MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

OS TRAPALHÕES

Minha intenção não é falar do quarteto de humoristas comandados por Renato Aragão e que tanto alegrou às noites do domingo, sendo exibido antes do programa Fantástico na, então Rede Globo de Televisão. Os trapalhões a que me refiro estão no governo batendo cabeça, publicamente, sem saber o que fazer com a economia brasileira. As decisões tomadas e revogadas, o desmentido público que o presidente em relação ao ministro da justiça e tantas outras decisões que eu vejo como determinantes de um governo acéfalo.

Há algum tempo aqui, falei sobre a sanha do governo por aumentar a arrecadação. Forçosamente busca-se reduzir o déficit público mediante aumento da arrecadação e técnicos do ministério da fazenda parecem que não buscam entender o alcance de determinadas medidas. Comecemos com a tal “taxa das blusinhas”. O governo passado isentou de tarifas compras de até US$ 50,00, mas o grande timoneiro decidiu acabar com essa isenção e lascou uma tarifa de 17% a 20% sobre esse tipo de comércio. Segundo o governo, o objetivo era fortalecer o desempenho da indústria têxtil no país. Tal medida, além de não acrescentar um centavo sequer ao mercado têxtil, provocou uma queda de 35% na receita dos Correios, levando a empresa para a situação que hoje se encontra.

Não bastasse veio a movimentação do Pix que, em última instância, se destinava a aumentar a receita do governo. Como? Taxando o Pix? Não! A questão era que quando ao ter que se declarar a movimentação muitos pequenos e micros empresários sairiam da faixa de tributação. Hoje, uma empresa que fatura até R$ 80 mil por ano é considerada micro. É sabido que microempresários controlam o volume de receita para continuar com os benefícios fiscais da classe e todo mundo entende o motivo disso: a excessiva carga tributária e o risco de não se manter competitivo numa faixa tributária diferente. O efeito dessa lambança foi um vídeo do Deputado Nikolás Ferreira atingir algo da ordem de 300 milhões de visualizações e o governo se apressar em anular o decreto. O ministro da fazenda recebeu uma reprimenda pública do chefe: “qualquer decreto deve passar pela casa civil”. Nada mais justo porque atualmente passa pela casa da mãe Joana (com todo respeito às Joanas).

Chega a expectativa da reforma tributária, com a tão esperada isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e a tarifa sobre quem ganha mais de R$ 50 mil por mês. O resultado disso foi simples e direto: não apresentaram a proposta de reforma do imposto de renda e lascaram os pobres quando mudaram a forma de atualização do salário-mínimo. Não é mais inflação mais crescimento econômico, agora é inflação mais 2,5% e pronto. A tentativa era salvar a previdência, mas “de repente, não mais que de repente” o governo descobre que desviaram R$ 6,3 bilhões da aposentadoria dos coitados eleitores do governo.

O resumo dessa ópera é simples: o governo atual descobriu um esquema de corrupção que começou no governo anterior e demitiu o ministro da previdência – que não era do governo anterior e que sabia dos absurdos há 10 meses – e até o momento não consegui explicar duas coisas: 1 – Por que o governo anterior ia favorecer um esquema de corrupção que beneficiou aliados do governo atual tendo em vista que os desvios cresceram, neste governo, 64%? 2 – Por que os deputados e senadores do partido do presidente e aliados, não assinam a CPMI mista se esta é uma oportunidade ímpar de desmascarar o governo anterior?

Quando a gente pensa que não tem nada de ruim para acontecer, o governo resolve mudar a cobrança do IOF para pessoas jurídicas. A alíquota do Imposto sobre Operação Financeira ou sobre operação de crédito era 0,0041% ao dia e agora passou para 0,0082% ao dia. Simplesmente o dobro. Qual o efeito disso? Aumento no custo de crédito. O custo efetivo das operações de capital de giro, por exemplo, será maior. Investir num CDB, agora, vai gerar uma rentabilidade líquida menor. Alguém está preocupado em saber o impacto sobre os mercado? Aparentemente, não. Registre-se que há uma alíquota de 5% sobre a seguridade e as duas empresas correm o risco de sofrer impacto é o Banco do Brasil e Caixa pelas operações de VGBL.

Na minha parca opinião, Zeus não deu a Pandora a caixa com todos os males do mundo. Deu ao presidente atual. Como se não bastasse tudo isso, o governo contingenciou os recursos das universidades federais, fazendo a liberação do orçamento em três partes, uma delas em novembro de 2025. Resultado disso? A UFRJ, está mingua, sem recursos para manter sua operacionalização e com planos de manter apenas a assistência estudantil em funcionamento. Tomei conhecimento de que a UFAL vai parar (Bernardo e Carlito Lima podem verificar a veracidade desse comentário).

Apesar disso, o Brasil tem uma taxa de crescimento prevista de 1,5% no trimestre, mas aumentou o número de pessoas e empresas endividadas, aumentou em 61% a quantidade de empresas em regime judicial, e vai aumentar a receita do governo, mas não há a menor previsão de redução nos gastos do governo.

DEU NO JORNAL

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

PROSPERIDADE

Foto: Gumercindo Duarte

Mote:

A chuva caiu trazendo
Prosperidade ao sertão.

Rezei para São José,
Pedi à Virgem Maria
Que eu pudesse todo dia
Multiplicar minha fé.
Chamei a minha Zabé
E fomos pra Procissão
Padre Pedro disse: – Irmão,
Deus está nos atendendo!
A chuva caiu trazendo
Prosperidade ao sertão.

Na cidade de Altinho
Choveu no sítio Chatinha,
No Quilombo e Cajazinha,
Guaraciaba e Cantinho.
No Carão, no Sobradinho,
Mocó e Demarcação
O arado rasga o chão
E o matuto anda dizendo:
– A chuva caiu trazendo
Prosperidade ao sertão.

Serra do Tamanduá
E a Serra do Letreiro
De manhã é nevoeiro
Parecendo o Canadá.
No tempo que vivi lá
Nunca tive esta visão
Que O Autor da Criação
Vem agora oferecendo.
A chuva caiu trazendo
Prosperidade ao sertão.

DEU NO JORNAL

REGULAGEM DAS REDES

Madeleine Lacsko

Na entrevista publicada pela Folha de S.Paulo, Janja verbalizou de forma explícita o desejo que há anos é sugerido nos bastidores: o governo Lula quer importar o modelo chinês de regulação das redes sociais. A primeira-dama afirmou que, no país asiático, “se não seguir a regra, tem prisão” e questionou: “Por que é tão difícil a gente falar disso aqui?”. A frase, dita sem rodeios, é mais do que uma opinião pessoal, é a admissão de um projeto político que está em curso. Durante anos, o petismo disse que seu modelo de regulação das redes era o inglês.

Em 18 de outubro de 2019, alertei sobre esse risco: como a China vigia cidadãos e o que o Brasil está fazendo. Na ocasião, mostrei como o governo brasileiro já preparava o terreno legal para implementar mecanismos semelhantes aos do regime comunista chinês, como a coleta de dados biométricos, o armazenamento da forma de andar de cada pessoa e outras informações sensíveis. Eram mudanças aparentemente técnicas, escondidas sob camadas de linguagem burocrática. Mas o objetivo sempre foi claro: controle.

A China não tem apenas uma regulação severa sobre conteúdos e plataformas. Tem um sistema de vigilância e punição social baseado em pontos, como se fosse um videogame macabro. Milhões de chineses são impedidos de viajar, matricular os filhos em boas escolas, conseguir empregos ou mesmo usar o transporte público por terem dito algo “errado” na internet. E não apenas eles. Suas famílias também sofrem consequências, mesmo que concordem com o governo. É esse modelo que a primeira-dama quer trazer para cá.

Se antes o governo Lula fingia buscar um “modelo europeu” ou “britânico” de regulação, agora a máscara caiu. Janja quer censura com prisão. Não estamos mais diante de um debate sobre moderação de conteúdo ou proteção à infância. Estamos falando de uma proposta que, se levada adiante, transformará o Brasil em um laboratório de autoritarismo digital. A justificativa, como sempre, é a proteção das crianças. Mas o problema que ela aponta não será resolvido pelo modelo que defende. Só será resolvido um outro problema: o da impopularidade do governo.

O grave é que as bases jurídicas para que se construa algo assim estão sendo plantadas há anos e em todos os governos, de forma silenciosa. Em 2019 se flexibilizou o nosso direito a dados biométicos importantes. Como a maioria não entendia do que se trata, simplesmente calou. Os políticos sabiam, mas sempre estiveram mais preocupados em defender políticos do que em defender a liberdade dos cidadãos. Assim foram se sedimentando as bases para o PT deitar e rolar agora que voltou ao poder.

Janja conta com dois tipos de aliados. O primeiro é o militante luloafetivo: tudo o que Lula diz é automaticamente racionalizado. Se Janja propõe censura, é pela proteção das crianças. Se ela fala em prisão, é pela vida. Esse tipo de militância é incapaz de diferenciar crítica democrática de ataque político. Acredita que a liberdade de expressão é um obstáculo e não um pilar da democracia.

O segundo grupo é mais nocivo: é a bancada do “eu já sabia”. São aqueles que se dizem críticos do governo, mas relativizam cada novo avanço autoritário com frases como “o PT sempre foi assim”, “isso não vai dar em nada”, “eu já sabia lá atrás”, “eu avisei”, “faz o L”. Fingem que não há novidade e, com isso, ajudam a banalizar o inaceitável. Transformam a exceção em regra e a ameaça em tédio. Creio que alguns têm boa intenção mas esbarram na própria precariedade intelectual ao tentar compreender o mundo e expressar ideias. No entanto, todos sabemos onde está cheio de boas intenções.

A diferença entre democracia e ditadura não está apenas na existência de eleições. Está na liberdade de cada cidadão de falar, pensar, discordar e ser ouvido. Quando essa liberdade é substituída por algoritmos estatais, pontos sociais e censura preventiva, o que se tem é um sistema de controle total. E, como disse naquela coluna de 2019, uma vez entregue a liberdade, não há devolução. Não se perde liberdade aos poucos: ou se luta por ela todos os dias, ou ela desaparece.

A sociedade brasileira precisa escolher agora. Não estamos mais no campo das suposições. A proposta está colocada com todas as letras. E o que está em jogo é simples: ou mantemos a liberdade de todos, ou aceitaremos viver sob a vigilância permanente de quem se acha mais iluminado que o resto da população.

DEU NO X

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OS CAMBITOS E AS PANELAS “AREADAS”

“Cambitos para carga em animal” refere-se a ganchos de madeira usados para transportar cargas sobre animais, como burros, cavalos e mulas. Esses ganchos, também conhecidos como “ganchos de madeira”, são colocados sobre a cangalha (uma estrutura que se fixa no animal) e servem para fixar a carga, como lenha, capim, ou outros materiais”.

Cambitos

A rotina funcionava como um desenho. Todo ano, no último dia de aulas na escola, a entrega – via de regra com alegria – do calhamaço de provas e as boas notícias da aprovação. Naqueles tempos, os alunos eram aprovados, porque aprendiam. Diferente de hoje.

A chegada em casa sequer merecia parabéns, pois a boa notícia, repito, era a rotina.

– Vamos viajar amanhã, cedinho. As passagens já estão compradas. Vá dormir cedo, mas antes arrume a mala (ainda não haviam inventado a valise, tampouco aquela maleta com rodinhas e puxador de mão) com as coisas que vai precisar. Ordenava a mãe.

No dia seguinte, sem o cantar do galo, mas, mal dormido pela ansiedade da viagem – o ônibus saía da Cidade da Criança às 8 horas, em ponto – o café preto com pão sem manteiga, na verdade representava um desenho da alegria da chegada na casa da Vovó, onde café torrado em casa, leite de cabra fervido, cuscuz feito no prato, coalhada e batata doce cozida compensavam o café preto de casa.

A viagem era rápida. Demorada era a caminhada no caminho cheio de terra que nos obrigava a retirar os sapatos para poder caminhar mais rápido, antes que o sol esquentasse.

Na chegada na casa da Vovó, o café era reforçado. O Avô, como presente por mais uma aprovação na escola, preparava uma baladeira nova, feita com a melhor borracha de câmara de pneu. O neto ganhava, também, um badoque cheio de pedras para a baladeira. A alegria era explosiva. Presente melhor, nunca houve.

Eis que, passada a alegria da chegada era iniciada a preparação para a rotina do dia seguinte:

– Zezim, meu fio, vá pegar o jumento na capoeira, aprepare ele e vá buscar dois caminhos d´água! Se avexe menino, se não o animal vai muito longe!

Aquele trabalho fazia parte da alegria rotineira das férias. Havia algum tipo de trabalho para compensar os nacos de rapadura, as cuias de farinha com açúcar e, às vezes, até as mariolas compradas pelo Avô no dia anterior.

Jumento “Pretinho” carregando água

O primeiro “caminho d´água” era para os afazeres domésticos. O segundo era para encher os potes de beber e as quartinhas – uma ficava na janela, para refrescar com a batida do vento – e a sobra enchia a terrina que ficava na sombra. Era para as aves e no fim de tarde para molhar a frente da casa antes de ser varrida.

As conversas eram postas em dia entre os avós e a mãe.

Eu ia usufruir da baladeira nova e do badoque de pedras. Conseguia matar algumas rolinhas “caldo de feijão”, e ainda voltava para tomar banho nu no açude. Aproveitava para atirar nas galinhas d´água e marrecas que se fartavam com a água do açude.

Voltava, sempre, antes do anoitecer. Bem na hora do jantar estar botado na mesa – onde todos comiam à vontade depois das orações de agradecimento. Sem telefone celular.

Panelas areadas e postas à secar

Quem vinha da cidade grande para passar férias no interior, trazia sempre alguma novidade. Mamãe comprava no prestamista (pagamento mensal) algumas panelas e outras vasilhas para a Vovó.

Tudo de alumínio. Antes do uso, eram escaldadas (na água fervente) e areadas com sabão, areia lavada e esponja de cerca. Depois, eram postas a secar e a brilhar no sol!

O que acontecia de ruim, era que aqueles trinta dias passavam mais rápido que a chuva fininha do verão – quando achávamos que deveriam demorar mais que enxaqueca menstrual das mulheres.

No último dia, a rotina. Arrumar a mala para a volta. Agora, tinha um apetrecho a mais: a baladeira nova presenteada pelo Avô.

DEU NO JORNAL

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

POR UMA EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA

A pergunta é inquietante, recheada de perplexidade: por que mais de 50% dos alunos cubanos conseguem resolver problemas complexos de matemática, enquanto apenas 10% dos alunos brasileiros e 15% dos alunos chilenos atingem o mesmo nível?

O depoimento de Peter Graber, empresário e conselheiro da Fundação Lemann, exposto na capa última de um livro seu, deveria servir de mote primeiro nas discussões sobre nosso desenvolvimento educacional:

“Visitei o país (Cuba) em 2008 e fiquei impressionado com a qualidade do ensino. Senti muita motivação de professores e do diretor da escola em educar bem suas crianças, apesar dos salários de professores estarem por volta de R$ 35,00 por mês. Professores têm baixos índices de falta, comparáveis aos da iniciativa privada no Brasil, e os alunos faltam pouquíssimo. Nota-se mais disciplina tanto de alunos como de professores quando comparado ao Brasil. A grade curricular é padronizada, todas as salas de aula no país (rurais e urbanas) ministram a mesma matéria na mesma hora e têm uma TV e um vídeo que transmitem conteúdo por TV aberta, nacionalmente, para todas as classes de uma determinada série. Existem professores mais experientes que observam outros dando aulas. Isso serve para avaliar e para ajudar a melhorar a qualidade de seu trabalho. Cuba tem um povo com boa saúde e boa educação, mas uma economia com décadas de atraso, sem investimentos e muito pouco produtiva. A população é, portanto, super qualificada para as oportunidades que a economia oferece.”

Diante do depoimento acima, feito por um empresário, fica-se a imaginar o nível do desenvolvimento social brasileiro se as nossas crianças, das áreas rurais e urbanas, possuíssem uma educação básica de qualidade, com professores capacitados e bem incentivados financeiramente, amplamente emulados por bibliotecas equipadas, adequado material escolar e ampla supervisão comunitária no acompanhamento do desempenho das unidades de ensino.

No seu livro, Martin Carnoy revela que “Cuba oferece às crianças em suas escolas mais oportunidades de aprendizagem do que o Brasil e o Chile”. E aponta as quatro maneiras de proporcionar tais oportunidades: 1. Todos os alunos estudam todo o conteúdo do currículo cubano especificado; 2. Os professores da escola primária possuem alto nível de conhecimento de conteúdo, especialmente em matemática, favorecendo o efeito “círculo virtuoso”; 3. A formação do professor cubano é organizada rigidamente em torno do ensino do currículo nacional obrigatório; 4. Os professores são supervisionados de perto em seu trabalho de sala de aula pelos diretores e vice-diretores.

Vale a pena um esforço de leitura e compreensão do livro editado, que diz com muita propriedade:

“O caminho para uma melhor educação nas sociedades democráticas não precisa ser uma volta ao autoritarismo. … O Estado tem de ser um ativista eficaz na transformação da gestão escolar, rumo a um maior controle sobre o que acontece na escola. … O Estado precisa assumir plena responsabilidade pela melhoria do ensino, mesmo à custa de reduzir a autonomia acadêmica e administrativa das escolas de Educação que fazem a formação inicial dos professores, e de reduzir a dos professores em sala de aula quando não apresentam a criatividade e a competência para atuar em alto nível”.

O desenvolvimento brasileiro futuro radicalmente se encontra sob a égide da ampliação do conhecimento coletivo. Em todos os níveis de ensino. Por que não se torna obrigatório nas universidades, autarquias e centros de ensino superior, públicos e privados, o funcionamento de um PROFEEF – Programa de Formação do Educador do Ensino Fundamental, de seleção rigorosa e currículo nota 10, ministrado por docentes de nível, respeitados e bem remunerados?

PENINHA - DICA MUSICAL