhã, pegar uma cadeira e sombrinha e tomar sol na praia de Jacarecica, onde nunca viu um jacaré, mas aprecia o corpo da juventude surfando em sua praia.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A VOVÓ DE RIACHO DOCE

Praia de Riacho Doce, onde mora a Vovó

Felício chegou ao entardecer, beijou Gilka na face, sentou-se na poltrona confortável e feliz da vida desembuchou com a esposa.

– Afinal aconteceu meu último dia de trabalho, aposentadoria merecida, fui um funcionário exemplar do Banco. A grana da inatividade é razoável, porém, com as aplicações bem feitas durante anos, dá para nós vivermos sem atropelos financeiros. Quero viajar, brincar com os netos, andar na orla, nadar na Academia, assistir cineminha pela tarde, ler, escrever minhas histórias, quase 70 anos, tenho muitas. Não trabalho mais para ninguém. Vou ser um feliz idoso aposentado da praia da Jatiúca!

– Ótimo, vou lhe dar uma tarefa: levar seu neto, Marquinho, toda quinta-feira das quatro às seis da tarde para a aula de inglês. – Disse a filha, Edna, ao entrar em casa, ouvindo os planos do pai.

– Terei a maior satisfação, pode deixar comigo.

Felício cumpriu a promessa, ficou em casa, caminhou na praia, assistiu à televisão. No terceiro dia de aposentado já procurava o que fazer.

Na quinta-feira, feliz, por se sentir útil, Felício apanhou Marquinhos em seu edifício. Entrou na escola de inglês segurando a mão do neto, sala ampla, onde ramificavam quatro corredores com salas de aula. Marquinhos, nove anos, esperto, logo achou sua turma, desde os cinco anos estudava inglês, um craque. O avô olhou o relógio, achou a sala aconchegante, resolveu esperar sentado numa confortável poltrona, pegou uma revista ficou a ler algumas reportagens. De repente uma senhora bem vestida sentou-se na poltrona ao lado, ele teve uma surpresa ao sentir o perfume. Percebeu que ela usava “Fleur de Rocaille”, seu perfume preferido. Amava aquela fragrância desde o namoro com Vilma, paulista de Presidente Prudente no início dos anos 70, com quem teve uma tórrida e inesquecível paixão. Quantas vezes fungou a nuca perfumada da paulista. O namoro começou assim que chegou à Macapá, aprovado no concurso do Banco do Brasil. Felício despertou do devaneio. Nesse momento baixou a revista, vislumbrou a bela senhora de idade indefinida entre 45 e 50 anos, talvez 60, quem sabe a idade de uma mulher? Sorriu e iniciou a conversa.

– Esperando o filho?

– Não, o neto. Tenho essa incumbência em trazer o Albertinho às aulas de inglês. Prefiro ficar lendo revistas, esperando a aula terminar. – Respondeu a linda coroa.

Continuaram conversando. Vovô viu a Vovó, gostou, houve uma empatia entre os dois. Ao terminar a aula, despediram-se.

Durante a semana, vez em quando, vinha-lhe a sensação prazerosa daquele perfume e lembrava aquela mulher. Por onde andava em casa, na sala, na cozinha, sentia o aroma imaginário. Na quinta-feira seguinte, tomou banho demorado, vestiu camisa nova, perfumou-se, espargiu Azarrô em seu corpo. Na escola de inglês havia um intenso movimento de alunos, pais, avós, professores. Felício ávido, procurando com o olhar percebeu a nova amiga, sentou-se perto, deu um olá, ela respondeu cumprimentando com um movimento de dedos. Logo estavam conversando. Felício se deliciava com o perfume.

Passaram-se três semanas, fizeram amizade com conversas sobre cinema, música e leitura, nada abordaram da vida particular do outro. Felício convidou Aninha, assim se chama a Vovó, para saborear um sorvete na Sorveteria Bali, ali perto, em frente à praia de Pajuçara. No caminhar ele avistou uma placa num edifício: “Aluga-se apto quarto e sala mobiliado – chave na portaria”. Felício precisava alugar um apartamento para um primo que chegaria do Rio na semana vindoura. Eles foram conhecer o apartamento. Ao se verem sozinhos, propositalmente o Vovô encostou o braço na Vovó que sentiu um choque, uma química. Aninha segurou a mão de Felício, apertou, virou-se, se abraçaram, se beijaram, deitaram-se. Felício se embriagou em tanto cheirar a mulher perfumada de Fleur de Rocaille. Deixaram o sorvete para outro dia.

Já se vão quatro meses do primeiro encontro. Tornou-se hábito, toda quinta-feira Felício deixa Marquinhos na aula de inglês, caminha ao apartamento alugado, fica a esperar. Ele alugou o apartamento para os encontros perfumados, arranjou outro para o primo. Na quinta-feira antes de apanhar o neto, toma um fortificante azul diluído em meio copo d’água. Abre o apartamento, deita-se na cama de cueca samba canção a esperar a amiga. Quando Aninha abre a porta o perfume invade o apartamento provocando uma sensação de leveza em sua alma, o aroma penetra suavemente nas narinas, vai ao âmago. Abraçam-se, beijam-se. O Vovô funga o cangote da Vovó até a aula terminar. Fazem amor como dois idosos bem comportados, não querem compromisso. Felício mora na Jatiúca e Aninha mora na praia de Riacho Doce. Nunca se cruzaram na cidade. Só se encontram na quinta-feira, eles pouco conhecem da vida do outro. Os coroas sabem que é apenas uma amizade colorida e perfumada.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

VELHOS E NOVOS CARNAVAIS

O Bloco da Nêga Fulô desfilando na mais linda passarela do Brasil, a Orla da Ponta Verde

“As águas vão rolar… garrafa cheia eu não quero ver sobrar… eu passo a mão no saca-rolha… e bebo até me afogar…”

Ah! Como era gostoso nosso carnaval, marchinhas ingênuas, sambas românticos, faziam o compasso para folião pular, dançar; fazer o passo quando o frenético frevo mexia no fundo da alma e da mente.

Em janeiro iniciavam as festas pré-carnavalescas dos clubes: Preto e Branco, Noite do Havaí, o chiquérrimo Baile de Máscaras (fantasia ou smoking), Baile do Marujo; esquentavam os foliões, enquanto aprendiam as marchinhas do ano: “Ah morena seria meu maior prazer… passar o carnaval contigo… beijar a sua boca e depois morrer…”

Até que no domingo anterior ao carnaval acontecia na Avenida da Paz o grande Banho de Mar à Fantasia. Os arredores da Praça Sinimbu ficavam apinhados de gente pra assistirem os Blocos de Frevo, as Escolas de Samba e as “Críticas” sempre bem humoradas de nossos costumes e governos. O destaque era a irreverentíssima turma de Rubens Camelo, Alipão, Santa Rita, João Moura, Vadinho…

O Fusco era um show à parte com suas fantasias irreverentes, além de Tarzan e outros grandes foliões populares. Como era bom cair na frevança nas ruas pegando fogo, calçamento quente, acompanhando os Blocos: Vulcão, Cavaleiro dos Montes (de Rás Gonguila, engraxate da Rua do Comércio), Bomba Atômica, Pitanguinha vai à Lua… E o povão traçando tesouras com os estandartes no ar cantando e dançando o frevo Vassourinhas: “Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar… com pedrinhas de brilhante… para meu bem passear”.

Quinze dias antes do Carnaval, toda noite acontecia a Maratona Carnavalesca, com algumas orquestras nas esquinas Rua do Comércio, o povo se esbaldava, ao mesmo tempo desfilava o corso com automóveis enfileirados. Era imperdível, no mínimo para dar uma olhada nas jovens que se exibiam em carros abertos. Afinal chegava o carnaval no sábado: Viva o Zé Pereira! Viva o Carnaval!

Continuava o corso durante toda noite durante o carnaval, carros e camionetas abertas desfilando em cada esquina, as orquestras tocando para o povo dançar e acompanhar os Blocos de Frevo que entravam na folia desordenadamente na Rua do Comércio… Cerveja, suor e cachaça e uma nega do lado. Nos bairros a animação das troças, dos bois, a Praça Moleque Namorador transformava-se no Quartel General do Frevo.

Depois do corso e de pular na rua, trocava de roupa ou fantasia, era hora dos clubes. Maior rivalidade: sábado e segunda de Carnaval entre o Tênis e CRB; domingo e terça entre o Clube Fênix e late. Não havia hora para parar, o carnaval nos clubes era como se fosse uma grande família. Rodopiando no salão, rápida parada de mesa em mesa, tomando uísque, jovens bonitas para gente namorar e o lança-perfume perfumava o ambiente e o nariz do folião: “Me dá o lenço Mandarim… bote um pouquinho desse cheirinho para mim…”

No final, baile da Fênix, o sol amanhecendo, a banda descia do clube tocando na Avenida da Paz e na praia. Alguns mergulhavam no mar dourado pelo sol nascente enquanto a orquestra tocava: “É de fazer chorar… quando o dia amanhece obriga o frevo acabar, Oh quarta- feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar”.

De repente, não mais que de repente um energúmeno prefeito acabou com o carnaval de Rua de Maceió alegando que não podia incomodar o turista, ele visitava para cidade descansar e com essa ideia esdruxula de jerico, simplesmente a cidade de Maceió ficou sem carnaval de rua. Os foliões viajavam em busca de outros carnavais, Maceió parecia uma cidade morta: “Acabou nosso carnaval… ninguém ouve cantar canções… ninguém passa mais sorrindo cantando cantigas de amor… e, no entanto, é preciso cantar… é preciso cantar e alegrar a cidade…”

Até que no bendito ano de 2016, um grupo de amigos criou o Bloco Carnavalesco da Nêga Fulô, homenageando o poema de Jorge de Lima e enaltecendo a beleza da mulher negra. Foi um sucesso o desfile no domingo de carnaval na Orla da Ponta Verde e nos anos sucessivos deixou de ser um bloco solitário. Este ano de 2023 o Bloco da Nêga Fulô arrastou uma multidão, inclusive muitos turistas, na passarela mais bonita do mundo: a Orla da Ponta Verde. Consolidou assim o Carnaval de Rua na belíssima cidade de Maceió, graças ao apoio da Prefeitura (FMAC) e da SECULT AL. Que assim seja nos próximos anos. A nossa geração tem a obrigação de deixar esse legado: o Carnaval é a maior manifestação popular espontânea do povo brasileiro. E Maceió não é cidade sanatório.