DEU NO X

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

Poeta cantador pernambucano Otacílio Batista Patriota (1923-2003)

* * *

Otacílio Batista

Certa vez fui convidado
Para dançar numa festa
Perto de Nova Floresta
Na Vila do Pau Inchado
Eita forró animado:
Chega a poeira cobria
Mas a mulher que eu queria
Do Pau não se aproximava
Quando eu ia ela voltava
Quando eu voltava ela ia.

* * *

O poeta e o passarinho
são ricos de inteligência
simples como a natureza
eternos como a ciência
estrelas da liberdade
peregrinos da inocência.

Herdeiros da providência,
um no chão, outro voando,
um pena com tanta pena
outro sem pena penando,
um canta cheio de pena,
outro sem pena cantando.

* * *

Arnaldo Cipriano de Souza

A mulher do meu encanto
saiu comigo em passeio,
eu guiando um veraneio,
de uísque bebi um tanto,
chegando no Bel-recanto,
fomos dar ar no pneu,
a câmara de ar encheu,
no nono mês estourou:
eu pequei, ela pecou,
mas o culpado fui eu.

* * *

João Paraibano

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver,
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

Há três coisas nesta vida
Que Deus me deu e eu aceito:
A terra para os meus pés,
A viola junto ao peito
E um castelo de sonhos
Pra ruir depois de feito.

* * *

Braulio Tavares

Superei com o valor da minha prosa
o meu mestre imortal Graciliano,
os romances de Hermilo e de Ariano
e as novelas de João Guimarães Rosa;
sou maior que Camões em verso e glosa,
com Pessoa também fui comparado,
tenho a verve do estilo de Machado
e a melódica lira de Bandeira:
sou o Gênio da Raça Brasileira
quando canto martelo agalopado!

* * *

Zé Vicente da Paraíba

O reflexo de estrelas luminosas
São lanternas de Deus no firmamento
Fica muito suave a voz do vento
Evitando qualquer destruição
Os rebanhos deitados pelo chão
E cada pássaro no galho se aquieta
Enriquece o juízo do poeta
O cair de uma noite no sertão.

* * *

Manuel Lira Flores

Quando as tripas da terra mal se agitam
e os metais derretidos se confundem,
os escuros diamantes que se fundem
das crateras ao ar se precipitam.
As vulcânicas ondas que vomitam
grossas bagas de ferro incendiado
ao redor deixam tudo sepultado
só com o som da viola que me ajuda:
treme o sol, treme a terra, o vento muda
quando eu canto o martelo agalopado!

* * *

Joaquim Vitorino

Tenho enorme inteligência
Poeta não me dá vaia
Sou vento rumorejando
Nos coqueiros de uma praia
Sou mesmo, que Rui Barbosa
Na conferência de Haia.

* * *

Diniz Vitorino cantando com Manoel Xudu

Manoel Xudu

Voei célere aos campos da certeza
E com os fluidos da paz banhei a mente
Pra falar do Senhor Onipotente
Criador da Suprema Natureza
Fez do céu reino vasto, onde a beleza
Edifica seu magno pedestal
Infinita mansão celestial
Onde Deus empunhou saber profundo
Pra sabermos nas curvas deste mundo
Que ele impera no trono divinal.

Diniz Vitorino

Vemos a lua, princesa sideral
Nos deixar encantados e perplexos
Inundando os céus brancos de reflexos
Como um disco dourado de cristal
Face cálida, altiva, lirial
Inspirando canções tenras de amor
Jovem virgem de corpo sedutor
Bem vestida num “robe” embranquecido
De mãos postas num templo colorido
Escutando os sermões do Criador.

Manoel Xudu

Os astros louros do céu encantador
Quando um nasce brilhando, outro se some
E cada astro brilhante tem um nome
Um tamanho, uma forma, brilho e cor
Lacrimosos vertendo resplendor
Como corpos de pérolas enfeitados
Entre tronos de plumas bem sentados
Vigiando as fortunas majestosas
Que Deus guarda nas torres luminosas
Que flutuam nos paramos azulados.

Diniz Vitorino

Olho os mares, os vejo revoltados
Quando o vento fugaz transtorna as brumas
E as ondas raivosas lançam espumas
Construindo castelos encantados
As sereias se ausentam dos pecados
Que nodoam as almas dos humanos
E tiram notas das cordas dos pianos
Que o bom Deus ocultou nos verdes mares
E gorjeiam gravando seus cantares
Na paisagem abismal dos oceanos.

DEU NO X

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (39) ‒ MÉDICOS

Lisboa. Mais conversas, hoje só com médicos e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

ANA VASCONCELOS, advogada. O médico olhou para ela com olhos de pena

‒ Você tem câncer, Ana.

‒ Qual o tratamento?

‒ Nenhum, infelizmente.

Decidiu ir a São Paulo e foi confirmado, esse diagnóstico, por junta com mais quatro médicos. Melhor voltar e morrer no Recife. Só que não conseguia suportar essa espera e decidiu abreviar sua história. Melhor o fim do espanto que um espanto sem fim. Como não tinha coragem para se jogar de um edifício, ou dar tiro na cabeça, escolheu fazer isso dentro de seu carro. Entre segunda e terça, madrugada (sem ninguém na rua para ser atropelado), em reta que começava na Ponte Giratória e findava em muro de concreto grosso, da Marinha, no Porto do Recife. Lugar perfeito para um acidente automobilístico. Deu uma última olhada para o “Capibaribe, meu rio,/ Espelho de meu sonhar” de Austro Costa, fez o sinal de cruz e acelerou seu velho Gol até chegar na velocidade máxima. Os braços, ao segurar o volante que tremia, estavam já dormentes (foi quando teve a sensação de que morreria sem dores). E viu aquele muro se aproximar. Faltava pouco. Só que um pneu voou e o carro começou a dar voltas. Sem capotar, sorte dela. Até que parou. Saiu, era inacreditável, estava de frente para o tal muro, a menos de um palmo. Então pensou

‒ É coisa de Deus. Ele não quer que eu morra e me trouxe aqui para dizer qual missão reservou para mim.

Olhou em volta e viu que, ali, havia só marinheiros e mulheres tentando sobreviver. Seu público não seriam aqueles homens, com certeza. Decidiu criar uma instituição memorável, a Casa de Passagem – dedicada a abrigar, proteger e ensinar ofícios dignos a prostitutas que eram depois colocadas no mercado de trabalho. E Ana bem, sem mais notícias do tal câncer, enquanto começaram a morrer os médicos que deram aquele diagnóstico. Na última vez que a vi disse, brincando,

‒ Ainda não morreu?, amiga.

‒ Que nada, Zé Paulo, e já decidi, só morro depois de enterrar os cinco médicos que me condenaram.

‒ Até agora…

‒ Quatro já foram, só falta um.

Ana morreu só bem mais tarde (em 2009), aos 64 anos, vítima de um infarto fulminante. Descanse em paz.

ANTÔNIO MOTA BARBOSA, professor de patologia geral (genética). Na Faculdade de Medicina UFPE (Recife), dava aula no necrotério. E dirigiu-se aos alunos

‒ Esse é um teste para ver se vocês têm compromisso real com a medicina.

Foi dizer e enfiar o dedo indicador no pulmão aberto do cadáver, após o que pôs na própria boca, assim como estava, cheio de sangue

‒ Agora quero ver quantos serão capazes de fazer isso.

Metade da classe foi embora, na hora, enquanto a outra metade repetiu seu gesto. E ele

‒ Estou vendo que o compromisso com a medicina de vocês, que ficaram, é mesmo real. Porque o dedo que enfiei no cadáver, e veio sujo com sangue, era o indicador; e o que pus na boca foi outro, o dedo médio.

CARLOS ROBERTO MORAES, cirurgião cardíaco. Perguntou

– Quantos charutos você fuma?, por dia.

– Só um. Mas todo charuteiro mente muito.

JOSÉ CUNHA FILHO (Rato), construtor. Sua santa mulher, Ana Lúcia (Iuca), pede que vá ver o médico. Depois de muita insistência, ele afinal consente. E, ao entrar na sala, Rato

– Doutor, o senhor tem direito a uma pergunta.

Espantado com frase tão insólita, e vendo a desgraça dos exames na sua frente, o médico

Dr. Rato, o senhor já comprou seu jazigo?

JOSÉ SARNEY, presidente da República. Estávamos na ABL. Como esbanjava saúde, Flora Gil não resistiu

‒ Presidente, que cara boa!

‒ Minha filha, quem vê cara não vê radiografia.

MOACYR GUIMARÃES, funcionário público, pai do médico André Valença. Quando fazia visitas, em dado momento, dizia sempre ao dono da casa

‒ Já comi
Já bebi
Nada mais
Me prende aqui.

E ia embora.

ODACÍRIO DA TELHA, empresário. Caruaru, na época da Segunda Guerra. Marcou viagem ao Recife, de trem, para o dia seguinte. Seu Teixeira (história contada pelo filho Marcelo) pediu

– Pode levar encomenda?

– Claro, compadre.

– Entrego na hora do embarque.

Manhã cedo e lá estava seu Teixeira, na estação, com a encomenda. Era um doido. Que, depois de férias com a família, tinha que ser devolvido à Tamarineira – único hospício então funcionando em Pernambuco. No bolso de sua camisa, pôs dinheiro para qualquer necessidade. Perto do meio-dia, o trem chegou em Vitória de Santo Antão. Todos saltaram para almoçar. Problema é que o doido dormia pesado, foi bomba demais que tomou, algum antecedente do Rivotril. E Odacírio teve que ficar no vagão, com calor e fome; para evitar que ele, acaso acordasse, pudesse fugir. Fim da tarde, chegam à Estação Central do Recife. Junto da penitenciária (hoje, Casa da Cultura). Foi quando soube que a Tamarineira ficava longe. Teve que gastar dinheiro, o que era contra seus princípios, com carro de praça. Chegou irado. Com o doido acordado, sem mais efeitos dos remédios que tomou. Entraram. Odacírio entregou o doido. Pretendeu entregar, melhor dizendo. E o Diretor

– Qual o nome do paciente?

– Sei não (seu Teixeira esqueceu de dizer).

– O que ele tem?

– Não tenho a menor ideia.

Problema é que o doido olhava para o Diretor, pelas costas de Odacírio, fazendo gestos com o dedo rodando na orelha, e apontando, como que dizendo ser ele o maluco. Afora outros gestos, agora com as duas mãos, sugerindo levar o homem para dentro. O Diretor veio falar com ele

– Seu nome é?

– Odacírio da Telha, a seu serviço, trabalho em Caruaru no ramo de tijolos e telhas.

– O nome do paciente?

Deu seu próprio nome. E completou

– Ele já tem ficha, é só o senhor conferir.

O Diretor fez isso. Voltou com ela na mão. E, para confirmar, perguntou a doença

– Transtorno de Bukovsky, um tipo especial de esquizofrenia delirante.

Era fácil, para ele, que (quase) todo maluco sabe o mal que tem. Ele, pelo menos, sabia. O Diretor mandou levar Odacírio para sua cela (a que era do doido). E este, indignado, resistiu bravamente. Foi necessário recorrer a uma camisa de força. O diretor

– Seu Odacírio, pode ficar tranquilo que o paciente será muito bem tratado.

– Obrigado. E até a próxima.

O azar de Odacírio é que o doido tinha um sonho, ou mania, ou delírio, de ir ao cinema Coliseu que ficava bem pertinho dali. Agora, estava solto e com dinheiro para isso, aquele posto no bolso da camisa. Foi, pagou a entrada, com o troco ainda comprou pipoca e assistiu, satisfeito, ao filme do dia. No fim, um problema, onde iria dormir? Então voltou à Tamarineira, explicou o ocorrido e pediu sua cela de volta. Foi a sorte de Odacírio.

OSCAR COUTINHO, clínico geral. Comentei matéria segundo a qual “fazer exercício traz riscos para a saúde”. Respondeu, brincando,

‒ Verdade. Muitos enfartam ao andar no Parque da Jaqueira (Recife), mas nunca vi ninguém morrendo em mesa de bar.

PLANOS DE SAÚDE. Liga para mim alguém, não sei quem seria, e pergunta

‒ Aqui é o gerente do plano de Saúde… qual é o nome do senhor?

‒ Esqueci.

E desliguei

REINALDO OLIVEIRA, cirurgião (e artista consagrado no Teatro de Amadores de Pernambuco). Tinha que dar um depoimento, sobre ele, para a televisão. E fiz isso, na hora

‒ Reinaldo é nosso rei
Ele nos dá seu perdão
Manda em nosso coração
E faz o que não farei
Pensa o que nunca pensei
Ele diz o que não digo
Ele canta eu não consigo
Ele solto é um perigo
Só faltou o Oliveira
Essa fé tão brasileira
E o abraço mais amigo.

SILVIA LAURENTINO, PHD em Neurociência. Fim de conferência na Academia Pernambucana de Letras, sobre a Memória, e levanta-se o engenheiro Salmen Giske

‒ Tenho uma pergunta importante para a senhora.

‒ Pois não.

E ele, depois de algum tempo em silêncio,

‒ Esqueci.

DEU NO X

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O AZULÃO

Não estou falando do belíssimo pássaro Azulão, mas sim de um antigo bar, que existiu em Natal, durante décadas (possivelmente, a partir da década de 70), e encerrou suas atividades, não faz tanto tempo assim.

As histórias do Azulão eram folclóricas e tornaram-se conhecidas, até por quem nunca o frequentou.

Exaltando o pássaro nordestino, encontrei no Blog dos Pássaros: “O azulão-do-nordeste (Cyanoloxia brissonii) é uma ave passeriforme da família Cardinalidae, também conhecido como azulão-bicudo, azulão, azulão-do-sul, azulão- verdadeiro, azulão-da-mata, guarundi-azul e tiatã. É um pássaro de porte médio, com plumagem predominantemente azul. Ave nativa do Brasil, e pode ser encontrado no nordeste até o Rio Grande do Sul. Além disso, ele também pode ser encontrado em países vizinhos, como Venezuela, Colômbia, Argentina, Paraguai e Bolívia.”

Pois bem. Até poucos anos, havia em Natal (RN) um pequeno bar, localizado na Avenida Afonso Pena, no Tirol, com o nome de Azulão Bar. Era ponto de encontro de boêmios da cidade, incluindo poetas, escritores, políticos e servidores públicos do alto escalão, da administração direta e indireta.

Conta o folclore boêmio da cidade, que um conhecido advogado de Natal, boêmio maduro, alto funcionário público, fazia do Azulão uma “extensão” da repartição onde trabalhava. Era comum, se ver, no final da tarde, um contínuo da repartição adentrar ao bar, portando uma pasta com documentos para o “chefão” assinar, como se estivesse em expediente, no órgão público onde trabalhava.

Havia um bloco de boêmios de idade madura, frequentadores habituais do Azulão Bar, que, de manhã cedo, chegavam ao bar, “para assinar o ponto.” Bebiam antes do início do expediente das repartições públicas, para poderem assinar o nome com firmeza, sem tremer, no “livro de frequência”.

No bar, de manhã cedo, havia sempre uma toalha de rosto para o boêmio colocar no pescoço, segurando com as duas mãos, para parar de tremer, e poder assinar a “folha de presença”. Em alguns, a tremedeira só passava depois que ingeriam alguma bebida.

Como brincadeira mórbida, ao findar o ano, os frequentadores gaiatos organizavam um “bolão”, apostando nos possíveis nomes de quem eles achavam que morreriam no ano seguinte. E quando ocorria o óbito de algum frequentador, era dado baixa no seu nome e prestada uma homenagem póstuma comovente, incluindo discursos de pessoas ilustres.

Naquela confraria, a vida era levada com bom humor e a saúde dos frequentadores preocupava mais à família do que a eles próprios.

Todos os dias, ali se podia saborear tira-gostos simples, como carne de sol e queijo de coalho assados, feijoada, ou cozido.

Aos sábados, podia-se comer uma boa rabada, dobradinha, sarapatel (picado) ou buchada, alimentos fortes e gordurosos, que davam “sustança” aos boêmios.
Aos domingos, o Azulão era fechado.

Alguns figurões da cidade, aos sábados, costumavam levar a família para o Azulão, onde almoçavam e permaneciam até o final da tarde. A diversão eram as boas conversas, coisa que não faltava.

Podia ter música ao vivo, se algum músico amador, seresteiro, lá chegasse com o seu instrumento musical, de preferência um violão.

O Azulão era altamente familiar, reunindo poetas, escritores e outras figuras importantes do Rio Grande do Norte. Era a segunda casa de muitos boêmios de Natal.

Muito bem localizado e bem frequentado por boêmios diferenciados, o Azulão era uma seleta confraria, onde se respirava amizade, respeito e cultura.

Figuras ilustres da cidade, de saudosa memória, como Dr. Ney Aranha Marinho, Dr. Fernando Pereira, Dr. Francisco Bittencour, Dr. Cleto Barreto, Gildázio Felipe de Souza e outros, eram frequentadores do Azulão, e costumavam levar as esposas.

O Azulão faz parte da memória boêmia da cidade, como o Bar do Mário e o bar de Zé Coroa.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO JORNAL

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

É HORRÍVEL SER CORNO

Cartagena das Índias

Encontrei Chiquinho na praia da Jatiúca; solitário, macambúzio, seis garrafas de cerveja consumidas, entre doses de cachaça. Arrastei uma cadeira, pedi acarajé, cerveja, puxei conversa com o amigo perguntando por Fernanda, sua digníssima esposa. Percebi a gafe, ao me responder cheio mágoa.

– Foi-se embora, me largou, aquela sacana!

Chiquinho sorveu um copo olhando para o distante horizonte do mar azul. Pedi-lhe desculpa, eu não sabia do fato, fiquei cheio de dedos, continuamos conversa amena, repetitiva, sem graça. De repente Chiquinho desabafou.

– A canalha está em Cartagena das Índias na Colômbia!!!!!

Indiscreto, perguntei o porquê da separação. Olhando para o chão, ele contou a história, com pormenores. Fiquei na escuta.

– Quinta-feira antes do carnaval fui preparar a casa de praia de Paripueira, colocá-la nos trinques para receber os amigos, como você sabe meu filho único filho, Bernardo, é uma vergonha, o viado foi passar o carnaval na Bahia. Apesar disso, eu e Fernanda vivemos em harmonia, poucos percalços em nossos 25 anos de casados, embora ela tenha desconfianças devido minha fama pregressa de mulherengo. Na verdade nunca deixei esse vício, minha compulsão por mulher é doença merecedora de tratamento. Na quinta-feira eu contemplava da varanda da casa a bonita vista da praia, quando apareceu Laurinha, filha da faxineira, para me ajudar. Eu “secava” essa jovem desde que retornou de São Paulo, para onde viajou num ônibus com menino no bucho, em busca do pai. Não conseguiu encontrar o pilantra, tentou sobreviver, foi difícil, retornou à casa da mãe em Paripueira com um filhinho.

Chiquinho tomou uma lapada de Ypioca, dois goles de cerveja, continuou.

– Laurinha, 21 aninhos, tem consciência de seu corpo bem feito, torneado, sensual. Por conta disso, até por exibicionismo, usa mini saia deixando à vista o belo espécime feminino. Em São Paulo, para sobreviver e comprar o leite do menino que nasceu, entrou no esquema de programas, aprendeu coisas inacreditáveis com as colegas; sabe seduzir um homem. Ao perceber que estávamos apenas os dois em casa, não me contive, cheguei junto, alisei seu cabelo. Ela me olhava nos olhos, sussurrou em cumplicidade pedinte: -“Que é isso Seu Chiquinho?” Deitei-a no tapete da sala, nos abraçamos, nos beijamos, como uma fera ela pedia mais, dei tudo de mim até a apoteose. Estávamos ainda estirados no chão, quando a porta se abriu. Fernanda chocou-se com a cena. Flagrante constrangedor, ela destilou todo ódio: – “Seus filhos de uma puta!!!” Bateu a porta, entrou no carro, voltou a Maceió. Eu não tive coragem de retornar à minha casa. Procurei amigos, parentes, contei a história, pedi para fazerem a ponte, dizia-me arrependido, nunca mais aconteceria, e outras promessas vãs que todos os pecadores cometem. Fernanda irredutível mandou recado, que eu não tivesse a ousadia em procurá-la. Sábado de carnaval, tristonho, acordei-me na casa de Paripueira, pensava, avaliava a merda feita. À noite foi dar uma volta no carnaval do centro da pequena cidade, tive um susto, meu coração bateu forte quando avistei Fernanda de short curto, barriguinha de fora, charmosa dançando na rua, pulando com amigos. Fiquei num barzinho, olhava para ela, nossos olhos se cruzaram algumas vezes, ela despistava o olhar. Até que certa hora o álcool me deu coragem, fui até Fernanda; ela me empurrou, ameaçando chamar a polícia. Levaram-me bêbado para casa. No domingo acordei-me deprimido. À noite foi pior. Ao perceber Fernanda abraçada, beijando um jovem surfista, parti para cima dela, puxei-a gritando que levaria para casa. Tomei um bruto soco do acompanhante, caí no chão. Levaram-me novamente bêbado para casa. Durante o resto do carnaval, procurei, não consegui encontrar Fernanda. Na quarta-feira de cinzas, tive coragem fui à nossa casa em Maceió. Ela havia desparecido levando algumas roupas, notei. Nenhum amigo ou parente tinha notícia de Fernanda, o celular não atendia. Soube notícia de minha mulher, uma semana depois do carnaval por uma amiga. Ela raspou nossa conta conjunta do banco, está passeando em Cartagena das Índias, não sei se acompanhada.

Ao terminar a trágica história bebíamos a 18ª garrafa, sentaram-se em nossa frente duas coroas gostosas, belíssimas, Chiquinho não teve apetência sequer de olhar. Eu, indiscreto, com pena, perguntei o que seria de sua vida?

– Quero a volta da Fernandinha, perdoo tudo. É horrível ser corno!

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS

MILHARES DE UCRANIANOS MORRERAM EM VÃO – Ted Snider (colunista do The Libertarian Institute)

Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. Não sendo suficiente para conquistar a Ucrânia, a força invasora foi suficiente para persuadir a Ucrânia a sentar-se à mesa de negociações. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que esse era o objetivo original da operação militar: “As tropas estavam lá para pressionar o lado ucraniano a negociar”.

Quase funcionou. Em poucas semanas, em Istambul, uma paz negociada estava próxima. Mas os Estados Unidos, o Reino Unido, a Polônia e seus aliados da OTAN empurraram a Ucrânia para fora do caminho da diplomacia e para dentro do caminho contínuo da guerra. Putin mobilizou mais tropas e mais recursos.

Três anos depois, uma paz negociada semelhante será assinada, apenas ajustada à realidade atual. A Ucrânia poderia ter feito um acordo mantendo todo o seu território, exceto a Criméia. Centenas de milhares de soldados ucranianos morreram ou ficaram feridos em vão, em nome da fantasia dos Estados Unidos de uma OTAN sem limites e uma Rússia enfraquecida.

A Rússia foi para Istambul em uma posição mais fraca do que está hoje. Ela sobreviveu à guerra de sanções e isolamento e venceu a guerra contra as armas da OTAN no campo de batalha. A Rússia está disposta a um cessar-fogo, mas apenas se puder obter sem lutar tudo o que pode obter através de combates.

Depois de toda a perda de vidas, a Ucrânia abrirá mão de mais território e da adesão à OTAN. Eles não receberão uma garantia de segurança que envolva um compromisso militar dos EUA. Kursk se tornou um fracasso estratégico caro e as forças armadas ucranianas mal conseguem se manter em toda a extensão da frente de 1.600 quilômetros. A Rússia não vai parar a guerra sem garantir um acordo assinado pelos EUA e pela OTAN de que não haverá Ucrânia na OTAN nem OTAN na Ucrânia. E não vai parar a guerra sem a Criméia e pelo menos alguns dos quatro oblasts que anexaram e uma garantia na constituição ucraniana da proteção dos direitos dos russos étnicos no território que permanecer na Ucrânia.

Parece claro que, antes de os EUA pressionarem a Ucrânia a aceitar a proposta de um cessar-fogo imediato e provisório de 30 dias, eles já haviam lançado as bases discutindo com a Rússia, que pode continuar lutando para alcançar seus objetivos inegociáveis.

O secretário de estado dos EUA, Marco Rubio, confirmou, por exemplo, que as negociações da Arábia Saudita com a Ucrânia incluíram discussões sobre “concessões territoriais”. Donald Trump disse que na próxima vez que falar com Putin, “falaremos sobre terra, falaremos sobre usinas de energia”. O secretário de defesa, Pete Hegseth, já disse que qualquer ideia de recuperar o território perdido da Ucrânia é “um objetivo irrealista” e uma “meta ilusória”.

E, o mais importante, Hegseth também estipulou que Trump “não apoia a adesão da Ucrânia à OTAN como parte de um plano de paz realista”. E Trump compartilhou esse veredicto com seus aliados da OTAN. Em 14 de março, quando o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, foi questionado se Trump havia retirado a adesão da Ucrânia da mesa de negociações, ele simplesmente respondeu: “Sim”.

Desde o momento em que a Ucrânia foi afastada das negociações em Istambul até o momento em que retornará à mesa de negociações, toda a perda de vidas e território foi em vão. Está definido que a Ucrânia não recuperará todo o seu território e está definido que eles não se tornarão membros da OTAN. Centenas de milhares de soldados ucranianos morreram por nada além da arrogância americana.

* * *

P.S. Faço uma ressalva à análise de Ted. Não se deve descartar a possibilidade de Alemanha, França e Inglaterra convencerem Zelensky a continuar a guerra sob a promessa de que a União Européia irá garantir armas e dinheiro para a Ucrânia no lugar dos Estados Unidos. Nesse caso, é impossível prever como tudo terminará porque trata-se de uma situação completamente absurda e irracional. Ao contrário dos EUA, os países da Europa não têm de onde tirar centenas de bilhões de euros para bancar uma guerra. Se tentarem, estarão cavando sua própria derrota.