CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O GRANDE MUDO

Cadete Solânio Paes, da Academia Militar

Jornalista iniciante em 1952, eu me inebriava com os artigos do jornalista David Nasser, na revista “O Cruzeiro”, principalmente por sua arte literária em saber concluir seus artigos com referências ao título, modelo que venho adotando, nestas crônicas, sempre que possível.

De uma das reportagens publicadas pelo magistral escritor, destaco uma intitulada: “O Grande Mudo”, referindo-se ao Exército Brasileiro, em época, bem semelhante à que sofremos no momento atual.

David Nasser

Segundo notas da socióloga Letícia Moraes, no início dos anos 60, houve um endurecimento político no Brasil, baseado num aparato repressivo construído, com o objetivo de cercear e punir idéias políticas.

Isto quer nos parecer uma fase idêntica à situação atual.

Sendo cronista político verdadeiramente genial e destemido, David Nasser, então diretor da revista “O Cruzeiro”, debateu-se ativamente para a deposição do presidente esquerdista João Belchior Marques Goulart, em sintonia com o pensamento da respeitável imprensa da época.

A parte mais importante da campanha de David Nasser, contra a introdução do comunismo no Brasil, foram os argumentos de vários artigos, alertando os líderes das classes sociais, trabalhadoras, empresariais, o povo e o Exército, para um posicionamento enérgico diante da situação, que poderíamos enfrentar.

A Campanha se concentrava no argumento de que só a intervenção militar seria capaz de depor o governo João Goulart, impedindo a chegada do “perigo comunista” e preservando as liberdades democráticas.

A batalha de David Nasser resultou na “Marcha da Família pela Liberdade”, movimento que invadiu as ruas e levantou o brio dos brasileiros, contando com o apoio de nossas Forças Armadas, para nos devolver a democracia.

Nossos dias revelam algo semelhante, quando sofremos a ditadura já instalada pelo judiciário, cargos públicos e universidades aparelhados, além um péssimo governo, fraco Congresso, associação a grupos de narcotraficantes e a corrupção generalizada. Mas, surge agora, a salvação!

Deputado Nikolas Ferreira

O jovem deputado federal Nikolas Ferreira, sem a motivação de partidarismos, gritando por uma anistia ampla dos presos políticos, liderou uma caminhada por mais de 240 km, gritando: “Acorda Brasil!”, concentrando mais de 1 milhão de pessoas na Praça do Cruzeiro, em Brasília.

E diante de tantas irregularidades os mais antigos brasileiros constatam que nosso glorioso Exército de Caxias, continua se comportando, diante de todo esse descalabro, como um grande mudo.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O 5º PODER

A juventude, o 5º Poder da República

Aos 15 anos, quando fui com meu pai,receber o jornalista Carlos Lacerda, diretor do jornal Tribuna da Imprensa, no Aeroporto Internacional dos Guararapes, fiquei convicto de que a Imprensa era o 4º Poder da República.

De imediato papai teve acesso ao ilustre visitante, por ser membro do Diretório Regional da UDN – União Democrática Nacional, em Pernambuco.

O entusiasmo de menino levou-me a questionamentos sobre as razões daquele cidadão aglutinar tantas pessoas em seu redor e qual o significado do título do seu jornal – Tribuna da Imprensa.

A tribuna, ao que vim entender depois, era o púlpito do povo. Local onde as pessoas protestavam ou aplaudiam seus líderes políticos.

Carlos Lacerda, falecido em 1977, foi um influente jornalista, escritor e político brasileiro, figura central na oposição a Getúlio Vargas e articulador de momentos cruciais da história política brasileira.

O entusiasmo que movia meu pai pela trajetória de Carlos Frederico Werneck de Lacerda se relacionava com suas lembranças do meu avô, João Pacífico Ferreira dos Santos, que foi alvejado na sacada do Diário de Pernambuco – a tribuna de muitos – durante a Campanha de Dantas Barreto, na época em que se tornou governador de Pernambuco.

Lacerda era um dos grandes trunfos de um movimento permanente que se conhecia como o 4º Poder da República. Era o tempo dos jornalistas que investigavam, escreviam e publicavam provas dos pecados dos políticos.

Não tinham medo de autoridades nem se vendiam.

Hoje tenho vergonha do que se faz através da Imprensa, que deixou de ser a tribuna do povo, para vender suas páginas, imagens de suas câmeras e microfones a governos da atualidade brasileira.

Mas, nem tudo está perdido! Surgiram as Redes Sociais e com elas a oportunidade de todos os brasileiros se manifestarem, expressando suas opiniões, despertando valores e comprovando fatos, não dando sossego aos governantes desonestos.

Ainda mais e sobretudo, utilizando centenas de canais caseiros, espalhados pelo País.

Nos dias presentes, com as Redes Sociais e os smartphones, há novidade, pois até os pequeninos podem participar, de alguma forma, do que acontece no Brasil e os mais maduros sugerem melhorias.

A Imprensa tradicional ficou num segundo plano, perdendo muito em prestígio e qualidade de notícias.

E com a participação de pessoas de todas as classes, profissões e lugares, é o povão que se manifesta livremente.

Não se pode negar que surgiu um movimento forte, como se fossem várias tribunas, o que bem poderemos identificar como o 5º Poder da República!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FILHO DA MÃE

Exemplo de homem sem escrúpulo

Estando eu todo fagueiro, quase radiante, à espera de registro na Portaria de um hotel em Curitiba, quando pedi à moça para preencher, por mim, a Ficha de Hóspede.

Justifiquei que minha letra já estava “pra lá de Baghdad”; ou seja, um tanto trêmula, quase hieroglífica, dificuldade de quem está convivendo com a fase dos 90 anos de idade e os dedos já tremem mais do que “vara verde”.

Holenka, uma galega de fino trato, começou a registrar meus dados obedecendo as linhas do questionário impresso, realçando sua bela caligrafia itálica, quase artística.

Foi perguntando e fui informando. No quesito: Filiação, no entanto, solicitou apenas o nome de mamãe, ao que alertei:

– Holenlka, falta acrescentar o nome de meu pai!

Surpresa! A criaturinha dos “cabelos de milho” informou que não precisava. Porque não constava no questionário. Em tons muito cordiais, discutimos e fui cientificado que naquele quesito não era mais exigida a definição paterna.

– Quer dizer que sou só “filho da mãe”?

Solicitou-me um instante e retornou com o gerente para dirimir a questão e ilustrar os “explicativos”. Fui, então, cientificado que pela legislação atual realmente não era mais exigido o nome do genitor.

Outro episódio curioso foi quando há poucos dias estive numa Emergência Médica e na prescrição dos medicamentos constava, na parte inicial da folha: Nome do paciente, data de nascimento e nome da mãe.

Novo constrangimento!

Deixei o consultório convicto que, para algumas empresas, inclusive hospitais e clínicas, apenas, “filhos da mãe”, que é semelhante a ser, cada um, “Filho de uma égua.”

Não que eu seja realmente um “filho da mãe”, porém, se assinar essas fichas de hoteis, assumirei a barbaridade que nem faz sentido.

E tem mais, o velho Arthur Saraiva Lins dos Santos, meu pai e outros dedicados genitores, teriam perdido mesmo a representatividade paternal?

Reporto-me, assim, ao vulgo. Ser “Filho da Mãe é estar como um filho acusado de ser “um coisa ruim”; representa um xingamento terrível.

“Filho da Mãe” tornou-se palavrão, porque, segundo Aurélio, historicamente, remete à figura do filho ilegítimo, de quenga safada; cabra considerado traiçoeiro, de origem incerta e desonrosa. Um bosta qualquer, sem escrúpulos. Capaz até de boa reprimenda:

Aquilo é um Filho da Mãe!

Com base na “Teoria de Bastardia”, em tempos antigos, a legitimidade de uma criança dependia do reconhecimento paterno. Por isso, ocorreu minha reação, lamentando o constrangimento de Holenka, que teve que convocar seu superior hierárquico, porque não desejei ser um ”Filho da mãe”, como se diz no vulgo: uma pessoa sem escrúpulos.

Sidcley Jamaica me disse que o termo escrupuloso é uma das palavras mais fascinantes do nosso vocabulário. Sua definição primária é: “uma dúvida ou hesitação que atinge a consciência de que algo está errado”.

O contrário dessa palavra é semelhante a uma arma carregada, pronta para atirar: o inescrupuloso.

Kutzjank, o habilidoso gerente, com fala meio macarrônica, bem ao estilo de descendente de eslavos, compreendendo meu respeito filial, convidou-me para um drink na sala de refeições do hotel e emocionado, contou sua tragédia de vida, por não haver conhecido seu pai, que faleceu num campo de batalha da II Guerra Mundial.

Fiz comentários sobre a maioria dos políticos do nosso país, onde o escrúpulo se realça até pelas novelas.

Quase chorei abraçado com o galego. Ao término, nos chega Holenka com o documento retificado, com a solução. Escreveu ao pé da Ficha de Inscrição de Hóspede:

P.S. – Filho do sr. Arthur Saraiva Lins dos Santos, brasileiro, casado, jornalista, residente no Recife – PE.

Taí quanto vale a reação cordial de não querer se passar por qualquer pessoa sem escrúpulos; algum “Filho da mãe!”

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DA LÍNGUA E SEUS DERIVADOS

Tá pra tu!…

Aos 10 anos fui severamente advertido por minha mãe porque estirei a língua para uma coleguinha da escola. Nos idos de 1940, o ato representava um palavrão silencioso, a “mímica fulminante”.

A propósito de palavrões, volto no tempo para contar a historinha do primeiro palavrão que minha língua soltou, aos cinco anos.

Tentando fazer uma engenhoca aproveitando uma caixa de madeira, arranjei uns pregos e um pequeno martelo e mandei brasa. Numa das marteladas, deixei o dedo no lugar da cabeça do prego e tome lapada!

Sem verter uma só lágrima, corri pra cozinha e perguntei a “Teteza”: “Tia, eu já posso chamar pinóia?” E com a complacência dela, achando a maior graça, mandei ver. Dei um grito de revolta: “Ora pinóia!!!”.

A língua – me parece – ainda não foi bem estudada pelos cronistas; apenas pelos antropólogos. Primeiramente que é o órgão do corpo humano da mais alta importância, face às suas múltiplas funções; E bota função nisso.

Kant afirmou: “Quando o vinho entra a língua se solta.” Bem, aí está o perigo, porque a língua não é o órgão pensante!

Há um bocado de tempo fiz parte de uma troça carnavalesca, formada por jornalistas, cujo título era: “Língua Ferina”. Nada mais próprio do que se qualificar a profissão com expressão tão mordaz.

Em suma poderemos afirmar que vai longe a lista da língua e seus derivados.

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VINGANÇA SARAMALIGNA

Bento Carneiro, o vampiro brasileiro

Pra começar, devo advertir os leitores de que qualquer semelhança com “pessoa viva” terá sido de propósito.

No Brasil se implantou, há muito tempo, a caquistocracia. Nome feio danado! E o pior é o que ele exprime: o modelo de governo em que há predominância de pessoas com péssimas qualidades, sobretudo, a malandragem.

Caquistocracia indica “o governo dos piores”. Apareceu no século XVII para descrever a ascensão política de pessoas menos qualificadas e sem escrupulosos.

Inspirou-me um leitor de Fortaleza, que citou esse “palavrão”. É fácil entender, através da sátira, que o povo brasileiro apela para resolver os grandes problemas do nosso tempo, na boca da urna, demonstrando sua indignidade sob a aplicação do mote da piada e da gozação.

Em nosso caso, sem eleição, um “supra-juiz supremo” planeja, pelas interfaces, expandir seu desejo ainda mais abrangente e arrogante, ser o “Imperador do Brasil”. É a parte cômica e trágica em que vivemos e sofremos na realidade implantada no Brasil atual.

A “Sátira dos Poderosos”, desde os tempos de Aristóteles, rende bufonaria, a arte de penetrar nos bastidores e levantar o véu do indizível, sobremodo pondo à mostra as altíssimas e malandríssimas “despesas sigilosas”, a serem ocultas por um século.

Constata-se que no mundo todo, os comediantes se arvoram ao direito de ascender ao Poder Político, pela certeza de haver ganhos. E, em alguns casos, ocorre somente por simpatia do povo, pela falta de um dedo da mão, pela mentira repetida, pelas falácias ou pelos benefícios sociais. Nunca pela escolha consciente.

Os exemplos não são raros. Zelensky, ator cômico, em 2019, candidatou-se à eleição presidencial do país ucraniano e teve vitória esmagadora. Tiririca, nosso amável palhaço, foi outro exemplo, tornando-se o Deputado Federal mais votado do Brasil. Um certo jogador de futebol se elegeu Senador.

Há, outros – ainda mais intrigantes – que pelos apelidos se celebrizaram, nas urnas, no plenário do Congresso e nas Planilhas da Odebrecht, que aqui aparecem misturados, conforme o Google, onde pesquisamos a matéria:

Pastora, Rei, Capitão, General, Lindinho, Amante, Drácula, Caranguejo, Atleta, Astronauta, Quaquá, Roxinho, Clesinho, Esquálido, Índio, Boca Mole, Babel, Kajuru, Bia, Avião, Gremista, Belém, Botafogo, Nervosinho, Baianinho, Barrigudo, Cu de Calango, ou seja: apelidos de eleitos e de qualificados na Operação Lava Jato.

Pelo que se vê, daqui há alguns anos devemos eleger vários personagens de Chico Anísio e avacalhar o Brasil por inteiro, começando pelo “Bento Carneiro – o Vampiro Brasileiro”.

Comecemos, portanto, a metralhar essa “esculhambação jurídica”, aplicando a tal “Vingança Saramalígna”, pra derrubar toda essa caquistocracia brasileira. Que nosso próximo presidente, se não for um Bolsonaro, seja reencarnado como gente, o falecido Bento Carneiro.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CALENDARIANDO

Calendário de folhinhas

Depois das festas dezembrinas há, em muitos de nós, uma busca intensa por um utensílio, até decorativo, que facilite nossa orientação. Tem tanto valor quanto o relógio. Torna-se elemento de grande utilidade nas residências e escritórios: o calendário.

E qual a origem da denominação: calendário e os porquês de sua adoção pela humanidade?

A palavra “calendário” se origina do latim: calendarium, que significava o “Livro de Contas”; ou seja aquele onde se atualizavam os pagamentos e recebimentos, começando no primeiro dia de cada mês e agrupando-se os demais, em sequência matemática.

Daí vem a ideia de um registro do tempo: o “Livro de Contas” organizado. Na sequência, passou-se a registrar as estações e os ciclos naturais, havendo a necessidade de se controlar o tempo através de cadernos, que foram sendo adotados, não somente pelos homens de negócio, mas pelas escolas e famílias.

Nos tempos de meu avô circulavam nas casas de família e escritórios, as “Folhinhas”. Eram calendários sui-generis apresentados em um pequeno bloco, com 365 páginas que a cada dia, eram retiradas do bloquinho, aparecendo nova data.

Vivi o tempo em que nos finais de ano a gente comparecia às livrarias para comprar um bloco de “Folhinhas”, e nas farmácias das quais éramos clientes, recebíamos gratuitamente o “Almanaque Capivarol”.

Almanaque Capivarol

O almanaque era uma publicação distribuída pela indústria do tônico farmacêutico “Capivarol”, que era fabricado com o óleo da gordura de um animal chamado capivara e servia para alívio de qualquer dor. O produto não faltava na “farmacinha” que havia na casa dos meus pais.

Mamãe – sempre brincalhona – costumava dizer que o elixir “Capivarol” eliminava até “dor de corno”.

O folheto era bastante atrativo porque continha informações sobre curiosidades, receitas domésticas, horóscopos, ditos populares e anedotas, servindo como um documento cultural da mais alta valia para colecionadores e a própria História de cada região do Brasil.

O tempo e a evolução dos meios de comunicação, porém, não fizeram desaparecer, de todo, os calendários, que passaram a ser adaptados à modernidade.

Compramos, em 1961, um marcador eletrônico, de cabeceira, um rádio-relógio calendário “Philco” – que indicava a data e a hora, além de servir como despertador musical.

Rádio-relógio “Philco”

Ainda hoje tenho o cuidado de obter, junto ao meu Banco, um desses calendários de propaganda, onde a gente pode ir passando as folhas, mês a mês.

Outro dia, nas minhas buscas, encontrei os porquês dessa tão útil peça e descobri, através de vários livros, que calendários de papel existem desde os tempos antigos; ou seja: há mais de 400 anos e jamais caiu de moda.

Os Sumérios, 2.700 anos antes de Cristo, se orientavam com calendários lunares, que foram aprimorados por Caldeus e pelos Egípcios, que inventaram um outro, o lunar, mais preciso, até que surgiu o Calendário Gregoriano, instituído pelo Papa Gregório XIII, em 1582.

O mesmo sacerdote, considerado um sábio, aperfeiçoou o Calendário Juliano, em 1582, criando o sistema atual, para aproximar o ano civil do ano solar, com regras precisas para os anos bissextos.

Assim, cheguei à conclusão que na versão utilizada globalmente, o calendário atual é um legado de diversas civilizações.

Em suma, a contagem dos dias que formaram o calendário atual, ocorreu há 440 anos. Faz muito tempo que desejo divulgar estes fatos com meus leitores e contar aos meus bisnetos.

Por isso, estivemos juntos, aqui, “calendariando”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DESCARBONIZANDO CONCEITOS

Máquina movida a pistões e rodas-dentadas

Sinto-me um fraco diante de certos fatos! Já bati bielas, mas agora me descarbonizo!

Há poucos dias despedi-me discretamente deste jornal apresentando a Luiz Berto o argumento de que estava muito atarefado, e com idade avançada, muita coisa se complicava. Mas, na verdade, também, não conseguia dominar esta maravilhosa máquina de escrever e seus periféricos.

Enfim, requeri uma “aposentadoria literária”. Ademais, por me sentir um homem sem condições de manobrar os computadores e seus “periféricos”, todos cheios de carretilhas invisíveis, o que se tornou um inferno, entender seu funcionamento.

Charles Chaplin, em seu maravilhoso filme Tempos Modernos, que veio às telas no ano em que eu nasci – 1936 – já mostrava o modelo das “linhas de montagens” para o fabrico de automóveis, onde os trabalhadores realizavam tarefas simples e repetitivas, o chamado”fordismo”.

Mas a revolução foi vertiginosa. Hoje as máquinas fazem tudo e os computadores se tornaram os melhores amigos do homem, perdendo, certos quadrúpedes, esse título.

Mas, os cronistas não resistem às críticas, sugestões e muito menos “protestos”, pelas formas de comentar seus temas. Se por um lado algumas maneiras representam a paga pelo “serviço”, por outro nos levam à “descarbonização mental”; ou seja, mudança de conceitos, como diria Jô Mazzarolo.

Recebi de Flávio Feronato em 13 de dezembro de 2025 um gentil “protesto” a respeito da recente crônica: “Batendo biela”:

Conheço muito veículo que mesmo batendo biela continua no trecho. Como acompanho há muitos quilômetros (anos) os seus sábios artigos, me julgo no direito de protestar contra sua saída do JBF.

Diante do procedimento resolvi mudar, radicalmente, minhas noções, descarbonizando a mente e o espírito. Ou seja – de forma figurada – limpando pistões, bielas e virabrequins do meu pensar.

E diante de outros comentários – aqui não descritos por questão de ética – por força de tais circunstâncias, voltei!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

BATENDO BIELA

Biela, peça-irmã do pistão e do virabrequim

O ditado: “Fulano já está batendo biela!”, exprime semelhanças entre o homem e as máquinas automotoras. Melhor dizendo: o tempo de uso da máquina acaba provocando desgaste nas bielas, bronzinas e no virabrequim.

Nesta crônica – para ilustrar o tema – tenho que fazer referência a um dos grandes oradores que conheci: Álvaro de Souza Melo Filho, quando numa de suas falas mais significativas, durante as comemorações do aniversário dos 80 anos de Capiba, afirmou, com o entusiasmo dos grandes tribunos:

“´Éramos muitos iguais na variedade, variados na unidade e únicos na diversidade. Hoje somos poucos em pleno vigor da atualidade.

Os que continuam, agradecem a Deus esse crédito de vida para as continuadas celebrações que acontecem com frequência e que têm sabor de uma oração de agradecimento.”

E considerando que estou dobrando a principal curva da vida, uma espécie do Cabo da Boa Esperança – a plenitude dos 90 anos – os passos se tornam lentos, a memória vai arquivando em definitivo fatos importantes; e vejo a dificuldade para a execução de pequenas tarefas.

Aproveito este jornal para me despedir, após quase 10 anos de atuação semanal, com crônicas que poderão vir a compor vários livros.

Através destas folhas, dos leitores e colunistas, fiz amigos que vão compensando as grandes perdas dos muitos que já se foram.

Devo reconhecer que um “freio de arrumação” é necessário, porque estou começando a bater bielas, dando trabalho aos meus revisores e ao caríssimo editor, Luiz Berto Filho, que com paciência paternal tem suportado meus “escorregos”.

Não sou tolo para desconhecer que para a minha “carcaça” nem óleo 40 resolve mais.

Despeço-me, hoje, para dar mais atenção aos 4 filhos, 12 netos e 11 bisnetos, espalhados em várias glebas, com os quais comunico com frequência; além dos cuidados que me merecem a esposa, as noras e os adotivos que estão chegando.

É chegado o tempo de me aposentar das obrigações, posto que, a aposentadoria de bancário ficou lá no 8 de junho de 1980.

De lá pra cá, foi continuar dispensando todo o empenho à literatura, editando para terceiros mais de 20 livros, além de 34 títulos publicados e mais três com parceiros ilustres.

Há de ver-se que as pregas invadem meu rosto. Não sou mais aquele tipo hollywoodiano. Já começo a “engomar” (dar passos arrastando os pés, como todo aquele que se sente velho) e há receio de sair sem companhia.

Isto quer dizer que não adianta mais trocar o óleo, porque o virabrequim e as bronzinas já eram…

O que de fato ocorre é que, realmente, já estou, de fato, batendo bielas!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM CASO ALIMONDÍCIO

Azulejo de majólica italiana. (Stock)

Durante breves instantes com uma cidadã de nome Alimonda, lembrei-me que fiquei devendo complementos “alimondícios” ao meu amigo Philippe Gusmão, leitor pernambucano radicado no Rio de Janeiro, que desejava informações sobre um filme caseiro onde apareciam seu pai com um grupo de jovens – os Alimonda – na década de 1950. Mas não consegui.

Há poucos dias, em prosa informal e quase instantânea com moça bela e jovial, num balcão de loja, cujo nome próprio é Alimonda Teresina de Melo Morais, indaguei a origem de nome tão diferente,

Ela me disse que seu nome tinha sido uma “invenção” de seu pai, que trabalhara muitos anos em fábrica afogadense, uma indústria de sabões e óleos vegetais, a Alimonda e Irmãos S.A., no Recife.

E completou informando que ele fez uma espécie de promessa consigo mesmo, para elogiar a primeira filha com o nome da família dos seus patrões, amigo que fora do Dr. José Paulo Alimonda, descendente de italianos.

Mas, para completar a ânsia de sua mãe – continuou a moça – desde os tempos de solteira, quando desejou que constasse, também, na Certidão de batismo, o nome de Teresina, sua terra natal, capital do Piauí.

Conclusão: acabou por ser a moça, de certo modo, incomodada durante seus 28 anos de vida, com uma chatice, aquelas bem cabulosas mesmo, de se ver obrigada a dar explicações às indagações, que eram frequentes, face à originalidade do seu nome.

Todas as vezes que teve de anunciar seu nome para algum cadastramento verbal, havia uma complicação, porque alguém escrevia: Terezinha, tendo ela o dissabor de retocar, informando que, além de ser Teresina, seu nome deveria se escrever com “s” e não com “z”.

A mesma jovem, coitada, em casos especiais, completava a dúvida citando que seu nome de batismo havia sido uma “invenção” de seu pai, por isso foi batizada como Alimonda.

Havia, ainda, quem perguntasse se estava ligada à família Alimonda, dona da fábrica de sabões e óleos vegetais, que existira no bairro dos Afogados.

Mas, como se diz no vulgo, “no fundo, o buraco era ainda mais embaixo”… Seu Morais, pai da moça, desejava batizar a filha com um nome incomum e para atender à esposa, a “pobrecita” saiu da pia batismal com uma Certidão capaz de chateá-la durante todos os anos de vida: Alimonda Teresina.

E para recordar a emblemática amizade de seu pai com os Alimonda, a moça, ao construir sua casa, afixou no alto da fachada uma peça de azulejo de majólica, faiança italiana do Renascimento, inspirada na tradição hispano-mourisca.

Mas continuo tendo que responder aos visitantes, não apenas o que significava aquele emblema em azulejo. Aí lá vinha toda a história novamente.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

GOLPE FEMININO

Marcha da Família – SP – 1964

Na época em que completei 28 anos, ao me dirigir, pela manhã, bem cedo, ao trabalho no Banco do Brasil, tentei passar, de carro, pela Ponte Maurício de Nassau, na ilha-bairro do Recife, mas fui impedido por um tanque de guerra, com vários soldados armados com rifles, nas duas cabeceiras. Procurei um beco perto da Rua Madre de Deus, estacionei o veículo e me mandei a pé.

Fiz o arrodeio, a fim de passar, a pé, pela outra ponte, a Buarque de Macedo. Ao chegar ao Banco fui chamado à Tesouraria para receber das mãos de Véscio, um envelope com um adiantamento em dinheiro, por 15 dias de trabalho. Maravilha!

Passei o recibo e “sebo nas canelas”, porque o Banco Central havia determinado Feriado Bancário, e todo mundo deveria ir pra casa. Necas de trabalho! Mas muita preocupação.

Sentia-se o cheiro ruim no ambiente das ruas e imaginava-se alguma nuvem pesada nos ares do Recife. E o pior era desconhecer o motivo da grande apreensão. O Recife novamente atacado por submarinos germânicos? Previa-se algum quebra-quebra?

Passados tantos anos, recordo alguns momentos incômodos que vivi durante a Revolução de 1964, embora sem sofrer nenhuma admoestação, porque sempre acompanhei a ideologia de meu pai, que era da UDN – União Democrática Nacional,

Retomo à história após a leitura do livro “Eu e Jango”, escrito por João Vicente Goulart, filho do Presidente e sua esposa, D. Maia Thereza Goulart, uma das Primeiras Damas mais belas do País.

De 1964 a 1985, Elio Gaspari, jornalista-escritor brasileiero, escreveu cinco livros comentando, sob a ótica de um historiador, o Regime Militar, movimento político que as mulheres brasileiras iniciaram nas ruas de São Paulo.

As pesquisas e comentários criteriosos, constantes de obras publicadas por vários outros escritores, indicam que tal passeata de protesto foi uma resposta direta ao comício que João Goulart, na época Presidente do Brasil, havia realizado na Central do Brasil, no Rio, onde anunciou a implantação das “Reformas de Base”, bandeira maior do esquerdismo nacional, que acendeu o pavio da revolta das mulheres brasileiras.

Setores conservadores, principalmente as mulheres da sociedade, temerosos do que consideravam ser uma real ameaça comunista, organizaram uma passeata para demonstrar oposição ao Governo e defender a ordem familiar tradicional.

Nota de jornal: São Paulo marcou o começo de mais de 50 manifestações por vários pontos do País, movimento que contou com o apoio de grande parte da Imprensa e do empresariado, forçando Jango a se evadir do Brasil.

Foi quando ocorreu a ruptura. Auro de Moura Andrade, então Presidente do Senado, na madrugada de 31 de março de 1964 declarou vaga a Presidência da República, levando Ranieri Mazilli, Presidente da Câmara dos Deputados, a ocupar o cargo, posse ocorrida em 2 de abril.

Até aí, me digam, alguém deu golpe fardado?! Então não foi golpe e muito menos militar!

Ora, se a posse legal de um presidente civil ocorreu nos primeiros dias de abril, não há como “inocentes desavisados e de má fé” continuarem alardeando que houve um ”Golpe Militar” em 31 de março de 1964 e em seguida instituiu-se uma ditadura.

Mas a petralhada atual sempre distorce a História, criando a narrativa de “Golpe Militar”, quando, em verdade, até se poderia dizer que, se houve golpe, este foi um Golpe Feminino.

O certo seria afirmar que houve sim, o “Golpe Feminino”, cujas consequências forçaram a vacância do cargo presidencial. Simples assim!…