MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O BRASIL NÃO FOI CONSTRUÍDO. FOI SABOTADO. (DESDE 1500, COM ORGULHO)

O Brasil não deu errado. Essa é a primeira mentira que nos contaram. O Brasil deu exatamente certo — para quem sempre esteve no comando. Desde 1500, este território não foi pensado como nação, mas como negócio. Nunca como projeto coletivo, mas como extrativismo humano, material e simbólico. E a elite brasileira — essa entidade sem pátria, sem vergonha e sem espelho — sempre foi a gerente fiel do saque.

1500–1822: Nascemos Colônia; Morremos Colônia

Portugal não veio fundar um país. Veio abrir uma planilha. Aqui não se plantou cidadania, plantou-se monocultura. Não se formou povo, formou-se mão de obra descartável. Não se construiu Estado, construiu-se Casa-Grande. E atenção: a elite que nasce aí nunca se brasilizou. Ela falava português olhando para a Europa, vivendo aqui como quem mora num hotel decadente, apenas esperando o momento de ir embora com os bolsos cheios.

Machado de Assis teria resumido assim, com aquele sorriso assassino: “Não tivemos senhores de escravos. Tivemos escravos de senhores. ”

1822: Independência Sem Povo (O Golpe Mais Bem Sucedido)

A independência brasileira foi um milagre: conseguimos trocar de dono sem mudar nada. Mesma elite. Mesma estrutura. Mesmo desprezo pelo povo. Mudou a bandeira, manteve-se o chicote — agora invisível, jurídico, elegante. Enquanto outros países fizeram revoluções, o Brasil fez um acordo de condomínio. Orwell aplaudiria de pé: “Todos são livres, mas alguns continuam mandando mais que os outros. ”

República: O Nome Moderno do Mesmo Casarão

A República prometeu cidadania: Entregou coronelismo. Prometeu democracia: Entregou clientelismo. Prometeu igualdade: Entregou CPF, dívida e humilhação. A elite brasileira percebeu algo cedo: educar o povo é um risco existencial. Por isso: escola sempre foi improviso, universidade, exceção, ciência, luxo, professor, estorvo. Millôr Fernandes não pediria licença: “No Brasil, o futuro sempre foi uma ameaça ao presente de quem manda. ”

A Grande Obra da Elite: Produzir um Povo que se Acuse

Aqui está o golpe mais perverso: a elite brasileira não se sustenta só no dinheiro — ela se sustenta na culpa que o povo carrega. O brasileiro é ensinado a pensar: “Somos corruptos. ” “Não damos certo. ” “Isso aqui não tem jeito. ” Enquanto isso, quem: escreve as leis, controla o orçamento, define prioridades, protege privilégios permanece fora do banco dos réus morais. Machado gargalha do túmulo: “A culpa coletiva é o álibi perfeito para o crime individual. ”

Brasília: A Obra-Prima Da Desconexão

Brasília é o ápice estético da sabotagem. Não foi feita para governar um povo. Foi feita para governar à distância do povo. Lá, tudo é largo: avenidas largas, gabinetes largos, salários largos, privilégios largos. E tudo é estreito: empatia estreita, responsabilidade estreita e consequência estreita. Orwell anotaria: “Quanto mais longe do povo, mais fácil chamá-lo de problema. ”

O Mito Da “Falta de Vocação”

Dizem que o Brasil não tem vocação para ciência. Mentira. Dizem que não tem vocação para organização. Mentira. Dizem que não tem vocação para excelência.

Mentira. O que o Brasil não tem permissão é para que a excelência vire regra. Porque excelência cobra, Ciência questiona, Educação denuncia e Consciência desestabiliza.

Millôr pisaria fundo: “Aqui se premia o medíocre leal e se pune o brilhante incômodo.”

O Complexo de Vira-Latas: Uma Engenharia Psicológica

O brasileiro não se acha menor por acaso. Ele foi treinado. Treinado a: admirar o que vem de fora, desconfiar do que é seu, aceitar migalhas como destino e confundir sobrevivência com fracasso. Enquanto isso, a elite brasileira: estuda fora, investe fora, sonha fora, e governa aqui como quem cuida de um ativo temporário. Machado fecharia com navalha: “A pátria é um discurso conveniente. O lucro, permanente. ”

Conclusão: O Crime Perfeito

O maior crime da elite brasileira não foi roubar. Foi normalizar o roubo. Não foi explorar.

Foi convencer o explorado de que a culpa era dele. Não foi falhar. Foi chamar sabotagem de destino. O Brasil não precisa ser salvo. Precisa ser desmascarado. E quando o povo finalmente entender que: não é incompetente, não é inferior, não é o problema, a elite — essa sim — ficará nua, sem discurso, sem mito, sem álibi. E isso, meus caros, é o único terror que Brasília realmente teme.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

RETALIAÇÃO E INTIMIDAÇÃO

Editorial Gazeta do Povo

Como um boxeador nas cordas e que não tem mais nada a perder, os ministros do STF resolveram que não basta simplesmente continuarem blindando uns aos outros enquanto sofrem críticas de todos os lados. Agora, eles irão contra-atacar, e para isso não hesitarão nem em usar sua autoridade, nem em abusar da prática de se pronunciar fora dos autos. Gilmar Mendes e Dias Toffoli já afirmaram claramente que gostariam de ver punidos – seja na esfera criminal, seja em ações de inelegibilidade – os senadores da CPI do Crime Organizado que foram favoráveis ao indiciamento de Gilmar, Toffoli, Alexandre de Moraes e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O relator da CPI, Alessandro Vieira (MDB-SE), havia solicitado o indiciamento dos três ministros e do procurador-geral por atos ligados ao escândalo do Banco Master: a condução atípica do caso no STF por Dias Toffoli; as decisões de Gilmar Mendes que blindaram a investigação da empresa familiar dos Toffoli; o possível conflito de interesses envolvendo Alexandre de Moraes, e a tentativa de intimidar servidores por meio de inquéritos sobre vazamento de dados; e a omissão de Gonet, que continua sem ver motivos para a investigação dos ministros. No dia 14, quando o relatório seria votado, o governo, com a ajuda de aliados no Senado, manobrou para alterar a composição da CPI e o relatório, que antes tinha maioria para aprovação, foi rejeitado por 6 votos a 4. No entanto, isso não bastou para os ministros.

Por mais que houvesse uma conexão, mesmo tênue, que tem em uma ponta o resort Tayayá e, em outra, o PCC – por meio da Reag Investimentos, que administrava o fundo Arleen –, pode-se questionar a opção do relator por incluir os ministros e Gonet em seu relatório final. Pode-se, ainda, considerar frágil, ou até mesmo equivocado, o pedido de indiciamento dos ministros e do procurador-geral por crimes de responsabilidade, que não são caso para a esfera criminal, mas para um julgamento no próprio Senado. O que é inaceitável é o desejo escancarado de retaliação contra Vieira e os outros três senadores favoráveis ao relatório – Eduardo Girão (Novo-CE), Espiridião Amin (PP-SC) e Magno Malta (PL-ES) –, que, segundo a Constituição, são invioláveis também por seus votos, e não apenas por suas palavras.

Gilmar Mendes, sempre o mais exaltado, insinuou uma ligação de Alessandro Vieira com milícias em entrevista; durante sessão da Segunda Turma do Supremo, no dia 14, ainda antes que a CPI votasse o relatório de Vieira, afirmou que a Procuradoria-Geral da República deveria apurar “rigorosamente” o que classificou de abuso de autoridade – no dia segunte, Gilmar de fato formalizou o pedido de investigação à PGR. Na mesma sessão, Toffoli acrescentou que gostaria de ver inelegíveis os responsáveis pelo que chamou de “relatório aventureiro”: “não podemos deixar de nos furtar a cassar eleitoralmente aqueles que abusaram, atacando instituições para obter voto e conspurcar o voto do eleitor”, afirmou, dirigindo-se ao colega Nunes Marques, que assumirá em breve a presidência do Tribunal Superior Eleitoral – Magno Malta está no meio de seu mandato, mas Vieira, Amin e Girão encerram em 2026 seu período de oito anos no Senado e deverão sair candidatos em outubro.

Trata-se de retaliação e intimidação em estado puro. Com suas decisões, os ministros (com a ajuda de Gonet) já haviam declarado a toda a nação que ninguém haveria de botar os olhos ou encostar as mãos nos negócios próprios ou de suas famílias, não importando a quantidade enorme de suspeitas que pesam sobre eles. Agora, os integrantes do Supremo vão além e dizem que a insistência em investigar os laços dos ministros com Daniel Vorcaro trará consequências legais ou eleitorais aos que tiverem essa ousadia. Até o presidente da corte, Edson Fachin, reforçou a ideia de que ele e seus colegas são uma casta intocável, em nota sobre a “indevida inclusão” dos ministros no relatório de Vieira, na qual Fachin “se solidariza” com Gilmar, Toffoli e Moraes – como também fizeram André Mendonça e Flávio Dino.

“Cada qual reage de alguma forma a esse tipo de contingência. Alguns enfrentam. Eu, como sabem, adoro ser desafiado”, bravateou Gilmar Mendes durante a sessão da Segunda Turma em que criticou o relatório de Vieira. É fácil chamar para a briga quando se tem na mão um poder ilimitado, já que o contrapeso constitucional do Supremo abriu mão covardemente de exercer sua função. Afinal, falamos do ministro que coloca a Polícia Federal atrás de um servidor porque não suporta ser interpelado em um aeroporto, e que processa senadores por piadinhas; seria até estranho se ele não tivesse reagido ao relatório da forma como reagiu. “Lá no meu Mato Grosso, as pessoas dizem: ‘Não me convide para dançar porque eu posso aceitar’”, afirmou, ainda, Gilmar Mendes; de fato, ele hoje é o dono do salão de baile; resta saber até quando o Senado deixará que ele continue pisando nos pés de todos impunemente.

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