Parte inicial da partitura do “Vassourinhas”
Aproximando-se o Carnaval cabe ao cronista expandir alguns conhecimentos sobre detalhes da parte musical da mais genuína das festas brasileiras, sobremodo, músicas que nasceram, foram reformadas, mas permanecem sucesso ainda hoje. “Vassourinhas”, símbolo do nosso reinado de Momo, além de outras, apresentadas pela Spok Frevo Orquestra.
Lá vem a História!
Segundo entrevista que fiz com o veterano Maestro João Pires de Menezes, que recentemente completou 100 anos de idade, poucos sabem que o frevo Vassourinhas nasceu em 6 de janeiro de 1909, numa casa modesta, no arrabalde do Porto da Madeira, antigo ancoradouro do rio Beberibe, local que era a sede do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas.
Tempos depois a música viria a se tornar um clássico, sobressaindo-se pelo arranjo do sax de Felinho – que gravou seu primeiro disco – e depois passou a emoldurar, de maneira insuperável, a maravilhosa melodia, com seus incríveis arranjos, exatamente aquela cujos compositores são pouco conhecidos: o maestro Mathias da Rocha, com versos de Joana Batista Ramos, conforme atesta, também, o Dicionário Cravo Albim.
Joana era uma senhora negra e pobre, empregada doméstica, filha de escravizados. Foi a letrista da Marcha nº 1, do Vassourinhas, antiga denominação do famoso frevo, imortalizado como Vassourinhas.
Todavia sabemos que Vassourinhas é mais frevo quando interpretado por Felinho – Félix Lins de Albuquerque – maestro, compositor, flautista e saxofonista pernambucano, nascido em 1895, em Bonito, onde também nasceu Nelson Ferreira, outro expoente de nossa música. Felinho faleceu no Recife, em janeiro de 1980.
Aliás, há quem pense ser de autoria de Felinho, o Vassourinhas, a retumbante obra musical produzida especialmente para o saudoso Clube Vassourinhas. Porém a letra é de Joana Batista Ramos e a música, do maestro Mathias da Rocha. Seu nome original não era apenas Vassourinhas, mas Marcha Nº 1, pertencente ao Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas.
Em épocas remotas, quando surgiram grandes agremiações profissionais, cada uma tinha seu clube de carnaval e geralmente, suas músicas-hino; daí surgiu o Vassourinhas, formado pela turma dos mais antigos qa vassoura, hoje denominados vassoureiros ou garis.
Que ainda hoje são bem lembrados: Blocos das Flores Brancas, o mais antigo; Turunas de São José, Pirilampos de Tejipió, Blocos das Pás Douradas, Quero Mais, Amantes de Glória, Andaluzas, Madeiras, do Rosarinho, Apôs Fun e muitos outros que não chegaram a permanecer, senão em gravações de discos e letras de músicas modernas, criadas por compositores de destaque, como Antônio Maria, Luiz Bandeira e muitos outros.
A música Vassourinhas era cantada quando os foliões regressavam à sede do clube para recolher os estandartes, por isso, era chamada também de “Marcha Regresso”. Com o passar dos anos, outras letras surgiram em cima da canção original de Joana Batista Ramos e Mathias da Rocha.
Vejamos parte da letra original, já um tanto esquecida por nossos cantores-foliões.
Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Agora isto não! Ah, isto não!
Tu bem sabes o compromisso
Ah, isto não! Não pode ser
A mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer
Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Ah, isto não! Ah, isto não!
Tu bem sabes o compromisso
Ah, isto não! Não pode ser
A mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer
Ah! Reparem meus senhores
O pai desse pessoal
Que nos faz sair à rua
Dando viva ao carnaval
Com o passar dos anos, outras letras surgiram alterando a criação original e chegaram até a ser gravadas. Mas, como naqueles tempos não havia registro de Direito Autoral, foram ocorrendo alterações das letras.
Segundo nota de Cravo Albim um dos maiores dicionaristas de música brasileira e dados colhidos na obra de Beatriz Kauffmann, em 1945, o apresentador compositor e cantor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, conhecido por “Almirante” (Henrique Foreis Domingues) descobriu que a letra da canção de roda se encaixava corretamente na de Joana Batista e usou a segunda estrofe escrevendo mais duas outras.
O disco foi “Continental” nº 15.279-B. (Link pra ouvir na Google). Esta versão de Almirante para o frevo Vassourinhas foi a primeira que apareceu gravada no Rio de Janeiro. O sucesso foi tão amplo que a nova letra se espalhou pelo Brasil inteiro. Sem esta adaptação e o arranjo de Almirante, provavelmente o frevo Vassourinhas teria ficado no anonimato.
Aproveitando a melodia de Mathias da Rocha outras belas letras se notabilizaram, como aquela que foi adaptada por “Almirante”:
Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para meu, para meu bem passear
A tristeza, Vassourinhas
Invadiu meu coração
Ao pensar que talvez nunca
Nunca mais te veja, não
Mas, com a evolução das artes musicais, Vassourinhas se engrandeceu com novos arranjos, letras, gravações e outros solistas, espalhando pelo mundo o hino do povo de Pernambuco.
Aproveitamos para louvar aqui o solo de sax do Maestro Spok. Sobressaem-se, em nossa época, os shows apresentados pela Spok Frevo Orquestra em vários países. Há pouco tempo, esta orquestra levantou a platéia no Teatro Municipal de São Paulo, ao interpretar Vassourinhas com novos arranjos.
Meu amigo Inaldo Cavalcanti de Albuquerque – o Maestro Spok – parece que recebeu a divina missão de continuar difundindo os novos frevos, divulgando pelo mundo a arte mais significativa de Pernambuco.
Inaldo formou uma orquestra que se tornou uma jazz band, composta por dezoito músicos, formados no Recife, em 2001, cujo objetivo é divulgar o frevo no Brasil e no mundo.
Passo de Anjo é uma dessas melodias. Frevo de sua autoria e João Lira, que foi eleito pelo jornal O Estado de S. Paulo como um dos três melhores frevos lançados em 2004 e já é considerado o Vassourinhas de nossa época.
Que o grande Spok receba nosso abraço, carnavalescamente.

