DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

CARTAS NA MESA SEMPRE

Quem põe as cartas na mesa
Não causa desilusão
Não golpeia uma amizade
Não fere um coração
Não mancha seu nome à toa
Não engana, não magoa
Pois marca sua posição.

Quem joga limpo na vida
Porta aberta sempre deixa
Demostra ter hombridade
Não deixa brecha pra queixa
Preza o nome que carrega
Não finge não escorrega
No estilo não desleixa.

Amizade é coisa rara
Que se deve conservar
Mas quando fica arranhada
É difícil cultivar
É como um vaso quebrado
Que mesmo sendo colado
As marcas irão ficar.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

O PROTESTO DA GALINHA

Poetas e poetisas, como vocês ficaram enternecidos com o fiofó da galinha, eu resolvi editar e postar a penosa ciranda de versos.

* * *

Um dia uma galinha
Com pena do fiofó
Pediu suplicou a Deus
Que dela tivesse dó
Em tom de lamentação
Fez sua reclamação
Com seu cocorococó:

Senhor Jesus, me socorra
Pois estou numa pior
Meu fiofó é pequeno
Não podia ser menor
Quero ver se lhe comovo
Diminua o meu ovo
Ou me dê um cu maior.

Dalinha Catunda

Então, Jesus respondeu:
Tenha santa paciência!!!
O ovo tem que sair
Não venha pedir clemência
Pois quando o galo te pega
O seu cu no dele esfrega
Não sente dor, nem ardência.

Lindicássia Nascimento

O cão como é entremetido
Entrou na conversa toda
Disse: eu não tenho pena
Dona galinha “gaitoda”
Deixe de lamentações
Eu, nas minhas orações
Peço que você se fôda.

Paulo Filho

Jesus não pode atender
Bem difícil tal pedido
Outro cu mandar fazer
Maiorzinho, pois duvido
Faria tudo de novo
Pra sair melhor um ovo
Limpinho não espremido.

Dulce Esteves

Quando o pinto nasce grande
Galinha fica feliz
Porém quando é o ovo
Pobrezinha, se maldiz
Quieta dona galinha
Pois foi assim que Deus quis

Euza Nascimento

A galinha era esperta
O galo era um carijó
Ela disse hoje eu não quero
Fazer o cocoricó
Fingiu que tava doente
Mas o galo botou quente
Pois ela era o seu xodó

Foi enorme o rebuliço
Corre-corre no terreiro
Carijó já foi dizendo
Sou chefe do galinheiro
Armo o maior quiproquó
Mas só quero um fiofó
E saiu bem sorrateiro.

Rivamoura Teixeira

Jesus falou irritado,
Você vai compreender,
Se você quiser trocar,
Eu vou já lhe atender,
Seu ovo com avestruz,
A galinha disse: Jesus,
Eu só vim agradecer.

Joab Nascimento

Dona penosa queria
Ser grande como uma vaca
Foi rejeitado o pedido
Da pintadinha babaca
Pra acabar a agonia
Tem que fazer cirurgia
Pra dilatar a cloaca

Araquém Vasconcelos

A galinha teve inveja
Da codorna, sua vizinha
Mas seu pedido não foi
Atendido, pois não tinha
A tal possibilidade
Porque Deus quis na verdade
Que ela nascesse galinha.

Vivaldo Araújo

Rejeitado seu pedido
A coitada da galinha
Com fiofó distendido
Sofria ela sozinha
Botar ovos todo dia
Era grande à agonia
Da penosa de Dalinha.

Dulce Esteves

Vai ver que a galinha quer
Se transformar em codorna
Só assim para o seu fundo
Tudo mais fácil se torna.
Mas a codorna tadinha
Nunca quer ser uma galinha
O ovo não sai retorna!

Gerardo Carvalho Pardal

Mas Jesus, mestre dos mestres,
Como sempre, ensinando,
Convenceu tanto a galinha,
E ela ficou escutando…
Agora vive feliz,
De nada mais se maldiz,
Dá o cu e sai cantando.

Anilda Figueiredo

Quantos cus tem a galinha,
Pra suportar tanta dor?
Agora tá explicado
Porque faz tanto clamor;
É a dor do ovo duro
Ao sair pelo seu furo
Sem ter lubrificador.

Arimatéa Sales.

Não sou de meter o dedo
Onde eu não sou chamado
Mas no tema do franzido
É preciso ter cuidado
Vai que nessa confusão
Deus nos bote na questão
E o nosso for trocado?!

Giovanni Arruda

Foi o jeito eu editar
Pra obra ficar completa
O fiofó da galinha
Animou cada poeta
E eu aqui com cu na mão
Para fazer a edição
Não pude tirar da reta!

Dalinha Catunda

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

SEM PODA

Não tente apagar o brilho,
Que carrego em meu olhar.
Não queira conter o riso,
Que insisto em ostentar.
Sou mulher independente,
É boa minha semente,
Escolhi onde brotar.
No solo que eu germino,
O meu canto feminino,
Não deixo ninguém podar.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

AINDA FAÇO MENINO

Cangaceirinho: artesanato feito por esta colunista

Eu para fazer menino
No tempo da mocidade
Virava só os olhinhos
Cheia de felicidade
O tempo foi se passando
E foi chegando a idade
Lá se foi a primavera
Meu Deus quanta crueldade
Hoje pra fazer menino
É uma dificuldade
Preciso de agulha e linha
Tecido em variedade
Uma máquina de costura
Só para essa atividade
O tempo passa e faz dano
Essa é a mais pura verdade
E para meu desengano
Com toda sinceridade
Menino me arisco e faço
E vendo por unidade.
Mas é menino de pano
Minha especialidade.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

O VOO DA RETIRANTE!

Eu sou mulher sertaneja!
Feminina e singular
O agreste me batizou
Mas fiz do mundo meu lar
Açoites patriarcais
Não me podaram jamais
Lutei pra me libertar.

Nunca fui igual a tantas
Aceitando imposição
Tinha o olhar aguçado
Tinha rumo e direção
Do meu jeito nordestino
Sem drama sem desatino
Segui cheia de razão.

Não fui mulher de ficar
Debruçada na janela
Eu queria muito mais
Vi que a vida dava trela
Na janela não fiquei
A porta eu escancarei
E joguei fora a tramela.

Uma estrada desenhei
Do jeitinho que eu queria
Nela pisei com firmeza
Distribuindo alegria
As veredas da tristeza
Enfrentei sem ter moleza
Recorrendo a rebeldia

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DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

NO RIO E EM SÃO PAULO

Sou cearense da gema
Onde o sol nasce encarnado
A minha cabeça chata
Faz parte desse legado
Nunca me vi coitadinha
Faca, tirei da bainha
Pra riscar o meu traçado.

No Rio sou Paraíba,
Em São Paulo sou baiana
Minha nordestinidade
Não me deixa ser fulana
Na Feira dos Paraíbas
Revejo em minhas idas
Que nossa gente se irmana.

Não nasci pra ser piolho
Tenho meu discernimento
Jamais segui a manada
Pra isso tenho argumento
Prefiro ter meu poder
Sem empoderada ser
Só sigo meu pensamento.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

A VENDEDORA DE TABACO

Foi para sobreviver
Que a Ana mulher sem ócio
Abriu seu próprio negócio
Sem falatório temer
E se alguém quiser meter
A Língua no que faz Ana
A vendedora se dana
E dá pro cliente um naco:
Pode cheirar meu tabaco
Ele é feito de imburana!

Com seu negócio montado
Outra coisa ela não quer
Pois negócio de mulher
Sempre dá bom resultado
Já que o seu tem prosperado
Contratou logo sua mana
E a dupla toda semana
Faz zoada no barraco:
Pode cheirar meu tabaco
Ele é feito de imburana!

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

UMA RODA DE GLOSAS

Xilogravura de Cícero Lourenço

Roda de glosa coordenada por esta colunista.

Mote de Zé Limeira:

Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

* * *

Dalinha Catunda:

Chegou essa pandemia
parecendo um vendaval.
Confesso que fiquei mal
de medo eu quase morria,
e morrendo de agonia,
hoje a Jesus eu recorro,
morro pedindo socorro,
pois penico eu já pedi:
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Joab Nascimento:

Eu já fui contaminado
Por essa tal pandemia
Juro qu’eu quase morria
Com o vírus desgraçado
Fiquei muito desgastado
Nem sequer subi o morro
Já no mato sem cachorro
Mas logo sobrevivi
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Bastinha Job:

Vou dar uma de artista
No mote de ZÉ Limeira
Nascido lá em Teixeira
E era surrealista
Foi notável repentista
Famoso igual ao Zorro
Na décima então discorro
Em Orlando Tejo li:
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Araquem Vasconcelos:

Aprendi vencer a morte
Pois já morri uma vez
Comigo não tem talvez
Eu sou caboclo do Norte
Vencer heróis é meu forte
E se vier pega esporro
Eu nunca pedi socorro
E nem de medo eu corri
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Gevanildo Almeida:

Quando comecei saber
Desse vírus condenado
Fiquei desorientado
Disse agora vou morrer
Deus veio me socorrer
No meu leito pôs um forro
Com ele eu disse, não corro
Seguir firme decidi
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Jairo Vasconcelos:

Quando chegou no Brasil
Essa grande pandemia
Me causando uma agonia
Morreram duzentos mil
Mantando mais que fuzil
Chorando pedir socorro
De medo quase eu escorro
Me segurei não escorri
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Rivamoura Teixeira:

Foi sim eu morri de medo
Me tornei um mascarado
O mundo todo tomado
De um virus do degredo
Eu me levantava cedo
Ia parecendo um zorro
Se for me abraçar eu corro
Faça boca de siri
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Francisco de Assis Sousa:

Eu já vivo é morrendo
De medo todos os dias
Entre susto e agonias
Assim eu sigo vivendo
Com tudo é me benzendo
Até de espiro eu corro
Uso máscara, alcool, gorro
Não quero arribar daqui
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Creusa Meira:

Ao sentir que o dia nasce
Abro os olhos com surpresa
Vejo se não tem fraqueza
Nas pernas, calor na face
Respiro fundo, com classe
E toda a casa, percorro
A mais um dia, concorro
Pra viver, estou aqui
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Ritinha Oliveira:

O vírus me derrubou
Igual coice de jumento
Fui ao céu dum passamento
São Pedro me avistou
Ao me ver se agoniou
Gritou pedindo socorro
Eu num mato sem cachorro
Me expulsaram eu corri
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Giovanni Arruda:

O eterno Belchior
Cantor de belas canções
Teve nas composições
Zé Limeira coautor
Essa dupla infernizou
Aquela turma do gorro
Sofreu censura e esporro
Mas resistiu que eu vi
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Vânia Freitas:

A nuvem ficou escura
Vírus das trevas saiu
E o pior que ninguém viu
E nem vê a sua feiura
Só atrás da lente dura
E quem vê pede socorro
Faz da cara um porta-forro
É coisa que nunca vi
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

Tião Simpatia:

Faz um ano que me escondo
Desse corona maldito,
Já não conto, nem recito,
Engordei que tô redondo!
O sol nascendo e se pondo
Todo dia por trás do morro;
Eu vi a morte de gorro,
Mas acordei e me benzi…
Ano passado eu morri,
Mas esse ano eu não morro.

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

NOS BRAÇOS DE UM FURACÃO

Em noite fria de outono
De luar encantador
A lua cheia brilhava
Mostrando seu esplendor
A noite estava tão bela
Entreabri a janela
Com meu ar contemplador

Ao apagar o abajur
Ensaiando pra dormir
Um rumor vindo de fora
Eu imaginei ouvir
Acheguei-me ao travesseiro
Porém despertei ligeiro
E vi meu sono sumir.

Foi quando ele sorrateiro
No meu quarto penetrou
E sem que eu me desse conta
Nesse ambiente se espalhou
Bem de leve me roçava
Num sopro que acarinhava
E o meu corpo despertou.

Chegou brando e carinhoso
Confesso me satisfez
Encantava-me a meiguice
Afagando a minha tez
E não achei que era abuso
A visita desse intruso
Oportunista talvez.

Inteiramente à vontade
Eu me deixei seduzir
Ele entrava, ele saía
E eu gostando do ir e vir
Cada vez que penetrava
O meu corpo arrepiava
meu anseio a consentir.

Foi visita relaxante
Até um dado momento
Ficou mais audacioso
Intenso no movimento
Meus cabelos, desmanchou
Os lençóis, desarrumou
Transformou-se totalmente.

Daí eu me levantei
Tentando uma solução
Tentei fechar a janela
Mas faltou força na mão
Depois desse vento forte
Quase que perco meu norte
Nos braços de um furacão.