CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

REVOLTA SILENCIOSA

Francisco Anysio

Gosto muito de ver e ouvir entrevistas inteligentes.

Em dias recentes revivi momentos pouco conhecidos sobre algumas opiniões de Chico Anysio, saudoso humorista, entrevistado por Roberto d’Avila.

Numa delas, ele faz referências à sua revolta quanto ao aprendizado escolar, na fase infanto-juvenil, pelo excesso de matérias.

Entrevista ao Roberto D’Ávila

Aos 6 anos comecei a frequentar a escola, mas já havia aprendido com minha mãe a ler, escrever e contar.

Lia com certa desenvoltura, escrevia com razoável primor, mas me atrapalhava nas contas. Números nunca foram o meu forte!

O currículo do Curso Ginasial era “pesado”: Leitura e Interpretação, Francês, Inglês, Física, Geografia, História, Educação Moral e Cívica, Português, Matemática, Latim, Organização Social e Política do Brasil e Desenho.

Coisa de louco! Muitas vezes, passei pelo “paudo canto”.

Sempre me revoltei com as aulas que eram estafantes, cujas matérias me pareciam sem valor prático.

A tal da Raiz Quadrada, por exemplo, era o próprio “Satanás de rabo”, pois eram números misturados por símbolos. E dar resultados com números, letras e símbolos era u’a mistureba do cacete.

Países desenvolvidos (frequentemente chamados de “primeiro mundo”), como Finlândia, Singapura, Suíça e nações escandinavas tratam a descoberta de aptidões não como uma “seleção precoce”, mas como um desenvolvimento holístico e personalizado. A abordagem foca em identificar os interesses e talentos naturais da criança desde a primeira infância (até 6 anos) para criar um ambiente que estimule a autonomia e a criatividade.

Ferramentas de avaliação precoce focam em medir habilidades como linguagem, raciocínio matemático e habilidades socioemocionais, não apenas conhecimento técnico.

Segundo o que consegui pesquisar à respeito, qualquer criança que mostre dificuldades ou talentos específicos recebe suporte extra (apoio pedagógico ou programas de extensão) para maximizar seu potencial, tratando a educação como um direito do desenvolvimento individualizado.

E ouvindo o humorista – que era homem muito inteligente – observei que minhas ideias são semelhantes às dele.

A inutilidade de um ensino tão “puxado” não levava a nada; tanto que findávamos as Séries sabendo muito pouco.

Guardo na lembrança até hoje essa revolta silenciosa.

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O BANCO DE MINHA MÃE

O Banco improvisado de minha mãe

A história é interessante e instrutiva.

No início da década de 1950, quando eu tinha 14 anos, meu velho era Representante de produtos farmacêuticos, sendo funcionário da Cia. Química Merck Brasil S. A. Ganhava bem mas viajava muito.

Tal missão lhe obrigava a permanecer durante 25 dias de cada mês, fora do convívio da família, viajando de trem, de ônibus e até na boléia de caminhões, por quatro estados nordestinos.

Era um tempo em que apenas a Caixa Econômica Federal de Pernambuco poderia ser considerada “o Banco do povão”. Mesmo assim, concentrando atividades para Pessoas Físicas apenas na carteira de “Depósitos para Poupança”. Daí, talvez, inspirando a atual denominação nacional: “Caderneta de Poupança”.

Nessa época nem se falava em pessoa modesta ser titular de conta em Bancos. Só possuíam talões de cheques, as grandes empresas ou donos de firmas.

Fui da mesma época – 1956 – em que, até funcionários do Banco do Brasil recebiam seus ordenados em envelopes. Não tinham direito a ter uma Conta Corrente a não ser que fossem clientes da Casa Bancária Magalhães Franco Ltda.

Arthur Guaraciaba Lins dos Santos, meu dito cujo pai, recebia seu suado dinheirinho em espécie, levava pra casa, selecionava os pagamentos do mês, colocava os valores devidos em pequenos envelopes, passando para mim a responsabilidade de efetuar os pagamentos. Tudo organizadinho.

Aproveitando as ausências de meu pai, mamãe se dedicava, com mais afinco, às costuras, geralmente de roupas infantis, da vizinhança. Havia um conchavo com meu velho para evitar roupas de adultos, incluindo, naturalmente, homens.

Mas é aí que a “porca torce o rabo”! Aliás, vale explicar o verbete de “Aurélio”: A expressão significa que se trata do momento decisivo, uma situação se complica e exige firmeza para ser resolvida, originando-se no meio rural, onde apartar brigas de porcos puxando-os pelo rabo era uma tarefa desafiadora.

Houve um tempo em que mamãe “se ajeitou” com a vizinha, que era esposa de um Sargento do Exército, o maestro Jair Pimentel.

D. Neuza, mãe de quatro filhos, portanto, sem muito tempo, para costurar encomendas de fardamentos para soldados do 14º Regimento de Infantaria, propôs dividir o trabalho.

Na maior moita minha velha topou e isso permitiu às duas, ganho maior. E para papai não entender que se tratava de costura de roupas masculinas, ela, por precaução, escondia os tecidos, já cortados para costurar, embaixo da cama do casal, perto do penico.

Mas era preciso ocultar o dinheiro auferido por essas tarefas. Quando recebeu a primeira “dinheirama”, decidiu guardar as cédulas nos livros de meu pai, numa estante envidraçada, que vivia fechada.

Certo dia, ao procurar uma cédula, não se lembrava em qual livro havia guardado os 50 Cruzeiros, que era significativo valor para a época e ficou muito preocupada porque teria que utilizar, doravante, novo esconderijo e não, simplesmente, a gavetinha da máquina Singer.

Requisitou-me para ajudá-la a desarrumar tudo e verificar em qual volume havia guardado a bufunfa.

Nunca imaginei que os livros do meu velho tivessem locais específicos, selecionados por assuntos. Cada qual o seu lugar. Mas, durante a procura, houve a mistura. Mas, felizmente, a cédula apareceu.

Dias depois, teve que anunciar ao “dono da biblioteca”, que havia cutucado seus livros, explicando que o dinheiro era de suas economias, sem falar nas roupas dos soldados, que era o ônus da prova de “infidelidade contratual”.

Não houve bronca, mas aproveitei para lhe dar um conselho:

“Mamãe, abra uma Caderneta de Poupança na Caixa para depositar suas economias, porque livro não é Banco pra se guardar dinheiro!”

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MEIAS VERDADES

Pantaleão na cadeira de balanço

É mentira, Terta?!

A mentira é o mais perigoso meio utilizado pelos humanos para destruir pensamentos, alterar comportamentos humanos e obter vantagens em tempos de guerra ou de paz.

Nos conflitos armados, manifesta-se através da “guerra de informações” públicas, com o fito de iludir adversários, levando-os às decisões erradas.

Na paz, a mentira é disseminada por meio das conversas de rua ou reservadamente praticadas. Mas, em termos de administração pública, sua força está no uso do voto como mercadoria. No caso, a mentira corre solta e veloz, mas nem sempre deixa rastro.

Não aparece como armamento e atua como uma grande força de convencimento, capaz de derrubar pessoas, organizações e agremiações partidárias.

A mentira é a arma para se iludir.

Desde cedo, na casa paterna, há muitos anos, se aprendia que a mentira provocava castigos. Papai dizia que expressar a verdade era uma obrigação, jamais mérito.

Passaram-se os anos e nessa esteira de aprendizados filosóficos ocorreram mudanças e reorganização de comportamentos, notando-se que hoje proliferam nos discursos políticos, nas entrevistas, no comércio e na própria sociedade, as meias-verdades.

Segundo os professores, meias-verdades são declarações que ocultam, no todo ou em parte, os fatos ou informações. Pode-se assim definir como “meias mentiras”, por manipularem a realidade.

Segundo Louis Blanche Bordeaux, elas são perigosas porque utilizam uma base verdadeira para tornar aceitável uma parte falsa, enganando o receptor.

Muitas vezes, são usadas para manipulação ou para evitar a responsabilização completa, sendo piores do que uma mentira absoluta.

Tem mais, não há mentira relativa!

Em nosso país é voz corrente a utilização da “mentirinha carioca”; ou seja, aquela que não ofende, mas salva algumas situações embaraçosas. Porém, algumas vezes, necessita de um elemento de prova, para se consolidar: ou seja aquele que confirma ser a mentira uma realidade.

Vem-me a forte lembrança do saudoso Pantaleão Pereira Peixoto, personagem de Chico Anysio, que conversava com o amigo, interpretado pelo ator e colega Luiz Delfino, criava mentiras do arco-da-velha, recorrendo à esposa, Terta, (Suely May) que funcionava como elemento de prova, não faltando o inimitável Pedro Bó, (José Lester) sempre interrompendo as conversas com perguntas idiotas.

– É mentira, Terta?!

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APARELHAMENTO VENENOSO

Aparelhamento político

Entende-se por aparelhar: equipar um escritório, um veículo de transportes, introduzir pessoas com capacidade para a execução de determinadas tarefas ou organizar estruturas amplas, a fim de se cumprir a execução de determinado planejamento, sem tempo estipulado.

Nos dias atuais se define como a contratação de pessoas no Serviço Público Federal – notadamente – sem a devida prestação de concursos de provas, criando cargos de assessoramento temporários e que acabam se tornando definitivos.

Via de regra se tornou o aparelhamento de pessoas nos serviço público – nas três esferas de poder – venenosa norma para dar suporte “ideais partidários”, a fim de perpetuar políticos em determinados cargos e ampliar sua hierarquia, transferindo poderes a filhos e netos.

E, como prova incontestável, sem mácula, temos o exemplo de um ilustre Senador pela Bahia: Antônio Carlos Magalhães, que elegeu o filho: Luiz Eduardo Magalhães, Deputado Federal e um neto, Antônio Carlos Magalhães Neto, que se iniciou como Prefeito da Capital.

É bem verdade que o caso representa a força do voto, o valor das pessoas e as realidades do momento. Nada contra!

Todavia, qualquer Presidente da República que for assumir o cargo em nossos dias, pode estar certo de que a sua tarefa mais difícil será o desaparelhamento partidário, porque é um vírus venenoso que está entranhado na administração pública brasileira.

Ou seja, vivemos na eterna luta contra a praga incrustada há várias décadas: o aparelhamento venenoso.

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ERMÄCHTIGUNGSGESETZ

Estamos todos nós – brasileiros do bem – a cada dia mais pressionados pelas leis vigentes, pois são discutidas, alteradas, emendadas e reinventadas com a maior desfaçatez.

Muitas deixaram de, efetivamente, ter seus termos respeitados por certas “otoridades” da República.

Temos que dar uma pincelada irônica, naqueles que, sendo magistrados da corte superior ou eleitos pelo povo, repetidas vezes ultrapassam os limites de cada parágrafo, capítulo, inciso e artigos, como se fosse natural “emendar as emendas”.

Quase tudo ao sabor de seus próprios interesses, geralmente escusos.

Meu avô paterno, Pacífico dos Santos, (que tem seu nome em placa de rua no bairro do Paissandu), tendo sido jornalista e magistrado, disse a meu pai, certa feita, que a lei foi instituída para proteger o cidadão e que, enquanto ele obedecesse os seus termos, estaria protegido.

Mas, em nossos dias, as angústias se ampliam porque vemos, escancaradamente, as leis serem ultrajadas, o que representa ofensa muito grave à honra da população, afetando, impiedosamente, todo o povo.

Ninguém escapa!

Mas – há de se perguntar – se tanto vemos mutilados os termos das leis e regulamentos, porque não declaramos logo que vivemos sob a tutela da conhecida “Lei de Plenos Poderes”, que levou Hitler à ditadura: a Ermächtigungsgesetz?

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A CACHORRA FROUXA

A cadela espantada com o catita

A leitora Elba Freire, solidária com a pequena tragédia de D. Jumira, comentada na crônica anterior, nos ofereceu este episódio de cunho pessoal.

Tudo começou após um “evento ratazanístico” digno de investigação científica: simplesmente choveu. E quando chove, tais roedores entendem que são merecedores de abrigo digno.

Logo se reúnem, pintam cartazes, queimam pneus nas esquinas, adotando táticas do MRST – Movimento dos Ratos Sem Teto.

Quando a chuva desce, os “Mickey Mouse” urbanos entram em “modo sobrevivência”. Procuram abrigo nas residências próximas. E parte de sua “freguezia” é a residência onde moram Elba, Dudu, Vitinho e Clarinha.

Os roedores já saem de suas malocas “armados”; ou seja, de bexiga cheia, fazendo ameaças a todos.

Em seus gatilhos só há “balas líquidas”, cujos pingos mortais” são produzidas por urina dosada, de fábrica, com a temida bactéria: leptospira e flatulências violentíssimas, compostas por “nitrato de pó de peido”.

Não há quem aguente!

Saem os anarquistas do desconforto dos bueiros das ruas. Um batalhão deles: roedores: ratazanas e catitas.

E assim, em nossa história, mais uma vez, os ratos escolheram justamente a residência de nossa leitora Elba, para servir como hotel cinco estrelas.

No Condomínio Sol Nascente o acesso aos aptos superiores é facultado através de escada de alvenaria, com três lances.

E mesmo assim, os roedores sobem com uma habilidade e velocidade que faria qualquer personal trainer se admirar. São praticamente astros olímpicos das invasões domiciliares.

Na residência, reside também, Nerda Kosovsky, a cachorra importada, até então respeitada, com nome e sobrenome eslavo, que poderia ser a heroína dessa saga. Poderia. Mas não foi!

Ao pressentir qualquer ruído na sua “Zona de Segurança”, ela reage. Nos latidos é fera!

Outro dia, sentiu um odor diferente. Armou os dentes, correu à cozinha, avaliou a situação, deu um “latido de advertência”, para intimidar o invasor, e quando o rato mostrou os dentes, ela correu apavorada, com o rabicho entre as pernas.

Depois do episódio a família resolveu procurar um Mickey Mouse pernambucano para alegrar Maria Clara e encher o saco da cachorra frouxa.

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CATITAS E GABIRUS

Mickey, o ratinho cheio de graça

Desta vez me refiro a episódios sobre a captura dessas indesejáveis criaturas que invadem nossos lares, com certa frequência e incrível desfaçatez: os ratos.

São várias as denominações: catitas, gabirus, ratazanas, roedores, políticos, etc. Surgem até em reportagens ao vivo, o que aqui se comprova clicando aqui.

Lembro-me da historieta de uma senhora, professora, que vivia infernizada com um rato velho, já buchudo; que que transitava por sua cozinha, lépido e fagueiro, quase todas as noites, desafiando D. Jumira.

O bicho dominava o “pedaço”.

D. Criméia, uma vizinha, sugeriu a compra de uma ratoeira, artefato simples mas infalível, encontrado nas feiras do interior. No entanto, não explicou que o funcionamento dependia de um pedaço de queijo, para atrair o roedor.

Ratoeira

Vivendo sozinha, D. Jumira chegou do trabalho e logo foi preparar a armadilha. Não sabendo como armar o artefacto, consultou a vizinha, mas, ao saber que seria necessário usar um pedacinho de queijo – e em sua dispensa e não tendo tal produto – não se deu por vencida.

Pra não deixar de usar a “arma” na mesma noite, no lugar do queijo, inventou uma espécie de engenhoca. Escreveu num pedaço de papel:

“Vale um queijo”.

E armou o “canhão”. Quando já estava nos braços de Morfeu, ouviu o “tá”… Levantou-se, com a rapidez de um buscapé, e pensou, toda risonha:

“Peguei o bicho!”

Mas, como dizem que os ratos são muito astutos, correu pra ver e encontrou outro bilhete no lugar do queijo:

“Vale um rato!”

Imagine-se no meio dessa cambada toda de políticos, novos e antigos, que sangram o povo brasileiro, quantos podem ser considerados catitas e gabirus!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ESTOL DE BADALO: QUE POMBADA!…

José Vasconcelos e Jô Soares garganteando

Geraldo, um amigo muito engraçado, sempre que nos encontrávamos, a prosa tinha espaços para a senvergonhice.

Certa manhã sentados num banco na praia de Boa Viagem, em lance discreto, segredou-me:

– Meus divertimentos prediletos são andar aqui na praia, pela manhã, com a patroa, e ao chegar em casa, estando o filho na escola, aproveito para dar uma “pombada”.

Soltei aquele sorriso mal-amanhado, com sinais de quem “comeu e não gostou”. Ao final do papo, meio confuso, indaguei-lhe:

– Que diabo é dar uma “pombada”?

– Ora, Carlos Eduardo: é um ato sexual. O pênis é a pomba. O bate e volta é a pombada!!

Dos meus sonhos realizados, durante estes 90 anos, um deles foi residir num prédio alto. Eu achava bonito ver aquele arranha-céu. Hoje moro num 15º pavimento e torna-se oportuno falar sobre pequenos incômodos; ou seja, comentar sobre uma pombada, no real sentido vernacular.

E falarei também sobre o “Estol de Badalo”, conforme a apresentação teatral do humorista José Vasconcelos, durante um “Programa do Jô”, cujo link pode ser acessado clicando aqui, pois esta crônica, que está mesmo “cheia de graça”.

Certo dia, passava das 12h. quando estávamos nos preparando para almoçar. De repente, batidas fortes de asas dentro de casa. Era uma pomba desvairada, que voando em baixa altura, entrara pela varanda e chegara à sala. Era uma pomba-rola.

A pomba-rola

Rápido esquivei-me e a ave inclinou-se, dando um “rasante”. Depois subiu, tal qual um buscapé. Livrou-se da lâmpada do teto e continuou, sem “Plano-de-voo” definido. Logo deu o primeiro “Estol de Badalo”. Tudo muito rápido e apavorante.

A família ficou inquieta quando gritei: “Pomba à vista!” Pensavam que era uma das minhas brincadeiras. Mas na verdade era uma “penosa” sem destino! Havia passado à jato pela varanda, sem convite, e entrou.

Voava à velocidade da luz e sem controle, endoidando todos nós. Logo em seguida, “arremeteu” e aplicou um “Estol de Badalo”.

Face à aproximação da esposa e do meu filho – ambos com toalhas nas mãos – a pomba resolve dar o “lance de emergência”. Havia endoidado mesmo, quando a gritaria começou a ecoar pelas paredes da casa. O incômodo era real e apavorante.

Correram para pegá-la, mas, sem prática “bombeirística”, complicou-se a busca. Instantes depois, escorraçada, escondeu-se atrás da máquina de lavar e logo foi segurada por meu filho, que a segurou. Que vitória! Pensei eu, iludido.

O nosso herói, cheio de orgulho, exibindo a pomba presa num pano-de-prato, resolve tirar uma foto e foi para o quarto, ficou perto do espelho, a fim de preparar o “cenário”, enquanto chegava o celular e a “fotógrafa”, para postar o episódio na internet. Seria certamente: “A pombada do ano.”

Porém, diante do espelho, o rapaz soltou uma das mãos para ajeitar o cabelo e a ave escapou novamente, mergulhando pra baixo da cama. E tome vassouradas para espantá-la. Até que, por exaustão, talvez, a pobre pediu paz e se entregou.

Como alguns sabem, a pomba-rola pertence à família dos Columbiformes, que são centenas de penosos, tendo esta o bico curto, corpo robusto e cabeça pequena. São excelentes voadores. Originalmente faziam seus ninhos nos paredões situados no litoral, adaptando-se perfeitamente aos paredões dos edifícios urbanos.

Por aí, os amigos já entenderam uma das desvantagens em se morar em prédios altos. Penosas pensam que estão nas falésias e fazem alí suas moradas, seus helipontos.

Finalmente, o momento feliz. A “penosa” foi capturada novamente, tirou fotos com a família, e levada à varanda, levantou voo para a liberdade, saindo ilesa do marcante episódio.

Adaptando a narrativa do amigo Geraldo, podemos dizer: Aí foi mesmo uma pombada!…

No decorrer do “pega pra capar”, houve um momento em que ficamos tão apavorados que abrimos a porta da sala e saímos para o hall, a fim de deixar a intrusa voadora refazer seu ”Plano de voo” e vislumbrar uma opção de escape. Os residentes vizinhos se juntaram para nos ajudar. Mas nada poderiam fazer. Apenas se concentraram no hall.

Findo o drama, uma vizinha, com ares de “salvadora da pátria”, depois de ouvir o relato detalhado do drama, saiu-se com inesperada expressão.

Bem, aí, nova surpresa, pois eu tinha a certeza absolutíssima de que a distinta senhora, não sabia o que estava dizendo, quando improvisou uma graçola e sorrindo mandou ver, aplicando a palavrinha marota do amigo Geraldo:

– Meu Deus, que pombada; verdadeiro Estol de Badalo!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ADEUS DONA FOLIA

Disco na voz de Nelson Gonçalves, Orquestra de Zacarias. Coleção Nirez

O Café Lafayette situava-se na Rua Primeiro de Março, esquina com a Rua do Imperador, no Recife. Oferecia lanches e cafés-pequenos no balcão, internamente, e em mesas de mármore, espalhadas democraticamente pela ampla calçada de pedras portuguesas, sem atrapalhar os transeuntes.

A atração pública era um painel permanente, na calçada, onde podiam ser coladas, gratuitamente, as ofertas de compra e venda de quaisquer produtos, sem custos.

O Lafayette era frequentado por intelectuais, jornalistas e poetas, servindo para encontros da mais distinta gama cultural pernambucana, notadamente jornalistas, dado à proximidade do Diário de Pernambuco, Jornal Pequeno, Diário da Noite e do Jornal do Commercio.

À direita, a marquise do Café Lafayette, vendo-se o painel de anúncios grátis.

Eu tinha uns 10 anos de idade quando, acompanhando meu pai, que estava de férias, fazíamos um lanche no Café Lafayette. Logo, apareceu um amigo dele e sentou-se conosco.

Era um famoso compositor de músicas carnavalescas e tradicional folião, Eduardo Barbosa. O cidadão, respeitosamente, me estirou a mão, sorridente, para o primeiro cumprimento, como se eu fosse gente importante.

Papai me apresentou:

– Este é meu filho, Carlos Eduardo!

E o sorridente compositor, disse:

– Ah, então você é o herdeiro do meu amigo?!

Logo – papai, que não deixava escapar nenhum escorrego vernacular – advertiu o compositor, a título de deboche:

– Não, amigo! Podemos dizer melhor, que ele é meu primogênito, isto porque, não há herdeiro de pai vivo! De fato, só há herdeiro depois da morte de alguém.

Ouviu-se a gargalhada!

Ao sair do Lafayette, papai me contou a história da principal música de Eduardo: “Adeus Dona Folia”, a última que ele havia composto e foi até gravada por Nelson Gonçalves, em disco RCA Victor, fazendo sucesso em vários estados do Brasil.

A inspiração foi significativa. Sua filha única sofrera uma queda e durante três dias ficou sem visão. Havia caído numa calçada e ocorreu um traumatismo na zona cerebral que comanda a visão.

Aflito, Eduardo foi a Igreja dos Martírios, apiedou-se, e fez uma promessa à Santa Clara. Se sua filhinha recobrasse a visão ele se despediria para sempre de quaisquer atividades com relação ao carnaval.

Deixaria de produzir músicas, de colaborar com a organização de blocos ou cair no frevo das ruas.

Por se tratar de dano cerebral temporário, três dias depois a menina voltou à normalidade. Não chegou a ser verdadeiramente um milagre.

Mas, católico obediente, pagou a promessa, que deu motivo à criação da música: “Adeus Dona Folia”.

ADEUS DONA FOLIA – De Eduardo Barbosa

Adeus eu vou me despedir
Não pretendo mais voltar
Levo saudades de você, Dona Folia
E sinto até vontade de chorar.

Eu sempre vivi com você, querida
Numa eterna e verdadeira paixão
Foi você toda alegria de minha vida
Mas tudo não passou de ilusão.

E neste carnaval de 2026, aos 90 anos, vejo que, eu também, já dei meu adeus a Dona Folia.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CARNAVALESCAMENTE FALANDO

Parte inicial da partitura do “Vassourinhas”

Aproximando-se o Carnaval cabe ao cronista expandir alguns conhecimentos sobre detalhes da parte musical da mais genuína das festas brasileiras, sobremodo, músicas que nasceram, foram reformadas, mas permanecem sucesso ainda hoje. “Vassourinhas”, símbolo do nosso reinado de Momo, além de outras, apresentadas pela Spok Frevo Orquestra.

Lá vem a História!

Segundo entrevista que fiz com o veterano Maestro João Pires de Menezes, que recentemente completou 100 anos de idade, poucos sabem que o frevo Vassourinhas nasceu em 6 de janeiro de 1909, numa casa modesta, no arrabalde do Porto da Madeira, antigo ancoradouro do rio Beberibe, local que era a sede do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas.

Tempos depois a música viria a se tornar um clássico, sobressaindo-se pelo arranjo do sax de Felinho – que gravou seu primeiro disco – e depois passou a emoldurar, de maneira insuperável, a maravilhosa melodia, com seus incríveis arranjos, exatamente aquela cujos compositores são pouco conhecidos: o maestro Mathias da Rocha, com versos de Joana Batista Ramos, conforme atesta, também, o Dicionário Cravo Albim.

Joana era uma senhora negra e pobre, empregada doméstica, filha de escravizados. Foi a letrista da Marcha nº 1, do Vassourinhas, antiga denominação do famoso frevo, imortalizado como Vassourinhas.

Todavia sabemos que Vassourinhas é mais frevo quando interpretado por Felinho – Félix Lins de Albuquerque – maestro, compositor, flautista e saxofonista pernambucano, nascido em 1895, em Bonito, onde também nasceu Nelson Ferreira, outro expoente de nossa música. Felinho faleceu no Recife, em janeiro de 1980.

Aliás, há quem pense ser de autoria de Felinho, o Vassourinhas, a retumbante obra musical produzida especialmente para o saudoso Clube Vassourinhas. Porém a letra é de Joana Batista Ramos e a música, do maestro Mathias da Rocha. Seu nome original não era apenas Vassourinhas, mas Marcha Nº 1, pertencente ao Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas.

Em épocas remotas, quando surgiram grandes agremiações profissionais, cada uma tinha seu clube de carnaval e geralmente, suas músicas-hino; daí surgiu o Vassourinhas, formado pela turma dos mais antigos qa vassoura, hoje denominados vassoureiros ou garis.

Que ainda hoje são bem lembrados: Blocos das Flores Brancas, o mais antigo; Turunas de São José, Pirilampos de Tejipió, Blocos das Pás Douradas, Quero Mais, Amantes de Glória, Andaluzas, Madeiras, do Rosarinho, Apôs Fun e muitos outros que não chegaram a permanecer, senão em gravações de discos e letras de músicas modernas, criadas por compositores de destaque, como Antônio Maria, Luiz Bandeira e muitos outros.

A música Vassourinhas era cantada quando os foliões regressavam à sede do clube para recolher os estandartes, por isso, era chamada também de “Marcha Regresso”. Com o passar dos anos, outras letras surgiram em cima da canção original de Joana Batista Ramos e Mathias da Rocha.

Vejamos parte da letra original, já um tanto esquecida por nossos cantores-foliões.

Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Agora isto não! Ah, isto não!
Tu bem sabes o compromisso
Ah, isto não! Não pode ser
A mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer

Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Ah, isto não! Ah, isto não!
Tu bem sabes o compromisso
Ah, isto não! Não pode ser
A mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer

Ah! Reparem meus senhores
O pai desse pessoal
Que nos faz sair à rua
Dando viva ao carnaval

Com o passar dos anos, outras letras surgiram alterando a criação original e chegaram até a ser gravadas. Mas, como naqueles tempos não havia registro de Direito Autoral, foram ocorrendo alterações das letras.

Segundo nota de Cravo Albim um dos maiores dicionaristas de música brasileira e dados colhidos na obra de Beatriz Kauffmann, em 1945, o apresentador compositor e cantor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, conhecido por “Almirante” (Henrique Foreis Domingues) descobriu que a letra da canção de roda se encaixava corretamente na de Joana Batista e usou a segunda estrofe escrevendo mais duas outras.

O disco foi “Continental” nº 15.279-B. (Link pra ouvir na Google). Esta versão de Almirante para o frevo Vassourinhas foi a primeira que apareceu gravada no Rio de Janeiro. O sucesso foi tão amplo que a nova letra se espalhou pelo Brasil inteiro. Sem esta adaptação e o arranjo de Almirante, provavelmente o frevo Vassourinhas teria ficado no anonimato.

Aproveitando a melodia de Mathias da Rocha outras belas letras se notabilizaram, como aquela que foi adaptada por “Almirante”:

Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para meu, para meu bem passear

A tristeza, Vassourinhas
Invadiu meu coração
Ao pensar que talvez nunca
Nunca mais te veja, não

Mas, com a evolução das artes musicais, Vassourinhas se engrandeceu com novos arranjos, letras, gravações e outros solistas, espalhando pelo mundo o hino do povo de Pernambuco.

Aproveitamos para louvar aqui o solo de sax do Maestro Spok. Sobressaem-se, em nossa época, os shows apresentados pela Spok Frevo Orquestra em vários países. Há pouco tempo, esta orquestra levantou a platéia no Teatro Municipal de São Paulo, ao interpretar Vassourinhas com novos arranjos.

Meu amigo Inaldo Cavalcanti de Albuquerque – o Maestro Spok – parece que recebeu a divina missão de continuar difundindo os novos frevos, divulgando pelo mundo a arte mais significativa de Pernambuco.

Inaldo formou uma orquestra que se tornou uma jazz band, composta por dezoito músicos, formados no Recife, em 2001, cujo objetivo é divulgar o frevo no Brasil e no mundo.

Passo de Anjo é uma dessas melodias. Frevo de sua autoria e João Lira, que foi eleito pelo jornal O Estado de S. Paulo como um dos três melhores frevos lançados em 2004 e já é considerado o Vassourinhas de nossa época.

Que o grande Spok receba nosso abraço, carnavalescamente.