Foi com irritação que Lula (PT) recebeu os números do Datafolha no fim de semana, com Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente do petista em um eventual segundo turno.
A crise fez o presidente mandar os ministros adiantarem os projetos com algum apelo popular para estancar a sangria na popularidade.
A estratégia é reverter a maré para Lula e mitigar o estrago eleitoral da inflação, que ainda deve aparecer, em razão da alta dos combustíveis.
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Muito bom saber que ele ficou irritado com o resultado da pesquisa.
O emputecimento do Descondenado é um ponto positivo para a banda decente do Brasil.
“Mas cá entre nós, eu acho que depois de morrermos não há nada. Tal como antes de nascermos. Nada.” Ramón Sampedro – personagem do ator Javier Bardem, no filme.
MAR ADENTRO (2004), narra a história do marinheiro, escritor e ativista espanhol, Ramón Sampedro, interpretado magistralmente no cinema pelo ator hispânico Javier Bardem, tendo Ramón ficado tetraplégico após um mergulho numa área rasa do amar e ter batido com a cabeça numa pedra. O filme mostra a luta incessante de Sampedro perante os Tribunais locais pelo direito de cometer suicídio assistido, contando com a ajuda dos amigos e da família, além de um advogado, que abraçou a causa gratuitamente.
Por causa da sua incapacidade física de não poder suicidar-se e morrer conforme seus desígnios, Ramón lutou na justiça durante vinte e cinco anos pelo direito de morrer com dignidade sem incriminar os amigos ou a família que viesse a auxiliá-lo no ato de tirar a própria vida, tomando cianeto de potássio.
Ramón Sampedro tornou público seu desejo de morrer no início de 1990, mas só oito anos depois foi que conseguiu um suicídio assistido, através da ajuda de uma amiga, que antes gravou um vídeo de sua morte que foi divulgado nas redes de tevês do país e do mundo e voltou a despertar na sociedade a importância do debate sobre a despenalização da morte assistida.
A associação espanhola “Direito a Morrer Dignamente” considera que, graças à sua luta e às suas reivindicações, Ramón Sampedro contribuiu para que, em 1995, fosse aprovada uma reforma no Código Penal que reduziu as condenações em caso de eutanásia ou de assistência ao suicídio.
Entre os temas mais difíceis que o cinema ou qualquer outra arte pode tentar retratar, a morte, mais especificamente a eutanásia ou a morte assistida, deve figurar entre os principais. A complexidade da questão, aliada à falta de representatividade entre grandes diretores e roteiristas faz com que sejam raras as películas que se dedicam a debater o assunto. Em 2016, a comédia romântica britânica Como Eu Era Antes de Você recebeu uma série de críticas e protestos por ter, na ótica de muitos, glamurizado a eutanásia e reduzido o debate sério a uma comédia leve e adolescente, que se resolvem em meio a piadas, sarcasmos e uma alta dose de humor. A diretora inglesa Thea Sharrock não teve competência para dirigir um tema sensível com catilogência.
Mar Adentro, anterior à comédia britânica, parece entender exatamente as críticas e se antecipar a todas elas. A história retrata a vida de Ramón Sampedro, o espanhol de meia idade que se tornou tetraplégico, deseja, conscientemente, a morte. Ramón, depois de mergulhar e bater a cabeça numa pedra no fundo do mar, vive numa cama na humilde residência em que mora com o pai, seu irmão José, a cunhada Manuela e o sobrinho Javier. A eutanásia na Espanha era proibida e Ramón precisa contar com a ajuda da advogada Júlia, que simpatiza com sua história, para tentar convencer a Corte espanhola a alterar a lei e atender ao seu pedido.
Todo o drama é escrito de maneira muito sóbria e humana. Não existe qualquer tentativa de se romantizar a questão ou criar heróis e vilões dentro da trama. Um ponto bem claro para evidenciar a preocupação do roteiro é o pouco tempo dedicado ao debate legal sobre a morte assistida em si. As cenas de tribunal são mínimas e os termos jurídicos, inexistentes.
O centro da trama é realmente o sentimento de Ramón e sua relação com a vida e as pessoas à sua volta. Nesse sentido, conforme as relações evoluem, entendemos melhor os dramas de Júlia e Rosa e porque elas se conectam tanto com o protagonista. Júlia sofre de uma doença degenerativa que coloca ela numa cadeira de rodas e a aterroriza quanto ao seu futuro. Ela se apega à Ramón e eles criam uma conexão forte e sensível. Já Rosa, tão machucada em relacionamentos amorosos, projeta em nele um homem ideal e que a dá forças para viver. Quando ela entende que para ele a maior demonstração de amor é ajudá-lo a morrer, ela se entrega e deixa de lutar contra a vontade dele, trazendo à história um final sensível e melancólico, mas nada romântico ou glamourizado.
Toda essa sensibilidade é positivamente ressaltada pelas ótimas atuações e pelo design de produção da obra. A preocupação de Amenábar em balancear a quantidade de tomadas internas e externas dá um alívio ao espectador e evita uma sensação claustrofóbica de acompanhar toda a história dentro do quarto onde Ramón vive. A composição de personagem por parte do ator Javier Bardem também merece destaque, desde as expressões faciais, a postura enrijecida, a respiração e a fala acelerada trazem verdade ao personagem, que através da maquiagem indicada ao Oscar daquele ano o transforma completamente.
Mar Adentro consegue emocionar e ao mesmo tempo trazer reflexões pertinentes, duas características que infelizmente nem sempre andam juntas. O filme é mais um ótimo trabalho do direto Alejandro Amenábar e do cinema espanhol que, merecido, levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de volta à Espanha, que havia vencido pela última vez com Tudo Sobre Minha Mãe (1999), do espalhafatoso, mas competente, Pedro Almodóvar.
Péter Magyar, líder do Tisza, partido vencedor das eleições húngaras deste domingo
Após 16 anos no poder, Viktor Orbán terá de entregar o comando na Hungria ao também conservador Péter Magyar. Mesmo contando com a máquina estatal e uma rede internacional de apoios que incluía o presidente norte-americano, Donald Trump, e o ditador russo, Vladimir Putin, o partido de Orbán, o Fidesz, conquistou menos de um terço das cadeiras do parlamento unicameral da Hungria – a apuração está praticamente concluída. Já o Tisza, legenda de Magyar, teve 52% dos votos totais, mas, graças ao sistema eleitoral usado no país, terá uma supermaioria de 136 das 199 cadeiras, o suficiente para emendar a Constituição. A direita nacionalista do Nossa Pátria superou por pouco a cláusula de barreira e deve eleger seis deputados.
Que os húngaros não querem nada com a esquerda é evidente – e natural, para um país que sofreu tanto nas mãos dos comunistas durante a era da Cortina de Ferro, com direito a um levante massacrado por Moscou em 1956, e que até deu mais uma chance aos socialistas entre 2002 e 2010, antes de rejeitá-los devido à irresponsabilidade econômica e à corrupção. A questão é o tipo de direita que a população resolveu colocar no governo agora. A diferença radical entre Orbán e Magyar não está nas plataformas morais, pois são ambos conservadores, mas na forma como eles enxergam o papel da Hungria dentro da Europa, e em como o poder deve ser exercido internamente.
Orbán transformou a Hungria na ponta-de-lança da Rússia dentro da União Europeia, fazendo o jogo do ditador russo sempre que possível, especialmente atrapalhando o envio de ajuda europeia à Ucrânia, que resiste à invasão russa há quatro anos. Em março, o jornal The Washington Post ainda revelou que o chanceler húngaro estaria repassando ao seu colega russo, Sergei Lavrov, informações sensíveis de reuniões realizadas no âmbito da UE. Além disso, Orbán mostrou que o autoritarismo não tem coloração ideológica ao aparelhar o Judiciário, enfraquecer o sistema de pesos e contrapesos, e intimidar a imprensa livre, exatamente como fazem ditadores de esquerda mundo afora.
Muitos conservadores, no entanto, acabaram caindo em uma armadilha, fechando os olhos para os aspectos autocráticos do governo de Orbán apenas porque o primeiro-ministro tinha a valentia de desafiar “consensos” identitários característicos das sociedades ocidentais, alguns deles inclusive impostos pela União Europeia. Seu governo valorizou o casamento entre homem e mulher, incentivou as famílias numerosas, buscou controlar as ondas de imigração vindas do Oriente Médio, e defendeu a identidade cristã da Hungria – o aborto, no entanto, continua legal, apesar de a Constituição de 2012, aprovada já com o Fidesz no poder, afirmar a proteção da vida humana desde a concepção.
Faltou aos conservadores fascinados com a Hungria perceber que o autoritarismo pode ser tudo, menos conservador. Nem o avanço quase irrefreável de um certo tipo de “progressismo” (entre aspas, pois nada do que se defende aí pode ser considerado verdadeiro progresso) identitário pelo mundo poderia servir de justificativa para endossar com entusiasmo um governante que ataca liberdades como a de expressão, ou anula a independência entre os poderes, apenas porque ele defende uma pauta moral conservadora. Pelo contrário: esta é a receita perfeita para criar uma associação indelével entre conservadorismo e autoritarismo que já tem sido explorada pela esquerda em outros países – inclusive o Brasil.
Se Péter Magyar conseguir preservar o que há de bom na pauta moral herdada de Orbán, enquanto devolve a normalidade democrática à Hungria e realinha o país internacionalmente, afastando-o das garras de Vladimir Putin e integrando-o ao projeto europeu, defendendo a soberania nacional e a subsidiariedade desejadas pelos pais da UE, fará um grande favor ao conservadorismo mundial. A tão necessária defesa da vida e da família não precisa (e nem deve) vir associada a regimes de força e supressão das liberdades, nem servir para justificá-los.