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Editorial Gazeta do Povo

editorial pib per capita

Em indicadores como PIB per capita, produtividade, liberdade econômica e participação no comércio internacional, o Brasil ocupa posições medíocres

Em 2014, o diplomata israelense Yigal Palmor, então porta-voz da chancelaria de Israel, chamou o Brasil de “anão diplomático”, em resposta a críticas brasileiras a uma ação israelense na Faixa de Gaza. Na ocasião, o presidente de Israel se desculpou em telefonema à então presidente Dilma Rousseff, mas a expressão e seu simbolismo permaneceram. Se “anão diplomático” entrou para o vocabulário como um país pequeno e sem expressão nas questões diplomáticas internacionais, o Brasil corre agora outro risco: o de ser, paradoxalmente, uma nação com uma economia nominalmente grande, entre as maiores do mundo, mas um “anão econômico” em vários outros indicadores.

O PIB de 2025, de US$ 2,3 trilhões, dividido por uma população de 213,4 milhões, resulta em US$ 10,8 mil de PIB por habitante. Tanto o PIB total quanto o PIB per capita, no entanto, apresentam dois problemas. O primeiro é mais óbvio: a fatia do PIB que cabe a cada habitante é muito pequena, e coloca o país longe do padrão de vida dos países desenvolvidos. O segundo problema é que esse PIB é insuficiente tanto para permitir a reposição da parte do capital físico (infraestrutura física, empresarial e social) desgastada pelo uso quanto para promover o aumento do capital físico necessário ao aumento do PIB per capita nos próximos anos.

Vale lembrar que o PIB, sendo o valor total de todos os bens e serviços finais produzidos mais o aumento do estoque dos bens intermediários e dos produtos inacabados, pode ser visto também como o resultado da multiplicação do número de horas trabalhadas pelo valor da produção de cada hora (a produtividade expressa em valores monetários). Assim, o PIB per capita brasileiro é pequeno não porque o brasileiro trabalhe pouco, mas porque a produtividade/hora do trabalho é bastante baixa no ranking mundial, equivalendo a um quarto da produtividade dos norte-americanos, suecos, alemães ou finlandeses, um sexto da produtividade de um norueguês e um oitavo da produtividade de um irlandês, segundo dados de 2025 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O Brasil tem áreas de excelência, entre as quais sobressai expressivamente o agronegócio, a ponto de o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos lançar um relatório afirmando que a transformação da agropecuária brasileira nos últimos 70 anos é um caso de sucesso praticamente único no mundo. O relatório e outros documentos retratam o papel significativo desempenhado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na evolução da pesquisa científica, uma estatal que deu certo e responde por contribuição decisiva para a melhoria da agropecuária em termos de produtividade e qualidade. Infelizmente, o sucesso da Embrapa é caso raro entre as centenas de empresas estatais brasileiras.

Quanto ao crescimento econômico, é importante ressaltar que o PIB por habitante é a principal variável para definir se o país terá um padrão médio de bem-estar social acima da linha da pobreza e poderá sonhar com padrão de vida próximo das nações desenvolvidas. Essa deveria ser a principal preocupação das autoridades públicas e a premissa primeira na elaboração do planejamento e na execução da política econômica. Infelizmente, a demagogia é abundante entre os governantes brasileiros, especialmente quando se trata de justificar sua incompetência e o baixo desempenho; um caso bastante didático é o de Dilma Rousseff, que pouco antes de seu impeachment afirmou que não é pelo PIB que se mede o desenvolvimento de um país, mas sim pela forma como a sociedade e o governo tratam suas crianças e adolescentes.

A retórica da então presidente petista era puro sofisma diante do péssimo desempenho da economia nacional, especialmente nos anos de 2015 e 2016, quando o governo jogou o país em grave recessão que fez o PIB cair mais de 7% em dois anos, gerando desemprego e sofrimento à população brasileira – e, se um país não cresce, não tem como oferecer vida e serviços dignos a seus cidadãos, incluindo as crianças e adolescentes. Não era apenas uma fala logicamente abominável e inverídica, mas também hipócrita, porque durante os anos de crescimento do PIB sob governos petistas o indicador sempre foi usado por Lula e Dilma para autopromoção, como se apenas eles soubessem fazer o país crescer, gerar empregos e melhorar a renda das pessoas.

O PIB importa, sim, e muito. Sem que ele cresça acima da taxa de aumento populacional não há chance de o país eliminar a miséria, reduzir a pobreza e sonhar com o ingresso no grupo das nações desenvolvidas, cuja renda por habitante é superior a US$ 30 mil anuais. O PIB de US$ 2,3 trilhões pode colocar o Brasil entre as maiores economias do mundo, e podemos nos orgulhar de algumas áreas de excelência; mas, em quesitos como o PIB per capita, a produtividade do trabalho e outros, como a participação no fluxo de comércio internacional, de fato estamos mais para anões.

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