CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

A PALAVRA DO EDITOR

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

BOAVENTURA BONFIM-FORTALEZA-CE

Caro Editor Berto,

Minha homenagem a todas as Mães.

Soneto escrito por um filho com o coração plangente para uma doce Mãe que partiu repentinamente.

* * *

Mãe – Boaventura Bonfim

Vi minha querida mãe ir-se embora
Agonizando em uma dor pungente
E eu, o que fazer naquela hora,
Se até o médico viu-se impotente?

Como era grande a dor que ela levou
Em seu belo coração que foi embora,
Tão grande quanto a dor que ela deixou
Em nosso pobre coração que inda chora

E o homem de branco todo arrogante
Com ar de quem sabe tudo e pouco faz,
Naquela hora foi insignificante

E hoje só nos resta lamentar
A perda daquela amada que jaz
E só o tempo nos vai acalentar.

DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TENHO TANTO SENTIMENTO – Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando António Nogueira Pessoa, Lisboa, Portugal (1888-1935)

DEU NO X

DEU NO JORNAL

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CAFÉ AMARGO E O FUBÁ DA MINHA TIA

Rapadura cortada para adoçar o café

Nunca pense que a vida na infância é só peraltice, escola, comida boa ou jogar bola e andar de bicicleta ou qualquer outro brinquedo, pois a infância tem também suas agruras e dificuldades.

Papeira, ou caxumba?

Sarampo, conjuntivite (no Ceará, “dordói”), dedo dismintido, coqueluche, bexiga – acredite, isso não é nada bom. Que já enfrentou, sabe como é.

Isso, sem contar as surras (no Ceará, “pisa”) com cipó de marmeleiro, os castigos em casa e na escola – além daqueles famosos: “quando a gente chegar em casa, vamos conversar”; ou ainda a ansiedade da pisa antecipada, com o famoso: “quando teu pai chegar, vou contar tudo pra ele”!

Gripe com febre alta e assistir o aparelho fervendo com a ampola e a agulha para tomar aquela injeção que doía mais que parir uma criança?!

Tudo café pequeno.

Tomar banho, querendo ou não – porque está na hora!

Ouvir: “vá banhar, daqui a pouco vou lhe esfregar, pra tirar esse “serôto” do cangote”!

Todas essas coisas, boas e ruins que acabam sendo boas por que vão somar no aprendizado da vida, representam a convivência da universidade familiar, que vai nos acrescentar mais que qualquer mestrado ou doutorado.

É a verdadeira graduação da vida. Com diploma para emoldurar e exibir na parede da vida – quando os cabelos branquearem, as articulações começarem a doer e a urina começar a cair fora do vaso sanitário.

Fubá de milho torrado e pilado

Mas, como focar nesse “remake” da vida deixando de lado o que de bom enfeitou nosso viver?

Alguém conhece uma criança que, mesmo vivendo dificuldades, não tenha sido feliz?

E, assim sendo, quem teria inventado a frase: “a gente era feliz e (não) sabia”?

Eu fui feliz, sim senhor – mesmo enfrentando ao longo de oitenta anos os problemas que enfrentei. Mas, me atreveria a olhar para trás e repetir muita coisa.

Roubar a rapadura da Vovó (que, no fundo, era minha também), guardada numa cumbuca debaixo de sete chaves – única e exclusivamente para adoçar o “nosso café”.

Ajudar a socar no pilão o milho torrado para fazer fubá, pôr na boca uma mancheia e tentar falar: “minha Tia é boa porque pode”!

Pois é. Ser feliz é fazer e ver acontecer coisas simples, que, às vezes, apenas nós entendemos.

E, sinceramente falando, esse é o somatório da vida. É o que significa viver e ser feliz.