DEU NO JORNAL

A CELA DA AUTOCENSURA

Francisco Escorsim

censura autocensura

As pontas dos dedos pairavam sobre o teclado, inertes como galhos secos. A luz da tela do computador, um retângulo branco e impiedoso, refletia na parede atrás do sujeito formando uma sombra rarefeita, sem contornos. Dentro dela, um turbilhão de ideias, de frases afiadas, de verdades urgentes clamando por serem expressadas.

O cronista, um homem de ombros curvados e olhar fixo no abismo da própria mente, respirou fundo. Abriu um novo documento. A barra de cursor pulsava, insistente, desafiando-o a começar: “As urnas eletrônicas…” Digitou e parou, hesitante.

Mas o que se pode dizer das urnas? A possível fragilidade dos códigos; as acusações de fraude agora sussurradas em cantos escuros da internet; a desconfiança crescente que corroía a fé no sistema democrático; de nada disso se pode falar mais.

Poderia questionar a segurança do processo sem ser acusado de subversão? Ou seria melhor elogiar a suposta modernidade e eficiência do sistema, ignorando as dúvidas que o assombravam? Apagou. Rápido, quase com culpa. As palavras carregavam consigo um campo minado de interpretações e acusações.

Outra tentativa: “A chamada ‘desordem informacional’…”. E parou, mais uma vez. A expressão ecoava em sua mente como só poderia soar em qualquer mente: como a “novafala” orwelliana. Um termo elegante até, quase científico, mascarando a realidade brutal da manipulação e da censura. A verdade tornada crime, a opinião divergente silenciada sob o pretexto de combater a “desinformação”.

É o novo “duplipensar”, pensou ele, a capacidade de acreditar em duas ideias contraditórias ao mesmo tempo, a chave para a submissão voluntária. A náusea subiu-lhe à garganta. Apagou a palavra com fúria. E a cada outra abortada, a frustração se adensava. A cada frase que morria antes de nascer, a vergonha pela pusilanimidade aumentava.

Ele sabia o que queria escrever. Ele via, sentia, respirava a urgência das palavras. Mas o espectro da censura pairava sobre si, frio e implacável. Lembrou-se do aviso do departamento jurídico: “Você tem liberdade para escrever o que quiser, mas cuidado com o que escreve. Os tempos são outros”. Os dedos voltaram a pairar sobre o teclado.

Hesitou. Escreveu: “A chuva…” Um tema neutro, inofensivo. A chuva que caía lá fora, lavando as ruas, enchendo as sarjetas, afogando as esperanças… “Saco!”, quase gritou. Até na chuva ele via metáforas perigosas, alusões subversivas, interpretações tendenciosas. Apagou.

A tela continuava a brilhar, anódina, em meio à sua escuridão. As horas passavam, lentas e pesadas como correntes. O cronista permanecia imóvel, paralisado pelo medo, pela angústia, pela crescente sensação de impotência. Era um prisioneiro em sua própria mente, condenado a um silêncio autoimposto.

Fechou o laptop com um clique seco, quase um soluço. Levantou-se, cambaleante, e caminhou até a janela. Lá fora, a cidade dormia, silenciada, rendida. E ele, o cronista, não era mais do que uma sombra entre sombras indistinguíveis na calada da noite.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

NOTAS DE ONTEM E HOJE

Sepúlveda Pertence e Sebastião Coelho

CRISE ANTIGA – O respeitável jurista Sepúlveda Pertence, ex-Procurador Geral da República, presidente do Superior Tribunal Eleitoral e depois presidente do Superior Tribunal Federal, já afirmava, em 18 de agosto de 2003, que observava grave crise no judiciário Brasileiro.

BAGAÇO JUDICIAL – Pesquisas mostravam significativa redução de prestígio daquela instituição. “É amargo ser um juiz honrado no Brasil de hoje!” Ou seja, há mais de 20 anos a bagaceira já era visível. Há se ele tivesse, pelo menos, uma bola de cristal pra antever como estaria hoje este pobre Brasil naquele colégio de togados!

COELHO NELES – Imaginem se Dr. Sepúlveda soubesse que diante das excelências que atuam em 2025, um advogado, desembargador aposentado do TJDF – Dr. Sebastião Coelho – usando sua palavra vibrante, na tribuna do Supremo, bradou que aqueles juízes eram as piores pessoas que o Brasil poderia ter naquelas funções? Imaginem!…

QUESTÃO HISTÓRICA – Leitor atento, historiador conhecido, teimoso como o saudoso Mário Melo, que nos embates pelas coisas certas, nunca perdeu uma briga, bateu de frente comigo, lembrando um fato histórico e palavras que circulam por aí, capazes de confundir leitores e ouvintes de palanques.

PRIMEIRÍSSIMA DE FATO – “A primeira mulher a governar Pernambuco foi D. Brites de Albuquerque e não D. Raquel, que aproveitando a “deixa”, sua inteligente equipe de propaganda completou sua divulgação e os bem elaborados discursos oficiais, com palavrinhas mágicas: “Raquel a primeira mulher eleita para assumir o governo de Pernambuco”. Mas D. Brites, foi a primeira a governar. A primeiríssima. E ponto!

DEGOLA INÉDITA – Supervisora da lavanderia de renomado hospital da Ilha do Leite, no Recife, caiu na besteira de verificar se uma hélice da máquina de laar estava danificando as roupas. Escorregou no chão molhado, caiu com o corpo pra dentro do túnel, o motor ligou sozinho e ela foi degolada. Tinha nada de botar a cabeça onde não deveria?!…

CAGAÇO FULMINANTE – Em março de 2004 o Tribunal Supremo da Alemanha anulou a sentença de 15 anos imposta ao marroquino Munir El Safado, condenado por envolvimento nos atentados do 11 de setembro. No ano anterior, quando acolheu, no sanitário de sua residência, alguns conterrâneos fustigados por intensa caganeira. Foi preso e considerado culpado de ajuda aos terroristas. Acabou absolvido por falha no Direito de Defesa.

DISCRIMINAÇÃO CANINA – O diligente deputado pernambucano Pedro Eurico, conseguiu aprovar, em 13.08.2002, um projeto de lei que disciplina a criaçao e venda de animais das raças Pitt-bull e Rottweiller. Os “fofinhos da mamãe” agradecem: Áu, áu.

PIPOCO NO TOITIÇO – Ex-famosa juíza, Dermínia Ambrósio, levou uma alfinetada de “Garotinho”. Explicando melhor: Anthony William Matheus de Oliveira, também ex, porém, governador da Cidade Maravilhosa, Ele alegou que a dama distribuiu propaganda, patrocinada pela Cia. Brasileira de Cartuchos, e se dizia contra a violência. O garotão não entendeu e ajuizou um pipoco nos costados da ex-juíza. Tirou fogo!…

VÍRUS EMBROMATIS – Ex-funcionários da antiga SUDENE, todos experientes, foram postos de lado como se lixo fossem. Ficaram sem trabalhos mas com seu ordenados mantidos A nova instituição de desenvolvimento do Nordeste, segundo Fernando Antônio Gonçalves, em artigo publicado em 13.08.2003, já nascerá infectada pelo vírus da embromação, que no latim se traduz como: virus embromatis.

PADRÃO CELULAR – Em agosto de 2003 o MS criou um GT para elaborar estudo observando normas e procedimentos, referentes aos padrões máximos permitidos à radiação dos celulares. Seria bom divulgá-los nos anos atuais. A turma do “Grupo sem Trabalho” está radiante para definir resultados.

PENINHA - DICA MUSICAL