CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ESTOL DE BADALO: QUE POMBADA!…

José Vasconcelos e Jô Soares garganteando

Geraldo, um amigo muito engraçado, sempre que nos encontrávamos, a prosa tinha espaços para a senvergonhice.

Certa manhã sentados num banco na praia de Boa Viagem, em lance discreto, segredou-me:

– Meus divertimentos prediletos são andar aqui na praia, pela manhã, com a patroa, e ao chegar em casa, estando o filho na escola, aproveito para dar uma “pombada”.

Soltei aquele sorriso mal-amanhado, com sinais de quem “comeu e não gostou”. Ao final do papo, meio confuso, indaguei-lhe:

– Que diabo é dar uma “pombada”?

– Ora, Carlos Eduardo: é um ato sexual. O pênis é a pomba. O bate e volta é a pombada!!

Dos meus sonhos realizados, durante estes 90 anos, um deles foi residir num prédio alto. Eu achava bonito ver aquele arranha-céu. Hoje moro num 15º pavimento e torna-se oportuno falar sobre pequenos incômodos; ou seja, comentar sobre uma pombada, no real sentido vernacular.

E falarei também sobre o “Estol de Badalo”, conforme a apresentação teatral do humorista José Vasconcelos, durante um “Programa do Jô”, cujo link pode ser acessado clicando aqui, pois esta crônica, que está mesmo “cheia de graça”.

Certo dia, passava das 12h. quando estávamos nos preparando para almoçar. De repente, batidas fortes de asas dentro de casa. Era uma pomba desvairada, que voando em baixa altura, entrara pela varanda e chegara à sala. Era uma pomba-rola.

A pomba-rola

Rápido esquivei-me e a ave inclinou-se, dando um “rasante”. Depois subiu, tal qual um buscapé. Livrou-se da lâmpada do teto e continuou, sem “Plano-de-voo” definido. Logo deu o primeiro “Estol de Badalo”. Tudo muito rápido e apavorante.

A família ficou inquieta quando gritei: “Pomba à vista!” Pensavam que era uma das minhas brincadeiras. Mas na verdade era uma “penosa” sem destino! Havia passado à jato pela varanda, sem convite, e entrou.

Voava à velocidade da luz e sem controle, endoidando todos nós. Logo em seguida, “arremeteu” e aplicou um “Estol de Badalo”.

Face à aproximação da esposa e do meu filho – ambos com toalhas nas mãos – a pomba resolve dar o “lance de emergência”. Havia endoidado mesmo, quando a gritaria começou a ecoar pelas paredes da casa. O incômodo era real e apavorante.

Correram para pegá-la, mas, sem prática “bombeirística”, complicou-se a busca. Instantes depois, escorraçada, escondeu-se atrás da máquina de lavar e logo foi segurada por meu filho, que a segurou. Que vitória! Pensei eu, iludido.

O nosso herói, cheio de orgulho, exibindo a pomba presa num pano-de-prato, resolve tirar uma foto e foi para o quarto, ficou perto do espelho, a fim de preparar o “cenário”, enquanto chegava o celular e a “fotógrafa”, para postar o episódio na internet. Seria certamente: “A pombada do ano.”

Porém, diante do espelho, o rapaz soltou uma das mãos para ajeitar o cabelo e a ave escapou novamente, mergulhando pra baixo da cama. E tome vassouradas para espantá-la. Até que, por exaustão, talvez, a pobre pediu paz e se entregou.

Como alguns sabem, a pomba-rola pertence à família dos Columbiformes, que são centenas de penosos, tendo esta o bico curto, corpo robusto e cabeça pequena. São excelentes voadores. Originalmente faziam seus ninhos nos paredões situados no litoral, adaptando-se perfeitamente aos paredões dos edifícios urbanos.

Por aí, os amigos já entenderam uma das desvantagens em se morar em prédios altos. Penosas pensam que estão nas falésias e fazem alí suas moradas, seus helipontos.

Finalmente, o momento feliz. A “penosa” foi capturada novamente, tirou fotos com a família, e levada à varanda, levantou voo para a liberdade, saindo ilesa do marcante episódio.

Adaptando a narrativa do amigo Geraldo, podemos dizer: Aí foi mesmo uma pombada!…

No decorrer do “pega pra capar”, houve um momento em que ficamos tão apavorados que abrimos a porta da sala e saímos para o hall, a fim de deixar a intrusa voadora refazer seu ”Plano de voo” e vislumbrar uma opção de escape. Os residentes vizinhos se juntaram para nos ajudar. Mas nada poderiam fazer. Apenas se concentraram no hall.

Findo o drama, uma vizinha, com ares de “salvadora da pátria”, depois de ouvir o relato detalhado do drama, saiu-se com inesperada expressão.

Bem, aí, nova surpresa, pois eu tinha a certeza absolutíssima de que a distinta senhora, não sabia o que estava dizendo, quando improvisou uma graçola e sorrindo mandou ver, aplicando a palavrinha marota do amigo Geraldo:

– Meu Deus, que pombada; verdadeiro Estol de Badalo!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ADEUS DONA FOLIA

Disco na voz de Nelson Gonçalves, Orquestra de Zacarias. Coleção Nirez

O Café Lafayette situava-se na Rua Primeiro de Março, esquina com a Rua do Imperador, no Recife. Oferecia lanches e cafés-pequenos no balcão, internamente, e em mesas de mármore, espalhadas democraticamente pela ampla calçada de pedras portuguesas, sem atrapalhar os transeuntes.

A atração pública era um painel permanente, na calçada, onde podiam ser coladas, gratuitamente, as ofertas de compra e venda de quaisquer produtos, sem custos.

O Lafayette era frequentado por intelectuais, jornalistas e poetas, servindo para encontros da mais distinta gama cultural pernambucana, notadamente jornalistas, dado à proximidade do Diário de Pernambuco, Jornal Pequeno, Diário da Noite e do Jornal do Commercio.

À direita, a marquise do Café Lafayette, vendo-se o painel de anúncios grátis.

Eu tinha uns 10 anos de idade quando, acompanhando meu pai, que estava de férias, fazíamos um lanche no Café Lafayette. Logo, apareceu um amigo dele e sentou-se conosco.

Era um famoso compositor de músicas carnavalescas e tradicional folião, Eduardo Barbosa. O cidadão, respeitosamente, me estirou a mão, sorridente, para o primeiro cumprimento, como se eu fosse gente importante.

Papai me apresentou:

– Este é meu filho, Carlos Eduardo!

E o sorridente compositor, disse:

– Ah, então você é o herdeiro do meu amigo?!

Logo – papai, que não deixava escapar nenhum escorrego vernacular – advertiu o compositor, a título de deboche:

– Não, amigo! Podemos dizer melhor, que ele é meu primogênito, isto porque, não há herdeiro de pai vivo! De fato, só há herdeiro depois da morte de alguém.

Ouviu-se a gargalhada!

Ao sair do Lafayette, papai me contou a história da principal música de Eduardo: “Adeus Dona Folia”, a última que ele havia composto e foi até gravada por Nelson Gonçalves, em disco RCA Victor, fazendo sucesso em vários estados do Brasil.

A inspiração foi significativa. Sua filha única sofrera uma queda e durante três dias ficou sem visão. Havia caído numa calçada e ocorreu um traumatismo na zona cerebral que comanda a visão.

Aflito, Eduardo foi a Igreja dos Martírios, apiedou-se, e fez uma promessa à Santa Clara. Se sua filhinha recobrasse a visão ele se despediria para sempre de quaisquer atividades com relação ao carnaval.

Deixaria de produzir músicas, de colaborar com a organização de blocos ou cair no frevo das ruas.

Por se tratar de dano cerebral temporário, três dias depois a menina voltou à normalidade. Não chegou a ser verdadeiramente um milagre.

Mas, católico obediente, pagou a promessa, que deu motivo à criação da música: “Adeus Dona Folia”.

ADEUS DONA FOLIA – De Eduardo Barbosa

Adeus eu vou me despedir
Não pretendo mais voltar
Levo saudades de você, Dona Folia
E sinto até vontade de chorar.

Eu sempre vivi com você, querida
Numa eterna e verdadeira paixão
Foi você toda alegria de minha vida
Mas tudo não passou de ilusão.

E neste carnaval de 2026, aos 90 anos, vejo que, eu também, já dei meu adeus a Dona Folia.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CARNAVALESCAMENTE FALANDO

Parte inicial da partitura do “Vassourinhas”

Aproximando-se o Carnaval cabe ao cronista expandir alguns conhecimentos sobre detalhes da parte musical da mais genuína das festas brasileiras, sobremodo, músicas que nasceram, foram reformadas, mas permanecem sucesso ainda hoje. “Vassourinhas”, símbolo do nosso reinado de Momo, além de outras, apresentadas pela Spok Frevo Orquestra.

Lá vem a História!

Segundo entrevista que fiz com o veterano Maestro João Pires de Menezes, que recentemente completou 100 anos de idade, poucos sabem que o frevo Vassourinhas nasceu em 6 de janeiro de 1909, numa casa modesta, no arrabalde do Porto da Madeira, antigo ancoradouro do rio Beberibe, local que era a sede do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas.

Tempos depois a música viria a se tornar um clássico, sobressaindo-se pelo arranjo do sax de Felinho – que gravou seu primeiro disco – e depois passou a emoldurar, de maneira insuperável, a maravilhosa melodia, com seus incríveis arranjos, exatamente aquela cujos compositores são pouco conhecidos: o maestro Mathias da Rocha, com versos de Joana Batista Ramos, conforme atesta, também, o Dicionário Cravo Albim.

Joana era uma senhora negra e pobre, empregada doméstica, filha de escravizados. Foi a letrista da Marcha nº 1, do Vassourinhas, antiga denominação do famoso frevo, imortalizado como Vassourinhas.

Todavia sabemos que Vassourinhas é mais frevo quando interpretado por Felinho – Félix Lins de Albuquerque – maestro, compositor, flautista e saxofonista pernambucano, nascido em 1895, em Bonito, onde também nasceu Nelson Ferreira, outro expoente de nossa música. Felinho faleceu no Recife, em janeiro de 1980.

Aliás, há quem pense ser de autoria de Felinho, o Vassourinhas, a retumbante obra musical produzida especialmente para o saudoso Clube Vassourinhas. Porém a letra é de Joana Batista Ramos e a música, do maestro Mathias da Rocha. Seu nome original não era apenas Vassourinhas, mas Marcha Nº 1, pertencente ao Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas.

Em épocas remotas, quando surgiram grandes agremiações profissionais, cada uma tinha seu clube de carnaval e geralmente, suas músicas-hino; daí surgiu o Vassourinhas, formado pela turma dos mais antigos qa vassoura, hoje denominados vassoureiros ou garis.

Que ainda hoje são bem lembrados: Blocos das Flores Brancas, o mais antigo; Turunas de São José, Pirilampos de Tejipió, Blocos das Pás Douradas, Quero Mais, Amantes de Glória, Andaluzas, Madeiras, do Rosarinho, Apôs Fun e muitos outros que não chegaram a permanecer, senão em gravações de discos e letras de músicas modernas, criadas por compositores de destaque, como Antônio Maria, Luiz Bandeira e muitos outros.

A música Vassourinhas era cantada quando os foliões regressavam à sede do clube para recolher os estandartes, por isso, era chamada também de “Marcha Regresso”. Com o passar dos anos, outras letras surgiram em cima da canção original de Joana Batista Ramos e Mathias da Rocha.

Vejamos parte da letra original, já um tanto esquecida por nossos cantores-foliões.

Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Agora isto não! Ah, isto não!
Tu bem sabes o compromisso
Ah, isto não! Não pode ser
A mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer

Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Ah, isto não! Ah, isto não!
Tu bem sabes o compromisso
Ah, isto não! Não pode ser
A mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer

Ah! Reparem meus senhores
O pai desse pessoal
Que nos faz sair à rua
Dando viva ao carnaval

Com o passar dos anos, outras letras surgiram alterando a criação original e chegaram até a ser gravadas. Mas, como naqueles tempos não havia registro de Direito Autoral, foram ocorrendo alterações das letras.

Segundo nota de Cravo Albim um dos maiores dicionaristas de música brasileira e dados colhidos na obra de Beatriz Kauffmann, em 1945, o apresentador compositor e cantor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, conhecido por “Almirante” (Henrique Foreis Domingues) descobriu que a letra da canção de roda se encaixava corretamente na de Joana Batista e usou a segunda estrofe escrevendo mais duas outras.

O disco foi “Continental” nº 15.279-B. (Link pra ouvir na Google). Esta versão de Almirante para o frevo Vassourinhas foi a primeira que apareceu gravada no Rio de Janeiro. O sucesso foi tão amplo que a nova letra se espalhou pelo Brasil inteiro. Sem esta adaptação e o arranjo de Almirante, provavelmente o frevo Vassourinhas teria ficado no anonimato.

Aproveitando a melodia de Mathias da Rocha outras belas letras se notabilizaram, como aquela que foi adaptada por “Almirante”:

Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para meu, para meu bem passear

A tristeza, Vassourinhas
Invadiu meu coração
Ao pensar que talvez nunca
Nunca mais te veja, não

Mas, com a evolução das artes musicais, Vassourinhas se engrandeceu com novos arranjos, letras, gravações e outros solistas, espalhando pelo mundo o hino do povo de Pernambuco.

Aproveitamos para louvar aqui o solo de sax do Maestro Spok. Sobressaem-se, em nossa época, os shows apresentados pela Spok Frevo Orquestra em vários países. Há pouco tempo, esta orquestra levantou a platéia no Teatro Municipal de São Paulo, ao interpretar Vassourinhas com novos arranjos.

Meu amigo Inaldo Cavalcanti de Albuquerque – o Maestro Spok – parece que recebeu a divina missão de continuar difundindo os novos frevos, divulgando pelo mundo a arte mais significativa de Pernambuco.

Inaldo formou uma orquestra que se tornou uma jazz band, composta por dezoito músicos, formados no Recife, em 2001, cujo objetivo é divulgar o frevo no Brasil e no mundo.

Passo de Anjo é uma dessas melodias. Frevo de sua autoria e João Lira, que foi eleito pelo jornal O Estado de S. Paulo como um dos três melhores frevos lançados em 2004 e já é considerado o Vassourinhas de nossa época.

Que o grande Spok receba nosso abraço, carnavalescamente.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O GRANDE MUDO

Cadete Solânio Paes, da Academia Militar

Jornalista iniciante em 1952, eu me inebriava com os artigos do jornalista David Nasser, na revista “O Cruzeiro”, principalmente por sua arte literária em saber concluir seus artigos com referências ao título, modelo que venho adotando, nestas crônicas, sempre que possível.

De uma das reportagens publicadas pelo magistral escritor, destaco uma intitulada: “O Grande Mudo”, referindo-se ao Exército Brasileiro, em época, bem semelhante à que sofremos no momento atual.

David Nasser

Segundo notas da socióloga Letícia Moraes, no início dos anos 60, houve um endurecimento político no Brasil, baseado num aparato repressivo construído, com o objetivo de cercear e punir idéias políticas.

Isto quer nos parecer uma fase idêntica à situação atual.

Sendo cronista político verdadeiramente genial e destemido, David Nasser, então diretor da revista “O Cruzeiro”, debateu-se ativamente para a deposição do presidente esquerdista João Belchior Marques Goulart, em sintonia com o pensamento da respeitável imprensa da época.

A parte mais importante da campanha de David Nasser, contra a introdução do comunismo no Brasil, foram os argumentos de vários artigos, alertando os líderes das classes sociais, trabalhadoras, empresariais, o povo e o Exército, para um posicionamento enérgico diante da situação, que poderíamos enfrentar.

A Campanha se concentrava no argumento de que só a intervenção militar seria capaz de depor o governo João Goulart, impedindo a chegada do “perigo comunista” e preservando as liberdades democráticas.

A batalha de David Nasser resultou na “Marcha da Família pela Liberdade”, movimento que invadiu as ruas e levantou o brio dos brasileiros, contando com o apoio de nossas Forças Armadas, para nos devolver a democracia.

Nossos dias revelam algo semelhante, quando sofremos a ditadura já instalada pelo judiciário, cargos públicos e universidades aparelhados, além um péssimo governo, fraco Congresso, associação a grupos de narcotraficantes e a corrupção generalizada. Mas, surge agora, a salvação!

Deputado Nikolas Ferreira

O jovem deputado federal Nikolas Ferreira, sem a motivação de partidarismos, gritando por uma anistia ampla dos presos políticos, liderou uma caminhada por mais de 240 km, gritando: “Acorda Brasil!”, concentrando mais de 1 milhão de pessoas na Praça do Cruzeiro, em Brasília.

E diante de tantas irregularidades os mais antigos brasileiros constatam que nosso glorioso Exército de Caxias, continua se comportando, diante de todo esse descalabro, como um grande mudo.

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O 5º PODER

A juventude, o 5º Poder da República

Aos 15 anos, quando fui com meu pai,receber o jornalista Carlos Lacerda, diretor do jornal Tribuna da Imprensa, no Aeroporto Internacional dos Guararapes, fiquei convicto de que a Imprensa era o 4º Poder da República.

De imediato papai teve acesso ao ilustre visitante, por ser membro do Diretório Regional da UDN – União Democrática Nacional, em Pernambuco.

O entusiasmo de menino levou-me a questionamentos sobre as razões daquele cidadão aglutinar tantas pessoas em seu redor e qual o significado do título do seu jornal – Tribuna da Imprensa.

A tribuna, ao que vim entender depois, era o púlpito do povo. Local onde as pessoas protestavam ou aplaudiam seus líderes políticos.

Carlos Lacerda, falecido em 1977, foi um influente jornalista, escritor e político brasileiro, figura central na oposição a Getúlio Vargas e articulador de momentos cruciais da história política brasileira.

O entusiasmo que movia meu pai pela trajetória de Carlos Frederico Werneck de Lacerda se relacionava com suas lembranças do meu avô, João Pacífico Ferreira dos Santos, que foi alvejado na sacada do Diário de Pernambuco – a tribuna de muitos – durante a Campanha de Dantas Barreto, na época em que se tornou governador de Pernambuco.

Lacerda era um dos grandes trunfos de um movimento permanente que se conhecia como o 4º Poder da República. Era o tempo dos jornalistas que investigavam, escreviam e publicavam provas dos pecados dos políticos.

Não tinham medo de autoridades nem se vendiam.

Hoje tenho vergonha do que se faz através da Imprensa, que deixou de ser a tribuna do povo, para vender suas páginas, imagens de suas câmeras e microfones a governos da atualidade brasileira.

Mas, nem tudo está perdido! Surgiram as Redes Sociais e com elas a oportunidade de todos os brasileiros se manifestarem, expressando suas opiniões, despertando valores e comprovando fatos, não dando sossego aos governantes desonestos.

Ainda mais e sobretudo, utilizando centenas de canais caseiros, espalhados pelo País.

Nos dias presentes, com as Redes Sociais e os smartphones, há novidade, pois até os pequeninos podem participar, de alguma forma, do que acontece no Brasil e os mais maduros sugerem melhorias.

A Imprensa tradicional ficou num segundo plano, perdendo muito em prestígio e qualidade de notícias.

E com a participação de pessoas de todas as classes, profissões e lugares, é o povão que se manifesta livremente.

Não se pode negar que surgiu um movimento forte, como se fossem várias tribunas, o que bem poderemos identificar como o 5º Poder da República!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FILHO DA MÃE

Exemplo de homem sem escrúpulo

Estando eu todo fagueiro, quase radiante, à espera de registro na Portaria de um hotel em Curitiba, quando pedi à moça para preencher, por mim, a Ficha de Hóspede.

Justifiquei que minha letra já estava “pra lá de Baghdad”; ou seja, um tanto trêmula, quase hieroglífica, dificuldade de quem está convivendo com a fase dos 90 anos de idade e os dedos já tremem mais do que “vara verde”.

Holenka, uma galega de fino trato, começou a registrar meus dados obedecendo as linhas do questionário impresso, realçando sua bela caligrafia itálica, quase artística.

Foi perguntando e fui informando. No quesito: Filiação, no entanto, solicitou apenas o nome de mamãe, ao que alertei:

– Holenlka, falta acrescentar o nome de meu pai!

Surpresa! A criaturinha dos “cabelos de milho” informou que não precisava. Porque não constava no questionário. Em tons muito cordiais, discutimos e fui cientificado que naquele quesito não era mais exigida a definição paterna.

– Quer dizer que sou só “filho da mãe”?

Solicitou-me um instante e retornou com o gerente para dirimir a questão e ilustrar os “explicativos”. Fui, então, cientificado que pela legislação atual realmente não era mais exigido o nome do genitor.

Outro episódio curioso foi quando há poucos dias estive numa Emergência Médica e na prescrição dos medicamentos constava, na parte inicial da folha: Nome do paciente, data de nascimento e nome da mãe.

Novo constrangimento!

Deixei o consultório convicto que, para algumas empresas, inclusive hospitais e clínicas, apenas, “filhos da mãe”, que é semelhante a ser, cada um, “Filho de uma égua.”

Não que eu seja realmente um “filho da mãe”, porém, se assinar essas fichas de hoteis, assumirei a barbaridade que nem faz sentido.

E tem mais, o velho Arthur Saraiva Lins dos Santos, meu pai e outros dedicados genitores, teriam perdido mesmo a representatividade paternal?

Reporto-me, assim, ao vulgo. Ser “Filho da Mãe é estar como um filho acusado de ser “um coisa ruim”; representa um xingamento terrível.

“Filho da Mãe” tornou-se palavrão, porque, segundo Aurélio, historicamente, remete à figura do filho ilegítimo, de quenga safada; cabra considerado traiçoeiro, de origem incerta e desonrosa. Um bosta qualquer, sem escrúpulos. Capaz até de boa reprimenda:

Aquilo é um Filho da Mãe!

Com base na “Teoria de Bastardia”, em tempos antigos, a legitimidade de uma criança dependia do reconhecimento paterno. Por isso, ocorreu minha reação, lamentando o constrangimento de Holenka, que teve que convocar seu superior hierárquico, porque não desejei ser um ”Filho da mãe”, como se diz no vulgo: uma pessoa sem escrúpulos.

Sidcley Jamaica me disse que o termo escrupuloso é uma das palavras mais fascinantes do nosso vocabulário. Sua definição primária é: “uma dúvida ou hesitação que atinge a consciência de que algo está errado”.

O contrário dessa palavra é semelhante a uma arma carregada, pronta para atirar: o inescrupuloso.

Kutzjank, o habilidoso gerente, com fala meio macarrônica, bem ao estilo de descendente de eslavos, compreendendo meu respeito filial, convidou-me para um drink na sala de refeições do hotel e emocionado, contou sua tragédia de vida, por não haver conhecido seu pai, que faleceu num campo de batalha da II Guerra Mundial.

Fiz comentários sobre a maioria dos políticos do nosso país, onde o escrúpulo se realça até pelas novelas.

Quase chorei abraçado com o galego. Ao término, nos chega Holenka com o documento retificado, com a solução. Escreveu ao pé da Ficha de Inscrição de Hóspede:

P.S. – Filho do sr. Arthur Saraiva Lins dos Santos, brasileiro, casado, jornalista, residente no Recife – PE.

Taí quanto vale a reação cordial de não querer se passar por qualquer pessoa sem escrúpulos; algum “Filho da mãe!”

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DA LÍNGUA E SEUS DERIVADOS

Tá pra tu!…

Aos 10 anos fui severamente advertido por minha mãe porque estirei a língua para uma coleguinha da escola. Nos idos de 1940, o ato representava um palavrão silencioso, a “mímica fulminante”.

A propósito de palavrões, volto no tempo para contar a historinha do primeiro palavrão que minha língua soltou, aos cinco anos.

Tentando fazer uma engenhoca aproveitando uma caixa de madeira, arranjei uns pregos e um pequeno martelo e mandei brasa. Numa das marteladas, deixei o dedo no lugar da cabeça do prego e tome lapada!

Sem verter uma só lágrima, corri pra cozinha e perguntei a “Teteza”: “Tia, eu já posso chamar pinóia?” E com a complacência dela, achando a maior graça, mandei ver. Dei um grito de revolta: “Ora pinóia!!!”.

A língua – me parece – ainda não foi bem estudada pelos cronistas; apenas pelos antropólogos. Primeiramente que é o órgão do corpo humano da mais alta importância, face às suas múltiplas funções; E bota função nisso.

Kant afirmou: “Quando o vinho entra a língua se solta.” Bem, aí está o perigo, porque a língua não é o órgão pensante!

Há um bocado de tempo fiz parte de uma troça carnavalesca, formada por jornalistas, cujo título era: “Língua Ferina”. Nada mais próprio do que se qualificar a profissão com expressão tão mordaz.

Em suma poderemos afirmar que vai longe a lista da língua e seus derivados.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

VINGANÇA SARAMALIGNA

Bento Carneiro, o vampiro brasileiro

Pra começar, devo advertir os leitores de que qualquer semelhança com “pessoa viva” terá sido de propósito.

No Brasil se implantou, há muito tempo, a caquistocracia. Nome feio danado! E o pior é o que ele exprime: o modelo de governo em que há predominância de pessoas com péssimas qualidades, sobretudo, a malandragem.

Caquistocracia indica “o governo dos piores”. Apareceu no século XVII para descrever a ascensão política de pessoas menos qualificadas e sem escrupulosos.

Inspirou-me um leitor de Fortaleza, que citou esse “palavrão”. É fácil entender, através da sátira, que o povo brasileiro apela para resolver os grandes problemas do nosso tempo, na boca da urna, demonstrando sua indignidade sob a aplicação do mote da piada e da gozação.

Em nosso caso, sem eleição, um “supra-juiz supremo” planeja, pelas interfaces, expandir seu desejo ainda mais abrangente e arrogante, ser o “Imperador do Brasil”. É a parte cômica e trágica em que vivemos e sofremos na realidade implantada no Brasil atual.

A “Sátira dos Poderosos”, desde os tempos de Aristóteles, rende bufonaria, a arte de penetrar nos bastidores e levantar o véu do indizível, sobremodo pondo à mostra as altíssimas e malandríssimas “despesas sigilosas”, a serem ocultas por um século.

Constata-se que no mundo todo, os comediantes se arvoram ao direito de ascender ao Poder Político, pela certeza de haver ganhos. E, em alguns casos, ocorre somente por simpatia do povo, pela falta de um dedo da mão, pela mentira repetida, pelas falácias ou pelos benefícios sociais. Nunca pela escolha consciente.

Os exemplos não são raros. Zelensky, ator cômico, em 2019, candidatou-se à eleição presidencial do país ucraniano e teve vitória esmagadora. Tiririca, nosso amável palhaço, foi outro exemplo, tornando-se o Deputado Federal mais votado do Brasil. Um certo jogador de futebol se elegeu Senador.

Há, outros – ainda mais intrigantes – que pelos apelidos se celebrizaram, nas urnas, no plenário do Congresso e nas Planilhas da Odebrecht, que aqui aparecem misturados, conforme o Google, onde pesquisamos a matéria:

Pastora, Rei, Capitão, General, Lindinho, Amante, Drácula, Caranguejo, Atleta, Astronauta, Quaquá, Roxinho, Clesinho, Esquálido, Índio, Boca Mole, Babel, Kajuru, Bia, Avião, Gremista, Belém, Botafogo, Nervosinho, Baianinho, Barrigudo, Cu de Calango, ou seja: apelidos de eleitos e de qualificados na Operação Lava Jato.

Pelo que se vê, daqui há alguns anos devemos eleger vários personagens de Chico Anísio e avacalhar o Brasil por inteiro, começando pelo “Bento Carneiro – o Vampiro Brasileiro”.

Comecemos, portanto, a metralhar essa “esculhambação jurídica”, aplicando a tal “Vingança Saramalígna”, pra derrubar toda essa caquistocracia brasileira. Que nosso próximo presidente, se não for um Bolsonaro, seja reencarnado como gente, o falecido Bento Carneiro.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CALENDARIANDO

Calendário de folhinhas

Depois das festas dezembrinas há, em muitos de nós, uma busca intensa por um utensílio, até decorativo, que facilite nossa orientação. Tem tanto valor quanto o relógio. Torna-se elemento de grande utilidade nas residências e escritórios: o calendário.

E qual a origem da denominação: calendário e os porquês de sua adoção pela humanidade?

A palavra “calendário” se origina do latim: calendarium, que significava o “Livro de Contas”; ou seja aquele onde se atualizavam os pagamentos e recebimentos, começando no primeiro dia de cada mês e agrupando-se os demais, em sequência matemática.

Daí vem a ideia de um registro do tempo: o “Livro de Contas” organizado. Na sequência, passou-se a registrar as estações e os ciclos naturais, havendo a necessidade de se controlar o tempo através de cadernos, que foram sendo adotados, não somente pelos homens de negócio, mas pelas escolas e famílias.

Nos tempos de meu avô circulavam nas casas de família e escritórios, as “Folhinhas”. Eram calendários sui-generis apresentados em um pequeno bloco, com 365 páginas que a cada dia, eram retiradas do bloquinho, aparecendo nova data.

Vivi o tempo em que nos finais de ano a gente comparecia às livrarias para comprar um bloco de “Folhinhas”, e nas farmácias das quais éramos clientes, recebíamos gratuitamente o “Almanaque Capivarol”.

Almanaque Capivarol

O almanaque era uma publicação distribuída pela indústria do tônico farmacêutico “Capivarol”, que era fabricado com o óleo da gordura de um animal chamado capivara e servia para alívio de qualquer dor. O produto não faltava na “farmacinha” que havia na casa dos meus pais.

Mamãe – sempre brincalhona – costumava dizer que o elixir “Capivarol” eliminava até “dor de corno”.

O folheto era bastante atrativo porque continha informações sobre curiosidades, receitas domésticas, horóscopos, ditos populares e anedotas, servindo como um documento cultural da mais alta valia para colecionadores e a própria História de cada região do Brasil.

O tempo e a evolução dos meios de comunicação, porém, não fizeram desaparecer, de todo, os calendários, que passaram a ser adaptados à modernidade.

Compramos, em 1961, um marcador eletrônico, de cabeceira, um rádio-relógio calendário “Philco” – que indicava a data e a hora, além de servir como despertador musical.

Rádio-relógio “Philco”

Ainda hoje tenho o cuidado de obter, junto ao meu Banco, um desses calendários de propaganda, onde a gente pode ir passando as folhas, mês a mês.

Outro dia, nas minhas buscas, encontrei os porquês dessa tão útil peça e descobri, através de vários livros, que calendários de papel existem desde os tempos antigos; ou seja: há mais de 400 anos e jamais caiu de moda.

Os Sumérios, 2.700 anos antes de Cristo, se orientavam com calendários lunares, que foram aprimorados por Caldeus e pelos Egípcios, que inventaram um outro, o lunar, mais preciso, até que surgiu o Calendário Gregoriano, instituído pelo Papa Gregório XIII, em 1582.

O mesmo sacerdote, considerado um sábio, aperfeiçoou o Calendário Juliano, em 1582, criando o sistema atual, para aproximar o ano civil do ano solar, com regras precisas para os anos bissextos.

Assim, cheguei à conclusão que na versão utilizada globalmente, o calendário atual é um legado de diversas civilizações.

Em suma, a contagem dos dias que formaram o calendário atual, ocorreu há 440 anos. Faz muito tempo que desejo divulgar estes fatos com meus leitores e contar aos meus bisnetos.

Por isso, estivemos juntos, aqui, “calendariando”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DESCARBONIZANDO CONCEITOS

Máquina movida a pistões e rodas-dentadas

Sinto-me um fraco diante de certos fatos! Já bati bielas, mas agora me descarbonizo!

Há poucos dias despedi-me discretamente deste jornal apresentando a Luiz Berto o argumento de que estava muito atarefado, e com idade avançada, muita coisa se complicava. Mas, na verdade, também, não conseguia dominar esta maravilhosa máquina de escrever e seus periféricos.

Enfim, requeri uma “aposentadoria literária”. Ademais, por me sentir um homem sem condições de manobrar os computadores e seus “periféricos”, todos cheios de carretilhas invisíveis, o que se tornou um inferno, entender seu funcionamento.

Charles Chaplin, em seu maravilhoso filme Tempos Modernos, que veio às telas no ano em que eu nasci – 1936 – já mostrava o modelo das “linhas de montagens” para o fabrico de automóveis, onde os trabalhadores realizavam tarefas simples e repetitivas, o chamado”fordismo”.

Mas a revolução foi vertiginosa. Hoje as máquinas fazem tudo e os computadores se tornaram os melhores amigos do homem, perdendo, certos quadrúpedes, esse título.

Mas, os cronistas não resistem às críticas, sugestões e muito menos “protestos”, pelas formas de comentar seus temas. Se por um lado algumas maneiras representam a paga pelo “serviço”, por outro nos levam à “descarbonização mental”; ou seja, mudança de conceitos, como diria Jô Mazzarolo.

Recebi de Flávio Feronato em 13 de dezembro de 2025 um gentil “protesto” a respeito da recente crônica: “Batendo biela”:

Conheço muito veículo que mesmo batendo biela continua no trecho. Como acompanho há muitos quilômetros (anos) os seus sábios artigos, me julgo no direito de protestar contra sua saída do JBF.

Diante do procedimento resolvi mudar, radicalmente, minhas noções, descarbonizando a mente e o espírito. Ou seja – de forma figurada – limpando pistões, bielas e virabrequins do meu pensar.

E diante de outros comentários – aqui não descritos por questão de ética – por força de tais circunstâncias, voltei!