Ouçamos a inteligente e bela cubana-brasileira, Zoe Martínez.
Ela fala com conhecimento de causa sobre a realidade de Cuba.
Luís Ernesto Lacombe

E se não fosse uma cartinha, uma carta aberta? E se fosse um diário? Do tipo que muita gente escreveu, até que o papel, a caneta, os cadernos de capa dura, as agendas, até que tudo isso ficasse esquecido e fosse reinventado em telas, teclados, num planeta digital, binário… Uma sequência doida de números: zero, um, zero, zero, um, um, zero… Não sei se quem escrevia diários o fazia só para si, se temia verdadeiramente que eles fossem descobertos e lidos por outras pessoas, ou se, ao contrário, ansiava por leitores. Talvez não imediatos, do tipo que encontrasse nas folhas de papel a tinta da caneta ainda úmida e, sem querer, borrasse as linhas com os dedos. Leitores futuros, que, depois de tantos anos, já veriam a poeira baixada, dramas e impasses resolvidos, remediados, a ponto de restar apenas uma doce nostalgia, superação, realização, alegria.
“Meu querido diário”, a descrição de acontecimentos podia começar assim. Podia ser mesmo um simples relatório de atividades, ou podia trazer também reflexões, pensamentos, sentimentos, confidências, segredos reunidos em letra cursiva… Estou deduzindo que menos gente, hoje em dia, se dedique a escrever diários, mas sempre haverá aqueles mais apegados a registrar dessa forma suas experiências, suas vivências. Vou supor, então, que haja, na grande maioria dos casos, nessas memórias rabiscadas (ou digitadas), um nível quase absoluto de sinceridade. Vou supor que não haja objetivos escusos, que cada palavra, que cada frase seja uma entrega quase total à verdade. Como se ninguém fosse capaz de se render a uma edição sempre positiva de si mesmo.
De repente, encontro numa gaveta, escondidos entre roupas em desuso, emboloradas, ou num baú pesadíssimo, impossível de ser deslocado, os diários de uma gente sonsa. São pessoas que assinam uma carta aberta se declarando grandes defensoras da democracia. Eram a favor de mudanças para aumentar a segurança e a transparência nas eleições, seus diários deixam isso bem claro, mas mudaram de ideia. Temem que um ser abjeto rasgue a Constituição, mas guardam entre as folhas de seus diários pedacinhos da nossa lei máxima. Na cartinha esvoaçante, frágil, afirmam que somos todos iguais perante a lei. Em suas confissões, nos dividem em grupos. Defendem a censura, defendem prisões, que sofram aqueles que não pensam como eles.
Trabalham por um político condenado em três instâncias, que não deveria ser candidato a mais nada. Deixam em ruínas o Largo de São Francisco, detestam a maior operação de combate à corrupção no Brasil, defendem que alguém só pode ser preso quando não tiver mais dinheiro para pagar seus advogados. São banqueiros bonzinhos, que abominam o lucro a qualquer custo, que amam seus clientes, que fazem qualquer sacrifício por eles. São pessoas tão incríveis, acima de qualquer suspeita, escreveram uma carta tão linda… Só que esqueceram de queimar seus registros mais íntimos. E está lá, escrito em letras garrafais: “Meu querido diário, que se exploda o Estado Democrático de Direito!”
O Datafolha garantiu o sono dos petistas, apontando quase dez vezes mais pontos de Lula à frente de Bolsonaro que a vantagem entre 0,7 e 2,1 da pesquisa do Banco Modal/Futura, divulgada antes.
Em outubro, pesquiseiros dirão outra vez que “eleitor muda de ideia na última hora”.
* * *
Acreditar nos pesquiseiros do Datafolha é igual dar conselho a doido:
Pura perda de tempo.
A empresa Ipespe informou que, por “mudanças na metodologia”, sua pesquisa desta semana não pode ser comparada às anteriores.
E foram muitas, sempre generosas com o candidato Lula.
Humm…
* * *
Não entendi este “humm” que fecha a notícia aí de cima.
Me pareceu gozação, ironia.
Como a caduquice está chegando, fiquei sem entender.
Os leitores fubânicos, especialistas em pesquisamentos, bem que poderiam me explicar.

Os jogadores compulsivos agem como os apaixonados e como os alcoólatras, sob o império de uma força irresistível.
Há pessoas tão votadas ao jogo, como votadas ao amor. Cultivam seu vício até o fim da vida.
A paixão pelo jogo também é vista como um ato de destruição do patrimônio e da família, levando, às vezes, o jogador à miséria.
O vício do jogo é uma luta corpo a corpo com o destino. Arrisca-se o dinheiro, na certeza de se ter de volta muito mais do que se jogou. O jogador tem certeza de que vencerá, como se por trás da certeza existisse um pacto com o diabo.
O jogo é alimentado por sonhos. O jogador vê no jogo uma divindade e nos jogadores os devotos. A carta esperada ou a bola que corre, dará, talvez, ao jogador os bens materiais que alimentam seus sonhos, sejam viagens, apartamentos, casas de praia, carros de luxo, jardins, parques, bosques e castelos.
A paixão pelo jogo também é vista como um corvo, que vê de longe o cadáver do jogador.
O mais terrível do jogo é que ele dá o dinheiro e ele mesmo o tira rapidamente. No jogo do bicho, então, há uma piada que diz: o bicho dá e o bicho mesmo come. É mudo, cego e surdo. Não escuta lamentos. Tem os seus devotos e os seus santos.
Quando o jogador perde, acusa a si mesmo pela derrota e jamais se revolta contra o jogo, como se este exercesse um grande feitiço sobre ele.
Há quem tenha adoração por jogo, por tudo o que ele promete, e que, por uma sorte grande um dia poderá dar a alguém. Há também aqueles que consideram o vício do jogo uma das maiores desgraças que penetram na vida do homem pela algibeira, arruínam seu caráter e às vezes sua fortuna. O jogo abrange as cartas, os naipes, os dados e a mesa verde.
Em Nova-Cruz (RN), na época da minha infância, havia dois irmãos, que pareciam dois galãs, por nome Tássio e Tarquino. Eram jogadores de cartas compulsivos. Como perdiam tudo quanto tinham no jogo, chegavam a apostar até a roupa que vestiam. Certa vez, Tássio chegou em casa somente de cuecas, Tinha apostado até o paletó e as calças que vestia. A mãe deles, viúva, sofria muito com isso. Essa família mudou-se para o Recife e não foi mais a Nova Cruz.
Pois bem. Um certo vigário de uma pequena paróquia do interior do Estado, que passava por sérias dificuldades financeiras, inteligente e arguto, aproveitando-se das imunidades morais do seu local de trabalho, mandou colocar na sacristia da sua Igreja quatro mesas, em torno das quais reunia todas as noites, alguns cavalheiros respeitáveis, ricos, católicos e moderados, para jogar “poker”, ou pôquer.
Esse fato foi levado ao conhecimento do Arcebispo, que, imediatamente, mandou chamar o Pároco à capital, para pedir-lhe explicações. Sem qualquer arrodeio, o Pároco confessou:
-A Igreja, Sr. Arcebispo, estava estragadíssima, e eu, com o intuito de repará-la, saí com o pálio do Santíssimo, a pedir esmolas para as obras. Bati de porta em porta e não consegui nada. Toda a gente era viciada em jogo e dizia que o dinheiro era pouco para jogar na vaca, no burro e no macaco, e não sobrava dinheiro para o dízimo. Diante disso, como o templo ameaçasse desmoronar, resolvi tirar partido da situação, sem comprometer a autoridade divina. Desviei os jogadores de um clube da cidade para a Sacristia da nossa Igreja, e aí passei a arrecadar o “dízimo de Deus”, destinado à substituição das traves, pintura do templo, e restauração das imagens. Minha ideia serviu para que a Igreja passasse a ser mais frequentada. As Missas agora são lotadas, e os devotos permanecem na Sacristia jogando, até o dia amanhecer.
O Arcebispo cochichou com o Pároco e não se sabe qual a sua resposta.
O certo é que a Paróquia prosperou muito e as Missas continuaram bem frequentadas.