As duas grandes derrotas do governo Lula (PT) no Congresso Nacional semana passada, primeiro com a rejeição histórica do seu indicado ao Supremo Tribunal Federal Jorge Messias e depois com a derrubada do veto à lei que vai reduzir penas dos condenados pelo 8/jan, prenunciam dificuldades que as pesquisas já indicam que o presidente vai enfrentar nas eleições.
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As pesquisas estão ótimas: o Descondenado está afundando ligeiro, ligeiro.
Em tudo quanto é recanto deste sofrido país.
Uma excelente notícia para levantar o astral da banda decente do Brasil neste domingo.
Em indicadores como PIB per capita, produtividade, liberdade econômica e participação no comércio internacional, o Brasil ocupa posições medíocres
Em 2014, o diplomata israelense Yigal Palmor, então porta-voz da chancelaria de Israel, chamou o Brasil de “anão diplomático”, em resposta a críticas brasileiras a uma ação israelense na Faixa de Gaza. Na ocasião, o presidente de Israel se desculpou em telefonema à então presidente Dilma Rousseff, mas a expressão e seu simbolismo permaneceram. Se “anão diplomático” entrou para o vocabulário como um país pequeno e sem expressão nas questões diplomáticas internacionais, o Brasil corre agora outro risco: o de ser, paradoxalmente, uma nação com uma economia nominalmente grande, entre as maiores do mundo, mas um “anão econômico” em vários outros indicadores.
O PIB de 2025, de US$ 2,3 trilhões, dividido por uma população de 213,4 milhões, resulta em US$ 10,8 mil de PIB por habitante. Tanto o PIB total quanto o PIB per capita, no entanto, apresentam dois problemas. O primeiro é mais óbvio: a fatia do PIB que cabe a cada habitante é muito pequena, e coloca o país longe do padrão de vida dos países desenvolvidos. O segundo problema é que esse PIB é insuficiente tanto para permitir a reposição da parte do capital físico (infraestrutura física, empresarial e social) desgastada pelo uso quanto para promover o aumento do capital físico necessário ao aumento do PIB per capita nos próximos anos.
Vale lembrar que o PIB, sendo o valor total de todos os bens e serviços finais produzidos mais o aumento do estoque dos bens intermediários e dos produtos inacabados, pode ser visto também como o resultado da multiplicação do número de horas trabalhadas pelo valor da produção de cada hora (a produtividade expressa em valores monetários). Assim, o PIB per capita brasileiro é pequeno não porque o brasileiro trabalhe pouco, mas porque a produtividade/hora do trabalho é bastante baixa no ranking mundial, equivalendo a um quarto da produtividade dos norte-americanos, suecos, alemães ou finlandeses, um sexto da produtividade de um norueguês e um oitavo da produtividade de um irlandês, segundo dados de 2025 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O Brasil tem áreas de excelência, entre as quais sobressai expressivamente o agronegócio, a ponto de o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos lançar um relatório afirmando que a transformação da agropecuária brasileira nos últimos 70 anos é um caso de sucesso praticamente único no mundo. O relatório e outros documentos retratam o papel significativo desempenhado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na evolução da pesquisa científica, uma estatal que deu certo e responde por contribuição decisiva para a melhoria da agropecuária em termos de produtividade e qualidade. Infelizmente, o sucesso da Embrapa é caso raro entre as centenas de empresas estatais brasileiras.
Quanto ao crescimento econômico, é importante ressaltar que o PIB por habitante é a principal variável para definir se o país terá um padrão médio de bem-estar social acima da linha da pobreza e poderá sonhar com padrão de vida próximo das nações desenvolvidas. Essa deveria ser a principal preocupação das autoridades públicas e a premissa primeira na elaboração do planejamento e na execução da política econômica. Infelizmente, a demagogia é abundante entre os governantes brasileiros, especialmente quando se trata de justificar sua incompetência e o baixo desempenho; um caso bastante didático é o de Dilma Rousseff, que pouco antes de seu impeachment afirmou que não é pelo PIB que se mede o desenvolvimento de um país, mas sim pela forma como a sociedade e o governo tratam suas crianças e adolescentes.
A retórica da então presidente petista era puro sofisma diante do péssimo desempenho da economia nacional, especialmente nos anos de 2015 e 2016, quando o governo jogou o país em grave recessão que fez o PIB cair mais de 7% em dois anos, gerando desemprego e sofrimento à população brasileira – e, se um país não cresce, não tem como oferecer vida e serviços dignos a seus cidadãos, incluindo as crianças e adolescentes. Não era apenas uma fala logicamente abominável e inverídica, mas também hipócrita, porque durante os anos de crescimento do PIB sob governos petistas o indicador sempre foi usado por Lula e Dilma para autopromoção, como se apenas eles soubessem fazer o país crescer, gerar empregos e melhorar a renda das pessoas.
O PIB importa, sim, e muito. Sem que ele cresça acima da taxa de aumento populacional não há chance de o país eliminar a miséria, reduzir a pobreza e sonhar com o ingresso no grupo das nações desenvolvidas, cuja renda por habitante é superior a US$ 30 mil anuais. O PIB de US$ 2,3 trilhões pode colocar o Brasil entre as maiores economias do mundo, e podemos nos orgulhar de algumas áreas de excelência; mas, em quesitos como o PIB per capita, a produtividade do trabalho e outros, como a participação no fluxo de comércio internacional, de fato estamos mais para anões.
O programa Desenrola marcou o início do governo Lula 3. A ação tinha como objetivo incentivar milhares de brasileiros a quitarem as suas dívidas por meio da renegociação das mesmas, com descontos ou melhores condições de pagamento com os bancos. Para incentivar descontos nos juros e no principal, o governo entrava como fiador das dívidas por meio do FGO (Fundo Garantidor de Operações). Assim, em caso de inadimplência do devedor, o governo pagaria o principal.
Além disso, o governo utilizou o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal para influenciar as instituições financeiras privadas a renegociarem seus créditos com seus devedores.
Como esperado, muito marketing e pouco resultado. De lá para cá, houve aumento do endividamento e da inadimplência das famílias e das empresas, tornando-se um grande problema eleitoral para o PT.
Com 80% das famílias endividadas, o governo está para lançar o Desenrola 2.0, que permitirá a utilização de 20% do FGTS das pessoas que ganham até 5 salários mínimos (aproximadamente R$ 8.100).
A causa estrutural do alto endividamento das famílias está ligada ao estímulo ao consumo combinado com a elevação do custo de vida, tornando o pagamento das dívidas insustentável. E é claro que o governo tem muita culpa no cartório.
Primeiro, porque a atual administração foi a primeira a incentivar o consumo dos brasileiros a fim de gerar crescimento econômico a qualquer custo. O fortalecimento e a ampliação de programas sociais, a política de valorização real do salário mínimo, a flexibilização do crédito consignado e os subsídios habitacionais e para a compra de carros populares foram algumas medidas que estimularam um consumo acima do que o brasileiro médio conseguiria suportar. Resultado: mais dívidas.
Segundo, porque o governo foi responsável pelo aumento da inflação, que corroeu o poder de compra, levando milhares de brasileiros a se endividar. O elevado gasto público tem ligação direta com a inflação persistente dos últimos anos, ao pressionar a demanda agregada do país acima do PIB potencial.
Terceiro, o governo também é responsável pelos juros altos, que também potencializam o endividamento das famílias. Os sucessivos déficits fiscais, juntamente com o aumento da dívida pública, incrementam o prêmio pelo risco, elevando as taxas dos títulos públicos. Como as taxas dos títulos do governo são referência para a formação de juros do mercado, uma elevação dos yields dos papéis prefixados e indexados à inflação encarece o crédito privado.
Quarto, o Desenrola 1 trouxe um moral hazard (“risco moral”), incentivando o endividamento e o não pagamento da dívida, pois, no final das contas, a população sabe que o governo vai oferecer algum socorro pró-devedor. A ideia por trás do moral hazard é: para que ficar adimplente se o governo vai me salvar?
Sexto, não há nenhum programa de Estado que valorize a educação financeira na base, com noções de economia e finanças, chamando atenção para o consumo sustentado e consciente. Talvez porque o investimento em educação financeira para crianças não traga votos.
Sétimo, o governo fracassou em mitigar a proliferação de casas de apostas online e do “jogo do tigrinho”, que levaram vários brasileiros ao alto endividamento pela promessa do “dinheiro fácil”.
Talvez o melhor mesmo seria o governo não fazer nada, pois um novo Desenrola só poderá gerar mais incentivo para o alto endividamento continuar. Mas o calendário eleitoral impedirá uma solução de mercado.
Por unanimidade, como o mercado financeiro esperava, o Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central promoveu outra redução mínima da taxa Selic na reunião encerrada na última quarta-feira. Os juros básicos da economia caíram 0,25 ponto porcentual, para 14,50% ao ano. O comunicado divulgado após a reunião mostra que, embora os diretores do BC vejam espaço para a redução nos juros devido à desaceleração da atividade econômica no Brasil, ainda há muitas razões para cautela, especialmente devido ao prolongamento do conflito no Oriente Médio – mas as incertezas domésticas também pesam na conta.
O principal fator é externo. Um mês e meio depois da última reunião, Estados Unidos e Irã ainda parecem longe de um acordo de paz, e as idas e vindas no Estreito de Ormuz, ora liberado, ora bloqueado, desorganizam o mercado mundial de petróleo e seus derivados. É o caso, por exemplo, do combustível de aviação: em meados de maio, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) começou a falar em racionamento e a Agência Internacional de Energia afirmou que, caso o abastecimento não se regularize, a Europa enfrentaria escassez do combustível a partir do fim de maio, levando a cancelamentos generalizados de voos. O Copom fala em “efeitos [da guerra] sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil”, e na “falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados”.
A cautela também é justificada, diz o Copom, enquanto o colegiado acompanha “como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros”. Lula não deu o menor sinal de que planeja puxar o freio no gasto público, especialmente em ano eleitoral; nesta semana, a ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (que se desincompatibilizou do cargo para, provavelmente, disputar uma vaga no Senado) afirmou que “a água bateu no nariz” – quando estava no governo, ela havia minimizado a crise fiscal, afirmando que o ajuste ficaria para 2027. E, mais recentemente, o salto no endividamento e na inadimplência levou para a casa dos brasileiros as consequências do estímulo governamental irresponsável ao consumo como ferramenta para manter a economia aquecida.
O Copom afirma que o longo período de juros altos de fato freou a atividade econômica e ajudou a trazer a inflação para dentro do limite de tolerância da meta depois de passar quase todo o ano de 2025 acima desse limite – uma redução de que os governistas tentaram se apropriar, embora o mérito fosse apenas da autoridade monetária. Em outras condições, havia abertura para reduções mais robustas nos juros. No entanto, diante de tanta incerteza pressionando as expectativas de inflação, os diretores do BC optaram pela redução mínima, e escolheram não antecipar nenhuma tendência para a próxima reunião, marcada para meados de junho.
A prudência se justifica: não há como acelerar o afrouxamento monetário sem conhecer o desfecho do conflito no Oriente Médio e suas consequências, imediatas e duradouras, sobre o mercado internacional de petróleo; internamente, o resultado de outubro fará toda a diferença, pois uma reeleição de Lula é certeza da continuação da irresponsabilidade fiscal que forçou o Copom a subir os juros no passado, enquanto um outro governo pode priorizar o ajuste fiscal que a esquerda não quis fazer. Com a decisão desta semana, o BC faz o que pode para não punir demais a economia enquanto espera definições importantes para dar um rumo mais definitivo à política monetária.
Ao rejeitar Messias, Senado mostrou a Lula que o considera um fraco
“Eu não pararei porque não sou mais um ser humano, sou uma ideia.” Volta e meia lembro desse discurso de Lula em 7 de abril de 2018, dia da sua primeira maior humilhação na vida, quando foi preso.
É impossível saber que diacho de ideia seria essa, dado que Lula não tem nenhuma que seja originalmente sua. Mas ao dimensionar a sua imensíssima vaidade, repleta de petulância e autoengano, acabou fornecendo uma “chave de interpretação” para tudo que faria depois.
A “ideia” que ele diz ter se tornado não é, na verdade, uma ideia, mas uma imagem. A imagem de um mito político como Getúlio Vargas, Nelson Mandela, Winston Churchill, Fidel Castro, Mahatma Gandhi e outros tantos. Não importa aqui a ideologia dessas figuras, se de esquerda ou direita, democratas ou não, mas a relevância para a história.
Tenho dito e escrito, redito e reescrito, que Lula III não governa para a esquerda, para o PT, para o povo, para o Brasil, mas apenas e tão-somente para si, para consolidar esta autoimagem mitológica que acredita possuir.
Daí a importância de parecer mais de esquerda nos discursos do que nos demais mandatos, também nos posicionamentos internacionais. Animou-se a olhos vistos quando os EUA aplicaram as tarifas, retiraram vistos de autoridades brasileiras etc., pois isso lhe deu a oportunidade de posar de defensor do verde e amarelo, de ser “o cara” que confrontou e venceu Trump.
Tudo que estamos testemunhando, portanto, é o capítulo final de uma ficção autobiográfica. Por isso, a segunda maior humilhação da autoimagem de Lula aconteceu nesta semana, com a rejeição da indicação de Jorge Messias. Não pelo indicado, não porque o fato seja ou não relevante, não pelos efeitos políticos e eleitorais, mas pelas capas dos jornais no dia seguinte.
Folha de S.Paulo: “Senado rompe tradição de 132 anos, rejeita Messias no STF e derrota Lula”. O Estado de S.Paulo: “Lula é o 1.º Presidente em 132 anos a ter indicação ao Supremo rejeitada”. O Globo: “Em derrota de Lula, Senado barra um indicado ao STF pela 1.ª vez desde 1894”. Também nos jornais internacionais, como o argentino Clarín: “é o primeiro indicado ao Supremo Tribunal Federal rejeitado pelo Senado em mais de cem anos”.
O fato, como se vê, é por si só histórico, independentemente de quem indicou e quem foi indicado. No caso de Lula, esta dimensão histórica é o que lhe afeta mais, é o que atinge sua pretensão mitológica. É bom destacar, aliás, que a derrota de Messias é uma derrota pessoal de Lula, mais que do governo. Neste seu terceiro reinado, Lula só indicou pessoas de sua inteira confiança ao STF, pouco importando se possuíam ou não notório saber jurídico. Cristiano Zanin foi seu advogado pessoal, Flávio Dino é fiel aliado político e Messias, um ajudante de ordens de longa data, nada além disso.
Não são poucos os que duvidam que Lula se manterá candidato se reconhecer que corre sério risco de perder. Não quer encerrar sua trajetória política assim, derrotado. Também acho isso, pela razão acima. No fundo, é isso que dói: não a derrota política, mas o abalo na narrativa que Lula esculpiu para si desde aquele caminhão de som.
A recusa do Senado foi, indiretamente, contra o enredo imaginado pelo presidente, aquele onde o herói volta triunfante, eterno, incontestável. O primeiro “não” em 132 anos é o aviso de que o mito não funciona, que o mundo político o enxerga como um fraco. Nada humilha mais uma ideia do que ser devolvida ao corpo de um ser humano comum.