Marcha da Família – SP – 1964
Na época em que completei 28 anos, ao me dirigir, pela manhã, bem cedo, ao trabalho no Banco do Brasil, tentei passar, de carro, pela Ponte Maurício de Nassau, na ilha-bairro do Recife, mas fui impedido por um tanque de guerra, com vários soldados armados com rifles, nas duas cabeceiras. Procurei um beco perto da Rua Madre de Deus, estacionei o veículo e me mandei a pé.
Fiz o arrodeio, a fim de passar, a pé, pela outra ponte, a Buarque de Macedo. Ao chegar ao Banco fui chamado à Tesouraria para receber das mãos de Véscio, um envelope com um adiantamento em dinheiro, por 15 dias de trabalho. Maravilha!
Passei o recibo e “sebo nas canelas”, porque o Banco Central havia determinado Feriado Bancário, e todo mundo deveria ir pra casa. Necas de trabalho! Mas muita preocupação.
Sentia-se o cheiro ruim no ambiente das ruas e imaginava-se alguma nuvem pesada nos ares do Recife. E o pior era desconhecer o motivo da grande apreensão. O Recife novamente atacado por submarinos germânicos? Previa-se algum quebra-quebra?
Passados tantos anos, recordo alguns momentos incômodos que vivi durante a Revolução de 1964, embora sem sofrer nenhuma admoestação, porque sempre acompanhei a ideologia de meu pai, que era da UDN – União Democrática Nacional,
Retomo à história após a leitura do livro “Eu e Jango”, escrito por João Vicente Goulart, filho do Presidente e sua esposa, D. Maia Thereza Goulart, uma das Primeiras Damas mais belas do País.
De 1964 a 1985, Elio Gaspari, jornalista-escritor brasileiero, escreveu cinco livros comentando, sob a ótica de um historiador, o Regime Militar, movimento político que as mulheres brasileiras iniciaram nas ruas de São Paulo.
As pesquisas e comentários criteriosos, constantes de obras publicadas por vários outros escritores, indicam que tal passeata de protesto foi uma resposta direta ao comício que João Goulart, na época Presidente do Brasil, havia realizado na Central do Brasil, no Rio, onde anunciou a implantação das “Reformas de Base”, bandeira maior do esquerdismo nacional, que acendeu o pavio da revolta das mulheres brasileiras.
Setores conservadores, principalmente as mulheres da sociedade, temerosos do que consideravam ser uma real ameaça comunista, organizaram uma passeata para demonstrar oposição ao Governo e defender a ordem familiar tradicional.
Nota de jornal: São Paulo marcou o começo de mais de 50 manifestações por vários pontos do País, movimento que contou com o apoio de grande parte da Imprensa e do empresariado, forçando Jango a se evadir do Brasil.
Foi quando ocorreu a ruptura. Auro de Moura Andrade, então Presidente do Senado, na madrugada de 31 de março de 1964 declarou vaga a Presidência da República, levando Ranieri Mazilli, Presidente da Câmara dos Deputados, a ocupar o cargo, posse ocorrida em 2 de abril.
Até aí, me digam, alguém deu golpe fardado?! Então não foi golpe e muito menos militar!
Ora, se a posse legal de um presidente civil ocorreu nos primeiros dias de abril, não há como “inocentes desavisados e de má fé” continuarem alardeando que houve um ”Golpe Militar” em 31 de março de 1964 e em seguida instituiu-se uma ditadura.
Mas a petralhada atual sempre distorce a História, criando a narrativa de “Golpe Militar”, quando, em verdade, até se poderia dizer que, se houve golpe, este foi um Golpe Feminino.
O certo seria afirmar que houve sim, o “Golpe Feminino”, cujas consequências forçaram a vacância do cargo presidencial. Simples assim!…
