CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ANTIGAMENTE

Mídia externa de bonde com reclame de Spalt,, Recife, 1940/1950.

Essa palavra tão conhecida – antigamente – exerce sobre nós, falantes e escreventes, momentos importantes, capazes até de compensar falhas de memória importantes, porque substituem, de certo modo, as datas. Excetuam-se, porém, quando se escreve em documentos, porque, as datas são os fundamentos do que se deseja comprovar. Os discursantes, usam-na para suprir alguma deficiência momentânea quando o juízo “dá o branco”, no instante em que é necessário salientar a data.

Antigamente, tornou-se uma espécie de artifício; virou “tábua de salvação”; uma escapatória decente para se completar uma narração.

É o meu momento de lançar mão da palavra antigamente, que conforme os especialistas nos lembram, é um advérbio de tempo; quando se precisa dizer, sem datar: “em tempos passados”, “outrora”, “em época anterior à atual”, “no passado”; ou mesmo para atender a um “escorrego de memória”.

Não significa necessariamente um passado muito distante. Entende-se ser um período anterior ao presente. Há ainda uma observação interessante para uma crônica: “Antigamente é uma palavra essencialmente relativa, porque, para uma pessoa jovem, algo ocorrido há 20 anos, pode ser antigamente”.

Para um historiador, o termo pode remeter a períodos muito mais recuados, assim como: há anos, jurássicos, que englobam 56 milhões de anos. É antigamente pra valer!

Podemos até considerar a palavra como sinônimo: outrora, dantes, em tempos passados, no passado ou outrora. Na linguagem para uma crônica, antigamente, costuma carregar também um sentido afetivo, saudoso; evocando costumes, pessoas, lugares e modos de viver que já nos esquecemos.

Esta “enrolada” toda foi para atualizar o leitor quanto ao tema complementar: os tempos dos reclames nos bondes, a propaganda no Rádio, a publicidade nos jornais e a promoção de vendas. Assim, vamos a algumas propagandas inesquecíveis das placas vistas na lataria dos bondes elétricos, nos jornais e emissoras de rádio.

De analgésico: Spalt era um famoso comprimido para dores, com o célebre slogan publicitário: “Com Spalt na boca, a dor é sopa“. De aguardente: “No frio ou no calor, Chica Boa é um amor”. De fogão: “Dako na cozinha, felicidade no lar”. De energia – “Seu Kilowatt, o criado elétrico”. De sapatos – “Clark. Quem experimenta, não troca!”. De geladeira – “Gelomatic a querosene, a chama que gela“.

Biscoitos – Essa, exclusivamente apresentada na modinha: “Todo gordo quer emagrecer, todo magro quer engordar, para o gordo, não tem que fazer, para o magro: Biscoitos Pilar.” Antigamente se fazia propaganda com os reclames. Hoje, dispomos de inimagináveis recursos, em mídias mais atraentes. Mas nunca me saíram da cabeça aquelas de antigamente.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MARTELO SEM VERGONHA

O martelo e o malhete. Destinações bem diferentes

Sou neto de um Juiz de Direito, mas não o conheci. O Dr. Pacífico dos Santos, era advogado, jornalista e professor. Tem até nome de rua no bairro do Paissandu, de tão ilustre que era.

Ouvi meu pai representar no Teatro, cenas de júri. Mas nunca me animei para ser advogado. As Catilinárias, uma das dificuldades que me emparedavam. Ainda hoje trepido na base ao me lembrar do latim: Catilinam Orationes Quattuor, os célebres discursos de Marco Túlio Cícero, cônsul romano. Devia ser um barato!

Anos mais tarde, escrevi biografias e editei vários livros para advogados. Com eles aprendi muito e cheguei à conclusão de que se trata de uma profissão difícil e ingrata. E ser juiz, mais ainda!

Quando se ouve numa sessão a pancada do malhete – que muitos chamam de martelo do juiz – sabe-se que a partir daquele momento se exige ordem e respeito. Reina a autoridade e a necessidade de silêncio. Para anunciar o final da reunião, o juiz usa, novamente, o malhete, anunciando a decisão do Conselho de Justiça.

Bater o martelo não é como se entende nos dias de hoje: o fechamento de qualquer contrato, o final de um processo, coisas assim.

O Juiz bateu o martelo! Não; não bate. Juiz bate o malhete! Poucos sabem disso e até advogados pronunciam a decisão judicial citando o martelo e não o malhete, contribuindo para a avacalhação do Direito e virando o texto pelo avesso.

Assim, essa história de “bater o martelo” no fechamento de uma negociação não é “legal”. É gíria. “Tá legal?” Aliás, decisão legal é aquela que transitou em julgado.

Com o tempo, até as elites foram se acostumando com expressões chulas, erradas. E haja sufoco para suportá-las!

Menciono aqui algumas palavras e frases vulgares, que desmerecem a ciência do Direito, principalmente algumas pronunciadas por advogados, durante prosas descontraídas, deixando para trás belos brocardos em latim.

Vamos a algumas referências colhidas em processos que andei folheando nos meus tempos de Repórter Policial:

Lambança jurídica; falcatrua sexual; elemento vivaldino; camarada inoperante; deletério e metido a justiceiro; jurisprudência viciada; bode “explanatório”; martelada do juiz; engembração da verdade; desaforado meliante.

Em tempos outros, corriam frouxas as “traduções” mais esdrúxulas, circulantes entre a meninada que morava nas proximidades do Largo da Paz:

Dura Lex sed Lex – (No cabelo só Gumex)

Alea jacta est (o baralho tá na mesa)

O Processo vai ficar para as calendas gregas.

Esta, na expressão popular, significa adiamento para o dia de São Nunca.

O termo “calendas” referia-se ao primeiro do mês no calendário, mas os gregos não possuíam esse termo. Logo, marcar um compromisso para as “calendas gregas” era marcar um dia inexistente.

Outra vulgaridade oriunda da avacalhação do Direito: “Vou senta-lhe a marreta”, coisa semelhante a se dizer que alguém vai perder a questão jurídica. Geralmente é o solicitador da causa que se vangloria, antes do trânsito em juízo. Equivalente a: vou “meter-lhe o pau.”

Têmis, a deusa grega da Justiça. Praça dos Três Poderes, Brasília

Nos anos 1970, ao visitar a Praça dos Três Poderes, em Brasília, acompanhando um modesto amigo pernambucano, vimos a estátua que tem olhos vendados e a espada no colo. De imediato ele exclamou:

“Pra que uma criatura cega com uma espada? Seria melhor o martelo do Juiz!”

Mal sabia ele que dali a algumas décadas, aquela estátua da deusa Têmis, seria um símbolo enganoso do que é a Justiça Superior brasileira.

A estátua fincada em frente ao Supremo Tribunal Federal (agora tão ”levado da breca”) representa: Têmis, a deusa grega da Justiça. Foi esculpida por Alfredo Ceschiatti, brasileiro nascido em Minas Gerais, a partir de um bloco monolítico de 3,3 metros de altura.

A venda nos olhos representa a imparcialidade; a espada, a força da Justiça. Mas, curiosamente, ela não segura a tradicional balança. Creio que não foi esquecida pelo escultor. Ele, certamente, já previa que ela viria a ser avacalhada, diante do desrespeito dos poderosos atuais.

Boa hora para se dizer, como no vulgo: faltou, na peça, não o malhete de juiz, mas outra peça justiceira: o martelo sem vergonha.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DEIXA QUE EU CHUTO!…

Sola dos pés após o jogo na Salina

Não poderia faltar às minhas notas biográficas o tempo do nosso futebol juvenil, na Salina do Capibaribe, onde jogávamos de pés descalços.

O piso era excessivamente salinizado e não se via no solo as cores da areia ou do barro, mas apenas o cinzento-claro do sal marinho.

Sendo o rio perto do mar, a zona recebia forte influência do Atlântico, que salgava as águas do rio, formando nas margens, as salinas, piso plano e nivelado.

Nos dias seguintes às nossas “peladas”, o “castigo”. Apareciam os problemas: vermelhidão, pequenos cortes na sola dos pés e aquela queimação infame ao dar passos, mesmo calçados.

A turma dos jogadores de 16 anos pra cima, ávida por se manter ativa no treinamento na pelota, costumava reunir dois times, aproveitando meninos como eu – na faixa dos 12 anos, que eram misturados com os jogadores mais experimentados.

Alguns, com físicos de homens feitos, já candidatos a aprendizes do Santa Cruz Futebol Clube, usavam os meninos entre 14 e 16 anos para completar dois times e treinar.

Este colunista era muito rápido nas carreiras, mas ruim nos dribles. João Viola, com mais de 18 anos, era homem feito e aproveitava minha fragilidade.

Quando notava que eu iria chutar para a rede, gritava: “Deixa que eu chuto!” Era quando “o esférico” se acomodava lá no fundo do “entrançado”. E assim eu fui perdendo oportunidades de vir a ser um Ronaldinho Gaúcho.

Só mais tarde vim a entender que aqueles “malandros” nos enganavam, dizendo que eram formadores de craques para o futebol profissional.

Na verdade, treinavam com a gente. E nós, os “armadores” preparávamos as jogadas para eles fazerem os gols. Depois saiam se gabando da quantidade que faziam.

Os tempos passaram, os praticantes infanto-juvenis cresceram e, como eu, muitos deram adeus às ilusões do futebol. Carregamos, então, nossos fardos e assumimos várias profissões. Aos 14 anos, integrei-me à vida bancária e permaneci até a aposentadoria.

Assim é a vida. Temos que dar “passes” para os outros e não malandrear, sob o grito: “Deixa que eu chuto”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O IMPOSTO DO SELO

Bibi Ferreira, atriz brasileira e o ator Herval Rossano

Fui contabilista e na Faculdade de Ciências Econômicas de Pernambuco, estudei as várias formas dos governo, no sentido de “lascar” os humanóides com novas versões do “Quinto dos Infernos”.

O “Quinto”, assim apelidado pelo povão, era um tributo correspondente a 20% de todos os minerais extraídos das minas do Brasil, então colônia de Portugal. A cobrança foi instituída para garantir o exorbitante lucro sobre as riquezas encontradas principalmente em Minas Gerais. Era um verdadeiro inferno, apertar ainda mais os empreendedores com tão vultoso valor; daí a expressão: “Quinto dos Infernos”.

Conforme os “Planos de Conta”, da Contabilidade da época, o Sistema Tributário Nacional, ainda em 1956, adotava-se pesados impostos, para meter o “fumo” no povão: Imposto de “Portas Abertas”, Vendas e Consignações, de Consumo e Imposto do Selo, incidente sobre: documentos de crédito, títulos, contratos, recibo, atos jurídicos, bancários e sobre serviços funerários.

Mas havia ainda, vários outros tipos de Impostos “disfarçados”: as famigeradas: Taxas Municipais de Licença: de Limpeza Pública, Recuperação de Vias, Recolhimento de Lixo, Taxa de Contribuição de Previdência Social, Taxa de Bombeiro, Taxa de Consulta aos cartórios.

Porém, nós tristes mortais, que tanto reclamamos que a modalidade de cobrança das vendas do Comércio pelo novo modelo do Governo – o Split Payment – já apelidado pelos brasileiros de: “Pix dos Impostos” é “pinto”, comparado ao antigo Imposto do Selo.

Modelo de uma Duplicata selada, em 1958

Eu era funcionário de um Banco e atuava no setor de Ordens de Pagamento. No momento em que retirávamos da gaveta uma folha contendo selos de variados valores para colar nos recibos, o cliente era “convidado” a pagar os selos que seriam utilizados. Ou seja, pagava-se antes de receber a transferência de valor.

Ou seja, um sistema ainda mais cruel; muito além do Split Payment, o pagamento antecipado, que o Governo Federal está implantando. Cabe aqui uma historieta:

Chega ao balcão do Banco um casal. Mas eu pouco sabia-se sobre ambos. Constrangido, solicitei os Cr$ 2,50 (dois Cruzeiros e cinquenta centavos) para ser autorizado pagamento. Notei que nenhum dos dois possuía aquele valor, embora significante.

Fiz a proposta: eu pagaria o valor e ao receber eles solicitariam ao Caixa, trocar o dinheiro, de forma que atendesse à despesa dos selos. Dito e feito. Paguei a Amílcar os Cr$ 2,50, colei as estampilhas no recibo, eles assinaram e foram para o Caixa. Momentos depois D. Abigail se dirigiu a mim, devolveu o dinheiro e exclamou, em voz alta:

– Meu filho, você merece um beijo!

Chegando em casa comentei o fato com meu pai, informando que a senhora tinha um nome estranho: Abigail Izquierdo Ferreira. Ele quase saltou da cadeira de balanço:

– Meu filho, você deixou de ganhar um beijo de Bibi Ferreira, a maior atriz do Teatro Nacional!

Recordando este episódio jamais esquecerei do infame Imposto do Selo, que se comparado, o sistema “Split Payment, é pinto”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

LARGO DA PAZ, DE ONTEM

Principal transporte público: os bondes da Tramways

Nasci no bairro do Espinheiro, um dos mais centrais e elegantes do Recife. Lugar de sítios, chácaras e casas de veraneio, cujos moradores eram comerciantes, proprietários rurais, e anos depois, profissionais liberais.

Mas nunca gostei desse nome! Espinheiro, um nome horrível!

O Recife de Ontem tinha coisas curiosas, a começar pelas denominações de alguns dos seus bairros, onde viveram famílias importantes, ligados à elite pernambucana.

Se no Espinheiro morou o compositor Capiba, em Bomba do Hemetério, residiu o Governador José Francisco de Melo Cavalcanti. No bairro dos Aflitos, o usineiro Antonio da Costa Azevedo, dono da Usina Catende.

A origem da denominação: Espinheiro, se formalizou face à grande quantidade de arbustos espinhosos encontrados nas margens dos córregos, no tempo anterior ao traçado da Av. Agamenon Magalhães, quando quase tudo era verde.

Depois fomos morar na Torre, nome mais simpático. E, por fim, papai comprou uma casa no bairro que tinha outro nome horrível: Lugar dos Afogados.

Mas, alí foi minha pátria sentimental. Lugar onde pisei ainda menino de cinco anos e só saí depois de casado.

Morávamos em área aterrada, às margens do Capibaribe, na Vila dos Jornalistas. Mas, por pernosticismo, desde menino sempre disse que morava no Largo da Paz, nunca em Afogados.

Na antiga Praça da Paz, que no século anterior fora palco de matanças generalizadas, a partir da ocupação colonial de Pernambuco, as Invasões holandesas, a Guerra dos Mascates, a Revolução de 1930 e a Intentona Comunista em 1935, vivi meu el dorado juvenil.

Lá deixei minhas pegadas. Lembranças que jamais serão esquecidas: os bondes elétricos da Tramways, seguros, frescos e pontuais; os cinemas Eldorado, Pathé e Central; a concentração da juventude bem comportada, passeando nos dias de domingo, as missas na Igreja de Nossa Senhora da Paz.

Felizmente, pouca coisa mudou: a mesma praça, o mercado, a feira. Do Espinheiro e da Torre, poucas recordações.

Felizmente, quase nada mudou: a mesma praça, o mercado, a feira.

Do Espinheiro e da Torre, tenho poucas recordações, mas aquela “Praça dos Namorados”, o Largo da Paz, de ontem, nada se apagará da minha mente.

Alguns bondes da Tramways possuíam “reboques”, para transportar bagagens.

O de Areias passava pelo Largo da Paz

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

“UBIRUDU”

Allright!

R. G. Watkins, cidadão americano, era meu colega. Ele com elevada função no City Bank e eu, “office-boy”. Optara, a pedido, ser transferido para o Recife, a fim de conhecer melhor o Brasil.

Já trabalhara no México e driblando algumas pronúncias da língua portuguesa, entendia e dava a entender o que pretendia dizer, mesmo adotando o “processo macarrônico”, quando suprimia algumas palavras e juntava outras. Aquele desmantelo!

Falava nossa língua de forma meio confusa e embrulhada, como todo gringo. Notando seu entusiasmo pelo Brasil, logo no primeiro mês de amizade, dei-lhe de presente uma bandeirinha do Brasil, própria para as mesas de trabalho. Ficou muito satisfeito com a oferenda.

Com muito respeito, durante todo o tempo em que trabalhou no Recife, manteve nossa bandeirinha na mesa.

Ganhei, assim, a amizade de Mr. Watkins. Já iniciado no jornalismo, eu tinha facilidades em introduzi-lo em visitas a clubes de língua inglesa. Fomos almoçar no Country e dias depois participamos do “Caxangá Ágape”, no Golf Club.

Comecei o turismo por Olinda, suas paisagens e instituições ligadas à cultura. Visitamos o Mosteiro de São Bento, ficando ele deslumbrado com os cânticos gregorianos dos monges.

Num dia de folga, levei-o à casa do antropólogo Gilberto Freyre, que muito melhor do que eu, tinha conhecimento de nossa cultura e falando inglês fluente, dissertou sobre Pernambuco.

E no final da conversa, regada a Licor de Jenipapo, Dr. Gilberto fez uma análise demorada sobre cada estrofe do Hino Nacional Brasileiro, as qualidades do linguajar de seu autor – Joaquim Osório Duque Estrada – e dissertou sobre as estrofes dos versos, que considerava as mais significativas no hino brasileiro.

À despedida, cada um de nós ganhou um exemplar do livro “Casa Grande e Senzala”.

Passados alguns meses, representando os americanos durante um almoço com todos os funcionários do Banco, ocupou o púlpito para homenagear o Brasil. E ao findar sua oração, atreveu-se a cantar, talvez lembrando a referência do Dr. Gilberto Freyre ao nosso hino.

Com seu jeito de se expressar soltou a voz com o maior entusiasmo, cantando a primeira linha da estrofe do Hino Nacional Brasileiro. Um tanto “macarronizado”, é bem verdade:

“Ubirudu” Ipiranga às margens plácidas…

Na segunda-feira, os funcionários brasileiros mais gaiatos começaram a cantar entre si, uma nova versão do hino nacional brasileiro: “Ubirudu”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

POBRE ANIELLE!…

O pai desejava um nome diferente. A mãe escolheu Anielle. E pra ficar mais chic, apareceu uma amiga da família e sugeriu o batismo menina com dois “LL”

Sua sina começaria na pia batismal. Seria diferente das demais criaturas nascidas na “Cerolândia”, perto da Capital. As primeiras letras, aprendeu em casa. Depois, as matérias curriculares, na escola pública.

Taludinha, foi mais além. Era preciso evitar mais despesas do pai. Já moça formada, frequentando alguns ambientes sociais, era preciso ter um dinheirinho para a maquiagem, vestidos e sapatos.

Aventurou-se a vender docinhos nos faróis de trânsito. Precisava, também,aprender as práticas da vida. Exitosa, na primeira semana, vendeu tudo que tinha nas caixinhas dos adocicados.

Olhou para o espelho após o primeiro dia de vendas e ficou cheia de dúvidas. Precisava definir se os automobilistas compravam suas mariolas por se mostrarem nas embalagens atraentes, pelo argumento de que eram feitas em casa, ou se sua sua beleza despertava apoios para as vendas.

Tornou-se mais independente e partiu, com a concordância dos pais, para um emprego formal. Estimaria conhecer mais sobre relacionamentos com profissionais, no trabalho sério num supermercado, colaborando com a religião evangélica e depois, concursada, se tornou funcionária da Câmara dos Deputados.

Nessa última fase, entrou num vespeiro. Mas, vamos pular alguns anos.

A moça cheia de ideias, cada dia mais bela e cativante, logo ao pisar nos primeiros degraus da subida, chegou à conclusão de que teria sido melhor voltar a ser Promotora de Eventos ou até circular pelo interior do supermercado fantasiada de um pacote de macarrão, para promover a marca. Era uma graça e promovia, realmente, o produto.

Foi alertada pelas “fofoqueiras” de elevador”, que o ambiente de trabalho – a Câmara, era muito “pesado” e até, de certo modo, degradante. Teria que aturar diariamente, olhares indesejáveis, comentários maliciosos e atitudes pouco recomendáveis de poderosos eleitos.

Aquele tipo de câmara não seria ideal. Era muito pior do que circular com uma “câmara de ar” remendada. Mas enfrentou, sofreu e aprendeu.

Era, na verdade, o único caminho para a convivência com pessoas que se diziam representantes de alguns habitantes da mesma nação. Logo percebeu que tais grupelhos, na verdade, eram pequenos ajuntamentos de pessoas, geralmente com uma conotação depreciativa.

Permaneceu próxima à “panelinha” enquanto pôde, pois trabalhava na secretaria do gabinete do Todo Poderoso. Sob a máxima cautela, customizou-se, conseguindo resistir às investidas de olhares penetrantes e indiscretos de certos indivíduos sem grande expressão ou relevância, porém maliciosos e oportunistas.

Qualquer joelhinho de fora, estava no papo. Cantada na certa.

O tal grupelho, tinha dimensões montanhosas e população de sombras.

Sempre agia às escuras. Os planos? Meros conchavos. Um pessoalzinho bem identificado pelas alcunhas de Mensalão, Petrolão, Garrafão, Lavajão, Vorcarão e outras ações possíveis de serem judicializadas.

Hoje se sabe que os congressistas, em sua maioria, são dotados dos mais significativos princípios da gatunagem, com o fim de se locupletarem do Poder para ficar “na boa”.

Foi aí que a encantadora Anielle começou a sentir saudades de sua atividade exercida na época juvenil: as vendas de suas mariolinhas nos sinais de trânsito.

E o pior é que, de algum tempo para cá, um dos caciques partidários sugeriu e ela está quase aceitando se candidatar a senadora pelo seu estado de nascimento. Parece que não entendeu que nossa política é constituída de conchavos e conchavantes,

Pobre Anielle!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DO ONTEM AO AGORA

Chico Anysio e Capiba

São decorridos mais de 90 anos desde o meu Ontem até o Agora. Do meu nascimento à suposta velhice, o tempo voou. Constatei isso há poucos dias, revendo antigos recortes de reportagens, entrevistas, crônicas e livros do meu acervo.

Francisco Anysio Oliveira de Paula Filho, o fenomenal Chico Anysio, conversando descontraidamente com Lourenço da Fonseca Barbosa – Capiba – de repente ficaram rodeados de admiradores, amigos, escritores e jornalistas.

No ar, saudosas “passagens” que ambos viveram nos primórdios da PRA-8, a Rádio Clube de Pernambuco, na década de 1930, quando Chico participava com Aldemar Paiva, Mercedes del Prado e José Santa Cruz do infernal quadro: “Dona Pinóia e seus brotinhos”. Na mesma época em que Nelson Ferreira era o Diretor Musical e Sivuca (Severino Dias de Oliveira) estava chegando da Paraíba.

Capiba, quase noventão, contava suas memoráveis piadas e Chico dava “risadas dobradas”. De repente, surge uma frase séria do humorista, que me marcou bastante.

Aproveitando, transformei algumas falas em crônica. Vários colegas da Imprensa estavam no papo, o que mais parecia entrevista coletiva, numa tarde que antecedia a um Baile Municipal, no Clube Português do Recife.

Disse-nos Chico:

– O Hoje é tão rápido que mal dá para ser pensado!

E pensando sobre isto refleti que realmente vivemos um tempo muito louco, carregado de angústias, desejos, frustrações, necessidades supostamente inadiáveis, e apelos incessantes de compras de todos os tipos

O veloz progresso moderno acontece de tal forma rápida que força-nos a viver com vertiginosa intensidade. Quase não sentimos o gosto do Agora.

Portanto, guardar a História através de documentos, reter ensinamento e escrever livros é dar o testemunho de nossa preocupação com os que estão por vir à cena da vida abundante que estamos usufruindo agora.

É preciso entender que preservar o Ontem é alimentar um progresso menos penoso no futuro. Os dias que se foram, são relíquias que devemos sempre guardar de alguma forma: na memória, em papel, em fotografias, em fitas-magnéticas, em DVs ou em pendrives.

Nos meus vividos 90 anos o homem avançou muito em seu poder de colher conhecimentos. Primeiro veio o fogo, a roda, o eixo; daí, a tração por animais progrediu sob o impulso da água. Com o giro da roda de vários tamanhos, passamos a usufruir do elemento para tracionar, o tudo que hoje desfrutamos.

Pensemos na roda como tração mecânica, hidráulica, à vapor, óleo, elétrica, vento, jato propulsão e, finalmente, à fogo-propulsor que tem levado nossos foguetes a outros planetas.

E com a interligação de tudo isto, chegamos à época dos satélites extraterrestres. Tudo isso tendo por base técnica a roda, o eixo, a eletrônica, mas sobretudo, à inteligência humana.

Não nos esqueçamos que devemos ao homem das cavernas essa evolução, pois tudo começou com ele e homo-sapiens desenvolveu todos os mecanismos que conhecemos.

Porém, a Tecnologia da Informação, permite aos noventões – como o cronista – sem sair de casa, conseguem correr o mundo, ver imagens e ouvir falas e imagens dos seus bisnetos espalhados pelas américas.

E ampliando um pouco o assunto, vemos que se obteve a utilidade da roda no transporte de pessoas, tanto vertical, quanto aéreo: através dos trens, dos aviões, dos navios, dos submarinos e dos elevadores, agilizando as pessoas e diminuindo seu esforço físico.

É importante afirmar que houve um progresso ainda mais abrangente no início do século passado – década de 1930 – após a II Guerra Mundial, época em que nasci.

Os homens conseguiram obter conhecimentos de vários pontos do universo sem ao menos sair de sua escrivaninha. Assim ocorreu com o livro, o rádio, o cinema e a televisão, independe do transporte das pessoas para estudá-los nas fontes originárias do saber.

As informações são transmitidas tão rapidamente que mal sabemos definir o que chamamos de: Agora. Resta-nos guardar o acervo que dispomos, a fim de preservar o Agora, mesmo que signifique frações íntimas de um breve Ontem.

E somando tudo isto – eu que o diga – é importante admitir que foi um vertiginoso pulo do Ontem até o Agora.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ADEUS AURÉLIO E HOLLERITH

O dicionário e a máquina de processar cartões perfurados

Estávamos, eu e o Marco Aurélio, num Cartório de Registros Civil de Pessoas Naturais – como se pessoas humanas fossem artificiais – quando ouvimos modesta senhora, solicitar o registro de uma filha recém-nascida, cujo nome seria Hollerith.

O atendente, curioso, exclamou: Diferente este nome, não é senhora?! Como conseguiu?

É que meu marido trabalha num Banco e todo final do mês ele vem falando nessa tal de Hollerith e de tanto ouvir isso, achei interessante dar este nome à nossa filha. Singular, não?!

Na verdade, ela ouvira falar, verdadeiramente, no Sistema de Cartões Perfurados, usado na contabilização bancária até o início dos anos 1950.

Herman Hollerith (1860–1929) foi um inventor e estatístico norte-americano, pioneiro no processamento automático de dados. Ele criou a máquina tabuladora eletromecânica e os cartões perfurados, tecnologias que revolucionaram a computação e deram origem à empresa IBM. Seu sobrenome virou sinônimo de comprovante de pagamento de salário no Brasil. Isso aconteceu porque o processamento e cálculo de folhas de pagamento em cartões perfurados foram introduzidos por suas empresas no mercado corporativo.

Os cartões perfurados tiveram grande importância na história da estatística, do processamento de dados e dos pagamentos de funcionários nas empresas mais modernas.

Anteriormente se costumava chamar o envelope-de-pagamento mensal de: “Espelho” ou, igualmente, “Contracheque”; nomezinho fuleiro, porque deveria chamar-se: “A favor do cheque”, porque tal “demonstrativo” garantia ao funcionário verificar o crédito os débitos e o saldo por seu trabalho mensal, a fim de sacar seus cheques, coisa que também já desapareceu.

Na verdade, Hollerith identificava o tal Sistema de Processamento de Dados, que se efetivava através do uso de u’a máquina, com teclado semelhante à de datilografia, que perfurava cartões e uma outra, que os processava, produzindo Folha-de-pagamentos, balanços, etc.

Com o advento dos computadores, anos mais tarde, o sistema caiu em desuso, mas o apelido passou a ser até nome de gente, como vimos na historieta.

Vivi outros momentos da tecnologia bancária. Transitei pelas duas épocas. D. Edna sentava-se junto ao Contador do City Bank, sr. Afonso Leão, munida de um um caderninho listado e um lápis. Ouvia as informações, desenhava uns garranchos conhecidos como estenografia ou taquigrafia, que representavam a “escrita ligeira” e dali saíam notas para as cartas que eram datilografadas.

Afonso Leão, “professor” de Português, sempre mantinha perto de sua mesa um Dicionário Caldas Aulete. Certa vez, por mim indagado porque sempre estava consultando aquele livrão, me respondeu:

Meu filho, se você não ler muito o dicionário, está “bebido” nos futuros concursos. E eu que vivo escrevendo cartas e ensinando nosso idioma para alunos dos “cursinhos”, necessito deles a todo instante. E você sabe que tal livro é conhecido como “O pai dos burros”?!

Mas, como tudo o tempo leva, o livrão de Francisco Júlio de Caldas Aulete, que hoje possui uma versão atualizada com mais de 818 mil verbetes, perdeu alguns pontos para um outro dicionário, mais popular, conhecido pelo apelido de “Aurelião”, obra que consagrou o mestre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que, aliás, tem parentesco com o cantor Chico Buarque.

E nesse vai-e-vem dos modernismos tecnológicos, a obra do “Mestre das Alagoas” também está sendo sobrepujada pela Inteligência Artificial.

Portanto, já se pode dar adeus a Aurélio e Hollerith.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

NOVENTINHA É LASCA!

Luiz Carlos, este colunista e o escritor Euler de Souza, no Clube Português do Recife, durante o “emplacamento compulsório”

No último 18 de junho, dois fraternos amigos homenagearam o cronista pela “quota máxima” atingida: 90 anos de idade, meta para poucos mortais. Um almoço com minha família no Clube Português do Recife representou sinônimo de fraternidade e prestígio, ao chegar a esta marca. Uma graça de Deus!

No dia anterior, a Presidente Thelma Loureiro de Carvalho, da Academia de Artes e Letras, me colocou, com todas as honras, na Mesa dos trabalhos e ao final da assembléia festiva convocou a plateia a formar um coro e interpretar a cançoneta “Parabéns pra você”.

Para fins de “amostras grátis” devo dizer que não é moleza tal corrida de obstáculos. O destino foi generoso e a sorte me empurrou. Só fiz amigos. Alguns que conheci superficialmente se equivocaram com minhas ideias e os falamos apenas respeitosamente.

Nasci no Espinheiro, meus pais nunca se separaram, fui filho único, tive direito a nota em jornais, logo que “desembarquei”. Fui bancário a partir dos 14 anos, por três décadas.

Aposentei-me com 30 anos, alguns dias e poucas horas. Na mesma semana assumi uma assessoria no Grupo Preserve onde permaneci quase 10 anos.

Publiquei a primeira matéria em jornal aos 15 anos e ainda ontem os editores do Diário de Pernambuco se mostraram generosos comigo, publicando mais um artigo.

Fui diretor do Naútico, durante seis anos; do Internacional, quatro anos; do Sport, dois anos e da AABB-Recife, alternadamente 12 anos.

De medalhas, guardo uma tuia: do Salesiano, do Náutico, do Atlético, além de várias da AABB-Recife. Carrego, também, no matulão, dois títulos de Benemérito, e dois de Reconhecimento, sendo um durante as comemorações dos 100 anos do Banco do Brasil em Pernambuco. Já correm o mundo alguns dos meus 35 livros escritos.

Mas vim com o bisaco cheio de obrigações. O destino traçou minhas metas difíceis e perigosas. Da “Véia da Foice” escapei várias vezes.

Pequenino ainda, correndo pela calçada do Hotel Central, dei uma topada, bati com o “quengo” na calçada. Fiquei” cego durante mais de 26 horas. Uma tragédia para a família!

Adulto, limpando uma calha, cai do telhado. Depois, outra queda: na escada do primeiro andar de um prédio, escorreguei, fui bater no térre;, quebrei dois ossos da canela. No hospital, meteram-me um pedaço de titânio com quatro parafusos. Virei um “Robocop Brasileiro”.

Passageiro de um Fusca, à noite, numa estrada alagoana, em missão jornalística, vindo de Aracaju, numa curva fechada, batemos de frente numa jamanta e capotamos feio. Saímos vivos.

Um aperto de lascar foi quando, por cima da cidade de Brasília, voei aflito, por quase 30 minutos sem pousar, sentado e bem amarrado na poltrona de um Electra da Varig, com mais 48 vizinhos, “aflitos rezadores”.

Perto do Aeroporto o “desgramado” PP-VJM – 2784 “novinho em folha”, começou a circular pelo céu, deu cinco voltas pelas nuvens, como se estivesse mostrando aos infelizes passageiros, que já estávamos a caminho “desta para uma melhor”. Eram os Bombeiros na pista, em exercício.

Tive a felicidade de extirpar dois “bichos” daqueles tão assustadores, que comem os humanos por dentro e se alastram, às vezes pensando que fígado é picanha.

Em outros tempos estive soltando sangue pelo “cano ladrão” e fui pra faca costurar as hemorróidas. Após ter sido esfaqueado pelo bisturi do Dr. Booz, esperei vitorioso os visitantes. Aí a porca torceu o rabo!

O primeiro a chegar, às seis da manhã, foi meu Gerente José Augusto, que disse reservadamente: Depois da cirurgia sob anestesia, sei que, agora, sua dor é apenas moral!

Precisava lembrar que eu tinha sido operado através do canal “escapativo do barro”, precisava?!… Foi outro pedaço carregado de más lembrança, porque durante a recuperação cai dentro de uma bacia de água aquecida a 80º graus e queimei as duas bolinhas de gude. Foi danado?

E sobre os ganhos e perdas, prefiro não falar dos desamores. Costumo usar o artifício do saudoso Álvaro Moreira, quando o entrevistei no Rio Grande do Sul: “Seu Carlos, por favor, “As amargas, não!” Depois publicou um livro com este título, que ainda hoje faz sucesso.

Afinal, falar os maus pedaços dos “noventinha” é lasca!